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Avicultura Agronegócio 4.0

Qualificação profissional e conectividade são desafios, mas avicultura brasileira é protagonista mundial ao adotar tecnologias

O 4.0 já é uma realidade há algum tempo no agronegócio. As tecnologias disponíveis, e que continuam sendo criadas diariamente, auxiliam toda a cadeia produtiva, desde o produtor rural até a agroindústria.

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Divulgação/OP Rural

O 4.0 já é uma realidade há algum tempo no agronegócio. As tecnologias disponíveis, e que continuam sendo criadas diariamente, auxiliam toda a cadeia produtiva, desde o produtor rural até a agroindústria. Porém, com tantas novidades chegando, algumas dúvidas podem surgir: o setor está preparado? Há pessoal capacitado para lidar com isso? É possível acompanhar tudo e saber o que usar? E o pior: a propriedade tem acesso à internet? Para sanar estas e outras dúvidas, a reportagem de O Presente Rural conversou com o presidente da Associação Catarinense de Avicultura (Acav) e diretor do Sindicato das Indústrias da Carne e Derivados no Estado de Santa Catarina (Sindicarne), José Antônio Ribas Júnior.

Para Ribas, a grande pegada quando o assunto são estas tecnologias é a importância das pessoas no processo. “Nós precisamos desenvolver pessoas, porque a tecnologia está andando muito rápido e quem serão os profissionais que vão trabalhar com essa tecnologia. Ainda é um grande desafio desenvolver produtores, transportadores, operadores de granja, de transporte das aves, de ração, de incubatório, de produção. Temos o trabalho de desenvolver não somente o produtor, mas a assistência técnica, veterinários, técnicos, agrônomos, zootecnistas, desenvolver todas essa cadeia de pessoas conectadas a avicultura”, sustenta.

O Presente Rural – São muitas as novas tecnologias que estão surgindo para o agronegócio nos últimos anos. Como a agroindústria está absorvendo todas estas novidades?

José Antônio Ribas Júnior – O novo Vale do Silício do mundo é o agronegócio brasileiro, está acontecendo um movimento extraordinariamente grande, um movimento qualificado e competente de criar soluções tecnológicas para muitas questões dentro do agronegócio. Na atividade de aves e suínos, esse movimento vem sendo ampliado de maneira significativa em inúmeras frentes. O grande drive de absorção de todas as oportunidades tecnológicas que abrem um link de possibilidades que talvez a gente nem tenha a dimensão de entender ainda, porque abre um novo universo de possibilidades, é de analises de dados, de geração de conhecimento, de interrelação de variáveis, de possibilidades de gerar informação, de ler coisas que hoje o olho humano não lê, de conseguir ter a sensibilidade de temas que dependem muito de gente e que você possa tirar isso desse obstáculo é muito grande.

Então como o setor vai pensar e absorver tudo isso? Fundamentalmente é uma eleição de tecnologias que geram resultado, porque a tecnologia em si só não tem fim, ela precisa ser uma tecnologia que gere resultado e esse resultado pode ser desde uma melhoria de qualidade, pode ser uma melhoria de possibilidade de trabalho, de posto de trabalho, pode ser uma redução de custo, uma agregação de valor. Tem vários drives, mas a grande resposta é: o que vai estabelecer que tecnologias que ficam em pé e tecnologias que serão descartáveis é realmente qual resultado que ela gera. E isso todos os fornecedores de tecnologia precisam ter muito claro. Vender tecnologia por si só não muda nada. É muito bonito eu ver coisas na tela do meu celular, eu ter uma inteligência artificial gerando ajustes, fazendo algumas leituras. Mas se isso não gera algum valor agregado, alguma melhoria de resultado, seja na granja desde que for aumentar a eficiência, aumentar qualidade, reduzir custos, seja qual for, não fica em pé.

O Presente Rural – A agroindústria está preparada para absorver todas estas novidades que estão chegando?

José Antônio Ribas Júnior – A agroindústria brasileira sempre foi de ponta na área de aves e suínos, sempre foi protagonista, de vanguarda. O Brasil produz em nível tecnológico que não deixa a desejar para ninguém no mundo. Tem lugares que está robotizado. A gente não pode confundir tecnologia e robotização, são coisas que eventualmente são a mesma coisa, mas toda robotização está dentro da tecnologia, mas nem toda tecnologia é robotização. Nós temos coisas muito mais amplas sob a ótica tecnológica e o setor do agronegócio é vanguarda nisso, no modelo de criação de aves e suínos, vanguarda no jeito de operar essas cadeias, nas competências que transformaram nosso setor no maior exportador de aves do mundo, num relevante de suínos do mundo, de ter o status sanitário que nós temos, de produzir com a qualidade que nós produzimos, com custo competitivo que nós conseguimos alcançar. Isso mostra que é um setor muito receptivo à inovação. Daqui saíram grandes movimentos de produção que hoje são reconhecidos pelo mundo na competência que é feito aqui. Então tenho certeza de que o setor não somente está de braços abertos, como ele é participante desse processo, mais do que isso, ele é construtor desse processo, somos autores desse processo. O setor vem construindo soluções e vem gerando tecnologias e ele é puxador de todo esse processo.

O Presente Rural – O que existe de novo que a agroindústria está usando?

José Antônio Ribas Júnior – Tem muita coisa de novo sendo trazido de tecnologia. Desde tecnologias de imagem, que permite através de câmeras de vídeo fazer a leitura de peso de animais, de grano de peso, de comportamento animal, para que a gente amplie mais ainda a nossa competência de bem-estar animal, por exemplo, porque fica menos dependente do homem, do operador, de ter a percepção, que eventualmente ele não enxerga aquilo que está acontecendo. Então temos câmeras de vídeos fazendo esse movimento, nós temos ciência de dados conseguindo fazer análises estatísticas de uma amplitude de informações muito maior e permitindo decisões melhores, mais qualificadas. Nós temos também ganho de tempo de resposta da qualidade de análise de dados, pela capacidade desses dados transitarem e serem analisados. Esse tempo de resposta tem valor. Enfim, tem uma amplitude de novas tecnologias acontecendo de uma maneira muito grande.

