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Suínos / Peixes Entrevista

Sindicarne avalia logística do começo ao fim, aponta deficiências e cobra mudanças

Diretor executivo da entidade, Jorge Luiz de Lima, admite avanços, mas adverte para um longo caminho a ser percorrido para melhorar esse sistema.

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O jornal O Presente Rural conversou com o diretor executivo do Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados no Estado de Santa Catarina (Sindicarne), Jorge Luiz de Lima, para saber as deficiências logísticas que a indústria tem em todo seu sistema produtivo, das fazendas na hora de comprar o grão para a formulação das rações até a destinação final para os consumidores nos mercado interno e externo. Ele admite avanços, mas adverte para um longo caminho a ser percorrido para melhorar esse sistema.

O Presente Rural – Como é feita a logística para entrega de matéria prima nas fazendas produtoras de aves e suínos?

Jorge Luiz de Lima – Nós temos uma dupla logística dessa sistemática. A primeira delas é aquisição do milho, do farelo de soja ou de qualquer outra espécie de grão que nós utilizamos na formulação das rações, então isso vem de propriedade produtoras de milho de farelo de soja ou de outro grão até as fábricas de rações das empresas. E as empresas, por sua vez, com outros aditivos ao milho e farelo de soja, como os premix, as vitaminas, formulam rações que são validados pelo Ministério da Agricultura, sempre classificadas por faixa etária dos animais e por espécie de animal. Por exemplo, aves tem uma determinada formulação e dentro do critério aves nós temos os animais que têm os primeiros dias e os animais que já estão indo para o abate, para fase final da vida dele. Então temos diferentes formulações, com diferentes grãos, para as diversas fases de crescimento de aves. Em suínos é a mesma lógica. Temos as fases iniciais, intermediárias e finais do suíno, que também se utiliza de grãos com formações diferentes das rações, sendo que todas elas chegam aos produtores, ao campo, àqueles que a alojam aves e suínos, seja no sistema de integração, seja um sistema de cooperação, através da fábricas de ração.

A logística é utilizada no primeiro momento do campo às fábricas de ração normalmente através de empresas contratadas, de transportadores contratados, seja no sistema de quem compra paga e se responsabiliza pelo frete, seja no sistema que você compra o pacote fechado, você compra o grão e quem está vendendo a você coloca na porta da sua fábrica já com custo de transporte embutido E a segunda fase, da fábrica de ração para os integrados ou cooperados, normalmente através de transportadores de ração, que acabam sendo transportadores cativos, trabalhando com aquele caminhão para uma empresa para que não haja nenhuma espécie de contaminação cruzada e haja sempre o rastreamento de toda a cadeia de distribuição da ração, desde a fábrica de ração até a propriedade que está criando os animais.

O Presente Rural – Como e feita a logística das granjas até as indústrias?

Jorge Luiz de Lima – A logística reversa, do campo para a indústria, nós também temos transportadores que são cativos, ou seja um caminhão x acaba transportando para empresa a ou b, mas nunca para a e b, exatamente para manutenção do critério sanitário, o que não impede que aquela transportadora tenha outros caminhões trabalhando para diferentes integradores ou cooperativas. Isso se dá sempre com base no critério sanitário. O carregamento em si de aves e suínos normalmente é feito por empresas terceiras e nunca efetivamente pelas empresas integradoras ou cooperativas.

O Presente Rural – De maneira geral, em sua avaliação, como está o estado de conservação das estradas rurais e das rodovias que levam às agroindústrias em SC e no Brasil?

Jorge Luiz de Lima – A questão da infraestrutura de rodovias é muito deficitária. Enquanto nós temos investimentos, em regra, pelos criadores do campo de acesso a suas propriedades muitas vezes encontramos rodovias em mau estado de conservação. Se nós falarmos em rodovias federais nós temos visto que vem progredindo questão de termos uma pavimentação, duplicação de rodovias, e aqui em Santa Catarina também temos uma melhoria nos últimos anos do processo de recapeamento de rodovias, mas ainda é muito deficitário. Não se investiu nesse processo logístico de maneira pesada pelo menos há 40 anos e é algo que temos hoje como grande gargalos por parte de quem produz.

