Avicultura
Saiba o que o México aprendeu com a Influenza de 2012 para dar respostas em menos de 24h no atual surto
Para controlar a propagação da gripe aviária, o governo mexicano implementou uma série de recomendações de controle, incluindo a identificação precoce e o sacrifício rápido de aves infectadas, a limpeza e desinfecção de instalações de aves e a proibição da venda e transporte de aves infectadas.

Devastadora, a Influenza aviária tem gerado prejuízos incalculáveis à cadeia avícola ao redor do mundo, com registros da doença em mais de 90 países nos últimos anos. Com as primeiras notificações em 1994 no México, quando o país registrou um foco de Influenza aviária de Alta Patogenicidade (H5N2), mas que logo fora controlado com um esquema vacinal no plantel de aves, alterando o status da doença para vírus de baixa patogenicidade, o país volta a enfrentar surtos da doença, resultando em impactos econômicos significativos em sua indústria avícola.
Para controlar a propagação da gripe aviária, o governo mexicano implementou uma série de recomendações de controle, incluindo a identificação precoce e o sacrifício rápido de aves infectadas, a limpeza e desinfecção de instalações de aves e a proibição da venda e transporte de aves infectadas.
Além disso, trabalha em estreita colaboração com as organizações internacionais de saúde animal, como a Organização Mundial da Saúde Animal (OIE) e a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) para relatar, monitorar, controlar e prevenir surtos de Influenza aviária (IA) no país.
Histórico
Segundo maior produtor mundial de ovos e principal consumidor da proteína, com média de 402 unidades per capita, o México voltou a suspeitar de novos casos em 2012, quando uma granja de criação com 100 mil aves em Teocuitatlán de Corona, no Estado de Jalisco, na região Oeste do país, apresentou uma alta taxa de mortalidade, no entanto, o diagnóstico à época foi de um foco de Laringotraqueíte infecciosa. Contudo, novas granjas, em diferentes regiões, passaram a registrar incremento de mortalidade das aves que, após exames laboratoriais, o Serviço Nacional de Saúde, Segurança e Qualidade Alimentar (Senasica) confirmou a presença do vírus A subtipo H7 de alta patogenicidade, o que levou a ativar o Dispositivo Nacional de Emergência Zoossanitária (Dinesa), com registros do vírus nos municípios de Acatic, Tepatitlán e Jalisco, resultando na morte e sacrifício de cerca de 22,3 milhões de aves, acendendo a preocupação das autoridades sanitárias locais sobre a segurança alimentar e o impacto econômico para a indústria avícola mexicana.
Os casos foram reportados à OIE e imediatamente o Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica do México iniciou as ações para diagnóstico da situação de campo, implementação de atividades contra a epidemia, reforço das medidas de biosseguridade, mitigação na comercialização das aves e ovos, intensificação da vigilância epidemiológica em aves silvestres, verificação contínua de laboratórios de diagnóstico e produção de vacinas, com a criação de um plano de vacinação, que contou com a aplicação de 53 milhões de doses, decisão tomada à época em razão da falta de um fundo para desastres econômicos do país. “Inicialmente a vacinação contra Influenza aviária estava prevista para ser suspensa em outubro de 2012, no entanto, a imunização segue em andamento em pontos estratégicos no país”, afirmou o médico-veterinário mexicano Fernando Navarro, da Hy-Line, que compartilhou a experiência do México com a Influenza aviária no Congresso de Ovos, realizado em meados de março pela Associação Paulista de Avicultura (APA), em Ribeirão Preto, SP.

Médico-veterinário mexicano Fernando Navarro
De acordo com o profissional, os primeiros relatos foram feitos em aves silvestres e alguns casos pontuais em aves de quintal, reportados em outubro do ano passado. Desde então foram confirmados surtos em 12 dos 32 estados do país, tendo o primeiro surto de aves comerciais em galinhas poedeiras nos estados de Nuevo León e Sonora, no Norte do país da América Central, em novembro de 2022, com registros de surtos subsequentes, principalmente em aves de ciclo longo – galinhas poedeiras e reprodutivas – nas regiões Noroeste, Oeste e Sudeste, porém em áreas consideradas sem qualquer relação geográfica.
Em números
Segundo autoridades agrícolas federais mexicanas, cerca de 300 mil aves de postura precisaram ser abatidas após o diagnóstico da doença a fim de evitar sua disseminação e proteger o consumo nacional de produtos avícolas. Em decorrência da crise instalada pela IA no país, houve outras 15 milhões de aves mortas ou sacrificadas e 12 milhões de mexicanos deixaram de consumir ovos por dia, o que causou uma inflação de 0,11% e um aumento expressivo nos preços dos ovos de 40% e da carne de frango em 14%, segundo dados do Banco Central.
