Bovinos / Grãos / Máquinas Entrevista com Airton Spies
Santa Catarina está redefinindo a indústria do leite de olho no mercado internacional
O Jornal O Presente Rural entrevistou Airton Spies, um dos principais especialistas em agronegócio do Brasil, para discutir o panorama atual, as mudanças recentes, os desafios e as perspectivas do setor de laticínios no estado catarinense.

O Jornal O Presente Rural entrevistou Airton Spies, um dos principais especialistas em agronegócio do Brasil, para discutir o panorama atual, as mudanças recentes, os desafios e as perspectivas do setor de laticínios em Santa Catarina. A conversa aborda como a tecnologia e a inovação estão sendo adotadas, as políticas públicas implementadas e a importância da sustentabilidade e do bem-estar animal na produção de leite. Spies também analisa as oportunidades e os desafios associados à diversificação da produção de laticínios e o acesso a novos mercados, tanto domésticos quanto internacionais. Confira a seguir a entrevista completa.

Airton Spies, um dos grandes entusiastas da produção de leite no Brasil – Foto: Divulgação/Arquivo pessoal
O Presente Rural – Panorama atual: Como você descreveria o atual cenário da produção de leite no Santa Catarina em termos de volume, qualidade e competitividade em comparação com outras regiões do Brasil?
Airton Spies – Santa Catarina produziu, no ano de 2023, 3,55 bilhões de litros de leite total e industrializou 3,2 bilhões de litros. Houve um crescimento de 7% em relação a 2022, mostrando a força do leite e o investimento que os produtores estão fazendo no sentido de aumentar a produção. Inclusive, pela primeira vez na história, Santa Catarina se tornou o terceiro maior produtor nacional, só atrás de Minas Gerais e Paraná, superando o Rio Grande do Sul. Claro que no Rio Grande do Sul nós tivemos problemas de seca que prejudicaram bastante a produção.
A qualidade do leite tem melhorado muito. O leite que chega para as indústrias já está 100% em conformidade com as Instruções Normativas do Ministério da Agricultura, a Instrução Normativa 76 e a Instrução Normativa 77, de forma que, comparando o leite de Santa Catarina com o restante do Brasil, ele está entre os melhores em qualidade.
O grande desafio, evidentemente, é o custo de produção. Nós temos uma redução significativa no número de produtores. Atualmente, são 22.600 produtores que entregam o leite para as indústrias regularmente. Segundo o cadastro que nós temos, houve uma redução significativa, mas a escala dos produtores que permanecem na atividade tem crescido bastante, e a produção cresce tanto pelo aumento do rebanho naquelas propriedades que se especializam em leite, mas também pela produtividade, que tanto por vaca como por propriedade, tem aumentado significativamente nos últimos anos.
O Presente Rural – Mudanças recentes: Quais foram as mudanças mais significativas na indústria de laticínios em Santa Catarina nos últimos anos e como elas impactaram os produtores?
Airton Spies – O setor lácteo de Santa Catarina vem passando por uma grande mudança estrutural. O primeiro aspecto a destacar é a mudança tecnológica. A base tecnológica que vem sendo aplicada é cada dia mais intensa, mais moderna, tanto na parte de produção de alimento para os animais, com pastagens melhores, qualidade, quantidade, sistemas de manejo com pastoreio rotativo, e o confinamento, chegando tanto o composto barn como free stall em um grande número de propriedades. Então você tem uma mudança na base tecnológica e na estrutura produtiva.
Outro fator de mudança recente é o aumento da escala. Hoje já temos um volume de litros de leite por produtor próximo dos 500 litros por dia. A maioria dos produtores aumentou sua escala de produção justamente buscando viabilidade e diluindo os custos fixos por um volume maior de leite produzido.
O Presente Rural – Tecnologia e inovação: Como a tecnologia e a inovação estão sendo adotadas na produção de leite em Santa Catarina para aumentar a eficiência, reduzir custos e melhorar a qualidade do produto?
Airton Spies – A tecnologia e a inovação no setor lácteo são visíveis dia a dia, e há um esforço muito grande de geração e de novas tecnologias por parte da pesquisa agropecuária, principalmente conduzida aqui no Estado pela Epagri, mas também pela assistência técnica que vem se intensificando com três vetores: assistência técnica pública, onde foi dado um foco principal à cadeia produtiva do leite; assistência via Senar, que hoje chega a um grande número de produtores; e assistência técnica privada oferecida pelas próprias indústrias de laticínios, que procuram melhorar a qualidade da produção e aumentar a produtividade dos seus produtores fornecedores.

