Avicultura
Sistema cage free impõe novo padrão de eficiência à avicultura de postura
Especialista aponta manejo como fator decisivo para garantir rentabilidade no novo modelo.

A transição para sistemas de produção de ovos sem gaiolas, impulsionada por exigências de mercado e compromissos de bem-estar animal, vem impondo mudanças estruturais à avicultura de postura em diferentes regiões do mundo. Já consolidado na Europa e nos Estados Unidos, o modelo cage free, que mantém galinhas poedeiras soltas dentro de galpões, favorecendo movimentos naturais como caminhar, ciscar, esticar asas e usar poleiros e ninhos, com foco no bem-estar animal, avança também no Brasil, elevando o padrão técnico da produção. “Produzir sem gaiolas não se limita às instalações, requer maior nível de gestão”, enfatizou o especialista em gestão de sistemas de produção livres de gaiola, Mark Allen.
Ele chama atenção para um ponto central, a lucratividade no sistema cage free está diretamente ligada à qualidade do manejo. “A alimentação representa o maior custo da produção e, ao mesmo tempo, o maior ponto de desperdício. Por isso, o foco precisa estar nos pilares que sustentam a eficiência do sistema”, afirmou.

Fotos: Rodrigo Felix Leal/AEN
Um dos conceitos destacados por Allen é o chamado manejo invisível, que se refere à influência indireta, porém decisiva, do produtor sobre o desempenho das aves. “Não se deve assumir que as aves sabem o que fazer. No sistema cage free, o produtor exerce grande influência sobre o tamanho e a qualidade dos ovos”, ressaltou.
Na prática, isso significa que o comportamento das aves, desde o consumo de ração até o uso adequado dos ninhos, precisa ser conduzido desde as fases iniciais. O especialista enfatiza que diferentemente do sistema convencional, onde o ambiente é mais controlado fisicamente, o cage free exige indução comportamental contínua.
Recria define o sucesso do ciclo
Outro ponto crítico apontado por Allen é o período de recria, fase considerada determinante para o desempenho produtivo e bem-estar das aves ao longo de todo o ciclo. “É nesse momento que se constrói a base do lote. Na fase de recria, aspectos como desenvolvimento do sistema imune, formação da microbiota e crescimento musculoesquelético estabelecem a base fisiológica dos animais. Paralelamente, estímulos comportamentais, como movimentação, acesso ao alimento e adaptação ao ambiente, são fundamentais para promover uniformidade e reduzir desvios metabólicos. Em sistemas cage free, esse cuidado precisa ser ainda mais rigoroso, com ênfase no treinamento das aves para uso de ninhos, consumo adequado e resposta aos estímulos do ambiente, garantindo eficiência produtiva e melhor adaptação ao sistema”, pontuou.
Estímulos múltiplos

Especialista em gestão de sistemas de produção livres de gaiola, Mark Allen: “A uniformidade está entre os fatores mais críticos no sistema cage free, justamente por estar diretamente ligada à previsibilidade dos resultados ao longo do ciclo” – Foto: Alan Carvalho
O estímulo adequado ao desenvolvimento das aves, especialmente nas primeiras semanas, é decisivo para o desempenho ao longo de todo o ciclo produtivo. “O crescimento equilibrado entre órgãos, músculos, ossos e deposição de gordura influencia diretamente o peso corporal e a maturidade fisiológica. Esse processo impacta não apenas a produtividade, como número de ovos e persistência de postura, mas também a viabilidade das aves em fases mais avançadas”, mencionou.
Além dos impactos produtivos, a saúde intestinal se mostra como um dos principais pontos de atenção na recria. Segundo Allen, cerca de 40% dos desafios sanitários nessa fase estão associados ao trato gastrointestinal, o que evidencia a importância de uma base bem construída desde o início do ciclo. Isso passa por um manejo nutricional e ambiental preciso, capaz de promover o equilíbrio da microbiota, melhorar a eficiência digestiva e fortalecer a resposta imune das aves. “E, quando olhamos para a fase de produção, esse número pode chegar a 50%”, destacou.
Fases críticas exigem atenção técnica
Dentro da fase de recria, há janelas específicas de desenvolvimento que exigem atenção técnica redobrada, pois concentram mudanças fisiológicas e comportamentais determinantes para o desempenho futuro do lote.
Allen destaca três períodos-chave nesse processo, entre 7 e 10 dias, 10 e 14 dias e de 21 a 56 dias de idade. “Em cada uma dessas etapas, ajustes no manejo nutricional, na ambiência e nos estímulos comportamentais têm efeito direto sobre o crescimento, a uniformidade e a adaptação das aves ao sistema”, enalteceu o especialista.
De acordo com ele, decisões mal calibradas nesses momentos tendem a gerar impactos que se estendem por todo o ciclo produtivo, comprometendo tanto a eficiência quanto a qualidade da produção.
Exigências técnicas
O sistema cage free amplia as exigências técnicas da produção e desloca o foco da estrutura para a gestão. O desempenho deixa de estar ligado apenas às instalações e passa a depender, de forma mais intensa, da capacidade de conduzir o manejo de maneira integrada e consistente ao longo de todo o ciclo.
Na prática, isso envolve alinhar nutrição, sanidade, comportamento e ambiência desde a recria, etapa em que se constrói a base produtiva do lote. Quando esses fatores são bem conduzidos, o produtor consegue reduzir perdas, melhorar a conversão alimentar e manter maior regularidade na produção de ovos, com reflexos diretos na eficiência do sistema. “Cage free não é apenas uma mudança de sistema, é uma mudança de mentalidade. Quem entende isso primeiro, sai na frente em eficiência e rentabilidade”, reforçou Allen.
Eficiência econômica

