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Avicultura Abastecimento

RS tem no milho grande ponto de atenção, mas setor de aves deve crescer, destaca Asgav

Um grande gargalo que será preciso estabilizar, de acordo com a ASGAV, é quanto a questão dos grãos

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Divulgação/Giuliano Miranda

Atualmente o Rio Grande do Sul é o terceiro maior produtor e exportador de carne de frango do Brasil. O título não vem à toa. O Estado vem trabalhando forte na produção agropecuária. Mesmo com todos os percalços que 2020 trouxe, o Estado contou com bons resultados. Além do mais, as perspectivas para 2021 são que os números avancem e os ganhos da cadeia produtiva gaúcha sejam ainda melhores.

Segundo o presidente executivo da Associação Gaúcha de Avicultura (ASGAV/SIPARGS), Eduardo Santos, o Rio Grande do Sul conseguiu chegar ao final do ano de 2020 com um pequeno índice de crescimento, tanto nas exportações quanto na produção. “Porém, nós tivemos que rever o nosso índice de produção de frango de corte em detrimento a todo o distúrbio que nós tivemos no mercado em relação aos grãos, principais insumos para ração das aves, que é o milho e o farelos de soja”, explica.

Distúrbio esse que foi sentido em todo o Brasil, com o preço da soja e do milho chegando a patamares nunca vistos. “Tivemos uma excepcionalidade no mercado de grãos e isso impactou drasticamente todo o setor, porque quase 70% dos custos de produção de frango e ovos é a ração. Então nós prevíamos um crescimento nos abates em torno de 2 a 3%, mas devemos fechar com no máximo 1% de crescimento, fechando o ano em torno de 825 milhões de aves abatidas no Rio Grande do Sul”, conta.

Santos comenta que o Estado manteve a posição de terceiro maior produtor e, com isso, pode reduzir um pouco a expectativa de crescimento em detrimento de todas as dificuldades que apareceram, além do aumento dos grãos, como os acontecimentos por conta da pandemia, que fechou importantes nichos consumidores, como restaurantes, hotéis, eventos, etc. “Tudo isso impactou no fluxo comercial e de consumo dos nossos produtos”, diz.

E a pandemia mexeu com o mercado. Santos lembra do início do ano o que ela fez com o consumo de ovos. “Houve uma situação confusa, turbulenta. Na segunda quinzena de março, início de abril, houve uma procura desenfreada por ovos no mercado. Chegou a faltar nas prateleiras, porque a população se assustou, não tinha ainda muita noção de quais seriam os desdobramentos e os impactos da pandemia. Então quando se cogitou algum tipo de problema de abastecimento a população foi em busca de alguns alimentos versáteis, que desse alimento a pessoa pudesse preparar muitos outros. Assim, o ovo foi um alvo ali, e isso afetou no início, porque ele tem uma logística diferente da carne e como a busca pela proteína foi muita em pouco espaço de tempo houve o desabastecimento”, recorda. Essa alta demanda fez com que o preço dos ovos aumentassem consideravelmente. “Depois que a situação regularizou deu uma queda súbita e o preço despencou”, conta.

Estes foram somente alguns dos acontecimentos de 2020. Santos comenta que além do desabastecimento de ovos, houve ainda problemas com falta de embalagem e caixas de papelão. “Tudo isso mudou a rotina do nosso setor avícola, tanto de postura, de produção de ovos, quanto de frango de corte”, afirma.

Mercado e a luz no fim do túnel

Quanto as exportações do Rio Grande do Sul vem de um crescente, explica Santos. “Para carne de frango devemos fechar o ano de 2020 em torno de 670 mil toneladas, com um crescimento na casa de 1 a 1,2%. Isso significa também a recuperação que nós vínhamos tendo nas exportações de aves em 2019”, menciona. Ele explica que o Estado teve problemas de embargos de algumas plantas frigoríficas em relação a União Europeia e ainda alguns problemas pontuais com a Arábia Saudita. “Dois mil e dezenove foi um ano que saímos com 400 mil toneladas. Então, em 2020 nós recuperamos boa parte disso, houve uma evolução na exportação e devemos fechar o ano em torno de 670 a 675 mil toneladas até voltarmos aos patamares normais que nós vínhamos tendo nos últimos anos – até 2018 – que é em torno de 730 mil toneladas por ano”, explica.

