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Saiba quais são as principais doenças da estação chuvosa, como prevenir e tratar

Os apontamentos são do médico-veterinário da Embrapa Pecuária Sudeste, Eduardo Luiz de Oliveira.

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O Presente Rural conversou com o médico veterinário da Embrapa Pecuária Sudeste, Eduardo Luiz de Oliveira, para saber quais as principais doenças que afetam o rebanho bovino no período das chuvas. O objetivo é ajudar o pecuarista a se antecipar a possíveis problemas na estação que se aproxima e garantir mais rentabilidade na pecuária de corte e leite. Confira.

Médico-veterinário da Embrapa Pecuária Sudeste, Eduardo Luiz de Oliveira – Foto: Divulgação/Embrapa

O Presente Rural – Como o El Niño pode interferir na próxima estação chuvosa?

Eduardo Luiz de Oliveira – A influência do El Niño na próxima estação chuvosa deverá ser diferente em cada uma das regiões do país. No geral, as chuvas se intensificam com temperatura acima da média na região Sul, enquanto que no Norte tornam-se mais escassas, principalmente na Amazônia, o que aumenta o risco de incêndios. Já no Nordeste o evento poderá ocasionar secas severas da área central até o Norte, reduzindo drasticamente a oferta das pastagens e, consequentemente, a produção econômica pecuária, sendo ainda determinante na mortalidade catastrófica de grandes ruminantes, por inanição, sede e fome. Na região Sudeste o fenômeno praticamente não altera a estação chuvosa, salvo um aumento considerável na temperatura. No Centro-oeste não há mudança nas chuvas nem na temperatura, contudo, para o Sul de Mato Grosso do Sul, temperaturas elevadas com chuvas acima do esperado para a estação chuvosa.

O Presente Rural – Quais as condições da estação chuvosa que mais desafiam os bovinos, tanto de corte quanto de leite?

Eduardo Luiz de Oliveira – A estação chuvosa aliada às altas temperaturas no período de verão intensificam sobremaneira os desafios aos rebanhos em exploração pecuária para produção de leite ou carne em países de clima tropical. Geralmente, uma das piores condições que se estabelece durante as chuvas é o acumulo de água e a formação de atoleiros para bovinos na chegada e no interior dos currais de manejo ou na entrada do barracão ou sala de ordenha, em volta de bebedouros, saleiros e comedouros alocados de forma incorreta em áreas de baixada ou alagadiças, sem a devida preparação do terreno para o escoamento e a drenagem correta do volume de águas acumulado durante as chuvas. Tal situação gera inúmeras perdas, devido ao aumento do estresse e consumo de energia para mantença, redução do ganho de peso/dia em bovinos de corte e leite, com impacto na menor fertilidade, número de partos e bezerros desmamados por ano, menor produção de litros de leite/dia em rebanhos leiteiros, além do alto custo com o tratamento de doenças previsíveis que surgem em surtos, como a pododermatite infecciosa, popularmente conhecida como frieira ou unheira, ou seja, um somatório de prejuízos que impacta negativamente a viabilidade econômica dos sistemas pecuários durante a estação chuvosa.

O Presente Rural – Como a estação chuvosa interfere nos diferentes sistemas de produção, como a pasto, semi confinado ou confinado?

Eduardo Luiz de Oliveira – O sistema de produção a pasto ganha um enorme potencial de exploração durante a estação primavera-verão com clima quente e chuvas abundantes no Brasil. O aumento das chuvas aliado à maior incidência de radiação solar favorece o desenvolvimento, crescimento e perfilhamento das plantas forrageiras tropicais, proporcionando maior produção de matéria seca por hectare, permitindo aumento em várias vezes na taxa de lotação de bovinos nas pastagens (UA/ha).

