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Radar sanitário apresenta balanço das ações de prevenção e controle de doenças no rebanho bovino
No mês de dezembro, poucas atividades aparentemente são feitas nas fazendas de boa parte do Brasil, ideal para fazer um balanço geral sanitário do que ocorreu no ano.

O Radar Sanitário tem como objetivo informar os produtores rurais sobre as principais medidas de manejo sanitário a serem adotadas no mês, bem como sobre os registros recentes de doenças transmissíveis ou não, sugerindo medidas para suas prevenções.
As informações apresentadas foram obtidas com o apoio das Agências Estaduais de Defesa Sanitária Animal (Adesans), de professores universitários, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), da rede de contato de veterinários de campo e de empresas veterinárias.
No mês de dezembro, poucas atividades aparentemente são feitas nas fazendas de boa parte do Brasil, ideal para fazer um balanço geral sanitário do que ocorreu no ano.
No mês passado, em que foram vacinadas as bezerras contra brucelose, sugeri adiar a vacinação contra clostridioses para este mês, visto que um recente estudo brasileiro indica que não se deve vacinar ao mesmo tempo contra brucelose e clostridioses, pois isto faz com que a produção de anticorpos e proteção contra as clostridioses diminua para valer, colocando em risco os animais. Assim, chegou a hora agora de vacinar as fêmeas contra as clostridioses, lembrando que os bovinos, a partir de quatro meses, devem receber duas vacinações com espaço de um mês.
Nota importante: As vacinas brasileiras contra as várias clostridioses retiraram do produto a proteção contra o carbúnculo hemático (uma outra clostridiose). Assim, em regiões que têm risco dessa última doença, em especial a região sul do RS, devem fazer uma vacinação extra com vacinas exclusivas (Laboratórios Venco e Labovet) que contenham bacterinas contra o Bacillus anthracis , causador desta doença.
Descarrapatização estratégica
Segundo orientações da Embrapa, sugere-se a descarrapatização estratégica do gado bovino, nessas áreas citadas, para diminuir a futura infestação de carrapatos nas próximas estações do ano, que são mais problemáticas. Para decidir sobre que produtos utilizar, peça orientação ao seu veterinário de confiança, pois os carrapatos têm adquirido resistência contra múltiplos tipos de carrapaticidas.
Para aumentar o índice de eficácia e escolher o carrapaticida ideal para sua propriedade faça o teste do biocarrapaticidograma.
ém do Instituto Veterinário Desidério Finamor, também no Rio Grande do Sul esse teste pode ser feito no Laboratório de Parasitologia da Unipampa, com solicitação através do WhatsApp (55) 99964-8232.
Vermifugação contra fasciola hepática
Segundo orientação da Embrapa sugere-se nas regiões alagadiças e que contenham o caramujo que transmite as “larvas” de Fasciola hepatica (baratinha do fígado) do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, a vermifugação estratégica do rebanho contra este parasita, que causa grande perda de peso e anemia aos bovinos. Para tal, recomenda-se o uso, sempre consultando seu veterinário de plantão, as seguintes bases de fasciolocidas: tricabendazole, nitroxinil, clorsulon ou closantel.
Balanço geral sanitário do ano
Sugiro que no mês de dezembro, seja feito um balanço geral da saúde no seu rebanho, por meio do cálculo de um simples índice, desde que tenha o registro de todos os nascimentos e mortes no ano. Primeiro, quantifique o número global de animais de 1º de dezembro de 2021 a 1º de dezembro de 2022, presente nas seguintes categorias: A) bezerros até desmama; B) da desmama até dois anos, C) de dois a três anos, D) de três a 10, E) mais de 10 anos. Multiplique por 100 o número de mortes e o resultado deve ser dividido pelo número total de animais, dentro da mesma categoria. Com isso você obterá o número percentual de mortalidade no ano, para cada faixa de idade.
Faça isso também com o total de seu rebanho criado no espaço de 12 meses. A média de mortalidade geral nos rebanhos brasileiros é de 6% e nas categorias A) 8,5%; B) 3,5%; C) 2,5%; D) 1%; E) 3,5%. Países com pecuária de corte mais desenvolvidos (EUA e Austrália) têm uma mortalidade média geral de 3,2% e nas categorias A 4,5 % a 5%; B 1,3%; C) 1%. D) 1,1 e E) 2%.
Com seus dados calculados, analise com seu veterinário os gargalos sanitários que levaram a morte os animais, nas diversas categorias, e trabalhem em conjunto para mudar o manejo sanitário da fazenda, afim de atingir metas mais próximas dos países desenvolvidos. Boa sorte na empreitada!