Dessa forma, o presidente da ASGAV diz que a expectativa é de evolução para o setor. “Mas nós precisamos cadenciar e agora acompanhar em 2021 os desdobramentos das ações que vão buscar soluções para a pandemia. Isso porque os efeitos da pandemia, tanto no que se refere a questões de mercado e fluxo de produção, quanto de todo o pânico da população e o fechamento de nicho. Há também o desdobramento econômicos, com o fim do auxílio emergencial, que deu um oxigênio na população e automaticamente nas empresas também”, avalia. Santos comenta que agora então a expectativa é que o ano apresente outro cenário, especialmente com o início da vacinação no Brasil contra a covid-19. “A tendência agora com a vacinação é desatar esses nós, esses distúrbios que geram especulação tanto para os grãos, quanto para insumos e outros serviços, e assim dar condições para o mercado se estabilizar”, afirma.

Para o diretor executivo da Asgav, com a efetivação da vacinação no Brasil é possível ver uma luz no fim do túnel. “Isso poderá garantir ao Brasil e ao Rio Grande do Sul que nós ampliemos a nossa participação inclusive no mercado externo, porque nós temos lá fora muitos países com incidência de influenza aviária e a população demanda de alimento em larga escala, que nós produzimos aqui”, diz.

É preciso estabilizar o mercado de grãos

Um grande gargalo que será preciso estabilizar, de acordo com Santos, é quanto a questão dos grãos. “O milho chegou a quase R$ 100 e a soja a R$ 2,5 mil a tonelada. É preciso manter a margem de estabilidade do produtor de grãos e trabalhar ao mesmo tempo nas alternativas que nós estamos colocando nas nossas agendas para não termos mais esses distúrbios, inclusive com efeito de estiagem que nós tivemos aqui no Rio Grande do Sul em 2019 e 2020”, conta.

Para tentar resolver essa situação, o dirigente explica que existe uma conversa com a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal) e com a associação em Santa Catarina para começar a trabalhar culturas alternativas, para que os Estados não tenham essa oscilação tão drástica nos suprimentos de grãos para os setores consumidores, como o trigo e a triticale. “Essas culturas de inverno nós vamos começar a plantar e por cada vez mais na nossa agenda para ter esse suprimento”, conta. Ao longo prazo, Santos informa que o setor está apoiando totalmente um projeto que ajuda a desenvolver junto com a ABPA e a Esalq de logística de escoamento de grãos do Centro-Oeste através de vias ferroviária para os Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Mesmo com projetos à vista, o Rio Grande do Sul ainda é um Estado deficitário quando o assunto é abastecimento. Mesmo assim, Santos acredita que não haverá falta de grãos. “Ao longo dos anos nós temos sempre que importar 1,5 a 2 milhões de toneladas. Esse ano a quantia deve subir para 3 milhões de toneladas de acordo com as estimativas de safra. Mas nós sabemos que o Brasil, e isso é uma informação dada pela própria ministra da Agricultura (Tereza Cristina), tem um estoque de mais de 9 milhões de toneladas de grãos e esse ano, segundo a Conab, teremos uma safra recorde novamente. Então, a não ser que haja má vontade política de gestão ou falta de planejamento, pode haver sim desabastecimento. Mas eu acredito que não, porque há interesse dos governos de Estados e federal de garantir toda a produtividade dos setores de aves e suínos na região Sul e alguns mecanismos para apoiar a logística de abastecimento e até importação de grão se for necessário vão ser colocados à disposição do setor para garantir que possamos atravessar o momento crítico”, afirma.

