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Safra paranaense de verão pode atingir 23 milhões de toneladas
O Deral aponta para uma safra de 23 milhões de toneladas de grãos, que representa um aumento de 14% em relação à safra passada
A maior parte da safra de grãos de verão 2016/17 já foi plantada, com boas perspectivas de desenvolvimento das lavouras em função do clima regular até agora. Se forem mantidas essas condições, a estimativa do Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria estadual da Agricultura, aponta para uma safra de 23 milhões de toneladas de grãos, nesse período, que representa um aumento de 14% em relação à safra passada.
Conforme acompanhamento do Deral, o plantio de feijão e milho da primeira fase está em conclusão, e o da soja tem cerca de 60% da área prevista plantada. Ainda está em campo parte das lavouras de trigo da safra 2015/16, cuja colheita se prolonga até dezembro.
Para o secretário de Estado da Agricultura e do Abastecimento, Norberto Ortigara, o plantio da safra 2016/17 se desenvolve num ambiente com boas expectativas. Aos poucos a economia do País vai ganhando contornos de reorganização.
“Atrelado a esse fator, importante em todo o ciclo produtivo, a produção agrícola requer investimento e aprimoramento em tecnologias, o que os produtores paranaenses estão fazendo”, afirmou. Ele disse que esse conjunto de ações e fatores serão determinantes para mais uma temporada de sucesso na safra de verão.
De acordo com o diretor do Deral (Departamento de Economia Rural), Francisco Carlos Simioni, o comportamento do clima está favorável à manutenção dos trabalhos de plantio. Com um regime de chuvas considerado regular até este momento, com períodos alternados de sol, o desenvolvimento das áreas cultivadas com os grãos da nova safra primavera/verão ocorre com normalidade.
“A preocupação sempre existe, pois os efeitos da corrente climática La Niña, que pode se acentuar nos meses de janeiro e fevereiro de 2017, provocando períodos de seca, poderá modificar esse quadro positivo”, salientou. Outro fator de interferência em relação à produtividade esperada sãos as quedas de temperaturas anunciadas pelos principais institutos de climatologia do País, previstas para este final de semana. “Frio em novembro está fora do esperado e pode prejudicar algumas lavouras, principalmente o feijão porque é uma cultura muito sensível às alterações de clima”, destacou.
Soja
A área plantada com soja na safra 2016/17 deve se consolidar em 5,24 milhões de hectares, ligeiramente inferior à do ano passado, que foi 5,28 milhões de hectares. Até agora, cerca de 60% da área está plantada, o que significa uma ocupação de 3,15 milhões de hectares com soja. Em condições normais de clima, a produção pode ir a 18,3 milhões de toneladas, que, se confirmada, será o maior volume de soja já colhido no Estado. Essa estimativa está 11% acima do volume colhido na safra anterior, que foi de 16,5 milhões de toneladas.
De acordo com o economista Marcelo Garrido, chefe da Conjuntura Agropecuária do Deral, o clima está contribuindo e com isso o ritmo de plantio está mais acelerado em relação aos anos anteriores. Se os efeitos do La Niña forem mais leves em relação às chuvas, o rendimento da safra tende a garantir uma boa produção no início do próximo ano, prevê.
O preço da soja apresenta um recuo de 6% no preço pago ao produtor, em torno de R$ 66,00 a saca, mas ainda assim rentável. No ano passado, nessa mesma época, o produtor recebeu em torno de R$ 70,00 a saca. Segundo Garrido, a queda no preço da soja é reflexo de safra cheia nos Estados Unidos este ano, que está com um recorde de produção de 117 milhões de toneladas. E também por causa da valorização do Real, frente ao Dólar, que faz com que o produtor ganhe menos do que ganhou no ano passado – destacou. “Mas ainda assim compensa porque remunera os custos de produção e o grão é o que mais apresenta liquidez no mercado”, acrescentou.
Por conta desse recuo, as vendas antecipadas também estão menores este ano. Segundo o Deral, cerca de 12% da safra prevista está vendida, contra 31% no ano passado. Garrido explica que o produtor de soja ainda está esperando o preço se elevar no mercado. “Ele está capitalizado e tem a expectativa de aumento de preços para frente”, destacou.
Isso porque após a colheita e venda da safra norte-americana, que está em andamento, ficará a produção das safras de soja do Brasil e Argentina, que juntos deverão produzir cerca de 160 milhões de toneladas, ou 49% da produção mundial, segundo previsão do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos).
Milho
A área plantada com milho nesta primeira safra cresce 18%, passando de 413.475 hectares plantados no ano passado para 487.314 hectares plantados este ano. O plantio está no final, com 93% da área já cultivada. O Deral tem uma expectativa de produção de 4,3 milhões de toneladas, que representa um aumento de 29% sobre a produção anterior que foi de 3,3 milhões de toneladas. Se for concretizada essa projeção, a produção do Paraná vai representar mais de 16% da brasileira, que tem uma estimativa de 26 milhões de toneladas do grão na primeira safra 2016/17.
Mesmo assim, os preços devem seguir firmes porque a oferta ainda estará justa para abastecer a demanda de granjas e indústrias no mercado interno, sem muita folga para exportação, analisou Edmar Gervásio, responsável técnico pela cultura. Segundo ele, daqui para frente segue um período de entressafra, onde há déficit de milho no mercado interno que não tem estoques para atravessar essa fase, considerada crítica. Com isso, os preços se mantêm sustentados em torno de R$ 32,00 a saca e a estimativa é que essa cotação permaneça nesta primeira safra.