Temos um grande problema porque aumenta o custo do frete como um todo, uma vez que temos que computar no preço do frete não apenas aquele custo fixo, mas o custo variável, custo manutenção dos veículos, custo de desgaste de pneus e tudo isso vem numa planilha que é apresentada no momento pelos transportadores para definir o valor final do quilômetro rodado por cada espécie de transporte que se faz.

O Presente Rural – Como é feita a distribuição de carnes para o Brasil e para o exterior? Quais os principais gargalos?

Jorge Luiz de Lima – Quando olhamos distribuição do produto final, ou seja, da proteína animal embalada de aves e suínos, preponderantemente daquilo que estamos falando, para o Brasil e para o mundo, se repete um pouco daquilo que se tem como cenário no que tange a vinda do animal para a indústria. Nós não temos estradas em estado de conservação satisfatório, mas temos progredido nesse sentido, embora tenhamos muitos gargalos a destravar. E temos a questão da dinâmica portuária também bastante complicada. Quando falamos em distribuição para o mundo, dependemos muito dos armadores, das rotas de armadores, e dependemos muito da infraestrutura portuária que temos, muito ainda estatizada e que precisa estar, por uma questão dinâmica, operando pela iniciativa privada para termos uma dinâmica mais efetiva.

O Estado, no viés dele, fiscalizatório, que é o ideal: o Estado criar os marcos regulatórios, a legislação, e fiscalizar a operação, que não deve ser estatal, a operação deve ser do privado, mas o marco regulatório e a fiscalização por parte do Estado. Essa sim a função estatal. Mas inerentemente à atividade do privado está a operação, então temos ainda muito gargalos a progredir no Brasil como um todo, ainda que tenhamos superado vários obstáculos nos últimos anos. Isso é fundamental para que tenhamos um resultado eficiente e possamos produzir algo com qualidade e colocarmos com a mesma qualidade no destino, em qualquer lugar do mundo. Especificamente quando olhamos para o Estado de Santa Catarina, estamos falando para mais de 140 países, então temos um grande mercado mundial consumidor da proteína animal que é produzida com excelência aqui no estado.

O Presente Rural – Cerca de 40% das cargas brasileiras de frangos e suínos estão paradas em portos, de acordo com a ABPA. Isso é normal? Porque está acontecendo?

Jorge Luiz de Lima – As cargas que ficam retidas têm algumas características. É preciso entender primeiro se as cargas retidas estão retidas por uma questão documental, se estão retidas por questões de rotas, se estão retidas por problemas com o destinatário daquela carga ou se estão efetivamente aguardando algum processo burocrático que se tenha, de acordo com os regulamentos nacionais. Nos preocupa sempre o volume de carga retida, que significa custo maior de logística, de armazenagem, custo maior de frete, custo de plugagem, ou seja, o custo para você colocar um contêiner refrigerado na tomada para que ele se mantenha assim até que haja a liberação da carga, mas é sempre um fator de preocupação. Na medida em que damos um fluxo mais célere ao produto que sai da fábrica e chega ao seu destino, menor é o custo que temos de produção e mais rapidamente podemos atender outros mercados, inclusive liberando contêineres refrigerados, que hoje tem sido um gargalo mundial, no mundo tem faltado contêiner. Não é diferente nos que denominamos como reefers, que são os contêineres refrigerados, independente do tamanho, independentemente de ser de 20 pés ou de 40 pés.

E se nós considerarmos, por exemplo, tomando por base o nosso maior comprador de carne suína no mundo, que é a China, que um produto entre a porta da fábrica e o porto de destino leva em torno de 40 dias, termos produtos parados há 40 dias no local para ser despachado significa exatamente dobrar o prazo e provavelmente alavancar de maneira muito efetiva questão dos custos da produção daquele produto, que já deveria estar no seu destino. Então temos que criar regramentos, criar formas de celeridade para termos o produto colocado da maneira mais rápida da origem ao destino.

O Presente Rural – Qual seria a logística ideal para o sistema produtivo de aves e suínos?

