Suínos
Saiba como a Aurora Coop pretende dobrar de faturamento em 10 anos
Presidente da cooperativa, Neivor Canton diz que é preciso preparar os seus quadros de cooperados e de colaboradores para fazerem com que a cooperativa seja um instrumento para o desenvolvimento da sociedade.

Com um faturamento de R$ 22,2 bilhões em 2022, a Aurora Coop planeja dobrar a sua produção e faturamento nos próximos dez anos. No 5º episódio da série Voz do Cooperativismo, a equipe de reportagem foi até a sede da cooperativa, em Chapecó, SC, e conversou com o presidente Neivor Canton. Ele falou sobre a história da cooperativa, sobre os planos dessa gigante para se tornar ainda maior no setor de carnes e ponderou sobre as percepções que possui sobre o presente e o futuro do agronegócio no Brasil e no mundo. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.
O Presente Rural – Conte um pouco sobre sua trajetória até tornar-se presidente da Aurora Coop e sobre o seu e envolvimento com o cooperativismo.

Presidente da Aurora Coop, Neivor Canton – Foto: O Presente Rural
Neivor Canton – Iniciei a minha trajetória ainda muito jovem, em uma cooperativa singular do grupo Aurora, a Copérdia. Lá eu tive a oportunidade de assumir cargos importantes e tive o privilégio de tomar posse como presidente, sucedendo o grande cooperativista Odacir Zonta. Estive à frente da Copérdia por 12 anos e neste período eu atuei como presidente da Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina (Ocesc), e da Federação das Cooperativas Agropecuárias (Fecoagro). Essas experiências possibilitaram que eu assumisse, a partir de 2007, funções na diretoria da cooperativa central, que é a Aurora Coop. Nos tempos do grande idealizador do sistema Aurora, o senhor Aury Luiz Bodanese eu já estava contribuindo com o meu trabalho atuando no Conselho de Administração. Entre os cargos de destaque também exerci a função de Secretário do Conselho da Aurora e por meio de todas estas experiência, desde 2020 estou na presidência da Aurora, sucedendo o passado presidente Mário Lanznaster que faleceu, de quem eu era vice-presidente.
O Presente Rural – A Aurora teve início em 1969. Na época, o objetivo era proporcionar melhores condições de vida às famílias de pequenos produtores rurais. Conte-nos um pouco sobre a história da Aurora Coop.
Neivor Canton – A Aurora é uma cooperativa central que integra outras cooperativas. A sua fundação foi há 53 anos, quando oito cooperativas decidiram unir-se para facilitar o processo de industrialização, que teve início com suínos e depois outras atividades foram sendo acrescentadas. O início foi muito bonito, já que mostra o poder da união, porque uma cooperativa apenas não tinha capital e condições de iniciar um processo de industrialização, mas com a cooperação entre várias foi possível iniciar este lindo trabalho. Hoje somos onze filiadas e logo teremos mais cooperativas que vão integrar a nossa central.
O Presente Rural – Observamos que é muita gente envolvida com a Aurora, o senhor pode nos contar qual é o número de colaboradores associados da cooperativa?
Neivor Canton – Quando juntamos todas as cooperativas que são associadas à Aurora nós temos 76 mil produtores rurais cooperados, umas cooperativas com mais pessoas e outras com menos. Mas como nós sempre costumamos dizer, os nossos princípios do sistema cooperativo é o que move todas as cooperativas. Também é importante ressaltar que todas elas têm poder de discussão e de decisão também. Com relação aos colaboradores somos mais de 55 mil funcionários que desempenham as atividades burocráticas da cooperativa. Somente na central Aurora são 42 mil empregos diretos, já os empregos indiretos são milhares espalhados por todo o Brasil.
O Presente Rural – Com relação às regiões de atuação da Aurora, o senhor pode nos dizer em quais lugares a cooperativa tem atuado e se existem planos de expansão da Aurora Coop?
Neivor Canton – Em se tratando de produção, as bases produtivas do campo estão nos três estados do Sul, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e no Mato Grosso do Sul, são esses os estados que hospedam as nossas onze cooperativas afiliadas. Neles estão os nossos 76 mil produtores.