Fotos: Shutterstock
Há um conjunto de esforços em andamento que mudam bastante a base tecnológica e a adoção de tecnologias para aumentar a eficiência, a produtividade e a qualidade. Claro que isso também busca redução de custos de produção no aspecto da genética animal. Nós tivemos grandes avanços e, com isso, em geral, dá para afirmar que as novilhas que entram em produção, via de regra, são melhores que as vacas que estão sendo descartadas. Esse ganho genético também é muito relevante do ponto de vista de eficiência e produtividade, além das máquinas e equipamentos. Nós temos hoje sistemas de ordenha e resfriamento de leite mais eficientes e modernos, que também proporcionam um ganho ao emprego da mão de obra na produção na propriedade. Sendo assim, cada unidade equivalente de trabalho nas propriedades consegue produzir mais leite, empregando sistemas de produção mais eficientes. Isso envolve inclusive o uso de mecanização, como tratores, etc.
Ainda em relação a tecnologia e inovação, é notório o processo de transporte com caminhões melhores e maiores, permitindo que o leite chegue nas indústrias com o padrão de qualidade preservado e atendendo às instruções normativas. Hoje, o processo de coleta de leite na maioria das indústrias foi melhorado através de roteirização com o uso de inteligência de computadores e GPSs para formação de rotas com melhor resultado e mais leite por quilômetro rodado. Claro que no âmbito das indústrias, na transformação do leite cru em produtos industrializados, nós também temos um avanço significativo nos últimos anos. Ou seja, a cadeia produtiva do leite está se modernizando com emprego de tecnologia e inovações.
O Presente Rural – Desafios atuais: Quais são os principais desafios enfrentados pelos produtores de leite em Santa Catarina atualmente, tanto em termos de aspectos técnicos como de questões regulatórias e de mercado?
Airton Spies – Nos desafios atuais, destaca-se que os produtores enfrentam uma crise de rentabilidade, com custos de produção altos e o preço do leite não respondendo na mesma proporção. Há também a competição com o leite importado do Mercosul. Vale destacar que essa é uma situação média, porém, existem produtores que já conseguiram se adaptar e adaptar seu sistema de produção para produzir leite economicamente viável aos preços internacionais.
Os preços pagos aos produtores sofreram reflexos da redução e da estagnação do consumo per capita no Brasil. Isso se somou ao fato de cerca de 9% do leite industrializado em 2023 ter vindo de importações, criando uma pressão por preços baixos. Os produtores enfrentam uma grave crise de rentabilidade, mas essa crise também está trazendo ajustes, principalmente em relação à estrutura de custos. Em Santa Catarina, em tono de 60% dos produtores deixaram a atividade. Na média, com a saída dos pequenos produtores, a eficiência média vem melhorando com os remanescentes que se adaptam às novas condições de competição.
Em termos técnicos, existem ganhos marginais que estão sendo incorporados, e por isso o leite cresceu em volume, mesmo com um número menor de produtores. Houve um grande esforço para adaptar o setor às instruções normativas, e hoje esse assunto está superado. Conseguimos chegar ao padrão de leite conforme os regulamentos, mas o acesso aos laboratórios de leite para medir a qualidade com maior frequência ainda é um desafio. Os produtores, através das indústrias, fazem uma análise mensal da qualidade do leite, mas para uma boa gestão, é necessário ter acesso a mais análises laboratoriais para servir de ferramenta de manejo e gestão do negócio.
O Presente Rural – Sustentabilidade: Como a sustentabilidade ambiental e econômica está sendo abordada na produção de leite em Santa Catarina, especialmente considerando a
crescente preocupação com questões ambientais e o aumento da demanda por produtos sustentáveis?
Airton Spies – A questão da sustentabilidade ambiental, social e econômica está hoje batendo na porta de todas as cadeias produtivas do agronegócio, e a do leite não é diferente. Para ter acesso ao mercado, é preciso uma grande preocupação com a redução dos impactos ambientais gerados ao longo da cadeia produtiva. Isso envolve o manejo correto da água e dos dejetos, o uso de energia renovável nas propriedades e uma produção ambientalmente responsável.
Em algumas cadeias produtivas já se fala em neutralização de carbono, adotando estratégias como o reflorestamento para sequestrar o carbono emitido na cadeia produtiva. Esse debate está presente, por exemplo, nas discussões em torno dos parâmetros estabelecidos internacionalmente para atingir os padrões de ESG (Environmental, Social, and Governance), que visam a responsabilidade social, econômica e a governança das cadeias produtivas para atender parâmetros internacionais. Isso tem uma preocupação maior quando pensamos em conectar a cadeia produtiva do leite com o mercado global e a exportação. As questões ambientais sempre preocupam, pois a produção de leite é uma cadeia que tem emissões tanto no nível de produção, na propriedade, principalmente em relação ao metano, quanto no grande volume de transporte exigido nessa cadeia, deslocando grande volume de leite diariamente das propriedades para as indústrias e das indústrias para o mercado. Há, sim, uma demanda e pressão por produtos sustentáveis, e é uma condição que o setor tem que se adaptar para ter acesso a mercados.
O Presente Rural – Perspectivas: Quais são as perspectivas para o setor de laticínios em Santa Catarina nos próximos anos, considerando as tendências de mercado, as mudanças climáticas e outros fatores relevantes?
