Avicultura
Qualidade dos ingredientes molda microbiota intestinal e desempenho das aves, aponta especialista
Estudos indicam que nutrição influencia imunidade, eficiência alimentar e sustentabilidade na avicultura.

Em um setor onde cada grama de ração representa custo e desempenho, o intestino das aves desponta como o centro de uma revolução silenciosa. Mais do que um órgão digestivo, ele abriga interações complexas entre nutrientes e microrganismos, que interagem e influenciam desde a eficiência alimentar até a imunidade do animal. Nos últimos anos, pesquisadores e indústrias têm voltado os olhos para esse universo microscópico, buscando entender como a qualidade dos ingredientes utilizados nas rações pode moldar essa microbiota e, consequentemente, o potencial produtivo das aves.
A doutora em Zootecnia e professora da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Cinthia Eyng, tem se dedicado a investigar essa relação. Segundo ela, compreender o papel dos ingredientes na microbiota intestinal é essencial para garantir saúde, desempenho e sustentabilidade à avicultura. “A microbiota intestinal é composta por diversos microrganismos que interagem com o hospedeiro e os nutrientes ingeridos. Os tipos de ingredientes e, principalmente, a qualidade deles, modulam essa comunidade de maneira distinta”, explica em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural.

Doutora em Zootecnia e professora da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Cinthia Eyng: “Monitorar é investir. É o primeiro passo para garantir uma produção de qualidade e previsível” – Foto: Arquivo Pessoal
Essa modulação, afirma, interfere tanto na composição taxonômica (quais microrganismos estão presentes) quanto no perfil metabólico, ou seja, como eles desempenham suas funções e quais metabólitos produzem.
Quando a ração apresenta ingredientes de baixa qualidade, seja por variação na composição nutricional, presença de fatores antinutricionais, contaminantes ou processamento inadequado, o impacto é imediato. “Esses fatores podem alterar a integridade da mucosa intestinal, modificar o desempenho e comprometer o resultado produtivo”, observa Cinthia.
Micotoxinas, por exemplo, ou ingredientes com baixa digestibilidade proteica, criam um ambiente intestinal propício à proliferação de microrganismos patogênicos. “A nutrição vai muito além de fornecer nutrientes ao animal. Ela molda a microbiota, promovendo o desenvolvimento de microrganismos benéficos e limitando os patogênicos”, resume.
A difícil tarefa de medir qualidade
O desafio começa ainda antes da formulação das rações: avaliar a qualidade das matérias-primas. Cinthia lembra que o controle da composição dos ingredientes é um dos pontos mais críticos do sistema. “Avaliar qualidade vai muito além de determinar porcentagem de proteína, umidade ou lipídios. O grande desafio é a variação de composição entre os ingredientes”, diz, enfatizando que um milho colhido no Sul pode ter valor nutricional completamente diferente de outro produzido no Nordeste, com teores distintos de amido, energia ou mesmo micotoxinas.
A professora destaca o papel das tecnologias preditivas, como o infravermelho próximo (NIR), que permitem análises rápidas e mais completas dos ingredientes. “Hoje é indispensável monitorar continuamente os fornecedores e incluir, nas rotinas analíticas, indicadores de digestibilidade. Isso reduz a incerteza e aumenta a previsibilidade do desempenho e do impacto desses ingredientes na microbiota intestinal”, expõe.
Inimigos ocultos da eficiência