Para o presidente da ASGAV, se o setor tiver o apoio governamental que auxilie os Estados na obtenção de grãos, seja levando de um Estado para outro ou importando, o setor garante a sua parte com a geração de empregos, alimento para a população, entre outros.

Para este ano, Santos afirma que as expectativas são boas. “Se nós continuarmos nessa linha de buscarmos soluções para esses problemas que geraram todos esses distúrbios para desmobilizar os mecanismos de especulação e voltar o fluxo comercial e as atividades voltarem ao normal, é este o resultado que nós esperamos”, diz.

Outras notícias você encontra na edição de Avicultura de janeiro/fevereiro de 2021 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Avicultura Produção de destaque

Mãe e filha cantam de galo na avicultura brasileira

Dona Dalair e a filha Jheynifer são avicultoras raiz, apaixonadas pelo que fazem

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Giuliano De Luca/OP Rural

Consertar o cano d’água que estourou, providenciar a manutenção dos equipamentos da granja, carregar toras e toras de lenha para manter o aquecedor funcionando, acordar três vezes por noite para observar a criação, no frio congelante ou no calor escaldante do Sul do país. Rotina pesada, encarada de frente por dona Dalair, viúva, chefe de família, produtora rural, e por sua filha Jheynifer, que por trás do título de Miss Marechal Cândido Rondon e das unhas bem pintadas se revela uma guerreira do agronegócio.

Mãe e filha são avicultoras raiz, apaixonadas pelo que fazem. São as responsáveis pelos dois aviários que a família tem no interior de Marechal Cândido Rondon, no Oeste do Paraná. A região, uma das que mais produz frangos no Brasil, baseado na presença marcante de cooperativas agropecuárias, apresenta exemplos de mulheres que atuam na linha de frente da avicultura, dentro do galpão, no dia a dia das propriedades rurais.

Mas granjas exclusivamente dirigidas por mulheres são mais raras. Para não dizer exclusivamente, o filho de Dalair, Jonathan, moderadamente, ajuda com a lenha nos aquecedores, mas ela já reclama. “Ele até vai colocar lenha nos fornos, só que tem muita força. Coloca aquela lenha com uma vontade que detona aqueles fornos. Eu digo, coloca com carinho”, brinca a avicultora.

Dalair Allebrandt Boroski trabalha na avicultura há cerca de 40 anos. Uma das pioneiras da atividade no Oeste paranaense, casou-se com Haribert Boroski e teve dois filhos, Jheynifer e Jonathan. Depois de 37 anos casados, o destino levou Boroski mais precocemente, há pouco mais de dez anos. Desde então, Dalair e Jheynifer são as responsáveis pelos aviários. Jonathan ajuda, mas trabalha com caminhão, para terceiros, especialmente nas safras. “É o que ele gosta”, diz a produtora.

“Trabalho com avicultura desde que eu tinha 16 para 17 anos. Construímos o primeiro aviário na época da Sadia. Há cerca de 20 anos, quando entrou o frigorífico da Copagril (hoje Lar), colocamos aquele aviário no chão. Começamos tudo de novo. Hoje são dois galpões”, conta. “Eu e meu marido trabalhávamos juntos, até que ele teve um problema no coração. Ele acabou morrendo há cerca de dez anos, quando assumi sozinha os aviários. Foi por necessidade”, lembra Dalair.

Jheynifer, então com 18 anos, encarou a responsabilidade e acompanha a mãe até hoje. De dia, é dona Dalair que cuida das aves. À noite, quando Jheynifer volta do trabalho de uma cooperativa de crédito na cidade, é ela quem se responsabiliza pelas duas granjas. “Ela me ajuda muito, ela é meu braço direito”, orgulha-se Dalair.

Todo o funcionamento da granja é de responsabilidade delas. Fazer parte das atividades adequar as instalações, receber os pintinhos, fornecer água e alimento, estimular os animais, recolher e destinar as aves mortas, manusear os equipamentos da granja, entregar os lotes, administrar os recursos financeiros, decidir por investimentos. Tudo é feito por elas.