Airton Spies – As pe rspectivas para o leite em Santa Catarina são positivas, considerando que temos aqui, e isso vale também para os três estados do Sul, uma condição favorável à produção de alimento para os animais durante os 12 meses do ano. Não temos um período de frio extremo, como na Europa, Nova Zelândia e algumas regiões dos Estados Unidos e Argentina, onde o crescimento das pastagens é paralisado pelo frio e neve. Também não temos um período de seca extrema e sazonalidade das chuvas como no Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do Brasil.
Aqui temos 12 meses de chuvas, com algumas diferenças sazonais, e possibilidade de utilização de espécies de pastagens que crescem melhor no verão e no inverno. Esse modelo nos dá uma vantagem comparativa que podemos transformar em vantagem competitiva, não só dentro do Brasil, mas também em relação a outros países que produzem leite. As tendências do mercado são crescentes, e temos números que mostram que hoje o mundo dispõe de cerca de 117 litros por habitante/ano, enquanto o consumo de lácteos recomendado pela Organização Mundial da Saúde é em torno de 200 litros por habitante/ano.
Claro que não há renda disponível em todos os países, principalmente os mais populosos da Ásia e África, para consumir 200 litros por habitante/ano. Mas, na medida em que a economia desses países melhora, o desejo dessa população é consumir proteínas animais, e os lácteos entram com força. Um bom exemplo é a China, que em 2007 consumia em torno de 18 quilos de lácteos por habitante/ano, e em 2018, já consumia 36 quilos por habitante/ano. Ainda é pouco, mas com o aumento da renda, haverá um crescimento na demanda mundial.
Os principais exportadores mundiais, como Nova Zelândia, União Europeia, Estados Unidos, Uruguai, Argentina e Austrália, têm pouco potencial de aumento da produção, restando ao Brasil uma grande oportunidade de aproveitar essas possibilidades de exportação ou atender ao mercado internacional.
As mudanças climáticas estão sempre no radar como um fator relevante para administrar riscos. Tivemos secas extremas e enchentes nos últimos anos e preocupações com o aumento da temperatura, que impactam a cadeia produtiva de leite, tanto na produção de alimento para os animais quanto no bem-estar dos animais em relação à temperatura. Hoje, com o leite progressivamente indo para confinamentos, há uma possibilidade de gerar uma ambiência mais favorável para os animais em períodos quentes ou de frio extremo, com o controle de temperatura no ambiente.
O Presente Rural – Políticas públicas: Qual é o papel do governo estadual na promoção do desenvolvimento do setor de laticínios em Santa Catarina e quais políticas públicas têm sido implementadas para apoiar os produtores locais?
Airton Spies – As políticas públicas têm um papel fundamental no desenvolvimento da cadeia produtiva do leite, especialmente nesse momento de grande transformação. Há ameaças para alguns produtores que não conseguem se adaptar sem apoio de políticas públicas, e também a necessidade de alavancar e estimular o setor a investir na produção sustentável com competitividade. Na Aliança Láctea Sul Brasileira, um fórum do leite dos três estados do Sul, elaboramos o Plano de Desenvolvimento da Competitividade Global do Leite Sul Brasileiro e apresentamos essas orientações aos governos dos três estados.
Aos poucos, surgem linhas de apoio para que o leite se desenvolva de maneira sustentável e competitiva. Os gargalos do setor são muitos. O leite brasileiro tem um custo de produção em torno de 20 a 25% superior à média dos países exportadores. Com o baixo crescimento do consumo interno, o caminho é a exportação. Para isso, precisamos de políticas públicas que ajudem o produtor e a indústria a fazer o dever de casa, superando os gargalos que nos afastam da competitividade global, tornando o setor viável para andar com as próprias pernas no futuro.
O governo de Santa Catarina lançou um pacote de R$ 300 milhões em três anos para apoiar o produtor de leite e as indústrias, compensando e estimulando a produção rumo à competitividade.
O Presente Rural – Bem-estar animal: Qual é a importância do bem-estar animal na produção leiteira em Santa Catarina e como os produtores estão se adaptando às demandas dos consumidores por melhores práticas?
Airton Spies – A preocupação com o bem-estar animal precisa estar no topo da lista de todos os produtores de leite, e isso está claro em Santa Catarina. Produzir com qualquer indício de crueldade ou maus-tratos aos animais não é possível, pois as portas do mercado se fecham na medida em que os consumidores têm acesso a muita informação. Redes sociais publicam informações sobre como a produção é feita, o que significa que é necessário cuidar bem dos animais. Isso implica submetê-los a um sistema de manejo que não cause estresse, tanto de temperatura quanto de condução, oferecendo boa alimentação e ambiência adequada, com uma ética que deve existir na cadeia produtiva.
Não basta fazer, é preciso transmitir essa imagem para a sociedade e os consumidores. Certificações que comprovem o respeito aos animais e a preocupação com o bem-estar são essenciais para que o leite seja produzido por animais que não sofram no processo e vivam felizes.
O Presente Rural – Diversificação de produtos: Além do leite fluido, quais são as oportunidades e desafios associados à diversificação da produção de laticínios em Santa Catarina, como a fabricação de queijos especiais, iogurtes e outros produtos lácteos?