Por outro lado, comercialmente falando, a Aurora foi se expandindo ao longo da sua trajetória de pouco mais de meio século e hoje estamos presentes em todas as unidades da federação brasileira, com a comercialização de mais de 850 itens de produtos derivados de suíno, frango, leite, massas e peixe e assim por diante. De todos os produtos que produzimos, de 35% a 40% são exportados para mais de 100 países.
O Presente Rural – Com respeito aos ramos de atuação da Aurora, o senhor poderia fornecer detalhes sobre cada um deles e compartilhar como está o desempenho de cada setor?
Neivor Canton – É claro. O negócio que deu início à existência da Cooperativa Central foi a suinocultura, porque tínhamos muitos produtores pequenos que não tinham para quem entregar sua produção. A área onde a Aurora iniciou suas atividades já era trabalhada por outras grandes empresas do setor, mas os pequenos produtores não tinham espaço para entregar sua produção. Desta maneira, as oito cooperativas juntaram-se e iniciaram a Cooperativa Central abatendo 200 suínos por dia. Hoje abatemos 30 mil suínos ao dia. Então, uma trajetória de meio século permitiu que a atividade da suinocultura se consolidasse entre os pequenos produtores, que também foram crescendo. Hoje nós não diferenciamos os produtores da Aurora pelo tamanho em relação a outros produtores. Esse nivelamento existe, mas eles próprios se nivelaram por conta da competição do mercado, já que a viabilidade da atividade exige escala e uma série de outras situações.

Foto: Divulgação/Aurora
Nossa suinocultura hoje conta com nove plantas que processam suínos diariamente e nós temos algo em torno de 4 mil produtores que entregam os suínos às nossas cooperativas, que fazem chegar até a Aurora. Cada cooperativa tem sua quota diária para entregar nas plantas determinadas, segundo a melhor logística.
O ingresso da avicultura foi na sequência, um pouco mais tarde. Hoje também temos nove plantas que processam frangos, com um total de 1,3 milhão de frangos abatidos por dia. Estamos com algumas ampliações em curso que deverão adicionar mais volumes nos próximos meses e anos e os produtores também localizados segundo a melhor logística.
Mais recentemente passamos a processar o leite também como uma alternativa para aqueles produtores que não desejaram continuar na suinocultura, porque na grande região agrícola e especialmente no Leste catarinense, todas as famílias tinham alguma coisa de suíno. Mas como o mercado foi exigindo escala para viabilizar a produção tivemos muitos produtores que preferiram deixar esta atividade, desta maneira, o processamento do leite foi a nossa alternativa, pois a maioria ainda trabalhava com a pecuária leiteira, desta forma, ajudamos na tecnificação desta atividade e hoje nós temos, no Oeste de Santa Catarina, uma grande bacia leiteira, que o sistema cooperativo de fato foi o grande incentivador. Hoje processamos cerca de 1 milhão e 600 mil litros de leite por dia, que são industrializados e comercializados.
São estes três os nossos grandes negócios: suínos, aves e leite. Também começamos a trabalhar com peixe, mas isso está apenas começando, e desta forma ainda não fazemos referência a essa produção.
O Presente Rural – Para onde vai toda essa produção de suínos, frangos e leite?
Neivor Canton – Muito interessante a sua pergunta, o mercado interno é o nosso grande aliado quando falamos em industrialização. O Brasil ainda tem dificuldade de emplacar, em mercados externos, nossos produtos industrializados. De fato, nos países do velho mundo, com sua grande tradição é bastante difícil de alcançar, porém, acreditamos que devagarinho nossos produtos vão passar a ser encontrados em gôndolas nos mercados externos.
No mercado interno temos mais de duzentos milhões de consumidores que consomem volumes extraordinários dos nossos produtos. Já o mercado externo vem absorvendo bastante a nossa produção avícola e constatamos um crescimento extraordinário da avicultura brasileira e que faz com que a gente acredite que dificilmente outros países do mundo terão a competitividade que o Brasil possui no mercado externo.
Com relação ao leite nossa produção é consumida pelo mercado interno, exportamos um pouco de leite em pó, mas é muito pouco.