Jorge Luiz de Lima – O cenário ideal para questão logística é basicamente que você tenha, entre a fábrica e o embarque no porto de acordo com a rota do navio, o tempo mais enxuto possível. Depois temos que considerar o tempo de tramitação marítimo da origem até o destino, este sempre é o tempo ideal. Nós não podemos ficar parados em quaisquer dos locais, seja na fábrica, seja na área retroportuária até ser embarcado em navios em decorrência de burocracias, que por vezes acabam sendo desnecessárias, então uma padronização documental, uma padronização de procedimentos evita que nós tenhamos a possibilidade do arbítrio de um determinado fiscal de exigir um documento a mais ou um a menos.

Hoje no Brasil nós temos excelentes profissionais, é importante fazer essa ressalva, mas nós não temos uma padronização, o que as vezes acaba criando uma confusão para quem produz, porque se eu lidando em um determinado porto a exigência documental é X, e as vezes no porto diverso é 2X. Então você tem que estar preparado para saber qual é a documentação básica e não fugir dessa documentação básica.

Por um outro lado é necessário também o preparo de quem está organizando os documentos. Sem dúvida alguma algo que seria fundamental para dar celeridade aos processos de liberação de cargas seria um sistema do Governo Federal confiável e eletrônico para a emissão e assinatura dos documentos de embarque, para que não se precisasse mais se utilizar de meio físico, papel, para que esses documentos fossem validados, como se faz hoje com assinatura eletrônica ou com validações eletrônicas, usando como exemplo o poder judiciário; hoje o profissional advogado, citando um exemplo, fazendo um comparativo, ele não precisa mais ir até o Fórum para protocolar um documento ou assinar o documento, ele faz tudo eletronicamente. Não deveria ser diferente nos documentos de embarque. Os documento de embarque deveriam seguir uma um sistema e uma lógica padronizada de documentos no mesmo padrão que temos hoje em alguns outros locais. Isso facilitaria muito e daria celeridade na emissão de certificados sanitários internacionais ou certificados sanitários nacionais. Isso daria segurança maior tanto para as empresas quanto para o órgão de fiscalização.

O Presente Rural – Como a logística influencia na competitividade do agronegócio brasileiro?

Jorge Luiz de Lima – Sem dúvida alguma a logística bem feita ou a falta de logística influencia na competitividade, é o tal do custo Brasil. Um dos critérios para o calcular o custo do Brasil é o critério logística, dentre outros, como tributário, fiscais, regulatórios, mas sem dúvida alguma a logística nos imputa um preço muito alto ao nosso produto, que já é um produto diferenciado e é mais barato do que em regra proteína animal feita no mundo todo.

Ainda que a nossa percepção, de acordo com aquilo que a gente ganha, às vezes possa parecer que estamos pagando um valor muito alto pela proteína animal, se nós compararmos o custo disso com o custo de produção em outros lugares do mundo e o preço final que nos chega, mesmo comparando faixas de renda, nós vamos perceber que no Brasil a proteína animal é ainda barata, é uma proteína ainda acessível. O brasileiro, em regra, consome proteína animal, ele não deixa de consumir proteína animal, acaba substituindo quando há a elevação de preço, substitui uma proteína por outra. Mas teríamos, sim, melhor produtividade e melhor competitividade se tivéssemos um processo logístico mais adequado, sem perdas do campo à  indústria e sem entraves da indústria ao cliente final, ao mercado interno e mercado externo, que nos colocaria hoje, sem dúvida alguma, num patamar ainda mais elevado do que já somos.