Airton Spies – Para crescer a produção, é necessário buscar dois eixos de mercado. Um é o das commodities lácteas, que envolve o grande volume de leite, como leite em pó, leite longa vida, queijos como muçarela e cheddar, manteigas e gorduras lácteas, produtos padronizados e de menor preço com margens pequenas, mas grandes volumes. O outro eixo é dos produtos especiais e nichos de mercado, com maior valor agregado, como queijos especiais (ex: queijo serrano de Santa Catarina e Rio Grande do Sul), produtos coloniais, com o saber fazer tradicional com valor agregado, e iogurtes.

Foto: Divulgação/Arquivo OPR
Esse mercado não absorve grandes volumes de leite, sendo uma solução para pequenas e médias indústrias e produtores com posição especial no mercado. O vetor das commodities precisa focar no custo de produção, pois os preços são definidos no mercado internacional, como no GDT (Global Dairy Trade), que realiza leilões quinzenais de lácteos e dão diretriz do comércio internacional. Precisamos ser competitivos em ambos os mercados, produzindo produtos diferenciados e de valor agregado, além de desenvolver o acesso ao mercado das commodities lácteas para grandes volumes de leite.
O Presente Rural – Cadeia de valor: Como está estruturada a cadeia de valor do setor de laticínios em Santa Catarina, desde a produção primária até a comercialização dos produtos finais, e quais são os principais pontos de contato e conflito entre os diferentes elos dessa cadeia?
Airton Spies – A cadeia produtiva de leite é longa e complexa, com múltiplos atores. Do ponto de vista dos fornecedores de insumos, máquinas, equipamentos, tecnologias e genética, há um mercado se estruturando em Santa Catarina e na região Sul do Brasil para levar aos produtores qualidade antes da porteira da propriedade. Dentro das propriedades, há uma necessidade crescente de mão de obra qualificada, tecnologia da informação, internet, energia trifásica, acesso com boas estradas e recursos para melhoria da gestão, incluindo processamento de dados para controle da produção e tomada de decisão.
O lucro está no detalhe. Isso demanda técnicos, conhecimento e aplicativos de celular e computador, criando uma indústria de serviços para o produtor dentro da propriedade que cria oportunidades.
Após a porteira, há grandes oportunidades em melhorias no transporte, com caminhões que buscam o leite nas propriedades e fazem o frete em carretas maiores. A cadeia de valor mobiliza a economia, gerando empregos e renda, mas exige tecnologia que as universidades, principalmente aquelas ligadas à Medicina Veterinária, Agronomia, Zootecnia e Engenharia Agrícola, precisam fornecer aos produtores mais tecnificados e conectados com o mercado internacional.
Há necessidade de mudar o modelo de negócios, fidelizando o relacionamento entre produtor e indústria. O leite vai aonde a indústria quiser levá-lo, sendo as indústrias de laticínios os protagonistas. Elas precisam desenvolver seus fornecedores, firmando contratos de fidelização para que o produtor invista com segurança, sabendo para quem vai vender seu leite. A indústria precisa saber quem é seu fornecedor e quanto leite chegará na plataforma para assumir compromissos com o mercado, principalmente na exportação.
A cadeia de valor do leite está em desenvolvimento, e cada litro a mais produzido representa crescimento dessa cadeia, beneficiando até os governos com impostos e empregos gerados. A cadeia do leite é uma das que mais gera empregos por investimento. Há ainda conflitos a serem resolvidos, pois a cadeia está se estruturando de maneira mais padronizada e controlada, gerando alguns conflitos que precisam ser administrados. Os três estados do Sul têm em funcionamento seus Conseleites, onde o setor discute esses temas, assim como na Aliança Láctea Sul Brasileira, que reúne governos, indústrias e produtores para sentar e encontrar os caminhos para o fortalecimento da cadeia do leite.
O Presente Rural – Acesso a mercados: Quais são os principais desafios enfrentados pelos produtores de leite em Santa Catarina para acessar novos mercados, tanto domésticos quanto internacionais, e quais estratégias estão sendo adotadas para superar esses desafios?
Airton Spies – O acesso ao mercado é o grande desafio. A região Sul do Brasil produz cerca de duas vezes e meia o leite que consome. 41% do leite industrializado do Brasil sai dos três estados do Sul, com Santa Catarina sendo o segundo maior produtor do Sul, industrializando 3,2 bilhões de litros de leite, representando 12 a 13% do leite brasileiro, enquanto possui apenas 3% da população. Isso cria um excesso de produção em relação ao consumo local, isso vale para os três estados do Sul, e cada litro de leite a mais produzido precisa ir longe para encontrar consumidores, gerando custos logísticos que reduzem a rentabilidade.
Estamos focados em expandir o mercado através das exportações. O Brasil exporta menos de 0,3% da sua produção e, no ano passado, importou pouco mais de 9% do consumo. Apesar de termos licenças para exportar para mais de 25 países, nossos lácteos são mais caros que o mercado internacional. Temos problemas de estrutura e custos, e precisamos resolvê-los para aumentar a competitividade e conectar o leite brasileiro com o mercado global.