Os sistemas de produção intensivos, tanto o semiconfinado (pasto e cocho), que mantém alta taxa de lotação animal/ha, quanto os confinamentos em áreas descobertas, com alta lotação animal/m² nos currais, são altamente desafiados na estação chuvosa devido à formação de atoleiros em piquetes rotacionados, corredores para condução dos animais, na entrada, saída e interior dos currais, no entorno de bebedouros, saleiros e comedouros. Nestes casos, a solução passa pela antecipação dos problemas, organizando ainda no período da seca, a devida preparação do terreno com terraplanagem, drenagem e escoamento correto do volume de águas acumulado, evitando o estresse dos animais, alto gasto energético e queda no ganho de peso/dia, além da alta ocorrência de doenças como a pododermatite infeciosa, reduzindo as despesas previsíveis, melhorando a eficiência técnica e econômica do sistema de produção.

O Presente Rural – Quais são os vetores ou agentes patogênicos de interesse da bovinocultura que mais se proliferam nessa época?

Eduardo Luiz de Oliveira – Dentre os principais vetores ou agentes patogênicos que se multiplicam e aumentam seu potencial de disseminação no ambiente durante a temporada de chuvas e calor intenso no Brasil, destacam-se as bactérias, protozoários, helmintos (vermes) e os ectoparasitas (carrapato e moscas) de importância médico-veterinária.

O Presente Rural – Cite as principais enfermidades que afetam os bovinos nesse período no Brasil. Poderia nos dar uma visão geral sobre cada uma delas?

Eduardo Luiz de Oliveira – Dentre as enfermidades que mais afetam os rebanhos bovinos durante a estação chuvosa e quente no Brasil destacam-se as diarreias em bezerros, a leptospirose, a pododermatite infecciosa, as mastites em vacas de leite e as infestações por carrapatos e moscas.

As diarreias em bezerros podem ter causa infecciosa ou não infecciosa. As diarreias de origem infecciosas mais prevalentes na estação chuvosa e quente são causadas principalmente por bactérias, destaque especial para a Escherichia coli (E. coli), causadora da doença conhecida como colibacilose. A E.coli é uma bactéria não patogênica presente naturalmente no trato gastrintestinal de bovinos. A forma de transmissão da bactéria é oral-fecal e sua veiculação ocorre de forma rápida e fácil, via contaminação da água, capim e outros alimentos. A diarreia, geralmente, aparece em bezerros com baixa imunidade, fator determinante para ativar a patogenicidade da bactéria, que pode ocorrer ou não em associação a outros patógenos. A prevenção exige por parte do produtor a organização de um calendário de vacinação para vacas prenhas, utilizando vacinas contra diarreia neonatal de bezerros que inclua a E. coli, seguindo as orientações de um médico veterinário. Além disso, recomenda-se atenção na observação da primeira mamada do colostro, logo nas primeiras 6 horas após o nascimento do bezerro, o que lhe assegura maior imunidade, via absorção das imunoglobulinas do colostro, e proteção contra a doença.

A eimeriose ou coccidiose bovina, doença infecciosa causada por protozoário do gênero Eimeria, é responsável por alterações gastrintestinais, diarreia, desidratação e morte de animais jovens. Por outro lado, é autolimitante em bovinos adultos. No campo é relatada com bastante frequência e conhecida como curso de sangue. A doença apresenta-se de forma endêmica, sua prevalência varia por região geográfica com maior ocorrência em explorações intensivas, principalmente de produção de leite, porém, tem ampla distribuição em rebanhos de corte com estação de nascimentos de bezerros durante a temporada das chuvas. A infecção e a reinfecção dos animais ocorre a partir da ingestão do oocisto esporulado que liberado nas fezes contamina de forma rápida e fácil a água parada na borda de lagoas, riachos ou cacimbas que servem de bebedouros naturais para os bovinos no meio das pastagens. Em sistemas de produção intensivos com alta taxa de lotação animal, confinado ou a pasto, a doença pode aparecer em surtos de diarreia escura, devido à rápida transmissão (oral-fecal) via fezes com oocistos esporulados contaminando a água de bebida, o capim e outros alimentos. A prevenção e controle da doença dependem da adequação do ambiente, evitando o contato dos animais com as fontes de infeção.