Até início de fevereiro foram confirmados casos em 50 granjas do país, com 5,9 milhões de aves infectadas, o equivalente a quase 0,3% do total de aves no país, informou o Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural.
Efeitos na cadeia produtiva
De acordo com o profissional, as unidades produtivas de aves foram submetidas a quarentena interna, desinfetadas e despovoadas, bem como todas as fazendas de produção ficaram impossibilitadas de movimentar produtos avícolas sem autorização da autoridade sanitária federal. “Como o México é um país com praticamente zero de exportação de frango e pouquíssima exportação de derivados de ovos, como ovos em pó, felizmente isso não foi afetado”, frisou Navarro.
Além da insegurança alimentar e do desemprego, esse cenário desencadeou a descapitalização dos produtores e de demais elos da cadeia na região afetada, como da indústria de ração animal, que pela baixa demanda do produto chegou a produzir apenas cerca de 45 mil toneladas por mês.
Dentre os efeitos da IA no México, Navarro cita ainda o impacto econômico direto pelo custo das aves que os produtores perderam, apesar de em volume a mortalidade pela doença não ultrapassar 0,5%. “Com a baixa oferta houve aumento dos preços do produto final e são esperadas perdas expressivas na cadeia produtiva pela importância do rebanho avícola na indústria, uma vez que muitos dos planteis eram de aves reprodutoras pesadas e leves, porém o real impacto financeiro do setor ainda não foi calculado”, menciona.
Vacinação
Conforme Navarro, quando o foco de IA foi registrado, o Senasica tinha duas cepas isoladas de patos HPAI e duas alternativas para produzir os inoculantes: uma era de um vírus de referência H7N3 HPAI do Canadá e outra de um vírus HPAI H7N3 isolado de um pato selvagem no México em 2006 e mantido aos cuidados das autoridades mexicanas, opção essa escolhida posteriormente.
De acordo com os dados oficiais do país, antes do início da campanha de vacinação a mortalidade das aves por lote variava entre 80% e 95%, após a aplicação do imunizante passou a ser entre 8% e 15%. “A vacina ajudou a prevenir a mortalidade, mas não protegeu contra as quedas de produção. Atualmente o governo federal controla as cepas para produzir a vacina por alguns anos”, menciona Navarro.
Desde o primeiro surto de IA novas tecnologias foram e estão sendo desenvolvidas, entre elas Navarro cita a genética inversa, HVT+H7 e Pox+H7. Para que os laboratórios mexicanos possam atualizar as mudanças genéticas da cepa HPAI H7N3, o governo federal autorizou a liberação da semente-mãe (vírus morto) atrelado ao uso de vacinas recombinantes (HVT o vetor Pox). “O que reduziu a mortalidade entre 2% e 4% durante o surto, assim como também em alguns casos de mudança sanitária forçada”, pontua Navarro.
Imunização massiva
Com cerca de 70 milhões de aves, a região de Los Altos de Jalisco é a área avícola mais importante do México e provavelmente a mais povoada do mundo, com cerca de cinco aves por quilômetro quadrado. Dado a sua importância e devido aos recentes registros de IA no país, o estado de Jalisco iniciou em janeiro deste ano uma campanha massiva de vacinação contra a IA em fazendas de quintal. Para a imunização, o Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural (Sader) de Jalisco destinou dois milhões de pesos para a aquisição de 4,2 milhões de vacinas das 55,8 milhões de doses que o governo federal autorizou para o estado.
Recomendações de controle sanitário
De acordo com o profissional, antes de qualquer contingência deve-se verificar nas propriedades o cumprimento de todas as medidas de biossegurança recomendas pelo Senasica, bem como a adoção de um plano para controlar a movimentação de todos os produtos e subprodutos de origem avícola, pois sua movimentação inadequada pode colocar em risco o restante da cadeia avícola, com especial atenção ao destino das aves de ciclo longo ao fim do ciclo produtivo e o tratamento térmico do esterco de frango e sua correta movimentação para os locais de aplicação. “Além disso, para a movimentação de produtos avícolas é necessário ter um resultado de PCR negativo a depender do produto a ser movimentado e deve haver um veterinário responsável autorizado pelo Senasica, que será responsável por verificar o cumprimento das normas e responder a qualquer problema que ocorra na fazenda”, expõe Navarro.