O Brasil maior produtor e maior exportador de carne de frango e o quarto maior produtor e quarto maior exportador de carne suína. Somos o primeiro exportador em carne bovina e temos outras commodities que sem dúvida alguma nos colocam no topo da lista, como suco de laranja, café e cebola. Então nós temos que estar atentos ao custo logístico, exatamente para não perdermos competividade e não perdemos a posição que ocupamos, uma vez que o setor como um todo gera muito emprego, gera renda, fixa o homem no campo, dá qualidade de vida no campo e nos aponta como um país de excelência na produção agrícola para alimentar hoje esses 7 bilhões de pessoas no mundo, que deverão chegar em 2050 na casa dos 10 milhões de pessoas, segundo as perspectivas da ONU. A FAO aponta o Brasil como um país que poderá alimentar o mundo, com um pequeno acréscimo da área produtiva, uma vez que nós ocupamos apenas 9% do território nacional com todo agronegócio, comparando-se a Estados Unidos que ocupa 40%, a França que ocupa 40% e a Bélgica que ocupa 50% do seu território com o agronegócio. Nós somos muito mais competitivos com o preço de excelência e um produto que não há comparado no mundo. Temos que tirar os estraves, temos que tirar essas barreiras de ineficiência logística que hoje temos no Brasil.

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Suínos / Peixes De 21 a 24 de junho

IPVS 2022 traz conhecimento científico, atualização e networking para a cadeia produtiva mundial de suínos

Para que você conheça um pouco mais sobre o Congresso, o jornal O Presente Rural entrevistou a presidente do evento, a médica-veterinária Fernanda Almeida, que traz mais detalhes sobre o encontro, que retorna ao Brasil após 34 anos e abordará o setor de maneira holística.

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Fernanda Almeida, presidente do IPVS 2022 - Foto: Divulgação/IPVS

Com uma programação de peso, escolhida para contemplar todos os elos da produção suinícola global, a organização do IPVS 2022 convida os profissionais do setor para participar do encontro que será realizado no RioCentro, cidade do Rio de Janeiro (RJ), entre os dias 21 e 24 de junho. Para que você conheça um pouco mais sobre o Congresso, o jornal O Presente Rural entrevistou a presidente do evento, a médica-veterinária Fernanda Almeida, que traz mais detalhes sobre o encontro, que retorna ao Brasil após 34 anos e abordará o setor de maneira holística. Confira!

O Presente Rural – Como médica-veterinária, como você recebeu o convite para liderar esta edição do evento?

Fernanda Almeida – À época (ano de 2011), eu pertencia à diretoria da Abraves-MG e foi uma mistura de sentimentos: ao mesmo tempo em que me senti super honrada e feliz em representar os meus colegas, percebi que seria uma grande responsabilidade. E lá se vão mais de 10 anos de muita dedicação. O resultado disso tudo vocês terão a oportunidade de ver daqui a poucos dias no IPVS 2022.

O Presente Rural – O que levou a organização do evento a escolher o Rio de Janeiro como sede?

Fernanda Almeida – Além do apelo turístico da cidade maravilhosa do Rio de Janeiro, levamos em conta as questões de biosseguridade, já que não existem granjas de suínos nas proximidades da cidade. Vale ressaltar que o apoio recebido por entidades locais, tais como Superintendência da Agricultura, Secretaria de Turismo e do Convention Bureau do Rio de Janeiro, acolhendo o evento com tanto entusiasmo, foram fundamentais para a decisão final.

O Presente Rural – Quais foram os critérios para a escolha da programação científica da edição 2022?

Fernanda Almeida – Pensando na troca de conhecimentos e experiências entre os profissionais do setor, o comitê científico elaborou o programa baseado nos temas mais relevantes da atualidade, convidando para cada área especifica palestrantes de destaque mundial. Assim, os temas foram escolhidos para promover a discussão dos principais desafios globais enfrentados pela indústria suinícola.

O Presente Rural – “Novas perspectivas para a suinocultura: biosseguridade, produtividade e inovação”, o que esse tema deve trazer para os congressistas?

Fernanda Almeida – Com o objetivo de aliar práticas de biosseguridade a técnicas inovadoras para o melhor controle de enfermidades, levando a maior produtividade, pretendemos proporcionar um grande fórum de discussão sobre temas atuais e de extrema relevância para a suinocultura mundial de forma holística. A aliança entre técnicas inovadoras de produção, traduzindo em maior rendimento, certamente levará o setor suinícola a elevados patamares de excelência.

O Presente Rural – Na sua avaliação, o programa científico do IPVS2022 atende as necessidades do mercado suinícola atual?

