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Qual o ganho de peso diário ideal durante a recria de bovinos de corte?

GPD ideal estará diretamente relacionado a maturidade operacional de cada fazenda, fluxo de caixa, nível de tecnologia empregado, como também resultado econômico esperado.

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Foto: Divulgação/MCassab

Esta pergunta retórica, minimamente nos motiva a refletir sobre o sistema de produção no qual estamos inseridos. Por exemplo, para compreender os porquês da magnitude do GPD de bovinos durante a fase de recria é necessário entender de forma extensa os pormenores operacionais da nossa fazenda, o que por sua vez nos proporciona conhecimento genuíno do nosso atual status produtivo, como também, evidencia fatores limitantes para eventuais aumentos produtivos futuros. Adicionalmente a esta ampla maturidade operacional, a consolidação das despesas econômicas praticadas na fazenda (i.e., precificações da compra e venda dos animais, mão de obra permanente, manutenção da fazenda, administração, entre outros) irá munir o gestor de informações suficientes para simular o ponto de equilíbrio econômico da sua realidade, desta forma, dará o direcionamento para determinar o seu GPD ideal.  

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De forma geral, durante a recria de bovinos de corte temos como objetivo desenvolver animais caracterizados como bezerro (usualmente, 180 – 210kg) à categoria de boi magro (usualmente, 380 – 420kg). O tempo no qual estes animais permanecerão nesta fase será definido pelo nível de produtividade de cada fazenda. Por exemplo, é comum bovinos recriados em fazendas com sistema de produção extensiva permanecerem 24 meses em recria, enquanto que fazendas que adotam práticas e metas zootécnicas nesta fase produtiva usualmente recriam os animais durante 12 meses. É digno de nota que mesmo no cenário de 12 meses de recria são encontradas diferenças significativas na produtividade entre fazendas, e que de fato essa variação pode ser influenciada pelo programa nutricional anual oferecido aos animais, como também por outras variáveis como adubação e manejo de pastagem, sanidade e mérito genético dos animais.

Mediante ao exposto no parágrafo anterior, é notável que o tempo no qual os animais permanecerão em recria será modulado por vários fatores, entre eles, o programa nutricional. No entanto, independentemente do pacote nutricional empregado em cada fazenda, a produtividade dos animais estará exposta a aspectos climáticos, pois, a base deste sistema de produção é o pasto, ao passo que durante o ano ocorrem variações nos fatores que estão diretamente relacionadas à produção e qualidade de forragens: temperatura ambiental, hora luz dia e índice pluviométrico.

Durante a primavera e o verão brasileiro são encontradas condições climáticas favoráveis (alta temperatura, adequada quantidade de horas luz dia e chuvas) ao aumento da produção e valor nutricional do capim, por sua vez, nosso trabalho para produzir carne é facilitado nestas estações do ano, enquanto que, no nosso outono e inverno a temperatura, horas luz dia e chuvas diminuem linearmente e apresentam magnitudes menores quando comparadas ao “período das águas”. Nestas duas últimas estações, nosso trabalho de produção de carne já não é mais tão facilitado pelo fator climático tanto quanto no período das águas. Entretanto, os programas nutricionais recomendados pelo nutricionista podem contribuir significativamente para minimizar os desafios observados durante o período de seca como também potencializar o GPD de bovinos durante o período das águas. Mas, antes de discorrer sobre programas nutricionais, refaço a pergunta, qual o GPD ideal durante a recria de bovinos de corte em pasto?

Para nos auxiliar na construção dessa resposta, compartilho os dados do Benchmarking de Recria da empresa Inttegra referente ao perfil de desembolso cabeça mês safra 2023 – 2024 (Tabela 1).

Adicionalmente, vamos integrar ao desembolso cabeça mês o déficit do ágio entre o preço da arroba do bezerro (R$374,40 Scot 19.11.24) e do boi magro (R$335,70 Scot 19.11.24), R$38,70 por arroba ou R$270,90 por bezerro (7 arrobas). Ambas despesas serão incorporadas e reduzidas a despesa diária (desembolso cabeça mês + ágio), desta forma, iremos converter o custo diário em GPD, trazendo parametrização ao GPD necessário para acessarmos o ponto de equilíbrio do cenário produtivo que descrevemos anteriormente.

