Conectado com

Suínos Exclusivo

Raio-x mostra como está estruturada a região que mais produz tilápias no Brasil

Estudo identifica as quatro redes que compõem a produção total no Oeste do Paraná. Confira aqui em primeira mão!

Publicado em

em

Foto: Bing

O consumo de carne de peixe no Brasil vem aumentando e, em resposta a essa tendência, a produção no país também está crescendo. Somente em 2022, o Brasil cultivou 860.355 toneladas de peixes, gerando uma receita de R$ 9 bilhões. Esse resultado representa um crescimento de 2,3% em relação às 841.005 toneladas produzidas em 2021. Espalhada por 26 estados brasileiros, além do Distrito Federal, o Paraná lidera o ranking de produção, com 194,1 toneladas.

Do total de peixes cultivados no país, a tilápia é a espécie que tem ganhado mais espaço nas águas brasileiras. No ano passado, foram produzidas 550.060 toneladas desse peixe, volume que representa 63,93% da produção nacional de peixes de cultivo, aumento de 3% em comparação a 2021. Diante da demanda interna e global, a Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR) espera que essa expansão continue e possa até se intensificar nos próximos anos. Atualmente, o Brasil é o quarto maior produtor mundial de tilápia.

Situado no principal polo de cultivo no país, o Paraná detém a maior criação comercial de tilápias, atividade presente em 363 dos 399 municípios paranaenses. No último ano, a produção desta espécie no estado cresceu 3,2% em comparação a 2021. Sozinho, o Paraná representa 22,5% do total produzido no país.

Além da produção, a exportação paranaense de peixes também é bastante representativa. Em quatro anos, saltou de 3,2 mil toneladas para 5,1 mil toneladas, com a tilápia representando 38% deste volume. No ano passado, os embarques de tilápia do Paraná para o exterior atenderam 34 países, tendo como principal destino os Estados Unidos.

A região Oeste concentra mais de 2,3 mil piscicultores, com o cooperativismo exercendo um importante papel para fomentar o desenvolvimento sólido da atividade. Para entender como o setor está estruturado, quem são os produtores de tilápia, onde eles estão inseridos do ponto de vista das relações comerciais, identificar e caracterizar os modelos de produção e a contribuição das associações e cooperativas na dinâmica da cadeia produtiva no Oeste paranaense, o professor do curso de Desenvolvimento Rural e Segurança Alimentar na Universidade Federal da Integração Latino Americana (Unila),

Dirceu Basso, realizou um mapeamento do setor e o resultado deste estudo vamos apresentar em primeira mão a você, nosso leitor! A pesquisa será apresentada IFC Brasil 2023 e no 1º Congresso Acadêmico e de Relatos de Experiências da Unicafes, com resumos iniciais sendo publicados a partir de setembro. A pesquisa completa deve ser publicada em uma revista científica até o fim deste ano.

Para mapear cada rede, Dirceu selecionou um conjunto de variáveis para responder questões como: Quais são os compradores de tilápia que influenciaram na definição dessa rede? Qual é o modelo de parceria adotado em cada rede (produtor x consumidor ou produtor x unidade de processamento)? Qual é o grau de avanço tecnológico presente em cada rede? Quais entidades estão envolvidas no financiamento da produção? Qual é o sistema de garantia sanitária que se aplica a essa rede? Quais são os mercados consumidores para a tilápia, seja em forma de filé ou peixe inteiro? Além disso, a temporalidade da formação da rede também é levada em conta, assim como o papel desempenhado pelo associativismo e pelo cooperativismo nesse contexto.

Oeste do Paraná

Professor do curso de Desenvolvimento Rural e Segurança Alimentar na Universidade Federal da Integração Latino Americana (Unila), Dirceu Basso – Foto: Arquivo Pessoal

O estudo indicou cerca de 2,3 mil produtores de peixes, a maioria deles sendo de agricultores familiares, que incorporam a criação comercial de tilápias como uma das atividades agropecuárias em suas propriedades. Dirceu relata a existência de modelos de produção e de atuação distintos no mercado. “Em cadeias produtivas como a tilapicultura se imagina que todos os produtores ligados a ela operam da mesma maneira no mercado, no entanto isso não é verdade”, pontua o professor da Unila.

A partir desta análise e com base em pesquisas realizadas desde a década de 80, quando a piscicultura teve início no Oeste paranaense, Basso traçou uma linha de estudo que possibilitou o mapeamento de quatro redes sociais da tilapicultura. “Ao compreendermos como os diferentes grupos de produtores de tilápia estão inseridos no mercado entendemos melhor a realidade em que vivem e, com base nisso, é possível definir políticas públicas direcionadas para essa atividade, a fim de que se possa, por meio de estratégias governamentais e empresariais, ampliar e potencializar o desenvolvimento desse setor”, afirma Dirceu, que realizou esse estudo em parceria com o engenheiro agrônomo, mestre em Ciências Ambientais e professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Aldi Feiden.

Na região Oeste do Paraná diversos fatores impulsionam o desenvolvimento da tilapicultura, entre eles a forte presença da agricultura familiar, que proporciona um ambiente propício para a criação de peixes em viveiros escavados. Além disso, a região possui um rico potencial hídrico, oferecendo condições adequadas para a atividade.

A tilapicultura também se beneficiou da presença diversificada de atores públicos e privados em diferentes níveis, formando uma rede de colaboração. “A conformidade com a legislação ambiental e a disponibilidade de crédito viabiliza investimentos e expansão, enquanto o estímulo ao associativismo e ao cooperativismo fortalece a coletividade entre os produtores. A adoção de inovações tecnológicas, como a reversão sexual, a melhoria na qualidade dos alevinos, rações e aeradores automáticos têm revolucionado a eficiência da produção”, frisa Dirceu.