Tecnologias ampliando e substituindo alguns produtos, até trazendo a possibilidade de gente fazer uma ração mais qualificada, produzindo probióticos, prebióticos, que substituem antibióticos, ou seja, é mais saúde, super conectado ao One Health, que é o conceito da saúde única, é o conceito de nós evitarmos as resistências bacterianas, de melhorar a sanidade e saúde de toda a produção. Enfim, têm muitas tecnologias chegando, sem contar todo esse aparato tecnológico que hoje está embarcado em um galpão de aves, um galpão de suínos, que permite o controle de muitas variáveis, como temperatura, umidade, concentração de gases, disponibilidade de comida e água. Há uma série de tecnologias sendo embarcadas hoje em todo o sistema, tecnologias de rastreamento, que permitem o movimento de monitoramento das rações por transporte, da logística, otimizando a logística, com ganhos para o planeta, porque você reduz consumo de combustível, você permite segurança, porque isso também permite que a gente monitore se os caminhões estão respeitando as regras de trânsito, por exemplo. Têm muitos ganhos na qualidade de vida, na qualidade da produção e na eficiência do sistema de criação. Eu sou muito empolgado com essa ideia porque ela vai permitir que a gente construa muitas soluções novas e ofereça muita eficiência ao sistema. Mas, de novo, sempre gerando resultado.

O Presente Rural – Pode citar algumas tecnologias que surgiram, mas ainda está difícil de serem “aproveitadas” pela agroindústria?

José Antônio Ribas Júnior – Têm muitas tecnologias que ainda carecem de viabilidade, delas conseguirem mostrar seus resultados. Essas tecnologias de imagem que eu citei ainda estão passando por calibração, por aprendizado, os algoritmos precisam aprender mais isso, leva tempo de você botar muita informação para dentro para acontecer esse aprendizado. Há outras tecnologias que ainda têm problemas de alto custo, ainda são caras para serem acessadas e isso vai passar por um tempo para a gente conseguir construir soluções mais baratas, conseguir desenvolver tecnologias internamente no Brasil, então também passam por este processo. Nós temos um exemplo muito claro, que a poucos anos atrás a produção de energia fotovoltaica era um pouco proibitiva, o custo benefício era ruim, hoje já está muito mais acessível, então mostra que o tempo vai trazendo soluções mais assertivas ainda. Uma grande dificuldade que existe no Brasil ainda é a conexão, a transmissão de dados, ainda muito precária no meio rural e isso também traz um pouco de restrição, porque essa integração de informação, toda essa conectividade vai passar por esses obstáculos que é são, por exemplo, a conectividade.

O Presente Rural – Percebe-se que, mesmo com tantas novidades surgindo quase que diariamente, ainda falta alguma inovação chegar a agroindústria? Qual seria?

José Antônio Ribas Júnior – Com certeza ainda faltam inovações chegarem ao nosso setor. Nós ainda temos uma desafio muito grande com o meio ambiente de reduzir a nossa pegada de carbono, então a gente precisa olhar para essa cadeia de maneira mais ampla ainda para eficiência na produção dos grãos, para eficiência do consumo e da transformação desse grão em proteína animal, ainda há muito o que se buscar de conseguir dar mais ciência aplicada à produção de milho dedicado ao frango, ao suíno, soja dedicada a essas espécies, têm muitas coisas por fazer ainda que podem trazer resultados para o planeta, porque isso é eficiência da cadeia de produção, que traz dentro do seu escopo esse conceito de sustentabilidade.

Nós ainda precisamos desenvolver o melhor uso da água, o uso racional da água ainda é uma oportunidade. Nós temos uma oportunidade para ampliar mais ainda o bem-estar animal, então ainda tem temas muito importantes a serem desenvolvidos e que. Tenho certeza que com essas novas tecnologias chegando, esse grande número de empresas e pessoas estudando e olhando para o agronegócio, porque o agronegócio virou algo atrativo para o mundo inteiro. Nós estamos vendo o presidente da Microsoft investindo em agronegócio, o presidente do Facebook olhando para questões do agronegócio, o Google olhando para o agronegócio, ou seja, o agronegócio parte de um pressuposto muito simples: é dali que o mundo se alimenta. Independentemente do que você opta por alimentação, essa alimentação virá do agronegócio, então por isso que ele está ganhando tanta relevância. Mas ainda há muita tecnologia. Nós ainda precisamos fazer o alimento chegar no prato de muita gente, então também vamos precisar do apoio da tecnologia para chegar ao prato de muita gente que hoje não consegue ter um prato de comida qualificado na sua mesa. Há muita coisa a ser feita ainda.

O Presente Rural – Quais são os desafios que a agroindústria vem enfrentando quando o assunto são estas novas tecnologias 4.0?

José Antônio Ribas Júnior – Um dos grandes desafios do 4.0 é a conectividade, a transmissão de dados, sem nenhuma dúvida. Ela ainda é um dos grandes problemas, a cobertura de 3G, 4G, no meio rural, no setor de produção é muito fraca ainda e isso limita. O mundo quer falar de 5G, mas nós ainda temos limitações muito grandes de cobertura, obstáculos bastante importantes. Mas eu quero botar um ponto aqui que é muito relevante, que talvez seja um dos grandes temas do agronegócio: nós precisamos desenvolver pessoas, porque a tecnologia está andando muito rápido. Quem serão os profissionais que vão trabalhar com essa tecnologia? Ainda é um grande desafio desenvolver produtores, transportadores, operadores de granja, de transporte das aves, de ração, de incubatório, de produção. Temos o trabalho de desenvolver não somente o produtor, mas a assistência técnica, veterinários, técnicos, agrônomos, zootecnistas, desenvolver todas essa cadeia de pessoas conectadas a avicultura. Que profissional nós precisaremos ter nesse novo mundo da tecnologia? Esse é um trabalho de desenvolvimento grande que as agroindústrias tem feito. Temos chamado a universidade, a academia para dentro dessa discussão, para que a academia se conecte a isso, entenda essa necessidade, essa demanda, e trabalhe junto conosco para desenvolver esses profissionais e para disponibilizar ao mercado um profissional qualificado para este mundo. Essa geração nova já vem muito conectada a essas tecnologias, mas estão conectadas às tecnologias para o seu uso pessoal, para as suas questões pessoais.

Agora, como você interage com essas tecnologias profissionais, com essas tecnologias de processo, com essas tecnologias da cadeia de produção de maneira a fazer elas darem o resultado que se espera? Esse é um grande trabalho de desenvolvimento que vem sendo feito, academias de treinamento, lives, webinares, enfim, muita coisa tem sido buscada. A gente aprendeu com a pandemia o uso das tecnologias, das videoconferências, de acessar pessoas com imagem, então nós temos que buscar muito disso para fazer desenvolvimento, um trabalho contínuo e muito importante para que a gente vá desenvolvendo as pessoas para tirarem o máximo proveito da tecnologia.

O Presente Rural – Como o senhor, como um profissional da agroindústria, vê a chegada destas novas tecnologias e a adaptação que as empresas estão tendo que fazer para poder usá-las ao máximo?

