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Seminário internacional debate futuro da indústria da carne

Evento em Chapecó reuniu especialistas e lideranças para discutir inovação, qualidade e tendências do setor em um mercado global em transformação.

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O SENAI/SC reuniu especialistas e lideranças da cadeia de proteínas no 14º Seminário Internacional de Industrialização da Carne - Foto: Alessandra Favretto/MB Comunicação

O SENAI/SC reuniu especialistas e lideranças da cadeia de proteínas no 14º Seminário Internacional de Industrialização da Carne, realizado em Chapecó (SC) nesta terça-feira (18), no Hotel Kindermann. Com programação paralela à Mercoagro 2026 – Feira Internacional de Negócios, Processamento e Industrialização da Carne –, o encontro debateu inovação, tecnologia e tendências que influenciam a competitividade do setor em um ambiente de mudanças no mercado global.

O coordenador geral da Mercoagro, Nadir José Cervellin, destacou a relevância da pesquisa estar ligada a indústria e que a feira possui três pilares: negócios, relacionamento e conhecimento. “Quando a pesquisa caminha junto com a indústria, ela vira resultado, vira competitividade e vira solução aplicada no dia a dia das empresas. A Mercoagro nasceu com esse propósito e segue fiel a ele. Por isso, trabalhamos para que a feira seja um ambiente completo: um espaço para gerar negócios, fortalecer conexões e, principalmente, compartilhar conhecimento que prepara o setor para os próximos desafios”, afirmou.

O diretor-regional do SENAI e diretor de Gestão de Mercado, Fabrizio Pereira, abordou a pujança do setor de alimentos na região oeste de Santa Catarina e os serviços que a FIESC oferece para fortalecer a indústria. “Para se ter uma ideia, cerca de 33% de tudo o que é produzido no estado acontece nesse eixo que vai de Joaçaba até a fronteira. É algo realmente expressivo. Mesmo diante dos desafios logísticos que a região enfrenta há anos, a força, a competência e a qualidade das pessoas fazem toda a diferença”.

Geopolítica no mercado de carnes

O SENAI/SC reuniu especialistas e lideranças da cadeia de proteínas no 14º Seminário Internacional de Industrialização da Carne – Foto: Alessandra Favretto/MB Comunicação

Para abrir o cronograma de palestras, o diretor executivo do Sindicarne, Jorge Luiz de Lima, apresentou os impactos da geopolítica no mercado de carnes. Para dimensionar a relevância do setor, ele apresentou alguns números: embora o estado tenha pouco mais de 1% do território nacional, lidera a produção e exportação de carne suína no Brasil e ocupa a segunda posição na produção de frango, atrás apenas do Paraná. Junto com Paraná e Rio Grande do Sul, Santa Catarina concentra 75% da produção nacional de frango e 85% da produção de suínos, evidenciando a força da região Sul nesse segmento.

Jorge pontuou a dimensão da cadeia produtiva no estado de Santa Catarina. “As grandes agroindústrias empregam cerca de 60 mil pessoas diretamente, mas, considerando toda a cadeia, desde pequenos abatedouros até serviços indiretos, o número chega a 124 mil empregos. Além disso, esses postos diretos geram aproximadamente 480 mil empregos indiretos, envolvendo atividades como transporte, logística e fornecimento de insumos”.

Para ilustrar a dimensão logística do setor, Lima destacou que uma única planta produtiva com capacidade para 200 mil aves ou 5 mil suínos por dia pode gerar uma movimentação diária de cerca de 5.240 viagens de caminhões. “A complexidade logística também se reflete no trabalho de campo, pois cada motorista percorre, em média, 3 mil quilômetros por mês, e o setor conta com cerca de 1.200 profissionais nessa função. No transporte internacional, são movimentados cerca de 90 mil contêineres por ano uma média de 344 por dia com aproximadamente 167 caminhões circulando diariamente entre o Oeste e os portos do litoral. Esse volume gera custos expressivos. O transporte de cargas representa uma despesa anual de cerca de R$ 3 bilhões, enquanto os custos portuários somam aproximadamente R$ 50 milhões”.