Para furar o teto dos 25 bilhões de litros de leite industrializado, precisamos de acesso ao mercado, reduzir o custo de produção e aumentar a eficiência para competir com Argentina, Uruguai e Nova Zelândia. Investimentos em produtividade, eficiência e redução de custos estão sendo feitos por empresas, produtores e governos.
O Presente Rural – Alianças estratégicas: Como as parcerias entre produtores, indústrias, instituições de pesquisa e o governo estão contribuindo para o desenvolvimento e a competitividade do setor de laticínios em Santa Catarina?
Airton Spies – Sou otimista em relação à cadeia do leite, que se tornará mais uma estrela do agronegócio brasileiro. Assim como transformamos o suíno, frango e carne bovina em produtos competitivos mundialmente, falta fazer o dever de casa para acoplar o leite ao mercado internacional. Não há solução sem exportação. Ao ser competitivo para exportar, aumentaremos a produção e rechaçaremos importações. O frango brasileiro é bom e barato, sendo o preferido do consumidor, enquanto importamos lácteos porque lá fora são mais baratos. Precisamos resolver os problemas de estrutura da cadeia produtiva, reduzindo custos, isso envolve também tributação, e tornando o leite competitivo, crescendo como as outras cadeias produtivas. Com exportação, teremos mais estabilidade e menos volatilidade nos preços, beneficiando o consumidor com produtos mais baratos e acessíveis, estimulando o consumo per capita.
Hoje, o Brasil roda muito para transportar pouco leite e trabalha muito para produzir pouco, por vários motivos. A eficiência na mão de obra e no transporte deverá atrair sucessores nas propriedades rurais, tornando a atividade mais humana e rentável. O leite será, sim, mais uma estrela do agronegócio brasileiro nos próximos dez anos.
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Brasil e Uruguai unem esforços para padronizar diagnóstico de resistência de carrapatos
Capacitação no Rio Grande do Sul integra projeto global da FAO e reforça o papel do IPVDF como referência regional em sanidade animal.

Técnicos do laboratório oficial de Medicina Veterinária do Ministério da Agricultura do Uruguai participaram, nesta semana, de uma capacitação prática em bioensaios no Centro Estadual de Diagnóstico e Pesquisa em Saúde Animal Desidério Finamor (IPVDF), no Rio Grande do Sul. O treinamento é voltado ao diagnóstico de resistência de carrapatos a produtos carrapaticidas, um desafio crescente para a pecuária da América do Sul.
A iniciativa integra um projeto multicêntrico global da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), que tem como objetivo a harmonização dos métodos de diagnóstico da resistência de carrapatos. O programa prevê ações presenciais de capacitação, intercâmbio técnico entre países e validação conjunta de metodologias laboratoriais.
Segundo o pesquisador Guilherme Klafke, do IPVDF, o trabalho busca consolidar o laboratório gaúcho como centro de referência regional na área. “A intenção é padronizar protocolos. Queremos que os laboratórios da América do Sul, como os do Uruguai, da Argentina e da Colômbia, trabalhem da mesma maneira, com resultados comparáveis e confiáveis”, afirma.
A preocupação é compartilhada pelos dois países. Assim como ocorre no Rio Grande do Sul, o Uruguai já registra casos relevantes de resistência dos carrapatos aos produtos utilizados no controle do parasita. “No Norte do país, praticamente toda a população de carrapatos é multirresistente. Por outro lado, temos uma zona livre de carrapatos no Sul do Uruguai, que precisamos proteger”, explica Diana Martinez, do Ministério da Agricultura uruguaio.
De acordo com a técnica, o trabalho no país é conduzido em áreas de controle e erradicação, com foco na proteção sanitária, no uso correto dos produtos carrapaticidas e na mitigação de problemas relacionados a resíduos, garantindo a segurança alimentar e a sustentabilidade da produção pecuária.
O Uruguai disponibiliza aos produtores rurais, há cerca de quatro anos, o biocarrapaticidograma, teste que avalia a resistência dos carrapatos aos princípios ativos disponíveis no mercado. No Rio Grande do Sul, esse serviço é oferecido gratuitamente há quatro décadas pela Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), por meio do IPVDF, reforçando a longa trajetória do Estado na sanidade animal e no apoio técnico aos produtores.
Detalhes sobre o teste, e como solicitá-lo, estão disponíveis na Carta de Serviços do Governo do Rio Grande do Sul.
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Santa Catarina sanciona lei que protege produtores catarinenses e proíbe reconstituição de leite em pó importado
Nova lei busca equilíbrio de mercado e fortalecimento da cadeia leiteira no estado.

O governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, sancionou na última quarta-feira (21) a lei que proíbe a reconstituição e comercialização de leite em pó importado como leite fluido em Santa Catarina. A medida reforça as políticas públicas do Governo do Estado para fortalecimento da cadeia produtiva leiteira.