A industrialização e a logística também representam um papel importante, assim como a diversificação de mercados para a tilápia, abrangendo desde o local até os níveis regional, nacional e global, o que contribui para sua consolidação como um setor robusto e em pleno crescimento.

Quatro Redes

O pesquisador da Unila apresenta um raio-x de como está estruturada a região que mais produz tilápias no Brasil em quatro redes sociais. A primeira é a Rede de Proximidade, que reflete uma dinâmica comunitária na piscicultura vivenciada por cerca de mil famílias. “É uma produção quase de subsistência, em que se produz para a Páscoa e que vende sem nota, porém é a que concentra o maior número de piscicultores”, afirma Feiden.

Nesse contexto, os principais compradores de tilápia são da própria família produtora, vizinhos, residentes locais, e, ocasionalmente, atravessadores que compram sem compromisso prévio.

Nessa rede o sistema de parceria entre produtor e compradores que não se baseia em contratos formais, mas em relações de confiança entre as partes. Nesta rede, os produtores trabalham com sistemas de baixa tecnologia, com densidades variáveis de tilápias, baixa estocagem e um investimento mínimo em processos de aeração e alimentação. “Os desafios enfrentados por esta rede englobam a produção, o processamento e a logística dos peixes. Para enfrentar esses desafios, é essencial adotar políticas públicas e fornecer assistência técnica que auxilie os produtores na otimização dos sistemas de produção e na eficiência da logística, facilitando o acesso ao mercado. Muitos desses piscicultores ainda operam de maneira informal. Portanto, existem várias áreas de oportunidade para aprimorar a tecnologia utilizada na produção, assim como no processo de beneficiamento para a introdução no mercado. Adotando essas medidas, podemos integrar esses produtores de maneira mais sustentável ao fluxo da cadeia produtiva”, pontua Dirceu.

Nesta rede, o docente da Unila expõe que os tilapicultores primam por fazer uso de recursos próprios para custeio e investimentos na atividade. “Mesmo quando recorrem a custeios, tendem a fazê-lo apenas de forma parcial”, menciona.

Quanto à proteção sanitária, ela se desenrola em um ambiente de informalidade, em que a confiança é o principal pilar que atesta a qualidade da produção. “Essas famílias, geralmente, não têm interesse em investir em unidades de processamento de pequena escala, tendo sua rede de relações comerciais local, contudo, os atravessadores têm a potencialidade de distribuir o peixe para regiões mais distantes. E a temporalidade desta rede se estende desde o início dos anos 1980 até os dias atuais”, explica Dirceu.

A segunda rede é de Lazer e Gastronômica, com aproximadamente 30 famílias atuando. É um grupo de piscicultores que desenvolveu o seu sistema de produção e construíram restaurantes para servir os peixes. “Essa rede dialoga muito com o turismo do Oeste do Paraná, que queremos que cada vez mais se fortaleça”, afirma Dirceu, ampliando: “Mas é preciso que essa rede também se qualifique para se manter ativa. É necessário discutir questões sanitárias e políticas públicas, que abrangem desde o processo produtivo até a gastronomia, com políticas que ajudem os produtores a oferecer serviços cada vez mais qualificados. É extremamente enriquecedor quando os turistas visitam o Oeste do Paraná e podem ter uma experiência gastronômica”.

A venda da tilápia é direcionada a consumidores do Pesque-Leva, que pode optar por comprar o peixe inteiro ou processado; do Pesque-Solta, que prioriza o lazer e a prática esportiva; além dos restaurantes. “Os consumidores desta rede, de forma geral, são bastante exigentes quanto aos serviços prestados e valorizam a gastronomia local”, afirma o pesquisador da Unila. “Hoje os restaurantes especializados em peixe no Oeste do Estado variam entre 50 a 100 estabelecimentos, entre os quais estão o Celeiro em e o Pantanal em Toledo e o Parque de Lazer Alli em Marechal Cândido Rondon”, complementa Feiden.
A venda é informal e não existe parcerias na produção, que acontece de forma sazonal, com menor intensidade no inverno. Tendo em vista a finalidade de atender ao lazer e à gastronomia, os locais em que há restaurantes são projetados para proporcionar um ambiente acolhedor, com construções mais rústicas.

A alimentação dos peixes é intermediária, visando à pesca para os consumidores, enquanto o manejo dos peixes é pouco mecanizado, porém existe uma gestão cuidadosa da água. “Nesta rede, os produtores compram peixes de outras espécies para valorizar o policultivo, seja para a pesca de lazer ou para atender restaurantes”, comenta Dirceu, ampliando: “Os produtores contam com capital de giro próprio, contudo buscam investimentos para inovação, tanto na produção quanto na estrutura de atendimento ao público ou ainda para as unidades de processamento dos peixes, mas, sobretudo, recorrem a linhas de crédito voltadas ao turismo rural”.

Quando o assunto é sanidade, essa rede tem os atores informais, como os da pesca esportiva e aqueles que prestam serviços de limpeza e embalagem; até os formalizados, como os restaurantes. “Nesta rede, os serviços de inspeção são valorizados dependendo da finalidade da produção, tendo como principais mercados consumidores a população local urbana e turistas”, observa Dirceu.