De acordo com Lima os conflitos geopolíticos internacionais têm impacto direto sobre o setor. Ele citou, principalmente, a guerra entre Rússia e Ucrânia e as tensões no Oriente Médio, como o conflito envolvendo o Irã. Antes de abordar os efeitos de mercado, ressaltou que qualquer conflito bélico representa uma tragédia humana embora, inevitavelmente, também traga consequências econômicas. “Santa Catarina exporta para mais de 150 destinos, com mercados relevantes como Japão, China, Filipinas, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Reino Unido e países europeus. Essa ampla presença internacional faz com que o setor seja altamente sensível a mudanças geopolíticas. No caso da guerra entre Rússia e Ucrânia, o impacto foi imediato, especialmente no custo dos insumos. A Ucrânia é um dos maiores produtores de milho do mundo, e, com o início do conflito, o preço do grão disparou, chegando a cerca de R$ 113 por saca em Chapecó. Atualmente, o valor se estabilizou em torno de R$ 67, com variações recentes influenciadas por novos conflitos”, concluiu.

Alto valor agregado

Lideranças e dirigentes marcam presença no evento – Foto: Débora Favretto/MB Comunicação

O pesquisador da AgResearch Ltd, Dr. Mustafa Farouk, veio da Nova Zelândia para o seminário e palestrou sobre o desenvolvimento de produtos cárneos com alto valor agregado. Ao abordar a geração de valor na indústria da carne, Farouk destacou três pontos centrais. O primeiro é que, independentemente do perfil do consumidor há uma pergunta essencial que orienta as escolhas de consumo: “como aquele alimento impacta sua saúde física e mental ao longo da vida?”.

O segundo ponto é o potencial ainda não totalmente explorado da carcaça. Segundo o pesquisador, seja na carne bovina, suína ou de outras espécies, ainda há espaço para extrair mais valor a partir de cada animal e ampliar o aproveitamento de seus componentes. Já o terceiro aspecto aponta para uma mudança de lógica: não é mais possível agregar valor apenas aumentando a produção ou aproveitando ao máximo a matéria prima. O verdadeiro ganho, daqui para frente, está em compreender melhor o consumidor e suas demandas. “O valor não está mais em produzir mais, mas em produzir melhor para quem vai consumir”, resumiu.

Para Farouk, o desafio está na forma de apresentar os produtos ao consumidor. Cortes como fígado, coração e rins enfrentam resistência quando oferecidos de forma tradicional. “No entanto, quando incorporados a novos formatos como produtos processados ou combinados com outros ingredientes, podem ganhar aceitação e abrir novas oportunidades de mercado. Não se trata apenas do que temos, mas de como entregamos isso ao consumidor”.

Qualidade da carne

O professor Dr. Márcio Duarte, da University of Guelph e da Universidade Federal de Viçosa, discutiu a influência da suplementação na qualidade da carne, relacionando manejo, nutrição e atributos finais do produto. Ao abordar os fatores que determinam a qualidade da carne, o palestrante explicou que é essencial compreender a diferença entre músculo e carne. “A carne, como produto final, é resultado da transformação do tecido muscular, e são as células presentes nesse tecido que determinam atributos como maciez, suculência e valor agregado”.

Duarte defendeu a necessidade de compreender toda a dinâmica de crescimento, desde a concepção até o abate. Um animal abatido aos 21 meses, por exemplo, já carrega influências de todo o seu desenvolvimento, iniciado ainda no período gestacional. “A qualidade da carne não se constrói apenas no final do processo, mas ao longo de toda a vida do animal”, sintetizou.

O seminário foi encerrado com o painel “Tendências, desafios e perspectivas para o futuro da indústria da carne” – Foto: Alessandra Favretto/MB Comunicação

O palestrante explicou que, ainda no útero materno, ocorre a formação dos principais tecidos que darão origem à carne. Esses tecidos têm uma origem comum, a partir de um conjunto limitado de células, cuja maior capacidade de multiplicação está concentrada nas fases iniciais do desenvolvimento. Após os primeiros meses de vida, especialmente depois dos sete meses, essa capacidade de proliferação celular diminui significativamente. Isso significa que o animal passa a ter um “estoque” limitado de células capazes de formar gordura intramuscular, o marmoreio.

