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Safra de trigo deverá ser marcada pela racionalização dos recursos
Nos últimos dois anos, a escalada de preços dos insumos acompanhou a cotação dos grãos no mercado internacional. No trigo, os principais custos de produção estão nos insumos (fertilizantes, defensivos e sementes) e operações na lavoura (combustível, tratos culturais, transporte). A maior alta foi nos fertilizantes, que subiram mais de 100% no último ano.

O cenário de alta no preço dos insumos exige planejamento para reduzir os custos da lavoura de inverno, mas sem comprometer o potencial produtivo. Veja quais são as tendências para a próxima safra e as orientações para a melhor racionalização dos recursos que serão investidos na cultura do trigo.
Nos últimos dois anos, a escalada de preços dos insumos acompanhou a cotação dos grãos no mercado internacional. No trigo, os principais custos de produção estão nos insumos (fertilizantes, defensivos e sementes) e operações na lavoura (combustível, tratos culturais, transporte). A maior alta foi nos fertilizantes, que subiram mais de 100% no último ano.
Na estimativa de custos de produção do Deral/PR, na safra 2022 a lavoura de trigo deverá custar R$ 4.223,27/ha. Os insumos que mais impactaram no aumento foram fertilizantes, que compõem 27,25% dos custos variáveis, operações de máquinas e implementos que representam 10%, agrotóxicos com 8,48% e sementes com 7,37%.
Segundo o engenheiro agrônomo Carlos Hugo Godinho, do Deral/PR, considerando a cotação atual de R$ 88,00/sc de trigo, a produtividade precisa atingir os 48 sc/ha para empatar o desembolso, mas a média de produtividade no Paraná nos últimos cinco anos tem sido de 42 sc/ha. “Verificamos um aumento de 73% nos custos de produção de trigo no Paraná com relação à safra 2021”, explica Godinho.
Ele lembra que o milho, principal concorrente do trigo no norte do Paraná, também está com preços elevados. “Com a saída da soja mais cedo, os produtores tendem a destinar as lavouras para o milho safrinha”, conta o agrônomo. Na prática, os insumos para o milho são adquiridos pelo produtor paranaense ainda no mês de setembro, enquanto os insumos do trigo geralmente são comprados no começo do ano.
Flávia Starling Soares, analista de mercado de trigo da Conab, avalia que os custos de produção de todas as commodities subiram. “Não é uma exclusividade do trigo, mas de todos os grãos que tem por referência a cotação internacional”, afirma a analista, destacando que essa tendência de alta nos preços observada nos dois últimos anos deverá seguir em 2022, devido à alta cambial, aos baixos estoques mundiais e frustrações em diversas regiões produtoras de trigo.
“O preço do trigo deverá continuar a subir ao longo do ano. Os preços domésticos não apresentaram tendência de baixa durante a colheita, o que normalmente ocorre devido ao aumento gradual da oferta interna e menor necessidade de importação. Além disso, como muitos produtores já estão com os insumos comprados, os custos de produção deverão ficar mais baixos no balanço final, considerando uma boa produtividade na safra de inverno”.
Como economizar na lavoura
O trigo exige um mínimo de tecnologia para ser produzido, mas práticas promotoras e protetoras do potencial produtivo da lavoura precisam ser avaliadas de acordo com o retorno econômico que proporcionam. Maior produtividade nem sempre se traduz em maior lucro no trigo, enquanto que rendimentos de grãos acima da média geralmente são resultado do alto investimento em insumos.
“É importante manter um equilíbrio das contas agora, na implantação da lavoura. O ideal é alcançar o maior rendimento de grãos associado à máxima rentabilidade possível. Contudo, muitas vezes, é mais vantajoso para o produtor assumir um teto de rendimento menor, mas com boa rentabilidade”, orienta João Leonardo Pires, pesquisador da Embrapa Trigo.
