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Quebra na safrinha faz Paraná entrar na briga para comprar milho
Com quebra na safrinha, paranaenses deixam de ser exportadores para importar e comprar o cereal de outros Estados, e compensar o déficit de 4 milhões de toneladas

A produção de proteínas animais na região Sul do Brasil tem no Paraná um pilar estruturante no abastecimento de milho. O cereal produzido em território paranaense, principalmente na segunda safra, é crucial para a alimentação animal (especialmente de suínos e aves) em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. O que ninguém contava é que a seca e a geada seriam implacáveis na temporada 2020/21. Em vez das 14,6 milhões de toneladas de milho previstas inicialmente, as lavouras estaduais devem gerar em torno de 6 milhões de toneladas – a menor colheita da última década.
As perdas nas lavouras do Estado se repetem em praticamente todas as regiões. Em Nova Esperança, no Noroeste, Leonardo Pasquini contabiliza os prejuízos nos 120 hectares dedicados ao milho safrinha. O primeiro tropeço foi uma seca de quase dois meses, o que já tinha diminuído o potencial produtivo da lavoura em cerca de 30%. Em julho, três dias seguidos de geada levaram embora mais 30% da colheita. “As espigas estavam novas ainda, com grão leitoso, então além de comprometer a produtividade, também afetou a qualidade”, lamenta o agricultor.
Em Assaí, no Norte do Paraná, Sergio Munh apostou 100 hectares no milho segunda safra. Na região não houve problema de estiagem e o cereal vinha se desenvolvendo bem. “A geada pegou o milho bem no ponto de fazer pamonha [milho verde]. Eu calculo uma quebra de até 60%. O que resta é esperar o ano que vem, torcer para que o clima seja favorável e plantar de novo”, reflete Munh.
A principal consequência dessas perdas é que, em vez de vender o cereal excedente para catarinenses e gaúchos ou mesmo para a exportação, o Paraná vai ter que disputar com seus vizinhos espaço na corrida pela compra de milho da Argentina, Paraguai e de outros Estados (Mato Grosso e Goiás, principalmente). A boa notícia é que não vai faltar milho para as cadeias de proteínas animais. Em compensação, o grão que já está caro (saca perto dos R$ 100) vai ficar ainda mais.
Esse cenário preocupa quem atua na produção de proteínas animais, caso dos Artoni. Além de contabilizar perdas em 170 hectares de milho em Naviraí, no Mato Grosso do Sul, a família tem 50 hectares no município de Rondon, no Noroeste do Paraná, onde mantêm 200 cabeças de boi. Além disso, eles têm quatro aviários capazes de abrigar 80 mil frangos por lote. “A ração já vem subindo desde o ano passado e os custos de produção no geral estão em alta. Na pecuária pelo menos o preço da arroba está acompanhando, mas nós estamos nos preparando para tempos difíceis daqui para frente”, projeta Bianca Artoni.
Escassez
A preocupação de Bianca é a mesma de todo o setor agroindustrial no Paraná, já que o milho é um dos combustíveis do agronegócio – seu custo impacta diretamente em todas as cadeias produtivas. Flávio Turra, gerente de desenvolvimento técnico do Sistema Ocepar (entidade que representa as cooperativas estaduais) calcula que o Paraná consome de 12 a 13 milhões de toneladas do cereal para abastecer as cadeias de proteínas animais. Somando a primeira safra (3,1 milhões de toneladas) com a safrinha (6 milhões de toneladas), o Paraná produzirá em 2020/21, 9 milhões de toneladas. “Como se esperava que o Paraná fosse produzir 17,5 milhões, em tese sobrariam cerca de 5 milhões de toneladas. Agora, estamos com déficit de mais ou menos 4 milhões de toneladas”, estima Turra.