Na prática, isso explica por que estratégias focadas apenas na terminação nem sempre funcionam. “Você pode oferecer uma dieta rica em energia, mas se o animal não desenvolveu essas células antes, ele simplesmente não terá capacidade de formar o tecido que gera valor”, reiterou Duarte. Diante disso, o caminho apontado é antecipar as estratégias nutricionais e de manejo, atuar desde as fases iniciais, e até mesmo durante a gestação, para estimular o desenvolvimento dessas estruturas.

Alimentos processados

O representante da Corbion, Msc. João Yunes, apresentou tendências de ingredientes naturais e sustentáveis em alimentos processados. Yunes frisou que no Brasil já produzimos a partir da fermentação natural produtos que se mantem na temperatura ambiente, isso, mesmo que acompanhe gerações é inovação. No entanto, para indústria é preciso pensar como manter alimentos fermentados para as prateleiras do mundo inteiro. Ao aprofundar o tema da conservação, o palestrante destacou que a deterioração de produtos cárneos ocorre, basicamente, por dois caminhos: biológico e químico.

Ao falar sobre inovação, ele ressaltou que o primeiro limite é regulatório. “Não adianta desenvolver uma solução se ela não é permitida pela legislação”, pontuou e ressaltou que as regras variam entre países, mas seguem diretrizes semelhantes no mundo todo.

Entre os principais conservantes utilizados na indústria de carnes, destacam-se os ácidos orgânicos e seus derivados, responsáveis por grande parte das aplicações. O ácido lático, por exemplo, origina o lactato, amplamente utilizado no Brasil, especialmente em produtos armazenados em temperatura ambiente. Já o ácido acético dá origem aos acetatos, que atuam de forma complementar, especialmente no controle de microrganismos como a Listeria. Outros compostos incluem os propionatos, com ação antifúngica, e os sorbatos, que também têm aplicação na conservação de alimentos, dependendo da legislação local.

Segundo Yunes, o sucesso na conservação está na combinação adequada desses compostos. “Os conservantes atuam de forma sinérgica. Quando combinamos corretamente, conseguimos aumentar o shelf life e garantir a segurança alimentar”, explicou.

Inteligência artificial

O professor Dr. João Dorea, da University of Wisconsin, abordou o emprego de inteligência artificial na prevenção da qualidade da carne. O foco do trabalho está em integrar dados para tornar a tomada de decisão mais precisa e menos subjetiva. “A ideia é usar inteligência artificial para monitorar o animal e combinar essas informações com outros dados, gerando uma gestão mais eficiente”, explicou. Inicialmente aplicadas dentro das fazendas, agora essas tecnologias começam a avançar também para a indústria, sendo utilizadas no monitoramento de processos após a saída da porteira.

O uso de câmeras, por exemplo, permite acompanhar o comportamento dos animais em larga escala, analisar aspectos como movimentação, postura e possíveis problemas de locomoção. Sistemas de visão computacional conseguem identificar padrões, como a curvatura da coluna ou o posicionamento das articulações o que indica precocemente alterações na saúde do animal. Essas mesmas tecnologias podem ser aplicadas na indústria para avaliar carcaças e contribuir para análises de qualidade da carne.

Dorea explicou a inteligência artificial que desenvolveu para solucionar um desafio prático da indústria da carne: a falta de padronização dos cortes, especialmente em animais mestiços. Utilizando ultrassom, imagens 3D e modelos computacionais, a equipe conseguiu prever ainda no animal vivo características como área e formato do ribeye, corte bastante valorizado comercialmente. Segundo ele, os resultados mostraram que a tecnologia consegue identificar padrões que análises biométricas tradicionais, como peso e comprimento do animal, não conseguem captar com a mesma precisão.