Desta maneira, podemos dizer que 40% do nosso frango vai para o mercado externo. Algo em torno de 30% do suíno também é exportado. Assim sendo, qualquer plano de crescimento que nós tenhamos nessas duas atividades, suínos e aves, sempre deve ser pensado olhando para o mercado externo.
O Presente Rural – Uma das grandes preocupações de quem produz proteína animal além da questão de custo, é a questão da biosseguridade. Uma das grandes conquistas que o Brasil tem é o status sanitário diferenciado. Como que a Aurora tem trabalhado isso?
Neivor Canton – O Brasil tem sido privado da peste suína africana que já atinge muitos países. A Influenza aviária também está fora dos nossos planteis comerciais. Isso é motivo de orgulho e uma grande conquista para o nosso país. Desta maneira, a questão sanitária tem sido enxergada de forma especial pelos poderes públicos, tanto nos municípios, como nos estados e pelo governo federal. Todos reconhecem a importância social e econômica que a produção do agro tem e por isso, buscam formas e ferramentas para proteger os planteis.
Aqui em Santa Catarina também temos um status diferenciado, porque há muitos anos somos reconhecidos pelo mercado externo como área livre de febre aftosa sem vacinação. Isso possibilita um status bem elevado para o nosso estado. Eu também diria que o Paraná e o Rio Grande do Sul têm o mesmo status, só que ainda não foi reconhecido adequadamente, mas eles já têm dispensado os mesmos cuidados com os plantéis. Prosseguir e progredir esses reconhecimentos é muito importante para o Brasil.
Por outro lado, a nossa fronteira aqui com a América do Sul, com os países sul americanos, nos coloca ainda em algumas dificuldades de cuidar disso de maneira adequada. É preciso continuar investindo, porque este cuidado vale a pena, porque um bom status sanitário fortalece a nossa economia. Os governos sabem do grande retorno financeiro que as nossas produções trazem ao nosso país e desta forma, eles passam gradativamente a serem mais sensíveis e mais atenciosos com os cuidados que são fundamentais. O Brasil, queiramos ou não, mesmo que tenham pessoas que contestem, está caminhando para ser um grande produtor de alimentos para o mundo. E isso ninguém pode desprezar. Isso é oportunidade de nós desenvolvermos nosso país em vários aspectos, porque a riqueza não fica no bolso só de quem exporta, ela se distribui para toda a sociedade.
O Presente Rural – Como a cooperativa tem lidado com temas da atualidade como o ESG, bem-estar animal e a própria questão da tecnologia sendo incorporada no ramo agropecuário?
Neivor Canton – Os tempos são muito desafiadores sob esse aspecto. As atividades produtivas do campo e práticas industriais vêm sempre sendo vigiadas no sentido de que o consumidor cria os seus desejos, as suas vontades e quem produz precisa estar atento.
Contudo, o ESG, eu diria que é uma sigla moderna que vem sendo divulgada há poucos anos, mas que já era utilizada em nosso meio, ou seja, há muito tempo trabalhamos com os pilares do ESG. Nós temos convicção de que há décadas a legislação brasileira tem normatizado de forma muito eficiente em relação aos deveres com o nosso trabalhador, com as boas práticas de campo, cuidado com os tratos dispensados aos animais.
Nossa principal preocupação, que tem movido o sistema Aurora, que são as onze cooperativas e mais a Central, é o princípio de cuidar das pessoas do campo, pois são elas os donos do empreendimento. Cada produtor precisa sentir a segurança de que a sua propriedade rural, que é uma empresa, possui perspectiva de sucessão, de continuidade. E isso tem merecido toda a nossa atenção. Nós nos orgulhamos do que fazemos com o produtor do campo, pois durante mais de duas décadas, os nossos programas de qualidade têm se preocupado em fixar e dar estabilidade aos produtores no campo.
E isso tem começado até com programas de auto estima que são levados a essas famílias, porque o campo teve um êxodo rural espantoso há algumas décadas. Dá para se afirmar que hoje nós temos a metade da população rural que já se teve em outros tempos. Muitas famílias deixaram o campo por falta de perspectiva e as cooperativas então tiveram essa visão de trazer, para os produtores rurais, programas de qualidade, fazendo com que os filhos e filhas dos produtores rurais enxergassem nas propriedades uma perspectiva de futuro. Muitos dos jovens que saíram por falta de perspectiva estão retornando para serem gestores de uma propriedade rural e gestores no sentido de ter resultado, já que ninguém fica numa atividade se não tem perspectiva de resultado econômico. E esse resultado acaba trazendo também outras soluções.