Ao olhar para a temporalidade da rede, o professor da Unila diz que é possível perceber sua evolução: nos anos 1980 a tendência era pescar e levar o peixe. Já nos anos 1990 surgiu a novidade do pesque-solte e a especialização para atender aos restaurantes teve início. A partir dos anos 2000, os restaurantes com foco no turismo rural e gastronomia se consolidaram. “Os produtores que possuem restaurantes, visando diversificar a oferta de pratos, também adquirem peixes de diferentes regiões ou biomas do Brasil. Estes produtores não só geram empregos em seus restaurantes, mas também na atividade da piscicultura. Entretanto, a especialização levou a uma diminuição do número de produtores, chegando a cerca de 30 nos dias atuais, devido às demandas crescentes por inovação e investimentos”, contextualiza Dirceu.

Foto: Jefferson Christofoletti

A terceira é a rede de Beneficiamento de Pequeno e Médio Porte, sistema que reúne cerca de 500 pequenos arranjos produtivos, situados em um raio abaixo de 50 km. São produtores autônomos que vendem sua produção para pequenos e médios abatedouros, que juntos abatem entre três e oito toneladas de tilápia por dia, em sua maioria. Também fazem parte desse sistema os atravessadores, que utilizam a técnica de conservação de peixes no gelo para fazer o transporte a frigoríficos em diferentes regiões ou centros de distribuição. “Essa rede registra uma média diária de abate que varia entre três a oito toneladas. No entanto, quando somados, equivalem ao abate total realizado por uma unidade da Copacol”, salienta Feiden.

Dirceu conta que essa rede também atua na informalidade, uma vez que não existe um contrato formal entre os produtores e os entrepostos (compradores). Ao invés disso, a relação se baseia na confiança mútua e em um planejamento colaborativo de estocagem entre compradores e produtores. “Essa confiança é um fator crucial, uma vez que a garantia de compra de tilápias por parte dos entrepostos viabiliza o acesso dos produtores a créditos para fins de custeio e investimento. Além disso, a aquisição de alevinos em um cronograma pré-determinado facilita o planejamento da produção e do abate nos entrepostos”, evidencia.

Os produtores dentro dessa rede operam de maneira variável em relação à estocagem de tilápias. A densidade populacional nos tanques pode variar de dois a 12 peixes por metro quadrado, embora uma estocagem média a alta seja mais comum. Para garantir a qualidade e o crescimento saudável dos peixes, os produtores investem em sistemas de aeração e automação, além de fazer uso de rações balanceadas. A biometria é empregada para monitorar o crescimento e a saúde dos peixes, e são adotadas práticas de manejo profilático para prevenir doenças e parasitas.

No que diz respeito ao financiamento, os produtores recorrem a modalidades de custeio e investimento. Os compradores desses produtores possuem inspeções sanitárias com o Selo de Inspeção Municipal (SIM), do Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Sisbi-POA) e do Serviço de Inspeção Federal (SIF). “A atuação dessa rede ultrapassa as fronteiras locais, abrangendo também os mercados regionais dos três estados do Sul do Brasil, além de São Paulo”, informa Dirceu.

Os entrepostos dessa rede tiveram início nos anos 1990, mas foi a partir de 2005 que sua consolidação ganhou força. “A prevalência do Selo de Inspeção Municipal entre esses entrepostos pode ser explicada por uma série de fatores, como limitação na implementação das adequações necessárias para a obtenção do Sisbi-POA, baixa capacidade de investimento e desafios de gestão relacionados ao crescimento agroindustrial em áreas administrativas, sanitárias, tributárias e tecnológicas”, aponta o pesquisador da Unila.

Essa rede opera com um arranjo socioeconômico de maior complexidade, que envolve relações com os produtores, maior capital financeiro e estrutura de logística.

A quarta é a rede de Commodities, modelo que agrega aproximadamente 550 produtores e está vinculada às cooperativas agroindustriais, sendo duas as mais relevantes – Copacol, composta por 290 integrados, e a C.Vale, que possui 170 integrados -, além da Primato e da Paturi. “Essa rede é muito forte, opera de forma similar ao sistema de integração das cadeias de frango e suínos. A produção opera em um modelo integrado, impulsionado por um conjunto abrangente de tecnologias”, expõe Feiden.

A principal característica dessa rede é o contrato formal de integração verticalizada estabelecido entre os piscicultores e as cooperativas. Nesse acordo, os produtores assumem os investimentos em suas unidades de criação de tilápias, enquanto as cooperativas fornecem os insumos necessários, como alevinos e ração, além de assistência técnica especializada, despesca (retirada dos peixes dos tanques), a industrialização e a venda.

Essa rede opera com um nível elevado de densidade, podendo ter até 12 tilápias por metro quadrado. O ciclo de produção varia entre 150 no verão a 250 dias no período de inverno. Os produtores usam rações enriquecidas com probióticos e aditivos, além de empregar um sistema especializado para otimizar o crescimento e a saúde dos peixes.

Esses produtores têm acesso facilitado a créditos de investimento, o que contribui para a expansão e o aprimoramento de suas operações. Profissionais do SIF monitoram todo o processo produtivo das tilápias junto aos integrados. “O mercado aberto por essa rede é amplo, envolvendo tanto o cenário regional quanto nacional e internacional”, ressalta Dirceu.

O esforço e a consolidação dessa rede remontam aos anos 2000. As cooperativas de maior porte detêm a produção majoritária, representando cerca de dois terços da produção total. Quanto às margens operacionais dos piscicultores integrados, estas situam-se entre R$ 0,90 e R$ 1,15 /Kg.

Papel das associações e cooperativas

A contribuição das associações e cooperativas na construção da cadeia produtiva da tilapicultura no Oeste do Paraná é um fator fundamental para o desenvolvimento e a sustentabilidade desse setor. Além das cooperativas de crédito que desempenham um papel transversal, a atuação das associações e cooperativas é notável em diferentes fases e aspectos dessa cadeia produtiva.