A produção atual comandada por mãe e filha é de 34 mil aves por lote. São seis lotes ao ano, somando mais de 200 mil frangos anuais. Números que fazem aflorar o brio de Jheynifer. “Pra mim é um prazer enorme trabalhar na avicultura. Saber que estou contribuindo com a produção de alimentos do Brasil, contribuindo com o crescimento do Brasil, colocando alimento nas mesas das famílias, é muito gratificante”, diz a jovem produtora de 28 anos. “Ela ama isso”, retruca dona Dalair, pautada em seus 57 anos de sabedoria.

Rotina dura

O sucesso na produção é marcado por trabalho árduo. “Acordo às 5h30 da manhã. Minha primeira viagem é para os aviários. Vou lá ver se está tudo certo. É tudo automático, mas sempre pode dar algum problema”, diz a produtora. Na primeira passada do dia pelos galpões, conta Dalair, checa temperatura do ambiente, o funcionamento do sistemas de água e ventilação, observa a saúde dos animais, entre outras situações.

Quando um novo lote chega, o trabalho é intensificado. “Até os sete dias a gente vai aos aviários de hora em hora para estimular os pintinhos a comer, beber e se movimentar”, conta Jheynifer. “Se você não cuidar dos primeiros sete dias, pode abandonar o lote”, justifica a avicultora, destacando que na avicultura de corte esse período de desenvolvimento dos animais é fundamental para o resultado final da atividade, na hora de entregar ao frigorífico.

E não para por aí. “À noite, até os 20 dias do pintinho, a gente vai no aviário às 9 horas, à meia-noite, às 3 da manhã e às 5h30”, cita Dalair. O objetivo é saber se tudo está funcionando corretamente, como ventiladores e sistemas de água. “Ser avicultora é bem trabalhoso”, menciona.

Trabalho, aliás, em tempo integral. Durante a criação dos lotes, dona Dalair conta que sai do sítio raramente, desde que o filho esteja na retaguarda. “Quando recebo um novo lote eu saio muito pouco. Praticamente são 45 dias dentro de casa. Saio só para ir ao mercado quando o Jonathan está na propriedade. Não largo (a produção) sozinha, pode acontecer uma pane na luz, por exemplo, e alguém precisa estar em casa para ligar o gerador”, comenta.

“O pintinho é tão meigo”

O trabalho, que exige esforço físico, capacidade técnica e uma boa dose de vocação, é feito com graciosidade por mãe e filha paranaenses. “Cuido melhor dos pintinhos do que dos meus filhos”, diz a divertida avicultora. Em sua opinião, mulheres são mais sensíveis que homens no trato com os animais. “Conversando com minhas amigas que também são avicultoras, sempre digo que como a gente cuida dos filhos, a gente cuida dos pintinhos. Mas também, o pintinho é tão meigo”, confidencia Dalair.

A dedicação de mãe e filha é tamanha que no intervalo entre os lotes, quando as granjas estão despovoadas, elas sentem falta da rotina. “Chego até escutar o alarme da granja disparando. A gente dorme e acorda para ir nas granjas, mas lembra que não tem pintinho”, dizem aos risos as produtoras do Oeste paranaense. Mãe e filha são exemplo de como a força de trabalho da mulher está diretamente ligada aos sucessivos bons resultados da avicultura e do agronegócio brasileiro.

Outras notícias você encontra na edição de Avicultura de abril/maio de 2021 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Avicultura SBSA

E. Coli se comunica com outras bactérias para se tornar multirresistente a antibióticos

O médico veterinário Mateus Matiuzi, abriu o bloco de discussões sobre a sanidade no sistema produtivo de aves

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Arquivo / OP Rural

As atenções de profissionais da avicultura estavam voltadas na tarde desta quarta-feira, 07, para a multirresistência bacteriana ligada a E. coli e os impactos na cadeia de produção de aves. Esse foi o tema da palestra do médico veterinário Mateus Matiuzi, que abriu o bloco de discussões sobre a sanidade no sistema produtivo de aves, um dos pilares da produção brasileira. Ele destacou os desafios aumentados com a retirada de antibióticos como promotores de crescimento na produção de aves.