O projeto de Lei é de autoria do deputado estadual Oscar Gutz, com proposta apensada do deputado Altair Silva. A nova legislação impede que o leite em pó estrangeiro seja reconstituído para venda como leite líquido em Santa Catarina.

Nova legislação impede que o leite em pó estrangeiro seja reconstituído para venda como leite líquido em Santa Catarina – Foto: Guilherme Bento/SECOM
A lei visa manter mais equilíbrio ao mercado, fortalecer a economia regional, produção local e contribuir para a manutenção no meio rural. “A medida fortalece a cadeia produtiva do leite, combate a concorrência desleal e garante mais segurança econômica para milhares de famílias do meio rural. É com firmeza que Santa Catarina irá garantir mais proteção da cadeia leiteira”, declarou o governador Jorginho Mello.
Santa Catarina é o 4º maior produtor de leite do país, são mais de 24,5 mil produtores. Em 2024, o Estado alcançou 3,3 bilhões de litros produzidos, o equivalente a 9% da produção nacional. “Essa medida irá incentivar o consumo de leite produzido pelos produtores e laticínios de Santa Catarina. É mais uma ação importante para ampliarmos as condições de permanência na atividade e valorizar toda a cadeia produtiva”, afirmou o secretário de Estado da Agricultura e Pecuária em exercício, Admir Dalla Cort, que representou o secretário Carlos Chiodini no ato.
Incentivos ao setor
Com o objetivo de assegurar a competitividade do setor leiteiro em Santa Catarina, os produtores de leite podem contar com programas do Governo do Estado. O Programa Leite Bom SC compreende linhas para subsidiar juros de empréstimos bancários e conceder financiamentos, sem juros, para investimentos em processos produtivos. Esse programa também contempla a execução medidas como incentivos tributários à indústria leiteira catarinense de maneira escalonada e a suspensão de benefícios para a importação de leite e derivados.
A cadeia leiteira também conta com o Programa Terra Boa, para melhoria das pastagens e aumentar a produtividade. Além disso, o leite produzido em Santa Catarina também segue rigorosos controles de qualidade, inspeção e rastreabilidade.
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Preços em queda e importações pressionam leite em 2025 com perspectivas de recuperação gradual em 2026
gravidade do cenário desencadeou manifestações, mobilização de entidades representativas e sucessivas articulações políticas em busca de respostas rápidas por parte do governo federal.

A cadeia leiteira brasileira atravessou, em 2025, uma das fases mais críticas de sua história, caracterizada por preços baixos, forte aumento das importações e prejuízos sistemáticos para produtores em todas as regiões do País. A gravidade do cenário desencadeou manifestações, mobilização de entidades representativas e sucessivas articulações políticas em busca de respostas rápidas por parte do governo federal.
De acordo com o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite), Geraldo Borges, a crise de 2025 tem raízes diretas no comportamento do mercado nos anos anteriores. “A cadeia leiteira teve uma consequência do que aconteceu no mercado no segundo semestre de 2024 e no primeiro trimestre de 2025, período em que houve um aumento expressivo na produção influenciado pela melhora temporária de preços”, explica.
Borges lembra que o setor já havia enfrentado forte queda de preços em 2023, atingindo tanto pequenos quanto grandes produtores e cooperativas. Com a recuperação do valor pago ao produtor no ano seguinte, a produção voltou a crescer. “Houve um incremento próximo de 8% a 9% no segundo semestre de 2024 em relação ao mesmo período de 2023, ampliando a oferta e pressionando novamente o mercado no início de 2025”, pontua.
Sete meses de quedas consecutivas

Presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite), Geraldo Borges: “O mercado está mostrando uma crise maior que a de 2023, com preços mais estrangulados, produtores no Brasil inteiro trabalhando com prejuízo” – Foto: Divulgação/Abraleite
A partir de abril de 2025, o preço do leite ao produtor iniciou uma trajetória de retração contínua. “O mercado está mostrando uma crise maior que a de 2023, com preços mais estrangulados, produtores no Brasil inteiro trabalhando com prejuízo”, reforça Borges, enfatizando que a situação é especialmente grave para os pequenos produtores. “Eles não têm condições de continuar na atividade, com o preço que está sendo praticado principalmente nos últimos meses”, aponta.
Dados do Cepea reforçam a dimensão do problema. A chamada Média Brasil registrou R$ 2,29 por litro em outubro de 2025, queda de 5,9% em relação a setembro. Os valores pagos aos produtores variaram entre os estados monitorados: no Rio Grande do Sul, R$ 2,21; em Santa Catarina, R$ 2,20; no Paraná, R$ 2,29; em São Paulo, R$ 2,41; e em Minas Gerais, R$ 2,38. Na avaliação da Abraleite, esses patamares inviabilizam a atividade para grande parte das propriedades diante dos custos operacionais elevados.