Oocistos em exame de fezes. – Fonte: Manual da MSD
Surtos e focos de doenças recentes
Veterinário descreveu surto de desinteria (diarreia com presença de sangue e catarro) em 13 bezerros da raça Nelore com cerca de 45 dias de idade, de um total de 150, nascidos de IATF, em uma propriedade em São José do Rio Preto. Além do diagnóstico clínico foi feito exame de fezes onde foram encontrados oocistos de Eimeria spp, um protozoário que causa grande dano à parede interna dos intestinos. Embora alguns bezerros estivessem bem apáticos e ligeiramente desidratados não ocorreram mortes, pois graças ao rápido e eficaz tratamento com coccidicidas os animais se recuperaram.
O rebanho de cria bebia água num açude, de porte médio, proveniente de acúmulo de água de chuva e de um diminuto regato. Tudo sugere que a fonte de infecção tenha vindo do açude, pois os oocistos resistem bastante tempo em locais úmidos. A fonte inicial de infecção pode ter sido as vacas, que embora sejam relativamente resistentes ao protozoário, podem mesmo assim eliminar pequeno número de oocistos pelas fezes e contaminar a aguada. Nessas condições os bezerros podem ter contraído o protozoário por duas formas, ou ingerindo a água ou pela teta da vaca, na qual podem grudar oocistos quando a fêmea entra para beber água no açude sujo.
O ideal é oferecimento de água em bebedouros automáticos, chamados de “australianos”, provendo água de fontes limpa e se possível tratadas com água sanitária, conhecida como “cândida” (hipoclorito de sódio 2%) que mata boa parte dos oocistos.
Infecções umbilicais em bezerros
Veterinários de campo identificaram problemas ligados inicialmente às infecções do umbigo em bezerros, criados em Paragominas (PA) e Ubirici (SC). No Pará ocorreu em cerca de 25 bezerros, com idade girando de 10 a 30 dias, em mais de 3.000 nascidos de inseminação artificial em tempo fixo (IATF). Nos doentes foram verificados inchaços debaixo da pele, os quais melhor examinados se tratavam de abscessos, que muitos chamam de peste dos “polmões”. Alguns destes animais também apresentavam aumento de volume, bem espessado e duro nas “juntas” dos braços e pernas (poliartrite), que dificultava a locomoção do animal (foto). Quando se palpava o umbigo da maioria dos doentes o veterinário detectou engrossamento do cordão umbilical, como se fosse uma corda.

Poliartrite em bezerro – Fotos: Divulgação/CCAS
Em Santa Catarina, os três bezerros nascidos de vacas de elite apresentavam engrossamento das “juntas” e do cordão umbilical, que além de inflamado estava com bicheira. Tanto os “polmões”, como as artrites são provocadas por bactérias que entram pelo umbigo e se espalham pelo corpo causando infeções debaixo da pele e nas articulações, assim como em outros órgãos.
No Pará o tratamento do umbigo era feito com um desinfetante comercial, composto de ácido pícrico, fenol, iodofórmio e um organofosforado, para evitar bicheira. Geralmente, esta fórmula atua muito bem na cicatrização e retração do cordão umbilical, porém identificou-se que os bezerros com os problemas, foram paridos no auge do período de nascimento e provavelmente foram tratados com o desinfetante decorridos seis ou mais horas do nascimento, quando aumenta muito a chance de infecção umbilical.
Em Santa Catarina, a cura do umbigo foi feita com spray larvicida, que praticamente tem pouco ou nenhum efeito sobre a cicatrização do cordão umbilical. Além do mais, foi empregado, logo em seguida ao nascimento, um medicamento, por via intramuscular, a base de penicilina e ivermectina, que não evitou que ocorresse infecção no umbigo e bicheira, oriundos das larvas da mosca Cochlyomia hominivorax. As larvas de bicheira estão completamente resistentes à invermectina e muito resistentes à moxidectina, grandemente empregada nos protocolos de cura de umbigo.
“Enterotoxemia” volta a matar no Rio Grande do Sul
Veterinário de empresa de nutrição detectou um foco de “enterotoxemia” num grande confinamento no município de Chapada (RS). Segundo o levantamento morreram três bovinos, com 40 a 50 dias de cocho, após algumas horas do surgimento dos seguintes sintomas: afastamento do rebanho, perda de apetite, empanzinamento (meteorismo gasoso), queda e morte.