A pesquisa identificou diversas formas de ajustar o manejo da lavoura, reduzindo custos e mantendo o potencial produtivo. Alguns exemplos são: escolha da cultivar mais apropriada para cada modelo de negócio/ambiente de cultivo; redução na densidade de semeadura; ajuste de adubação; evitar produtos/práticas com resultados duvidosos; rotação de culturas; sistema plantio direto bem conduzido; controles fitossanitários por monitoramento e não por calendário; entre outros, que variam conforme o potencial produtivo e os riscos da região, o histórico da propriedade e do clima.
“O conselho é não errar na hora de economizar na lavoura de trigo. Não adianta economizar na compra de sementes certificadas, reduzir a adubação para níveis limitantes e manter um calendário de aplicações de fungicidas, sem monitoramento da lavoura para avaliar o que realmente é necessário nos diferentes momentos do desenvolvimento da cultura. É fundamental deixar de usar de um pacote de insumos/práticas fixo e aplicar, com a ajuda da assistência técnica, o que realmente é necessário para cada situação. Sabendo onde fazer economia, o produtor pode construir uma lavoura com bom potencial de forma racional e com base técnica”, explica Pires.
Fertilizantes
Os fertilizantes compõem parte significativa dos custos de produção, historicamente representando entre 25% a 30% do investimento na lavoura. Entre os cinco principais fertilizantes nitrogenados utilizados na cultura do trigo, o preço por tonelada ficou em média 127% mais caro, com aumento que variou de 38% a 182% conforme o produto. A tonelada de ureia, por exemplo, passou de R$ 1.940 (dez 2020) para R$ 5.355 (dez 2021), segundo o Relatório de Insumos Agropecuários da Conab. Outro exemplo é a fórmula NPK 05-20-20, com aumento que chegou a 163% no último ano.
Mas, segundo o pesquisador Fabiano De Bona, da Embrapa Trigo, a adubação nitrogenada está diretamente relacionada à produtividade no trigo: “A aplicação de N ao solo no cultivo do trigo é uma das práticas de manejo mais seguras em relação ao retorno econômico. As pesquisas demonstram que a eficiência no uso de N oscila entre 12 a 21 quilos de grãos para cada quilo de N adicionado”, esclarece o pesquisador.
A ureia é o principal fertilizante utilizado no trigo devido ao menor custo por unidade de nutriente dentre os adubos nitrogenados disponíveis no mercado. A quantidade de N recomendada pela pesquisa é de 60 a 120kg/ha, aplicando de 15 a 20kg/ha na semeadura e o restante em cobertura (perfilhamento e alongamento do colmo das plantas). A aplicação de N no espigamento geralmente não aumenta o rendimento de grãos, mas pode favorecer o aumento no teor de proteínas.
De modo geral, a dose na adubação nitrogenada varia em função do teor de matéria orgânica, da cultura precedente, da região e da expectativa de rendimento.
Aproveitamento do residual da cultura de verão
A estiagem que prejudicou a safra de verão em diversos locais da Região Sul pode alterar a demanda de adubo no plantio de inverno. O baixo desenvolvimento da soja e do milho em função da estiagem não permitiu que a cultura aproveitasse todo o adubo disponibilizado no solo, assim o produtor poderá contar com esse residual para a cultura de inverno. Entre os fertilizantes que devem estar imobilizados no solo em área prejudicadas pela estiagem estão o fósforo e o potássio.
“Acredito que, em muitas áreas, seja necessário apenas o aporte de nitrogênio para a semeadura do trigo. Um importante incentivo para a implantação de uma cultura no inverno num momento de escassez de fertilizantes no mercado mundial, o que exige o máximo aproveitamento dos nutrientes que estão no solo agora e podem ser perdidos até a próxima safra de verão”, explica o pesquisador Fabiano De Bona. O efeito residual deixado pela cultura de verão deve ser determinado através de um diagnóstico de fertilidade, possível através da análise de solo, procedimento com um baixo custo para o produtor.