Dentro dessa equação, os fatores antinutricionais são vilões muitas vezes invisíveis. Taninos, fitatos e inibidores de tripsina estão naturalmente presentes em vários grãos e, quando não controlados, afetam diretamente a digestão e a microbiota intestinal. “Grande parte do sistema imunológico está no trato gastrointestinal, e a microbiota responde diretamente aos nutrientes que são fornecidos”, pontua Cinthia.
Um exemplo clássico é o inibidor de tripsina, comum no farelo de soja mal processado. “Esse inibidor reduz a atividade das enzimas proteolíticas, levando a uma menor digestão e absorção de proteínas. O nutriente não digerido chega ao intestino grosso, favorecendo fermentações proteolíticas e alterando o pH intestinal”, diz. Esse ambiente, mais favorável à proliferação de bactérias patogênicas como o Clostridium perfringens, desencadeia processos inflamatórios e perdas metabólicas significativas. “O animal passa a gastar energia para combater inflamações em vez de convertê-la em ganho de peso e desempenho produtivo”, ressalta.
Aliadas de grande impacto
Entre as ferramentas nutricionais capazes de reverter esse cenário estão as enzimas exógenas, cuja eficácia já é amplamente comprovada. “Diversos estudos mostram que as enzimas podem modular positivamente a microbiota intestinal”, destaca a especialista.
De acordo com a docente, a ação principal dessas enzimas é melhorar a digestibilidade dos nutrientes, reduzindo o substrato não digerido que serviria de alimento a bactérias indesejáveis. “Mas elas fazem mais do que isso, algumas enzimas, como a xilanase, ao quebrar polissacarídeos, geram xilooligossacarídeos, compostos com efeito prebiótico. Eles servem de substrato para bactérias benéficas, como lactobacilos e bifidobactérias”, salienta.
Com isso, as enzimas não apenas aumentam a eficiência nutricional, mas também estabilizam o ambiente intestinal, reforçando a integridade da mucosa e reduzindo inflamações. “A suplementação enzimática deve ser vista não só como ferramenta nutricional, mas como moduladora da microbiota. Ela contribui para o equilíbrio intestinal e para o desempenho zootécnico”, menciona.
Ingredientes de origem animal
A discussão sobre o uso de ingredientes de origem animal nas dietas de aves é antiga, mas novos estudos têm ajudado a desmistificar o tema. “Um trabalho recente, publicado em 2025, mostrou que não houve diferença significativa na microbiota intestinal ao incluir ingredientes de origem animal, como farinhas, desde que fossem de boa qualidade”, afirma Cinthia.
O ponto crítico, mais uma vez, está na qualidade. “Se a farinha animal for bem processada, com estabilidade lipídica e baixa carga microbiana, não há prejuízo. Mas produtos de baixa qualidade podem aumentar a carga bacteriana e favorecer a produção de compostos tóxicos, como aminas e amônia”, reforça.
Custo versus qualidade
No cenário de margens apertadas da avicultura, equilibrar custo e qualidade dos ingredientes é um desafio constante. Porém, a doutora em Zootecnia adverte que baratear a ração nem sempre reduz custos reais. “Reduzir o custo usando ingredientes de baixa digestibilidade ou alta variabilidade compromete o desempenho e eleva o custo final da produção”, alerta.
O caminho, segundo ela, é monitorar continuamente a qualidade, investir em tecnologias analíticas e padronizar processos de compra e armazenamento. “Custo-benefício e sanidade precisam caminhar juntos. Ingredientes de qualidade são um investimento, não um gasto”, enfatiza.
Monitorar é investir em produtividade
Os programas de monitoramento ainda são um gargalo na indústria, que muitas vezes se limita a análises básicas. “Focar apenas em proteína bruta, lipídios ou umidade é insuficiente. Precisamos de uma visão mais ampla, que inclua digestibilidade e fatores antinutricionais”, defende Cinthia.
Esses parâmetros adicionais, segunda ela, permitem uma leitura mais fiel de como os ingredientes influenciam a microbiota e, por consequência, o desempenho das aves. “Monitorar é investir. É o primeiro passo para garantir uma produção de qualidade e previsível”, destaca.
Via de mão dupla
A interação entre microbiota e sistema imunológico é hoje uma das áreas mais fascinantes da Zootecnia. Cinthia lembra que o trato gastrointestinal abriga uma parte expressiva das células imunes do organismo. “Um ingrediente de boa qualidade, com digestibilidade adequada, favorece uma fermentação benéfica, resultando na produção de ácidos graxos de cadeia curta, como o butirato, que tem função anti-inflamatória e fortalece a barreira intestinal”, aponta.
Quando essa fermentação é substituída por processos indesejáveis, devido a ingredientes de baixa qualidade, surgem compostos tóxicos, como aminas biogênicas, que danificam o epitélio intestinal e desencadeiam inflamações. “Essas inflamações consomem energia e aminoácidos que poderiam ser direcionados ao crescimento. A microbiota equilibrada é, portanto, essencial para o bom funcionamento do sistema imune”, sustenta.
Avanços tecnológicos
A chegada de tecnologias analíticas rápidas está transformando o manejo nutricional. “O uso do NIRS, por exemplo, permite avaliar em minutos a composição nutricional dos ingredientes, viabilizando a nutrição de precisão”, explica Cinthia.
Além disso, ferramentas de análise de microbioma possibilitam mapear a funcionalidade dos microrganismos, identificando as vias metabólicas ativas em resposta à dieta. “Com isso, conseguimos formular dietas cada vez mais personalizadas e eficientes, ajustadas não só à genética, mas também à microbiota das aves”, enaltece.
Papel do zootecnista
Para a professora, o zootecnista tem hoje um papel estratégico na transição para uma nutrição integrada e sustentável. “É preciso escolher ingredientes de alta digestibilidade, que promovam fermentações benéficas e mantenham uma microbiota estável”, orienta, acrescentando que isso inclui o uso de enzimas e aditivos, mas também um olhar mais amplo sobre a formulação. “Nutrição, imunidade e microbiota não são áreas separadas. Elas formam um sistema, e toda decisão nutricional impacta esse equilíbrio.”
A versão digital já está disponível no site de O Presente Rural, com acesso gratuito para leitura completa, clique aqui.