A pododermatite infecciosa, popularmente chamada de frieira, unheira ou foot hot, é uma doença causada por duas bactérias anaeróbias, o Dichelobacter nodosus e o Fusobacterium necrophorus, este último, um habitante natural do trato digestivo dos ruminantes, pode sobreviver por vários meses no solo. Essas bactérias aproveitam uma pequena lesão na região entre os dois cascos como porta de entrada para sua instalação e multiplicação, gerando inflamação e necrose purulenta com odor fétido, ocasionando dor, claudicação e lesões profundas que podem levar os animais acometidos ao descarte. As perdas decorrentes da doença ocorrem em função da diminuição da produção leiteira, redução do ganho de peso/dia, da baixa fertilidade, além do alto custo com o tratamento dos animais doentes. A pododermatite infecciosa possui origem multifatorial, tendo como premissas a construção e uso de instalações inapropriadas, práticas errôneas no manejo geral e nutricional do rebanho, além da predisposição de algumas raças de bovinos. Em rebanhos leiteiros o uso de pedilúvio com solução de sulfato de cobre (5%), sulfato de zinco (5%) ou formalina (5%), quinzenalmente no período seco e, uma vez na semana durante a estação chuvosa, contribui sobremaneira na prevenção e controle da doença. No mercado existem vacinas contra a pododermatite infecciosa, seu uso não evita a doença, contudo, diminui significativamente o número de casos no rebanho e o custo com o tratamento.

A helmintose ou verminose é uma doença que compromete de forma silenciosa a eficiência técnica e econômica dos sistemas produtivos de bovinos a campo no país. A maior parte das regiões brasileiras apresentam condições ambientais favoráveis (temperatura, umidade e oxigenação) ao estabelecimento de ovos de parasitos (vermes) gastrintestinais que depositados nas fezes liberam larvas, ambos se desenvolvem e permanecem viáveis no microclima abaixo das touceiras de capim por vários meses. As larvas L3 migram por gotas de água, alcançam as pontas do capim, são ingeridas e infectam os bovinos durante o pastejo. No trato digestivo as larvas L3 se transformam em vermes adultos, começam a se alimentar de nutrientes ou sangue, enquanto colocam ovos que saem nas fezes e contaminam novamente a pastagem. Praticamente todos os animais a campo estão parasitados, podendo apresentar em alguma proporção problemas na digestão de alimentos, na absorção de nutrientes e em seu metabolismo, o que, consequentemente, reduz o ganho de peso/dia, retarda o crescimento, diminui a fertilidade e a produção de carne e leite. Os sinais da doença aparecem, principalmente, em animais jovens, como a perda do apetite, apatia, emagrecimento, abdômen distendido, pelos eriçados e sem brilho, edema de papada, anemia, às vezes, diarreia, com taxa de óbitos oscilando entre 10 e 30% em animais não tratados. Os prejuízos acarretados pela doença nos rebanho incluem a queda de 20 a 30% na produção de leite e carne. O controle da verminose depende da elaboração de programas condizentes com as condições climáticas de cada região, observando as épocas corretas de aplicação de vermífugos, direcionado a cada categoria do rebanho, uso de produtos com eficácia garantida, e respeitando o período de carência na carne e no leite, além da adoção de boas práticas de manejo, como evitar superlotação no pasto, separação de animais jovens e adultos, rodízio de pastagens com áreas de lavoura, manter rotina de limpeza de bebedouros e reserva de pastos descansados para animais recém-desmamados.

