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Selo internacional impulsiona investimentos na pecuária do Paraná
Conquista da certificação como área livre de febre aftosa sem vacinação completou um ano em maio. Em evento no Palácio Iguaçu, governo e entidades do setor produtivo relembraram esforços e projetaram futuro promissor

A celebração em pleno Palácio Iguaçu, sede do governo do Estado, em Curitiba, não foi à toa. Um ano depois de obter o reconhecimento internacional como área livre de febre aftosa sem vacinação, o Paraná agora colhe os frutos de esforços realizados ao longo dos últimos 50 anos e que culminaram com a estruturação de um sistema sanitário robusto. Nessa nova fase, o Estado já recebe investimentos bilionários e tem perspectivas de avançar em direção a mercados internacionais mais sofisticados, que pagam mais por produtos advindos de áreas certificadas. O futuro é promissor.

Presidente do Sistema FAEP/SENAR-PR, Ágide Meneguette: “Para um futuro próximo, os ganhos de nosso esforço sanitário já estão claramente definidos, com as plantas agroindustriais que deverão entrar em funcionamento, a ampliação das já existentes e com os investimentos que os produtores rurais fizeram e estão fazendo para abastecer esse parque fabril” – Fotos: Divulgação/Faep/Senar/PR
Esse cenário foi delineado no evento realizado no dia 31 de maio, em comemoração ao marco de um ano da certificação pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE). No palco, autoridades como o governador Carlos Massa Junior; o presidente do Sistema FAEP/SENAR-PR, Ágide Meneguette; o secretário de Estado de Agricultura e Abastecimento, Norberto Ortigara; o presidente da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), Otamir Martins, entre outras autoridades políticas e representantes de entidades do setor agropecuário, evidenciaram os prognósticos positivos para o Estado.
“Para um futuro próximo, os ganhos de nosso esforço sanitário já estão claramente definidos, com as plantas agroindustriais que deverão entrar em funcionamento, a ampliação das já existentes e com os investimentos que os produtores rurais fizeram e estão fazendo para abastecer esse parque fabril”, disse Meneguette, que também apontou a necessidade de se manter firme a vigilância. “Isso é uma vitória de todos nós e, evidentemente, traz uma responsabilidade muito maior: manter a conquista é até mais difícil do que a própria conquista”, acrescentou.

Governador do Paraná, Carlos Massa Ratinho Junior: “A gente não quer ser apenas mais um grande produtor de alimentos. Nós queremos ser o supermercado do mundo.
Para o governador Carlos Massa Ratinho Junior, o reconhecimento internacional inaugurou uma nova etapa produtiva, que colocou o Paraná em pé de igualdade com os maiores produtores agropecuários do mundo e com condições de disputar os mercados mais sofisticados. Agora, no entanto, o governador vislumbra um passo muito mais ousado.
“A gente não quer ser apenas mais um grande produtor de alimentos. Nós queremos ser o supermercado do mundo. Queremos industrializar tudo o que nós produzimos. O objetivo é que tudo o que temos de matéria-prima passe por uma grande fábrica e que possamos entregar isso embalado, refrigerado para o planeta”, disse o governador. “O reconhecimento internacional foi um trabalho estratégico que tem muito do passado, mas também muito de presente, olhando para o futuro”, definiu.