Cobrança por respostas imediatas
O agravamento da crise levou produtores, cooperativas e indústrias a se mobilizarem com mais força ao longo de 2025. Audiências públicas, reuniões com parlamentares e articulação entre entidades setoriais passaram a fazer parte da rotina. “É por isso que a gente está vendo essa onda de manifestações, entidades do setor como a Abraleite lutando junto com parlamentares, cobrando o governo federal por medidas que atenuem essa crise”, destaca Borges.
As reivindicações incluem medidas emergenciais para evitar o colapso financeiro de produtores, cooperativas e laticínios, mas também ações estruturantes que corrijam distorções históricas da cadeia. Para o presidente da Abraleite, o Brasil precisa de uma política de longo prazo. “Estamos cobrando medidas estruturantes para que a cadeia seja mais bem estruturada e mais competitiva, com capacidade de produzir a custos menores, condição essencial para evitar recorrência de crises”, salienta.
Estruturação do setor

Foto: Fernando Dias
Diante do aumento expressivo das importações de lácteos e da perda de competitividade interna, a Abraleite levou ao governo federal um conjunto de solicitações. Borges relata que sugeriu medidas imediatas para conter a queda de preços ao produtor e uma intervenção temporária nas importações, ao mesmo tempo em que se investe na reorganização da cadeia.
Ele reforça ainda a necessidade de reativar o grupo interministerial criado em 2023 para tratar da estruturação do setor. O colegiado, segundo o dirigente, deixou de funcionar em 2024 e 2025. “Eu cobrei que os ministros reativem o grupo e que trabalhem tanto nos períodos de baixa de preço, como também nos períodos em que os preços estiverem mais estabilizados”, afirma.
Para Borges, a função do grupo não é combater crises pontuais, mas desenhar uma política de médio e longo prazo. “Temos que criar medidas estruturais para que não aconteçam novas crises como esta que está acontecendo, garantindo continuidade operacional e planejamento permanente,” ressalta.
As causas profundas da crise
O presidente da Abraleite destaca que os problemas enfrentados em 2025 decorrem de um conjunto de fatores acumulados ao longo dos últimos anos. O primeiro deles é o alto custo de produção, agravado pelo chamado custo Brasil. Além disso, a atividade é extremamente pulverizada. “Produzimos leite em 98,8% dos municípios”, frisa, reforçando que esse modelo, baseado majoritariamente em pequenos produtores, opera com baixa produtividade e pouca assistência técnica e gerencial.
A estrutura industrial também enfrenta gargalos. Borges cita problemas de ociosidade em laticínios e custos elevados de captação, consequência direta da dispersão geográfica da produção. Ele compara o Brasil a grandes players internacionais. “Nos Estados Unidos, a atividade é concentrada em regiões específicas, o que reduz custos logísticos; na Nova Zelândia, o território reduzido facilita a coleta e a inserção no mercado mundial. Já no Brasil, o custo é duas vezes mais caro do que o custo de captação de leite desses países”, aponta.
A baixa competitividade interna abre espaço para produtos importados, especialmente de Argentina e Uruguai. Borges ressalta que há indícios de práticas desleais no comércio internacional, tema atualmente em investigação: “Há um pedido de investigação de dumping, prática de exportar produtos a preços muito baixos, porque há indícios dessa concorrência desleal principalmente por parte da Argentina”, relata Borges, ressaltando que esse cenário forma a receita perfeita para gerar desequilíbrio e outra crise no setor.
Custo de produção e endividamento
A crise de rentabilidade que marcou 2025 também expôs a distância entre o preço recebido e o custo operacional médio nas propriedades. De acordo com o presidente, embora o custo varie entre sistemas produtivos, portes e níveis de eficiência, a referência atualizada pela Abraleite demonstra que o produtor opera no limite. “O custo médio de produção do leite no Brasil atualmente é de aproximadamente R$ 2,20 por litro, quase o mesmo valor que os produtores recebem, ou seja, estão trabalhando no vermelho”, reiterou.
Borges detalha que cada propriedade apresenta uma composição de custos muito distinta, influenciada por fatores como produção de silagem, compra de milho, eficiência na mão de obra e escala produtiva. “Em sistemas menores, o peso dos custos fixos tende a ser proporcionalmente maior, agravando a situação financeira nos períodos de baixa de preços. O reflexo é direto: endividamento crescente, renegociação de financiamentos e falta de capital para custeio e investimentos”, relatou.
Saída de produtores

A perda de produtores não é um fenômeno recente, mas ganhou intensidade nos períodos críticos. Borges destaca que os censos do IBGE já registram queda contínua no número de produtores ao longo das últimas décadas, e estudos regionais apontam retração acentuada. Ele cita o levantamento da Emater do Rio Grande do Sul, que observou redução pela metade no número de produtores em 10 anos no estado.
Crises sucessivas como as vividas em 2023 e em 2025 têm ampliado esse movimento. Muitos produtores saem da atividade durante os momentos de baixa; outros tentam se manter, mas não conseguem se reerguer no pós-crise, devido ao endividamento acumulado e à perda de capacidade produtiva.