José Antônio Ribas Júnior – A chegada das novas tecnologias olhamos com muito otimismo, uma percepção, um mundo de oportunidades que pode se abrir, de ganhos de eficiência, seja por tempo de resposta aos problemas, quando a gente conseguir conectar essa enormidade de dados que nós manuseamos de uma formulação de ração, de um pintinho que é produzido, de um controle de ambiência que esse animal é submetido, todas essas variáveis, do jeito de transportar, do controle de transporte, quando todas essas variáveis começam a se integrar e interagir, serem cruzadas e serem correlacionadas nós podemos ter muitos aprendizados, podemos melhorar e qualificar muito a nossa decisão, podemos ganhar em eficiência. Há essa expectativa de que nós temos realmente que tirar resultado disso e em um curto prazo. É obvio que isso é uma jornada muito extensa, mas a gente precisa ir conquistando terreno e gerando resultado, porque isso vai motivando o produtor, o colaborador, as lideranças da empresa a investir cada vez mais em tecnologia porque ela vai dando resultado, a se aprimorar nos uso dela e tudo isso trazer benefícios para toda a cadeia de produção.

O Presente Rural – Em comparação com outros países, como o Brasil está na adesão destas novas tecnologias 4.0?

José Antônio Ribas Júnior – Todos os países do mundo estão trabalhando em cima do 4.0, existe muita ciência em cima disso. Mas eu não tenho nenhuma dúvida que o Brasil está puxando muito desses temas. Porque no Brasil o campo tem sido muito fértil para o desenvolvimento das tecnologias, o uso delas e para realmente fazer elas serem realmente relevantes no processo de produção. O Brasil não está atrás de nenhum país. Obviamente que alguns países que já detêm muito conhecimento científico e muita competência na produção da tecnologia, que consegue produzir, até porque o Brasil ainda é depende da importação de muitos itens tecnológicos, esses países acabam tendo essa vantagem competitiva. Mas o que nos difere é que o protagonismo do setor, a interatividade de toda essa cadeia que é integrada consegue fazer com que a velocidade nossa consiga ser muito grande porque o sistema de integração, sistema cooperativo, são alavancagem importantes nesse processo porque eles conectam o produtor muito rapidamente a estas tecnologias e fazem o filtro de quais tecnologias realmente são relevantes porque se não o produtor fica exposta o que chega até ele pode não ser a melhor tecnologia ou que não esteja atendendo seu objetivo. As cooperativas, as agroindústrias, todo o sistema de integração da produção de aves e suínos tem essa competência de fazer essa filtragem, trazer o que há de melhor e de colocar os seus especialistas a estudar cada vez mais para que o que chegue ao produtor chegue de maneira mais assertiva. Isso faz com que o Brasil ganhe uma velocidade muito grande. A gente vem observando que aqui no Brasil esse processo tenha andado muito mais rápido, o que acontece nesse mundo digital aqui no Brasil impressiona o mundo inteiro, porque a gente vem desenvolvendo muitas soluções de uma maneira muito rápida.

Outro ganho da tecnologia que é muito relevante é que ela está trazendo um benefício adicional muito bonito, que é a atratividade para os jovens da atividade de aves e suínos. Há 25 anos, quando eu era extensionista, a gente tinha uma preocupação muito grande com isso no meio rural, com o envelhecimento do campo. Hoje a gente vê muitos filhos de produtores muito atraídos pela atividade, ficando na granja, querendo conduzir o negócio, porque perceberam na tecnologia uma melhor qualidade de vida, facilitou muito o trabalho, deixou o trabalho menos braçal e muito mais intelectual, e essa turma, a nova geração, que está chegando se atrai muito por isso. Então está sendo também um instrumento de fixação de mão de obra no campo, de atratividade para o jovem e ele vai fazer um upgrade em tudo isso porque ele vem com essa vontade, com esse apetite pela tecnologia, então estamos conseguindo inclusive este ganho.

O Presente Rural – O senhor pode citar alguns exemplos de quais são estas tecnologias de IA, Big Data, entre outras, na avicultura?

José Antônio Ribas Júnior – Têm muitos exemplos de tecnologia que existem hoje. Na avicultura existem painéis de controle integrado de tudo o que acontece no ambiente do aviário, que aquele painel já faz a leitura de temperatura, da umidade, da ventilação, da luminosidade, da sensação térmica, da quantidade de gás presente, e o próprio painel já decide qual equipamento ligar, quando ligar, e faz todo esse gerenciamento. Isso já é um algoritmo, uma inteligência dentro do sistema gerenciando o processo. Já existem sistemas disponíveis que inclusive podem tomar a decisão de rapidamente reagir a qualquer situação imprevista, olhando até para o consumo de ração do animal, seja de aves ou de suínos, do consumo de água, e também já tomar a decisão, existe já a tecnologia que consegue, ao você fotografar um animal, ter um diagnóstico de qual é o problema que aquele animal pode estar passando, qual é a dificuldade, até mesmo qual é a própria doença, baseado em alguma sintomatologia ou sinal que o animal pode estar passando e que isso ajuda o produtor a fazer o seu diagnóstico.

Já existe muita ciência de imagem, gerando peso dos animais, gerenciando em tempo real o peso dos animais, existem imagens trabalhando para fazer a qualificação do animal no abate, para fazer a leitura de qualidade daquele animal, e com isso permitir que você diferencie qualidade e possa também remunerar meritocraticamente por qualidade, ou que você possa destinar um tipo de característica de um animal para um produto A ou B. Tudo isso já são tecnologias que estão aí. E agora com a chegada da nuvem, a possibilidade que já está acontecendo de jogar dados na nuvem e você ter uma possibilidade de administrar um número de dados muito maior, interrelações muito maiores também já é uma situação que já está disponível.

O Presente Rural – Além da agroindústria, outros elos da avicultura estão preparados para absorver todas estas novas tecnologias?

José Antônio Ribas Júnior – O setor já está sim preparado para tudo isso, o setor vem se preparando para isso e já falava em tecnologia na década de 1980 quando começaram a automatizar processos de criação. Como eu falei, o setor é muito protagonista nisso, tem uma capacidade de inovação impressionante, se reinventa a cada crise, entendendo que precisa buscar soluções. Então, o setor está preparado para tudo isso, sim. Obvio que sempre buscando mais e melhor conhecimento para administrar tudo isso, investindo nos profissionais. Eu pessoalmente acredito muito nessas soluções, nós estamos investindo como setor, como empresa, como profissional neste processo porque acreditamos que ele vai trazer melhores resultados do que nós operamos hoje e isso, em última análise, para mim, tudo isso tem uma conexão superimportante que é a sustentabilidade. Nós vamos ser mais eficientes sob todas as óticas, mais eficientes socialmente, porque vamos ser mais includentes, em governança porque vamos administrar melhor, dar mais transparência sob a nossa gestão, vamos poder mostrar em tempo real o que a gente fala e faz, e vamos ser mais eficientes no consumo dos recursos naturais do planeta. Tudo isso vai trazer um resultado muito positivo e a gente acredita muito nisso.