Na fase inicial, que engloba os anos 1980 e 1990, as associações de abrangência municipal desempenharam um papel crucial. Elas permitiram a viabilização de ações do governo estadual por meio de subsídios que incluíam óleo diesel, horas-máquinas, equipamentos comunitários e outros incentivos. Essa colaboração também facilitou a extensão rural, com prefeituras organizando e encaminhando as demandas de investimento. “Uma forma de cooperação nessa fase era a rede de Proximidade, composta predominantemente por piscicultores individualizados. Além disso, havia cooperativas de aquicultores, incentivadas por prefeituras, Unioeste e Emater/PR, que visavam realizar compras conjuntas de insumos e rações, bem como a venda de peixes”, recorda Dirceu.

Outra iniciativa foi a criação de cooperativas de pescadores, apoiada pelo Programa Cultivando Água Boa da Itaipu Binacional, que buscavam atender a demanda de alimentação escolar por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

Além disso, a cadeia produtiva contava com a rede de Lazer e Gastronomia, formada por famílias que possuíam restaurantes e locais de pesque e pague. “Esses estabelecimentos contribuíram para a divulgação e o consumo local da tilápia, criando oportunidades de lazer e alimentação”, destaca Dirceu.

Outra faceta da cooperação estava presente na rede de Beneficiamento de Pequeno e Médio Porte, em que a confiança e a informalidade eram as bases das relações entre os piscicultores e as unidades de beneficiamento. Essa cooperação resultou, por exemplo, em entrepostos próprios de tilápia que se associaram entre 15 a 20 produtores parceiros.

No entanto, o ápice da cooperação estava na rede Commodities, onde as cooperativas agroindustriais de grande porte estabeleciam contratos de longo prazo com os associados. Essa relação era pautada por acordos formais e detalhados, com a cooperativa fornecendo suporte desde a disponibilização de alevinos até a entrega de ração. Além disso, havia a presença de empresas agroindustriais que operavam num sistema de parceria híbrida, funcionavam em ciclos e estabeleciam colaborações sem garantias de longo prazo. “As associações e cooperativas foram peças-chave na construção e no fortalecimento da cadeia produtiva da tilapicultura no Oeste do Paraná. Elas promovem diferentes formas de cooperação, desde a fase inicial aos arranjos mais complexos e até formais, desempenhando um papel essencial na promoção do desenvolvimento sustentável desse setor”, exalta o pesquisador da Unila.

Fomento à atividade

Foto: Jonathan Campos/AEN

A partir deste estudo, Dirceu aponta que cada uma dessas redes é responsável por fornecer produtos e serviços específicos para fomentar o progresso da região Oeste do Paraná. “A consolidação dos produtores existentes e a inclusão de novos é fundamental para manter as diversas redes, evitando, assim, o desaparecimento e/ou concentração em uma única rede”, expõe.

No contexto do desenvolvimento da região, é de extrema importância que todas as redes sejam fortalecidas. “A intenção não é estabelecer uma hierarquia entre redes. O que o estudo busca é demonstrar que cada produtor participante dessas redes desempenha um papel valioso para contribuir com a sociedade. O propósito é contribuir para fortalecer todas as redes e, a partir desse estudo, promover um desenvolvimento inclusivo e colaborativo”, menciona, afirmando que a concentração de produtores em uma única rede pode ser negativa para o desenvolvimento regional do setor. “Eu acredito que seria prejudicial para a região se concentrarmos o avanço da tilapicultura exclusivamente em uma única rede produtiva. A diversidade das redes desempenha um papel crucial na dinâmica da região. O que se torna essencial que os municípios abracem essa causa e, em sinergia com as políticas estaduais e federais, fomentem aquilo que pode ser considerado como um desenvolvimento endógeno, através da colaboração dos diversos atores presentes em cada rede. Isso envolve a promoção de processos organizacionais e tecnológicos que incentivam o crescimento da tilapicultura em todos os municípios envolvidos”.

Dirceu frisa ainda que o estudo permite discutir sobre a compreensão dos mercados. Há uma tendência predominante de considerar que o mercado dita as regras e que os atores simplesmente se submetem a ele. No entanto, esse estudo na região Oeste demonstra que, à medida que cada rede atende uma demanda específica para entrar nos mercados, surgem oportunidades para melhorias e ajustes. “É preciso reconhecer que o mercado é uma construção social e cada uma das redes se insere nele com normas e convenções singulares. Enquanto na cadeia de commodities há um processo formalizado de contratos entre cooperativas e produtores, além de rigorosos aspectos sanitários nas plantas industriais, outras redes adotam abordagens específicas à sua realidade”, afirma.

Academia x evolução da piscicultura

A região do Oeste do Paraná testemunha um crescimento expressivo na indústria da piscicultura. Em meio a essa expansão, universidade como a Unioeste e a Unila desempenharam um papel fundamental. As instituições acadêmicas oferecem uma ampla gama de cursos de graduação, pós-graduação, mestrado e doutorado. “Essas universidades desempenham um papel crucial na formação de profissionais qualificados para atuar em todas as etapas da cadeia produtiva, bem como contribuem no desenvolvimento de tecnologias, como equipamentos, rações e medicamentos. Além disso, as universidades também atuam como uma ponte para a adoção de tecnologias inovadoras, conectando a indústria a outros avanços tecnológicos. Muitas vezes, a pesquisa é realizada em colaboração com empresas privadas, buscando encontrar soluções inovadoras e eficazes para os desafios da piscicultura”, enaltece Dirceu.