Com relação a qualidade de vida nós costumamos definir que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das famílias do campo são sensivelmente melhores do que foram há décadas. Acreditamos que isso é fruto de todo este importante trabalho, juntamente com a tecnologia e outros ingredientes que você fez referência. Então dentro do ESG todas essas práticas são consideradas.
Hoje, o nosso produtor é um verdadeiro gestor da propriedade. Eu costumo dizer que as meninas do campo voltaram a casar com os meninos do campo e pacificou esse lado. É que hoje nós temos empresas rurais, sendo que é muito mais difícil você fazer a gestão, ou seja, administrar uma empresa rural do que uma pequena empresa urbana. Então, um produtor rural hoje é de fato um homem capacitado para ser um empresário.
O Presente Rural – Fale um pouquinho a respeito dos planos de expansão da Aurora para o Paraná.
Neivor Canton – Recentemente ajustamos uma intercooperação com três cooperativas dos Campos Gerais do Paraná. Já noticiamos isso para todo o Brasil e estamos aguardando a aprovação da transação com o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). Acreditamos que em breve teremos a aprovação e assim esperamos um crescimento do nosso quadro de cooperativas associadas com o ingresso de mais três cooperativas do Paraná no Grupo Aurora.
Esse é um dos muitos projetos importantes que vai elevar a nossa participação no mercado no da suinocultura e avicultura. Mas temos também outros projetos que já foram traçados no nosso planejamento estratégico e que preveem uma continuidade de crescimento adequado à capacidade de consumo e a demanda do consumidor.
Na área da produção de leite que também é uma atividade muito importante para a Aurora nós planejamos continuar a resgatar o compromisso que nós temos com os nossos produtores e aprimorar este negócio.
O Presente Rural – Quais são as perspectivas de crescimento e faturamento para os próximos anos?
Neivor Canton – Encerramos o ano de 2022 com um faturamento de R$ 22,2 bilhões. Entretanto, nossa perspectiva para 2023 não aponta para um crescimento expressivo, conforme os apontamentos do mercado. Atualmente, estamos projetando um aumento moderado na faixa de 6% a 10%. Essa projeção está sujeita a variáveis especialmente as que surgirão nos últimos meses deste ano. Fatores como os preços praticados no mercado podem influenciar nossa receita e permitir ajustes necessários. No entanto, é importante antecipar que, devido às atuais complexidades do mercado, não esperamos que 2023 apresente um crescimento comparável aos anos anteriores.
Para o futuro temos grandes aspirações. Esperamos que com a medida que adicionamos volumes processados em nossas fábricas, acrescentamos novas plantas industriais ou ampliações de plantas que possuímos, bem como a constante utilização de novas máquinas e processos, que possibilitam mais volumes de produção e desta forma, mais produtos vão para o supermercado. Então isso tudo vai contribuindo para um crescimento que nós imaginamos, em nosso planejamento estratégico, num período de dez anos, duplicar o tamanho da nossa Aurora.
O Presente Rural – Falando em relação à tecnologia que tem invadindo o campo de uma forma brutal. Como isso acaba ajudando os cooperados, os produtores do campo?
Neivor Canton – No campo hoje nada mais se faz sem tecnologia, pois a mão de obra está cada dia mais escassa, e a tecnologia é um recurso que vem sendo empregado, seja na lavoura, na forma de manejo ou nos plantéis de suínos, de aves e do leite.
Nós assistimos diariamente uma competição saudável sob esse aspecto e observamos que o produtor está realmente aberto a essas novas práticas. Quando você visita uma granja você fica encantado com as verdadeiras surpresas que você constata. Essas tecnologias também têm sido um fator de motivação, especialmente para o jovem e isso é muito importante por que a renovação é necessária. Temos hoje uma geração de jovens motivados, que buscam a formação universitária inclusive, mas têm o prazer de retornar e agregar o seu trabalho ao empreendimento rural.