Fernanda Almeida – Sim, totalmente. Foi pensando justamente em atender à demanda da cadeia suinícola que convidamos os melhores profissionais de todas as áreas do sistema de produção para poder apresentar dados inéditos, a fim de capacitar os profissionais da suinocultura.

O Presente Rural – Qual o peso dos trabalhos científicos na realização dos congressos da IPVS?

Fernanda Almeida – Os resumos apresentados mostram o desenvolvimento da Ciência por trás de nossas atividades. Assim, os congressos da IPVS são o local de eleição para a divulgação de dados inéditos e muito esperados pela comunidade científica. Foi assim que o Congresso da IPVS se tornou o evento científico mais importante da suinocultura mundial.

O Presente Rural – Como você avalia o apoio dos elos da cadeia suinícola na realização do IPVS2022?

Fernanda Almeida – Como diz o ditado: “Uma andorinha só não faz verão”. Foi com esse pensamento que buscamos organizar o IPVS 2022. Afinal, estamos diante do mais importante evento da suinocultura mundial. É como se o Brasil sediasse a Copa do Mundo ou os Jogos Olímpicos. Temos que valorizar esta grande conquista! Assim, foi com o apoio dos elos do setor que chegamos até aqui e estamos a poucos dias da realização desse grande evento que, certamente, trará benefícios imensuráveis à suinocultura nacional.

Inscreva-se

As inscrições para o IPVS2022 ainda podem ser realizadas. Consulte prazos e valores no site oficial do evento. Acesse ipvs2022.com.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor suinícola e da piscicultura acesse gratuitamente a edição digital Suínos e Peixes.

Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes Biosseguridade

Debate sobre Senecavírus evidencia necessidade de aumentar vigilância da cadeia produtiva

Dado a importância no âmbito da produção de suínos e ao pico recente de notificações no Paraná com pneumonia, a Associação Brasileira de Veterinários Especialistas em Suínos – Regional do Paraná (Abraves-PR) promoveu um amplo debate sobre o tema, em evento que precedeu o 16º Encontro Regional, realizado em março no município de Toledo (PR).

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Fotos: Jaqueline Galvão/OP Rural

Dado a importância no âmbito da produção de suínos e ao pico recente de notificações no Paraná com pneumonia, a Associação Brasileira de Veterinários Especialistas em Suínos – Regional do Paraná (Abraves-PR) promoveu um amplo debate sobre os Desafios do Senecavírus A, evento que precedeu o 16º Encontro Regional, realizado em março no município de Toledo (PR).

Presidente da Abraves-PR, Gefferson Silva: “Precisamos ser proativos e ativos na resolução deste problema”

Segundo o presidente da Abraves-PR, Gefferson Silva, essa doença vesicular é um desafio enorme no campo em termos de notificação, porque não é possível fazer a diferenciação clínica apenas por meio de exames laboratoriais, uma vez que os sintomas do Senecavírus A (SVA) e da febre aftosa e de outras doenças vesiculares são muito semelhantes. “Esse debate trouxe um panorama de como estamos e como podemos avançar na identificação da doença, porque precisamos ser proativos e ativos na resolução deste problema”, declarou Silva.

O diretor executivo da Frimesa, Elias José Zydek, ressaltou o período desafiador que o setor está vivenciando na atualidade. “Não conheci um período tão desafiador quanto estão sendo esses últimos cinco anos, especialmente na suinocultura. Primeiro com falta e agora com excesso de oferta, incidência de problemas de campo, problemas comerciais, de custos de produção e de doenças no campo. Não tem mais fator negativo para acontecer, a situação chegou num ponto caótico para a suinocultura, porque ninguém hoje consegue manter uma planta trabalhando a 50% ou 60% da sua capacidade, ora porque não tem análise, ora porque não tem coleta, ora porque causou problemas operacionais. Desse jeito nós não vamos ter mais com o que trabalhar logo logo”, expôs Zydek.