A pesquisa avançou também para a predição da maciez da carne a partir de imagens simples, inclusive feitas com câmera de celular. Em parceria com outros pesquisadores, foi desenvolvido um modelo capaz de estimar esse atributo, que normalmente é difícil de ser percebido até por especialistas apenas pela aparência do bife. Para o pesquisador, esse tipo de ferramenta pode trazer ganhos tanto para a indústria, ao aumentar a previsibilidade e a padronização dos produtos, quanto para o consumidor, que poderá fazer escolhas mais conscientes com base em informações mais confiáveis sobre a qualidade da carne.

O seminário foi encerrado com o painel “Tendências, desafios e perspectivas para o futuro da indústria da carne”, que reuniu o presidente da Aurora Coop, Neivor Canton, o gerente executivo do Sindicarne, Jorge Luiz de Lima, o diretor vice-presidente de Agro e Qualidade da MBRF, Fabio Duarte Stumpf, e o coordenador geral da Mercoagro, Nadir José Cervelin. A discussão abordou os caminhos para manter a competitividade do setor diante de um mercado global mais exigente, com destaque para inovação aplicada, qualidade e eficiência ao longo da cadeia produtiva, além da importância de integrar pesquisa e indústria para transformar conhecimento em resultados e oportunidades de negócios.

Fonte: Assessoria SENAI/SC

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Resultados de pesquisa fortalecem a tomada de decisão no campo

Iniciativas da Aprosoja MT e do Iagro MT, auxiliam produtores com dados técnicos para manejo, redução de riscos e aumento da eficiência produtiva.

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Foto: Bruno Lopes/Aprosoja MT

A pesquisa tem papel fundamental na tomada de decisões no campo, especialmente em momentos estratégicos como o atual, em que a segunda safra de milho já está em desenvolvimento. É nesse período que o produtor acompanha o desempenho da lavoura, observa os impactos das escolhas feitas no plantio e no manejo, e começa a avaliar, de forma mais concreta, o que está funcionando e o que pode ser ajustado.

Nesse cenário, os centros tecnológicos (CTECNOS), iniciativa da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), em parceria com o Instituto Mato-grossense do Agronegócio (Iagro MT), ganham ainda mais relevância ao aproximar o produtor da informação técnica.

Foto: Divulgação

Os trabalhos desenvolvidos nos CTECNOS se destacam como importantes aliados ao oferecerem dados técnicos comparativos e resultados de pesquisas aplicadas à realidade do campo. As informações geradas nesses espaços contribuem para orientar decisões ainda durante a safra, além de servirem como base para o planejamento do próximo ciclo, com foco em maior eficiência produtiva, redução de riscos e melhor aproveitamento dos recursos.

O vice-presidente oeste, Gilson Antunes de Melo, ressalta que a agricultura mato-grossense se destacou e continua se destacando, em grande parte, devido à pesquisa. Tanto no milho quanto na soja, assim como em outras culturas, grande parte da tecnologia aplicada no dia a dia da lavoura é resultado de estudos e pesquisas desenvolvidas.

“Os CTECNOS têm um papel fundamental nesse processo. Eles realizam uma pesquisa diferenciada, pois partem das demandas do próprio produtor. Quando surge uma dúvida no campo, essa necessidade é levada ao CTECNO, que, por meio de estudos, valida e retorna os resultados ao produtor. Dessa forma, há maior confiança nas informações apresentadas, o que facilita a adoção das práticas na lavoura e contribui para a obtenção de melhores resultados”, destaca Gilson.

Foto: Jaelson Lucas/AEN

O coordenador do CTECNO Araguaia, André Somavilla, explica que o período de colheita da soja é fundamental para o potencial produtivo da lavoura do milho. Ele destaca que, se a soja for semeada de forma mais tardia, fazendo com que a colheita avance para os meses de fevereiro/março, consequentemente a entrada da cultura do milho também ocorrerá mais tarde.

“Basicamente, o período vegetativo do milho vai corresponder ao período em que ainda há ocorrência de chuvas, que, em anos normais, se estende até início de abril. Então, o período de colheita da soja impacta diretamente na disponibilidade hídrica para a segunda safra. E a pesquisa se encaixa perfeitamente nesse momento de colheita da soja e plantio da segunda safra, de modo que a gente consegue estimar os potenciais de risco para cada região”, complementa o coordenador.