O especialista lembra que essa conta não é tão simples, já que sempre há movimentação de milho entre Estados e as exportações, mas serve para ilustrar a escassez do cereal que já está sendo vivida pela agroindústria. “De fornecedor para Santa Catarina e Rio Grande do Sul e exportador, entramos na lista de compradores de milho para abastecer a nossa demanda interna. Em síntese, vamos ter matéria prima disponível para atender a demanda, porém, com custo alto e com uma logística mais cara”, resume o gerente no Sistema Ocepar.
O presidente do Sindicato das Indústrias de Produtos Avícolas do Estado do Paraná (Sindiavipar), Irineo Costa Rodrigues, reitera que a escassez do cereal já é uma realidade e que deve se intensificar entre o fim de 2021 e o início de 2022. “Os estoques estão baixos e só temos perspectiva de melhora nesse aspecto com a colheita da próxima safra, isso se tudo correr bem. Vamos ter que importar. Com o dólar a mais de R$ 5, o produto vai chegar caro nos portos brasileiros”, estima.
Rodrigues demonstra preocupação ainda com a interiorização do cereal, já que a estrutura do Paraná é para escoar grãos do campo para o porto, não o contrário. “A nossa logística não foi desenhada para isso. Os portos são especializados em embarque de grãos, não no desembarque. O desenho hoje é ir com soja e milho e voltar com fertilizante. Agora, além de voltar com adubo, os caminhões e trens vão ter que voltar com milho, e o custo desse frete vai ser contabilizado no preço final pago pelas indústrias”, aponta.
A curto prazo, na opinião de Rodrigues, os aspectos práticos para a interiorização do milho precisam ser prioridade do governo estadual, em eventuais adequações de emergência. A médio e longo prazos, é preciso ampliar a capacidade de armazenamento de grãos para que seja possível ter estoques de passagem maiores. “Não é um problema de agora, mas temos que começar a resolver. A produção aumentou muito e a armazenagem não aumentou na mesma proporção”, avalia.
Balança desfavorável
De acordo com levantamento do Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema FAEP/SENAR-PR, de janeiro a julho de 2021, o Paraná já importou 670 mil toneladas de milho, o que representa um aumento de 157% em relação ao mesmo período do ano passado (260 mil toneladas). Isso pagando 39% a mais por tonelada (média de US$ 204,71 em 2021 contra US$147,33 em 2020).
Por outro lado, as exportações de milho pelo Paraná praticamente deixaram de existir de maio em diante. Somando maio, junho e julho, o total de milho exportado ficou em 120 toneladas, contra 70,8 mil toneladas em 2020 e 1,6 milhão de tonelada em 2019.
O técnico Edmar Gervásio, do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Paraná (Seab), aponta que as importações do cereal devem seguir aquecidas, mas sem precisar o quanto de cereal deve vir de fora. “Podemos ter a indústria de suínos fazendo adaptações, como colocar trigo na composição da ração. Na avicultura, tem formas de diminuir o consumo de milho, aumentando ou diminuindo o ciclo da ave, desalojar matrizes. Tem vários detalhes que a indústria pode e normalmente faz para reduzir seu consumo de milho em momentos assim”, sinaliza.