Hoje todas as empresas estão assumindo compromissos de sustentabilidade, tem esse conceito novo do ESG, que traz o meio ambiente, social e governança, e tudo isso já está conectado. Essa tecnologia vai permitir a gente conquistar melhores resultados, mais eficiência e fundamentalmente mostrar ao consumidor que é, em última análise, o grande beneficiário de tudo isso, porque ele vai poder acessar um produto muito mais sustentável no seu prato, com muito mais qualidade. A gente vai poder atingir melhor esse consumidor, desde aquele que vai poder acessar pela primeira vez um prato de comida qualificado até os mais exigentes que vão poder ter um acesso à informação diferenciado, mostrando o quão competente é o nosso sistema de produção.

O Presente Rural – Como o senhor vê o comportamento do setor quanto a estas novas tecnologias?

José Antônio Ribas Júnior – Consegue cobrir todos os assuntos deste tema que são superimportantes nesse processo. Nós não podemos perder de vista os drives que conduzem tudo isso. Da gente cuidar melhor de gente, de todas as pessoas que estão envolvidas na cadeia de produção, melhorando a qualidade de vida delas, através das tecnologias, através da facilidade das rotinas de trabalho, através da eficiência do trabalho. Nós temos que cuidar do meio ambiente e a tecnologia nos ajudará com isso, usar melhor os recursos naturais, mostrar à sociedade o quão somos comprometidos com o meio ambiente, que isso já é um DNA do setor, mas vamos poder mostrar isso com mais clareza. A gente vai poder dar muita atenção a toda a eficiência e qualificação dos nossos produtos, dando condição de melhorar bem-estar animal mais ainda, esses conceitos de One Health, de redução de antibióticos, enfim, tem inúmeros ganhos associados a isso. Tudo ao seu tempo, tudo construído com muita seriedade, com muita responsabilidade para que a gente vá construindo dias melhores à frente.

Sou um otimista sobre isso, mas com muito realismo, para que a gente não queira desenhar algo excepcional e deixe de fazer o que é bom, para a gente ir fazendo um passo de cada vez realmente com essa sensação de que estamos construindo um caminho certo. Muitos aprendizados acontecerão, mas estamos superabertos para esses aprendizados. Eu pessoalmente tenho aprendido muito nesse segmento, nesse setor, das oportunidades que a gente pode aproveitar. Não tenho dúvidas de que estamos construindo dias melhores à frente porque todos nós estamos muito imbuídos de entregar um planeta melhor para as próximas gerações, produzindo alimentos de maneira muito correta e transparente para que toda a sociedade tenha muito orgulho da produção de proteína que nós fazemos.

O produtor do agronegócio tem uma capacidade muito grande de gerar qualidade de vida, não somente por toda a economia que ele movimenta, mas também nos indiretos para toda a sociedade, até porque é um setor que gera movimento econômico, que traz investimentos, que geram mais empregos, emprego gera mais consumo, consumo gera mais movimento econômico que gera mais empregos, que gera mais consumo. Veja que a gente alimenta uma roda de ganhos sociais, econômicos e agregação de valor para a sociedade que é muito grande. E o que a gente quer fazer é que a tecnologia facilite tudo isso. E em outro viés que melhore muito o nosso nível de comunicação com o nosso cliente, com o nosso consumidor, com a sociedade, mostrando como que a gente produz para que tenham segurança, que nós cuidamos de todos os aspectos de sanidade, de saúde, de bem-estar, das pessoas para que possam consumir um alimento de maneira muito tranquila de que estão cuidando do planeta, das pessoas e dos animais. Tudo isso nos reserva benefícios muito grandes para serem conquistados.

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Avicultura Entrevista Exclusiva

Pesquisadora Janice Zanella destaca avanços da Embrapa Suínos e Aves em sete anos

Nos últimos sete anos, a instituição se aproximou das indústrias e dos produtores para saber quais eram suas reais necessidades. O objetivo: criar linhas de pesquisa, gerar conhecimento científico e embasar mudanças que os setores necessitavam.

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Fotos: Divulgação

Nos últimos sete anos a Embrapa Suínos e Aves se aproximou das indústrias e dos produtores para saber quais eram suas reais necessidades. O objetivo: criar linhas de pesquisa, gerar conhecimento científico e embasar mudanças que os setores necessitavam. Esse é um dos avanços da Embrapa Suínos e Aves, com sede em Concórdia, SC, sob a chefia da pesquisadora Janice Zanella, que deu posse a seu sucessor, o pesquisador Everton Krabe, em 1º de novembro. Confira um balanço da gestão, sob a ótica de Janice Zanella, uma das mais renomadas e respeitadas pesquisadoras de suínos e aves do mundo.

O Presente Rural – Conte um pouco de sua trajetória acadêmica e profissional.

Janice Zanella – Nasci no Sul de Minas Gerais, minha família é de agricultores, plantavam café, criavam gado de leite. Fiz o ensino médio em Minas, fiz Medicina Veterinária na universidade federal em Belo Horizonte. Qaundo estava terminando meu curso, tive a oportunidade de uma bolsa de estudos da CNPQ e vim para Concórdia (SC), para trabalhar na Embrapa. Quem me orientava na época era o Nelson Mores. Fiz um ano na patologia, depois fiquei mais um ano na virologia e depois fui trabalhar na Sadia, na BRF. Fiquei lá no laboratório. Nesse meio tempo que fiquei na BRF, consegui uma bolsa e fui para os Estados Unidos, para a Universidade de Nebrasca, no meio oeste americano, para fazer meu mestrado. Acabei ficando, fiz o PHd e iniciei o pós doutorado.

Nesse tempo abriu concurso da Embrapa, prestei, passei e voltei para o Brasil em 1998. Comecei a trabalhar na pesquisa, com virologia de suínos e aves, depois me dediquei somente a suínos. Durante esse tempo fiz vários projetos, fiz o primeiro diagnóstico de Circuvírus, o primeiro diagnóstico de Influenza, desenvolvi metodologias de diagnóstico para várias doenças virais de suínos que não estavam estabelecidos no Brasil, por exemplo para PRRS e diagnóstico da PED.

Uma das grandes contribuições que dei foi atuar junto na erradicação da doença de Algeski, isso deu um diferencial para Santa Catarina. Na época a gente apoiava o Estado livre de aftosa sem vacinação, a gente estimulou o governo do Estado para implementar barreiras.

Orientei muitos colegas em vários projetos, atuei em vários comitês, organizamos eventos técnicos e também ajudei muito como membro de vários comitês na OIE, (Peste Suína Clássica, Peste Suína Africana), desde 2011 sou membro de um grupo de especialistas no mundo para controle e monitoramento da Influenza em suínos.

