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Bovinos / Grãos / Máquinas Soja

Sequenciado genoma de fungo que ataca lagartas da soja

O estudo foi publicado no periódico da Sociedade Americana para a Microbiologia (ASM), um dos mais respeitados da área no âmbito internacional, e é assinado pelos pesquisadores Daniel Sosa-Gómez, Eliseu Binneck, da Embrapa Soja, e Cláudia López Lastra, da Universidade La Plata, Buenos Aires, Argentina.

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O fungo Metarhizium rileyi ataca lagartas prejudiciais à agricultura - Foto: Daniel Sosa-Gómez

Cientistas brasileiros concluíram o sequenciamento genético de um fungo que atua como inimigo natural de lagartas que atacam a soja, o milho e o algodão. A pesquisa representa um importante avanço do conhecimento científico sobre o fungo Metarhizium rileyi, conhecido entre os produtores de soja como doença branca da lagarta-da-soja, e abre espaço para desenvolvimento de novos produtos biológicos em médio e longo prazos.

“Esse fungo atua como um inimigo natural de várias lagartas, como a lagarta-da-soja, a falsa-medideira, o cartulho-do-milho e o curuquerê do algodoeiro. Ele infecta a lagarta por contato com o tegumento e não precisa ser ingerido para atuar naturalmente como controle biológico”, explica o pesquisador da Embrapa Daniel Sosa-Gómez, líder da pesquisa. O trabalho foi desenvolvido em Londrina (PR), nos laboratórios da Embrapa Soja e contou com a colaboração do Centro de Estudos Parasitológicos de Vetores, da Universidad Nacional de La Plata (UNLP), na Argentina.

“É um fungo que ocorre em vários países do mundo. Com o sequenciamento, podemos conhecer melhor suas diferentes raças e diferenciar as cepas que são mais eficientes para uso como controle biológico comercial”, explica. De acordo com o cientista, ao conhecer o comportamento de cada cepa, é possível associá-lo à identidade genética e às variações que ocorrem em cada local.

A Embrapa Soja mantém, desde a década de 1990, uma coleção de cepas que ocorrem em diferentes partes do mundo, como Argentina, Estados Unidos, Filipinas, Japão, México e Índia. “Com o sequenciamento do genoma e o cruzamento das informações sobre as cepas que estão em nossos bancos, podemos compreender melhor aquelas com potencial para desenvolvimento de produtos biológicos, assim como é feito com os inoculantes (veja quadro), especificamente como a bactéria Bradirhizobium”, detalha.

 

Os bioprodutos

O mercado de produtos biológicos tem crescido significativamente nos últimos anos e possui perspectivas de expansão (veja matéria). Entre os produtos mais conhecidos e de ampla adoção no Brasil estão os inoculantes para fixação biológica do nitrogênio. Eles contêm bactérias capazes de retirar nitrogênio do ar e disponibilizá-lo à planta (saiba mais na página sobre fixação biológica de nitrogênio).
O sequenciamento envolveu técnicas avançadas de bioinformática, com o uso de ferramentas computacionais específicas para a reconstrução da sequência completa do genoma e para a captura e interpretação de informações moleculares relacionadas a cada gene ao longo do genoma.

“A pesquisa básica leva tempo porque é feita a partir de um grande volume de dados de DNA, que vai sendo revisado e organizado por meio dessas ferramentas, a partir do conhecimento que detemos, e facilitará o entendimento das relações entre os genes e as particularidades desse fungo”, conta o pesquisador. O genoma foi depositado no banco de dados público de sequências biológicas, GenBank-NCBI-NIH, sob o número de acesso SBHS00000000.

 

Tentando escapar dos fungicidas

Um grande desafio para os cientistas, agora, é fazer esses fungos de controle biológico sobreviverem às aplicações de fungicidas nas lavouras. Isso porque os mesmos produtos usados contra o fungo causador da ferrugem da soja também podem atingir o inimigo natural das lagartas. Por isso, o pesquisador adianta que, para os próximos anos, a Embrapa irá atuar na seleção de isolados que tolerem altas doses de fungicidas, como os utilizados no controle da ferrugem asiática da soja.

