Bovinos / Grãos / Máquinas
Reforço no combate à brucelose e tuberculose bovina reduz focos no Paraná em 2025
Ações de vigilância, diagnóstico, vacinação e educação sanitária resultaram em redução de 20% nos casos de brucelose e consolidam a estratégia do Paraná para proteger a pecuária, a saúde pública e a competitividade do setor agropecuário.

O Governo do Estado, por meio da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), manteve em 2025 uma atuação contínua e estratégica no campo da sanidade e qualidade das práticas agropecuárias no Estado. Entre as diversas ações realizadas, como orientações diretas ao setor produtivo animal e vegetal, fiscalização do transporte de cargas vivas, produtos, subprodutos, insumos, controle de defensivos agrícolas, investigação e controle de zoonoses, entre outras, destacou-se o trabalho de prevenção, controle e combate à brucelose e à tuberculose bovina.
Essas doenças têm grande relevância para as cadeias produtivas do Estado, especialmente para a pecuária leiteira, a segunda maior do país. A Adapar atuou de forma prioritária em relação a elas, reforçando o compromisso do Paraná com a segurança sanitária, a sustentabilidade e a competitividade do setor agropecuário.
As ações de prevenção e controle das enfermidades são conduzidas pela Divisão de Controle e Erradicação de Brucelose e Tuberculose Bovina (DIBT), vinculada ao Departamento de Saúde Animal (Desa).

Foto: Gisele Rosso
O Diretor de Defesa Agropecuária da Adapar, Renato Rezende Young Blood, destaca a importância dessas iniciativas para evitar problemas sanitários e garantir a saúde dos rebanhos no Estado. “A Adapar vem fazendo um excelente trabalho focado em ações preventivas e de educação sanitária, em áreas prioritárias com maior risco ou maior incidência das doenças, conseguindo assim melhores resultados, trazendo segurança para o consumo dos alimentos e para a saúde da população”, pondera o gestor.
Segundo dados da DIBT, os números parciais da ocorrência de focos das doenças no Paraná até novembro do ano passado são positivos. Houve uma queda relevante de 20% do número de focos de brucelose, considerando o mesmo período de 2024. Mesmo com menor expressão, o número de focos de tuberculose bovina caiu em 0,5% se comparados com novembro de 2024.
O chefe do Desa, Rafael Gonçalves Dias, explica que a redução no número de focos representa um avanço importante para erradicar as doenças, mas as ações devem ser contínuas. “Durante o ano de 2024 foi registrado um alto volume de focos, e, embora em 2025 as ações de vigilância, novas ferramentas para o diagnóstico, educação sanitária e fiscalização tenham contribuído para a diminuição dos casos, a brucelose e a tuberculose continuam ocorrendo em diversas regiões do Estado, o que exige atenção e trabalho contínuo em relação ao controle das duas doenças,” afirma.
Antropozoonoses
Ambas as doenças são de origem bacteriana e podem ser transmitidas aos seres humanos, o que as classifica como antropozoonoses. A

Foto: Breno Lobato
brucelose tem seu nome ligado à bactéria Brucella abortus, o agente causador da condição que pode afetar tanto humanos, quanto diversas espécies de animais. A brucelose causa importantes prejuízos reprodutivos, produtivos e econômicos na bovinocultura.
No aspecto reprodutivo, provoca abortos, retenção de placenta, nascimento de bezerros fracos e queda da fertilidade de fêmeas e machos, comprometendo o desempenho do rebanho.
Do ponto de vista produtivo, reduz a produção de leite, aumenta o intervalo entre partos e diminui o ganho de peso dos bezerros, afetando diretamente a eficiência da propriedade.
Esses problemas resultam em impactos econômicos significativos, com perdas por descarte de animais, reposição de matrizes, queda no valor genético do rebanho, custos sanitários adicionais e possíveis restrições ao comércio, comprometendo a competitividade da produção bovina.