Análise do solo – Foto: Rafael da Rocha
“Se o produtor colheu 12 sacos de soja, por exemplo, mas adubou para uma colheita de 40 sacos, ele sabe que sobrou adubo no solo. Mas o produtor não pode estimar o efeito residual sem uma análise de solo que indique seguramente o volume de adubo necessário a cada área de plantio. Precisamos saber exatamente onde investir, utilizando os nutrientes que o solo dispõe e adicionando somente o que for necessário”, explica o pesquisador Osmar Conte, da Embrapa Trigo.
Fungicidas
Os defensivos são o terceiro item de maior dispêndio na lavoura de trigo, logo atrás dos fertilizantes e operações de máquinas. O maior custo é com fungicidas, especialmente em anos com clima adverso, onde a umidade favorece a incidência de doenças fúngicas.
Entre os 10 fungicidas mais utilizados na cultura do trigo (base triazóis + estrubirulinas), a média de aumento no preço por litro chegou a 30%, com uma variação de aumento entre 5% e 72% conforme o produto na comparação dezembro de 2020 com dezembro de 2021 (Conab, Insumos Agropecuários RS).
Para a fitopatologista Cheila Sbalcheiro, da Embrapa Trigo, a economia com defensivos está associada a cultivares com melhor sanidade e monitoramento da lavoura. “Em anos mais secos, uma cultivar resistente a oídio vai exigir menos fungicidas ao longo do desenvolvimento da cultura, assim como a resistência a ferrugens e manchas foliares. O cuidado maior é a partir do espigamento, onde o uso do fungicida é indicado preventivamente para o controle de giberela, quando houver condições climáticas favoráveis à doença. Com o monitoramento da lavoura podemos reduzir o número de aplicações, intervindo no momento certo para o controle. Assim, o manejo eficiente dos defensivos pode resultar em economia e lucro final para o produtor”.
Sementes
O preço das sementes acompanhou o aumento nas cotações do trigo. Ainda assim, as sementes representam somente 7,37% dos custos de produção na triticultura (Deral, 2021).
O uso de sementes de qualidade é fundamental para assegurar o potencial de rendimento no trigo, garantindo um estabelecimento adequado da lavoura. O uso de semente salva é autorizado pela legislação brasileira, mas a aquisição de semente certificada vai garantir quatro itens fundamentais para o sucesso de uma boa lavoura: pureza genética, ou seja, sementes da cultivar desejada, sem misturas; pureza física, com garantia de que no mínimo 98% do que está dentro do saco são sementes da cultivar; sanidade, com sementes sadias que não introduzirão nenhuma doença na lavoura; e por fim, a qualidade fisiológica, em sementes com alta germinação.
Outro cuidado indispensável é o tratamento de sementes, um custo que varia entre R$ 0,70 e R$ 1,00/kg e pode trazer mais segurança com relação ao estabelecimento da cultura, reduzindo perdas pelo ataque de insetos e doenças. Atualmente, o preço de sementes de trigo prontas para a semeadura está ao redor de R$ 2,90/kg no mercado gaúcho (Apassul, janeiro de 2022)..
Além da qualidade, a quantidade de sementes é um critério que merece atenção na semeadura. Um estudo da Embrapa Trigo e CCGL/RTC avaliou os limites para reduzir a quantidade de sementes por hectare sem prejudicar o rendimento final da lavoura. Conforme o estudo, uma média segura fica na faixa de 250 sementes aptas por metro quadrado, cerca de 86 kg/ha, considerando semente de qualidade.
Para definir o adequado manejo na densidade de plantas, o produtor precisa conhecer o histórico da área e o potencial genético da cultivar que está usando. A recomendação é sempre avaliar as possibilidades com a assistência técnica e a empresa obtentora da cultivar.