Então, eu penso que a tecnologia é o suprassumo e quando iniciamos uma cadeia produtiva auxiliados por ela, estamos melhorando o nosso posicionamento e a competição com os mercados que nós precisamos ter, seja interno ou externo. A tecnologia é imprescindível para a nossa cooperativa e, por isso, nós temos departamentos, áreas e pessoas voltadas diretamente para o aspecto da inovação.
O Presente Rural – Como é a relação da Aurora com os cooperados e colaboradores? Como a cooperativa fomenta o crescimento das pessoas?

Família cooperada da Aurora – Divulgação/Aurora
Neivor Canton – Nós precisamos ser obedientes no que toca aos princípios de uma cooperativa. Eles estão escritos, são centenários e é preciso que a gente cumpra-os. Nós precisamos ser reconhecidos pela sociedade onde nós estamos inseridos, como empresa preocupada com as comunidades, sendo que toda cooperativa possui o compromisso de estar atenta às necessidades dos cooperados, afinal ela existe para isso. Os cooperados desejam que a cooperativa exista porque eles a utilizam como um meio para alcançar seus objetivos. Desta maneira, a cooperativa não é um fim em si mesma, mas um meio no qual seus cooperados atinjam os objetivos propostos por eles. Isso não pode ser desconectado, mas precisa estar sempre na mente de todos.
Desta forma nós buscamos dar condições para que os nossos produtores tenham a perspectiva de que se eles precisam crescer, pois essa é uma condição para sua sobrevivência, já que a escala possibilita e viabilidade econômica dos negócios. Essa é uma das razões de nós projetarmos crescimento, porque individualmente os cooperados precisam crescer e eles precisam ter onde processar a sua produção. E nós temos que dar conta de ir ao mercado provar que produzimos os produtos confiáveis, desejados pelo consumidor e fazermos disso então a viabilidade dos nossos cooperados.
Com relação aos nossos colaboradores eles também merecem serem enquadrados dentro dessas preocupações. Não contratamos pessoas para usá-las. Aqui nós zelamos pelo valores humanos e temos programas de promoção dos nossos colaboradores. Também pensamos em suas famílias, e no seu bem-estar. Acreditamos que não basta pagar o salário, temos que dar a eles uma participação sobre o fruto gerado. Nesse sentido, trabalhamos há bastante tempo com a participação nos resultados da organização para os colaboradores.
Como cooperativa temos uma cadeia longa que começa no produtor e termina no consumidor. Temos a necessidade de estar atentos a todos esses processos, essas áreas, pois todos os elos da corrente precisam estar fortalecidos. E esse é um exercício que desafia a gestão de uma cooperativa.
Digo que, felizmente, vejo com muito bons olhos o crescimento do sistema, pois a maturidade das nossas cooperativas tem alcançado reconhecimento da sociedade. Costumo dizer que o sistema cooperativo é também um dos melhores aliados de qualquer governo bem intencionado, porque o que nós fazemos é desenvolver economicamente as comunidades e o avanço econômico propicia também o progresso social.
O Presente Rural – Quais os principais desafios da Aurora hoje?
Neivor Canton – O desafio principal é você ser uma organização sólida e que olha para a sua perpetuação, pois o mundo dos negócios dá trancos a toda hora. Então você precisa ter organizações bem lideradas, transparentes e que mereçam a confiança da sociedade. Você não pode perder, no entusiasmo, a linha e pensar que tudo é possível, porque logo à frente pode se deparar com situações intransponíveis. Então é comum que você verifique organizações e cooperativas em situações de dificuldades. Isso foi no passado, é no presente, e provavelmente será no futuro. Desse modo, eu penso que as cooperativas brasileiras ganharam muito desde que elas atingiram a sua autogestão, conquistada com a Constituição de 1988, quando o Estado deixou de ter o poder de interferir nas cooperativas, porque o Estado não é um sócio bem-vindo nesse meio. Basta a sua gordura que precisamos reduzir e retirar. Com isso também, as cooperativas passaram a ter uma responsabilidade maior a partir da sua autogestão. Nesse sentido, é preciso preparar os seus quadros de cooperados e de colaboradores para fazer com que a cooperativa seja um instrumento para o desenvolvimento da sociedade. Acredito que estamos cumprindo o nosso papel e esperamos que toda a sociedade possa reconhecer isso.