Avicultura Editorial
O Nordeste avícola já não cabe no rodapé
Região construiu história, ganhou escala e entrou de forma mais consistente na conta dos investimentos avícolas do país. O rodapé ficou pequeno para o tamanho dessa pauta

A avicultura nordestina não nasceu agora, nem depende de descoberta recente para provar sua relevância. Há empresas, marcas, produtores e famílias que construíram trajetória na atividade por décadas. O que mudou é a escala da discussão. A região, por muito tempo observada apenas pela baixa participação no abate nacional sob inspeção federal, começa a aparecer com mais força em indicadores que mostram capacidade produtiva, alojamento de pintainhos, produção de ovos, genética, integração, verticalização e novos investimentos.
Essa diferença importa. Quando se olha apenas para o abate, o Nordeste ainda parece pequeno diante da força histórica do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste. Mas a fotografia fica incompleta. A região respondeu por uma fatia relevante do alojamento nacional de pintainhos de corte em 2025, avança na postura comercial, abriga operações integradas, amplia a produção de ovos, mantém presença em genética avícola e passa a se beneficiar da aproximação dos grãos produzidos no Matopiba.

Editorial escrito por Giuliano De Luca, jornalista e editor-chefe de O Presente Rural.
O Ceará é um dos exemplos mais claros dessa mudança de patamar. A avicultura está distribuída por dezenas de municípios, gera empregos, sustenta uma produção expressiva de ovos e frangos e reúne empresas que operam da ração à distribuição. A presença de uma granja de avós no estado também coloca a região em uma etapa estratégica da cadeia, muito além da produção de commodity.
A Bahia, por sua vez, mostra outro lado desse movimento: crescimento em alojamento, avanço na produção de ovos e potencial de expansão, mas também uma disputa dura contra custos, logística, energia, crédito e infraestrutura. O sinal é importante porque revela que o crescimento existe, mas não se sustenta apenas com demanda. Precisa de indústria, estrada, armazenagem, assistência técnica, mão de obra e ambiente de negócios.
Esta edição de O Presente Rural olha para o Nordeste sem folclore. Não se trata de afirmar que a avicultura brasileira mudou de endereço. O centro nacional da produção continua fortemente ancorado em regiões tradicionais. Mas também já não é possível tratar o Nordeste como nota lateral. A região construiu história, ganhou escala e entrou de forma mais consistente na conta dos investimentos avícolas do país. O rodapé ficou pequeno para o tamanho dessa pauta.
A edição também está disponível gratuitamente em versão digital, permitindo que produtores, técnicos, pesquisadores e profissionais da cadeia tenham acesso ao conteúdo completo, acesse clicando aqui. Boa leitura!
Avicultura
Sanidade, inovação e gestão estão entre os destaques da nova edição de Avicultura
Publicação reúne reportagens sobre o avanço da avicultura nordestina, sucessão familiar, biosseguridade, saúde animal e os principais temas que movimentam o setor.