Momento de definição do produtor
Grande parte da comercialização de insumos para a safra de inverno acontece agora na Região Sul, com exceção do norte do Paraná onde a decisão entre trigo ou milho safrinha já foi definida no ano anterior. Embora exista um cálculo modelo para estimar os custos de produção, os itens de dispêndio podem variar entre instituições, empresas e consultorias especializadas. Importante destacar, ainda, que cada produtor tem o seu custo e deve fazer os ajustes baseado na sua realidade, já que o controle de custos é fundamental para gerar lucro.
Vacaria, Nordeste gaúcho

Produtor Pedro Basso – Foto: Divulgação
Na propriedade da Sementes com Vigor, o trigo deverá repetir a mesma área de 2021, cobrindo 1.250 hectares. Com os insumos já comprados, o produtor Pedro Basso estima um aumento de 66% nos custos de produção: a produção de sementes de trigo apresentou custos variáveis de R$ 3.000,00/ha em 2021, passando para R$ 5.000,00/ha nesta safra. “Nossa produtividade média em 2021 foi de 92 sacos por hectare. Mesmo com o aumento dos insumos, acredito que ainda teremos lucro com o trigo novamente neste ano”, avalia Pedro.
O produtor aposta no uso de plantas de cobertura após a retirada da soja para potencializar os resultados no inverno, como o uso de mix com nabo ou ervilha, para reduzir a incidência de plantas daninhas na área e a reciclagem de nutrientes, como nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K).
“Essa cobertura reduz as plantas daninhas e pode até eliminar a necessidade de herbicida pós-emergente no trigo, que custa até 1,5 saco por hectare. A cobertura também vai reduzir o gasto com adubação, tanto com fertilizantes nitrogenados quanto fosfatados”, explica o Pedro, destacando a importância do planejamento do ano na área.
“O trigo é essencial para definir a lavoura de verão. O bom resultado da última safra de inverno salvou muito produtor que está enfrentando prejuízos com a seca na soja e no milho agora, até porque a maioria das perdas está nas semeaduras de soja no cedo, que não tiveram colheita de inverno”.
Apostando nos bons resultados com a safra de inverno, Pedro Basso defende que não é hora para fazer lavoura de “baixo investimento”, mas sim planejar o sistema de produção, dividindo a área de inverno em 20% para alto potencial produtivo, 60% médio investimento e 20% investimento mínimo. “Se o clima for favorável, toda a lavoura responde bem, mas se houverem adversidades, uma lavoura sem insumos não vai responder e o prejuízo é certo. É preciso administrar o investimento visando o melhor retorno financeiro possível, seja no trigo ou na soja lá na frente”.
Mamborê, Centro-Oeste do Paraná
O produtor Flávio Moreira aguarda a colheita da soja para começar a semeadura do milho safrinha, com janela de plantio na região até 28 de fevereiro. Em 2021, a lavoura foi dividida em 25% de milho e 75% de trigo. Nesta safra, a área será dividida em 50% milho e 50% trigo. Apesar do aumento de 20% nos custos de produção do milho, a expectativa é de rentabilidade mais alta do que o trigo, já que os insumos para o cereal de inverno ainda não foram comprados.
“Na média dos últimos quatro anos a rentabilidade do milho safrinha superou a do trigo. Na nossa região, o trigo também oferece maior risco de perdas com seca e geadas”, justifica o produtor, com ressalvas: “Espero umidade do solo para implantar o milho, mas se as condições climáticas limitarem a semeadura, sem dúvidas o trigo é a segunda opção. Além da oportunidade de renda maior do que plantas de cobertura de inverno, o trigo ainda ajuda no controle de plantas daninhas na soja e permite a rotação de culturas”.
O planejamento inicial do produtor é investir em cerca de 500 hectares de trigo neste ano.