Diretor executivo da Frimesa, Elias José Zydek: “É preciso achar as soluções, buscar os caminhos”

De acordo com ele, eventos como do Encontro Regional possibilitam colocar as cartas na mesa e discutir avanços para o setor. “É preciso achar as soluções, buscar os caminhos, mais do nunca estar abraçado à iniciativa privada, às cooperativas e empresas do setor, ao setor público, às universidades e às entidades que estão envolvidas na cadeia produtiva. É urgente a necessidade de encontramos uma solução! Parabéns à Abraves-PR por encampar esse tema, que é vital neste momento para a suinocultura”, salientou.

Considerado o segundo pesquisador no mundo a diagnosticar o Senecavírus A e o primeiro no Brasil, o médico-veterinário, pesquisador e professor doutor da Universidade Estadual de Londrina (UEL/PR), Amauri Alcindo Alfieri, abriu o debate expondo uma linha do tempo desde a identificação do vírus pela primeira vez nos Estados Unidos em 2002, evidenciando que ao longo de duas décadas poucos foram os avanços na produção científica mundial sobre o agente viral. “Conhecemos muito pouco deste vírus. Trabalhos científicos relacionados ao tema são poucos os que foram realizados no mundo perto de estudos de outras doenças emergentes, e quando se fala a nível Brasil é menor ainda. Precisamos conhecer melhor a epidemiologia desse vírus, que atualmente ainda está bastante obscura, uma vez que temos muito mais dúvidas do que respostas para dar aos produtores e à agroindústria”, pontua Alfieri.

O pesquisador da UEL também expôs a preocupação em relação à dificuldade na definição do título viral em uma planta vacinal, a interferência de anticorpos passivos e a metodologia usada para produção de vacinas virais. “É preciso avançar nesta questão”, ressalta.

Realidade norte-americana

O médico-veterinário e pesquisador Guilherme Milanez Preis, direto da Universidade de Minnesota, onde é estudante de PhD, trouxe a realidade norte americana para o debate, país em que a doença viral foi descoberta há 20 anos, no entanto exames sorológicos identificaram que o vírus circulava silenciosamente na população de suínos desde 1988.

Preis ressalta a alta capacidade diagnóstica de testagem da doença no país, com laboratórios habilitados para análise de alta sensibilidade diagnóstica para febre aftosa (APCR) em cada Estado americano credenciado à Rede Nacional de Laboratórios de Saúde Animal. Em caso de resultado negativo, os animais são liberados no mesmo dia, no entanto, independente do resultado, as amostras devem ser enviadas para o Plum Island, para a realização de testes de cultura celular para tentar identificar o agente causador da doença vesicular nos animais.

De acordo com alguns estudos realizados nos Estados Unidos, casos da SVA apresentaram maior sazonalidade nos meses de verão, com pico entre agosto e setembro. Entre os fatores de risco para soropositividade, Preis evidencia que Unidades Produtoras de Suínos (UPLs) que praticam o processamento de animais mortos tinham nove vezes mais chances de serem soropositivas para SVA quando comparado com as UPLs que destinavam seus animais mortos dentro da propriedade rural.

Preis destaca tentativas de erradicação de SVA no rebanho norte-americano através de exposição massal/fechamento do rebanho, coleta de fluído vesicular e mistura com PBS, solução/inóculo (rRT-PCR), inoculação intranasal em animais/baias que não tiveram vesículas durante surto. “Parecem eficazes no interrompimento da transmissão constante em leitoas suscetíveis introduzidas semanalmente, no entanto, não temos muitos dados destas ações a longo prazo, visto que poucas granjas reportaram algum novo surto, outras nada fizeram e algumas reportaram recorrência de surtos, então é necessário que se façam mais estudos para entendermos essa possibilidade da infecção persistente nos animais”, frisa.

Da notificação ao resultado leva até 15 dias

Gerente de Suprimentos de Suínos da Frimesa, Valdecir Mauerwerck: “Da notificação à liberação para prosseguir com o abate leva cerca de 15 dias”

O gerente de Suprimentos de Suínos da Frimesa, Valdecir Mauerwerck, trouxe informações sobre as condutas técnicas no campo e em abatedouros, dificuldade em relação ao tempo entre coleta, envio do material, laudo e desinterdição, destinações de carcaças e ações no campo e agroindústrias.