O 21º Simpósio Brasil Sul de Avicultura é transmitido de Chapecó para as casas e empresas de profissionais do setor de toda a América Latina. O evento online, com tradução para o Espanhol, começou na quarta-feira (06) e segue até amanhã, 08 de abril, discutindo temas de importância para o setor avícola brasileiro e do continente.

De acordo com ele, os sorovares de E. coli que atacam aves são variados, alguns pouco agressivos e outros muito agressivos, e elas trocam informações com outras bactérias, inclusive com salmonella. Por isso, citou, “E coli. podem ser multirresistentes a seis ou sete antibióticos diferentes”, advertiu, frisando essa comunicação entre bactérias para adquirir essa resistência.

Ele destacou que a seleção de organismos resistentes a antimicrobianos ocorre também quando os anitmicrobianos são usados em excesso ou em subdosagens.

O bloco sobre sanidade incluiu ainda a apresentação de Guillermo Zavala, que falou sobre laringotraqueite infecciosa, sua prevenção e formas de controle. As duas apresentações foram seguidas de um debate entre palestrantes e congressistas.

Fonte: O Presente Rural
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Avicultura Avicultura

Quais são os pontos chaves na hora da escolha de um adsorvente de micotoxina?

A importância das micotoxinas na avicultura

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Arquivo/OP Rural

Artigo escrito por Kelen Zavarize, zootecnista com pós-doutorado em Nutrição de Aves e gerente de Serviços Técnicos para Avicultura da Kemin na América do Sul

Os grãos, como o milho e a soja são os principais ingredientes utilizados para a alimentação das aves. Para a produção de um quilo de carne são necessários em média 1,8 kg de ração, que tem a composição aproximadamente 70% de milho e 20% de farelo de soja. Assim, grande parte dos custos de produção estão nos grãos utilizados na alimentação. Com isso, a qualidade dos grãos é de fundamental importância para o desempenho das aves, mas pode ser comprometida por ação dos fungos.

A contaminação por fungos e a deterioração dos grãos podem ocorrer ainda no campo, agravando-se durante as operações de colheita, transporte, secagem, beneficiamento e armazenamento. Dessa forma, todas as medidas que venham a controlar o crescimento fúngico e a produção de seus metabólitos são importantes para evitar perdas na qualidade da ração e saúde das aves.

O crescimento fúngico depende de diversos fatores como umidade, temperatura, presença de oxigênio, contaminação por microrganismos entre outros. Algumas espécies de fungos produzem metabólitos tóxicos secundários que são as micotoxinas. Uma das grandes questões relacionadas às micotoxinas é a periculosidade que apresentam à saúde, pois mesmo em baixas concentrações são capazes de provocar doenças, tornando-se um importante fator de risco para a segurança alimentar, o bem estar animal e o desempenho animal.

A ingestão de rações contaminadas por micotoxinas pode produzir toxicidades agudas (curto prazo) ou crônicas (a médio/longo prazo). A toxicidade aguda pode resultar em morte e efeitos clínicos diversos, já a toxidade crônica, que está relacionada com a exposição a longo prazo e baixos níveis de micotoxinas, causa uma variedade de sintomas que podem ser muito inespecíficos. Os efeitos dependem da dose e da duração da exposição, idade e estado de saúde dos animais, e interação com outros fatores de estresse. Mesmo sintomas secundários, tais como doenças oportunistas, podem ocorrer devido a supressão da imunidade.

O controle deve ser composto pela prevenção da contaminação e crescimento fúngico. As práticas com objetivo de melhorar a conservação dos grãos durante o armazenamento são capazes de eliminar os fungos, mas não são capazes de eliminar as micotoxinas. Portanto, a utilização dos adsorventes de micotoxinas como uma proteção dos efeitos adversos para as aves torna-se uma ferramenta indispensável atualmente.