A contribuição acadêmica não se limita apenas à formação de profissionais. Ela se estende para a criação de uma equipe multidisciplinar composta por indivíduos que pensam estrategicamente sobre a produção, engenharia de alimentos, logística e marketing. Através de pesquisas, a academia também compreende a complexidade da piscicultura, destacando as dinâmicas intrínsecas a cada uma das quatro redes de tilapicultura presentes na região.

“A dinâmica pujante da piscicultura no Oeste do Paraná enfatiza a comunhão da colaboração entre a academia, órgãos de Estado em seus diferentes níveis, as diversas cooperativas agroindustriais, empresas de insumos para a piscicultura e a sociedade para apoiar um setor que ganhou maturidade depois dos anos 2000 e segue em plena expansão, contribuindo para a produção de proteína animal. As universidades não apenas moldam profissionais aptos a enfrentar os desafios, mas também atuam como catalisadoras da dinâmica e da proteção na piscicultura regional”.

Oportunidades

O setor de pescado nacional experimenta um crescimento sólido ano após ano. No entanto, esse cenário também dá origem a debates do papel de cada ator envolvido no âmbito da rede de piscicultura e de todos os envolvidos nessa indústria. Um dos focos centrais desse debate é o papel das grandes redes de supermercados na promoção do consumo de carne de peixe. “Nossa intenção é ir além da concepção tradicional do pescado como um produto para consumo apenas durante a Semana Santa, porque acreditamos que o peixe deve figurar com maior frequência nas mesas dos brasileiros, não somente em momentos religiosos”, enfatiza, acrescentando: “Enxergamos inúmeras oportunidades para expandir o consumo de pescado, que vão desde abertura de novos mercados, novos produtos até a merenda escolar. Esse aumento na demanda impacta não apenas na produção, mas também reverbera nas organizações cooperativas, assim como nas empresas privadas que se dedicam ao processamento dessa matéria-prima”.

Desafios econômicos

Com sistema de produção predominante em tanques escavados, os investimentos na piscicultura para atender aos padrões de qualidade seguidos pela rede Commodities podem chegar a marca de sete dígitos. Considerando que esses produtores operam com cerca de 10 a 12 ou até mais tilápias por metro quadrado, eles demandam uma infraestrutura maior em energia elétrica, ventilação, alimentação e manejo sanitário apropriados. “O custo de um lote de tilápia em uma área de aproximadamente um hectare de lâmina d’água pode chegar a um valor de capital de giro de R$ 500 a R$ 700 mil”, constata Dirceu.

Ele enfatiza que o desafio destes piscicultores em termos de capital de giro, capital de custeio e de capital para investimento é bastante expressivo. “Esse investimento se diferencia para aquele produtor da rede de Proximidade, em que o nível tecnológico empregado na produção é baixo, exigindo menos investimento”, afirma.

Os diferentes elementos (socioeconômicos, ambientais, acesso às políticas públicas, entre outros) que compõem o contexto em que cada piscicultor se situa ajudam a explicar suas estratégias e seu pertencimento em uma das redes de tilapicultura. “No entanto entendemos que talvez o sucesso da atividade não esteja em potencializar uma única estratégia, porque isso faz com que desprezemos todos as outras maneiras de produzir e de se colocar esse produto no mercado, o que pode nos levar a um processo de alta concentração da produção, inclusive, a possíveis problemas ambientais, isso porque quanto mais intensiva a produção mais problemas relacionados à disponibilidade hídrica e à contaminação ambiental podemos gerar. Esses são fatores que podem pesar negativamente na rede de Commodities se não observados”, evidencia Dirceu.

Contribuições dos maiores

A rede de beneficiamento de pequeno porte emergiu em resposta aos desafios enfrentados pelos piscicultores no final dos anos 90 e início dos anos 2000. Nessa época, os produtores frequentemente se deparavam com problemas relacionados à sazonalidade e inadimplência, em que os peixes eram levados para outras regiões ou havia superprodução em relação à demanda. Para lidar com essas questões, as redes de beneficiamento de pequeno e médio porte, juntamente com a rede de commodities, surgiram para trazer uma organização mais estruturada à cadeia produtiva.

A industrialização desempenhou um papel crucial nesse processo, permitindo que os produtores criassem os peixes e organizassem o mercado de maneira mais organizada, facilitando a gestão de adversidades comerciais. A indústria tornou-se um componente fundamental para estabilizar a produção de tilápia, consolidando os produtores e tornando a atividade mais significativa em suas propriedades. “No Oeste paranaense existem diversos abatedouros de tilápia de pequeno e médio porte, que abatem entre três e oito toneladas por dia”, reforça o professor da Unila.

Segundo Dirceu, essas pequenas instalações industriais para aumentar o volume de abate passaram a comprar peixe de outros produtores em seu entorno. “Isso resultou em uma rede de pequeno e médio porte, em que os acordos são frequentemente feitos com base na confiança, sem contratos formalizados entre os produtores e os compradores de tilápia para o mercado. E esse aspecto é muito interessante, porque nos mostra como podemos potencializar essa rede e produzir a partir daí uma produção mais descentralizada. Essa que é a grande vantagem da rede de beneficiamento de pequeno porte, nos permite visualizar no Oeste do Paraná como as unidades se descentralizam”, avalia.

Por outro lado, a rede de commodities abriga plantas industriais maiores, que acabam concentrando os produtores em seu entorno. “A consolidação da cadeia da tilápia foi influenciada pelo desenvolvimento das cooperativas e dos contratos de integração. Atualmente, cerca de 2/3 da produção de tilápia está concentrada na rede de commodities”, enaltece Dirceu.