Foto: Arnaldo Alves/AEN
Enquanto isso, a tuberculose bovina é uma doença bacteriana crônica, que pode afetar ruminantes, suínos, aves, animais silvestres e humanos. A bactéria responsável pela enfermidade é a Mycobacterium bovis. Assim como a brucelose, a tuberculose também pode resultar em perdas econômicas significativas e é considerada uma das zoonoses mais importantes para a saúde pública.
Entre os animais, a brucelose é disseminada principalmente pelo contato com secreções de fêmeas infectadas, como restos placentários, fetos abortados e fluidos uterinos, além do contato direto entre reprodutores. Já a tuberculose bovina se transmite, sobretudo, pela inalação de aerossóis em ambientes fechados, quando animais infectados eliminam o agente ao tossir ou respirar.
Para os humanos, ambas as doenças podem ser transmitidas pelo contato direto com animais doentes ou seus materiais biológicos, mas a principal via é o consumo de produtos de origem animal não tratados, especialmente leite cru e derivados não pasteurizados, que representam o maior risco sanitário. Essas formas de transmissão reforçam a importância da vigilância, do manejo adequado e da adoção de práticas seguras de consumo.
Segundo o representante do Desa, as zoonoses têm alto impacto coletivo, reduzem a eficiência produtiva do rebanho e afetam diretamente

Foto: Divulgação
a reputação do Estado, do município e da propriedade com relação à comercialização dos seus produtos, “Há impactos diretos produtividade, cerca de 15 a 20% da redução da produção de leite, perda de peso, infertilidade, abortamento e descarte de animais precoces. Além disso, também existem os impactos indiretos, como a perda de mercados internacionais, desvalorização dos animais e da propriedade, redução da competitividade, além da questão do risco da saúde pública”, explica.
O médico veterinário também falou sobre a atuação contínua da Adapar, responsável pela gestão do Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e Tuberculose bovinas. “O pilar do programa está na realização da vigilância epidemiológica por meio dos testes dos animais e da vacinação contra a brucelose. Todo produtor e criador de gado leiteiro deve realizar os testes do rebanho pelo menos uma vez por ano e a vacinação é obrigatória para todos os animais, independente da aptidão, tanto de corte quanto de leite, ou misto”, detalha.
Prevenção
A vacinação contra a brucelose bovina é obrigatória em bezerras de 3 a 8 meses de idade. As propriedades que apresentam casos confirmados de brucelose ou tuberculose devem passar pelo saneamento completo, com a realização de testes em todo o rebanho para identificar e eliminar possíveis animais portadores, garantindo o controle da doença e a segurança sanitária da propriedade.
Os testes reagentes devem ser imediatamente comunicados à Adapar. Não existe vacina para a tuberculose, portanto o controle da doença é realizado a partir da detecção e eliminação dos animais positivos. É importante a aquisição de animais com exames negativos.
Ações desenvolvidas

Foto: Arnaldo Alves
Em 2025, a Adapar realizou ações em áreas estratégicas. Uma das ações foi realizada na região de Cornélio Procópio, no Norte do Paraná. Foram fiscalizadas 47 propriedades, com um total de 3.893 animais vistoriados. A ação serviu como piloto para replicação em municípios que apresentam baixo índice de vacinação.
Entre as ações do programa, se destacam o controle da comercialização dos insumos utilizados no diagnóstico da brucelose e da tuberculose, bem como da comercialização da vacina contra a brucelose; a habilitação e o cadastramento de médicos-veterinários autônomos e privados para a realização dos exames e da vacinação; e a certificação de propriedades livres de brucelose e tuberculose.
Em 2025, foram publicadas as portarias 96 e 276, que regulamentam uma alternativa complementar para o diagnóstico de ambas as doenças: a realização do Elisa (Enzyme-Linked Immunosorbent Assay). As portarias instituem no Estado mais uma opção de diagnóstico, contribuindo para a identificação de animais positivos e para o fortalecimento das ações de vigilância nas propriedades.