Secretário estadual de Agricultura e Abastecimento (Seab), Norberto Ortigara: “Nós não trabalhamos para ter um selo na parede, um certificado bonitinho. Trabalhamos para gerar oportunidade de emprego, renda e agregar valor ao que produzimos”
Alinhado à visão do governador, o apontou que, além de manter a vigilância sanitária, o Paraná precisa centrar esforços na conquista de novos mercados internacionais. Ele adiantou que o Estado já tem reuniões agendadas para finalizar protocolos de comercialização com o Japão e a Coreia do Sul. Em novembro, uma missão empresarial paranaense deve viajar ao Japão, para negociar a venda de carnes bovina e suína. Todo esse esforço comercial só se tornou possível por causa da certificação internacional.
“Nós não trabalhamos para ter um selo na parede, um certificado bonitinho. Trabalhamos para gerar oportunidade de emprego, renda e agregar valor ao que produzimos”, enfatizou. “Volume [de produção], nós temos. Qualidade, nós temos e vamos continuar melhorando. Temos a sanidade reconhecida e mantida. Também temos preço. Agora, falta-nos exercitar o papel de caixeiro-viajante, com a maletinha debaixo do braço, com o bom propósito de disputar positivamente os mercados internacionais”, avaliou.
Investimentos
Parte significativa dos aportes catapultados pelo novo status sanitário vem das cooperativas. Só neste ano, o setor cooperativo vai investir R$ 4,2 bilhões. Deste total, R$ 700 milhões serão destinados a construção ou ampliação de plantas de abates de suínos. Além disso, o segmento deve destinar R$ 900 milhões à infraestrutura de armazenagem e recepção de agroindústrias e R$ 400 milhões em indústrias de ração animal. Tudo isso se soma a outros investimentos que já vinham sendo feitos ao longo dos últimos anos, quando o Estado ainda se preparava para obter o reconhecimento internacional pela OIE.
“Nós replanejamos atividades e vamos investir”, garantiu o presidente do Sistema Ocepar, José Roberto Ricken. “Foram abertas novas relações comerciais, porque de nada adiantaria se não conseguíssemos capitalizar [o reconhecimento internacional] com resultado para os produtores e para a sociedade do Paraná. E isso vem acontecendo. Vamos crescer juntos”, apontou.
O novo momento sanitário foi decisivo, por exemplo, para que um novo grupo empresarial – o Agro Laranjeiras – se instalasse no Paraná. A empresa vai investir R$ 380 milhões na construção de uma maternidade de leitões em Laranjeiras do Sul, na região Centro-Sul do Estado. A perspectiva é de que o empreendimento produza 20 mil leitões por semana, consumindo 3,5 milhões de sacas de milho e 1,2 milhão de sacas de soja. Tudo isso deve gerar mais de 200 empregos diretos e 800 indiretos, impulsionando a geração de renda na região.
“E por que viemos para cá? Porque o Paraná é o Estado que mais está crescendo e queremos participar disso. Escolhemos para estarmos em uma área certificada, livre de febre aftosa”, disse o acionista e desenvolvedor do projeto da Agro Laranjeiras, Jorge Munari. “Ao atingir a qualidade sanitária e manter um sistema sólido de vigilância, isso só tende a crescer”, avaliou.
A certificação internacional também foi fator preponderante para que a Agroceres Pic – líder no mercado de genética de suínos – decidisse investir no Paraná. A empresa vai construir um núcleo genético em Paranavaí, no Noroeste do Estado, em um complexo com três unidades, em uma área de 85 mil metros quadrados. A previsão é que a primeira unidade seja inaugurada ainda em junho deste ano. O empreendimento terá capacidade de alojar 3,6 mil fêmeas de elite, produzindo 110 mil suínos por ano, de olho também no mercado internacional. Segundo a empresa, será a maior unidade da América do Sul.
“Sem esse status sanitário, não seria possível fazer esse investimento, que é o mais robusto da nossa história. Escolhemos a região justamente pela biosseguridade elevada. Será uma unidade que vai exportar animais para a América e outros continentes, caso tenhamos esses acordos bilaterais”, anunciou o veterinário Gustavo Simão, que representou a Agroceres Pic no evento.
Presidente da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), o deputado estadual Anibelli Neto louvou a nova fase da agropecuária paranaense, destacando a importância do setor como base de crescimento da economia como um todo.