Foto: Divulgação

Para a pesquisadora do CTECNO Parecis, Daniela Basso Facco, os resultados obtidos nos centros de pesquisa, ajudam os produtores desde o planejamento da lavoura até a fase de condução dos tratos culturais. “Desde a semeadura, os resultados das vitrines de híbridos, por exemplo, podem auxiliar os produtores na escolha do híbrido, no posicionamento em função do ambiente e da época de semeadura”, explica Daniela Basso Facco.

Neste mês, a programação dos CTECNOS ganha reforço com a realização das visitas técnicas nos centros Araguaia e Parecis. Os encontros acontecem nos dias 23 e 29 de abril, respectivamente, e serão uma oportunidade para que produtores e profissionais do agro acompanhem de perto os resultados das pesquisas e levem esse conhecimento para a prática no campo.

Fonte: Assessoria Aprosoja MT
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Gramíneas elevam produtividade da soja em até 15% no Brasil

Estudo com 55 pesquisas em 33 localidades aponta ganhos de até 515 kg por hectare e melhora na saúde do solo.

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Fotos: Ieda Mendes

Uma análise em escala nacional confirmou o potencial das gramíneas tropicais de raízes profundas, como a braquiária, para impulsionar a produtividade da soja e promover a saúde do solo. O estudo, liderado pela Embrapa e publicado na Revista Agronomy, consolida evidências de diferentes pesquisas realizadas no Brasil e reforça o papel dessas plantas na intensificação sustentável da agricultura.

Foto à direita: Lourival Vilela (sistema radicular de braquiária)

As informações foram obtidas a partir de uma meta-análise conduzida por pesquisadores da Embrapa Cerrados (DF), em parceria com a Embrapa Solos (RJ), o Instituto Federal Catarinense (IFC) e a Universidade Federal Tecnológica do Paraná (UTFPR). A meta-análise é um método científico que reúne e analisa resultados de diversos estudos sobre um mesmo tema, permitindo conclusões mais robustas.

“As gramíneas tropicais estão cada vez mais presentes nos sistemas agrícolas brasileiros. No entanto, ainda faltava uma avaliação em escala nacional sobre os impactos dessa prática na saúde do solo e na produtividade da soja. Realizamos esse trabalho para cobrir essa lacuna”, afirmou a pesquisadora da Embrapa Cerrados Ieda Mendes.

Segundo Mendes, a meta-análise publicada na revista Agronomy utilizou 55 trabalhos publicados até fevereiro de 2026 (confira critérios de inclusão no quadro abaixo), abrangendo ensaios de campo conduzidos em 33 localidades no Brasil. O objetivo foi avaliar os efeitos de gramíneas tropicais de raízes profundas, utilizadas como culturas antecessoras (plantas cultivadas antes da implantação da cultura principal anual), sobre indicadores biológicos da saúde do solo e a produtividade da soja.

Resultados

Os resultados mostraram que as gramíneas tropicais de raízes profundas, especialmente do gênero Urochloa (antes chamado Brachiaria, que originou o termo braquiária), promovem aumento de 15% na produtividade da soja, o que representa um incremento médio de 515 kg por hectare e uma receita adicional de US$ 198 por hectare. A análise de diferentes espécies forrageiras, sistemas de manejo, cultivares de soja e condições edafoclimáticas indicou efeitos positivos em todas as situações avaliadas.

No caso das braquiárias, considerando que são utilizados de 3 a 10 kg por hectare de sementes para o seu estabelecimento, com preço médio de três dólares por quilo, o custo para sua introdução nos agroecossistemas é relativamente baixo, variando entre US$ 9 e US$ 30 por hectare.

De acordo com a pesquisadora, os indicadores de saúde do solo nas áreas cultivadas com as braquiárias também apresentaram incrementos expressivos, com destaque para a atividade das enzimas arilsulfatase (+35%) e β-glicosidase (+31%), seguidas pela fosfatase ácida (+20%), e pelo carbono da biomassa microbiana (+24%) e carbono orgânico (+11%).