Foto: Arnaldo Alves
A médica-veterinária e chefe da DIBT, Marta Cristina Diniz de Oliveira Freitas, comenta sobre como a Adapar auxilia na capacitação de médicos-veterinários para a realização do teste em todo o Estado. “A divisão priorizou ações de educação sanitária, principalmente no que se refere à atualização dos médicos-veterinários habilitados quanto ao correto uso do teste de Elisa para casos de focos em saneamento de tuberculose bovina. Existem critérios a serem considerados para o uso do teste, capaz de detectar os animais que não reagiram no teste padrão ouro, que é o teste de tuberculinização”, explica.
Ela ainda comenta sobre o principal motivo da realização do teste. “O objetivo do uso desse teste é conseguir detectar os animais que já estão doentes há tanto tempo que não reagem mais no teste convencional. Então, a tendência é que nós consigamos detectar animais que estão nessa situação e, por fim, diminuir o tempo de saneamento da propriedade”, expõe a médica-veterinária.
A vigilância para detecção da tuberculose bovina foi ampliada para os rebanhos de corte, com a identificação do Mycobacterium bovis por meio de PCR – sigla em inglês para Reação em Cadeia da Polimerase, um método de laboratório que cria múltiplas cópias de um trecho de DNA para estudo –, em lesões observadas no abate.

Foto: José Adair Gomercindo
Esse diagnóstico está sendo realizado no laboratório da Adapar, o Centro de Diagnóstico Marcos Enriette (CDME). Além disso, a divisão vem implementando melhorias nos sistemas internos da agência, aperfeiçoando o software utilizado para o gerenciamento e o acompanhamento do programa, tornando as ações mais eficientes e integradas.
O programa também tem como objetivo o investimento em ações de educação sanitária, com foco no conceito de Saúde Única, que integra as saúdes animal, humana e ambiental. Ao longo do ano passado, foram realizadas palestras e atividades de capacitação em diversos escritórios regionais da Adapar, incluindo Irati e Laranjeiras do Sul, na região Centro-Sul; Maringá e Umuarama, no Noroeste; Cascavel e Toledo, no Oeste; e Pato Branco, no Sudoeste do Estado. Essas ações reforçam a importância da prevenção e do manejo sanitário adequado junto a produtores rurais e profissionais das áreas envolvidas.

Bovinos / Grãos / Máquinas
Brasil e Uruguai unem esforços para padronizar diagnóstico de resistência de carrapatos
Capacitação no Rio Grande do Sul integra projeto global da FAO e reforça o papel do IPVDF como referência regional em sanidade animal.

Técnicos do laboratório oficial de Medicina Veterinária do Ministério da Agricultura do Uruguai participaram, nesta semana, de uma capacitação prática em bioensaios no Centro Estadual de Diagnóstico e Pesquisa em Saúde Animal Desidério Finamor (IPVDF), no Rio Grande do Sul. O treinamento é voltado ao diagnóstico de resistência de carrapatos a produtos carrapaticidas, um desafio crescente para a pecuária da América do Sul.
A iniciativa integra um projeto multicêntrico global da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), que tem como objetivo a harmonização dos métodos de diagnóstico da resistência de carrapatos. O programa prevê ações presenciais de capacitação, intercâmbio técnico entre países e validação conjunta de metodologias laboratoriais.
Segundo o pesquisador Guilherme Klafke, do IPVDF, o trabalho busca consolidar o laboratório gaúcho como centro de referência regional na área. “A intenção é padronizar protocolos. Queremos que os laboratórios da América do Sul, como os do Uruguai, da Argentina e da Colômbia, trabalhem da mesma maneira, com resultados comparáveis e confiáveis”, afirma.
A preocupação é compartilhada pelos dois países. Assim como ocorre no Rio Grande do Sul, o Uruguai já registra casos relevantes de resistência dos carrapatos aos produtos utilizados no controle do parasita. “No Norte do país, praticamente toda a população de carrapatos é multirresistente. Por outro lado, temos uma zona livre de carrapatos no Sul do Uruguai, que precisamos proteger”, explica Diana Martinez, do Ministério da Agricultura uruguaio.
De acordo com a técnica, o trabalho no país é conduzido em áreas de controle e erradicação, com foco na proteção sanitária, no uso correto dos produtos carrapaticidas e na mitigação de problemas relacionados a resíduos, garantindo a segurança alimentar e a sustentabilidade da produção pecuária.
O Uruguai disponibiliza aos produtores rurais, há cerca de quatro anos, o biocarrapaticidograma, teste que avalia a resistência dos carrapatos aos princípios ativos disponíveis no mercado. No Rio Grande do Sul, esse serviço é oferecido gratuitamente há quatro décadas pela Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), por meio do IPVDF, reforçando a longa trajetória do Estado na sanidade animal e no apoio técnico aos produtores.
Detalhes sobre o teste, e como solicitá-lo, estão disponíveis na Carta de Serviços do Governo do Rio Grande do Sul.
Bovinos / Grãos / Máquinas
Santa Catarina sanciona lei que protege produtores catarinenses e proíbe reconstituição de leite em pó importado
Nova lei busca equilíbrio de mercado e fortalecimento da cadeia leiteira no estado.

O governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, sancionou na última quarta-feira (21) a lei que proíbe a reconstituição e comercialização de leite em pó importado como leite fluido em Santa Catarina. A medida reforça as políticas públicas do Governo do Estado para fortalecimento da cadeia produtiva leiteira.
O projeto de Lei é de autoria do deputado estadual Oscar Gutz, com proposta apensada do deputado Altair Silva. A nova legislação impede que o leite em pó estrangeiro seja reconstituído para venda como leite líquido em Santa Catarina.

Nova legislação impede que o leite em pó estrangeiro seja reconstituído para venda como leite líquido em Santa Catarina – Foto: Guilherme Bento/SECOM
A lei visa manter mais equilíbrio ao mercado, fortalecer a economia regional, produção local e contribuir para a manutenção no meio rural. “A medida fortalece a cadeia produtiva do leite, combate a concorrência desleal e garante mais segurança econômica para milhares de famílias do meio rural. É com firmeza que Santa Catarina irá garantir mais proteção da cadeia leiteira”, declarou o governador Jorginho Mello.
Santa Catarina é o 4º maior produtor de leite do país, são mais de 24,5 mil produtores. Em 2024, o Estado alcançou 3,3 bilhões de litros produzidos, o equivalente a 9% da produção nacional. “Essa medida irá incentivar o consumo de leite produzido pelos produtores e laticínios de Santa Catarina. É mais uma ação importante para ampliarmos as condições de permanência na atividade e valorizar toda a cadeia produtiva”, afirmou o secretário de Estado da Agricultura e Pecuária em exercício, Admir Dalla Cort, que representou o secretário Carlos Chiodini no ato.
Incentivos ao setor
Com o objetivo de assegurar a competitividade do setor leiteiro em Santa Catarina, os produtores de leite podem contar com programas do Governo do Estado. O Programa Leite Bom SC compreende linhas para subsidiar juros de empréstimos bancários e conceder financiamentos, sem juros, para investimentos em processos produtivos. Esse programa também contempla a execução medidas como incentivos tributários à indústria leiteira catarinense de maneira escalonada e a suspensão de benefícios para a importação de leite e derivados.
A cadeia leiteira também conta com o Programa Terra Boa, para melhoria das pastagens e aumentar a produtividade. Além disso, o leite produzido em Santa Catarina também segue rigorosos controles de qualidade, inspeção e rastreabilidade.
Bovinos / Grãos / Máquinas
Preços em queda e importações pressionam leite em 2025 com perspectivas de recuperação gradual em 2026
gravidade do cenário desencadeou manifestações, mobilização de entidades representativas e sucessivas articulações políticas em busca de respostas rápidas por parte do governo federal.