“Na campanha, quando o governador falou que o milho viraria nuggets, alguns não entenderam. Hoje está claro: o milho vira ração, a ração alimenta o frango, que depois pega mais valor agregado e é processado, virando nuggets. Isso é visão estratégica”, discursou o parlamentar.
Líder absoluto
Apesar dos impactos provocados pela pandemia do novo coronavírus nos últimos anos, o Paraná consolidou sua liderança como maior fornecedor de proteína animal do Brasil. Responsável por um terço da produção de frangos de corte do país, o Estado ampliou sua participação para 4,8 bilhões de toneladas em 2020 – expansão de 8% em relação ao ano anterior. Na suinocultura, o avanço na produção foi de 9%, ultrapassando 1 milhão de toneladas produzidas. Com isso, o Paraná responde por 20% do mercado de suínos, atrás apenas de Santa Catarina.
Na piscicultura, o Paraná também está consolidado na liderança, com 22% da produção nacional de tilápias (188 mil toneladas). E a projeção para os próximos três anos é de expansão a um índice de 20% ao ano. Se esse cenário se concretizar, o setor deve chegar a 2025, atingindo os R$ 2 bilhões no Valor Bruto de Produção (VBP), conforme estimativa do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Estado de Agricultura e Abastecimento (Seab). Na bovinocultura de corte, o Paraná se mantém em quarto colocado, com 1,2 milhão de toneladas abatidas.
Esforços conjuntos
A consolidação do sistema sanitário do Paraná é resultado de uma extensa trajetória, que congregou esforços das esferas pública e privada, em torno do objetivo comum de tornar o Estado uma referência em sanidade animal. Nesse sentido, o Sistema FAEP/SENAR-PR foi pioneiro, ao investir em diferentes frentes que tornaram a sanidade agropecuária uma prioridade aos diferentes governos que passaram pelo Palácio Iguaçu. Ao mesmo tempo, a entidade auxiliou em ações que exigiram mobilização, coordenou missões de lideranças políticas e administrativas e promoveu viagens para técnicos e produtores, fomentando a cultura da importância da sanidade animal para o agronegócio.
Um dos destaques dessa mobilização foi a criação do Fundo de Desenvolvimento Agropecuário do Estado do Paraná (Fundepec), que mantém recursos para o estabelecimento de políticas ou para indenizar produtores caso sejam necessários abates sanitários emergenciais. Outro ponto importante foi a sanção da Lei 11.504/96 – a chamada Lei da Sanidade –, que permitiu um aperfeiçoamento e modernização das normas e regras, facilitando ao produtor cumprir as reponsabilidades na manutenção sanitária.
Paralelamente, o SENAR-PR passou a colaborar de forma efetiva na formação técnica de profissionais. Foram centenas de treinamentos e capacitações, contribuindo de forma substancial para a formação de recursos humanos da defesa sanitária paranaense, além de contribuir na formação da consciência sanitária dos produtores. Com esses esforços coletivos, o número de casos de febre aftosa no Paraná chegou a zero ainda em 1996.
Na última década, esse processo ganhou fôlego, mirando a conquista do reconhecimento como área livre de febre aftosa sem vacinação. A estruturação sanitária incluiu a reativação dos Conselhos de Sanidade Agropecuária (CSAs) e instalação de Postos de Fiscalização de Transporte Animal (PFTA), nas divisas do Paraná com outros Estados.
Adapar completa 10 anos
O evento também marcou os 10 anos de criação da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), autarquia estadual que tem por finalidade fiscalizar e promover a inspeção sanitária dos produtos de origem animal, além de fomentar a prevenção, o controle e a erradicação de doenças nas cadeias animal e vegetal.
O presidente da entidade, Otamir Martins, enalteceu seus servidores, que estão “24 horas por dia, sete dias por semana, trabalhando na vigilância ativa para preservar esse status sanitário”. Esses profissionais, segundo o dirigente, têm relação direta com o desenvolvimento econômico proporcionado pelo reconhecimento internacional.
“A sanidade é um ativo para os produtos agropecuários paranaenses e, com este atributo, podemos inserir o nosso agro nos mercados que melhor remuneram. O avanço neste um ano somente foi possível pela união de esforços de serviço público e os órgãos da iniciativa privada”, apontou Martins. “Estamos construindo o futuro”, concluiu.