Foto: Shutterstock
Se a alimentação concentra o maior custo da produção, é no ajuste fino do manejo alimentar que reside uma das principais oportunidades de ganho no cage free. O especialista enfatiza que não basta formular uma dieta tecnicamente correta, é preciso garantir que as aves consigam, de fato, ingerir o volume necessário. “O manejo alimentar deve estimular a capacidade de ingestão. Como alimentar é tão importante quanto o que alimentar”, salientou.
Entre os parâmetros recomendados, Allen aponta dietas com redução de proteína entre 15% e 16%, além da inclusão de fibra de até 6%. “O objetivo é favorecer o desenvolvimento do trato digestivo e aumentar a eficiência de consumo”, apontou.
Um sistema digestivo bem desenvolvido, segundo ele, é capaz de armazenar entre 30 e 50 gramas de ração, mantendo a ave saciada por até cinco horas, um fator que impacta diretamente o comportamento e a estabilidade produtiva.
Uniformidade do lote
No sistema cage free, a uniformidade do lote assume papel ainda mais estratégico. Pequenas variações de peso corporal tendem a se amplificar ao longo do ciclo, refletindo diretamente na produção.
Allen exemplifica com um cenário comum em granjas comerciais, em que lotes com cerca de 85% de uniformidade já apresentam perda relevante de eficiência produtiva. “A uniformidade está entre os fatores mais críticos no sistema cage free, justamente por estar diretamente ligada à previsibilidade dos resultados ao longo do ciclo”, frisou.
Esse efeito se amplia quando se observa a influência do manejo nutricional sobre os indicadores produtivos. De acordo com o especialista, cerca de 60% do peso do ovo está associado à nutrição, evidenciando a relação direta entre alimentação, desenvolvimento corporal das aves e o desempenho final da produção.
Alimentação balanceada
A qualidade física da ração tem peso equivalente à sua composição química no desempenho das aves. Quando a dieta é mal estruturada, há maior tendência de seleção de partículas, o que compromete a ingestão equilibrada de nutrientes e afeta diretamente os resultados produtivos.
Para evitar esse desajuste, Allen recomenda uma formulação que combine partículas de diferentes granulometrias, níveis adequados de proteína e fibra, além de minerais, vitaminas, amido e energia devidamente balanceados.
Esse equilíbrio nutricional se reflete em diversos aspectos do sistema, influenciando o desenvolvimento das aves, a produtividade, a saúde intestinal e o comportamento dentro do ambiente cage free. “Quando a ave seleciona o alimento, ela desorganiza completamente a nutrição planejada”, evidenciou Allen.
Falhas de manejo geram efeito cascata
No ambiente cage free, falhas de manejo tendem a aparecer de forma mais rápida e abrangente, com efeitos que se propagam por todo o sistema produtivo. Ajustes inadequados podem resultar em perda de peso corporal, queda na uniformidade do lote, redução da produção e piora na qualidade dos ovos, além de intensificar comportamentos indesejados, como a bicagem agressiva, e aumentar a incidência de ovos fora do ninho. O conjunto desses fatores compromete a eficiência geral da produção. “Tudo está conectado. Um erro na nutrição ou no manejo alimentar rapidamente se transforma em problema de comportamento ou de produção”, observou Allen.
Nesse contexto, o comportamento das aves passa a exigir condução técnica rigorosa e contínua. A gestão adequada desse aspecto é um dos pilares do sistema cage free e envolve práticas específicas, como o controle do chamado comedouro vazio, que deve ser aplicado com precisão para estimular o consumo uniforme e reduzir desperdícios. Na fase de recria, esse intervalo costuma variar entre três e quatro horas, enquanto na produção se estende, em média, por cerca de cinco horas.
O treinamento das aves também é apontado como indispensável para o bom funcionamento do sistema. “No cage free, nada acontece por acaso. As aves precisam ser treinadas para o sistema”, sublinhou o especialista.
Esse processo envolve o desenvolvimento ósseo adequado, o estímulo à movimentação, a construção da consciência espacial e a adaptação ao uso de poleiros. De acordo com estudos citados por Allen, aves criadas em ambientes mais complexos apresentam melhor capacidade de voo, maior facilidade de navegação dentro do galpão e utilizam com mais eficiência os diferentes níveis da estrutura, o que contribui diretamente para o bem-estar e o desempenho produtivo.

