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Restrição da União Europeia à carne brasileira pode pressionar crédito, custos e investimentos no agro

Perda de acesso a mercados premium afeta frigoríficos, produtores, logística, rastreabilidade e formação de preços ao consumidor.

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Fotos: Claudio Neves

A possível restrição da União Europeia à carne brasileira tem impacto que vai além da perda de um mercado comprador. Na avaliação do administrador Roberto Simioni, especialista em Engenharia de Produção, Mercado de Capitais e Engenharia Econômica, mestre em Economia e Mercados e PhD em Direito Bancário, Corporativo, Financeiro e de Valores Mobiliários, o efeito se espalha por toda a cadeia do agronegócio, com reflexos sobre crédito rural, investimentos em tecnologia, logística, renda regional e preços dos alimentos.

Administrador, com especialização em Engenharia de Produção, Mercado de Capitais e Engenharia Econômica, com mestrado em Economia e Mercados e PhD em Direito Bancário, Corporativo, Financeiro e de Valores Mobiliários, Roberto Simioni: “O bloqueio das exportações de carne bovina e de outros produtos de origem animal para a UE altera as condições de lucratividade, a estrutura de incentivos à modernização e a dinâmica de formação de preços ao longo de toda a cadeia” – Foto: Divulgação

A carne bovina ocupa posição estratégica na estrutura produtiva nacional. Além de ser um produto final de exportação, sustenta uma rede de demanda por ração, genética, medicamentos veterinários, fertilizantes, transporte, processamento industrial e serviços financeiros. Por isso, a perda de acesso ao mercado europeu, mesmo que parcial e concentrada em cortes de maior valor agregado, reduz a margem disponível para investimentos em rastreabilidade, nutrição animal, melhoramento genético e controle sanitário.

Segundo Simioni, o problema central está no fato de a União Europeia ser um mercado de alta renda, capaz de remunerar melhor produtos com maior exigência técnica. “Isso gera uma subutilização de capital físico e humano especializado, com possível redução de investimentos futuros em tecnologia de rastreabilidade, automação de abate e gestão de custos, já que o retorno esperado desses investimentos cai em cenário de acesso restrito”, expõe.

Impacto sobre frigoríficos e produtores

Foto: Renan Pereira/C.Vale

A restrição cria o que Simioni define como “capacidade ociosa qualificada”. Na prática, frigoríficos que investiram em certificações, rastreabilidade e controle de resíduos antimicrobianos podem perder espaço justamente no mercado que remunera esses diferenciais.

O efeito também chega ao produtor. Cadeias mais integradas, formadas por contratos entre pecuaristas, cooperativas e grandes frigoríficos, dependem de mercados premium para pagar melhor por animais enquadrados em padrões sanitários e de rastreabilidade mais rigorosos. “Do ponto de vista do agronegócio, o bloqueio das exportações de carne bovina e de outros produtos de origem animal para a UE altera as condições de lucratividade, a estrutura de incentivos à modernização e a dinâmica de formação de preços ao longo de toda a cadeia, desde o produtor até a indústria de processamento”, pontua Simioni.

Crédito rural pode ficar mais caro

Foto: Marcelo Casal Jr/Agência Brasil

Outro ponto sensível é o financiamento. O acesso ao crédito rural e às linhas de longo prazo depende da previsibilidade de receita, especialmente em cadeias exportadoras. Com menor perspectiva de entrada em mercados de alta renda, aumenta a percepção de risco das instituições financeiras.

Esse movimento pode encarecer o capital e limitar investimentos em modernização pecuária, automação, bem-estar animal, rastreabilidade e gestão produtiva. A consequência é a perda de competitividade em relação a países que conseguem cumprir exigências sanitárias e manter presença regular no bloco europeu.

Regiões pecuárias ficam mais expostas

Os impactos tendem a ser desiguais no território brasileiro. Estados com forte dependência da pecuária de corte e da indústria frigorífica, como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná, Minas Gerais e áreas do Nordeste, podem sentir os efeitos sobre emprego, renda municipal, logística e serviços ligados ao campo. “Do ponto de vista regional, o agronegócio da carne concentra efeitos fortemente desiguais sobre o interior do país, especialmente em regiões pecuaristas de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná, Minas Gerais e partes do Nordeste”, frisa Simioni.