Recentemente fui indicada como uma das 25 pessoas no mundo para trabalhar com uma saúde (One Health), faço parte de um grupo bem forte, de apoio à questão da saúde única, juntamente com a FAO, a OIE e a OMS. Sou a única pessoa no Brasil que está trabalhando nesse comitê.

De 2008 a 2010 fiquei no laboratório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o Laboratório Central de Diagnóstico e Pesquisa, em Iowa. Lá consegui trabalhar com várias doenças, como PRRS e Influenza. Foi justamente durante a pandemia de 2009 da Influenza. Pude trazer essas metodologias de diagnóstico mais aprimoradas para o Brasil. Todo o trabalho de monitoramento de Influenza que hoje fazemos foi graças a essa parceria com a equipe do USDA.

O Presente Rural – Como chegou até a chefia da Embrapa Suínos e Aves?

Janice Zanella – Cheguei à chefia da Embrapa porque sempre gostei de desafios, sempre gostei de trabalhar muito, sou extremamente motivada, dedicada, posso reconhecer isso. Quero estar sempre fazendo o melhor, buscando fazer diferente e encarando os desafios.

Sempre tive apoio, tanto da família como dos meus colegas, amigos próximos e lideranças do setor. Posso dizer que tenho muitos parceiros, trabalho com muita gente e sou inquieta, gosto de fazer diferente, sempre melhorando e servindo, servindo a Embrapa e servindo o setor. Tive todo esse incentivo.

O processo de seleção de chefias da Embrapa é muito limpo, transparente, baseado em meritocracia. Você precisa fazer um plano de trabalho, que é avaliado. É realizada uma série de entrevistas, é muito aberto, tanto que a última seleção foi toda online. Cheguei à chefia através de uma caminhada, fui galgando em vários pontos, fui atuando tecnicamente como também em termos de atuação administrativa. Sempre liderei projetos, sempre fui gestora de núcleos temáticos, como por exemplo presidente do portfólio de sanidade animal de toda a Embrapa. Então sempre busquei e tive apoio muito forte da diretoria da Embrapa. Isso também me incentivou a chegar à chefia.

O Presente Rural – Enquanto esteve à frente da Embrapa, quais as principais linhas de pesquisa?

Janice Zanella – São várias linhas de pesquisa. Nós atuamos em cinco núcleos temáticos, de sanidade de aves, sanidade de suínos, de produção de aves, produção de suínos e o núcleo temático de meio ambiente. As atividades dentro desses núcleos seguem o plano diretor da Embrapa (PDE). Dentro desse PDE a gente faz um plano de execução da unidade, que é baseada em várias contribuições nas áreas de sanidade, diagnósticos de doenças, de geração de insumos, segurança de alimentos, modernização do abate. A gente atua na sanidade, tanto em doenças de produção quanto em doenças de apoio à defesa, como Senecavírus, por causa da causa da semelhança com Aftosa; Influenza, e a gente vai começar alguns trabalhos com PSA e PSC. Fizemos trabalhos, por exemplo, para produção de vacinas. Na questão do meio ambiente, para trazer mais sustentabilidade, com reuso de água, valorização dos dejetos, a questão do biometano, entre outras. Então a gente atua em sanidade, produção e meio ambiente.

O Presente Rural – Quais os principais resultados obtidos?

Janice Zanella – Os principais resultados são o atendimento às políticas públicas, é a geração de dados, a geração de ciência, gerando dados confiáveis para embasar políticas públicas. O Brasil tem que atender várias normas, tanto internas quanto internacionais, e essas normas vão mudando, como as questões de bem estar, resíduos de microbianos nos alimentos. São vários resultados em sete anos. É um trabalho de uma grande equipe. A Embrapa busca muito as soluções. Entender a dor do cliente, que é o setor como um todo, e procurar desenvolver soluções. Uma das coisas que a gente sempre busca é gerar tecnologia através de inovações abertas, como o abatedouro móvel, que foi um resultado legal, o Nanovo, que é o recobrimento nanoestruturado de ovos, e a vacina da Pesteurella.

Em questão de políticas públicas, todo o trabalho de destinação de animais mortos, a modernização do abate para suínos e aves que está dando um impacto tremendo, tem também as nossas genéticas, como o lançamento de uma fêmea suína, a MO025C.

Tanto questão de tecnologias como pesquisa aplicada, projetos de desenvolvimento em parcerias, a gente teve alguns desafios durante a gestão. Tínhamos o campo experimental que estava abandonado, a gente reativou, levou nossas linhas puras para lá, para anteder normativas e continuar realizando experimentos lá, onde tem o núcleo de conservação. Fizemos uma manutenção tremenda nos campos experimentais, renovamos a frota de veículos, isso tudo com muito apoio.

Uma das coisa que vejo que foi legal foram as parcerias, uma das grandes conquistas foi mostrar que a Embrapa pode ajudar a comunidade não só no setor da suinocultura e avicultura. Desde maio do ano passado a gente tem ajudado o laboratório de saúde pública de Santa Catarina na realização dos testes moleculares de Covid. A gente já realizou mais de 40 mil testes. A gente tem mostrado que a Medicina Veterinária é importante para a saúde pública, importante no conceito de saúde única, que a saúde humana e animal está muito ligada. A nossa pesquisa é muito interdisciplinar. A gente pode atuar em várias frentes.

Outra coisa de grande valia foram as parcerias, tanto no Inova Pork quanto no Inova Ave, e agora no programa Inova, que reúne os dois. A gente conseguiu abrir a Embrapa. Abrimos nossos campos experimentais para parcerias, fomos atrás das principais agroindústrias oferecendo nossas equipes para atuar diretamente em projetos com a demanda deles.

Outra coisa interessante foram as emendas parlamentares. A gente teve um relacionamento bem interessante com parlamentares, acima de qualquer partido, principalmente deputados federais e senadores. Um deles que destaco é o Projeto Javali.

São muitas coisas que me veem a mente quando penso nesses últimos anos, é um trabalho de uma equipe com muitas habilidades e muita dedicação.

O Presente Rural – Como é chefiar uma equipe de pesquisadores na Embrapa Suínos e Aves?

Janice Zanella – É um desafio dia a dia, o pesquisador é treinado para ser crítico, e muitas vezes quando a gente é muito crítico, acaba se frustrando, acaba exigindo muito, e isso é normal. Nosso nível é muito lá em cima. Mas falei desde o começo, vamos ter paciência, calma, vamos nos ajudar, trabalhar junto, a gente está aqui para fazer pesquisa com qualidade e criatividade, que era nosso lema, e foi assim. A gente teve muito apoio, a coisa não parou, passamos por dificuldades, principalmente de recursos, mas a equipe se reinventou, fez o possível para inovar, buscar novas parcerias e recursos. Foi muito bom, e tem sido, a gente conseguiu pavimentar um caminho bem interessante. A nova gestão vai poder trabalhar também, dar continuidade, e fazer da forma que para eles seja mais certa e aplicada ao plano de trabalho que eles pensam em realizar.