Perspectivas
O analista de inteligência de mercado da StoneX, João Lopes, reforça que o principal impacto da quebra será inevitavelmente na pressão sobre os preços, com potencial para ficar acima dos R$ 100 a saca. Outro ponto é a redução das exportações de milho pelo país, que no ano passado ficaram em 35 milhões de toneladas. “Nesse ano deve fechar em 19 milhões de toneladas”, projeta Lopes. “O preço no Brasil está mais competitivo do que a cotação para exportação. Além disso, a quebra de safra afetou a qualidade dos grãos e pode ser que muito do cereal não atinja a qualidade mínima necessária de exportação”, analisa.
Por outro lado, o analista aposta num aquecimento das importações de milho. A nível nacional, o Brasil importa, em anos normais, em torno de 1,5 milhão de toneladas – basicamente da Argentina e do Paraguai. A StoneX projeta que nessa safra esse volume passe de 3 milhões. “Eu acho difícil faltar milho, mas por ora pode ser que a gente siga com um mercado pouco aquecido internamente, com poucas negociações. O produtor está esperando um pouco antes de vender para ver se o preço vai subir mais”, reflete.
Ana Paula Kowalski, técnica do DTE do Sistema FAEP/SENAR-PR, avalia que a demanda interna e a queda da estimativa de produção a cada nova divulgação de números são fatores de alta no preço do milho no mercado interno. Porém, o limite será sempre ditado pelo mercado internacional. “É preciso ficar de olho na Bolsa de Chicago e no dólar, componentes do cálculo da paridade de importação do milho”, destaca.
Na análise de Ana Paula, o preço de Chicago teve uma queda expressiva desde o início de julho (apesar de historicamente estarem bastante elevados), mas se mantém estável desde o final do mesmo mês. “A situação agora depende da divulgação de novos relatórios de produção e produtividade da safra americana, especialmente. O dólar também tem oscilado bastante desde o início de julho, e em agosto está em elevação, o que torna as importações mais caras”, diagnostica.
Setor apostas em alternativas para amenizar a crise
No médio prazo, uma das tentativas para reduzir os efeitos da crise é o incentivo aos produtores rurais a plantarem um pouco mais de milho na safra de verão, no lugar da soja. Segundo o gerente de desenvolvimento da Ocepar, Flávio Turra, o governo federal ampliou o limite de financiamento de crédito de custeio, de R$ 3 milhões para R$ 4 milhões a produtores maiores, na tentativa de obter esse resultado. Aos médios, o aumento foi de R$ 1,5 milhão para R$ 1,7 milhão.
Hoje, o preço do milho tem uma relação favorável em relação à soja. Nesse cenário, do ponto vista financeiro, em condições ideais de clima, o cereal é mais rentável do que a oleaginosa, segundo o gerente no Sistema Ocepar. “Mesmo assim, o aumento não deve ser tão expressivo. A safra de milho de verão é de 3 milhões de toneladas. Se aumentarmos vamos para algo em torno de 3,5 milhões de toneladas. O crescimento não deve passar disso”, avalia.
O presidente do Sindiavipar, Irineo Costa Rodrigues, lembra que a superação da crise da escassez do milho começa agora, em setembro, quando é preciso de chuva para plantar a safra de verão e, assim, evitar atrasos na semeadura da safrinha 2021/22.
Rodrigues também pontua que seria importante haver um aumento na área dedicada ao milho verão. Para isso, o Sindiavipar tem incentivado que as agroindústrias façam contratos de garantia de preço mínimo ao cereal – mesmo que o preço esteja menor na hora da colheita. “Mesmo que seja necessário pagar um pouco a mais pelo milho a depender das condições de mercado, para as empresas vale a pena oferecer esse tipo de contrato porque ficará mais barato do que importar”, aponta.
A diversificação dos cereais de inverno é outra aposta para amenizar a crise. As agroindústrias de modo geral estão sendo incentivadas a complementar seus portfólios de produtos, com apoio a plantas como trigo, triticale, aveia e sorgo, todos com potencial para substituir em parte o milho.
“Esses outros grãos podem ir para a pecuária. Isso ocupa menos milho que pode ser destinado a frangos e suínos. Temos que incentivar o plantio, principalmente em regiões que não são adequadas para o milho segundo safra”, propõe Rodrigues.

