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Santa Catarina celebra 17 anos de pioneirismo em identificação individual de bovinos e bubalinos

Região de Matos Costa, onde há muitas propriedades familiares, foi uma das primeiras em que a Cidasc fez a identificação individual de todos os bovinos.

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Fotos: Luis Felipe Sperry Bratti

O dia 31 de março de 2008 é o marco inicial do Programa de Identificação de Bovinos e Bubalinos em Santa Catarina. Em poucos meses, milhões de animais destas espécies foram identificados individualmente com brincos numerados, até que todo o rebanho do estado estivesse devidamente catalogado. A identificação individual permite acompanhar toda a movimentação do animal, desde o nascimento até o abate, medida de controle criada para ser um dos meios para assegurar a manutenção do status de área livre de febre aftosa sem vacinação junto à Organização Mundial de Saúde Animal (Omsa).

“Para além de uma obrigação, identificar nossos bovinos e bubalinos em Santa Catarina com os brincos individualmente nos diferencia, por termos um controle de quantidade e de localização do rebanho. Isso faz toda a diferença para a Cidasc programar ações de sanidade animal de modo bem distribuído no estado, da pequena à grande propriedade rural, com o mesmo esmero e cuidado. E, na eventualidade de alguma doença de maior gravidade para a pecuária, essas informações permitem que a Cidasc e todas as instituições que são a força do agro, ajam rápida e precisamente, encerrando o foco sanitário. O nome disso é rastreabilidade”, afirma a presidente da Cidasc Celles Regina de Matos.

Com este projeto pioneiro e com a febre aftosa erradicada, Santa Catarina conseguiu ampliar o mercado para a carne suína  e também bovina, já que ambas espécies são suscetíveis a essa doença. O trabalho foi liderado pela Cidasc, Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina, com apoio do Instituto Catarinense de Sanidade Agropecuária (Icasa) e de importantes entidades ligadas ao agronegócio, como a Organização das Cooperativas de Santa Catarina (Ocesc), Federação da Agricultura de Santa Catarina (Faesc), Federação dos Trabalhadores em Agricultura do Estado de Santa Catarina (Fetaesc) e Sindicato das Indústrias de Carnes e Derivados de SC (Sindicarne). O Governo do Estado e a Secretaria de Estado da Agricultura e Pecuária, cientes da importância desta inovação, deram o suporte à implementação do projeto desde o seu início.

“Essa trajetória exemplar permitiu que Santa Catarina se consolidasse como referência no cuidado com a saúde animal, demonstrando transparência na cadeia produtiva, desde o campo ao mercado consumidor. Esse compromisso reforça a segurança sanitária do rebanho catarinense e leva os nossos produtos aos países mais exigentes” afirma o secretário de Estado da Agricultura e Pecuária, Carlos Chiodini.

Trabalho de destaque no Brasil e no mundo

A solenidade de 31 de março de 2008 foi concorrida e marcou o início do sistema de identificação individual de bovinos e bubalinos em Santa Catarina. O então governador, Luiz Henrique da Silveira, o secretário de Estado da Agricultura, Antônio Ceron, e o presidente da Cidasc, Edson Henrique Veran, receberam para o ato solene em Florianópolis o ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Reinhold Stephanes, o presidente da Comissão de Agricultura do Senado Italiano, Paolo De Castro (ex-ministro da agricultura) e o presidente da União de Importadores de Carnes e Derivados da Itália, Renzo Fossato.

A presença de convidados estrangeiros já antevia a relevância que o projeto teria para a pecuária e a exportação de produtos cárneos. Com todo o rebanho identificado, Santa Catarina tornou-se capaz de demonstrar a rastreabilidade dos animais  desde a propriedade de nascimento até o abate, atestando a sua condição sanitária.

Seguindo o plano traçado e trabalhando a muitas mãos, foi possível identificar todo o rebanho catarinense até o final do ano de 2008. Assim, pela primeira vez Santa Catarina conhecia o tamanho e localização exata de todos os bovinos e bubalinos em seu território.

Para atingir esta meta, o projeto foi implementado em municípios escolhidos como piloto em cada região de Santa Catarina. Um dos primeiros foi Matos Costa, município atendido pelo Departamento Regional de Caçador da Cidasc, por ser um município na divisa entre estados. Em 2008, Rio Grande do Sul e Paraná ainda vacinavam o gado contra aftosa, tendo alcançado o mesmo status de zona livre de febre aftosa só em 2021.