Sempre liderei equipes, mas não uma equipe tão grande, de 213 pessoas. Foi desafiador, mas também muito recompensador.

O Presente Rural – Quais foram os maiores desafios nesses sete anos?

Janice Zanella – A gente veio de um período de vacas gordas, digamos assim. A gente teve o PAC, tivemos o PAC Embrapa, o Ciência Sem Fronteiras, havia muito investimento na pesquisa brasileira, mas com o tempo a gente foi percebendo que os recursos foram ficando mais escassos, então a gente teve uma redução enorme do nosso orçamento, investimento praticamente zero nos últimos sete anos. Investimento é o que? compra de equipamentos, fazer reforma renovação de frota. A gente tinha vários projetos, como implantação de uma mini usina de energia solar que a gente não conseguiu, por exemplo, mas nós conseguimos outras coisas, como o posto de biometano do biogás, então a gente consegue gerar biometano para abastecer um veículo na unidade. A gente sempre teve parceria com indústrias e outros parceiros então a gente conseguiu manter o trabalho andando.

Vale lembrar que tivemos uma crise política muito forte, tivemos impeachment de presidente, tivemos mudança de presidente da Embrapa, nesses últimos anos tivemos três presidentes na Embrapa, muitos ministros da Agricultura. Cada vez que muda, muda política, dá uma lentidão digamos até tudo se acertar. Outro problema que eu vejo a questão de equipe. Nós estamos mais de 10 anos sem concurso público e para entrar na Embrapa a admissão é somente por concurso público. As equipes vão diminuindo, nós tivemos um plano de demissão incentivada, quando 25 colegas se desligaram, fora outros que também se transferiram, tivemos alguns falecimentos, então isso aí vai diminuindo a equipe. Acredito que uma das grandes dificuldades é a falta de recurso e a falta de pessoas. Mas tudo isso eu digo nos aproximou de outros parceiros e vimos como somos resilientes. Mesmo com todas essas dificuldades a gente conseguiu ainda mostrar que produzimos, que estamos gerando resultados e que a Embrapa é importante para o país. Basicamente isso nos dá uma realização muito grande do trabalho que a gente faz, o reconhecimento que é que é feito tanto pelo setor como também da sociedade brasileira.

O Presente Rural – A pandemia alterou os rumos de trabalho da Embrapa Suínos e Aves?

Janice Zanella – Alterou Sim. Ela é uma dos grandes desafios, a gente não tinha visto uma pandemia dessa magnitude nos últimos 100 anos. A última pandemia assim grande desse jeito, claro que a gente teve a gripe A em 2009, mas nada parecido com que a gente tá vendo, o impacto no mundo, na economia mundial, em mortes. A gente viu que realmente aqui no Brasil a situação não foi e não é muito fácil. Tivemos perdas de colegas, isso impactou e impacta muito. Com certeza impacta a cabeça de todo mundo. Todos nós ainda ficamos com essa pergunta: o que que vai ser? A pandemia veio para ter uma mudança, como aconteceu depois da segunda grande mundial, da primeira guerra. Creio que essa foi a mudança do milênio, ela ensinou também muita coisa para a gente. Eu acho que no começo a gente ainda ficou meio sem saber o que fazer, mas nunca paramos, a gente sempre deu continuidade aos trabalhos de uma forma virtual, de forma online e revezamento na unidade. Os campos experimentais não pararam, os laboratórios não pararam, a gente aprendeu a trabalhar diferente.

O Presente Rural – É possível avaliar “estragos” que a pandemia tenha deixado nas pesquisas?

Janice Zanella – A gente perdeu alguns colegas, ficamos com muitas pessoas com dificuldades até psicológicas porque perderam familiares, toda essa insegurança, as pessoas um pouco mais ansiosas, com dificuldade maior de saber o que vai ser daqui para frente, mas com relação às pesquisas eu posso te dizer com toda a segurança que não atrasamos nenhuma atividade, nenhum dos projetos foi interrompido ou foi cancelado. Atrasamos no início da pandemia, mas retomamos, estamos com tudo em dia, além desse apoio que a gente deu para o Ministério da Saúde. Nós conseguimos financiar um projeto de R$ 4 milhões com Finep para estruturar nosso laboratório NB2 Plus para um laboratório nb3, ou seja a gente vai poder atuar muito proximamente ao Ministério da Agricultura e Ministério da Saúde também em apoio principalmente a pandemias e zoonoses. Esse laboratório nb3 vai ter padrão OMS (Organização Mundial de Saúde), então isso foi uma grande conquista que eu posso dizer que foi reflexo também dessa pandemia e que veio para somar.

O Presente Rural – Você foi a primeira mulher a chefiar a Embrapa Suínos e Aves, criada em 1975. Fale sobre isso.

Janice Zanella – Sou a primeira mulher a chefiar a Embrapa, com 46 anos. Realmente foi um momento desafiador, mas eu nunca deixei que isso afetasse a forma de eu trabalhar, o fato de ser mulher, sempre tenho paixão pelo que eu faço e consegui ter reconhecimento. Claro que a mulher ainda parece que ela tem que mostrar porque veio, porque parece que o pessoal não confia de cara, mas tive apoio de toda uma equipe, uma equipe fantástica trabalhando junto comigo, meus chefes adjuntos, todos os meus supervisores. Nós tivemos uma união muito grande de esforços e a gente tem certeza que a gente conseguiu trabalhar e fazer o que a gente se propôs a fazer e mais. Acredito que essa questão de gênero não afetou, acredito muito na diversidade e acredito muito na multidisciplinaridade. As equipes têm que ser formadas por diferenças porque essas diferenças enriquecem a forma de trabalho. São essas diferenças de gerações, diferenças de gênero, de formação de culturas só enriquece.

O Presente Rural – O que vai fazer depois de passar o bastão ao pesquisador Everton Krabbe?

Janice Zanella – O Everton Krabbe é um pesquisador extremamente competente, é uma pessoa extremamente dedicada à Embrapa, é um amigo querido. Vou fazer tudo que eu puder para que seja uma transição muito tranquila, muito profissional. Nesse primeiro momento vou ajudar no que ele precisar, não só ele, mas toda equipe que ele escolheu para ajudar durante esses anos que ele vai ficar à frente da unidade. Eu trabalho para a Embrapa, trabalho para o setor e eu vou continuar fazendo o que eu puder para dar esse apoio.