Efeito de gramíneas tropicais de raízes profundas como culturas antecessoras, na produtividade de grãos de soja e atributos do solo (atividade enzimática, biomassa microbiana e carbono orgânico total). Os valores representam as médias dos efeitos, e as barras horizontais indicam os intervalos de confiança de 95%, com o número de comparações apresentado entre parênteses. Os círculos pretos indicam a média do efeito para cada variável. A área em verde destaca a produtividade de grãos de soja como a principal variável de resposta agronômica

“De forma geral, as enzimas do solo responderam com maior intensidade ao uso de gramíneas tropicais, com aumentos médios de cerca de 31% — quase três vezes superiores aos observados para o carbono orgânico. Esse resultado reforça o potencial dessas enzimas como indicadores sensíveis das mudanças na saúde do solo. É importante destacar que durante a busca na literatura foram identificadas publicações sobre os efeitos das gramíneas tropicais nos atributos químicos e físicos do solo. No entanto, devido ao baixo número de comparações disponíveis, esses estudos não puderam ser incluídos na meta-análise”, explicou a pesquisadora.

Das 55 publicações avaliadas, nenhuma corresponde ao período entre 2000 e 2010. Dezoito estudos foram publicados entre 2011 e 2020, enquanto 37 foram publicados entre 2021 e 2025. Esse aumento expressivo ao longo do tempo reflete o crescente interesse pelo uso de gramíneas de raízes profundas na agricultura brasileira.

Outro dado relevante é que, de um total de 173 comparações avaliadas, 154 apresentaram ganhos de produtividade, variando de 30 a 2.200 kg por hectare. Apenas 19 comparações (11%) indicaram reduções, com perdas entre 11 e 672 kg por hectare. Na maioria dos casos, essas reduções não foram estatisticamente significativas e estavam associadas a falhas de manejo no estabelecimento das gramíneas.

Segundo a pesquisadora, os resultados confirmam os efeitos benéficos das gramíneas tropicais de raízes profundas e destacam sua contribuição para a intensificação sustentável dos sistemas agrícolas tropicais, especialmente pela capacidade de melhorar a saúde do solo. “Isso, por sua vez, resulta no aumento da produtividade da soja na maioria das condições agronômicas e ambientais”, afirmou.

Implicações para a intensificação sustentável

Pesquisador Lourival Vilela, um dos autores do trabalho, e a profundidade das raízes

De acordo com a pesquisadora, essa meta-análise forneceu evidências robustas de que gramíneas tropicais de raízes profundas, especialmente espécies do gênero Urochloa, devem ser reconhecidas não apenas como plantas de cobertura, mas como poderosos insumos biológicos em sistemas agrícolas regenerativos e conservacionistas.

“Sua capacidade de fornecer múltiplos serviços ecossistêmicos — como a promoção da atividade microbiana, a melhoria da agregação do solo e da ciclagem de nutrientes, o aumento dos estoques de carbono orgânico e a maior infiltração de água — posiciona essas gramíneas na vanguarda das soluções baseadas na natureza para a intensificação sustentável”, afirma.

Nesse contexto, essas gramíneas funcionam como bioinsumos vivos, capazes de regenerar simultaneamente a saúde do solo e aumentar a produtividade das culturas. Segundo Ieda Mendes, essa abordagem amplia o conceito de bioinsumos: passa a incluir não apenas produtos formulados, mas também organismos vivos como as plantas, que interagem com os agroecossistemas para promover resiliência, eficiência e sustentabilidade.

“A adoção em larga escala dessas gramíneas como culturas antecessoras em sistemas de produção de soja representa, portanto, não apenas uma solução tecnológica, mas um investimento estratégico no solo como um ativo vivo, que reforça o papel central da funcionalidade biológica na promoção da sustentabilidade, da produtividade e da resiliência dos agroecossistemas”.

