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Queda na produtividade, mas ganho em rentabilidade

Apesar de o produtor de grãos ter sofrido com as mudanças climáticas durante o ciclo do milho safrinha deste ano, o preço favorável do grão no mercado interno está praticamente compensando as perdas

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Enquanto a colheitadeira desliza pela lavoura localizada à direita da vila de Novo Três Passos, interior de Marechal Cândido Rondon, Oeste do Paraná, sob o olhar atento de Valdemar Schaefer, os filhos do agricultor, Eduardo e Leonardo, comandam a colheita na outra metade da propriedade, localizada no extremo esquerdo do distrito rondonense – indicando que a quarta geração da família já está pronta para continuar com o trabalho no campo.

Apesar de cuidar da terra há apenas um ano e meio, os 24 anos de experiência como engenheiro agrônomo garantem a Schaefer o conhecimento necessário para entender porque as 24 mil sacas colhidas no ano passado podem chegar a pouco mais de 17 mil nos 200 hectares em que planta neste ano. “Nunca uma safrinha é igual a outra, e nesse ano não foi diferente. Muita coisa jogou contra a safrinha. Se na última o clima foi espetacular, nesta o milho sofreu com a estiagem, as baixas temperaturas, a falta de luz e, no último minuto, com a geada”, explica.

Mesmo semeando a área igual à última safrinha, a produtividade média de 300 sacas por alqueire alcançada no ano passado pelo produtor deve cair para 200 a 250 sacas neste ano. Contudo, ele explica que em termos de qualidade do grão, não há preocupação. “O agricultor que escolheu os híbridos que, comprovadamente, são especiais em garantia de qualidade e produtividade não vai ter preocupações agora no fim da safra com o que está entregando”, ressalta. “A minha produtividade não é aquilo que eu gostaria, mas estou ciente de que com esse clima o milho não poderia entregar mais do que entregou”, complementa.

A Poucos Passos do Fim

Schaefer é um dos últimos agricultores com as máquinas no campo na região. A estimativa do Departamento de Economia Rural (Deral), ligado à Secretaria de Estado de Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Seab) de Toledo, Oeste do Estado, é de que 85% da área semeada no Oeste paranaense já esteja colhida – com variação para mais ou para menos em alguns municípios. Mesmo antes do fim da colheita, o órgão já estima quebra de 5,2% em relação à produção do ano passado, que chegou a 2,652 milhões de toneladas. Já em comparação à estimativa para este ano, que apontava a colheita de 2,687 milhões de toneladas, a quebra chega a 7%. A colheita da safrinha deste ano no Oeste paranaense deve chegar aos 2,512 milhões de toneladas. “Tivemos lavouras que sofreram logo no início do ciclo, principalmente as semeadas tardiamente, que passaram por uma estiagem no mês de abril, um período em que as plantas precisavam de chuva”, ressalta o especialista em Agronegócios e Agrobusiness e técnico Deral, João Luis Nogueira.

Pela água não ter chego a apenas parte das lavouras é que o Deral considera a qualidade dos grãos colhidos muito boa, estando as perdas e a quebra da produção dentro de uma perspectiva normal. “Tínhamos uma expectativa de que as geadas que ocorreram agora no fim do ciclo afetassem a qualidade do grão, mas isso não aconteceu, já que as lavouras estavam bastante adiantadas. O milho colhido está muito bom e a produtividade dentro da normalidade”, ressalta.

Para o morador de Novo Três Passos, um dos fatores decisivos para o desenvolvimento do milho que não esteve presente nesta safrinha foi a luz em abundância. Segundo Schaefer, por pelo menos 40 dias o clima permaneceu nublado e as temperaturas baixas, o que roubou parte da produtividade das lavouras. “Primeiro foi a seca, depois as temperaturas baixas e o tempo  nublado em praticamente junho inteiro, e agora, quase no final, a geada que interrompeu o ciclo”, menciona o agricultor.

Alta rentabilidade

Se a quantidade de produção à primeira vista desanima os produtores, o preço do milho no mercado pode garantir a “luz no fim do túnel”. Para Schaefer, o preço está quase compensando a perda da produção. No ano passado, a saca do milho safrinha foi comercializada por ele na média de R$ 19 e R$ 20 e, em contratos futuros, a R$ 24. “E eu já estava feliz com esse preço”, garante.

Neste ano, a saca está sendo vendida na média de R$ 33, contudo, o valor do cereal no mercado já está subindo, chegando a R$ 37. “Se eu vender entre R$ 33 e R$ 40 chego praticamente à rentabilidade dos R$ 19 e R$ 20 do ano passado, mesmo com a baixa na produção”, expõe.

A elevação do preço experimentada pelo mercado neste ano, conforme explica o especialista em Agronegócios e Agrobusiness, ocorreu pelo enxugamento  dos estoques internos de milho, estimulado pelo aumento das exportações do cereal brasileiro, que subiram exponencialmente nos últimos dois anos. “Com os preços alavancados pela exportação, ocorreu um ajustamento de oferta e demanda de milho no mercado interno, o que deu suporte para os preços fazendo que o milho chegasse a patamares acima de R$ 40 a saca no mercado físico”, explica.