Cruz Alta, Norte gaúcho
“Os nossos custos de produção na lavoura para sementes de trigo devem subir 70% neste ano”, avalia o produtor

Produtor Tomás Scapin – Foto: Divulgação
Tomás Scapin, da ZT Sementes. Segundo ele, somente a adubação deverá representar 15 sc/ha. O custo total da lavoura está estimado em 45 sc/ha, ainda com uma pequena margem de lucro considerando a média de produtividade dos últimos anos, que tem ficado entre 55 a 60 sc/ha.
“Ao contrário da previsão inicial, acredito que a área de trigo vai crescer novamente. O produtor que atravessa frustração com a safra de soja vai buscar renda na safra de inverno, mesmo que as margens de lucro sejam menores neste ano”, afirma Scapin.
O produtor diz que tem observado uma demanda crescente do Paraná pelo trigo gaúcho, já que a preferência pelo milho pode reduzir a oferta de grãos de inverno no estado paranaense. “Compra de sementes por outros estados e mesmo contratos futuros para o trigo gaúcho já estão acontecendo. Por mais que a área com trigo no RS cresça novamente, a demanda será ainda maior, o que vai garantir liquidez e elevação das cotações. Cabe agora ao produtor fazer uma lavoura bem feita, com cultivares mais resistentes, investindo na uréia e economizando nos defensivos sempre que possível. Até porque, não existe alternativa melhor do que o trigo para a rotação no inverno”, conclui Scapin. A ZT Sementes vai cobrir 450 hectares com trigo na próxima safra.
Maçambará, Oeste gaúcho
O produtor Leonardo de Oliveira Carneiro, de Maçambará, região Oeste de Rio Grande do Sul, experimentou trigo pela primeira vez em 2021, com o cultivo de 132 ha. Na colheita, a média de rendimentos superou os 40 sc/ha. “Foi um bom resultado, considerando que na região o cultivo de grãos ainda está começando sobre as áreas onde existia somente campo nativo”, lembra o produtor.
Ele ainda contabiliza as perdas com a soja: “Na lavoura de soja, apenas 20% das sementes germinaram. O mesmo aconteceu com a maioria das lavouras da região, onde os produtores aguardam umidade para arriscar uma nova semeadura na safrinha de soja”, afirma Carneiro.
Ciente do potencial de aproveitamento do adubo que pode ficar no solo com a frustração do verão, Carneiro vai repetir a área com trigo em 2022, investindo nas sementes que já foram compradas e limitando a adubação nitrogenada em cerca de 100 kg/ha.
“Nossos custos de produção ficaram em R$ 2.000,00 no ano passado e a ideia é tentar manter estes custos nesta safra de trigo. Temos a esperança de que a cotação do trigo irá se manter alta, assim a renda do inverno será fundamental para equilibrar as contas e viabilizar a próxima safra de verão”, conta o produtor.

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Biometano ganha espaço na política energética e amplia demanda por novos projetos no Brasil
Regulamentação da Lei do Combustível do Futuro cria metas de descarbonização para o setor de gás natural e deve impulsionar investimentos, certificação e expansão da produção.

O biometano passou a ocupar uma posição estratégica na política energética brasileira após a regulamentação da Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024). Com a implementação do Programa Nacional de Descarbonização do Produtor e Importador de Gás Natural e de Incentivo ao Biometano, produtores e importadores de gás natural passaram a ter metas anuais de redução das emissões de gases de efeito estufa, criando uma nova demanda para o combustível renovável.

Biometano pauta 13º Fórum do Biogás – Fotos: ABiogás
Regulamentado pelo Decreto nº 12.614/2025, o programa prevê que o cumprimento dessas metas poderá ocorrer por meio da aquisição dos Certificados de Garantia de Origem do Biometano (CGOBs), mecanismo que comprova a origem e a rastreabilidade do combustível. A medida também amplia o papel da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) na regulamentação, certificação e fiscalização do mercado.