O médico-veterinário Luís Felipe Sperry Bratti, que na época era contratado do Icasa e atualmente é profissional concursado da Cidasc e gestor do Departamento Regional de Caçador, participou diretamente do projeto piloto em Matos Costa. Ao seu lado, liderando as atividades, estava o médico-veterinário Fábio de Carvalho Ferreira, que hoje é o coordenador do programa sanitário de Rastreabilidade Bovina e Bubalina.

“Sabíamos desde o início que não seria fácil. Recebíamos os brincos e à noite organizávamos os kits para o trabalho no dia seguinte. Formamos seis equipes, trabalhando em duplas. Uma equipe avisava previamente os produtores rurais para que deixassem os animais recolhidos para agilizar a aplicação na data prevista”, conta Bratti.

Ele recorda que foram necessárias duas a três semanas de trabalho intenso, com profissionais da Cidasc e do Icasa, para identificar cerca de 6000 bovinos em 400 propriedades rurais de Matos Costa. “Não tínhamos na época o Sigen+ (Sistema de Gestão Agropecuária) e por isso os registros eram feitos em uma planilha de Excel e imprimíamos relatórios de entrega de brincos”, conta o médico-veterinário.

Felizmente, a informatização logo avançou. A Cidasc implementou o Sigen+ e fez novos investimentos em tecnologia, como a plataforma Conecta Cidasc, por meio do Projeto Inova Defesa, criada para dar mais dinamismo à coleta e análise de dados. Para a presidente Celles Regina de Matos, o avanço tecnológico contribuiu para o sucesso da rastreabilidade bovina e bubalina. “Completamos mais um ano deste sistema vitorioso, criado em 2008, buscando sua melhoria diariamente, enquanto outros estados ainda estão trabalhando para desenvolver esse mesmo controle que já temos: identificação individual e rastreabilidade. Inovação é a marca da Cidasc”, pontua a presidente.

Atualmente, são aplicados em torno de 1 milhão de brincos  anualmente no Estado, para animais nascidos e reposições, sendo que o rebanho bovino e bubalino total é de 4.406.165 animais. Qualquer movimentação dos animais de produção (bovinos ou de outras espécies) requer a emissão de uma Guia de Trânsito Animal (GTA). Em conjunto com a identificação individual dos bovinos e bubalinos, isto proporciona um melhor controle sanitário, que não se limita a prevenir o risco de reintrodução da febre aftosa, trazendo ganhos em diversas questões de sanidade animal.

Fonte: Assessoria SAR SC

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Resolução do CMN reforça direito ao alongamento da dívida rural

Especialistas afirmam que exigência de pedido antes do vencimento não tem previsão no Manual de Crédito Rural e que norma de 2025 impõe dever de análise às instituições financeiras.

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Foto: Jonathan Campos

O alongamento da dívida rural voltou ao centro do debate jurídico após a edição da Conselho Monetário Nacional nº 5.220/2025. A norma alterou o Manual de Crédito Rural e passou a autorizar expressamente a renegociação de operações mesmo quando o pedido é apresentado após o vencimento da parcela, ponto que vinha sendo utilizado por instituições financeiras para negar o benefício.

A controvérsia gira em torno da interpretação do MCR 2-6-4, que trata do alongamento em casos de comprometimento da capacidade de pagamento por fatores adversos, especialmente frustração de safra e eventos climáticos. Bancos passaram a indeferir solicitações sob o argumento de que o produtor deveria ter protocolado o pedido antes do vencimento da operação.

Advogada e mestre em Direito, Charlene de Ávila: “Criar requisito não previsto em lei viola o princípio da legalidade estrita, especialmente quando estamos falando de crédito rural, que é instrumento de política agrícola constitucional” – Foto: Arquivo pessoal

Para a advogada e mestre em Direito, Charlene de Ávila, essa exigência carece de base normativa. “A MCR 2-6-4 não condiciona o alongamento de dívida rural à apresentação do pedido antes do vencimento da operação. Não há prazo decadencial expresso nem menção a pedido prévio obrigatório”, afirma.

Segundo ela, trata-se de criação interpretativa restritiva a um direito subjetivo previsto em política pública. “Criar requisito não previsto em lei viola o princípio da legalidade estrita, especialmente quando estamos falando de crédito rural, que é instrumento de política agrícola constitucional”, sustenta.