A leptospirose bovina é uma doença infecciosa causada por bactérias do gênero Leptospira. O verão quente e chuvoso facilita sua disseminação e sobrevivência por meses em poças de água ou terras encharcadas, principalmente, em solos com ph neutro ou levemente alcalino, fatores que aumentam sua ocorrência nesta época do ano. Sua transmissão ocorre pela ingestão de água, capim ou solos contaminados, aliás, em condições de baixa umidade e incidência de radiação solar a bactéria sobrevive apenas meia hora no ambiente das pastagens. A doença crônica pode ser quase imperceptível, a suspeita diagnóstica aparece com o abortamento de vacas no terço final da gestação, eliminando na urina e restos placentários grande quantidade de bactérias no pasto, e ainda se mantém como portadores. Na fase aguda da infecção os bovinos podem apresentar lesões renais, eliminação de urina cor de chocolate (hematúria), anemia, icterícia e alguns animais podem evoluir ao óbito. O roedor se mantém como reservatório natural da bactéria que é eliminada na urina. Em casos de suspeita o diagnóstico é feito a partir do exame de sangue dos bovinos. O sorogrupo “Hardjo” é mais encontrado em bovinos, já o sorogrupo “Icteriohaemorhagiae” em ratos. A conclusão do teste indicará como se deve proceder as medidas de prevenção da doença. A adoção de boas práticas no controle de roedores depende da eliminação de abrigos, fontes de água e alimento, limpeza do ambiente, remoção de lixo, acondicionar ração em depósitos fechados, uso de armadilhas e outros. Caso a infecção seja veiculada pela urina de bovinos a profilaxia perpassa pela elaboração de um esquema vacinal para todo rebanho com a aplicação de duas ou três doses anuais, intervalos de seis a quatro meses. A vacina reduz os efeitos da doença, não impede a infecção do animal. Uma medida importante é o monitoramento dos animais por meio de provas sorológicas. Outras estratégias fundamentais incluem: evitar água parada e áreas inundadas, limpeza e desinfecção de bebedouros e comedouros, e adotar o tratamento de todas as vacas que abortaram com antibióticos a base de estreptomicina, visando reduzir a eliminação da bactéria no ambiente.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor avícola acesse gratuitamente a edição digital de Bovinos, Grãos e Máquinas. Boa leitura!

Fonte: O Presente Rural

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Nova gestão da Girolando prioriza crise do leite e inovação no campo

À frente da entidade, Alexandre Lacerda defende combate às importações e ampliação do acesso ao melhoramento genético para pequenos e médios pecuaristas.

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Foto: Divulgação/Girolando

Uma das maiores entidades do setor leiteiro do país, a Associação Brasileira dos Criadores de Girolando passa a ser comandada pelo pecuarista e advogado Alexandre Lopes Lacerda. A posse da Diretoria e Conselhos eleitos para o triênio 2026/2028 ocorreu na quinta-feira (26), em Uberaba (MG), e contou com a presença de diversas lideranças do agro e criadores, dentre elas a prefeita de Uberaba Elisa Araújo, os deputados federais Emidinho Madeira e Rafael Simões e o secretário de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento Thales Fernandes.

Entre as prioridades do novo presidente estão: defesa dos direitos dos produtores de leite, incluindo ações para combater a atual crise do leite; facilitar o acesso de pequenos e médios produtores às tecnologias de melhoramento genético e a animais de alta qualidade. “Queremos fortalecer o programa de melhoramento da raça Girolando, o PMGG, desenvolvendo ferramentas para potencializar a utilização das informações genética pelos criadores, permitindo a customização de índices genéticos para cada fazenda e acompanhando a evolução a cada geração. Vamos nos empenhar nesses próximos três anos para que mais e mais produtores adotem essas inovações, visando produzir um Girolando moderno, eficiente e sustentável”, assegura Lacerda.

Durante a solenidade, as lideranças presentes reforçaram a necessidade de unir forças na defesa dos direitos dos produtores rurais. Segundo o deputado Rafael Simões, uma das ações em andamento é para inibir a importação de leite do Uruguai e da Argentina, que vem prejudicando o setor. O secretário de Minas Thales Fernandes disse que o governo mineiro também vem trabalhando para vencer a atual crise do leite e para levar mais tecnologia par ao campo. O deputado Emidinho Madeira destacou a parceria com a Girolando para levar mais genética de qualidade para as pequenas propriedades leiteiras. A prefeita de Uberaba Elisa Araújo assegurou que o agro é importante para a economia da cidade e que vários projetos voltados para a pecuária estão levando mais renda para o campo.