Entre as medidas que devem ser tomadas no local após a confirmação do surto, Navarro ressalta que de imediato deve ser feito o abate das aves e a eliminação de todos os subprodutos, como ovos e esterco de galinha. Feito isso, a unidade de produção é lavada e desinfetada, permanecendo em vazio sanitário pelo tempo determinado pela autoridade do país. “Depois disso são colocadas aves sentinelas para garantir que não haja circulação viral”, salienta.
Cenário atual
Diante dos recentes casos registrados e com base nas análises dos laboratórios que possuem condições de produzir a vacina contra IAAP H5N1, o governo federal autorizou a vacinação de emergência no país em meados de novembro do ano passado, tendo sido iniciado a campanha em zonas de risco, matrizes e reprodutoras. Os laboratórios também possuem autorização para exportar as vacinas.
O médico-veterinário menciona que os biológicos usados para imunização das aves são do subtipo H5N8, que provou ter 100% de proteção contra o vírus H5N1 circulante no México, e uma vacina bivalente com um vírus Newcastle + o vírus H5.
Navarro diz que o setor e os órgãos governamentais encaram o atual momento com muito mais maturidade e responsabilidade quando comparado ao cenário vivenciado em 2012. “Agora tivemos uma resposta muito mais rápida e eficaz, com resultados em menos de 24 horas. Um problema desse tipo sempre gera nervosismo em todas as áreas desse setor, mas, diferentemente do surto de H7, agora há um plano mais claro, que gera mais tranquilidade no mercado mexicano”, considera, afirmando que a cadeia deve estar sempre vigilante. “A gripe aviária é uma doença que gera grandes perdas econômicas na avicultura de qualquer país, é importante gerar essa conscientização em todas as pessoas envolvidas nesse setor, além de ter um plano de contingência bem definido para ajudar a prevenir para que, em caso de entrada do vírus, o setor tenha orientações a seguir para conseguir seu controle e pronta erradicação”, enfatiza.
Além de uma maior conscientização de todos os envolvidos no setor avícola, o atual momento do surto de IA no país quando comparado com 2012 evidencia ações imediatas após a notificação, como a criação de fundos locais para contingência através de grupos de avicultores, estratégias mais eficientes de controle sanitário, com abate imediato do lote e enterro dentro da unidade junto com todos os seus subprodutos, assim como medidas para restringir a circulação de subprodutos em zonas internas de quarentena. E ainda a vacinação da zona perifocal foi administrada para gerar uma zona tampão.
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Avicultura Mesmo com alta de até 21% em março
Preço médio do ovo na Quaresma é o menor em quatro anos
Quedas ao longo de 2025 e janeiro de 2026 no menor patamar em seis anos limitaram efeito sazonal típico do período religioso.

Os preços dos ovos subiram até 21% em março, movimento recorrente no período da Quaresma, quando parte dos consumidores substitui a carne vermelha. Ainda assim, levantamentos do Cepea mostram que o valor médio praticado no período religioso deste ano é o mais baixo dos últimos quatro anos nas regiões acompanhadas pelo Centro de Pesquisas.
De acordo com pesquisadores do Cepea, ao longo de 2025 as cotações recuaram em boa parte dos meses, reduzindo a base de comparação para o início deste ano. Como reflexo desse comportamento, janeiro de 2026 registrou a menor média para o mês dos últimos seis anos em diversas praças monitoradas.
Dessa forma, o mercado iniciou 2026 em patamar inferior ao observado em 2025. A reação verificada em fevereiro e março, embora expressiva em termos percentuais, não foi suficiente para que a média de preços desta Quaresma superasse a registrada em anos anteriores.
Avicultura
Avicultura brasileira reforça controles sanitários diante de novo cenário regional
Com avanço da influenza aviária em países vizinhos, setor intensifica monitoramento e reduz margem de erro.

A avicultura brasileira não parte do zero. Ao contrário, construiu ao longo de décadas um dos sistemas sanitários mais consistentes entre os grandes produtores globais. O status livre de influenza aviária em plantéis comerciais, mantido até aqui, é resultado de protocolos consolidados de biosseguridade, vigilância ativa e integração entre setor privado e serviço veterinário oficial. Ainda assim, o ambiente ao redor mudou. A confirmação recente de focos de influenza aviária de alta patogenicidade na Argentina, país vizinho e relevante na produção regional, reposiciona o risco e exige respostas mais rápidas, mesmo de cadeias já estruturadas.