“Os sistemas de produção estão cada vez mais complexos e não podemos mais analisar o controle de pragas isoladamente”, afirma. Por isso, o conhecimento obtido por essa pesquisa é tão importante: é preciso encontrar alternativas para tornar os sistemas de produção cada vez mais equilibrados.

“O fungo tem uma característica interessante: ele só ataca as lagartas, portanto tem atuação bastante seletiva, o que, de modo geral, beneficia o equilíbrio dos sistemas de produção”, explica Sosa-Gómez. Os cientistas acreditam que, ao identificar isolados do fungo Metarhizium que tolerem as altas doses de fungicidas usadas no controle da ferrugem, será possível encontrar soluções mais equilibradas para o controle das lagartas. A pesquisa também pode ajudar a identificar os genes envolvidos nos mecanismos de resistência a fungicidas.

 

Como o fungo atinge as lagartas

Com distribuição de ocorrência geográfica mundial, o fungo Metarhizium rileyi ataca as lagartas, formando inicialmente uma camada branca (fungo sem esporular) sobre o inseto, por isso o nome popular de “doença branca” em lagartas. É um agente regulador das populações das principais lagartas que afetam as grandes culturas. Por causa de sua atuação altamente seletiva e eficiente em condições naturais ou agrícolas, o fungo se torna um importante agente biológico para o desenvolvimento de bioinseticidas e para a prospecção de componentes biológicos ativos com diferentes usos.

No passado, já serviu de base para desenvolvimento de produtos de controle biológico, mas caiu em desuso, voltando a ter potencial de exploração comercial com o uso das novas técnicas que permitem melhor produção de cepas. De acordo com Sosa-Gómez, atualmente há produtos à base do fungo sendo comercializados na África do Sul.

 

Fonte: EMBRAPA
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Bovinos / Grãos / Máquinas Saúde Animal

Terapia de vaca seca é a principal estratégia no controle de mastite

Prática tem objetivo de promover descanso do úbere, necessário para intensificar regeneração e formação de alvéolos, preparando-o para nova lactação

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Artigo escrito por Hanna Caroline Prochno, médica veterinária na J.A Saúde Animal

O período seco das vacas é o período entre duas lactações, compreendido entre a secagem (interrupção da extração de leite) e o parto seguinte. É uma necessidade fisiológica da vaca leiteira e tem relação direta com a saúde do úbere, com a produção de leite da próxima lactação e com o risco de doenças no pós-parto. A secagem da vaca deve ocorrer 60 dias antes do parto. Esta prática tem o objetivo de promover o descanso do úbere, necessário para intensificar a regeneração e formação de alvéolos (unidades secretoras do leite), preparando-o para a nova lactação.

Durante o período seco, a glândula mamária passa por três fases distintas: involução ativa, involução completa e lactogênese ou colostrogênese. Na primeira fase ocorre a involução do parênquima, que começa um ou dois dias depois da secagem e vai até a completa involução da glândula mamária (cerca de 21 dias após a secagem). Durante esta fase, a glândula fica vulnerável a uma nova infecção intramamária principalmente por três fatores: ainda não ocorreu a formação do tampão de queratina natural que funciona como uma barreira física no canal do teto protegendo contra novas infecções; ainda há síntese de leite pelas células secretoras da glândula mamária (continua por 2 a 3 dias após a secagem) e este leite residual, além de aumentar a pressão intramamária, pode se tornar meio de cultura para as bactérias que estão presentes no úbere no momento da secagem, em vacas que apresentam mastite subclínica; e por último, níveis séricos de cortisol podem estar aumentados devido ao estresse causado pela interrupção da rotina de ordenha, levando a uma diminuição da imunidade da vaca e a tornando suscetível a uma nova infecção.

A segunda fase, de involução completa, é considerada um período de baixo risco para novas infecções, pois o tampão de queratina já foi completamente estruturado no teto, e as células secretoras sofreram involução. As novas infecções neste período são geralmente raras e, quando ocorrem, muitas vezes são eliminadas espontaneamente. Esta fase se inicia cerca de 21 dias após a secagem e se estende até quando ocorre o reinício da síntese de colostro antes do parto (14-21 dias).