Causa da morte de bezerro foi identificada por enterotoxemia
No histórico do caso foi constatado que alguns dias antes do surgimento dos casos, por um problema de manejo, ocorreram troca nos constituintes da ração, de milho, para triguilho e deste alimento para aveia, ofertada em grande quantidade. Além do mais, chuvas intensas e persistentes na região geraram grande quantidade de lama no piso do confinamento.
Na necrópsia dos animais foram encontrados acúmulo de gás no intestino grosso, inflamação, manchas arroxeadas na parede do intestino e presença de conteúdo hemorrágico no interior do intestino delgado, e grande quantidade de grânulos de aveia no interior do rúmen.
O diagnóstico clínico foi fechado como “enterotoxemia” (corretamente denominado de enterite necro-hemorrágica), causado por mudanças no manejo alimentar, excesso de grãos energéticos (aveia), e estresse (chuva), que favorece a paralisia dos intestinos (identificado pelo acúmulo de gás no local), oferecendo todas condições para o crescimento exagerado no intestino delgado de uma bactéria denominada Clostridium perfringens tipo A , que na sua multiplicação produz toxinas, que causam necrose intestinal e morte.
O foco foi resolvido com aumento da quantidade de fibra na dieta (por mais oferta de silagem), volta do milho em grãos triturado, porém em quantidade ligeiramente inferior.
Pesquisa revela resistência de carrapatos aos carrapaticidas
Depois de análise de uma centena de amostras de carrapatos, obtidos de gado de corte, oriundos de 51 municípios da Região Sul (RS, SC e PR), o Centro de Pesquisa em Saúde Animal Desidério Finamor, do RS, apresentou importantes dados sobre a resistência destes parasitas às principais bases de carrapaticidas comerciais. Os dados assustam!

Biocarrapaticidograma para testar resistência
O pesquisador Guilherme Klafke identificou que em 72% das propriedades acompanhadas têm carrapatos completamente resistentes a cinco ou mais carrapaticidas, e em 10 % de outras fazendas “o caldo entorna” para mais de sete bases de carrapaticidas comerciais. Dentre a lista negra estão as seguintes bases de carrapaticidas: cipermetrina; fipronil, amitraz, ivermectina e fluazuron. A boa notícia é que ainda funcionam, razoavelmente a muito bem, os organosfosforados, os piretróides e o fluralaner.
Vários fatores interferiram, no decorrer dos tempos, para que os carrapaticidas perdessem sua ação mortífera. Sem dúvida, a principal causa é o excesso de uso contínuo e prolongado, e muitas vezes desnecessário, de uma mesma base de carrapaticida por pecuaristas e por técnicos.
Geralmente, nos primeiros cinco anos que uma nova base é lançada no mercado ela funciona como uma luva, se tornando a tábua de salvação e o carrapaticida da “moda”, porém aos poucos vai selecionando populações de carrapatos resistentes, que transmitem essa capacidade para as novas gerações.
Agora o Desidério Finamor, quer ampliar o programa para outros estados, e firmou convênio para enviar kits diagnósticos do teste de resistência aos carrapaticidas com as seguintes Universidades Federais: Maranhão, Rio de Janeiro e Goiás. Iniciativas assim são muito positivas e bem-vindas e deveriam se estender para todo o Brasil.
Focos e surtos de raiva bovina Brasil afora
- São Paulo – Vargem Grande do Sul
- Rio Grande do Sul – Dom Feliciano
- Pará – Ausência de casos raiva, mas a Adepará comunica que no momento existem 20 equipes preparadas para capturar morcegos hematófagos em propriedades com alta população de quirópteros, que estejam perturbando sua boiada. Caso tenha necessidade entre em contato pelo seguinte email: gpcrh@adepara܂pa܂gov܂br
- Goiás – Casos dos municípios de Pirinópolis e Itapaci. Semelhante ao estado do Pará, a Agrodefesa de Goiás realiza captura de morcegos em fazendas. Caso tenha necessidade entre em contato ´pelo telefone do Disque-denúncia: 0800 646 11 22.
- Piauí – Ausência de casos de raiva. Para captura de morcegos entre em contato com educacaosanitaria@adapi܂pi܂gov܂br que as equipes da ADAPI podem te ajudar.