O estudo revela que as estratégias de produção adotadas pelos piscicultores no Oeste do Paraná nos dias atuais se mantêm diversa. “Encontramos quatro grandes redes de tilapicultura no Oeste do Paraná e cada uma delas se relaciona com o mercado de forma distinta e com um planejamento econômico específico”, afirma Dirceu.

Por fim, o pesquisador ressalta que a maior contribuição do estudo reside mais uma vez na oportunidade de experimentar o avanço da piscicultura através do desenvolvimento endógeno. Nessa abordagem, os municípios, impulsionados por seus próprios recursos e políticas públicas voltadas para os piscicultores, podem fomentar uma série de iniciativas de produção de tilápia dentro de seus territórios. “Isso pode se dar por meio de redes como de beneficiamento de pequeno porte ou estratégias semelhantes. Todas as perspectivas e cenários evidenciados pelo estudo oferecem uma visão abrangente e promissora para o setor”, garante Dirceu.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor aquícola acesse gratuitamente a edição digital de Aquicultura. Boa leitura!

Fonte: O Presente Rural

Suínos

Liderança e ambiente de trabalho são apontados como diferenciais na suinocultura paranaense

Consultor Dirceu Zotti defende que retenção de mão de obra depende de postura, capacitação e organização dos processos.

Publicado em

em

Fotos: Shutterstock

Ajustes no dia a dia, organização dos processos e postura das lideranças podem transformar o ambiente de trabalho nas propriedades envolvidas com a suinocultura no Paraná. Esse foi o tema da primeira reunião da Comissão Técnica (CT) de Suinocultura do Sistema Faep, realizada na segunda-feira (23).

“A suinocultura é uma potência do Paraná e tem papel fundamental na geração de renda e no desenvolvimento regional. Precisamos avançar em eficiência, mas também em gestão e valorização das pessoas, garantindo que o crescimento da atividade seja sustentável para toda a cadeia”, afirma o presidente do Sistema Faep, Ágide Eduardo Meneguette. “A discussão sobre gestão de pessoas e organização das granjas é estratégica para o fortalecimento da atividade no Estado”, complementa.

Durante a reunião, o consultor Dirceu Zotti, da DZ Consultoria, fez uma palestra sobre “Gestão de pessoas na suinocultura”. Com décadas de experiência na área do cooperativismo, Zotti abordou a realidade dos recursos humanos nas granjas brasileiras e os caminhos para fortalecer a retenção e o desenvolvimento de equipes.

“Nunca vamos ter um apagão de mão de obra nas granjas, sempre teremos pessoas disponíveis. A principal oportunidade está em mudar a abordagem e pensar no que podemos fazer dentro da granja para que as pessoas queiram ficar na equipe”, destaca o consultor.

Zotti afirma que as principais mudanças estão “da porteira para dentro”, principalmente quando envolvem projetos modernos, alinhados ao bem-estar animal e com alto nível de automação.

“Um colaborador motivado é reflexo das atitudes, das políticas, dos treinamentos e das oportunidades oferecidas pela granja. Tudo o que acontece as pessoas estão olhando, e os grandes responsáveis somos nós”, destacou. “Salário não segura pessoas. Investimentos em capacitação, reuniões de rotina, boa alimentação, estrutura adequada, remuneração justa, premiação por resultados, ambiente agradável e liderança presente são medidas essenciais”, acrescenta.

Entre os desafios na gestão de pessoas, Zotti cita a necessidade de adequar funções aos perfis, lidar com a falta de iniciativa, manter as equipes motivadas e comprometidas e compreender as características da geração Z. Ao abordar a otimização da mão de obra, o consultor explicou que o conceito envolve reduzir excessos e priorizar tarefas críticas e inegociáveis, com equipes altamente comprometidas e gestão democrática e participativa. Segundo ele, o desenho dos projetos e as condições oferecidas influenciam diretamente na retenção e no desempenho das pessoas. “Pessoas são a solução”, conclui.

Fonte: Assessoria Sistema Faep
Continue Lendo

Suínos

Produção de carne suína avança e reforça novo ciclo de expansão no setor

Crescimento no volume abatido e o aumento no peso médio das carcaças indicam consolidação da oferta, mesmo diante da pressão recente sobre os preços pagos ao produtor.

Publicado em

em

Foto: Shutterstock

O IBGE publicou, no último dia 12, dados preliminares de abate do quarto trimestre de 2025, confirmando o crescimento da produção das três proteínas no ano passado em relação a 2024. No abate de suínos, com aumento de 3,39% em cabeças e 4,46% em toneladas de carcaças (tabela 1) no acumulado do ano de 2025, fica evidente a retomada do crescimento da produção de forma consistente. Mesmo em um ano em que um dos destaques foi o incremento significativo do peso médio das carcaças (93,07kg contra 92,11kg de 2024), chama a atenção, no mês dezembro/25, o menor peso do período (90,23kg), indicando haver relativa baixa retenção de animais nas granjas na virada do ano.

Tabela 1. Abate brasileiro MENSAL de suínos, 2024 e 2025, em cabeças e toneladas de carcaças (total e peso médio em kg) e diferença em relação ao mesmo mês anterior. *Dados de julho a setembro de 2024 preliminares Elaborado por Iuri P. Machado, com dados do IBGE.