Por fim, temos a fase da lactogênese e colostrogênese, que está inserida no período do periparto, normalmente nos últimos dias pré-parto. Nesta última fase, tal como na primeira fase, haverá uma maior suscetibilidade a novas infecções por agentes ambientais, pois reinicia uma nova proliferação celular para síntese do colostro devido a uma ativação hormonal, causando novamente aumento da pressão intramamária. Além disso, a vaca se encontra no período de transição, podendo estar em balanço energético negativo. Nesta fase ocorrem importantes mudanças nutricionais, imunes e metabólicas que causam redução de até 30% na ingestão de matéria seca, causando supressão do sistema imune com consequentes ocorrências de enfermidades.

Aproximadamente 60% das mastites clínicas durante os 100 primeiros dias de lactação estão associadas com infecções que se iniciam durante o período seco. Pode-se estimar que no primeiro mês de lactação todos os casos de mastite clínica estão associados com o período seco, enquanto que no restante da lactação a origem dos casos clínicos é de novas infecções durante a lactação.

Por outro lado, o período seco é uma ótima oportunidade para eliminar infecções subclínicas já presentes. O objetivo principal do controle de mastite no período seco é reduzir as infecções intramamárias para otimizar a produção de leite na próxima lactação, visto que a mastite subclínica é a principal responsável pela queda de produção.

A terapia de vaca seca é a principal estratégia para controle da mastite durante o período seco. Este procedimento é realizado pela introdução intramamária de antibiótico de longa ação após a última ordenha. A antibioticoterapia no período seco possui vantagens como o aumento da taxa de sucesso terapêutico se comparado à obtida quando é feito durante a lactação, a utilização de doses mais elevadas de antibióticos, menores perdas com o leite descartado, e o fato de permitir o tratamento de infeções não reconhecíveis, sendo que caso o tratamento seja bem-sucedido, o tecido mamário tem tempo para recuperar antes da próxima lactação.

Características dos antibióticos

As características dos antibióticos que indicam potencial de cura de mastite na secagem são tempo de ação, a concentração e a persistência do produto. Produtos para secagem devem ter tempo prolongado de ação e boa difusão no úbere. Devem também apresentar concentração suficiente para eliminar e prevenir patógenos causadores de mastite, com liberação lenta e que persista durante a maior parte do período seco. Um dos princípios mais utilizados devido a sua alta taxa de eficácia é a Cloxacilina Benzatina, um antimicrobiano de longa ação da classe dos Beta Lactâmicos. As penicilinas anti-estafilocócicas, como a cloxacilina, são resistentes à penicilinase produzida por Staphylococcus aureus, sendo assim indicadas no tratamento deste agente patogênico, bem como de outros estafilococos e estreptococos.

Além da função curativa, o manejo de secagem é essencial para a prevenção de novas infecções de origem ambiental realizado pela introdução do selante no canal do teto. Os selantes de tetos são estratégias preventivas, cuja função é bloquear fisicamente a comunicação entre o ambiente externo e o interior da glândula mamária. Os selantes imitam a função do tampão natural de queratina formado fisiologicamente no canal do teto em até duas semanas após a secagem, porém apenas 50% dos tetos formam o tampão de queratina na primeira semana após a secagem.

A terapia de vaca seca é essencial no controle de mastite, pois elimina em média 80% das infecções existentes e previne até 80% das novas infecções intramamárias durante o período seco. A associação de antibioticoterapia intramamária em conjunto com o selante de teto é a melhor estratégia para tratamento de infecções existentes e prevenção de novas infecções no rebanho.