Como funcionam os adsorventes

Os adsorventes são substâncias de alto peso molecular que, ao atingir o sistema gastrintestinal (meio aquoso), são capazes de se ligar às micotoxinas, evitando sua absorção e permitindo a excreção fecal deste complexo adsorvente-micotoxina (Tapia-Salazar et al., 2010). Desta forma, o processo de adsorção da micotoxina reduz o efeito tóxico para a ave, além de evitar a deposição nos produtos consumíveis (carne e ovos).

Existem no mercado diversos tipos de adsorventes de micotoxinas, que vão desde produtos à base de rochas vulcânicas até ao uso de enzimas. Porém, mesmo entre os adsorventes de composição similar existem diferenças na eficiência de adsorção das micotoxinas.

A adsorção é essencialmente um fenômeno de superfície, sua eficácia é influenciada por diversas características físicas, como tamanho e distribuição dos poros, carga total e sua distribuição. Por outro lado, as propriedades relacionadas às micotoxinas também tem influência no processo de adsorção, como polaridade, forma, tamanho, baixa área superficial e solubilidade, bem como desacoplamento e distribuição de carga (Huwig et al., 2000).

Vários estudos apontam que as argilas e seus derivados (sepiolita, aluminossilicato de sódio e cálcio hidratados, bentonitas e a diatomitas) são os adsorventes de micotoxinas mais versáteis e potentes. Por outro lado, as argilas com composição química semelhantes às vezes mostram atividades de ligação de toxinas completamente diferentes. Esta variação observada está na “ativação da estrutura” do material, portanto alguns processos químico, físico e térmico são necessários para alterar as propriedades físico-químicas e, assim, mudar a capacidade de ligação a diferentes micotoxinas (Van Dyck et al., 2004).

O processo de ativação dos minerais de argila consiste em várias etapas, incluindo moagem, secagem e ativação química. Na prática, as camadas de sílica da argila são reduzidas a partículas menores, aumentando a área de superfície, modificando o tamanho dos poros entre as placas e afetando a distribuição das cargas (Figura 1). Este processo pode ser controlado para fornecer um produto com máxima adsorção de micotoxinas (Van Dyck et al., 2004).

Figura 1. Modificação da estrutura da argila durante um processo de ativação

O mecanismo de adsorção que causa a ligação das micotoxinas à superfície dos minerais depende das cargas encontradas na superfície de ambos. Este mecanismo é comparável à atração de ímãs, no qual os polos opostos se atraem. O material mineral mostrará similar comportamento: áreas com carga positiva na superfície atrairão as regiões com carga negativa da molécula de micotoxina e vice-versa. As cargas idênticas se repelem e, por esse motivo, não resultam em adsorção (Figura 2) (Van Dyck et al., 2004).

Figura 2. Adsorção de micotoxinas em nível molecular

O processo de ativação pode ser controlado a fim de melhorar as propriedades de ligação entre as camadas de sílica e a micotoxina. Os íons que unem as camadas de sílica podem ser modificados, com a separação completa das camadas para aumentar a superfície ativa, tornando a superfície interna disponível. Além disso, alterar o tipo e a quantidade de íons entre as camadas pode criar o espaço para permitir a melhor adsorção das micotoxinas. Esse processo pode modificar as cargas na superfície, o que promove a reatividade para um amplo espectro de micotoxinas (Figura 3) (Van Dyck et al., 2004).

Figura 3. Adsorção de micotoxinas na camada intermediária, bordas e superfícies basais

É nessa polaridade que se baseia o principal modo de ação dos adsorventes minerais, ou seja, a troca de cargas entre o agente sequestrante e a molécula da micotoxina. A inclusão nas dietas do adsorvente depende da capacidade de ligação do adsorvente, além da concentração de micotoxina.

Critérios para escolha de um adsorvente

Para a escolha do adsorvente de micotoxina é importante verificar a eficiência de adsorção das micotoxinas, que leva em consideração a porcentagem de adsorção e dessorção no intestino das aves (Figura 4). Essa avaliação inclui a estabilidade da ligação adsorvente-micotoxina e sua eficácia em faixas de pH diferentes, uma vez que se espera que o produto atue em todo o trato gastrintestinal (Binder, 2007).