Seguindo o nosso raciocínio, o desembolso cabeça mês de R$97,98 é equivalente a uma despesa diária de R$3,26, o qual equivale a um GPD de 291,87 gramas (preço base boi magro R$11,19 kg, Scot 19.11.24). O custo do ágio diluído em 365 dias equivale a uma despesa diária de R$0,74, o qual equivale a um GPD de 66,32gramas, ou seja, o custo diário da nossa recria durante 12 meses são 358,19 gramas de GPD, ou 4,35 arrobas durante 12 meses.

Baseado nesse contexto pergunto novamente, qual o GPD ideal durante a recria de bovinos de corte?

Mediante ao raciocínio realizado anteriormente, acredito que o GPD ideal minimamente deve contemplar o ponto de equilíbrio econômico de cada sistema de produção, pois a maior parte dos empresários rurais estão nesta atividade para aumentar seus ganhos econômicos. Sendo assim, o GPD ideal estará diretamente relacionado a maturidade operacional de cada fazenda, fluxo de caixa, nível de tecnologia empregado, como também resultado econômico esperado.

Respondida à pergunta sobre o GPD ideal durante a recria de bovinos de corte, vamos discorrer sobre magnitudes de GPD que poderemos obter nos diferentes períodos do ano, como também, a influência dos diferentes níveis de suplementação no GPD de bovinos em recria.

Antes de mais nada precisamos destacar que o GPD de bovinos recriados em pasto é dependente de diversos fatores, entre eles a raça dos animais, sexo, manejo de pastagem, adubação de pastagem, sanidade, níveis de suplementação entre outros fatores. Porém, neste artigo vamos ressaltar o benefício da suplementação de bovinos nos diferentes períodos do ano.

Em estudos realizados na Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA) unidade de Colina-SP foram demonstrados que animais suplementados durante o período das águas com suplemento mineral (SM) ou suplemento proteico (SP) a nível de 0,1%PV obtiveram em média GPD de 0,513 e 0,654 gramas respectivamente (Sampaio 2010; Roth 2011; Moretti 2014). Estes mesmo autores também avaliaram o GPD de bovinos no mesmo período suplementados com SM ou suplemento proteico energético (SPE) a nível de 0,3%PV. A média dos três trabalhos demonstraram que bovinos suplementados com SM obtiveram GPD de 0,469 gramas enquanto que animais suplementados com SPE obtiveram GPD de 0,753. Roth (2011) avaliou o GPD de bovinos recriados durante o outono suplementados com SM, SP ou SPE e observou GPD médio de 0,372; 0,548 e 0,685 gramas respectivamente.

Como foi descrito anteriormente, a nutrição é um dos caminhos para ditar a velocidade e/ou a intensidade com a qual os animais serão recriados. Baseado nos resultados dos estudos citados anteriormente, é notável que as magnitudes de GPD são superiores no período das águas (primavera e verão) quando comparado ao outono, como também, dentro de cada estação do ano, maiores níveis de suplementação promovem maiores GPD. Ou seja, é mais fácil rolar pedra morro abaixo (águas) ao invés de rolar pedra morro acima (seca).

Também foram realizados estudos na APTA de Colina-SP avaliando o efeito do nível suplementação de bovinos de corte em recria durante o período da seca. Segundo os estudos (Sampaio et al. 2009; Siqueira et al. 2009; Roth et al. 2009; Moretti et al. 2015) animais suplementados durante a seca a nível de 0,1; 0,3 e 0,5%PV obtiveram GPD médio de 0,340; 0,440 e 540 gramas respectivamente.

Mais do que fixar as magnitudes do GPD obtidos nestes trabalhos de acordo com o nível de suplementação e época do ano, estes estudos trazem referências de GPD para auxiliar em nosso planejamento, pois como dito anteriormente, o efeito no GPD é multifatorial.

Desta forma, com todo a contextualização biológica, econômica, climática, resultado de pesquisas em mãos, estratificando o GPD em períodos do ano (Figura 2), e relembrando que o custeio da nossa recria são 4,35 arrobas, pergunto, qual o GPD ideal para a recria de bovinos?

Para que esta pergunta também seja respondida dentro da sua realidade produtiva, faça contato com um de nossos especialistas em nutrição de ruminantes para que o programa nutricional mais rentável e eficiente seja implementado na recria de sua fazenda.

Figura 2. Simulação de produção de arrobas durante a recria de 12 meses, com GPD estratificado em diferentes períodos do ano (Adaptado da APTA unidade de Colina-SP).

 

Fonte: Por Victor Graciliano - zootecnista e coordenador técnico de bovinos da MCassab Nutrição e Saúde Animal

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Jornada de 40 horas pode exigir reestruturação de escalas e contratos no Brasil

Proposta reduz carga semanal, amplia descanso remunerado e desafia setores dependentes de operações ininterruptas.