Fonte: Assessoria Embrapa Cerrados
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Itaipu avalia potencial de ampliar geração com energia solar no reservatório

Estudos indicam capacidade teórica relevante ainda dependente de avanços técnicos regulatórios.

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Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O reservatório de água da usina de Itaipu, na fronteira do Brasil com o Paraguai, na Região Sul do país, possui cerca de 1,3 mil quilômetros quadrados (km²) de perímetro, com quase 170 km de extensão, desde a barragem até o lado oposto, e uma largura média de 7 km entre as margens direita e esquerda.

Toda a capacidade hidrelétrica contida na área inundada do Rio Paraná, que move turbinas que geram até 14 mil megawatts (MW) de energia elétrica, também pode ser aproveitada para gerar eletricidade a partir de painéis solares instalados justamente sobre o espelho d’água. Esse é o experimento que vem sendo estudado por técnicos brasileiros e paraguaios desde o fim do ano passado.

Ao todo, foram instalados 1.584 painéis fotovoltaicos em uma área de menos de 10 mil metros quadrados (m²) sobre o lago, a apenas 15 metros de um trecho da margem no lado paraguaio, com profundidade de aproximadamente 7 metros.

A planta solar de Itaipu tem capacidade de gerar 1 megawatt-pico (MWp), unidade de medida para a capacidade máxima de geração de energia. Essa energia é equivalente ao consumo de 650 casas e só é utilizada para consumo interno, sem comercialização e sem ligação direta com a rede de geração hidrelétrica.

Na prática, o objetivo atual da “ilha solar” de Itaipu é funcionar como um laboratório de pesquisa para futuras aplicações comerciais. Os engenheiros envolvidos no projeto analisam todos os aspectos, como a interação das placas com o ambiente, incluindo eventuais impactos no comportamento de peixes e algas, na própria temperatura da água, influência dos ventos sobre o desempenho do painéis, a estabilidade da estrutura, dos flutuadores e da ancoragem com o solo.

A ideia, no futuro, é expandir a geração de energia elétrica por esta via, algo que precisará ser atualizado no próprio Tratado de Itaipu, assinado em 1973 entre Brasil e Paraguai e que viabilizou a colossal obra de engenharia compartilhada. “Se falarmos em um potencial bem teórico, uma área de 10% do reservatório, coberta com placas solares, seria o mesmo que outra usina de Itaipu, em termos de capacidade de geração. Claro que isso não está no planos, pois seria uma área muito grande e depende ainda de muitos estudos, mas mostra o potencial dessa pesquisa”, apontou o superintendente de Energias Renováveis da Itaipu Binacional, Rogério Meneghetti.

Estimativas preliminares indicam que seriam necessários pelo menos quatro anos de tempo de instalação para atingir uma geração solar de 3 mil megawatts (algo como 20% da capacidade instalada da hidrelétrica atualmente).

O investimento é de US$ 854,5 mil (cerca de R$ 4,3 milhões na cotação atual). As obras de instalação foram tocadas por um consórcio binacional formado pelas empresas Sunlution (brasileira) e Luxacril (paraguaia), vencedor da licitação.

Uma usina, muita fontes

A diversificação de fontes de energia na Itaipu Binacional não se limita aos estudos em energia solar, mas envolve projetos ousados com hidrogênio verde e baterias.

Essas iniciativas estão em desenvolvimento no Itaipu Parquetec, um ecossistema de inovação e tecnologia, criado em 2003 pela Itaipu Binacional em Foz do Iguaçu (PR). Conta com parceria de universidades e empresas públicas e privadas e já formou mais de 550 doutores e mestres em diferentes áreas.

Ali, funciona o Centro Avançado de Tecnologia de Hidrogênio, que desenvolve o hidrogênio verde. O hidrogênio é denominado “verde”, ou sustentável, porque ele pode ser obtido sem emissão de gás carbônico (CO₂), causador do efeito estufa e, por consequência, do aquecimento global.

A técnica usada no Itaipu Parquetec é o processo da eletrólise da água, que promove a separação dos elementos químicos a partir de moléculas como a da água (H₂O), por meio do uso de equipamentos em processos químicos automatizados feitos em laboratórios.