O movimento não é de ruptura, mas de ajuste fino. Programas de controle de Salmonella vêm sendo revisados com maior rigor na granja, na fábrica de ração e no abate; o monitoramento de micotoxinas ganha centralidade pela relação direta com integridade intestinal e suscetibilidade a patógenos; e protocolos de biosseguridade são reforçados em pontos críticos, como o trânsito de pessoas, insumos e veículos. O que antes operava com margem de segurança passa a trabalhar com tolerância mínima a desvios, pressionado ainda por exigências sanitárias mais objetivas dos mercados importadores.
A consequência é uma cadeia mais sensível e interdependente. Sanidade, nutrição, manejo e logística deixam de operar como compartimentos técnicos e passam a responder como um sistema único, no qual qualquer falha – seja na qualidade da matéria-prima, na ambiência ou na execução de protocolos – pode comprometer desempenho, habilitação sanitária e fluxo de exportação. É nesse nível de precisão que a avicultura brasileira opera hoje: não para alcançar um padrão, mas para sustentá-lo sob pressão crescente.
Nessa reportagem especial produzida com exclusividade pelo jornal O Presente Rural, o foco está nos ajustes que a cadeia vem fazendo para manter esse padrão. A partir dos debates do Simpósio Facta, em Toledo (PR), do Congresso APA de Produção e Comercialização de Ovos, em Limeira (SP), e do Simpósio Brasil Sul de Avicultura, em Chapecó (SC), o material identifica onde estão hoje os principais pontos de atenção sanitária.
O leitor encontrará o que está mudando na prática: reforço de biosseguridade, revisão de programas sanitários e maior rigor no monitoramento, da granja ao abatedouro. Não se trata de reconstruir o sistema, mas de reduzir a margem de erro em um ambiente mais exigente, dentro e fora do país.
Avicultura
Escassez de mão de obra expõe falhas de liderança e gestão na avicultura
Painel no 26º Simpósio Brasil Sul de Avicultura defendeu integração entre tecnologia, propósito e método para reduzir turnover e sustentar a produtividade nas granjas e na indústria.

A escassez de mão de obra e os desafios relacionados à gestão de pessoas na cadeia produtiva pautaram o debate do painel “Capital humano em crise: o futuro da mão de obra na avicultura” durante o 26º Simpósio Brasil Sul de Avicultura (SBSA), que contou com a participação dos especialistas Delair Bolis, Joanita Maestri Karoleski e Vilto Meurer, além da coordenação de Luciana Dalmagro, na última terça-feira (07), no Centro de Cultura e Eventos Plínio Arlindo de Nes, em Chapecó (SC).

Foto: Suellen Santin/MB Comunicação
Os palestrantes abordaram os impactos da carência de profissionais no campo e na indústria, destacando a necessidade de repensar estratégias de atração, formação e retenção de talentos na avicultura. O debate também trouxe reflexões sobre as transformações tecnológicas e a necessidade de integração entre gestão de pessoas e inovação como caminho para manter a competitividade do setor.
A executiva Joanita Maestri Karoleski, conselheira, mentora e ex-CEO da Seara, iniciou o Painel Gestão de Pessoas com uma análise estratégica sobre as transformações estruturais que impactam a disponibilidade e o perfil da mão de obra na avicultura e no agronegócio. Segundo ela, o cenário atual vai além da escassez de profissionais. “Nós estamos vivendo uma mudança estrutural. Não é um fenômeno pontual. Temos o envelhecimento da população, a queda nas taxas de natalidade e, ao mesmo tempo, uma transformação profunda na forma como as novas gerações enxergam o trabalho”, destacou.
A palestrante explicou que os profissionais mais jovens chegam ao mercado com expectativas diferentes, valorizando propósito, desenvolvimento e flexibilidade. “As novas gerações não estão apenas buscando emprego, mas sim significado no que fazem. Isso exige adaptação das empresas e, principalmente, das lideranças”, afirmou.
Nesse contexto, Joanita trouxe uma provocação central do painel: o problema pode não estar na falta de pessoas, mas na forma como as

Conselheira, mentora e investidora, com mais de 30 anos de experiência em posições de alta liderança, Joanita Maestri Karoleski: “Talvez não estejamos diante de um apagão de mão de obra, mas de um apagão de liderança. As pessoas não desapareceram, elas estão menos dispostas a trabalhar em ambientes mal estruturados, com gestão fraca ou sem uma proposta clara de valor” – Foto: Suellen Santin/MB Comunicação
organizações estão estruturadas. “Talvez não estejamos diante de um apagão de mão de obra, mas de um apagão de liderança. As pessoas não desapareceram, elas estão menos dispostas a trabalhar em ambientes mal estruturados, com gestão fraca ou sem uma proposta clara de valor”, pontuou.