Na avaliação do setor, o novo marco regulatório tende a fortalecer o ambiente de negócios ao criar demanda para o biometano e oferecer maior previsibilidade aos investimentos em produção, infraestrutura, certificação e comercialização. “O Brasil reúne todas as condições para liderar a produção de biometano, mas essa liderança depende de transformar potencial em projetos, conectar oferta e demanda e construir um ambiente regulatório que dê previsibilidade aos investimentos. O biometano já demonstrou sua capacidade de contribuir para a descarbonização, a segurança energética e a economia circular. Agora, o desafio é acelerar sua inserção na matriz energética e consolidá-lo como um ativo estratégico para a competitividade do país”, afirma a presidente-executiva da Associação Brasileira do Biogás e do Biometano (ABiogás), Josiani Napolitano.
Fórum discute expansão do mercado
As mudanças regulatórias estarão entre os principais temas da 13ª edição do Fórum do Biogás, promovido pela ABiogás nos dias 11 e 12 de agosto, no São Paulo Expo, na capital paulista.
O encontro vai reunir representantes do governo, especialistas, investidores e empresas para discutir os avanços regulatórios, oportunidades de negócios, inovação, segurança energética e o papel do biometano na descarbonização da matriz energética brasileira.
Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o programa tem como objetivo incentivar a pesquisa, a produção, a comercialização e o uso do biogás e do biometano, ampliando a participação dessas fontes renováveis na matriz energética nacional.
Vetor estratégico da segurança e transição energética

Tiago Santovito, diretor-executivo da ABiogás: “O biogás e o biometano deixaram de ser um tema técnico de nicho para ocupar a agenda de investimentos do país”
O biometano é o segmento que mais cresce dentro desse universo. Embora represente apenas 11% do número total de plantas em operação, já concentra cerca de 34% de todo o volume de biogás aproveitado no país, reflexo da escala superior das unidades de purificação (upgrading). Segundo dados da ANP, o Brasil tem, até junho de 2026, 69 unidades produtoras de biometano cadastradas, sendo 21 já autorizadas para comercialização e outras 48 em processo de autorização, o que deve levar o país a ter cerca de 3,37 milhões de Nm³/dia de capacidade instalada de biometano até 2028.
De acordo com o Panorama do Biogás 2025, estudo anual elaborado pelo CIBiogás, o Brasil soma atualmente 1.803 plantas de biogás cadastradas, das quais 1.727 já estão em operação, um crescimento médio de 15% ao ano (CAGR) nos últimos cinco anos, ritmo que o próprio estudo aponta como aproximadamente cinco vezes superior à expansão média do PIB nacional no período. A capacidade instalada de produção de biogás no país chega a aproximadamente 4,96 bilhões de Nm³ por ano.
Estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) citados pelo Panorama indicam que a meta de descarbonização prevista na Lei do Combustível do Futuro, a ser definida anualmente pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), pode elevar a demanda por biometano a aproximadamente 7 bilhões de metros cúbicos anuais antes de 2035, um salto de até 15 vezes em relação ao patamar atual.
Uma trajetória de recordes

Josiani Napolitano, presidente executiva da ABiogás: “O Brasil reúne todas as condições para liderar a produção de biometano, mas essa liderança depende de transformar potencial em projetos, conectar oferta e demanda e construir um ambiente regulatório que dê previsibilidade aos investimentos”
A nova edição do Fórum dá sequência a uma trajetória de crescimento. Em setembro de 2025, o 12º Fórum do Biogás reuniu mais de 1.500 participantes e 55 patrocinadores no São Paulo Expo, números que, segundo a organização, confirmaram o evento como o maior encontro do setor na América Latina.
A edição anterior também marcou a assinatura de um decreto municipal pelo então prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, para ampliar o uso do biometano na frota de ônibus da cidade, além do lançamento de uma plataforma de dados em Power BI desenvolvida pela ABiogás para reunir informações regulatórias, tributárias e financeiras do setor. “O biogás e o biometano deixaram de ser um tema técnico de nicho para ocupar a agenda de investimentos do país. O Fórum é o espaço onde essa conversa acontece com a presença de quem decide: do poder público ao investidor “, afirma Tiago Santovito, diretor-executivo da ABiogás.