Avicultura
Frigoríficos de frango discutem produtividade e controle de contaminação na Conbrasfran
Programação aborda inovação, inspeção industrial e exigências sanitárias do setor.

A busca por maior eficiência industrial aliada ao controle sanitário na produção de carne de frango estará no centro dos debates do 6º Encontro de Qualidade Industrial na Avicultura – Frigoríficos, que integra a programação da 2ª Conbrasfran, a Conferência Brasil Sul da Indústria e Produção de Carne de Frango, que vai ser realizada de 23 a 25 de novembro. O evento propõe discutir desafios operacionais e soluções tecnológicas em um momento em que a indústria enfrenta pressão crescente por produtividade, segurança alimentar e padronização de processos.
No primeiro dia, a programação aborda temas diretamente ligados ao desempenho industrial, como inspeção e eficiência em abatedouros de aves, com foco em inovação e melhoria de processos. Também entram em pauta estratégias práticas para o controle de contaminação no abate, um dos pontos críticos para garantir qualidade e atender exigências sanitárias cada vez mais rigorosas nos mercados interno e externo.
Já no segundo dia, os debates avançam para uma visão mais ampla da cadeia avícola, incluindo tendências de consumo, novas tecnologias e o papel do bem-estar animal na eficiência produtiva. A proposta é integrar diferentes etapas da produção, do campo ao abate, em uma abordagem que conecta qualidade, sustentabilidade e competitividade.
Segundo o presidente Executivo da Associação Gaúcha de Avicultura (Asgav) e organizador da Conbrasfran 2026, José Eduardo dos Santos, o evento busca alinhar conhecimento técnico e demandas de mercado. “A indústria avícola vive um momento em que eficiência e qualidade não são mais diferenciais, mas requisitos básicos. O encontro foi estruturado para discutir soluções práticas e aplicáveis à realidade das empresas”, afirma. As inscrições para a Conbrasfran serão abertas em breve.
Outras informações sobre a 2ª Conbrasfran, realizada pela Asgav, podem ser encontradas na página do evento, acesse clicando aqui, através do Instagram @conbrasfran, do What’sApp (51) 9 8600.9684 ou do e-mail conbrasfran@asgav.com.br.
Avicultura
Avicultura de Mato Grosso do Sul cresce 6,97% no abate no início de 2026
Exportações somam 28 mil toneladas e faturam US$ 62,8 milhões, com alta de 9,1% na receita.

A avicultura de Mato Grosso do Sul começou 2026 mantendo trajetória de expansão, com crescimento no abate de frangos e melhora no desempenho das exportações, mesmo diante de leve redução no volume embarcado.

Dados do boletim Casa Rural Avicultura, da Famasul, mostram que o Estado abateu 30,6 milhões de frangos no primeiro bimestre do ano, alta de 6,97% em relação ao mesmo período de 2025. O resultado reforça a continuidade do avanço da atividade dentro da cadeia de proteínas animais no agronegócio estadual.
No comércio exterior, foram exportadas cerca de 28 mil toneladas de carne de frango no período, com receita de US$ 62,8 milhões. Apesar da pequena queda no volume enviado ao exterior, o faturamento cresceu 9,1%, sustentado pela valorização do produto no mercado internacional.
O desempenho das exportações está associado à demanda firme de mercados estratégicos para o Brasil, com destaque para China e Japão, que permanecem entre os principais destinos da carne de frango sul-mato-grossense.

Foto: Shutterstock
Segundo a Famasul, o agronegócio respondeu por 94,5% das exportações totais do Estado no período analisado, evidenciando o peso das cadeias produtivas, especialmente das proteínas animais, na balança comercial de Mato Grosso do Sul.
O início do ano confirma a relevância da avicultura dentro da economia estadual, com resultados sustentados pela demanda externa e pela manutenção da competitividade do setor no mercado internacional.
Avicultura
Queda no preço dos ovos reduz poder de compra de avicultores em abril
Mesmo com insumos mais baratos, recuo mais intenso nas cotações dos ovos pressionou a relação de troca, segundo o Cepea.

O poder de compra dos avicultores paulistas frente aos principais insumos da atividade, milho e farelo de soja, recuou na parcial de abril (até o dia 22), após registrar avanço por dois meses consecutivos.
Segundo pesquisadores do Cepea, embora os preços dos insumos também tenham diminuído entre março e a parcial deste mês, a queda mais intensa dos ovos pressionou a relação de troca frente ao cereal e ao derivado da oleaginosa.
De acordo com o Centro de Pesquisas, a combinação de oferta mais elevada e demanda retraída tem pressionado as cotações dos ovos nesta parcial de abril.
Neste contexto, consumidores seguem atentos ao avanço da colheita da safra verão, à melhora do clima para o desenvolvimento da segunda safra e à forte queda do dólar, negociando apenas de forma pontual, quando há necessidade de recomposição de estoques ou quando vendedores aceitam patamares menores.