Os valores de pH variam ao longo do trato digestivo, desde condições ácidas (pH 3 ou 4) até básicas (pH 6 ou 7), portanto a capacidade de ligação dos produtos pode ser influenciada por mudanças de pH, levando ao risco de que as micotoxinas sejam adsorvidas em uma parte e liberadas (dessorvidas) em outra parte do trato digestivo. Neste contexto, os testes tanto in vitro e in vivo são necessários para comprovar a eficácia dos agentes desintoxicantes de micotoxinas.

Figura 4. Esquema da eficiência de adsorção de micotoxinas

Pensando nisso, os testes in vitro são o início para entendermos a eficiência de adsorção das micotoxinas. Em um trabalho realizado no Brasil (Instituto Samitec) com adsorvente de micotoxinas a base de minerais de argila (bentonita e sepiolita) foi determinado o valor de adsorção para aflatoxina e fumonisina em pH 3 e 6 conforme Tabela 1. Pode-se verificar que existe alto coeficiente de adsorção (>90%) para ambas as micotoxinas em ambos pHs, portanto é o primeiro fator para a escolha de um bom adsorvente de micotoxina.

Tabela 1. Coeficiente de adsorção in vitro em para aflatoxina B1 e fumonisina B1.

  ph 3 pH 6
Aflatoxina B1 (1,0 μg/mL) 99,03 99,39
Fumonisina B1 (2,5 μg/mL) 96,17 93,76

No entanto para determinar a eficácia real do adsorvente para aves é necessário a realização de alguns parâmetros in vivo. É importante ressaltar que em experimentos com adsorventes de micotoxinas são utilizadas dosagens altas, tanto do adsorvente quanto das micotoxinas testadas, para que ocorra o desafio para as aves.

Foi avaliado o efeito da inclusão de 0,5% de adsorvente a base minerais de argila (bentonita e sepiolita) sobre a conversão alimentar e consumo de ração de frangos de corte aos 21 dias. Os resultados demonstram que a adição dos minerais de argilas na ração contaminada com 100 ppm de fumonisina foi eficiente no controle da micotoxina como descritos na Figura 5. A conversão alimentar do grupo adsorvente mais micotoxina foi semelhante ao controle, mostrando a eficácia na adsorção. Lembrando que a fumonisina é uma das micotoxinas mais encontradas no Brasil e que sua ingestão por períodos longos e com baixos níveis, leva a modificações na morfologia do intestino, queda no desempenho produtivo e desuniformidade dos lotes das aves (DILKIN et al., 2004).

Figura 5. Resultados de Conversão Alimentar e Consumo de ração de frangos de corte aos 21 dias intoxicados com fumonisina e com a adição de adsorvente de micotoxina.

A ocorrência simultânea de duas ou mais micotoxinas podem ocasionar um efeito sinérgico, ou seja, a somatória e/ou potencialização dos efeitos tóxicos destas perante os animais. Muitas vezes quantidades não tóxicas de uma determinada micotoxina pode se tornar tóxica agindo concomitantemente com outras micotoxinas (Sobrane Filho, 2014).

Pensando nesse cenário é importante verificar a eficácia do adsorvente quando existe a contaminação por mais que uma micotoxina. No estudo realizado com frangos de corte alimentados com ração contaminada com uma mistura de micotoxinas (aflatoxinas, ocratoxina A, toxina T-2 e citrinina) e usando um adsorvente a base de minerais de argila e hapatoprotetores (bentonita, sepiolita, betaína e silimarina) observa piora na conversão alimentar e no ganho de peso aos 35 dias para o tratamento apenas com a mistura de micotoxinas, sendo este efeito superado pela suplementação do adsorvente (Tabela 2). Os resultados também mostram que a adição do adsorvente não diminuiu o valor nutricional da ração por meio de ligação não específica, que é um parâmetro muito importante para ser analisado.