O SVA em suínos se apresenta com feridas semelhantes a aftas, localizadas no focinho, na boca dos animais e na parede do casco (banda coronária e coxim plantar), podendo manifestar também anorexia, claudicação, letargia e febre, com sinais clínicos compatíveis com outras enfermidades vesiculares de suínos, como a febre aftosa, que são de notificação obrigatória, conforme a Organização Mundial de Saúde Animal (OIE). “Existe no país apenas o Laboratório Lanagro credenciado para realizar as análises clínicas sanitárias para SVA, o que torna o processo moroso, levando da notificação, coleta, envio de amostras, resultado, termo de desinterdição e liberação para prosseguir com o abate cerca de 15 dias, período em que os animais terminados ficam a mais na granja, gerando maior custo de produção, risco de perda de produtividade e mortalidade de animais”, constata, ressaltando a ausência de vacinas até agosto de 2021. “Há alguns meses recebemos a notícia de uma vacina para SVA, porém a nível de campo essa tecnologia ainda não está implantada, sendo urgente a sua implementação para controle da enfermidade na sua forma clínica, com um programa vacinal sazonal”, enfatiza Mauerwerck.

SVA nos frigoríficos brasileiros

Auditor fiscal do Mapa, Marcelo Lopes: “O abatedouro não é local para aparecer doença de notificação obrigatória”

O auditor fiscal do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Marcelo Alessandro Pinheiro Lopes, trouxe uma visão sobre os desafios do SVA nos frigoríficos brasileiros, enfatizando o quanto é imprescindível a conscientização dos produtores e dos médicos-veterinários responsáveis técnicos para a notificação ao SVA em tempo hábil ainda nas granjas, com coleta de material adequado para o diagnóstico. “A notificação ainda na granja gera ganhos operacionais no fluxo de recebimento de animais e no abate. O abatedouro não é local para aparecer doença de notificação obrigatória. Somente em 2018 foram realizadas 24 investigações em abatedouros e em 2019 esse número caiu para nove”, informa.

O sistema de vigilância veterinária é feita de duas formas: ativa com fiscalização de vacinação, inspeção em propriedades rurais, inspeção em plantas frigoríficas, fiscalização e inspeção em eventos agropecuários e no trânsito de animais, além de estudos epidemiológicos, abordando riscos, vulnerabilidade, receptividade e circuito pecuário; e passiva, que abrange uma vigilância reforçada no atendimento a notificações de suspeitas de doenças vesiculares. “Seguimos o mesmo plano de ação usado para febre aftosa no atendimento e na investigação de notificações de doença vesicular em suínos. Todo caso suspeito de doença vesicular, independentemente de sua origem, deve ser investigado pelo Serviço Veterinário Oficial em um prazo de até 12 horas. O resultado da investigação inicial pode ser suspeita descartada ou caso provável de doença vesicular”, salienta.

Lopes destaca ainda aspectos importantes e estratégicos de controle ao SVA a serem observados, como a regionalização das áreas endêmicas, integração propriedades ou não e as diferenças entre integrações, vazio sanitário e biossegurança nas granjas para controle de pragas, assertividade de notificação e plano vacinal.

Transporte Legal de Suínos

Durante o evento, a médica-veterinária e diretora técnica comercial da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos, Charli Ludtke, e o zootecnista e pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, Osmar Della Costa, apresentaram o manual Transporte Legal de Suínos, publicação que acompanha materiais audiovisuais e trata de forma dinâmica, informativa, interativa e de diferentes perspectivas a importância do motorista como uma parte de todo o processo da cadeia produtiva. Segundo os pesquisadores, o material tem como objetivo promover a capacitação de condutores e demais profissionais que transportam suínos, bem como a sua inserção em programas de autocontrole das empresas.

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Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes Diplomacia e cautela

Alimento, comércio e guerra

Protagonizar no mercado internacional de alimentos, nesse mundo, não será tarefa para amadores.