Foz do Iguaçu (PR), 14/04/2026 - Itaipu Parquetec, centro tecnológico de inovação que integra entidades como instituições de ensino, empresas e órgãos governamentais, da Itaipu Binacional. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Foz do Iguaçu (PR), 14/04/2026 – Itaipu Parquetec, centro tecnológico de inovação da Itaipu Binacional. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O hidrogênio verde é versátil e pode servir como insumo sustentável para a cadeia de produção industrial, incluindo siderúrgica, química, petroquímica, agrícola, alimentícia entre outras, e como combustível para o mercado de energia e transporte. Em Itaipu, uma planta de produção do hidrogênio verde serve como uma plataforma para desenvolvimento de projetos-piloto.

“Nós somos uma plataforma tecnológica, então trabalhamos para atender, por exemplo, projetos de pesquisa [científica] ou projetos para indústria nacional. Existem algumas empresas nacionais que estão fazendo seus desenvolvimentos de carreta [movida] a hidrogênio, de ônibus a hidrogênio, por exemplo. Aqui é o lugar para testar e validar esses projetos”, explica Daniel Cantani, gerente do Centro de Tecnologia de Hidrogênio do Itaipu Parquetec.

Uma dessas iniciativas foi apresentada durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, quando um barco movido a hidrogênio, a partir de uma pesquisa no Itaipu Parquetec, foi entregue para atuar na coleta seletiva das comunidades ribeirinhas no entorno da capital paraense.

Outro destaque no Itaipu Parquetec é um centro de gestão energética, que alavanca pesquisas na área de desenvolvimento de células e protótipos para fabricação e reaproveitamento de baterias, para o armazenamento de energia, especialmente em sistemas estacionários, voltados para empresas ou outras estações fixas, que demandam, por exemplo, uma reserva energética.

Biogás e SAF

A Itaipu também vem apostando na geração de biogás a partir de resíduos orgânicos gerados pelos restaurantes espalhados por diferentes alas da usina e de materiais apreendidos pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) e pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA-Vigiagro), em fiscalização de fronteira.

Tudo isso, em vez de ser descartado em aterro, transforma-se em biogás e biometano.

A convite da Itaipu Binacional, a Agência Brasil acompanhou, no último dia 13 de abril, a reinauguração da Unidade de Demonstração de Biocombustíveis que fica no complexo da usina. O local é gerido pelo Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás), uma empresa fundada por Itaipu voltada a soluções na área de combustível limpo.

Por um processo de biodigestão realizado em grandes tanques, alimentos oriundos de contrabando e outros resíduos orgânicos gerados na região são transformados em combustível limpo, capaz de abastecer carros que circulam dentro de Itaipu, abastecidos por meio de cilindros de gás instalados nos veículos.

Foz do Iguaçu (PR), 13/04/2025 - Unidade de Produção de Hidrocarbonetos Renováveis e de Demonstração de Biocombustiveis da Usina Itaipu Binacional. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Foz do Iguaçu (PR), 13/04/2026 – Unidade de Produção de Hidrocarbonetos Renováveis e de Demonstração de Biocombustíveis da Usina Itaipu Binacional. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Em quase nove anos de operação, segundo a usina, foram processadas mais de 720 toneladas de resíduos orgânicos, volume que resultou na geração de biometano suficiente para percorrer cerca de 480 mil quilômetros, o equivalente a 12 voltas ao redor da Terra.

A planta também desenvolve, de forma experimental, o bio-syncrude, um óleo sintético que pode ser usado na produção de SAF (Combustível Sustentável de Aviação, na sigla em inglês).

“Eu acredito que nos próximos 10 anos, nós vamos ver muito sobre os combustíveis avançados. Vamos ouvir muito sobre o hidrogênio, sobre o SAF, inclusive por conta da lei de combustíveis futuro, que vem aí com mandato. Biometano e SAF são os assuntos do momento”, destaca Daiana Gotardo, diretora técnica do CIBiogás.

Fonte: Agência Brasil
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