Outras notícias você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de março/abril de 2021 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Bovinos / Grãos / Máquinas Pecuária

Como fazer uma desmama eficiente

O desmame pode ser realizado de formas diferentes, de acordo com as intenções do pecuarista

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Artigo escrito por João Paulo Lollato, médico veterinário e coordenador de Serviços Técnicos da Biogénesis Bagó; e Reuel Luiz Gonçalves, médico veterinário e gerente de Serviços Técnicos da Biogénesis Bagó

O índice zootécnico Taxa de Desmama é um excelente indicador para se avaliar uma fazenda de cria ou ciclo completo. Este índice consiste na relação entre o número de bezerros desmamados dividido pelo número de vacas expostas dentro de um determinado período pecuário. Alguns indicadores mais produtivos relatam que esta relação pode chegar a 79,1%. Este índice leva em consideração as perdas gestacionais e também a mortalidade de bezerros dentro do mesmo período avaliado.

A desmama se caracteriza pela retirada do bezerro do contato com a vaca. Tradicionalmente, realiza-se este manejo entre o 7º e 9º mês de idade. Nessa época, o animal já é um ruminante e tem plena condição de utilizar forragem sólida como única fonte de energia e de nutrientes de que necessita. Além do mais, a participação do leite na dieta do bezerro é pequena após o terceiro mês de lactação.

O desmame pode ser realizado de formas diferentes, de acordo com as intenções do pecuarista. Além disso, pode ocorrer em momentos distintos da vida do bezerro, dependendo do manejo realizado em cada propriedade. No entanto, para que esse período não seja crítico e/ou acarrete perdas, é preciso um planejamento com antecedência. Só assim, haverá uma desmama com eficiência e com bezerros que atinjam bom peso.

Para isso, é fundamental adotar um programa sanitário e aliá-lo ao programa de desmama, dando início neste protocolo antes do nascimento do bezerro. Um dos problemas recorrentes durante a fase de aleitamento e que pode influenciar no seu desenvolvimento, por exemplo, são as diarreias neonatais. Para se evitar essa enfermidade, a indicação é para que se faça uma vacinação preventiva na vaca com 60 e 30 dias antes do parto, contra Escherichia coli e Rotavírus (G6 e G10). Essa medida ajudará a baixar os índices de diarreia neonatal nos primeiros 35 dias de vida do bezerro, além de promover um excelente desenvolvimento, garantindo um bezerro mais sadio e, consequentemente, com melhor peso até a desmama.

No nascimento temos a etapa da cura do umbigo, quando se deve utilizar no manejo iodo 10% (“queima” do umbigo), uso de um repelente mosquicida, além de ser recomendada a aplicação de doramectina 1,1% para prevenir a instalação de uma miíase.

Entre 60-90 dias o produtor deve se atentar à prevenção efetiva contra doenças que podem prejudicar ou causar a mortalidade em bovinos. Esse é o momento de vacinar contra a clostridiose (indicada uma com 8 cepas + a cepa de E. coli J5) e, caso a região seja endêmica para a raiva, é fundamental fazer a aplicação da vacina antirrábica, com reforço 30 dias depois da primeira dose (simples, não conjugado). Ainda entre os três e oito meses, as fêmeas devem receber vacina B19 contra a brucelose, uma doença que, além de prejuízos econômicos na propriedade, é uma zoonose e possui controle oficial.

O produtor pode aproveitar esse manejo, com 90-120 dias, para desverminar o animal com vermífugo concentrado. Caso seja uma época chuvosa, em que há o desafio de combater os endo e ectoparasitas, há a indicação de ministrar a Ivermectina concentrada (3,15%), que atua com longa ação. Caso seja na época da seca, com apenas o desafio de combater os parasitas internos, pode-se ter como aliado o fosfato de levamisol concentrado (23,63%).

Um ponto importante que temos observado é que a suplementação com minerais injetáveis, à base de Cobre e Zinco orgânicos, nessa fase auxilia de forma efetiva para o desenvolvimento dos animais, influenciando positivamente na imunidade.