A nova edição do jornal Avicultura, de O Presente Rural, reúne reportagens sobre os principais desafios, oportunidades e transformações da cadeia avícola brasileira. A publicação destaca, na reportagem de capa, o avanço da avicultura nordestina, que vem ampliando sua escala de produção e fortalecendo sua participação no setor.

Foto: Shutterstock
A edição também traz uma cobertura sobre o Alimenta 2027, evento que levará a Cascavel um congresso e uma feira voltados à proteína animal, reforçando o município como um dos principais polos do agronegócio brasileiro.
Outro tema em destaque é o alerta para a laringotraqueíte, enfermidade que também preocupa a avicultura de corte e exige atenção dos produtores quanto às medidas de prevenção e biosseguridade.

Foto: Shutterstock
A sucessão familiar no campo também ganha espaço nas páginas do jornal. A reportagem “O filho não saiu do campo, foi afastado da gestão” aborda os desafios enfrentados pelas famílias rurais na preparação das novas gerações para assumir a administração das propriedades.
A publicação ainda apresenta um panorama da indústria de saúde animal, que movimenta quase R$ 2 bilhões com a avicultura, evidenciando a importância do segmento para a sanidade e a produtividade das granjas.
Entre as reportagens especiais, a edição conta a trajetória de uma professora

Foto: Shutterstock
que contribuiu para a formação de profissionais e para o desenvolvimento de uma das maiores potências avícolas do país. Também traz uma análise sobre uma das etapas mais importantes da cadeia produtiva: o abate de aves, abordando os desafios relacionados à velocidade da linha, à qualidade da carcaça e à segurança do processo.
Além das reportagens, a nova edição reúne artigos técnicos assinados por especialistas, com conteúdos voltados ao manejo, sanidade, nutrição, bem-estar animal, tecnologia e inovação, além de apresentar novidades das principais empresas que atuam no setor avícola.
A edição também está disponível gratuitamente em versão digital, permitindo que produtores, técnicos, pesquisadores e profissionais da cadeia tenham acesso ao conteúdo completo, acesse clicando aqui. Boa leitura!
Avicultura No Noroeste do Estado
Rio Grande do Sul confirma foco de gripe aviária em aves de subsistência
Medidas de contenção e vigilância foram adotadas após a confirmação laboratorial. Comércio de produtos avícolas segue sem restrições.

O Rio Grande do Sul confirmou o primeiro caso de Influenza aviária de Alta Patogenicidade (IAAP) em aves de subsistência. O foco foi identificado no município de Coqueiros do Sul, no Noroeste do Estado, e confirmado na última sexta-feira (18) pelo Laboratório Federal de Defesa Agropecuária (LFDA), em Campinas (SP).

Foto: Divulgação
A suspeita foi atendida por equipes do Departamento de Vigilância e Defesa Sanitária Animal (DDA), da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), após notificação registrada em 14 de julho. As amostras coletadas foram encaminhadas ao laboratório de referência da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), que confirmou a presença do vírus.
De acordo com a Seapi, o registro ocorreu em aves de fundo de quintal e não altera o status sanitário do Rio Grande do Sul e do Brasil em relação à influenza aviária de alta patogenicidade. Por isso, não há impacto sobre o comércio de produtos avícolas.
A secretaria também reforça que o consumo de carne de frango e ovos permanece seguro, uma vez que a doença não é transmitida por alimentos.
Como medida de contenção, o Serviço Veterinário Oficial do Rio Grande do Sul realizará inspeções em propriedades rurais e granjas localizadas em um raio de 10 quilômetros do foco, além de ações de vigilância epidemiológica e orientação aos produtores.

Foto: Divulgação/Seapi
A Influenza aviária é uma doença viral altamente contagiosa que acomete principalmente aves, embora também possa infectar mamíferos e, em situações raras, seres humanos.
A Seapi orienta que a população não manipule aves doentes ou mortas. Casos suspeitos, caracterizados por sinais respiratórios, alterações neurológicas ou mortalidade elevada e repentina, devem ser comunicados imediatamente ao Serviço Veterinário Oficial por meio das Inspetorias de Defesa Agropecuária ou dos canais oficiais da secretaria.