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Comitê lista ações prioritárias para Programa de Redução de Agrotóxico
Diário Oficial publica responsabilidade de cada instituição.

O Comitê Gestor Interministerial do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara) publica na edição desta quarta-feira (4) do Diário Oficial da União iniciativas prioritárias para implementar o plano. 

As medidas tomam por base o Decreto 12.538/2025, que criou o programa, e incluem as ações intersetoriais a serem executadas inicialmente. O plano tem validade para o biênio 2026-2027.
Ao todo, são 31 eixos de atuação, com a participação de mais de dez instituições, como ministérios do Meio Ambiente, da Saúde, Educação; da Agência Nacional de Saúde e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Entre os principiais pontos, estão ações para o desenvolvimento de alternativas aos agrotóxicos, formação e qualificação para o uso desses produtos, além de medidas econômicas e fiscais para a redução no uso desses produtos.
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Plataforma com inteligência artificial aprimora diagnóstico da ferrugem asiática da soja
Sistema em nuvem integra dados climáticos, agronômicos e imagens digitais para indicar risco da doença e recomendar manejo técnico.

Cientistas brasileiros desenvolveram uma plataforma para diagnosticar a ferrugem asiática da soja, uma das doenças mais severas que afetam a cultura. A tecnologia integra inteligência artificial (IA) com a análise combinada de dados climáticos, agronômicos e de imagens digitais. O sistema, baseado em nuvem, avalia o risco de ocorrência da doença e gera relatórios com recomendações de manejo técnico, contribuindo para decisões mais precisas no campo.
A ferramenta coleta dados de sensores ambientais, imagens digitais de folhas e parâmetros agronômicos como cultivar, espaçamento e época de semeadura. Os resultados são apresentados em um painel online, que permite aos agricultores acompanhar séries temporais de dados climáticos e imagens de plantas.
O sistema foi desenvolvido como parte do projeto Ferramenta Digital Avançada para Gestão de Riscos Agrícolas , com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo ( Fapesp ). A iniciativa fez parte do doutorado do cientista da computação Ricardo Alexandre Neves na Universidade Federal de São Carlos ( UFSCar ), com Paulo Cruvinel , pesquisador da Embrapa Instrumentação (SP), como orientador.
O estudo “Um sistema de inteligência baseado em nuvem para análise de risco de ferrugem asiática da soja em culturas de soja” foi publicado em julho de 2025 pela revista AgriEngineering .
A fusão de dados facilita o diagnóstico.
Os cientistas desenvolveram o sistema por meio de pesquisa em fazendas, utilizando um modelo que incorpora variáveis climáticas, dados relacionados a plantas de soja e dados obtidos a partir de imagens digitais de folhas de soja. As variáveis climáticas foram observadas durante o período de monitoramento da área.
“A tecnologia classifica a favorabilidade da doença em três níveis — baixo, médio e alto — dependendo da combinação de variáveis relacionadas ao estágio da infestação. Isso permite diagnósticos e prognósticos para o controle da doença com maior eficácia e precisão”, acrescenta Neves. Segundo ele, o nível de favorabilidade é definido por inferência estatística com base no comportamento do conjunto de variáveis.

Foto: Mateus Dias/Aprosoja MT
Os pesquisadores explicam que o sistema funciona combinando dados. Os principais permitem a análise de fatores essenciais para o desenvolvimento do fungo, como o período de umidade foliar — umidade relativa acima de 90%, na faixa de temperatura entre 15°C e 28°C — ou o ponto de orvalho.
O trabalho utiliza técnicas de processamento avançadas e específicas para extrair informações de imagens digitais de folhas de soja. Padrões de cores, como verde, amarelo e marrom, são associados aos estágios de progressão da doença.
Cruvinel relata que, para integrar os dados, o estudo avaliou dois métodos. Ao final, a escolha para o sistema recaiu sobre o modelo de Cadeias Ocultas de Markov, que proporciona robustez, eficácia e eficiência ao processo de tomada de decisão. Essa metodologia mostrou-se superior à lógica fuzzy, alcançando 100% de precisão na correspondência dos cenários avaliados para o risco de ocorrência da ferrugem asiática em áreas de cultivo de soja.
“O modelo desenvolvido para combinar dados de diferentes variáveis possibilitou estruturar um conjunto completo de regras que considera sistematicamente diferentes situações em que a doença tem probabilidade de ocorrer”, afirma o pesquisador.
Durante o estudo de quatro anos com a cultivar convencional de soja BRS 536 da Embrapa , os pesquisadores utilizaram mais de 2 gigabytes de dados por ciclo de cultivo, considerando informações coletadas em campos reais durante o cultivo, em parcelas georreferenciadas na região de Poxoréu-MT e fotografadas sob índices de luminosidade conhecidos.
Dados disponíveis para agricultores na web
Os relatórios analíticos disponíveis no painel de controle foram compilados com base em vinte anos de dados históricos e permitem a avaliação dos períodos do ciclo de cultivo. O sistema possui uma interface amigável para navegação, pois está organizado com informações básicas de interesse para agricultores e potenciais usuários.
Segundo Cruvinel e Neves, os relatórios visam apoiar a tomada de decisões dos agricultores relativamente à gestão das áreas cultivadas, permitindo avaliar a ocorrência ou ausência da ferrugem asiática e a severidade da doença. Além disso, oferecem recomendações agronómicas baseadas no diagnóstico para o controlo da doença.
Cruvinel acrescenta que os relatórios podem ser encontrados na aba “Recomendações Agrícolas” do painel de controle, onde também há um link para o site AGROFIT , um banco de dados com informações sobre agroquímicos e produtos relacionados que foram registrados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária ( Mapa ) do Brasil , para consulta e seleção de fungicidas recomendados para o controle da ferrugem asiática.
A solução reduz o uso de fungicidas.
Os pesquisadores afirmam que o sistema possibilita monitorar a presença ou ausência da ferrugem asiática da soja, bem como avaliar a dinâmica da ocorrência da doença em diferentes estágios de severidade e risco no processo de produção agrícola.
“O ponto-chave da pesquisa foi criar um método que integre dados heterogêneos para fornecer um diagnóstico mais confiável. Basear-se apenas em imagens ou dados climáticos isolados não é suficiente para uma avaliação precisa, o que pode levar a diagnósticos falso-positivos. Além disso, a solução oferece prevenção e uso racional de fungicidas”, afirma Neves, que atualmente é professor do Instituto Federal de São Paulo ( IFSP ), campus São João da Boa Vista.
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Setor produtivo cobra diálogo sobre jornada de trabalho no Brasil
Entidades empresariais defendem debate técnico e alertam para impactos econômicos e operacionais de mudanças na legislação trabalhista.