A cadeia leiteira brasileira atravessou, em 2025, uma das fases mais críticas de sua história, caracterizada por preços baixos, forte aumento das importações e prejuízos sistemáticos para produtores em todas as regiões do País. A gravidade do cenário desencadeou manifestações, mobilização de entidades representativas e sucessivas articulações políticas em busca de respostas rápidas por parte do governo federal.
De acordo com o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite), Geraldo Borges, a crise de 2025 tem raízes diretas no comportamento do mercado nos anos anteriores. “A cadeia leiteira teve uma consequência do que aconteceu no mercado no segundo semestre de 2024 e no primeiro trimestre de 2025, período em que houve um aumento expressivo na produção influenciado pela melhora temporária de preços”, explica.
Borges lembra que o setor já havia enfrentado forte queda de preços em 2023, atingindo tanto pequenos quanto grandes produtores e cooperativas. Com a recuperação do valor pago ao produtor no ano seguinte, a produção voltou a crescer. “Houve um incremento próximo de 8% a 9% no segundo semestre de 2024 em relação ao mesmo período de 2023, ampliando a oferta e pressionando novamente o mercado no início de 2025”, pontua.
Sete meses de quedas consecutivas

Presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite), Geraldo Borges: “O mercado está mostrando uma crise maior que a de 2023, com preços mais estrangulados, produtores no Brasil inteiro trabalhando com prejuízo” – Foto: Divulgação/Abraleite
A partir de abril de 2025, o preço do leite ao produtor iniciou uma trajetória de retração contínua. “O mercado está mostrando uma crise maior que a de 2023, com preços mais estrangulados, produtores no Brasil inteiro trabalhando com prejuízo”, reforça Borges, enfatizando que a situação é especialmente grave para os pequenos produtores. “Eles não têm condições de continuar na atividade, com o preço que está sendo praticado principalmente nos últimos meses”, aponta.
Dados do Cepea reforçam a dimensão do problema. A chamada Média Brasil registrou R$ 2,29 por litro em outubro de 2025, queda de 5,9% em relação a setembro. Os valores pagos aos produtores variaram entre os estados monitorados: no Rio Grande do Sul, R$ 2,21; em Santa Catarina, R$ 2,20; no Paraná, R$ 2,29; em São Paulo, R$ 2,41; e em Minas Gerais, R$ 2,38. Na avaliação da Abraleite, esses patamares inviabilizam a atividade para grande parte das propriedades diante dos custos operacionais elevados.
Cobrança por respostas imediatas
O agravamento da crise levou produtores, cooperativas e indústrias a se mobilizarem com mais força ao longo de 2025. Audiências públicas, reuniões com parlamentares e articulação entre entidades setoriais passaram a fazer parte da rotina. “É por isso que a gente está vendo essa onda de manifestações, entidades do setor como a Abraleite lutando junto com parlamentares, cobrando o governo federal por medidas que atenuem essa crise”, destaca Borges.
As reivindicações incluem medidas emergenciais para evitar o colapso financeiro de produtores, cooperativas e laticínios, mas também ações estruturantes que corrijam distorções históricas da cadeia. Para o presidente da Abraleite, o Brasil precisa de uma política de longo prazo. “Estamos cobrando medidas estruturantes para que a cadeia seja mais bem estruturada e mais competitiva, com capacidade de produzir a custos menores, condição essencial para evitar recorrência de crises”, salienta.
Estruturação do setor