Exigências sanitárias também podem induzir modernização

Foto: Divulgação/Porto de Santos

Apesar dos custos, o especialista avalia que as exigências europeias sobre antimicrobianos, rastreabilidade e controle sanitário também podem funcionar como pressão para modernizar a cadeia. O problema é que esse processo tende a favorecer empresas com maior capacidade financeira.

Segmentos mais estruturados conseguem absorver custos regulatórios, investir em tecnologia e manter padrões exigidos por mercados premium. Já produtores e frigoríficos menos capitalizados podem ficar fora desse processo, ampliando a concentração do setor. “A exigência europeia de maior controle sobre o uso de antimicrobianos na pecuária, bem como de rastreabilidade mais aprimorada, impõe custos adicionais ao produtor brasileiro, mas, ao mesmo tempo, pode funcionar como um estímulo a uma modernização de qualidade da cadeia”, salienta.

Oriente Médio adiciona pressão de custos

A análise ganha outra camada com a instabilidade no Oriente Médio. Segundo Simioni, um conflito envolvendo o Irã e a região do Golfo Pérsico poderia elevar petróleo, diesel, gás natural, nafta e fertilizantes nitrogenados, insumos diretamente ligados ao custo de produção agropecuária.

Esse efeito atinge a pecuária de forma indireta, mas relevante. O encarecimento de fertilizantes pressiona milho e soja, base da alimentação animal. Ao mesmo tempo, a alta do diesel eleva o frete do gado, da ração, da carne resfriada e dos produtos industrializados. “Essa ‘pinça econômica’ esmaga a lucratividade e pode desestimular investimentos futuros em automação e bem-estar animal, forçando o setor a uma escolha difícil entre manter a modernização sob prejuízo ou regredir para modelos produtivos menos sofisticados e focados apenas em volume de commodity”, menciona.

Inflação de alimentos

Embora a restrição europeia pudesse, em tese, aumentar a oferta de cortes no mercado interno, Simioni avalia que esse efeito pode ser neutralizado pelo aumento dos custos de produção, embalagem, energia e transporte. “A carne torna-se mais cara na origem devido aos custos operacionais, enquanto os frigoríficos tentam desovar estoques de alto valor no mercado interno em um cenário de compressão de lucro”, destaca.

O impacto também pode alcançar outras proteínas. Se a carne bovina sobe, consumidores tendem a migrar para frango e suíno. No entanto, essas cadeias também dependem de milho, soja, fertilizantes, energia e diesel, o que limita o efeito de substituição no varejo. “O aumento dos preços da proteína bovina força um efeito de substituição para o frango e o porco; entretanto, como essas cadeias também são dependentes de grãos impactados pelos fertilizantes e do transporte movido a diesel, elas sofrem a mesma pressão de alta, gerando uma inflação generalizada de alimentos”, enfatiza.

Teste para o modelo exportador

Para Simioni, a discussão sobre a carne brasileira na União Europeia deixou de ser apenas sanitária. O episódio revela a crescente dependência entre acesso a mercados, padrões regulatórios, capacidade de compliance, crédito, custos globais e competitividade. “O resultado é um processo de seleção rigoroso e, por vezes, excludente: os grandes players integrados, com maior fôlego financeiro para internalizar custos regulatórios e absorver choques de insumos, tendem a se fortalecer, enquanto polos regionais dependentes da pecuária podem enfrentar uma redução na força de arrasto econômico”, ressalta.

Na avaliação do especialista, a questão coloca em teste a capacidade do agronegócio brasileiro de competir em cadeias globais de maior valor agregado sem perder margem, investimento e presença em mercados de alta renda.

Fonte: O Presente Rural

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Fundesa-RS fecha semestre com R$ 196,3 milhões em caixa e amplia investimentos em sanidade animal

Fundo aprovou as contas do primeiro semestre, destinou recursos para rastreabilidade bovina e indenizou produtores por abates sanitários.

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Foto: Divulgação

O Conselho Deliberativo do Fundo de Desenvolvimento e Defesa Sanitária Animal do RS aprovou, em assembleia realizada na última quarta-feira (15), a prestação de contas do primeiro semestre do ano. O balancete consolidado indica receitas de quase R$ 21 milhões e o saldo disponível de R$ 196.3 milhões. As saídas, que correspondem ao pagamento de indenizações e investimentos em infraestrutura, capacitação, equipamentos e insumos, foram de  R$ 6,38 milhões.