Apesar disso, a base produtiva brasileira segue majoritariamente composta por pequenos e médios produtores. O último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicou 1,17 milhão de propriedades que produziam algum volume de leite, número que reforça a capilaridade da produção no país.
Consumo interno estagnado há uma década
Se de um lado o produtor enfrenta custos elevados e preços deprimidos, do outro lado o mercado doméstico não reage. O consumo per capita brasileiro, quando se convertem todos os lácteos em equivalente-litro, permanece há cerca de 10 anos entre 160 e 170 litros por habitante/ano. “Esse volume está abaixo do recomendado por organismos internacionais e distante do registrado em países desenvolvidos. Por exemplo, na França são consumidos em torno de 340 litros per capita/ano, na Suíça 360 litros por cada habitante/ano. Então o Brasil tem muito o que crescer no consumo de lácteos”, salienta.
Entre os fatores que limitam essa expansão, Borges menciona a restrição imposta pelo contexto econômico. “Na população de menor renda, produtos lácteos mais elaborados como leite UHT, leite em pó e derivados são diretamente afetados pela perda de poder de compra, se tornando itens facilmente suprimidos do orçamento familiar em períodos de aperto financeiro”, enfatiza.
Desinformação

Outro obstáculo citado pelo presidente da Abraleite é a desinformação da população. Borges compara o cenário brasileiro ao dos Estados Unidos, onde campanhas como Got Milk? ajudaram a consolidar a imagem positiva do leite junto ao consumidor. No Brasil, segundo ele, não há iniciativas semelhantes, enquanto discursos desinformados têm ganhado cada vez mais espaço. “O que nós vemos muito é uma quantidade enorme de pessoas desinformadas, denegrindo a imagem do leite, como se o leite fizesse mal para a saúde humana”, criticou.
A Abraleite tem buscado reverter essa narrativa por meio de ações com nutricionistas, médicos, pediatras, ortopedistas e profissionais de Educação Física, com o objetivo de resgatar a confiança da população nos benefícios nutricionais do leite. Borges ressalta que o alimento é extremamente saudável e relevante em todas as fases da vida. “A Organização Mundial da Saúde revisou recentemente a recomendação sobre o consumo de leite de vaca por bebês, autorizando o uso a partir dos seis meses na ausência do leite materno. Antes a orientação era a partir de um ano de idade. Isso demostra a segurança desse alimento”, destacou.
Peso das importações
O peso das importações na crise de 2025 foi outro ponto enfatizado pelo presidente da Abraleite. Desde 2022, o país vive um ciclo de forte entrada de lácteos do Mercosul, especialmente Argentina e Uruguai. A participação do leite importado, historicamente próxima de 3% do consumo nacional, chegou a 12% em determinados momentos e permaneceu, em 2025, entre 8% e 10%. “Esse extra acima dos 3% causa esse enorme transtorno de baixa de preço ao produtor e quebra da cadeia produtiva nacional”, avaliou.
As importações não se concentram apenas em grandes laticínios. Borges explica que indústrias do ramo alimentício, como fabricantes de chocolates, biscoitos e sorvetes, além de traders e atacadistas, também têm recorrido à compra externa. “Esse aumento das importações está diretamente ligado ao alto custo de produção do leite no Brasil. Temos uma produção muito pulverizada, logística complexa, insumos caros e nenhum tipo de subsídio. Com tudo isso, fica difícil competir com os nossos vizinhos do Mercosul”, reforça.
Medidas emergenciais e estruturais

Foto: Jaelson Lucas
Diante do agravamento da crise, Borges reiterou que a Abraleite tem cobrado ações rápidas do governo federal. Ele cita medidas como contenção ou redução de importações e, sobretudo, a reativação do grupo interministerial criado em 2023 para trabalhar na estruturação da cadeia, mas que permaneceu inoperante ao longo de 2024 e 2025. “Esse grupo tem que trabalhar até as medidas estruturantes acontecerem. Sabendo que são medidas de médio e longo prazo, não são medidas emergenciais para apagar o incêndio que está agora”, frisou.
Entre as principais medidas estruturais consideradas essenciais para fortalecer a cadeia leiteira estão o fortalecimento da assistência técnica e gerencial, especialmente para pequenos e médios produtores; a ampliação das compras governamentais de lácteos; a manutenção, substituição ou reformulação do programa Mais Leite Saudável após sua extinção prevista pela reforma tributária; a revisão de questões tributárias; o fortalecimento das ATERs públicas; e a implementação de políticas de incentivo à competitividade e à redução de custos.
Os estudos do Centro de Inteligência do Leite (CiLeite) da Embrapa Gado de Leite apontam que, sem medidas emergenciais, o mercado pode começar a se estabilizar a partir de março deste ano, com recuperação gradual dos preços no segundo semestre. Borges lembra que movimento semelhante ocorreu após a crise de 2023, com melhora do mercado ao longo de 2024. “Talvez a partir de abril, a gente comece a ver um cenário melhor para os produtores”, afirmou, destacando que a recuperação deve alcançar toda a cadeia nacional.