Foto: Fernando Dias
Diante do aumento expressivo das importações de lácteos e da perda de competitividade interna, a Abraleite levou ao governo federal um conjunto de solicitações. Borges relata que sugeriu medidas imediatas para conter a queda de preços ao produtor e uma intervenção temporária nas importações, ao mesmo tempo em que se investe na reorganização da cadeia.
Ele reforça ainda a necessidade de reativar o grupo interministerial criado em 2023 para tratar da estruturação do setor. O colegiado, segundo o dirigente, deixou de funcionar em 2024 e 2025. “Eu cobrei que os ministros reativem o grupo e que trabalhem tanto nos períodos de baixa de preço, como também nos períodos em que os preços estiverem mais estabilizados”, afirma.
Para Borges, a função do grupo não é combater crises pontuais, mas desenhar uma política de médio e longo prazo. “Temos que criar medidas estruturais para que não aconteçam novas crises como esta que está acontecendo, garantindo continuidade operacional e planejamento permanente,” ressalta.
As causas profundas da crise
O presidente da Abraleite destaca que os problemas enfrentados em 2025 decorrem de um conjunto de fatores acumulados ao longo dos últimos anos. O primeiro deles é o alto custo de produção, agravado pelo chamado custo Brasil. Além disso, a atividade é extremamente pulverizada. “Produzimos leite em 98,8% dos municípios”, frisa, reforçando que esse modelo, baseado majoritariamente em pequenos produtores, opera com baixa produtividade e pouca assistência técnica e gerencial.
A estrutura industrial também enfrenta gargalos. Borges cita problemas de ociosidade em laticínios e custos elevados de captação, consequência direta da dispersão geográfica da produção. Ele compara o Brasil a grandes players internacionais. “Nos Estados Unidos, a atividade é concentrada em regiões específicas, o que reduz custos logísticos; na Nova Zelândia, o território reduzido facilita a coleta e a inserção no mercado mundial. Já no Brasil, o custo é duas vezes mais caro do que o custo de captação de leite desses países”, aponta.
A baixa competitividade interna abre espaço para produtos importados, especialmente de Argentina e Uruguai. Borges ressalta que há indícios de práticas desleais no comércio internacional, tema atualmente em investigação: “Há um pedido de investigação de dumping, prática de exportar produtos a preços muito baixos, porque há indícios dessa concorrência desleal principalmente por parte da Argentina”, relata Borges, ressaltando que esse cenário forma a receita perfeita para gerar desequilíbrio e outra crise no setor.
Custo de produção e endividamento
A crise de rentabilidade que marcou 2025 também expôs a distância entre o preço recebido e o custo operacional médio nas propriedades. De acordo com o presidente, embora o custo varie entre sistemas produtivos, portes e níveis de eficiência, a referência atualizada pela Abraleite demonstra que o produtor opera no limite. “O custo médio de produção do leite no Brasil atualmente é de aproximadamente R$ 2,20 por litro, quase o mesmo valor que os produtores recebem, ou seja, estão trabalhando no vermelho”, reiterou.
Borges detalha que cada propriedade apresenta uma composição de custos muito distinta, influenciada por fatores como produção de silagem, compra de milho, eficiência na mão de obra e escala produtiva. “Em sistemas menores, o peso dos custos fixos tende a ser proporcionalmente maior, agravando a situação financeira nos períodos de baixa de preços. O reflexo é direto: endividamento crescente, renegociação de financiamentos e falta de capital para custeio e investimentos”, relatou.
Saída de produtores

A perda de produtores não é um fenômeno recente, mas ganhou intensidade nos períodos críticos. Borges destaca que os censos do IBGE já registram queda contínua no número de produtores ao longo das últimas décadas, e estudos regionais apontam retração acentuada. Ele cita o levantamento da Emater do Rio Grande do Sul, que observou redução pela metade no número de produtores em 10 anos no estado.
Crises sucessivas como as vividas em 2023 e em 2025 têm ampliado esse movimento. Muitos produtores saem da atividade durante os momentos de baixa; outros tentam se manter, mas não conseguem se reerguer no pós-crise, devido ao endividamento acumulado e à perda de capacidade produtiva.
Apesar disso, a base produtiva brasileira segue majoritariamente composta por pequenos e médios produtores. O último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicou 1,17 milhão de propriedades que produziam algum volume de leite, número que reforça a capilaridade da produção no país.
Consumo interno estagnado há uma década
Se de um lado o produtor enfrenta custos elevados e preços deprimidos, do outro lado o mercado doméstico não reage. O consumo per capita brasileiro, quando se convertem todos os lácteos em equivalente-litro, permanece há cerca de 10 anos entre 160 e 170 litros por habitante/ano. “Esse volume está abaixo do recomendado por organismos internacionais e distante do registrado em países desenvolvidos. Por exemplo, na França são consumidos em torno de 340 litros per capita/ano, na Suíça 360 litros por cada habitante/ano. Então o Brasil tem muito o que crescer no consumo de lácteos”, salienta.
Entre os fatores que limitam essa expansão, Borges menciona a restrição imposta pelo contexto econômico. “Na população de menor renda, produtos lácteos mais elaborados como leite UHT, leite em pó e derivados são diretamente afetados pela perda de poder de compra, se tornando itens facilmente suprimidos do orçamento familiar em períodos de aperto financeiro”, enfatiza.
Desinformação