Em seu discurso de despedida, Domício Arruda, que comandou a Girolando na gestão 2023/2025, ressaltou as realizações feitas, dentre elas a construção da Casa do Girolando no Parque Fernando Costa, a aquisição de um terreno para construção de uma nova sede, os dois anos seguidos de recordes nos registros. Segundo ele, a raça chega a 2026 mais consolidada, com várias tecnologias  de seleção dentro do PMGG e reconhecida pelo mercado internacional como a genética leiteira ideal para os trópicos.

Com mais de quatro mil associados em todo o país, a Associação de Girolando intensificará este ano ações promocionais para ampliar o consumo de leite na sociedade brasileira. Durante a Megaleite 2026, exposição nacional da raça marcada para junho, a entidade levará o tema “Aqui tem leite”, mostrando que nos mais diversos produtos, como medicamentos, alimentos, suplementos, o leite é utilizado como matéria-prima. “O leite é um produto fundamental no dia a dia das pessoas e precisamos reforçar com informações relevantes suas qualidades para o público em geral, até para combater tantas fake news que existem sobre o alimento”, diz Alexandre Lacerda, que é criador da raça Girolando há duas décadas, na Fazenda Miraí, localizada na região da Serra do Cipó, além de atuar na área de advocacia.

Fonte: Assessoria Girolando
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Lei Complementar eleva custo tributário nas cadeias de leite, café, trigo e soja

Redução linear de 10% nos benefícios fiscais federais altera créditos presumidos, cria pontos de cumulatividade e deve pressionar preços ao consumidor, com impacto também sobre fertilizantes e insumos agropecuários.

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Foto: Isabele Kleim/Divulgação

A publicação da Lei Complementar 224/2025, que promoveu um corte linear de 10% nos benefícios fiscais federais incidentes sobre diferentes elos do agronegócio, deve elevar custos ao longo das cadeias de leite, café, trigo e soja. A expectativa é de repasse gradual ao consumidor final e de reabertura do debate sobre a cumulatividade de tributos que, até então, operavam sob lógica não cumulativa.

Foto: Gilson Abreu/AEN

Na avaliação da advogada tributarista Cintia Meyer, a nova sistemática tende a gerar efeito cascata. Ao reduzir créditos presumidos e alterar incentivos, a medida amplia o custo tributário em segmentos que já enfrentam compressão de margens, pressionados por custos elevados de produção e preços internacionais deprimidos de commodities.

O Demonstrativo de Gastos Tributários (DGT) que integra a Lei Orçamentária Anual lista cerca de 300 hipóteses de benefícios fiscais, além de outras 14 tratadas especificamente na Lei Complementar 224/2025. Segundo Meyer, empresas que utilizam qualquer desses mecanismos precisarão revisar suas estruturas tributárias. “Se a empresa conta com algum desses benefícios, o impacto pode ser direto no resultado”, afirma.

Como a norma foi sancionada em dezembro, seus efeitos já alcançam o IRPJ e o Imposto de Importação desde 1º de janeiro, em respeito ao princípio da anterioridade. Para PIS, Cofins, IPI, CPS e CSLL, as novas regras passam a valer a partir de 1º de abril, ampliando o alcance da medida ao longo do primeiro semestre.

Leite tem corte em créditos e nova tributação sobre derivados

Foto: Fernando Dias

Na cadeia do leite, a Lei Complementar 224/2025 reduz de forma direta os créditos presumidos concedidos à indústria. Para os laticínios em geral, o percentual cai de 1,85% para 1,67%. Já no caso das empresas enquadradas no Programa Mais Leite Saudável, o crédito passa de 4,63% para 4,17%. Embora se trate de um benefício condicionado à realização de investimentos, o texto legal não explicita se esse mecanismo poderia ser exceção ao corte linear, o que amplia a insegurança jurídica do setor.