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Jornada de 40 horas pode exigir reestruturação de escalas e contratos no Brasil
Proposta reduz carga semanal, amplia descanso remunerado e desafia setores dependentes de operações ininterruptas.

A aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 221/2019, que reduz a jornada semanal para 40 horas, assegura dois dias de repouso semanal remunerado e proíbe a redução salarial, inaugura uma das mais profundas reformas nas relações de trabalho desde 1988. A proposta, agora em tramitação no Senado Federal, altera o artigo 7º da Constituição e redefine a lógica jurídica da duração do trabalho no Brasil.

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O debate social que impulsionou a PEC é legítimo, visto que a busca pelo equilíbrio entre trabalho e vida privada tornou-se central nas economias contemporâneas. Contudo, sob o prisma técnico-jurídico, o texto aprovado apresenta graves defeitos estruturais capazes de gerar insegurança jurídica, explosão de litigiosidade e severos impactos econômicos nos setores produtivos.
O erro capital da proposta reside na rigidez de sua constitucionalização. A PEC estabelece um modelo uniforme para atividades econômicas completamente distintas, ao impor constitucionalmente dois dias de repouso semanal remunerado, um deles preferencialmente aos domingos.
Essa uniformização ignora a complexidade operacional de setores dependentes de turnos ininterruptos, como saúde,

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comércio, hotelaria, segurança, logística, agronegócio e indústria. Embora o texto acene com a compensação por negociação coletiva, restringe a flexibilidade a uma contabilidade “na média”, com a obrigação de cumprir ao menos um repouso semanal dentro da própria semana. A margem de manobra das empresas, portanto, desaparece.
Regimes diferenciados de trabalho
A dificuldade técnica se agrava porque o texto simula permitir regimes diferenciados por lei, mas condiciona essa flexibilização aos limites rígidos fixados nos novos incisos do artigo 7º (oito horas diárias, 40 horas semanais e dois descansos). Na prática, a proposta promete uma saída que ela mesma tranca, o que inviabiliza as escalas e regimes especiais permanentes exigidos pela dinâmica de diversos setores.

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Outro ponto crítico é a colisão frontal entre a PEC e a autonomia coletiva. O Supremo Tribunal Federal, no julgamento do Tema 1046 da repercussão geral, consolidou o entendimento de que as normas coletivas podem pactuar a flexibilização de direitos trabalhistas, desde que preservado o patamar civilizatório mínimo. Ao constitucionalizar parâmetros engessados, a proposta esvazia o papel dos sindicatos e anula a construção de soluções setoriais customizadas.
Perda de eficácia
A situação se torna ainda mais alarmante com a regra que decreta a perda de eficácia, em apenas 60 dias, de cláusulas de acordos e convenções coletivas incompatíveis com o novo regime. Essa ruptura abrupta será, inevitavelmente, o estopim de uma avalanche de ações judiciais.
A invalidação sumária de instrumentos vigentes destrói a lógica de concessões recíprocas da negociação sindical e

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compromete a estabilidade das pactuações. Normas coletivas possuem prazo determinado, impactos financeiros previamente calculados e servem de base para o planejamento empresarial. Subvertê-las em prazo tão reduzido afronta os princípios constitucionais da proporcionalidade, da proteção da confiança legítima e do ato jurídico perfeito.
Do ponto de vista econômico, o aspecto mais preocupante está na aplicação imediata das novas regras aos contratos vigentes sem redução salarial. A diminuição da jornada, com a manutenção de salários nominais, pisos e estruturas remuneratórias, eleva automaticamente o custo da hora trabalhada.