Esta presumida baixa retenção de animais nas granjas no mês de dezembro/25 não resultou em sustentação dos preços pagos ao produtor no início de 2026. Outros fatores, como a queda sazonal da demanda interna e de exportação, típica de início de ano, e os estoques remanescentes de 2025 resultaram em queda dos preços das carcaças e do animal vivo em todas as praças do Brasil (gráficos 1 e 2), o que parece ter se agravado com o “efeito manada”, quando muitos produtores tentam antecipar as vendas para fugir de preços mais baixos, mas, com maior oferta, acabam acelerando a queda das cotações. Além disso, a carne de frango também apresentou queda expressiva nas cotações desde a virada do ano, o que acaba reduzindo a competitividade da carne suína no varejo (gráfico 3).

Gráfico 1. Indicador CARCAÇA SUÍNA ESPECIAL – CEPEA/ESALQ (R$/kg) em São Paulo/SP, mensal, nos últimos 12 meses. Média de fevereiro/26 até dia 18/02/2026. Fonte: CEPEA

Gráfico 2. Indicador SUÍNO VIVO – CEPEA/ESALQ (R$/kg) em MG, PR, RS, SC e SP, mensal, de março/25 a 18 de fevereiro de 2026. Fonte: CEPEA

Gráfico 3. Cotação média mensal do FRANGO RESFRIADO em São Paulo (SP), em R$/kg de carcaça, nos últimos seis meses. Média de fevereiro até dia 18/02/2026. Fonte: CEPEA

No último boletim, de janeiro/26, já havíamos demonstrado o crescimento expressivo das exportações de carne suína in natura no ano de 2025, com incremento de quase 12% em relação a 2024. Conforme a tabela 2, a seguir, as três proteínas tiveram, em 2025, crescimento na produção, exportação e disponibilidade interna.

Tabela 2. Produção brasileira, exportação (in natura) e disponibilidade interna mensal, em toneladas de carcaças, das três proteínas de janeiro a dezembro de 2025 e diferença do total acumulado em relação a 2024 *Dados de produção de outubro a dezembro de 2025 preliminares Elaborado por Iuri P. Machado, com dados do IBGE e da Secex.

A propósito das exportações de carne suína, o ano de 2026 começou bem, com o mês de janeiro/26 totalizando mais de 100 mil toneladas de carne suína in natura embarcada, um crescimento de 14,2% em relação a janeiro de 2025, com aumento expressivo dos embarques para Filipinas e Japão e China confirmando sua trajetória de queda (tabela 3).

Tabela 3. Principais destinos da carne suína brasileira in natura exportada em janeiro de 2026, comparado com janeiro de 2025. Ordem dos países estabelecida sobre volumes de 2026. Elaborado por Iuri P. Machado, com dados da Secex.

Sobre a carne bovina, que dentre as 3 proteínas teve no ano passado o maior crescimento percentual de produção e exportação, o que se observou ao longo do ano de 2025 foi uma relativa estabilidade nas cotações do boi gordo (gráfico 4).

Gráfico 4. Indicador mensal do BOI GORDO CEPEA/ESALQ (R$/@) no estado de São Paulo, nos últimos 2 anos, com destaque para a maior cotação do período (até o momento) que foi em novembro/24 Média de fevereiro/26 até dia 18/02/2026. Fonte: CEPEA

Porém, a tão esperada virada do ciclo pecuário, com redução de abate e alta do preço deve ocorrer em 2026 e já mostra sinais no gradativo aumento das cotações do boi gordo nas últimas semanas (gráfico 5), quando a arroba subiu mais de 20 reais em poucos dias.

Gráfico 5. Indicador DIÁRIO do BOI GORDO CEPEA/ESALQ (R$/@) no estado de São Paulo, nos últimos 30 dias úteis (até 18/02/26). Fonte: CEPEA

Para 2026 o mercado de carne bovina será um importante fator de equilíbrio, justamente porque é a única proteína que deve ter retração na produção, reduzindo a oferta no mercado doméstico e, consequentemente, determinando preços maiores que no ano passado, o que deve contribuir para sustentar os preços da carne suína. Entretanto, existe um alerta para as exportações de carne bovina que têm a China como destino de mais da metade dos embarques e que estabeleceu, para 2026, uma cota de 1,1 milhão de toneladas que, quando ultrapassada, terá uma sobretaxa de 55%, inviabilizando as exportações para aquele mercado que comprou em torno de 1,7 milhão de toneladas no ano passado. Esta situação pode determinar uma redução das exportações de carne bovina brasileira e, consequentemente, uma maior oferta no mercado doméstico a partir da metade do ano. Alguns analistas também apontam esta alta momentânea da cotação do boi gordo justamente por causa desta cota estabelecida pela China, o que fez com que os frigoríficos exportadores antecipassem o abate para aproveitá-la antes que se esgote.

Sobre a rentabilidade da suinocultura, mesmo com o milho e o farelo de soja com preços relativamente estáveis, fica evidente uma queda na relação de troca do suíno com estes insumos (gráfico 6), obviamente agravada pelo recuo significativo das cotações do suíno. Mesmo antes de acabar fevereiro já é possível afirmar que a relação de troca caiu pelo quinto mês consecutivo. Este quadro, na maioria dos casos, ainda não determina prejuízo na atividade, mas acende uma luz de alerta no setor.

Gráfico 6. Relação de troca SUÍNO : MIX milho + farelo de soja (R$/kg) em São Paulo, de janeiro/24 a fevereiro/26. Relação de troca considerada ideal, acima de 5,00 Composição do MIX: para cada quilograma de MIX, 740g de milho e 260g de farelo de soja. Média de fevereiro de 2026 até dia 18/02/2026. Elaborado por Iuri P. Machado com dados do CEPEA – preços estado de São Paulo

O presidente da ABCS, Marcelo Lopes, explica que o movimento de baixa das cotações do suíno vivo e das carcaças dá sinais de que está no fim, com preços estabilizando em meados de fevereiro. “É fato que a suinocultura brasileira retomou o crescimento da produção e o aumento das exportações já não é suficiente para enxugar o mercado. A concorrência com as outras carnes se tornam um fator muito importante neste contexto, sendo que o mercado de carne bovina, com a esperada virada de ciclo pecuário, pode ser o fiel da balança para sustentar os preços do suíno em patamar que permita manter margens financeiras positivas, mesmo com maior oferta de carne suína no mercado doméstico ao longo de 2026”, conclui.