Com a nova regulamentação, o biometano deixa de ocupar apenas o campo das perspectivas e passa a fazer parte da engrenagem concreta de descarbonização do mercado de gás. Para a ABiogás, esse avanço reforça a relevância do Fórum como ambiente de articulação entre setor produtivo, governo, investidores e consumidores finais, em um momento decisivo para transformar políticas públicas em projetos, contratos e infraestrutura.
O 13º Fórum do Biogás será, portanto, um espaço estratégico para discutir a implementação desse novo ciclo. O evento reunirá empresas de toda a cadeia, investidores, autoridades públicas, especialistas e representantes dos mercados nacional e internacional, com debates distribuídos em duas salas simultâneas ao longo de dois dias.
A programação abordará temas como ambiente regulatório, desenvolvimento de projetos, tecnologias, modelos de contratação, financiamento e integração do biogás e do biometano às políticas climáticas e energéticas. Segundo a organização, a proposta do evento é promover negócios, apresentar soluções, ampliar o diálogo com o poder público e discutir tendências para o setor no Brasil e no exterior.
Programação 11 de agosto
- 09h – Cerimônia de abertura
- 11h – Plenária Principal – Biogás e biometano: diversificando a matriz e fortalecendo a segurança energética
- 14h – “Mandato de biometano na Lei Combustível do Futuro” e “Infraestrutura e logística do biometano”
- 16h – “Integração do biometano à política climática” e “Biometano nas cidades: mobilidade urbana e gestão de resíduos”
Programação 12 de agosto
- 09h – “CGOB: regulação e operacionalização” e “Valorização do digestato e economia circular”
- 11h – “Os benefícios tributários ao longo da cadeia do biogás e biometano” e “Biometano no transporte de carga”
- 14h – “Biometano na abertura do mercado de gás” e “Descentralização do biogás: pequenos projetos, inclusão social e sustentabilidade socioambiental”
- 16h – “Desenvolvimento tecnológico, eficiência operacional e segurança na cadeia de valor do biogás” e “Diversificação dos usos do biogás”
Inscrições
As inscrições para o 13º Fórum do Biogás já estão abertas e pode, ser feitas clicando aqui.
O Ingresso Padrão está no Lote 3, a R$ 1.690,00, válido até 12 de agosto, com acesso aos conteúdos dos dois dias, à área de exposição e ao certificado digital de participação. Associados da ABiogás contam com valor especial de R$ 990,00, mediante solicitação de código de desconto.
Há ainda o Ingresso VIP, em lote único de R$ 4.900,00, com acesso integral aos dois dias, entrada exclusiva na sala de palestrantes, acesso à área de imprensa e kit personalizado do evento.
Notícias
Chances de El Niño “muito forte” no fim de 2026 chegam a 81%, aponta NOAA
Agência climática dos Estados Unidos indica que fenômeno pode ser o mais intenso desde o início das medições, em 1950.

O El Niño se intensificou e tem 81% de chance de atingir a categoria “muito forte” entre os meses de outubro e dezembro próximos, segundo estimativa publicada nesta quinta-feira (9) pela National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), agência de previsão climática dos Estados Unidos, uma das mais importantes do mundo.

Segundo a NOAA, se a previsão se confirmar, esse pode ser o maior El Niño desde 1950, ano em que começaram a ser feitas as medições.

Foto: Antonio Carlos Mafalda
Havia uma previsão de que o fenômeno pudesse se intensificar ao longo de 2026, mas não se sabia exatamente a intensidade a que poderia chegar. Esse novo boletim do instituto marca, portanto, uma mudança importante.