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Impacto financeiro
O impacto financeiro dessa rigidez constitucional ultrapassa a contabilidade interna das empresas e atinge diretamente as contas públicas e os contratos de terceirizações de mão de obra intensiva junto ao Poder Público. A ausência de mecanismos constitucionais claros para o reequilíbrio econômico-financeiro desses vínculos gerará uma onda inevitável de pedidos de repactuação ou rescisão forçada, em flagrante ofensa à livre iniciativa.
Diante desse cenário, o Senado Federal, historicamente reconhecido como a ‘Câmara Alta’ e o guardião do pacto federativo, assume o papel essencial de freio analítico. Cabe à Casa revisar o açodamento da Câmara e calcular o reflexo inflacionário nos serviços essenciais, sob o risco de converter o avanço social em colapso na prestação de serviços básicos.
O impacto da proposta também alcança os planos de cargos e salários e as normas coletivas já em execução. Apesar

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disso, o texto omite mecanismos constitucionais claros de reequilíbrio econômico-financeiro para as empresas afetadas. Essa lacuna fere diretamente a livre iniciativa. O STF já reconheceu que reformas constitucionais se submetem a limites materiais implícitos quando atingem a estabilidade institucional e a proteção das relações jurídicas consolidadas.
A dubiedade do texto também alcança as jornadas já inferiores a 40 horas. Embora declare preservar as situações mais benéficas, a PEC submete essas categorias às novas regras de repouso semanal, o que detonará disputas jurídicas sobre a validade de regimes como o de 12×36, banco de horas e turnos diferenciados de compensação.

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Exiguidade da transição
Por fim, chama atenção a exiguidade da transição. O texto estabelece redução para 42 horas semanais em 60 dias e a implementação definitiva das 40 horas em apenas 12 meses. Para setores complexos, este intervalo é insuficiente para organizar escalas, renegociar contratos, adaptar sistemas de ponto e promover contratações adicionais.
A experiência internacional demonstra que reformas profundas de jornada exigem gradualismo, incentivos econômicos e mecanismos robustos de transição regulatória. A PEC brasileira, contudo, impõe uma mudança estrutural ampla em prazo incompatível com a heterogeneidade da economia nacional.
A discussão agora bate à porta do Senado Federal. Caberá à Casa o bom senso de converter o açodamento legislativo em um debate técnico real. Alterar a rotina produtiva do país sem o devido gradualismo não protege o trabalhador; destrói a viabilidade dos negócios que sustentam o seu emprego. O parlamento tem em mãos a chance de aperfeiçoar o texto, para evitar o risco real de converter uma legítima bandeira de bem-estar social em um histórico motor de desorganização econômica, desemprego e litigiosidade em larga escala.
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Quando o crédito deixa de financiar sonhos e passa a financiar a sobrevivência
Endividamento recorde de famílias e empresas revela distorções que comprometem o desenvolvimento econômico.

O Brasil enfrenta um desafio econômico que exige atenção imediata: o avanço do endividamento das famílias e das empresas. Mais do que um problema conjuntural, trata-se de uma questão estrutural que afeta o consumo, os investimentos, a geração de empregos e a capacidade de crescimento sustentável do País. Nesse cenário, tornam-se fundamentais o fortalecimento da educação financeira e a ampliação de modelos de crédito mais próximos das necessidades da população e do setor produtivo.
Os números revelam a dimensão do problema. Atualmente, o País registra 82,8 milhões de CPFs negativados, o equivalente a 50,5% da população adulta. Em outras palavras, para cada brasileiro adimplente existe um inadimplente. No ambiente empresarial, a situação também é preocupante: são 8,87 milhões de CNPJs negativados. Os dados do Banco Central e da Serasa evidenciam uma realidade que compromete o desenvolvimento econômico e social.
As famílias de menor renda são as que mais recorrem ao crédito. Muitas vezes, o financiamento deixa de ser uma ferramenta para realização de projetos e passa a ser utilizado para cobrir despesas básicas. O resultado é um ciclo de endividamento que reduz a capacidade de planejamento e aumenta a vulnerabilidade financeira.
Entre as empresas, observa-se uma situação igualmente preocupante. Em vez de financiar expansão, inovação ou