Tabela 2. Resultados de ganho de peso (g), conversão alimentar e mortalidade de aves aos 35 dias de idade.

  Ganho de Peso Conversão Alimentar Mortalidade
Controle 1564a 1,63a 2
Controle + Adsorvente 1568a 1,60a 4
Controle + Mix Micotoxinas 1455b 1,76b 8
Controle + Mix Micot + Adsorvente 1581a 1,57a 4

Outro indicador é o efeito das micotoxinas em órgãos internos, ocorrendo a mudança no tamanho, como o aumento do fígado, baço e rins e a diminuição da bursa e timo. Somando-se a alterações de tamanho, ocorrem alterações na coloração e textura dos órgãos. Por exemplo, o fígado de aves com aflatoxicose tem como característica a coloração amarelada e friável, com acentuada infiltração de gordura (Santurio, 2000).

No estudo com a mistura de micotoxinas e adição do adsorvente a base minerais de argila e hepatoprotetores foi verificado aumento significativo no grupo com micotoxinas de 40% do peso relativo do fígado em comparação ao controle (2,74 vs. 1,96%); o grupo com a adição do adsorvente teve o mesmo peso relativo do fígado em relação ao controle. Também houve uma clara influência negativa das micotoxinas nos rins. O tratamento incluindo apenas micotoxinas apresentou 0,85% do peso do rim, enquanto o peso do rim para o controle e o adsorvente foi de 0,62 e 0,63%, respectivamente (Tabela 3).

Tabela 3. Pesos relativos em porcentagem de órgãos de frangos de corte aos 35 dias de idade.

  Fígado Rins
Controle 1,96a 0,62a
Controle + Mix Micotoxinas 2,74b 0,85b
Controle + Mix Micotoxinas + Adsorvente 2,02a 0,63a

A avaliação visual do fígado (Figura 6) confirmou que o adsorvente eliminou com sucesso a micotoxicose, devido à ligação das diferentes micotoxinas, o que as torna indisponíveis para absorção através da parede intestinal.

Figura 6. Efeito do adsorvente na saúde do fígado

Uma avaliação importante para os adsorventes é o poder de ligação com as micotoxinas. As informações sobre a atividade do adsorvente com as micotoxinas devem incluir também dados de excreção, para isso é necessário medir os níveis de micotoxinas nas excretas das aves.

Sendo assim, um estudo foi realizado para frangos de corte com a inclusão do adsorvente a base de minerais de argila (bentonita e sepiolita) e a contaminação da ração com uma mistura de micotoxinas (aflatoxina AfB1 e fumonisina FB1).  Como resultado foi verificado diferentes excreções de micotoxinas e, como esperado, nenhuma micotoxina foi encontrada no grupo de controle (Tabela 4). Os resultados demonstram que a concentração de AFB1 e FB1 nas excretas das aves alimentadas com ração contaminada e tratada com adsorvente foi maior do que no grupo micotoxina. Logo, o adsorvente administrado com uma mistura de micotoxinas demonstrou adsorver AFB1 e FB1, limitando assim sua biodisponibilidade para os animais e aumentando a excreção de micotoxinas.

Tabela 4. Concentração relativa de micotoxinas nas fezes após 3 dias de exposição à dieta

  Aflatoxina B1 Fumonisina B1
Controle 0 0
Controle + Micotoxinas 100 100
Controle + Micotoxinas + Adsorvente 126 167

Resumindo

Foram levantados diversos pontos importantes na escolha de um adsorvente de micotoxina. O conhecimento da composição do adsorvente e, sobretudo, seu modo de ação, devem ser verificados cuidadosamente em análises tanto in vitro quanto in vivo. Essas análises devem demonstrar a ação do adsorvente sobre a micotoxina, sendo apresentados dados de adsorção/dessorção, desempenho, morfometria de órgão e excreção de micotoxinas nas fezes.

Fonte: Assessoria
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