Crédito rural não é contrato comum

O debate extrapola o campo contratual. O crédito rural foi institucionalizado pela Lei 4.829/1965 como instrumento de desenvolvimento do setor primário, vinculado ao artigo 187 da Constituição Federal. Diferentemente do crédito comercial, envolve recursos públicos equalizados pelo Tesouro Nacional e finalidades de interesse coletivo, como produção de alimentos e segurança alimentar.

Para o advogado agrarista, especialista em Direito Tributário e em Direito Processual Civil, Néri Perin, aplicar ao crédito rural a lógica estrita do direito privado é equívoco técnico. “O crédito rural não envolve apenas banco e produtor. Há interesse público direto, com recursos subsidiados e finalidade constitucional. Não se pode tratar esse instrumento como simples contrato bancário regido apenas pelo ‘pacta sunt servanda'”, frisa.

Perin ressalta que o princípio segundo o qual o contrato deve ser cumprido nunca foi absoluto. “Se ele já comporta flexibilizações no direito privado, com maior razão deve ser interpretado à luz da função social e da política pública quando falamos de crédito rural”, menciona.

Formalismo x realidade produtiva

Na prática, produtores afetados por geadas, estiagens, doenças ou oscilações abruptas de preços relatam dificuldades para dimensionar prejuízos antes do vencimento das parcelas. A extensão das perdas, muitas vezes, só é conhecida após a colheita ou comercialização. “Exigir pedido prévio é exigir que o produtor preveja o imprevisível. O direito ao alongamento passa a ser uma ficção jurídica se condicionado a uma formalidade que a própria norma não exige”, afirma Charlene.

A advogada argumenta que a negativa automática, baseada exclusivamente na intempestividade, esvazia a finalidade do instituto. “O alongamento nasce da frustração objetiva da safra, não do protocolo. O direito material decorre do fato gerador, a quebra produtiva, e não de um requisito formal inexistente”, pontua.

Impacto da Resolução 5.220/2025

Advogado agrarista, especialista em Direito Tributário e em Direito Processual Civil, Néri Perin: “O crédito rural não envolve apenas banco e produtor. Há interesse público direto, com recursos subsidiados e finalidade constitucional” – Foto: Arquivo pessoal

A Resolução nº 5.220/2025 alterou o MCR ao incluir a possibilidade de renegociação mesmo após o vencimento, desde que observadas as regras do MCR 2-6-7, que disciplina o alongamento por frustração de safra. A mudança afasta a lógica da preclusão automática e impõe às instituições financeiras o dever de analisar o pedido. “Essa norma retira o tema do campo da discricionariedade contratual e o coloca no âmbito do dever regulatório. O banco não pode simplesmente negar por atraso; precisa examinar os pressupostos técnicos da frustração de safra”, explica Néri Perin.

Na avaliação dele, a manutenção de decisões judiciais que validem negativa automática pode gerar tensão com o novo marco regulatório. “Após a edição da resolução, insistir na intempestividade como óbice absoluto pode configurar afronta à própria regulamentação vigente”, salienta.

Segurança jurídica

Especialistas ouvidos apontam que a controvérsia tem reflexos que ultrapassam casos individuais. A restrição indevida ao alongamento pode resultar em execuções judiciais, perda de patrimônio rural e retração produtiva, afetando cadeias agroindustriais e a oferta de alimentos. “O alongamento da dívida rural não é concessão benevolente. É direito previsto em norma de política agrícola, criado justamente para proteger o produtor de eventos alheios à sua vontade”, ressalta Charlene.

Para Perin, o debate exige revisão interpretativa por parte de bancos e do Judiciário. “Estamos falando de instrumento de estabilização da produção agrícola, não de mecanismo punitivo. O foco deve ser a finalidade econômica e social do crédito rural”, enfatiza.

Com a nova redação do MCR, o centro da análise passa a ser a comprovação da frustração produtiva, e não o momento do protocolo. A mudança sinaliza tentativa de reequilibrar a relação entre produtores e instituições financeiras, reafirmando o crédito rural como instrumento de política pública e não de exclusão econômica.

Fonte: O Presente Rural
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Startups ganham protagonismo no Show Rural Coopavel com soluções voltadas ao campo

Batalha de pitches no Espaço Impulso reuniu 25 empresas e destacou tecnologias que transformam desafios do agro em oportunidades de negócio.