Outro obstáculo citado pelo presidente da Abraleite é a desinformação da população. Borges compara o cenário brasileiro ao dos Estados Unidos, onde campanhas como Got Milk? ajudaram a consolidar a imagem positiva do leite junto ao consumidor. No Brasil, segundo ele, não há iniciativas semelhantes, enquanto discursos desinformados têm ganhado cada vez mais espaço. “O que nós vemos muito é uma quantidade enorme de pessoas desinformadas, denegrindo a imagem do leite, como se o leite fizesse mal para a saúde humana”, criticou.
A Abraleite tem buscado reverter essa narrativa por meio de ações com nutricionistas, médicos, pediatras, ortopedistas e profissionais de Educação Física, com o objetivo de resgatar a confiança da população nos benefícios nutricionais do leite. Borges ressalta que o alimento é extremamente saudável e relevante em todas as fases da vida. “A Organização Mundial da Saúde revisou recentemente a recomendação sobre o consumo de leite de vaca por bebês, autorizando o uso a partir dos seis meses na ausência do leite materno. Antes a orientação era a partir de um ano de idade. Isso demostra a segurança desse alimento”, destacou.
Peso das importações
O peso das importações na crise de 2025 foi outro ponto enfatizado pelo presidente da Abraleite. Desde 2022, o país vive um ciclo de forte entrada de lácteos do Mercosul, especialmente Argentina e Uruguai. A participação do leite importado, historicamente próxima de 3% do consumo nacional, chegou a 12% em determinados momentos e permaneceu, em 2025, entre 8% e 10%. “Esse extra acima dos 3% causa esse enorme transtorno de baixa de preço ao produtor e quebra da cadeia produtiva nacional”, avaliou.
As importações não se concentram apenas em grandes laticínios. Borges explica que indústrias do ramo alimentício, como fabricantes de chocolates, biscoitos e sorvetes, além de traders e atacadistas, também têm recorrido à compra externa. “Esse aumento das importações está diretamente ligado ao alto custo de produção do leite no Brasil. Temos uma produção muito pulverizada, logística complexa, insumos caros e nenhum tipo de subsídio. Com tudo isso, fica difícil competir com os nossos vizinhos do Mercosul”, reforça.
Medidas emergenciais e estruturais

Foto: Jaelson Lucas
Diante do agravamento da crise, Borges reiterou que a Abraleite tem cobrado ações rápidas do governo federal. Ele cita medidas como contenção ou redução de importações e, sobretudo, a reativação do grupo interministerial criado em 2023 para trabalhar na estruturação da cadeia, mas que permaneceu inoperante ao longo de 2024 e 2025. “Esse grupo tem que trabalhar até as medidas estruturantes acontecerem. Sabendo que são medidas de médio e longo prazo, não são medidas emergenciais para apagar o incêndio que está agora”, frisou.
Entre as principais medidas estruturais consideradas essenciais para fortalecer a cadeia leiteira estão o fortalecimento da assistência técnica e gerencial, especialmente para pequenos e médios produtores; a ampliação das compras governamentais de lácteos; a manutenção, substituição ou reformulação do programa Mais Leite Saudável após sua extinção prevista pela reforma tributária; a revisão de questões tributárias; o fortalecimento das ATERs públicas; e a implementação de políticas de incentivo à competitividade e à redução de custos.
Os estudos do Centro de Inteligência do Leite (CiLeite) da Embrapa Gado de Leite apontam que, sem medidas emergenciais, o mercado pode começar a se estabilizar a partir de março deste ano, com recuperação gradual dos preços no segundo semestre. Borges lembra que movimento semelhante ocorreu após a crise de 2023, com melhora do mercado ao longo de 2024. “Talvez a partir de abril, a gente comece a ver um cenário melhor para os produtores”, afirmou, destacando que a recuperação deve alcançar toda a cadeia nacional.