Após esse primeiro manejo, de dose e reforço das vacinações, já por volta dos sete/nove meses preferencialmente antes da desmama, a orientação é que seja realizada uma terceira dose das vacinações contra clostridiose (com 8 cepas + cepa de E. coli J5 para prevenção de diarreias), vacina antirrábica e novamente a aplicação de vermífugo de longa ação. Isso porque caso esse animal seja encaminhado a um manejo de recria, poderá ficar até quatro meses sem ter que voltar para um manejo de curral. Neste momento também é indicada novamente a aplicação da suplementação injetável (Zinco e Cobre orgânicos), que auxiliará na imunidade e minimizará o estresse que esse animal passará no período da desmama.

Protocolo sugerido – nascimento a desmama

  • Adultos*

– Anualmente: vacina clostridial + vacina antirrábica

– Sessenta dias pré-parto: Vacina para prevenção da Diarreia Neonatal

– Trinta dias pré-parto fazer reforço da vacina para prevenção da Diarreia Neonatal e um vermífugo à base de fosfato de levamisol concentrado (23,63g)

  • Bezerros (AS)*

– Nascimento: “Queima do umbigo com Iodo 5% ou 10% + Doramectina 1,1% + Repelente

– Noventa dias de nascido: Vacina Clostridial com 8 cepas + E. coli J5 + Vacina antirrábica + Vacina prevenção Botulismo + Doramectina 1,11% ou Ivermectina 1,13% LA + Suplementação Injetável com Zinco e Cobre orgânicos

– Cento e vinte dias de nascimento: Ivermectina 3,15% LA + reforço vacina clostrial + reforço vacina antirrábica + reforço vacina antibotulínica + suplemento mineral injetável

– Desmama: Nova dose da vacina clostridial + nova dose vacina antirrábica + suplemento mineral injetável e ivermectina 3,15% LA

*Bezerros e bezerras filhos de mães não vacinadas, iniciar a vacinação no D60 e reforço no D90. Depois refazer na desmama e anualmente.

Cuidados com a vaca

Caso a vaca não tenha sido imunizada e o bezerro apresente diarreia nos primeiros meses de nascimento, é necessário intervir com tratamento, além de identificar o agente causador para tomar as medidas necessárias de prevenção. A indicação nesta situação é o uso imediato de antibióticos. Nesse sentido, indicamos o Florfenicol 30% devido à sua praticidade de aplicação em dose única subcutânea, bem como a utilização de suplementação oral com probióticos e prebióticos.

Na prática, o produtor de gado de corte processa a desmama visando principalmente a vaca, a fim de que ela possa recuperar a condição corporal para parir bem e poder emprenhar logo, considerando que uma vaca produtiva e rentável é aquela que fornece para a fazenda um bezerro por ano.

Durante o período de desmama, o animal em desenvolvimento tem de fazer a transição de um estado de completa dependência dos cuidados maternos para um de independência. Num sentido amplo, desmama envolve todo um complexo aparato de mudanças comportamentais, nutricionais, morfológicas, fisiológicas e metabólicas, que constituem a transição para uma existência adulta independente.

Dessa forma, para os animais nascidos entre agosto e novembro, provenientes da estação de monta de novembro a fevereiro, recomendada pela Embrapa-CNPGC para o Brasil Central, a desmama tradicional deve ocorrer em duas etapas, nos meses de fevereiro e abril, mais tardar maio.

Separação

Uma alternativa para amenizar o estresse da separação é a introdução de animais adultos junto com os recém-desmamados, o chamado “amadrinhamento”, que tem a função de acalmar esses bezerros. Se possível, os bezerros devem ser desmamados tirando-se as mães do piquete de desmama, de forma que eles permaneçam em ambiente conhecido.

Após a separação, os bezerros devem permanecer em pastagens adequadas (forrageiras de alto valor nutritivo, de pequeno porte e alta densidade), com acesso a água e minerais de excelente qualidade. Observações realizadas na Embrapa-CNPGC com mães e crias desmamadas e separadas em pastos adjacentes demonstraram maior tranquilidade, tanto para as vacas quanto para os bezerros, desde os primeiros dias. Entretanto, tal separação exige a construção de cercas apropriadas que evitem possíveis mamadas. Existe uma crença de que para facilitar o manejo, deixar as crias no mangueiro por quatro a sete dias após a desmama pode ser prático, porém mesmo fornecendo água, ração no cocho e capim fresco à vontade, o estresse para este momento é ainda maior.