Vou continuar me dedicando na pesquisa. Estou já me incluindo em grupos, eu nunca parei, mas estou retomando com mais força agora. Penso em sair fazer um ano sabático ou no ano que vem ou no outro, depois que acalmar essa pandemia, para ver o que realmente a gente vai fazer, mas eu penso em atuar muito proximamente com a parte de diagnóstico rápido, geração de diagnóstico rápido para que o técnico veterinário de campo possa ter esse primeiro diagnóstico a campo, dar segurança para ele com um diagnóstico clínico e também apoio aos laboratórios parceiros nossos, como o Sedisa e os demais laboratórios para que, quando chegue lá as amostras, já chegue com direcionamento. E também a questão da defesa, a gente vê a Peste Suína Africana chegando aí nas Américas e esse diagnóstico rápido é muito importante. E vacinas. Então o que eu quero fazer é geração de dados, dados epidemiológicos. Uma coisa que eu tenho muito interesse também de trabalhar com parte de compartimentos, são áreas que eu penso em atuar fortemente, na sanidade, é essa a minha proposta agora.

O Presente Rural – Deixe uma mensagem aos colegas de Embrapa e aos profissionais do agro.

Janice Zanella – A mensagem que trago aos meus colegas, que eu deixo para todos é primeiro continuar se dedicando, fazendo o máximo para o país, inovando, porque o nosso lema é inovação, se motivando e principalmente apoiando essa nova gestão, porque a situação não está fácil para o país. Por outro lado o agro nosso é líder mundial, nós somos líderes em várias setores. O Brasil deu muito certo na agricultura e vai continuar dando certo, a gente precisa apoiar isso tudo. E quero que meus colegas sejam felizes, procurarem trabalhar com amor, trabalhar com dedicação, acordar todo dia feliz de ter um emprego e se sentir abençoado em trabalhar no setor tão importante.

O agro é um setor fantástico, setor maravilhoso que eu adoro trabalhar junto, mas não podemos nos acomodar, os desafios estão cada dia mais próximos. A Embrapa tem um trabalho que se chama a visão 2030. O que vem na tua cabeça quando você pensa em próximos desafios? A questão da sustentabilidade. O planeta está passando por mudanças, mudanças climáticas, mudanças demográficas e mudanças sanitárias. Doenças novas vão continuar surgindo, o regime de águas, as mudanças climáticas, o calor, tudo isso vai impactar a produção de grãos, vai impactar a produção animal, a saúde humana e a saúde animal.

A globalização está cada vez maior, então essas doenças estão chegando cada vez mais rápido em vários continentes. A gente também tem que pensar que existem soluções, às vezes não são soluções fáceis, são soluções difíceis, mas por exemplo para a sustentabilidade têm várias tecnologias. Eu acho que o Brasil não pode depender de tecnologia dos outros. Por exemplo, tanto para produção de insumos fertilizantes, vacinas, o Brasil tem que ter isso. A gente viu agora como foi difícil durante a pandemia se manter, desde a construção civil até os diagnósticos moleculares a dificuldade que é de conseguir insumo. O Brasil tem que ser autossuficiente e também abrir.

Veja a China, né? A China comercializa com o mundo inteiro, importa do mundo inteiro e exporta para o mundo inteiro. O Brasil é relativamente fechado, tem que se abrir mais, investir em tecnologia. Dizem que nos próximos 30 anos a tecnologia vai avançar mais que nos últimos 200 anos. A gente vê isso nas comunicações, como evoluiu de um ano para cá.

Os desafios são grandes, mas também a gente tem que aproveitar essas oportunidades e construir o melhor, inovando, fazendo diferente, abrindo a cabeça, saindo da caixa. A ciência está aí para nos ajudar. Eu acredito que a maior conquista da humanidade realmente foi a ciência e a comunicação. Temos que aproveitar a tecnologia, trabalhar juntos, criticar também, mas também usar a criatividade para inovar. Então essa aí a mensagem que eu deixo, agradecendo todos os parceiros, principalmente os parceiros do nosso Inova, que acreditaram na gente, e que continuem nos apoiando e apoiando a Embrapa. E dizer que sempre podem contar comigo.

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Avicultura 2ª enfermidade que mais causa prejuízo

Estudo revela perdas financeiras e produtivas com a bronquite infecciosa

Diagnóstico preciso é o primeiro passo para o controle da doença.

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Arquivo/OP Rural
Por  Graziela Santos, Jorge Chacón e Tharley Carvalho da Ceva Saúde Animal

A bronquite infecciosa é uma doença grande impacto da indústria. O Banco Mundial aponta como a segunda enfermidade que mais causa prejuízo globalmente. Provocada por um coronavírus, pertencente ao gênero gammacoronavírus. Atualmente sabe-se que a doença possui um impacto mais amplo no organismo das aves, com manifestações respiratórias, renais e reprodutivas.

Você acha fácil identificar um lote comprometido pelo vírus? 

Muitas vezes o diagnóstico dos lotes acometidos apenas pela análise clínica do lote através das visitas de acompanhamento não é uma tarefa fácil. Tendo em vista que em lotes com uma infecção tardia os sinais clínicos podem ser mais brandos. Além disso é importante ressaltar, que a cepa BR da bronquite infecciosa tem importante acometimento renal que muitas vezes passa despercebido quando erroneamente atrelamos o diagnóstico da bronquite apenas à sinais respiratórios.

Vamos usar esse caso real como exemplo

Em uma empresa do sul do Brasil foi realizado o acompanhamento laboratorial e o desempenho zootécnico de 16 lotes de frango de corte (295 mil aves). No acompanhamento sorológico, 62,5% dos lotes apresentaram resultado positivo. No entanto em 94% dos lotes foi detectado o vírus variante BR.

O que isso significa?

Quando utilizamos somente a sorologia como ferramenta de diagnóstico, estamos excluindo os lotes que foram infectados tardiamente. Pois no diagnóstico realizado através da sorologia, identificamos os anticorpos IgG que podem levar até 3 semanas pós infecção para serem identificados. Já na PCR conseguimos fazer o diagnóstico em algumas horas após a infecção.

Os lotes nem sempre apresentam soroconversão elevada próximo ao abate. Mas isso não significa que não foram infectados e sofrem com os danos da doença. A alta positividade na PCR confirma que o vírus desafia os organismos desses animais.

A alta positividade na PCR demonstra claramente a infecção e a circulação do desafio na região. As aves positivas através de PCR confirmam a presença do vírus e as consequentes perdas causadas por ele.

Os lotes com maiores títulos indicam que foram infectados com o vírus nas primeiras semanas de vida e são mais prejudicados.

Os lotes com títulos mais altos indicam uma infecção mais precoce, já que sabemos que a soroconversão pode levar em torno de 3 semanas. As perdas produtivas, nesses lotes, iniciam desde o primeiro momento da infecção.