Ela destacou ainda que um dos principais desafios está na capacidade de integrar diferentes gerações dentro das organizações. “Pela primeira vez, temos três ou até quatro gerações convivendo simultaneamente dentro das mesmas empresas, com expectativas e formas de trabalhar muito distintas entre si. Isso exige líderes preparados para lidar com essa complexidade”, explicou.
Outro ponto abordado foi a necessidade de reposicionar o capital humano como elemento central da estratégia empresarial. “Ainda vemos empresas que dão mais atenção à compra de equipamentos do que ao desenvolvimento das pessoas. O capital humano precisa estar na agenda estratégica, inclusive nos conselhos administrativos, porque é ele que sustenta o crescimento no longo prazo”, afirmou.
Joanita também apresentou caminhos para enfrentar o desafio, estruturados em diferentes níveis organizacionais, desde o conselho até a operação. Segundo ela, o desenvolvimento de lideranças, especialmente na média gestão, é um dos fatores mais críticos para transformar a realidade das empresas.
A mentora também deixou uma reflexão sobre o futuro do trabalho na avicultura. “A pergunta não é mais onde estão as pessoas. A

Com 39 anos de experiência na agropecuária, Vilto Meurer, deu sequência ao Painel: “O grande desafio está na captura e retenção dessas pessoas. Precisamos entender o que as empresas, os gestores e os próprios profissionais podem fazer para reduzir o turnover e tornar o ambiente de trabalho mais atrativo” – Foto: Suellen Santin/MB Comunicação
pergunta é: por que alguém escolheria trabalhar aqui e não em outro lugar? Quando conseguimos responder isso, começamos a resolver o problema de forma consistente”, salientou.
Relacionamento empresa x profissionais
Com 39 anos de experiência na agropecuária e trajetória de longa data na BRF, onde encerrou sua carreira como diretor de produção agropecuária, Vilto Meurer, deu sequência ao Painel, demonstrando práticas voltadas à realidade do campo e da indústria, com foco em estratégias de captação e retenção de pessoas.
Segundo o palestrante, o enfrentamento da escassez de mão de obra passa pela forma como as empresas se relacionam com seus profissionais. “O grande desafio está na captura e retenção dessas pessoas. Precisamos entender o que as empresas, os gestores e os próprios profissionais podem fazer para reduzir o turnover e tornar o ambiente de trabalho mais atrativo”, afirmou.
Vilto destacou que, diante da escassez de mão de obra, o papel da liderança ganha ainda mais relevância dentro das organizações. Segundo ele, o gestor precisa ir além do conhecimento técnico e assumir uma atuação estratégica na condução das equipes. De acordo com o especialista, três pilares sustentam a atuação de um bom gestor: liderança, conhecimento técnico e método de gestão. “Não basta conhecer o processo produtivo. É preciso saber liderar pessoas, construir confiança, mobilizar equipes e estabelecer uma comunicação clara e eficiente”, enfatizou.
Entre os principais atributos da liderança, Vilto destacou a capacidade de engajar pessoas e gerar senso de pertencimento. “O profissional precisa sentir que faz parte do resultado, desenvolver o sentimento de dono e entender a importância do seu trabalho dentro do sistema produtivo”, explicou.
No campo da motivação, o especialista ressaltou que o engajamento está diretamente ligado a três fatores fundamentais: saber, poder e querer. “Para executar bem uma função, o profissional precisa ter conhecimento, condições adequadas de trabalho e, principalmente, vontade de fazer. É essa combinação que gera engajamento”, afirmou.
Retenção de talentos
Vilto também chamou atenção para a importância do propósito como elemento central na retenção de talentos. “Propósito é o significado do trabalho. Quando a pessoa entende o impacto daquilo que faz no resultado final, ela se envolve mais e permanece na atividade”, destacou.
Outro ponto abordado foi a necessidade de adaptação das estratégias de gestão ao perfil das diferentes gerações presentes nas empresas. Segundo ele, cada geração possui comportamentos, expectativas e formas de relacionamento com o trabalho distintas, o que exige uma liderança mais flexível e preparada para lidar com essa diversidade.