Em um sistema de produção de bovinos de corte, a taxa de desmama e a relação de desmama, que consiste no peso do bezerro desmamado dividido pelo peso da vaca que o desmamou, possuem grande influência sobre a eficiência do processo de criação. Quanto mais pesado desmamar este bezerro, menor será seu tempo até o abate, reduzindo sua permanência na propriedade caso seja de ciclo completo, ou maior será seu valor quando este animal for vendido.

Creep-Feeding

Uma das formas de aumentar o ganho de peso na desmama é por meio do fornecimento de alimentos direcionados para os bezerros, método chamado “creep-feeding”, isto é, fornecimento de ração através do uso de um cocho privativo, geralmente anexo ao cocho de mineral das matrizes, porém com acesso restrito aos bezerros. O “creep-feeding”, além de proporcionar uma excelente resposta em ganho de peso, ajuda a tornar o bezerro menos dependente da mãe, diminuindo o número de mamadas e minimizando os fatores de estresse no momento da desmama. Outro ponto importante é que a vaca sofre menos com o bezerro consumindo esta ração, o que melhora sua condição corporal, possibilitando um rápido retorno ao cio e consequente aumento da taxa de prenhez.

As desmamas são classificadas da seguinte forma:

Desmama Tradicional – Prática que depende da condição corporal da vaca e da disponibilidade de forragens e suplementação alimentar de boa qualidade. É comum em gado de corte, sendo realizada entre 7-9 meses. Pode ser antecipada ou adiada e aconselha-se o uso de suplementos ao bezerro. Este manejo também pode ser relacionado aos meses de maior valor do bezerro no mercado, avaliação regional ou local.

Desmama temporária ou interrompida – Para a melhoria da fertilidade de rebanhos de corte, utiliza-se a remoção temporária do bezerro, que consiste em separar a cria da vaca por um período de 48 a 72 horas, a partir de 40 dias pós-parto. Dependendo da condição corpórea da vaca, essa prática pode provocar o aparecimento do cio, podendo aumentar a taxa de concepção das genitoras em até 30%. Este manejo atualmente é pouco usado devido a outras tecnologias que vêm sendo utilizadas com os manejos de IATF, como o uso da eCG, entre outros. Favorece uma desmama precoce.

Desmame com amamentação controlada – Este tipo de desmame preconiza a diminuição da amamentação, com considerável aumento sobre a taxa de prenhez. Além de poupar a mãe de frequentes mamadas, esse processo vai acostumando o bezerro para a desmama definitiva. A amamentação controlada consiste em permitir a permanência do bezerro com a mãe durante dois curtos períodos do dia, entre 6 e 8 horas e das 16 às 18 horas, a partir do 30º dia de vida. Esse sistema exige muita mão de obra e também era utilizado como um método de desmama temporária. Favorece uma desmama precoce.

Desmama Precoce – Essa prática consiste em separar o bezerro, definitivamente, bem mais cedo, aos 90-120 dias de vida. É recomendada para períodos de escassez de forragem e tem a finalidade de reduzir o estresse da amamentação e os requerimentos nutricionais da vaca, permitindo que recuperem seu estado corporal e manifestem o cio. Em se tratando de novilhas de primeira cria, cujo desenvolvimento ainda é incompleto, a desmama precoce pode ser uma boa opção, principalmente em anos com secas prolongadas. Para a maior eficiência do sistema, entretanto, é preciso que esta prática ocorra dentro da estação de monta, possibilitando a re-concepção imediata. Assim sendo, para a estação de monta anteriormente citada (novembro a janeiro), ocorreriam duas desmamas: em novembro e em janeiro.

Para que não ocorram problemas, recomenda-se:

a) desmama de bezerros com peso superior a 90 kg;

b) desmama em época adequada (para o Brasil Central: novembro a janeiro);

c) pastos diferenciados para animais desmamados precocemente;

d) suplementação com ração concentrada até 5-6 meses de idade;

e) uso de “creep-feeding” ou “creep-grazing” na fase pré-desmama.