Ainda há a possibilidade de importação de milho, em torno de um milhão de toneladas dos Estados Unidos, que este ano está colhendo uma supersafra, com 360 milhões de toneladas, o que deverá contribuir com a elevação dos estoques mundiais do grão.
Segundo Gervásio, a segunda safra de milho do Paraná (15/16), colhida recentemente, está com 82% comercializada, restando entre 5 e 6 milhões de toneladas disponíveis no mercado.
Feijão
Cerca de 89% da área prevista para o plantio de feijão das águas no Paraná já está plantada, devendo ser finalizado até o final de novembro. Este ano, a área ocupada com as lavouras deverá ser de 191 mil hectares, 3% acima da área ocupada na safra passada que atingiu 184.854 hectares. A produção deverá crescer 21%, passando de 293.975 toneladas, colhidas na safra passada, para 354.852 toneladas na próxima safra, se não houver problemas com o clima.
Como nas demais culturas, as condições de campo também estão boas para o feijão. De acordo com o engenheiro agrônomo do Deral, Carlos Alberto Salvador, espera-se uma produtividade maior para esta safra que poderá render em torno de 31 sacas por hectare, um ganho adicional de 4 sacas por hectare em relação à safra das águas anterior.
A região de Ponta Grossa é a que mais produz feijão no Paraná, com uma participação de 28% da produção estadual. A produtividade chega a 35 sacas por hectare, acima da média do Estado.
Com a expectativa de uma oferta maior, os preços do feijão já estão em declínio. No entanto, está ocorrendo uma peculiaridade com o mercado, que está travado impedindo que essa queda chegue ao consumidor. Isso porque o setor varejista está com estoques de feijão adquiridos com cotações mais altas, que vinham vigorando no período de entressafra.
Com a entrada de produto novo de São Paulo e Goiás, as cotações do feijão pagas ao produtor já caíram para R$ 200,00 a R$ 250,00 a saca, metade do preço que vinha sendo praticado. Os mercados e atacadistas deverão comprar o feijão da nova safra, mas precisam escoar os estoques existentes. Os consumidores também não estão comprando o feijão a preços elevados e estão aguardando a entrada no mercado do feijão da safra nova, que deverá vir com preços mais baixos. Isso é o desafio a ser superado, analisa Salvador.
De acordo com o técnico, a safra paranaense entra no mercado a partir de dezembro e a expectativa é saber como estará o mercado até lá.
Mandioca
A produção paranaense de mandioca está com 95% da área já colhida, em ritmo mais acelerado que no ano passado em função dos preços estarem mais atrativos com oferta menor para ser comercializada. A produção caiu 24%, passando de 3,74 milhões de toneladas no ano passado para 2,86 milhões este ano.
De acordo com o economista do Deral, Methódio Groxco, os preços da mandioca estão quase 300% acima dos praticados no ano passado. Em outubro de 2015, era comercializada por R$ 147,00 a tonelada, e este ano entre R$ 550,00 a R$ 600,00 a tonelada. Esses preços tendem a ficar firmes até a entrada da próxima safra, que inicia a partir de março do ano que vem.
Mesmo com este cenário, o produtor não está incentivado a aumentar o plantio porque, a exemplo do feijão, há variáveis que travam essa decisão. Segundo Groxco, o produtor de mandioca enfrenta dificuldades em encontrar mão de obra, o custo do arrendamento de terras é elevado e falta material de reprodução (manivas).
Trigo
Último produto da safra passada (15/16), que está em campo, o trigo no Paraná está em fase de colheita com 75% da área colhida, devendo encerrar essa fase até dezembro. A produção paranaense 2016 deverá alcançar 3,27 milhões de toneladas, repetindo o volume colhido na safra passada, porém com uma área plantada 20% menor.
A colheita está revelando uma excelente produtividade no Paraná, em torno de 2.900 a 3.000 quilos por hectare, 23% acima da média do ano passado que foi 2.500 quilos por hectare. De acordo com o engenheiro agrônomo do Deral, Carlos Hugo Godinho, esse avanço da produtividade explica-se pelo investimento em tecnologia por parte do produtor e também pelo avanço da produção na região Centro-Sul do Estado.
Segundo Godinho, o produtor está optando pelo plantio de cultivares mais resistentes a fenômenos climáticos como seca, geadas e doenças. Com isso está obtendo grãos com maior teor de proteína e qualidade, fatores que atraem a indústria. “Isso é resultado do avanço da pesquisa agronômica que está contribuindo para o Paraná caminhar para uma produção de trigo de alta qualidade, o que faz a indústria remunerar por isso”, ressalta.
Apesar do avanço tecnológico, neste período de safra os preços estão em baixa, em torno de R$ 35,00 a saca. Godinho diz que a tendência das cotações para o trigo é de baixa por causa da oferta mundial do grão estar mais elevada.
Fonte: AEN/Pr

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Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira
Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.
O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta
Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.
Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.
Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem
É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.
Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.
Ajuste fino, não ruptura
A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.
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Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026
Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.
No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”
Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.
O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.
Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.
Padronização da produção
O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.
Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.
Mercados internacionais em expansão
O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.
Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.
Oscilações do mercado
Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.
Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.
Processo de adaptação
Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.
A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.
Gargalos persistem
Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.
A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.
Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.
Dependência do mercado interno
Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.
No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.
Pilares da pecuária
A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.
Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.
Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.
Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.
Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.
Visão de futuro
Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.
Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.
O Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.
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Brasil lança selo para fortalecer mercado de carne premium
Iniciativa incentiva o cruzamento entre vacas leiteiras e touros Angus, ampliando a oferta de carne de alto valor e criando nova fonte de renda para produtores de leite.

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.
Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.
O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.
“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.
Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.
Participação técnica da Embrapa
A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.
A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.
Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.