A Coalizão de Frentes Produtivas recebeu na sede da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), na terça-feira (03), presidentes e representantes das principais confederações nacionais para discutir a modernização da jornada de trabalho no Brasil. No encontro, parlamentares e lideranças do setor produtivo defenderam que o debate avance com base técnica, diálogo e responsabilidade, diante de riscos como aumento de custos e informalidade.
Ao longo da reunião, deputados e senadores reforçaram que a discussão sobre a modernização da jornada de trabalho é legítima e relevante, mas exige cautela na condução. A avaliação apresentada foi a de que mudanças dessa dimensão precisam considerar diferenças setoriais, impactos econômicos e efeitos sobre o emprego formal.

Presidente da Frente Parlamentar Mista do Empreendedorismo, deputado Joaquim Passarinho: “Precisamos passar que querem que a gente vote uma narrativa eleitoral”
O presidente da Frente Parlamentar Mista do Empreendedorismo, deputado Joaquim Passarinho (PL-PA), afirmou que o tema não pode ser tratado apenas sob a lógica da disputa eleitoral, nem ser simplificado diante de sua complexidade. “Precisamos passar que querem que a gente vote uma narrativa eleitoral. O cidadão não vai querer essa proposta quando descobrir que o alimento vai ficar mais caro, o combustível, tudo. Precisamos ser responsáveis com o nosso país e precisamos deixar isso para depois da eleição”, disse.
Já o deputado Alceu Moreira (MDB-RS), presidente da Frente Parlamentar do Biodiesel (FPBio), ressaltou a importância de incluir os representantes dos trabalhadores no debate. Segundo ele, sindicatos e empresários compartilham o interesse de proteger os trabalhadores e devem participar da construção de soluções para o tema. “Quero lembrar aos empresários que os sindicatos dos trabalhadores têm o mesmo interesse em proteger os trabalhadores ou deveriam ter assim como os empresários. Eles precisam fazer parte dessa discussão. Se temos a convicção de que determinadas mudanças podem prejudicar os trabalhadores, por que não chamá-los para o debate? Eles precisam estar entre nós”, afirmou.

Deputado Alceu Moreira: “Quero lembrar aos empresários que os sindicatos dos trabalhadores têm o mesmo interesse em proteger os trabalhadores ou deveriam ter assim como os empresários”
O deputado Domingos Sávio (PL-MG), presidente da Frente Parlamentar do Comércio e Serviços, também criticou a polarização em torno do tema e defendeu um debate mais equilibrado. “Virou proposta de governo nos colocar entre o bem e o mal, como se quem é contra quisesse o mal da população. Temos que debater para que essa armadilha não pegue o povo brasileiro”, afirmou.
O deputado Júlio Lopes (PP-RJ), presidente da Frente Parlamentar do Brasil Competitivo, também destacou a importância da reunião e afirmou que o debate não pode ser conduzido sob a lógica eleitoral. Segundo ele, o foco deve estar no que é melhor para o país.