Em documento de perguntas e respostas, a Receita Federal informou que a aplicação do benefício deverá ser analisada “caso a caso”, de acordo com a execução dos projetos aprovados no programa, abrindo margem para interpretações distintas e potenciais questionamentos administrativos ou judiciais.

No consumo doméstico, os produtos que integram a cesta básica seguem com alíquota zero. No entanto, itens relevantes do portfólio dos laticínios, como leite fluido, soro de leite, leite fermentado e bebidas lácteas, passam a ser tributados em 0,925% de PIS/Cofins, elevando o custo ao longo da cadeia e pressionando as margens da indústria. As exportações, por força da imunidade constitucional, permanecem isentas de tributação.

Exportações de café têm redução de crédito presumido

Foto: Divulgação/Governo da Bahia

Na cadeia do café, a indústria de torrefação mantém a aplicação de alíquota zero nas vendas internas, por se tratar de produto incluído na cesta básica. A mudança ocorre nas operações de exportação. Com a Lei Complementar 224/2025, houve redução dos créditos presumidos vinculados às vendas externas.

Para o café cru, o crédito presumido sobre a aquisição de insumos recua de 7,4% para 6,66%. Já no café torrado ou solúvel, o percentual calculado sobre a receita de exportação cai de 0,925% para 0,8325%. A diminuição reduz a margem das empresas exportadoras e altera a estrutura de custos em um segmento altamente dependente do mercado internacional.

Trigo concentra efeitos mais sensíveis da mudança

Na cadeia do trigo, os efeitos são distintos e considerados mais sensíveis. Segundo a tributarista, a principal mudança atinge a aquisição do grão destinado à produção de farinha. “A operação, que antes estava sujeita à alíquota zero, passa a ser tributada sem direito a crédito para o comprador. Na prática, trata-se de um tributo não recuperável, incorporado diretamente ao custo de aquisição”, explica Cintia.

Como a farinha é insumo básico para a fabricação de pães, o impacto tende a se propagar ao longo da cadeia, elevando o custo do produto final e pressionando o preço ao consumidor.

Foto: Cleverson Beje

Além da tributação na aquisição do grão, a Lei Complementar 224/2025 também reduziu o crédito presumido de 3,24% para 2,92% para o trigo. “As vendas no mercado interno permanecem inalteradas para os produtos incluídos na cesta básica, como farinha de trigo e pré-mistura para pão, que seguem com alíquota zero. Já os itens fora desse rol, como pré-misturas para bolos, mantêm a tributação anteriormente aplicada”, detalha Cintia.

Para o advogado tributarista Luiz Eduardo Costa Lucas, a alteração cria uma distorção no sistema. Segundo ele, trata-se de um caso em que um produto que operava com alíquota zero passa a gerar incidência tributária no meio da cadeia, sem possibilidade de creditamento. “Na prática, o imposto recolhido não é recuperável, incorpora-se ao custo e reabre a discussão sobre a não cumulatividade, tema debatido desde 2004. O resultado é a transferência do encargo ao consumidor final”, pontua.

Milho tem crédito presumido reduzido ao longo da cadeia

Foto: Fernando Dias/Ascom Seapi

Estrutura semelhante foi adotada na cadeia do milho. Embora os insumos não tenham sido diretamente afetados, o crédito presumido sobre aquisições de pessoas físicas foi reduzido de 3,24% para 2,92%. No óleo de milho, tanto as vendas no mercado interno quanto as exportações tiveram o crédito presumido diminuído, de 2,498% para 2,248, ampliando a pressão sobre as margens do setor.