O Presente Rural – Como a intercooperação se encaixa nesse contexto?
Neivor Canton – Eu diria que a Aurora Coop é um exemplo do intercooperação. Como que um pequeno produtor rural poderia estar colocando o seu produto na mesa do japonês, chinês, ou de um norte americano? É a cooperativa que possibilita isso. Mas em alguns casos, uma cooperativa sozinha, muitas vezes pequena, sem capital, também não tem condições de fazer isso. E a intercooperação é o caminho, porque associando-se a outras cooperativas, fica mais fácil produzir esse resultado.
Estamos presentes em mais 100 países no mundo, com produtos que tiveram origem em pequenas linhas, mas que com o ato de intercooperação conseguiram ser comercializados em muitos lugares. Outra oportunidade que as cooperativas ofertam é o exercício de comprar melhor, de reduzir custos para o produtor, que também precisa se suprir das necessidades para produzir. Se ele for ao mercado comprar sozinho, ele é muitas vezes explorado. Deste modo, eu acredito que a intercooperação ainda é uma ferramenta subutilizada, que precisa ganhar mais força, mais visibilidade e para isso precisamos de dirigentes que entendam que eles são os principais responsáveis de descobrir as formas de intercooperar, porque essa é uma ferramenta poderosa.
O Presente Rural – Quais as oportunidades que a Aurora Coop enxerga hoje para o agro brasileiro?
Neivor Canton – O setor agrícola brasileiro enfrenta desafios significativos em sua relação com o restante do mundo. Não é que o Brasil seja culpado por essas questões, mas sim que alcançamos um nível de desenvolvimento no setor agrícola que pode ser percebido como uma ameaça por outros países que também possuem atividades agrícolas.
Queiramos ou não, o mundo tem seus conflitos e hoje as questões de ordem ambiental, já que se discute há muito tempo o mundo olhando para o Brasil e criando embargos para dificultar o nosso papel de sermos mais e mais competitivos. E essa é a grande questão. Nós não podemos embarcar muitas vezes em conversas que são amplamente divulgadas e que parecem existir conflitos, atribuindo ao Brasil culpas. As culpas são ameaças que outros países sentem em função da competitividade que nós gradativamente adquirimos.
É claro que temos fatores que nos limitam, como a questão de infraestrutura. Também temos custos em nossas atividades que muitos países não têm, pois aboliram isso fruto do seu desenvolvimento. Mas nós vamos superando isso. Ano após ano, nós verificamos as nossas safras crescendo absurdamente. E qual é a explicação? A explicação é que você trabalha, produz, busca alternativas. Aí vem a dificuldade e superamos as dificuldades.
Eu gostaria de poder daqui a 50 anos a gente voltar essa conversa para que a gente pudesse então avaliar o que realmente aconteceu com o agro brasileiro, se nós não fizermos besteiras, bobagens, nós vamos de fato cumprir um papel de alimentar o mundo que precisa tanto. Eu diria que hoje, no mundo, não estamos na metade do caminho da nossa capacidade produtiva. Novas tecnologias virão incorporar áreas hoje improdutivas ao processo de produção, sem desprezo à necessidade de preservarmos. O Brasil realmente é palco desse futuro que está na mão dos homens.
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Suínos
ACCS alerta para insegurança jurídica mesmo com retomada nos preços da suinocultura
Mercado de suínos dá sinais de recuperação com exportações aquecidas, mas a Associação Catarinense de Criadores de Suínos cobra segurança no campo e critica entraves trabalhistas e o chamado custo Brasil.

O cenário para a suinocultura brasileira desenha-se com otimismo nas granjas, impulsionado pelo reequilíbrio de preços e recordes de exportação previstos para este ano. No entanto, fora da porteira, o setor produtivo acende um forte sinal de alerta para os desafios políticos, trabalhistas e de segurança jurídica no campo. A avaliação é do presidente da Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS), Losivanio Luiz de Lorenzi, que traçou um panorama detalhado sobre as projeções de mercado e os entraves que o agronegócio enfrenta atualmente.