Só as indenizações referentes à pecuária leiteira totalizaram R$ 1,9 milhão nos primeiros seis meses do ano. O maior valor foi registrado no segundo trimestre, com R$ 1,34 milhão.  O pagamento de indenizações é referente ao abate sanitário de bovinos em atendimento ao Programa Nacional de Controle e Erradicação de Brucelose e Tuberculose.

Também foram homologadas liberações de recursos para aquisição de equipamentos de identificação eletrônica (brincos e bastão de leitura), que integram o Projeto Piloto de rastreabilidade bovina no estado. O valor aportado foi de R$ 86 mil.

Desafios para o segundo semestre

Durante a assembleia, os conselheiros debateram sobre os impactos da medida da União Europeia para o setor de proteína animal do estado. O presidente do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos, José Roberto Goulart, pontuou que os compradores europeus estão correndo para comprar toda a carne bovina brasileira antes do prazo se esgotar em 3 de setembro.

O presidente da Associação Gaúcha de Avicultura, José Eduardo dos Santos, destacou o investimento de R$ 183 mil  do Fundesa para o evento Conbrasfran, que será realizado em novembro em Gramado. Segundo Santos, será uma oportunidade para debater esse e outros temas importantes para a avicultura que vem enfrentando muitos desafios nos últimos anos.

Os conselheiros trataram ainda sobre a programação do setor durante a Expointer, que erá como base a Casa do Fundesa.

Fonte: Assessoria Fundesa-RS
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Tecnologia acelera análise genética e desenvolvimento de novas cultivares de trigo

Plataforma reduz de dias para cerca de 12 horas o preparo de amostras de DNA e amplia a identificação de genes ligados à produtividade e à resistência a doenças.

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Foto: Paulo Kurtz

Uma nova plataforma de genotipagem automatiza o preparo de amostras de DNA na Embrapa Trigo (RS) e amplia a capacidade de análise genética da cultura do trigo. A tecnologia reduz de dias para cerca de 12 horas o tempo necessário para essa etapa, reduzindo os custos da pesquisa e acelerando a identificação de marcadores genéticos ligados à produtividade e à resistência a doenças.

Esse avanço foi possível graças à evolução do processo de genotipagem, técnica que permite identificar variações no DNA de um indivíduo. “Em duas décadas, o protocolo foi modernizado, com a substituição das análises manuais em gel por sistemas de eletroforese, que usam campo elétrico para separar moléculas e, mais recentemente, pelo sequenciamento, que permite a genotipagem em larga escala e com alta precisão”, conta o laboratorista Jordalan Muniz.

O sequenciamento de segunda geração foi incorporado à rotina do Laboratório de Biotecnologia da Embrapa Trigo com a chegada de dois novos equipamentos: o ION Chef, responsável pelo preparo das amostras, e o ION GeneStudio S5 Plus, que realiza o sequenciamento. “Podemos dizer que o trabalho de um ano agora pode ser realizado em apenas uma semana. É um ganho de eficiência que reduz custos e acelera a obtenção de dados moleculares em apoio ao programa de melhoramento genético do trigo na Embrapa”, explica o pesquisador Luciano Consoli.

Potencial de uso da plataforma

O genoma do trigo é 5 vezes maior do que o genoma humano. Com o sequenciamento do genoma dessa espécie em 2018, a partir de um consórcio internacional de instituições de pesquisa, foi possível avançar em novas ferramentas de apoio ao trabalho da biotecnologia.

Atualmente, a equipe de Genética Molecular da Embrapa Trigo dispõe de informações de 5 mil marcadores moleculares para o trigo e de 3.500 marcadores para cevada compatíveis com essa plataforma. Segundo a laboratorista Tatiane Crespi, a identificação de marcadores moleculares, associados a genes de interesse, contribui para a seleção de linhagens com características agronômicas desejáveis.

Esse conhecimento resultou no desenvolvimento de um painel de marcadores para serem utilizados na cultura do trigo. Com o uso da plataforma de sequenciamento de segunda geração, é possível fazer a análise simultânea de 384 amostras com 202 marcadores, gerando aproximadamente 80 mil data points.