Óleo de soja perde desoneração e crédito é reduzido

Na cadeia da soja, a aquisição de insumos permanece sem alterações. A mudança ocorre na etapa de comercialização. O óleo de soja, atualmente enquadrado na cesta básica e sujeito à alíquota zero de PIS/Cofins, mas fora do rol previsto na reforma tributária, passará a recolher 0,925% desses tributos.

Além disso, o crédito presumido sobre as vendas de farinha de soja, óleo e resíduos foi reduzido em 10%, caindo de 2,498% para 2,248%, o que comprime as margens ao longo da cadeia.

Fertilizantes passam a ter tributação na entrada e na saída

Foto: Claudio Neves

Impacto mais amplo é observado na indústria de fertilizantes. Insumos agropecuários que até então operavam com alíquota zero de PIS/Cofins passam a ser tributados em 0,925%. O mesmo percentual incidirá sobre as vendas no mercado interno de adubos, defensivos, sementes, mudas e corretivos, que também eram desonerados.

Segundo Cintia, o efeito é cumulativo. “O segmento passa a ser tributado na aquisição, sem direito a crédito, e também na saída. No caso da importação, a indústria de fertilizantes terá de recolher PIS e Cofins sem possibilidade de compensação”, afirma a tributarista.

Na prática, trata-se de um custo adicional incorporado à formação de preços, com potencial de repercussão direta sobre os produtores rurais e, ao final da cadeia, sobre o consumidor.

Insegurança jurídica amplia risco de cumulatividade e judicialização

Diante da ausência de uma lista expressa sobre quais benefícios foram efetivamente alcançados pela Lei Complementar 224/2025, Cintia recomenda uma análise criteriosa caso a caso. Segundo ela, é necessário verificar se o tributo envolvido está entre aqueles abrangidos pela norma, como PIS, PIS-Importação, Cofins, Cofins-Importação, Imposto de Importação (II), IPI, IRPJ, CSLL e CPP.

Além disso, o benefício precisa constar no Demonstrativo de Gastos Tributários da Lei Orçamentária Anual (LOA), enquadrar-se como incentivo fiscal e não se tratar de uma exceção legal específica.

Fonte: Martinelli Advogados

Segundo Cintia, os critérios mencionados não esgotam as possibilidades de enquadramento e a interpretação dependerá, em grande medida, do entendimento adotado pela Receita Federal, aspecto que não está detalhado na Lei Complementar 224/2025. “Há situações que, em tese, não se enquadram, mas a Receita pode interpretar de forma diferente, o que pode gerar discussões amplas e até judicialização”, menciona a advogada.

Por sua vez, Costa Lucas observa que, até o fim do ano passado, não havia preocupação prática em diferenciar, sob a ótica do governo, o que seria benefício fiscal e o que configuraria gasto tributário. Anualmente, a Receita encaminha a relação de gastos, mas a nova regra levanta a dúvida sobre se todos os itens listados podem ser automaticamente classificados como benefícios. “Nem tudo que está ali necessariamente é benefício”, pontua.

Foto: Divulgação/Governo da Bahia

Para ele, é essencial verificar se o item está previsto na Lei Orçamentária Anual (LOA) e, além disso, se efetivamente se caracteriza como incentivo fiscal. Como não há definição legal clara sobre esse enquadramento, forma-se uma zona de incerteza. Costa Lucas destaca que o debate sobre a natureza dessas rubricas estava adormecido e volta agora ao centro da discussão. Na avaliação dele, a redução linear pode atingir mecanismos básicos do sistema, reintroduzindo cumulatividade, especialmente em cadeias do agronegócio.

Na ponta, o impacto tende a alcançar o consumidor. Isso porque o varejo passará a adquirir produtos que sofreram tributação ao longo da cadeia sem possibilidade de crédito. Como o imposto é calculado ‘por dentro’, o custo se incorpora ao preço. Na prática, segundo a tributarista, um modelo concebido como não cumulativo passa a operar com efeitos cumulativos, pressionando o valor final pago pelo consumidor.