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Foto: Divulgação

O último dia do Espaço Impulso no Show Rural terminou como começou: com o agro no centro da conversa. Mas, desta vez, no ritmo acelerado de uma batalha de pitches. E nas apresentações que aconteceram, 25 startups subiram ao palco para defender soluções pensadas a partir de desafios reais do campo, diante de produtores, cooperativas, investidores e representantes de grandes empresas.

Ao longo da semana, o hub de inovação do Itaipu Parquetec, em parceria com a Coopavel, consolidou-se como um espaço estratégico de conexão entre demandas reais do campo e soluções aplicáveis no agronegócio. O encerramento, com a disputa de pitches, reforçou esse propósito ao evidenciar o caminho da inovação na prática: identificar desafios, estruturar propostas, validar soluções e transformá-las em oportunidade concretas de negócio.

Dados que impactam diretamente a rentabilidade 

Quando o nome da startup STAC foi anunciado como vencedora da batalha de pitches, o reconhecimento veio comprovado por uma solução que já possui 760 equipamentos em campo e mais de 146 milhões de dados coletados. A empresa conquistou o 1º lugar ao apresentar as sondas AVESTEC, tecnologia validada em aviários de diferentes regiões do Brasil.

Com as sondas instaladas, esses dados deixam de ser percebidos apenas “no olhar” e passam a aparecer, em tempo real, na tela: temperatura, umidade, níveis de CO₂, consumo de ração e água, além do peso do lote. O efeito aparece na rotina e, depois, no fechamento das contas: menos perdas, mais previsibilidade e melhor resultado financeiro.

Nas palavras do CEO e cofundador da Stac, Mahuan Abdala, a premiação reflete a trajetória construída pela empresa no setor. “Esse reconhecimento representa todo o caminho que percorremos e a seriedade do nosso trabalho ao longo dos anos, desenvolvendo soluções específicas para o mercado avícola. A parceria com o Itaipu Parquetec e o Espaço Impulso fortalece esse movimento de levar inovação com aplicação real ao campo, tanto no cenário nacional quanto internacional”, destacou, emocionado com a conquista do primeiro lugar.

Conectividade que muda a rotina no campo 

A AgroMobility by Venko, resultado da recente fusão entre a Venko Networks e a AgroMobility, já mostrou a que veio ao unificar a expertise em redes privativas 4G e 5G, Wi-Fi e conectividade via satélite à experiência prática de atuação em áreas rurais. Na rotina do produtor, isso significa permitir que máquinas “conversem” entre si para monitorar operações, automatizar processos e aplicar agricultura de precisão, com maior controle sobre insumos, uso de água e desempenho produtivo.

A solução garantiu à startup o 2º lugar na batalha de pitches. Para o founder Leonardo Slaviero, o reconhecimento reforça a consistência do trabalho desenvolvido. “Esse prêmio mostra que estamos no caminho certo ao enfrentar um dos principais desafios do agro, que é a conectividade. O valor recebido será reinvestido no crescimento da solução e na evolução do nosso portfólio. A troca com produtores e empresas durante o Espaço Impulso fortaleceu nossa atuação e, com certeza, abrirá portas para novos projetos”, finalizou.

Espaço para quem está começando e para quem quer escalar 

Quando chegou a vez do CEO da Aqui9, Maicon Brande, apresentar a proposta da startup, ele levou ao palco uma solução pensada para dialogar diretamente com as demandas do campo e conquistou o 3º lugar no pódio. Para Maicon, o resultado sintetiza o que o ambiente proporciona a quem desenvolve soluções para o agro.

“Essa premiação representa oportunidade. Ao longo do evento, conversamos com cooperativas, empresas e diferentes players do setor, ampliando as possibilidades de parceria e evolução das nossas soluções. Também é um reconhecimento de mercado, que mostra que o que estamos desenvolvendo tem relevância e aderência real às necessidades do agro”, afirmou.

Ao longo da programação, as startups circularam pelo espaço em uma dinâmica que vai além da apresentação no palco. Em muitos casos, é ali que um pitch pode se transformar em projeto-piloto, o primeiro passo para escalar soluções que nascem pequenas, mas miram grande impacto no campo.