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Exportações de carne bovina de Mato Grosso crescem mais de 50%
Resultado foi impulsionado pela demanda internacional e valorização da tonelada embarcada.

Mato Grosso voltou a se destacar no cenário internacional da carne bovina ao registrar um desempenho recorde no primeiro trimestre de 2026. O estado exportou 251,83 mil toneladas em equivalente carcaça (TEC), volume que representa 26,72% de toda a carne bovina embarcada pelo Brasil no período — o maior já registrado para um primeiro trimestre na série histórica.
O resultado expressivo também aparece na comparação anual. Em relação ao mesmo período de 2025, o crescimento foi de 53,39% no volume exportado. Já a receita atingiu US$ 1,11 bilhão, alta de 74,71%, impulsionada tanto pelo aumento da demanda internacional quanto pela valorização da tonelada embarcada, que alcançou média de US$ 4,54 mil.

A China manteve-se como principal destino da carne mato-grossense no trimestre, concentrando 50,82% dos embarques, o equivalente a 127,97 mil TEC. O país asiático segue como motor da demanda global, sustentando volumes elevados de importação. No entanto, outros mercados começam a ganhar relevância. Os Estados Unidos aparecem na segunda posição, com 9,14% das compras (23,03 mil TEC), e chamam atenção pelo ritmo de crescimento: em apenas três meses, já adquiriram 57,38% de todo o volume exportado para o país ao longo de 2025.
Na avaliação do diretor de Projetos do Instituto Mato-grossense da Carne (Imac), Bruno de Jesus Andrade, o resultado reflete um conjunto de fatores que vêm fortalecendo a pecuária. “Mato Grosso tem avançado na abertura de mercados e na valorização da sua carne. Esse crescimento mostra não só a força da produção, mas também a confiança dos compradores internacionais na qualidade e na regularidade do produto”.
“Além de volume, estamos ganhando valor. Isso passa por uma combinação de eficiência produtiva, melhoria genética, manejo e, cada vez mais, pela adoção de práticas sustentáveis, que são exigências dos mercados mais exigentes”, enfatiza o diretor de Projetos do Imac.
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Brasil abre mercado para exportação de miúdos bovinos ao Vietnã
Negociação amplia oportunidades para a cadeia da carne e reforça presença em um dos principais destinos do agro brasileiro.

O governo brasileiro concluiu negociações com o Vietnã que permitirão a exportação de miúdos bovinos (coração, fígado e rins) para aquele mercado.
A abertura fortalece o comércio com o quarto principal destino das exportações do agronegócio brasileiro e amplia as oportunidades para a cadeia bovina nacional, ao favorecer o aproveitamento integral do animal.
O Vietnã importou mais de US$ 3,5 bilhões em produtos agropecuários brasileiros em 2025, com destaque para milho, complexo soja, fibras e produtos têxteis.
Com esse anúncio, o agronegócio brasileiro alcança 592 aberturas de mercado desde o início da atual gestão.
Esse resultado decorre da atuação coordenada do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e do Ministério das Relações Exteriores (MRE).
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Produzir mais, pressionar menos: o que mudou na pecuária brasileira em duas décadas
Ganhos de produtividade superiores a 70% por hectare reposicionaram a eficiência como eixo central da atividade.

O tamanho do rebanho de gado no Brasil segue impressionante. O que mudou foi a lógica: produzir carne deixou de ser apenas uma equação de escala e passou a depender cada vez mais de produtividade por área, desempenho e eficiência técnica. Durante décadas, a pecuária brasileira foi interpretada principalmente pela ótica territorial. Mais área significava mais animais. Mais animais significavam mais produção. Era uma leitura coerente com o contexto histórico de expansão agrícola e disponibilidade de terras, em que crescimento frequentemente se confundia com ocupação geográfica. Essa matemática já não explica sozinha o desempenho da atividade.
Os dados consolidados no Beef Report 2025, publicado pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) em junho de 2025, indicam uma mudança objetiva na base produtiva da pecuária de corte. O Brasil ampliou a produção de carne bovina mesmo em um cenário de redução da área de pastagem, revelando uma transformação estrutural na forma como o setor cresce.