O palestrante enfatizou que a capacitação contínua é essencial para o desenvolvimento das equipes. Ele apresentou práticas como integração estruturada, programas de mentoria, treinamentos progressivos e trilhas de carreira como ferramentas importantes para alinhar aprendizado, produtividade e crescimento profissional.
Vilto também reforçou que a formação de adultos exige metodologia adequada. “O adulto aprende de forma diferente. É necessário utilizar métodos que conectem teoria e prática”, explicou.
O especialista sintetizou que a retenção de pessoas está diretamente ligada à combinação entre gestão eficiente e propósito. “Pessoas motivadas, com clareza de propósito e inseridas em um modelo de gestão simples e bem estruturado, geram melhores resultados e reduzem significativamente o turnover”, concluiu. Vilto também apresentou ferramentas práticas para formação e desenvolvimento de equipes, destacando metodologias utilizadas na extensão rural que podem ser aplicadas na agroindústria. “Existem métodos que funcionam muito bem para capacitação de pessoas, como o método do arco e técnicas de transferência de tecnologia. São ferramentas que ajudam a desenvolver profissionais de forma mais eficiente e que podem ser utilizadas dentro das empresas”, explicou.

Médico-veterinário Delair Bolis: “A diminuição da mão de obra é uma realidade que tende a escalar. Não é um problema que vai passar, exige mudanças estruturais na forma como trabalhamos” – Foto: Suellen Santin/MB Comunicação
Ele reforçou, ainda, que a combinação entre pessoas, propósito e gestão é determinante para o futuro do setor. “Pessoas motivadas, com propósito claro e inseridas em um modelo de gestão eficiente geram melhores resultados. Esse é o caminho para aumentar a produtividade e reduzir os impactos da escassez de mão de obra”, destacou.
Uso estratégico da tecnologia
O médico-veterinário Delair Bolis, presidente da MSD Saúde Animal no Brasil, Paraguai, Uruguai e Bolívia, com mais de 25 anos de atuação na indústria de saúde animal, seguiu o debate salientando que a escassez de mão de obra é uma realidade estrutural e crescente na avicultura, tanto do ponto de vista quantitativo quanto qualitativo. De acordo com Bolis, o setor precisa compreender que esse não é um problema temporário. “A diminuição da mão de obra é uma realidade que tende a escalar. Não é um problema que vai passar, exige mudanças estruturais na forma como trabalhamos”, afirmou.
Bolis chamou atenção para a defasagem dos modelos de trabalho frente às transformações do mercado. “Nós ainda operamos, muitas vezes, com estruturas que não acompanharam a evolução do setor. A questão não é só falta de pessoas, mas se o modelo de trabalho ainda é competitivo e atrativo para elas”, destacou.
Diante desse cenário, o especialista reforçou que as principais ferramentas de transformação estão no uso estratégico da tecnologia e no desenvolvimento de lideranças. “O que está sob nosso controle é como tecnificar os processos e preparar pessoas com maior capacidade de utilizar essa tecnificação para melhorar sistemas, processos e a própria liderança”, pontuou.
O palestrante alertou que a tecnificação precisa ser aplicada com critério. “Não se trata de tecnificar tudo que é possível, mas sim aquilo que precisa ser modernizado. A tecnologia precisa estar conectada à estratégia e às pessoas, não apenas à automação indiscriminada”, explicou.
Outro ponto comentado foi a mudança no perfil das funções dentro da cadeia produtiva. “Com menos pessoas no campo, cada profissional passa a ser responsável por mais processos. Não é mais sobre executar tarefas isoladas, mas sobre entender e gerir o processo como um todo”, ressaltou.
Bolis também abordou a importância do fator humano na eficiência operacional. “Quem entende de pessoas melhora processos. A liderança passa a ter um papel ainda mais decisivo, porque ela conecta tecnologia, pessoas e resultados. O futuro não será definido pela disponibilidade de mão de obra, mas pela nossa capacidade de reinventar o trabalho dentro da avicultura”, evidenciou.
A mediação do painel foi conduzida pela produtora rural, empreendedora e referência em liderança e sustentabilidade no agronegócio, Luciana Dalmagro, que contribuiu para integrar diferentes visões sobre o tema. “Foram grandes ensinamentos, falando de aspectos de liderança, habilidades que as pessoas que estão iniciando no mercado precisam desenvolver e, para quem está há mais tempo, os profissionais mostraram a importância do olhar humanizado para os colaboradores”, acrescentou.