Retomada de preços e exportações em alta

Presidente da Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS), Losivanio Luiz de Lorenzi: “Eu acredito que o mercado vai estar voltando à sua normalidade. A partir de agora, nós vemos um mercado mais promissor”
O ano começou com a tradicional oscilação de preços, mas a perspectiva de estabilização já é uma realidade. Segundo o presidente da ACCS, a queda registrada na primeira quinzena de janeiro está sendo superada pela reação das bolsas do setor. “Eu acredito que o mercado vai estar voltando à sua normalidade. A partir de agora, nós vemos um mercado mais promissor”, projeta Losivanio.
A expectativa de alta nos valores pagos ao produtor é sustentada por uma combinação de fatores: a menor oferta de suínos no mercado, a manutenção do peso normal de abate e o ritmo acelerado das exportações, que em fevereiro devem ultrapassar a marca de 100 mil toneladas.
Outro elemento que protegeu a margem do suinocultor independente durante a recente baixa foi a queda no preço do milho. Além disso, não houve um crescimento desordenado da produção nos últimos dois anos. O principal freio para novas expansões foi a taxa de juros, já que, segundo o dirigente da ACCS, iniciar um projeto robusto na suinocultura hoje exige um investimento mínimo de R$ 10 milhões, tornando a captação de recursos cara e, muitas vezes, inviável.
O ciclo da carne bovina e a sanidade
O bom momento da carne suína também encontra respaldo no ciclo da pecuária de corte. Com as exportações de carne bovina batendo recordes e o volume de abates superando o de nascimentos de bezerros, a recuperação da oferta de bovinos será lenta — um ciclo que leva cerca de quatro anos. Essa dinâmica mantém a carne suína em um patamar competitivo e altamente atrativo.
Apesar dos ventos comerciais favoráveis, a ACCS reforça que o dever de casa sanitário é inegociável para garantir a estabilidade do setor. “Nós temos que olhar muito a questão da biosseguridade, da sanidade, para que a gente não seja acometido por alguma intempérie de doença, como aconteceu em vários países, e que a gente possa perder esses mercados importantes”, alerta.
Preocupações políticas e a escala 6×1
Se o mercado responde bem, o ambiente regulatório gera apreensão. Losivanio classifica como “populismo” a possibilidade de o governo intervir limitando as exportações de carne bovina para forçar a queda dos preços no mercado interno, especialmente em um ano eleitoral. Para ele, a solução real seria fomentar o poder de compra e a renda da população, e não proibir embarques.
No campo trabalhista, a proposta de alteração da jornada para a escala 6×1, reduzindo de 44 para 36 horas semanais — é vista com grande preocupação. A dinâmica do agronegócio não se adequa a expedientes engessados, e o peso da carga tributária sobre a folha de pagamento já asfixia quem produz. “A gente vê que o vilão não é o empresário, e sim é o sócio que nós temos, que é o governo”, pontua o presidente.
Ele contrasta a situação brasileira com a de países vizinhos: enquanto a Argentina avança no Congresso com propostas de jornadas de até 12 horas diárias e o Paraguai atrai indústrias brasileiras oferecendo redução de impostos, logística eficiente e segurança jurídica, o Brasil onera cada vez mais o empreendedor com mudanças legislativas constantes.
Insegurança jurídica e a defesa do produtor
O alerta final da entidade recai sobre a insegurança no campo. O aumento da criminalidade e as tensões envolvendo áreas indígenas estão impactando diretamente quem produz. Produtores com histórico de gerações em suas terras e documentação legal estão perdendo acesso ao crédito rural e correndo o risco de perderem suas propriedades. “Nós estamos à beira de um caos muito forte”, desabafa.
Para Losivanio, falta ao poder público uma visão estratégica que valorize o agronegócio, setor que levou o Brasil ao posto de maior exportador de proteína animal do mundo, mesmo operando sob as legislações ambientais mais rigorosas do planeta. “Para dar emprego, nós temos que dar segurança para o nosso empreendedor, para que ele possa continuar acreditando e fazendo esse país crescer”, finaliza o presidente, pedindo uma mudança urgente de postura e de entendimento para garantir o futuro da produção nacional.