Imagem criada pelo ChatGPT/Jaqueline Galvão/OP Rural
modernização, o crédito é frequentemente utilizado para manter as operações em funcionamento, pagar fornecedores e cumprir compromissos correntes. Quando o crédito deixa de impulsionar investimentos e passa a financiar a sobrevivência, perde-se um importante motor de crescimento econômico.
Parte dessa realidade decorre da baixa capacidade de poupança nacional. O Brasil possui uma taxa de poupança equivalente a apenas 14,5% do Produto Interno Bruto, uma das menores do mundo. Como a poupança é a principal fonte de financiamento dos investimentos públicos e privados, sua insuficiência contribui para a elevação dos juros e para a escassez de recursos disponíveis ao setor produtivo.
A situação é agravada pela elevada participação do governo no mercado de crédito. Hoje, de cada R$ 100 que circulam na economia sob a forma de crédito, R$ 44 são absorvidos pelo setor público. Restam apenas R$ 56 para atender milhões de famílias e empresas. Essa disputa por recursos escassos pressiona as taxas de juros e restringe ainda mais o acesso ao financiamento.
O desequilíbrio fiscal também contribui para esse cenário. O crescimento contínuo dos gastos públicos aumenta a percepção de risco, encarece o financiamento da dívida e mantém os juros elevados por mais tempo. Os reflexos atingem diversos setores, inclusive o agronegócio, onde o crédito rural enfrenta dificuldades crescentes, com aumento das exigências de garantias, maior distância entre os valores anunciados e efetivamente liberados e índices históricos de inadimplência.
Diante desse contexto, a educação financeira assume papel estratégico. Mais do que ensinar conceitos de orçamento e investimento, ela promove uma cultura de planejamento, responsabilidade e visão de longo prazo, permitindo que famílias e empresas tomem decisões mais conscientes.
Igualmente importante é reconhecer o papel das cooperativas de crédito. Em um ambiente marcado pelo alto custo
financeiro, elas oferecem uma alternativa baseada na proximidade com os associados, na gestão democrática e no compromisso com o desenvolvimento regional.
Santa Catarina é referência nesse segmento. O ramo crédito reúne 69 cooperativas financeiras, com cerca de 4 milhões de associados e 20,8 mil colaboradores. Em 2024, essas cooperativas registraram receitas totais de R$ 28,7 bilhões, crescimento de 36% em relação ao ano anterior. Esses números demonstram a força de um modelo que reinveste recursos nas comunidades e amplia o acesso ao crédito em condições mais adequadas.
Em um País marcado pela baixa poupança, pelo elevado endividamento e pela escassez de crédito produtivo, as cooperativas de crédito representam parte importante da solução. Ao promover inclusão financeira, educação econômica e desenvolvimento local fortalecem famílias, empresas e comunidades. Construir um futuro mais próspero passa, necessariamente, pela responsabilidade fiscal, pela educação financeira e pela valorização de modelos cooperativos que coloquem as pessoas no centro das decisões econômicas.
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Do Arco Norte às enchentes no Sul: os novos desafios do agro brasileiro
Diferenças regionais moldam estratégias de produção, logística e adaptação climática em um setor que respondeu por 48,5% das exportações do país em 2025.

Enquanto o Norte amplia sua importância como corredor logístico e nova fronteira de expansão agrícola, o Sul busca se adaptar aos impactos crescentes das mudanças climáticas sem abrir mão da alta produtividade que historicamente caracteriza a região. Mais do que diferenças geográficas, esse contraste revela dois modelos distintos de desenvolvimento que ajudam a explicar os rumos do agronegócio brasileiro.

Foto: Shutterstock
Os números demonstram a relevância do setor para a economia nacional. Em 2025, o agronegócio brasileiro alcançou exportações recordes de US$ 169,2 bilhões, respondendo por 48,5% das vendas externas do país. Por trás desse desempenho, no entanto, existe uma realidade marcada por características regionais bastante diferentes, que influenciam desde a produção até a competitividade internacional.
Nova fronteira agrícola e logística
No Norte, o clima equatorial, com elevadas temperaturas, alta umidade e grande volume de chuvas ao longo do ano, favorece culturas como cacau, açaí e diversas frutas tropicais. Ao mesmo tempo, essas condições impõem desafios significativos à infraestrutura logística. O excesso de chuvas pode dificultar o transporte, elevar custos operacionais e aumentar a complexidade da armazenagem e do escoamento da produção. Nos últimos anos, porém, a região também passou a registrar um crescimento expressivo na produção de soja e milho, especialmente em estados como Pará, Tocantins e Rondônia.