Além disso, a plataforma de genotipagem possibilita avaliar regiões específicas nas sequências de DNA. “O primeiro resultado do uso dessa tecnologia para a geração de dados moleculares de genotipagem é o aumento da eficiência do processo de geração de novas cultivares e na identificação de alelos ou partes de genes de interesse para os programas de melhoramento. Se antes tínhamos uma representação cartográfica, agora temos algo mais detalhado, com ruas e placas de sinalização”, afirma Consoli.

Avanços para o melhoramento genético

As cultivares ou linhagens de trigo analisadas, que possuem os marcadores moleculares de interesse, poderão ser utilizadas nos blocos de cruzamentos dos programas de melhoramento. No caso do trigo, essas análises já vêm sendo conduzidas, como no trabalho para ampliar a base da resistência genética às doenças, a exemplo da brusone, uma das frentes de trabalho consolidadas com o uso de análises moleculares e seleção assistida na Embrapa Trigo:

“Identificada, numa determinada cultivar, a presença de um marcador molecular associado à resistência, como por exemplo à brusone, suas plantas podem ser incorporadas ao programa de melhoramento para a realização de cruzamentos”, pontua a pesquisadora Gisele Torres. Porém, ela lembra que, no decorrer das avaliações a campo, é fundamental analisar a reação das plantas em condições de exposição ao fungo causador da doença:

Foto: Cleverson Beje

“A simples presença de um determinado marcador, mesmo quando fragmentos do DNA são conhecidos por conferirem resistência, não é suficiente para que as plantas que o possuem sejam resistentes. O trabalho da biotecnologia é complementar ao trabalho do melhoramento. Assim, para verificar a efetividade de um determinado marcador molecular, é essencial que os melhoristas avaliem a reação das plantas frente ao patógeno a campo”, complementa Torres.

Outras potencialidades de uso prático da plataforma de sequenciamento de segunda geração estão sendo exploradas pela equipe. Em solos, por exemplo, é possível fazer a extração do DNA de uma amostra para identificar os microrganismos que podem beneficiar o cultivo do trigo numa determinada região. Em outras palavras, identifica-se um perfil molecular daquele solo, o qual será, então, correlacionado com fatores de produção.

No desafio de desenvolver trigos para celíacos, é possível caracterizar marcadores moleculares associados a genes codificadores de proteínas relacionadas à resposta imunológica ao glúten. Os pesquisadores pretendem, ainda, explorar outras possibilidades de análises em expressão gênica por RNAseq, em sequenciamento de pequenos genomas (microrganismos), entre outras.

Consoli destaca o entusiasmo com o potencial de uso da ferramenta: “Antigamente utilizávamos uma lupa, passávamos para o microscópio e evoluímos para ver o que está dentro das plantas. Agora, conseguimos identificar todo tipo de variação presente nos fragmentos de DNA da planta que estão associados à defesa e ao uso de recursos do ambiente”.

Fonte: Assessoria Embrapa Trigo
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Tarifaço dos EUA deve ter impacto limitado na balança comercial brasileira

Especialistas avaliam que sobretaxas atingem principalmente produtos industrializados, enquanto commodities como soja, carnes e café ficaram fora das medidas.

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Fotos: Claudio Neves

O tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros deve provocar efeitos limitados sobre a balança comercial do Brasil. No entanto, setores da indústria sentirão o impacto, embora as medidas do governo Donald Trump afetem apenas 18% das exportações nacionais para o mercado estadunidense.

Foto: Cláudio Neves

Segundo especialistas, as áreas que sofrerão mais com perdas de competitividade são segmentos que exportam bastante aos Estados Unidos e têm dificuldades para remanejar mercados. Entre os setores afetados, estão máquinas, aço, alumínio, calçados e automóveis.

No primeiro semestre de 2026, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), o Brasil importou US$ 1,5 bilhão do mercado estadunidense a mais do que exportou. O déficit do Brasil e superávit para os Estados Unidos mantém-se, apesar do encolhimento do comércio bilateral desde o ano passado.

Comércio recua

As trocas comerciais entre Brasil e Estados Unidos somaram US$ 36,4 bilhões no primeiro semestre, queda de 12,8% em relação ao mesmo período do ano passado.