De acordo com o documento, o rebanho brasileiro atingiu em 2024 a marca estimada de 193,93 milhões de cabeças, acumulando crescimento de 11% em relação a 2004. No mesmo intervalo de 20 anos, porém, a área destinada às pastagens recuou aproximadamente 11%, totalizando 160,54 milhões de hectares.
O contraste entre esses movimentos traduz uma das mudanças mais relevantes da pecuária moderna: o crescimento deixa de depender exclusivamente da expansão territorial e passa a ser sustentado por ganhos de produtividade e produção intensiva.
Ainda conforme o Beef Report 2025, a produtividade média nacional saltou de 2,8 arrobas por hectare/ano, em 2004, para quase 5 arrobas por hectare/ano em 2024, avanço superior a 70% em duas décadas. A escala permanece relevante, mas deixou de ser suficiente.
O retrato produtivo

Ainda de acordo com o Beef Report 2025, o Brasil registrou em 2024 o maior volume de produção de carne bovina de sua série histórica. Foram 11,81 milhões de toneladas equivalente carcaça (TEC), resultado sustentado pelo abate estimado de 45,94 milhões de cabeças. Mais do que um dado volumétrico, o número reforça uma mudança conceitual importante: o desempenho da cadeia passa a depender não apenas da quantidade de animais, mas do rendimento biológico e da eficiência produtiva.
Nesse contexto, o relatório aponta que o peso médio de carcaça atingiu 257,13 kg, com destaque para os machos, que registraram média de 295,16 kg. O avanço dialoga diretamente com fatores técnicos, como genética, nutrição estratégica, manejo de pastagens, suplementação e sistemas de terminação intensiva. Outro indicador relevante é o desfrute real, estimado em 22,13%, refletindo maior giro produtivo dentro do sistema.
Abate recorde e leitura metodológica
Os números de abate, contudo, exigem uma leitura estatística cuidadosa. Enquanto o Beef Report 2025 apresenta estimativas consolidadas para 2024, os dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), analisados pelo Cepea e divulgados em 20 de fevereiro de 2026, apontam que o Brasil registrou em 2025 o abate recorde de 42,5 milhões de cabeças.

A diferença entre os volumes não representa inconsistência, mas distinção metodológica. Relatórios setoriais trabalham com estimativas e modelagens de mercado, enquanto o IBGE registra o abate efetivamente apurado na série estatística oficial.
Ainda de acordo com pesquisadores do Cepea, o recorde de 2025 esteve associado ao avanço do ciclo pecuário, aos investimentos realizados no campo desde 2020 e ao elevado descarte de fêmeas. Esse último fator, em especial, ajuda a compreender a dinâmica recente da oferta.
O ciclo pecuário e o peso do descarte de fêmeas
A pecuária bovina opera sob ciclos biológicos relativamente longos, em que decisões reprodutivas impactam a oferta futura de animais. O aumento do abate de fêmeas observado nos últimos anos, conforme apontam análises do Cepea, tem relação direta com a fase do ciclo pecuário. Em momentos de maior descarte, há ampliação da oferta no curto prazo, mas também efeitos estruturais sobre a recomposição do rebanho.
Ainda segundo pesquisadores, esse movimento reflete ajustes econômicos dentro das fazendas. Custos crescentes, pressão sobre margens, necessidade de giro financeiro e estratégias de manejo influenciam decisões de retenção ou descarte. O resultado é uma dinâmica de mercado em que oferta e preço passam a interagir de forma mais sensível.
Distribuição do gado: escala e concentração regional

Sob a ótica geográfica, a distribuição do rebanho brasileiro mantém padrões históricos, mas revela contrastes importantes. Conforme o Beef Report, o Centro-Oeste segue como principal polo pecuário do país, concentrando aproximadamente 62 milhões de cabeças, o equivalente a 32% do rebanho nacional.
A liderança regional está associada não apenas à escala, mas à presença de sistemas produtivos estruturados, que combinam recria, terminação, confinamento, integração lavoura-pecuária e uso intensivo de tecnologia.
A região Norte, por sua vez, apresenta o crescimento mais expressivo nas últimas duas décadas. Segundo o documento, o rebanho nortista expandiu cerca de 60% em 20 anos, alcançando 50,43 milhões de cabeças em 2024. Esse avanço ajuda a explicar a crescente relevância de estados como Pará e Rondônia no cenário pecuário nacional.
Ao detalhar por estados, o mapa confirma a concentração do rebanho em regiões tradicionalmente vocacionadas à pecuária extensiva e semi-intensiva. Mas o dado territorial, isoladamente, já não traduz competitividade.
Mato Grosso lidera com 28,43 milhões de cabeças
Minas Gerais soma 19,42 milhões
Pará registra 19,07 milhões
Goiás contabiliza 17,93 milhões
Mato Grosso do Sul apresenta 15,92 milhões
O vetor central: produtividade e eficiência técnica