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A expansão dessas safras transformou parte do Norte em uma nova fronteira agrícola nacional, ampliando a relevância nas exportações. Porém, garantir o sucesso desse avanço requer um planejamento técnico refinado, capaz de responder às instabilidades climáticas e adaptado às realidades de solo, regime hídrico e infraestrutura.
Apesar dessas limitações, a região ganhou relevância estratégica nos últimos anos graças ao fortalecimento do chamado Arco Norte, conjunto de corredores logísticos e portos responsáveis por ampliar significativamente o escoamento de commodities agrícolas para os mercados internacionais. A redução das distâncias de transporte e a diversificação das rotas de exportação transformaram a região em um importante elo da cadeia agroexportadora brasileira.
Além da expansão logística, o Norte apresenta uma dinâmica produtiva fortemente conectada à biodiversidade local

Foto: Divulgação/OP Rural
e à valorização de produtos associados à floresta, criando oportunidades que combinam agricultura, desenvolvimento regional e sustentabilidade.
Tecnologia reduz riscos
Contudo, mesmo em áreas historicamente úmidas, períodos de estiagem mais prolongados começam a alterar o planejamento agrícola. Dentro desse contexto, cresce o uso de sistemas de irrigação por pivô central, um equipamento automatizado que se move de forma circular sobre a lavoura por meio de torres com rodas. Sua principal função é distribuir água de maneira uniforme, assemelhando-se às chuvas, sendo assim, é uma alternativa para garantir estabilidade produtiva.

Foto: Pareekshith Indeever/Pexels
Atualmente, a adoção dessa tecnologia modifica diretamente a forma como os produtores estão organizando o calendário de plantio, escolhendo cultivares e administrando os recursos hídricos disponíveis. Com a menor previsibilidade climática, os produtores que dispõe de ferramentas como essa conseguem distribuir melhor o risco da produção e ampliar a segurança operacional das lavouras.
Resiliência climática
Já a região Sul possui um perfil bem diferente, com uma agricultura consolidada, elevado grau de mecanização e forte presença do cooperativismo, os estados do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina estão entre os maiores produtores nacionais de soja, milho, trigo, arroz, aves e suínos. O clima subtropical, marcado pela definição das estações e pela ocorrência de temperaturas mais baixas durante parte do ano, contribuiu historicamente para a diversificação e o desenvolvimento tecnológico das atividades agrícolas.
Entretanto, o Sul enfrenta hoje um desafio crescente: a intensificação dos eventos climáticos extremos. As

Foto: Divulgação/Embrapa
enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 e os períodos recorrentes de estiagem observados nos últimos anos evidenciam como as mudanças climáticas vêm afetando a produtividade das safras e o planejamento dos produtores rurais. Destaca-se também as geadas fora de época e episódios de chuvas de granizo que geram perdas relevantes em culturas como milho, trigo e hortaliças, comprometendo tanto a qualidade quanto o volume da produção. Como consequência, custos operacionais são elevados e dificultam a previsibilidade do setor agrícola, tornando a adaptação climática uma prioridade.
Investimentos em agricultura de precisão, manejo sustentável, monitoramento meteorológico e tecnologias voltadas à resiliência produtiva ganham cada vez mais importância para reduzir riscos e preservar a competitividade do setor. Entre as principais estratégias, cresce a busca por variedades geneticamente mais resistentes às oscilações bruscas de temperatura e ao excesso de umidade. A escolha das sementes, por exemplo, deixa de seguir somente critérios de produtividade e passa a considerar a adaptabilidade às condições específicas de cada território. O Norte demanda variedades tolerantes a alta umidade e solos tropicais, enquanto o Sul depende da ampliação do uso de materiais mais resistentes à estiagem, ao frio intenso e às variações climáticas repentinas.

Foto: Imagem criada por Jaqueline Galvão/ChatGPT/OP Rural
Ao comparar as duas regiões, fica evidente que o Norte e o Sul enfrentam desafios distintos, mas igualmente estratégicos. De um lado, a necessidade de ampliar infraestrutura logística e conciliar expansão produtiva com sustentabilidade ambiental. De outro, o desafio de adaptar sistemas agrícolas altamente desenvolvidos a um cenário climático cada vez mais instável e imprevisível. Em comum, ambas as regiões demonstram que inovação, logística eficiente e capacidade de adaptação serão fatores decisivos para manter o Brasil entre os principais protagonistas do mercado agrícola global.
O futuro do agronegócio brasileiro não será definido por uma única região, mas pela capacidade de integrar diferentes vocações produtivas e superar desafios específicos de cada território, essa é a lição de casa.