Desmame com uso de tabuleta – Este tipo de desmame causa menos estresse comparado ao desmame tradicional, visto que não ocorre separação entre vaca e bezerro. Para isso é utilizado um dispositivo instalado na narina dos bezerros, impedindo que o mesmo efetue a mamada. Resultados de pesquisas mostram que não há diferença no desempenho dos bezerros desmamados com esta técnica comparados com o desmame tradicional, mas existe um grande benefício para a vaca em termos de melhoria na condição corporal.

Existem alguns fatores que podem influenciar no peso ao desmame, dentre os quais a época de nascimento, idade das mães ao parto e a região do nascimento do bezerro. O Efeito de Mês de Nascimento apresenta grande influência, pois está, de certo modo, associado às condições climáticas, que afetam de forma direta ou indireta as funções do organismo animal, gerando flutuações na quantidade e qualidade de alimentos e na incidência de enfermidades, influenciando o crescimento animal. Pesquisadores relataram um ganho do nascimento a desmama dos animais nascidos na primavera 15,6% maior que dos animais nascidos no outono. Com estes resultados, concluíram que para a produção de bezerros a parição de primavera é a mais recomendável.

Outro fator com alta influência no peso ao desmame é a idade da vaca ao parto e/ou ordem de parição, pois está intimamente ligada ao desenvolvimento do bezerro no período pré-desmama. Isto é uma consequência da habilidade materna, principalmente a produção de leite e a qualidade de colostro produzido pela mãe. Como regra geral, as vacas de primeira cria desmamam bezerros 10 a 15% mais leves em relação às vacas adultas. A partir das novilhas, o peso dos bezerros à desmama vai aumentando com a idade da mãe até alcançar um pico máximo entre 5 e 10 anos, depois do qual os pesos à desmama voltam a decrescer.

Influência do ambiente

O Brasil com sua grande extensão territorial apresenta uma grande variação de ambientes, os quais influenciam diretamente a produção de alimentos e o desempenho dos animais para as características de valor econômico do rebanho bovino brasileiro. As diferenças dos efeitos de meio sobre o peso ao desmame entre as regiões provavelmente possuem como causa, além dos fatores naturais como pluviosidade, clima, topografia e qualidade do solo, também as diferenças quanto ao sistema de produção, nível de tecnologia e tipo racial do rebanho bovino.

A Figura abaixo representa as curvas dos valores de peso predito a desmama (PDM) para as quatro regiões.

Figura – Peso ao Desmame Predito (PDM) de acordo com o mês de nascimento do bezerro, nas quatro regiões estudadas (2004).

Pesquisadores trabalhando com animais Aberdeen Angus no Rio Grande do Sul agruparam os animais em duas épocas de nascimento: outono (de fevereiro a junho, com 15% dos nascimentos) e a primavera (de julho a janeiro, com 85% dos nascimentos). Observaram que animais nascidos na primavera foram 12,9% mais pesados a desmama do que os animais nascidos no outono. De acordo com o trabalho “Idade da vaca e mês de nascimento sobre o peso ao desmame de bezerros nelores nas diferentes regiões brasileiras”, para a região Sul, este valor foi de 6,8%.

Portanto, o sucesso da desmama começa com um ótimo programa nutricional das vacas e bezerros, suplementação mineral e vitamínica em conjunto com um programa vacinal e antiparasitário completo para que, devido ao estresse da desmama, o animal não apresente queda imunitária e manifestação de doenças, tendo assim uma ótima desmama.

Outras notícias você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de março/abril de 2021 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Bovinos / Grãos / Máquinas Tecnologia

O uso de ácidos orgânicos como ferramenta valiosa na pós-colheita de grãos

Armazenagem é fator estratégico para que o produtor rural tenha condições adequadas para manter a qualidade dos produtos

Publicado em

em

Arquivo/OP Rural

Artigo escrito por Natália Vicentini, TSM Líquidos, Kemin Kasa

Segundo a Conab, a Companhia Nacional de Abastecimento (2020), o Brasil deve colher aproximadamente 265,9 milhões de toneladas de grãos na safra 2020/2021, e apesar da estimativa ser inferior ao previsto decorrente da estiagem da região Sul, trata-se ainda de uma produção recorde de grãos no Brasil, sendo soja e milho responsáveis por 89% dessa produção.