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Arquivo/OP Rural

Um dos fundamentos do marketing reza que o cliente é uma entidade a ser mantida em estado de encantamento constante, ou algo muito próximo disso. Esse é o ideal. Quanto maior o encantamento, maior o potencial de fidelidade e agregação de valor. A União Europeia (UE), por exemplo, é um cliente brasileiro de US$ 16 bilhões (2020), com importações de grãos, carnes e frutas, principalmente.

Olhando pelo valor é um cliente bom, embora distante do nosso número 1, a China, com importações de US$ 36 bilhões (2020). Como nem tudo é perfeito, a Europa também é aquele cliente tipo bocudo, que reclama do fornecedor publicamente, inclusive na imprensa, mas que devemos cultivar com diplomacia e cautela, não só pelo que representa hoje, mas pelo que pode vir a ser no futuro, a bordo de um acordo comercial Mercosul-União Europeia.

Nas artes da diplomacia e do comércio, conhecer bem o interlocutor e o clima negocial é pressuposto essencial. A Europa vive mudanças de lideranças políticas e com isso pode elevar o tom crítico ao agro brasileiro nos próximos tempos, em nome de bandeiras ambientais e de engajamento na questão climática. Tudo temperado por algum viés ideológico e um pano de fundo concorrencial, afinal Brasil e UE são concorrentes no mercado mundial de alimentos.

Na Alemanha, de governo novo com o chanceler Olaf Scholz, após 16 anos com a chanceler Angela Merkel, a nova ministra das Relações Exteriores é Annalena Baerbok, uma das líderes do Partido Verde e simpática a movimentos de pressão global sobre a Amazônia. No gabinete alemão também figura outro líder do Partido Verde em cargo estratégico, Robert Habeck, político que está à frente do Ministério das Finanças e Proteção Climática.

A França, outra nação com influência forte na política internacional da UE, terá eleições em abril e os chamados “verdes” são força política ascendente por lá. Como o país assumirá a presidência rotativa da UE neste ano, um fortalecimento eleitoral das bandeiras ambientalistas poderá trazer maior pressão de opinião pública sobre o nosso agro e o acordo Mercosul-UE. Pode até evoluir para um aumento do protecionismo, como já se ensaiou recentemente, insuflando restrições a produtos brasileiros, dada a condução de nossa política ambiental.

De nosso lado, há valores de troca estratégicos para se colocar na mesa. Por exemplo: a segurança alimentar mundial, da qual o Brasil é fiador importante; a nossa revolução agrícola tropical sustentável, em expansão e ensinando os trópicos a produzir melhor; e a maior reserva biológica do mundo, cujo manejo adequado pode representar vantagens comparativas essenciais na descarbonização da economia mundial. Isto nós temos e podemos negociar com o mundo (será que queremos?), ainda usando para construir novas percepções sobre o Brasil, pois hoje em dia os conflitos (comerciais ou não) são guerras de narrativas também.

Tudo isso estará agora sob a influência dos impactos da guerra na Ucrânia, com seu potencial de estimular políticas protecionistas na Europa, debilidade geopolítica das potências e, talvez, até novos blocos de poder euroasiáticos. Além, é claro, dos efeitos econômicos imediatos do conflito, como a escalada de preços das commodities, algum impulso na inflação mundial e o desarranjo em cadeias globais de fornecimento, como ocorre com os fertilizantes.

Cerca de 70% da nossa produção agro fica no mercado interno, que é autossuficiente, embora com gargalos de desigualdade social e nutricional. Assim, os horizontes de crescimento da nossa agropecuária apontam para além-mar e não apenas com commodities, mas também com alimentos de valor agregado e alinhados com as expectativas dos mercados mundiais quanto à saúde, uso responsável de recursos naturais e transparência com os consumidores. Tudo em meio a cenários de incertezas, transições e volatilidade. Protagonizar no mercado internacional de alimentos, nesse mundo, não será tarefa para amadores.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor suinícola e da piscicultura acesse gratuitamente a edição digital Suínos e Peixes.

Fonte: Por Conselho Científico Agro Sustentável
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EVONIK 2022

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