Foto: Marcelo Casal Jr/Agência Brasil

As exportações brasileiras recuaram 13%, para US$ 17,4 bilhões, enquanto as importações de produtos americanos caíram 12,5%, totalizando US$ 19 bilhões. Com isso, o Brasil encerrou o período com déficit comercial de US$ 1,5 bilhão.

Em junho, as exportações cresceram 3,7%, alcançando US$ 3,47 bilhões, mas o resultado foi sustentado pela alta de 11% nos preços médios. O volume embarcado caiu 6,6%.

Efeito concentrado

Pesquisadora associada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Lia Valls afirma que o tarifaço dificilmente alterará o desempenho agregado da balança comercial brasileira, já que os Estados Unidos respondem hoje por uma parcela menor das exportações nacionais. “Alterar o saldo da balança, em termos macroeconômicos, é pouco provável. O nosso grande mercado realmente é a Ásia, principalmente a China. A participação das exportações para os Estados Unidos caiu para cerca de 9,4%”, diz.

Segundo ela, os efeitos devem ser sentidos principalmente por empresas e setores industriais mais dependentes do mercado americano. “Você pode ter efeitos mais microeconômicos sobre empresas, principalmente dos setores de máquinas, equipamentos, madeira e calçados”, enumera.

O presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, também descarta um efeito relevante sobre o superávit comercial. “O superávit comercial brasileiro é derivado exclusivamente das commodities [bens primários com cotação internacional]. O tarifaço poupou justamente commodities com as quais o Brasil compete com os Estados Unidos, como soja, suco de laranja e carnes”, explica.

Indústria perde

Foto: Jonathan Campos

Para José Augusto de Castro, o maior prejuízo será para a indústria nacional, responsável pela produção de bens de maior valor agregado. “Nós temos um superávit comercial grande, mas um déficit comercial de manufaturados gigantesco. Esse déficit é que preocupa, porque é o setor manufatureiro que gera emprego no Brasil.”

Castro afirma que as novas barreiras tendem a favorecer concorrentes internacionais. “Como a sobretaxa atingiu diretamente os produtos manufaturados, abre mercados para outros países que antes não exportavam esses produtos e agora passam a ocupar esse espaço.”

Motivações políticas

Na avaliação de Lia Valls, a escalada das tarifas deixou de seguir critérios econômicos e passou a incorporar argumentos políticos. Principalmente porque, diferentemente da maioria dos países, o Brasil tem déficit comercial com os Estados Unidos. “Quando ele [Trump] aumentou para 40%, os argumentos realmente eram muito mais de caráter político. Não tinha muito argumento econômico nessa história”, diz.

Segundo a economista, temas como decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), a regulamentação das plataformas digitais, o Pix e políticas ambientais passaram a ser utilizados como justificativas para ampliar as sanções comerciais.

Retaliação divide

O governo federal estuda recorrer à Lei da Reciprocidade Econômica para responder ao tarifaço americano. Os especialistas, porém, veem poucos benefícios em uma retaliação.

Lia Valls avalia que o Brasil não dispõe de capacidade para impor perdas relevantes aos Estados Unidos. “O problema é que a gente não tem capacidade de retaliação contra os Estados Unidos. Se você não consegue causar um dano efetivo ao outro, acaba revertendo contra você. O ganho seria pequeno. O caminho é denunciar a medida e levar o caso à Organização Mundial do Comércio”, sugere.

José Augusto de Castro também considera que uma resposta tarifária tende a ser ineficaz. “Não acredito em retaliação. O comércio internacional é feito de negociações, não de retaliações. O Brasil não tem cacife para retaliar os Estados Unidos. Temos tudo a perder e nada a ganhar. Na teoria, a reciprocidade parece adequada, mas, na prática, é muito difícil implementá-la”, adverte.

Produtos afetados

As tarifas foram impostas com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, instrumento utilizado pelos Estados Unidos para aplicar medidas comerciais unilaterais.

Embora a alíquota-padrão seja 25%, em 24% dos produtos atingidos, chega a 50%. Isso porque o tarifaço, nesses casos, somou-se a tarifas impostas anteriormente pelos Estados Unidos.

Entre os setores mais afetados estão aço, alumínio, automóveis, máquinas, equipamentos, calçados e produtos de madeira. Já aeronaves, componentes aeroespaciais, petróleo, soja, café, carne bovina e suco de laranja ficaram de fora das sobretaxas.

Fonte: Agência Brasil
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