Deputado Domingos Sávio: “Virou proposta de governo nos colocar entre o bem e o mal, como se quem é contra quisesse o mal da população”
Durante o encontro, o professor e sociólogo José Pastore fez uma apresentação aos parlamentares e representantes das confederações sobre os possíveis impactos da proposta em discussão. Ele afirmou que a PEC prevê uma redução rápida e impositiva da jornada, sem espaço para negociação, e lembrou que, historicamente, mudanças desse tipo no Brasil ocorreram de forma gradual.
Pastore avaliou que, diante de uma alteração abrupta, setores público e privado tenderiam a buscar mecanismos de ajuste, com efeitos como repasse de custos aos preços, aceleração da automação e redução de postos de trabalho formais, além de aumento da informalidade. “Os trabalhadores mais afetados são os que trabalham 44 horas, que são os mais vulneráveis. Essa nova lei pode, infelizmente, desproteger os trabalhadores”, salientou.
Manifesto

Deputado Júlio Lopes: “Virou proposta de governo nos colocar entre o bem e o mal, como se quem é contra quisesse o mal da população”
O manifesto entregue à Coalizão nesta terça-feira parte da premissa de que o debate sobre a modernização da jornada não deve ser tratado como uma escolha entre qualidade de vida e atividade econômica. Segundo as entidades, os dois objetivos podem avançar juntos, desde que o emprego formal seja preservado como ativo social e que eventuais mudanças sejam construídas com base técnica, previsibilidade e diálogo entre trabalhadores, empregadores e poder público.
O documento também defende que o aprofundamento da discussão ocorra em ambiente institucional propício à construção de consensos duradouros, com análise técnica dos impactos e das alternativas de implementação. Para o setor produtivo, uma agenda dessa dimensão exige tempo político e debate qualificado para acomodar diferenças entre cadeias produtivas, regiões e modelos operacionais.
A presidente-executiva da OCB e do Instituto Pensar Agro (IPA), Tania Zanella, afirmou que o manifesto dá unidade ao posicionamento do setor produtivo e coloca as entidades à disposição para contribuir com a construção de alternativas. “Assinamos e apresentamos hoje esse manifesto para trazer unicidade a essa discussão e estamos juntos para amadurecer e buscar melhores alternativas para essa modernização. O passo é importante, mas a gente precisa de coerência. Esse manifesto coloca o setor à disposição para esse debate”, enfatizou.
O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, reiterou a necessidade de evitar a redução do tema a narrativas políticas e criticou a condução apressada do debate. “O capital e o trabalho se complementam. Por qual motivo fazer uma discussão tão séria de forma tão açodada? Isso não faz sentido”, ressaltou.
A vice-presidente da Fecomércio, Gisela Lopes, disse que a entidade está alinhada ao manifesto e defendeu mais tempo para discussão, com valorização da negociação coletiva. “Nós temos a negociação coletiva e o assunto em si precisa ser prorrogado para o ano que vem, visto que deve prejudicar muita gente. Estamos de acordo com o movimento por um debate amplo e paciente”, declarou.
Para Cristiane de Oliveira, diretora-presidente da Confederação Nacional das Instituições Financeiras (CNF), o setor financeiro acompanha com preocupação o andamento das discussões no Congresso e considera essencial garantir segurança jurídica nas contratações e negociações. “Se não tivermos equilíbrio no debate, e isso só é possível com diálogo, caso o texto seja aprovado como está e como alguns querem, teremos problema em todos os segmentos”, avaliou.
Na mesma linha, o vice-presidente da Firjan, Antonio Carlos Vilela, afirmou que a indústria vê risco de impactos negativos sobre emprego e preços, caso a proposta avance sem a devida transição. “Nós da indústria estamos alinhados com o setor. O aumento da informalidade e dos preços será absurdo, trazendo inúmeros prejuízos para o país”, disse.
Emprego formal no centro do debate
Segundo o IBGE, em 2025, o Brasil tinha 38,9 milhões de empregados com carteira assinada no setor privado. Já o Ministério do Trabalho e Emprego registrou estoque de 48,45 milhões de vínculos celetistas em dezembro de 2025, de acordo com o Novo Caged. Embora as bases usem recortes diferentes do mercado de trabalho, ambas apontam para a dimensão do contingente formal que, na avaliação das entidades, deve estar no centro de qualquer mudança na jornada.