Os resultados zootécnicos provam isso

Quando comparamos lotes com GMT abaixo de 1.500 com lotes que possuem GMT acima de 1.500, observamos os indicadores zootécnicos com melhores resultados nos lotes com menor GMT, indicando uma infecção mais tardia nesses lotes.

Ou seja, em lotes positivos na PCR e com sorologia mais elevada as perdas zootécnicas são mais expressivas. Demonstrando que o momento da infecção, mais precoce ou tardiamente interfere no desempenho do lote.

Lotes com infecção precoce necessitaram de quase 1 dia a mais no campo para serem abatidos.

Os lotes com infecção mais precoce e consequente maior soroconversão apresentaram um resultado PIOR (R$ 142 reais) quando comparado aos lotes com menor soroconversão. Vale lembrar que apenas um lote não foi positivo na PCR.

Conclusões

❖   Somente a sorologia não deve ser utilizada como ferramenta de diagnóstico e monitoramento da circulação viral da Bronquite Infecciosa.

❖   Lotes infectados mais precocemente pelo vírus da Bronquite Infecciosa ficam expostos mais tempo e apresentam pior desempenho zootécnico (mortalidade, conversão alimentar e ganho de peso), além de aumento dos gastos com antibióticos.

❖   A infecção precoce pelo vírus da Bronquite Infecciosa Gera maiores impactos no Abatedouro, com aumento dos índices de condenação.

❖   Lotes infectados tardiamente podem não apresentar sinais clínicos evidentes no campo, mas podem apresentar altas condenas no abatedouro. Tendo em vista o diagnóstico tardio e a não medicação a campo.

As referências bibliográficas estão com os autores. Contato via: tharley.carvalho@ceva.com

Fonte: Ceva Saúde Animal
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Avicultura Cerimônia de abertura

3ª Conbrasul Ovos evidencia importância do setor

Evento reúne atores da agroindústria e fornecedores de insumos da cadeia avícola até a próxima quarta-feira (1º), em Gramado, na serra gaúcha.

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Foi aberta oficialmente a 3ª edição do Conbrasul Ovos – Conferência Brasil Sul da Indústria e Produção de Ovos, neste domingo (28), na cidade de Gramado, no Rio Grande do Sul. O evento reúne atores da agroindústria e fornecedores de insumos da cadeia avícola até a próxima quarta-feira (1º).

Na cerimônia de abertura foi enaltecida a importância do setor. O presidente executivo da Associação Gaúcha de Avicultura (Asgav), José Eduardo dos Santos disse estar honrado em receber os congressistas após quase dois anos de muita dificuldade em decorrência da pandemia da Covid-19, mas que o compromisso com a avicultura faz com que eventos como da Conbrasul Ovos aconteçam. “Os desafios nos movem e nos fazem fazer um evento como esse direcionado para lideranças e principais profissionais do setor avícola do país, que atuam no dia a dia na produção, no fornecimento de tecnologias, na ciência ou nas mais diversas áreas. Vamos sempre lutar pela nossa avicultura, temos temas estratégicos e vitais que vamos discutir durante esse fórum de debates, assim como vamos ter temas desafiadores que precisamos colocar em pauta, para quer possamos traçar um novo rumo para o nosso setor, porque vamos ter desafios e novos cenários”, mencionou Santos.

Participam do evento representantes dos Estados de Alagoas, amazonas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Roraima, Santa Catarina e São Paulo.

O presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, enalteceu em seu discurso o investimento de mais de R$ 1 bilhão no setor durante a pandemia para que não faltasse comida na mesa dos brasileiros. “Os produtores foram verdadeiros heróis, trabalharam com muita resiliência, investiram neste período mais de R$ 1 bilhão para não deixar faltar comida para os brasileiros. E estar aqui junto pra pensar o futuro de novo, pra pensar em uma retomada onde a gente possa entregar nutrição para as pessoas que vão continuar a lutar para ter imunidade para trabalhar com essas novas variantes chegando. Então as situações de limitações que estamos tendo agora, de ter que ficar longe um do outro e de usar máscara são temporárias e vai passar, mas nós vamos cada vez ficar maiores. O setor viveu grandes dificuldades, agora é momento de pensar olhando para frente. Nós temos um ano que precisamos crescer mais ainda na exportação e trabalhar para não deixar faltar a produção, é isso que nós temos que fazer!”, declarou Santin, chamando a atenção para casos de Influenza Aviária fora do país. “Não dá pra descuidar”, encerrou.

“É muito importante que os setores parem, se organizem, porque nunca se viveu um tempo de tanta disrupção como agora, o que  vale hoje já não vale amanhã, mas uma coisa é verdadeira, alimento na mesa das pessoas vai chegar, tem que chegar, e tomara que chegue em abundância. Na pandemia, vocês não imaginam a ginástica que fizemos para manter o nosso setor produzindo, havia literalmente gente querendo que parássemos o tempo todo. E o Brasil foi o país que melhor se comportou entre todos os países, porque nós não tivemos abate sanitário”, frisou o presidente do Conselho Consultivo da ABPA, Francisco Turra.

Por sua vez, o presidente do Conselho Diretivo da organização avícola do Rio Grande do Sul e de entidades membros ASGAV/SIPARGS, Nestor Freiberger, enalteceu a importância do congresso para o setor. “A avicultura sofreu e ainda sofre com os impactos da pandemia, mas não deixamos de produzir carne de frango e ovos para alimentar milhares de famílias no Brasil e no mundo. Momentos como este, de retomada de eventos presenciais, nos ajudarão a superar as dificuldades, definir novos horizontes para a nossa avicultura. Parabenizo a equipe da ASGAV capitaneada pelo presidente Eduardo em meio as mudanças constantes de regras sanitárias conseguiram organizar este avento para que pudéssemos estar juntos. Tenho plena convicção de que serão dias bem produtivos e que nossos palestrantes trarão informações muito importantes e muito conhecimento para ser compartilhado”, ressaltou.

Demais autoridades, lideranças, convidados, publico e imprensa em geral marcaram presença na solenidade. O Jornal O Presente Rural está fazendo a cobertura do evento, que você, caro leitor, cara leitora, pode acompanhar na próxima edição sobre Avicultura Corte & Postura.

As principais tendências econômicas e os fundamentos de mercado que devem impactar a avicultura nos próximos anos serão discutidos durante a 3ª Conbrasul Ovos, na abertura da programação nesta segunda-feira (29), com painéis sobre “Agronegócio Brasil: Novos Cenários e Novos Desafios” e “As forças que estão acelerando as transformações no mundo e no agronegócio”.

A 3ª Conbrasul Ovos está seguindo todos os protocolos sanitários vigentes e determinados pelos órgãos de vigilância.

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