Suínos
Demanda interna e exportações reforçam perspectiva de alta para o suíno vivo
Diversificação de mercados e consumo aquecido no pós-férias impulsionam mercado, enquanto produção e custo da ração exigem atenção no médio prazo.

Com a melhora sazonal da demanda interna e um cenário externo considerado favorável, os preços do suíno vivo devem apresentar reação nas próximas semanas. A expectativa é de recuperação no curto prazo, após o fim do período de férias escolares e do Carnaval.
De acordo com dados da Consultoria Agro Itaú BBA, a diferença de preços entre as proteínas também pode contribuir para esse movimento. A carne bovina segue em patamar mais elevado em relação à suína, o que tende a favorecer o consumo da carne de porco no mercado interno.
No comércio exterior, a diversificação de destinos observada desde o ano passado ajuda a reduzir a dependência de mercados específicos. Apesar disso, chama atenção o aumento da participação das Filipinas entre os principais compradores. Ainda assim, o cenário das exportações é considerado positivo e deve continuar colaborando para o equilíbrio da oferta e da demanda.
Para o médio prazo, dois fatores exigem monitoramento: o ritmo de crescimento da produção e os custos com ração.
No caso da produção, a tendência é de continuidade na expansão do envio de animais para abate, movimento sustentado pelas boas margens registradas na suinocultura nos últimos dois anos e pela demanda externa aquecida. Eventuais problemas no fluxo de embarques, embora não sejam o cenário principal, poderiam pressionar o mercado interno, elevando a oferta doméstica e impactando os preços, já que a produção não pode ser ajustada rapidamente no curto prazo.
Em relação aos custos, o cenário também é considerado favorável, mas com pontos de atenção. A previsão de clima positivo para o milho safrinha nos próximos dois meses indica potencial para boa produção. No entanto, parte relevante da área ainda precisa ser semeada, e não há definição sobre quanto ficará dentro da janela ideal de plantio, fator decisivo para o desempenho produtivo.
Suínos
Suinocultura discute comportamento do consumidor na primeira Escola de Gestores de 2026
Evento da ABCS abordará tendências de consumo e impactos nas decisões estratégicas do setor de proteínas.

Entender o comportamento do consumidor se tornou um dos principais diferenciais estratégicos para o mercado de proteínas. Em um cenário de rápidas transformações, antecipar tendências, reduzir riscos e tomar decisões mais assertivas depende, cada vez mais, da leitura qualificada do consumo.
Com esse foco, a Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS) realiza a primeira edição de 2026 da Escola de Gestores, com o tema “Proteína, Consumo e Decisão de Compra: Tendências que Importam para 2026”, no dia 25 de fevereiro de 14h30 às 16 horas. O encontro será conduzido por Tayara Beraldi, consultora da ABCS e especialista em comunicação estratégica, e tem como objetivo ampliar a capacidade analítica e decisória dos gestores da suinocultura com dados reais e atualizados do comportamento do consumidor em uma época em que o consumo de proteínas tem ganhado destaque.
Voltada aos desafios atuais do setor, a iniciativa propõe uma reflexão aprofundada sobre como o consumidor pensa, quais fatores influenciam suas escolhas e de que forma essas decisões impactam o marketing, o posicionamento e a competitividade das proteínas no mercado. Na suinocultura, compreender esses movimentos deixou de ser uma opção e passou a ser parte central das decisões estratégicas.
Durante o encontro, os participantes irão discutir como interpretar tendências de consumo com mais clareza, transformar comportamento do consumidor em estratégia de mercado, fortalecer o posicionamento da carne suína e tomar decisões mais embasadas, com visão de futuro e impacto real no negócio.
A Escola de Gestores da ABCS é uma iniciativa que busca apoiar lideranças do setor na construção de conhecimento aplicado, conectando dados, comportamento e estratégia. O evento é exclusivo para o Sistema ABCS e contribuintes do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Suinocultura (FNDS), com o objetivo de fortalecer o poder de decisão dos gestores, ampliando a capacidade de antecipação e a geração de vantagem competitiva no mercado de proteínas. Faça sua inscrição clicando aqui.