Com a entrada da safrinha, contudo, o técnico do Deral menciona que é natural uma leve queda no valor do cereal, já que a oferta de milho no mercado interno começa a aumentar, levando a regularização do preço. “Mas esse valor também não caiu tanto, porque já vemos uma reação, tendo em vista que a demanda interna é intensa, bem como a externa, pelos contratos de exportação que estão em curso o mercado ser de boa liquidez para o milho”, diz, segundo o qual, o preço de balcão do cereal está em R$ 37,50.

Nogueira ressalta também que, com a definição da safra dos Estados Unidos – maior produtor mundial de milho e que aponta para uma boa produtividade – os preços do mercado externo devem deixar de ser favoráveis. Entretanto, o milho ainda terá suporte no mercado interno. “A produção de milho também não vem crescendo na mesma proporção da demanda. O mercado consumidor é maior que a oferta do cereal e esse é o maior fator de suporte para os preços do milho”, completa. Apesar de um ano atípico, o especialista comenta que o preço do milho visto em 2016 e a demanda por consumo interno e externo do produto brasileiro se tornarão algo normal daqui para frente. Ele aponta que, com a demanda interna de soja e milho crescendo de forma desproporcional à oferta no Brasil, a saída é que os produtores brasileiros cumpram o seu papel de produzir ainda mais para suprir as demandas tanto de cereal quanto de proteína, que também deve ter o consumo aumentado nos próximos anos. “O Brasil é um grande fornecedor porque outros países estão com as fronteiras praticamente fechadas, por isso quem pode evoluir em termos de produção para exportação é o Brasil”, finaliza.

Depois da tempestade…

Vem a calmaria? Para o presidente da Associação Paranaense de Suinocultores (APS), Jacir Dariva, ainda não. Sofrendo com o valor elevado do milho desde outubro do ano passado, os suinocultores ainda não puderam respirar aliviados com a queda no preço do cereal. “O setor consumidor acreditava que a retraída no preço seria maior. Essa queda ainda não foi sufi ciente para baixar o custo de produção”, menciona.

Com a alta do milho, principal matéria-prima para alimentar aves e suínos para o posterior abate, não está fácil para o produtor e empresas integradoras continuarem em pleno funcionamento. Dariva lembra que foi em meados de agosto do ano passado que os suinocultores paranaenses ainda conseguiram pagar o custo de produção, entretanto, já em setembro a conta dos produtores começou a zerar.

“Quando o milho ‘explodiu’ entre outubro e novembro não houve mais salvação. Hoje todos os produtores estão pagando para produzir e muitos deixaram a atividade”, ressalta. “Com o custo de produção na faixa de R$ 4 por quilo do suíno, levando em conta o preço da saca de milho para os suinocultores que não apostam na produção de grãos na média de R$ 43, e o suíno vendido, em média, a R$ 3,30 e R$ 3,40, se na época de colheita do milho estamos tendo prejuízo, imagina quando a safra acabar”, avalia.

Para o presidente da APS, as perspectivas são “desesperadoras” para o fim do ano, com média de 20% a 30% de baixa nas granjas paranaenses e muitas outras fechando, especialmente aquelas que não são integradas ou parceiras de cooperativas. “O produtor de grãos precisa ter lucro, mas logo a cadeia suína vai ter uma diminuição grande de animais disponíveis. Talvez esse seja o ano do produtor de grãos e, ano que vem, do produtor de carnes”, aposta.

Na opinião do presidente do Sindicato das Indústrias de Produtos Avícolas do Estado do Paraná (Sindiavipar), Domingos Martins, o agronegócio brasileiro precisa defi nir uma boa estratégia, como exportar a carne com valor agregado do que apenas a commodity. “Precisamos preservar o emprego e toda a movimentação de uma cadeia. Se exportamos apenas o milho, privilegiamos só o emprego de quem plantou e colheu. Felizmente, agora estamos sendo supridos pelas cooperativas e os preços da saca de milho já estão em patamares bem melhores do que há 45 dias, quando estavam na estratosfera”, ressalta.

Martins acredita que, com o plantio que deve iniciar entre agosto e setembro, o produtor fará bons cálculos, já as duas commodities têm esse mercado internacional. “Para a sorte do consumidor nacional, os estoques internacionais estão confortáveis e não existe grande procura desses produtos”, comenta.

Fonte: O Presente

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Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira

Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

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A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.

O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta

Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.

Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.

Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem

É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.

Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

 

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.

Ajuste fino, não ruptura

A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.

Fonte: Assessoria Biond Agro
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Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026

Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

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Fotos: Shutterstock

O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.

No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”

Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.

O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.

Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.

Padronização da produção

O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.

Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.

Mercados internacionais em expansão

O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.

Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.

Oscilações do mercado

Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.

Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.

Processo de adaptação

Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.

A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.

Gargalos persistem

Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.

A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.

Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.

Dependência do mercado interno

Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.

No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.

Pilares da pecuária

A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.

Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.

Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.

Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.

Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.

Visão de futuro

Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.

Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.

Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.

Fonte: O Presente Rural
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Brasil lança selo para fortalecer mercado de carne premium

Iniciativa incentiva o cruzamento entre vacas leiteiras e touros Angus, ampliando a oferta de carne de alto valor e criando nova fonte de renda para produtores de leite.

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Foto: Edu Rocha

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.

Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.

O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.

Foto: Fernando Goss (bovinos Angus)

“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.

 

Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.

Participação técnica da Embrapa

Foto: Renata Suñe (Holandesas)

A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.

 

A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.

Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.

Fonte: Assessoria Embrapa Pecuária Sul
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