A trajetória da Zeit se transformou em um exemplo dessa premissa. A startup ampliou sua atuação ao conectar tecnologia e eficiência operacional no agro, ampliando mercado e parcerias estratégicas após passar por ambientes de inovação como o Impulso.

O mesmo movimento pode ser observado em grandes empresas que buscam soluções mais ágeis por meio de startups. Casos de conexão com corporações como a Cargill, Baldan, Sansuy e Embio, entre outros grandes players do setor, demonstram que o setor tradicional está aberto e atento às tecnologias que trazem ganho real de produtividade, eficiência e inovação.

Com o encerramento do Show Rural, a programação do Impulso segue ao longo do ano, mantendo a agenda de eventos. O próximo encontro já está marcado para o mês de março, com o CooperElas, evento voltado às mulheres que integram a Coopavel. Na sequência, estão previstas atividades setoriais para discutir temas como bovinocultura, suinocultura, editais de inovação aberta e outras pautas prioritárias para o desenvolvimento do setor.

Fonte: Assessoria Coopavel
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Cota da China pode retirar carne brasileira do mercado em menos de seis meses

Diferença entre volumes já embarcados e limite autorizado cria desequilíbrio de quase 50% e pressiona diplomacia por ajuste técnico nas regras.

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Foto: Shutterstock

A salvaguarda adotada pela China para proteger sua produção local é, sem dúvida, uma medida legítima e até exemplar. Trata-se de uma decisão soberana que demonstra o zelo com o produtor interno, algo que também deveríamos praticar com igual rigor. O ponto que exige atenção, contudo, não é a existência da salvaguarda em si, mas as condições e adaptações necessárias à sua implementação.

No caso específico da carne vermelha brasileira, é indispensável considerar a dinâmica própria desse comércio. A relação entre produção, embarque e entrega opera em ritmo acelerado e com contratos previamente estabelecidos. O ciclo médio entre a produção e a chegada do produto ao destino gira em torno de 75 dias, o que significa que qualquer alteração abrupta nas regras impacta volumes já comprometidos e em trânsito.

Artigo escrito por Paulo Bellicanta, presidente do Sindicato das Indústrias de Frigoríficos do Estado de Mato Grosso (Sindifrigo).

À época da implementação da medida, o volume comercializado era da ordem de 170 mil toneladas por mês, o que representa aproximadamente 7.700 toneladas por dia. Projetado para o período de 75 dias, isso resulta em cerca de 500 mil toneladas em trânsito, desconsiderando inclusive eventuais interrupções por feriados. Diante da cota atual, a diferença alcança quase 50% do total pretendido, criando um descompasso evidente entre oferta e limite autorizado.

Esse cenário pode levar, em menos de seis meses, à ausência do produto brasileiro no mercado chinês. Por isso, a solicitação do Brasil para que sejam consideradas na cota de 2026 apenas as cargas efetivamente embarcadas neste ano não é um pleito meramente setorial, mas uma medida vital para a sobrevivência do setor produtivo brasileiro e para o equilíbrio do abastecimento, sem prejuízo ao produtor chinês, justamente o objetivo central da salvaguarda.

Os números são claros. Em 30 de dezembro de 2025 havia cerca de 350 mil toneladas entre portos chineses e cargas em trânsito. Somam-se a isso 120 mil toneladas exportadas em janeiro e uma previsão de 100 mil toneladas para fevereiro. Ao final desse período, o total entregue poderá alcançar 570 mil toneladas. Restariam, então, para os dez meses seguintes de 2026, apenas 530 mil toneladas, o equivalente a 53 mil toneladas por mês, frente às 170 mil entregues em dezembro.

Não se trata de uma análise teórica ou de projeções especulativas, mas da leitura objetiva de números que já sinalizam risco de desabastecimento no mercado chinês e grave impacto sobre a cadeia produtiva brasileira. É imprescindível que a diplomacia brasileira leve à mesa das relações bilaterais essa realidade concreta, demonstrando que ajustes técnicos são necessários para preservar a previsibilidade e a estabilidade do comércio.

A China é, indiscutivelmente, nossa grande e leal parceira comercial. O que se impõe agora é a capacidade de expor, com dados e serenidade, as preocupações legítimas de um setor estratégico para ambas as economias.

Fonte: Artigo escrito por Paulo Bellicanta, presidente do Sindicato das Indústrias de Frigoríficos do Estado de Mato Grosso (Sindifrigo).
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