O fortalecimento do fenômeno climático tem ainda 97% de chance de perdurar até os meses de março a junho de 2027, quando é primavera no Hemisfério Norte e outono no Hemisfério Sul.
De acordo com o instituto norte-americano, o El Niño ganhou força no mês de junho, causando uma série de alterações na temperatura de uma grande área da superfície do Oceano Pacífico central e leste, provocando aumento superior a 1ºC nessas regiões.
Ainda segundo a NOAA, um El Niño mais forte não significa necessariamente que haverá eventos climáticos graves, mas que há uma probabilidade maior de que aconteçam mais tempestades e forte calor em diferentes regiões do planeta.
O El Niño é o fenômeno meteorológico que provoca o aquecimento acima da média da superfície do Pacífico equatorial. Essa elevação da temperatura causa alterações no ritmo das chuvas e também na circulação dos ventos.
Colunistas
Produtores mudam estratégia e priorizam investimentos com maior retorno
Decisões no campo passam a considerar desempenho operacional, tecnologia e redução de custos ao longo do ciclo produtivo.

O cenário do agronegócio atravessa uma transformação silenciosa, mas profunda. O que antes era uma decisão baseada puramente na necessidade mecânica, tornou-se uma complexa equação financeira e tecnológica. No campo, o produtor rural está abandonando a visão de que a máquina é um “custo necessário” para abraçá-la como um ativo estratégico de alto rendimento.
Esta mudança de paradigma não é fruto do acaso. É a resposta direta a um mercado de margens cada vez mais comprimidas, onde a eficiência operacional dita quem permanece na atividade. O setor vive hoje a era da especificação técnica orientada ao retorno sobre investimento (ROI), na qual a potência bruta cede espaço para métricas como consumo de combustível por hectare e disponibilidade mecânica.

Artigo escrito pelo engenheiro agrícola Micael Duarte.
Historicamente, o preço de aquisição era o principal balizador de compra. Hoje, o cálculo é mais sofisticado. O produtor moderno entende que o valor nominal de um trator é apenas a ponta do iceberg. O verdadeiro custo revela-se na operação: o gasto com diesel, a frequência de manutenção e, principalmente, a confiabilidade.
Em janelas de plantio e colheita cada vez mais estreitas devido às variações climáticas, uma máquina parada por falha técnica não representa apenas um gasto com peças e sim a perda de produtividade de toda a safra. É o custo da oportunidade perdida, que muitas vezes supera, em poucos dias, a economia feita em uma compra de equipamento inferior.
A grande virada de chave nesta nova lógica é a conectividade. Se antes o trator era uma peça isolada de ferro e aço, hoje ele é um terminal de dados móvel. Sistemas de telemetria e monitoramento remoto permitem que o gestor acompanhe, em tempo real, o desempenho da frota, identificando padrões de desperdício ou falhas iminentes. Essa visão de 360 graus permite uma gestão cirúrgica dos insumos.
Com o aumento constante no preço de fertilizantes e defensivos, a precisão na aplicação torna-se o divisor de águas entre o lucro e o prejuízo. O equipamento deixa de ser apenas quem executa o trabalho para ser quem fornece a inteligência necessária para otimizar os recursos da propriedade.
Essa evolução também é impulsionada por uma mudança geracional. Novos produtores, conectados à gestão de dados, enxergam a inovação como parte intrínseca da produtividade. Eles buscam ferramentas que ofereçam previsibilidade e robustez, entendendo que máquinas mais eficientes ajudam a reduzir custos operacionais e aumentam a rentabilidade por hectare no longo prazo.
Em suma, a lógica de compra no agronegócio evoluiu para uma análise de ciclo de vida. O produtor não compra mais apenas uma máquina; ele investe em uma solução capaz de reduzir perdas e maximizar resultados financeiros. Num mercado cada vez mais competitivo, investir melhor tornou-se tão crucial quanto produzir mais.