De acordo com a CNA, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (2014), a capacidade estática armazenadora existente no Brasil não acompanhou o crescimento da produção agrícola, contribuindo decisivamente para o estrangulamento da infraestrutura logística.

A armazenagem é fator estratégico para que o produtor rural tenha condições adequadas para manter a qualidade dos produtos, diminuindo as perdas e permitindo maior autonomia na comercialização da produção.

No contexto da conservação de qualidade, é preciso ter especial cuidado com os fungos, que se caracterizam como um dos principais agentes causadores de danos aos grãos, pelo fato destes serem substratos adequados ao desenvolvimento desses microrganismos, quando o teor de água, a temperatura e a umidade relativa de equilíbrio do ar intergranular são favoráveis. Suas consequências podem ser vistas através da produção de micotoxinas, perda de matéria seca, descoloração, e produção de odores desagradáveis são danos depreciativos causados pelo desenvolvimento fúngico e podem levar a inviabilidade do uso dos grãos para alimentação humana e/ou animal.

Um dos danos de maior impacto econômico causado aos grãos pelos fungos de armazenamento é a perda de peso resultante de matéria seca (amido, proteínas e gorduras). Em um estudo, a perda de matéria seca entre grãos sadios e contaminados por fungos chegou a 25% em milho e 18% em soja. Uma outra pesquisa demonstrou que para que a conversão alimentar de frangos não fosse alterada, entre dietas contendo milho de boa qualidade e milho mofado, a inclusão de fonte de estrato etéreo como óleo de soja deveria ser triplicada.

A utilização de aditivos químicos adequados e aprovados por órgãos competentes pode ser considerada uma ferramenta importante na conservação da qualidade dos grãos e redução de perdas. Os ácidos orgânicos, como ácido propiônico, sórbico e fosfórico, são aditivos conservantes comumente utilizados na indústria de nutrição animal e possuem poderosa ação antifúngica, prevenindo o desenvolvimento desses microrganismos e promovendo maior estabilidade da ração tratada. Pelo efeito sinérgico entre ativos, a mistura entre dois ou mais ácidos orgânicos é mais eficiente em controlar o crescimento dos fungos do que um único ácido sozinho, desse modo a utilização de um mix de ácidos orgânicos é preferível.

Um estudo brasileiro (2019) em condições experimentais demonstrou que o desenvolvimento fúngico de grãos de milho permaneceu estável por 120 dias após tratamento com ácidos orgânicos, enquanto grãos de milho não tratados tiveram um crescimento de até 1,0 x 104 UFC/g de bolores e leveduras para o mesmo período e condições de armazenagem. Neste mesmo estudo, foi possível verificar efeito benéfico do tratamento também na conservação de carboidratos não fibrosos e contaminação por aflatoxinas, parâmetros relevantes para grãos utilizados na indústria de nutrição animal.

Outro estudo brasileiro (2019) em condições experimentais comparou grãos de milho sem tratamento com umidade 10% frente a grãos de milho de aproximadamente 12% de umidade, com tratamento de ácidos orgânicos, e demonstrou que o tratamento contribuiu com a estabilidade da temperatura de armazenamento e da emissão de CO2, ambos produtos provenientes da respiração de micoorganismos.

Com base na importância do Brasil como um produtor mundial de alimentos num cenário de preços altamente elevados, da armazenagem no processo de conservação, e dos impactos que o desenvolvimento fúngico pode trazer, os ácidos orgânicos se mostram uma alternativa simples e viável na conservação dos grãos em condições pouco tecnificadas e como um reforço juntamente as práticas tradicionais de armazenagem entregando benefícios fantásticos.

Outras notícias você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de março/abril de 2021 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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