Foto: Divulgação
Embora a distribuição espacial continue sendo referência estratégica, os dados indicam que o eixo central da competitividade desloca-se progressivamente para produtividade. Ainda de acordo com o Beef Report, a taxa média de ocupação das pastagens atingiu 1,21 cabeça por hectare, enquanto a lotação média foi estimada em 0,93 UA/ha. Esses indicadores sugerem intensificação gradual dos sistemas.
O ponto crítico, porém, é conceitual. A nova lógica da pecuária não se resume a manter mais animais por área, mas a extrair mais produção por unidade de recurso – seja terra, dieta, genética ou tempo de ciclo. Essa mudança altera decisões produtivas, investimentos e estratégias de manejo.
Produção sem expansão territorial: eficiência da terra
O avanço da produtividade dentro de uma base territorial relativamente menor representa uma das mudanças mais relevantes do setor. De acordo com o Beef Report, entre 2004 e 2024 a produção de carne bovina cresceu mais de 25%, enquanto a área de pastagem recuou.
Esse movimento indica que a pecuária brasileira vem operando sob lógica de eficiência territorial, em que crescimento passa a ser sustentado por intensificação técnica, e não por abertura de novas áreas. O dado é central para o debate contemporâneo sobre sustentabilidade, uso da terra e pressão ambiental.
Confinamento: intensificação como vetor produtivo
Um dos reflexos mais evidentes dessa transição aparece na terminação intensiva. Conforme o Beef Report, o Brasil confinou em 2024 cerca de 8,8 milhões de cabeças, volume recorde que representou aproximadamente 19% do total abatido (gráfico 1). O avanço reforça o papel da nutrição estratégica, da previsibilidade produtiva e do controle de indicadores técnicos.
Mais do que acelerar ciclos, o confinamento permite maior padronização, controle de desempenho e eficiência alimentar, variáveis decisivas em um ambiente de margens pressionadas e custos voláteis.

Mercado e exportação: o Brasil no tabuleiro global
Ainda segundo o relatório, aproximadamente 32% da produção foi destinada à exportação em 2024, enquanto 68% permaneceram no mercado interno. A China manteve posição dominante, respondendo por 52,29% das exportações in natura, seguida por Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos e Chile.
O desempenho exportador ajuda a explicar a capacidade de absorção da oferta ampliada, atenuando pressões baixistas sobre preços. Além disso, reforça exigências crescentes relacionadas à padronização, rastreabilidade e eficiência produtiva.
Peso econômico da cadeia bovina
Conforme o Beef Report 2025, o sistema agroindustrial da carne bovina movimentou em 2024 cerca de R$ 987,36 bilhões, o equivalente a 8,4% do PIB brasileiro. O dado reforça um aspecto frequentemente subestimado: a pecuária não é apenas produção primária, mas um sistema econômico complexo, que envolve insumos, serviços, logística, indústria e varejo.
Mudança estrutural na lógica produtiva
A leitura integrada dos dados aponta para uma conclusão clara. A pecuária brasileira não abandonou a escala. Ela redefiniu sua base de crescimento. O tamanho do rebanho segue relevante. A distribuição territorial mantém importância estratégica. Mas o eixo central da competitividade desloca-se progressivamente para produtividade, eficiência técnica e desempenho biológico. Produzir mais, hoje, significa necessariamente produzir melhor. E é essa lógica que passa a orientar decisões dentro das fazendas brasileiras.
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