Fonte: O Presente Rural com Martinelli Advogados
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Nelore, o boi que samba

Enredo histórico levou o Nelore ao Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional, colocando a raça no centro da narrativa cultural do país e destacando sua importância para o agronegócio brasileiro.

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Foto: Divulgação/ACNB

Há 20 anos, em 28 de fevereiro de 2006, o icônico locutor da apuração do desfile de carnaval de São Paulo, anunciava: a Império de Casa Verde era bicampeã da folia paulistana. A vitória veio com um enredo que se tornou histórico para o agronegócio brasileiro, ao colocar o Nelore no centro da narrativa cultural do país e levá-lo ao Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional.

A presença do Nelore naquela passarela não foi um gesto episódico nem ornamental. Foi a afirmação pública de uma trajetória construída no campo e, já naquela época, profundamente conectada ao desenvolvimento econômico e social do Brasil. Ao ocupar o carnaval, a raça mais representativa da pecuária nacional passou a dialogar diretamente com a sociedade, em um espaço onde o país se reconhece e se expressa culturalmente.

Artigo escrito por Victor Paulo Silva Miranda, presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil – Foto Foto: Divulgação/ACNB

Falar do Nelore é falar da base da pecuária de corte. A raça responde por aproximadamente 80% do rebanho nacional com essa aptidão, sustentando um modelo produtivo adaptado às condições tropicais, baseado majoritariamente em pastagens e responsável por garantir escala, eficiência e regularidade à produção de carne. Trata-se de um estrutural, que sustenta toda a cadeia, mas que muitas vezes foi silencioso. Há mais de 70 anos, a Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB) tem dado “voz” a esses animais, que passaram a “cantar” a partir dos versos da Império, compostos por Rafael, Junior Marques e Carlos Jr.

Ao ganhar visibilidade no carnaval, esse protagonismo deixou de ser restrito ao ambiente técnico e passou a integrar o imaginário coletivo. O Nelore foi apresentado como elo entre passado e presente, entre tradição e ciência, entre cultura e produção. A avenida funcionou como espaço de tradução, permitindo que a pecuária fosse compreendida para além dos números e indicadores. Afinal, “Com o boi Nelore/ A pecuária e a ciência evoluiu/ E hoje é um orgulho nacional/ É saboroso, é divinal, pode aplaudir”.

A imagem do “boi que come capim” sintetiza esse modelo. Longe de ser simplificação, ela expressa um sistema produtivo eficiente, tropical e competitivo, construído com base em seleção genética, adaptação ambiental e trabalho contínuo dos criadores. É esse modelo que permitiu ao Brasil se consolidar como potência na produção de carne bovina, com identidade própria e vantagens comparativas claras.

À época, a equipe da ACNB participou diretamente daquele processo e pôde acompanhar como a linguagem cultural ampliou o alcance dessa história. Em vez de explicações técnicas, o Nelore foi apresentado por meio de símbolos, ritmo e imagem. As gravações estão disponíveis na internet para quem quiser conferir. Nelas, a ciência e o melhoramento genético apareceram traduzidos em narrativa acessível, aproximando o campo da cidade e gerando reconhecimento sobre o papel da pecuária na vida nacional.

Duas décadas depois, em 2026, o significado daquela presença permanece atual. O Nelore segue sendo o alicerce da pecuária brasileira – hoje líder em produção e em exportação –, acompanhando avanços tecnológicos, ganhos de produtividade e novos desafios ligados à sustentabilidade e à comunicação. O que se consolidou foi a consciência de que produzir bem também exige capacidade de diálogo com a sociedade.

O Nelore no carnaval simbolizou essa maturidade. Um boi que sustenta a pecuária nacional, que responde pela maior parte do rebanho de corte brasileiro e que também ocupa o espaço da cultura. Naquela avenida, ficou claro que o Nelore não é apenas base produtiva. É identidade, história e parte viva do Brasil. E, quando preciso, também samba.

Fonte: Artigo escrito por Victor Paulo Silva Miranda, presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB).
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