Fonte: Assessoria ABCS
Continue Lendo

Suínos

ACCS alerta para insegurança jurídica mesmo com retomada nos preços da suinocultura

Mercado de suínos dá sinais de recuperação com exportações aquecidas, mas a Associação Catarinense de Criadores de Suínos cobra segurança no campo e critica entraves trabalhistas e o chamado custo Brasil.

Publicado em

em

Foto: Shutterstock

O cenário para a suinocultura brasileira desenha-se com otimismo nas granjas, impulsionado pelo reequilíbrio de preços e recordes de exportação previstos para este ano. No entanto, fora da porteira, o setor produtivo acende um forte sinal de alerta para os desafios políticos, trabalhistas e de segurança jurídica no campo. A avaliação é do presidente da Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS), Losivanio Luiz de Lorenzi, que traçou um panorama detalhado sobre as projeções de mercado e os entraves que o agronegócio enfrenta atualmente.

Retomada de preços e exportações em alta

Presidente da Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS), Losivanio Luiz de Lorenzi: “Eu acredito que o mercado vai estar voltando à sua normalidade. A partir de agora, nós vemos um mercado mais promissor”

O ano começou com a tradicional oscilação de preços, mas a perspectiva de estabilização já é uma realidade. Segundo o presidente da ACCS, a queda registrada na primeira quinzena de janeiro está sendo superada pela reação das bolsas do setor. “Eu acredito que o mercado vai estar voltando à sua normalidade. A partir de agora, nós vemos um mercado mais promissor”, projeta Losivanio.

A expectativa de alta nos valores pagos ao produtor é sustentada por uma combinação de fatores: a menor oferta de suínos no mercado, a manutenção do peso normal de abate e o ritmo acelerado das exportações, que em fevereiro devem ultrapassar a marca de 100 mil toneladas.

Outro elemento que protegeu a margem do suinocultor independente durante a recente baixa foi a queda no preço do milho. Além disso, não houve um crescimento desordenado da produção nos últimos dois anos. O principal freio para novas expansões foi a taxa de juros, já que, segundo o dirigente da ACCS, iniciar um projeto robusto na suinocultura hoje exige um investimento mínimo de R$ 10 milhões, tornando a captação de recursos cara e, muitas vezes, inviável.

O ciclo da carne bovina e a sanidade

O bom momento da carne suína também encontra respaldo no ciclo da pecuária de corte. Com as exportações de carne bovina batendo recordes e o volume de abates superando o de nascimentos de bezerros, a recuperação da oferta de bovinos será lenta — um ciclo que leva cerca de quatro anos. Essa dinâmica mantém a carne suína em um patamar competitivo e altamente atrativo.

Apesar dos ventos comerciais favoráveis, a ACCS reforça que o dever de casa sanitário é inegociável para garantir a estabilidade do setor. “Nós temos que olhar muito a questão da biosseguridade, da sanidade, para que a gente não seja acometido por alguma intempérie de doença, como aconteceu em vários países, e que a gente possa perder esses mercados importantes”, alerta.

Preocupações políticas e a escala 6×1

Se o mercado responde bem, o ambiente regulatório gera apreensão. Losivanio classifica como “populismo” a possibilidade de o governo intervir limitando as exportações de carne bovina para forçar a queda dos preços no mercado interno, especialmente em um ano eleitoral. Para ele, a solução real seria fomentar o poder de compra e a renda da população, e não proibir embarques.

No campo trabalhista, a proposta de alteração da jornada para a escala 6×1, reduzindo de 44 para 36 horas semanais — é vista com grande preocupação. A dinâmica do agronegócio não se adequa a expedientes engessados, e o peso da carga tributária sobre a folha de pagamento já asfixia quem produz. “A gente vê que o vilão não é o empresário, e sim é o sócio que nós temos, que é o governo”, pontua o presidente.

Ele contrasta a situação brasileira com a de países vizinhos: enquanto a Argentina avança no Congresso com propostas de jornadas de até 12 horas diárias e o Paraguai atrai indústrias brasileiras oferecendo redução de impostos, logística eficiente e segurança jurídica, o Brasil onera cada vez mais o empreendedor com mudanças legislativas constantes.

Insegurança jurídica e a defesa do produtor

O alerta final da entidade recai sobre a insegurança no campo. O aumento da criminalidade e as tensões envolvendo áreas indígenas estão impactando diretamente quem produz. Produtores com histórico de gerações em suas terras e documentação legal estão perdendo acesso ao crédito rural e correndo o risco de perderem suas propriedades. “Nós estamos à beira de um caos muito forte”, desabafa.

Para Losivanio, falta ao poder público uma visão estratégica que valorize o agronegócio, setor que levou o Brasil ao posto de maior exportador de proteína animal do mundo, mesmo operando sob as legislações ambientais mais rigorosas do planeta. “Para dar emprego, nós temos que dar segurança para o nosso empreendedor, para que ele possa continuar acreditando e fazendo esse país crescer”, finaliza o presidente, pedindo uma mudança urgente de postura e de entendimento para garantir o futuro da produção nacional.

Fonte: Assessoria ACCS
Continue Lendo