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A aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 221/2019, que reduz a jornada semanal para 40 horas, assegura dois dias de repouso semanal remunerado e proíbe a redução salarial, inaugura uma das mais profundas reformas nas relações de trabalho desde 1988. A proposta, agora em tramitação no Senado Federal, altera o artigo 7º da Constituição e redefine a lógica jurídica da duração do trabalho no Brasil.

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O debate social que impulsionou a PEC é legítimo, visto que a busca pelo equilíbrio entre trabalho e vida privada tornou-se central nas economias contemporâneas. Contudo, sob o prisma técnico-jurídico, o texto aprovado apresenta graves defeitos estruturais capazes de gerar insegurança jurídica, explosão de litigiosidade e severos impactos econômicos nos setores produtivos.

O erro capital da proposta reside na rigidez de sua constitucionalização. A PEC estabelece um modelo uniforme para atividades econômicas completamente distintas, ao impor constitucionalmente dois dias de repouso semanal remunerado, um deles preferencialmente aos domingos.

Essa uniformização ignora a complexidade operacional de setores dependentes de turnos ininterruptos, como saúde,

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comércio, hotelaria, segurança, logística, agronegócio e indústria. Embora o texto acene com a compensação por negociação coletiva, restringe a flexibilidade a uma contabilidade “na média”, com a obrigação de cumprir ao menos um repouso semanal dentro da própria semana. A margem de manobra das empresas, portanto, desaparece.

Regimes diferenciados de trabalho
A dificuldade técnica se agrava porque o texto simula permitir regimes diferenciados por lei, mas condiciona essa flexibilização aos limites rígidos fixados nos novos incisos do artigo 7º (oito horas diárias, 40 horas semanais e dois descansos). Na prática, a proposta promete uma saída que ela mesma tranca, o que inviabiliza as escalas e regimes especiais permanentes exigidos pela dinâmica de diversos setores.

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Outro ponto crítico é a colisão frontal entre a PEC e a autonomia coletiva. O Supremo Tribunal Federal, no julgamento do Tema 1046 da repercussão geral, consolidou o entendimento de que as normas coletivas podem pactuar a flexibilização de direitos trabalhistas, desde que preservado o patamar civilizatório mínimo. Ao constitucionalizar parâmetros engessados, a proposta esvazia o papel dos sindicatos e anula a construção de soluções setoriais customizadas.

Perda de eficácia
A situação se torna ainda mais alarmante com a regra que decreta a perda de eficácia, em apenas 60 dias, de cláusulas de acordos e convenções coletivas incompatíveis com o novo regime. Essa ruptura abrupta será, inevitavelmente, o estopim de uma avalanche de ações judiciais.

A invalidação sumária de instrumentos vigentes destrói a lógica de concessões recíprocas da negociação sindical e

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compromete a estabilidade das pactuações. Normas coletivas possuem prazo determinado, impactos financeiros previamente calculados e servem de base para o planejamento empresarial. Subvertê-las em prazo tão reduzido afronta os princípios constitucionais da proporcionalidade, da proteção da confiança legítima e do ato jurídico perfeito.

Do ponto de vista econômico, o aspecto mais preocupante está na aplicação imediata das novas regras aos contratos vigentes sem redução salarial. A diminuição da jornada, com a manutenção de salários nominais, pisos e estruturas remuneratórias, eleva automaticamente o custo da hora trabalhada.

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Impacto financeiro
O impacto financeiro dessa rigidez constitucional ultrapassa a contabilidade interna das empresas e atinge diretamente as contas públicas e os contratos de terceirizações de mão de obra intensiva junto ao Poder Público. A ausência de mecanismos constitucionais claros para o reequilíbrio econômico-financeiro desses vínculos gerará uma onda inevitável de pedidos de repactuação ou rescisão forçada, em flagrante ofensa à livre iniciativa.

Diante desse cenário, o Senado Federal, historicamente reconhecido como a ‘Câmara Alta’ e o guardião do pacto federativo, assume o papel essencial de freio analítico. Cabe à Casa revisar o açodamento da Câmara e calcular o reflexo inflacionário nos serviços essenciais, sob o risco de converter o avanço social em colapso na prestação de serviços básicos.

O impacto da proposta também alcança os planos de cargos e salários e as normas coletivas já em execução. Apesar

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disso, o texto omite mecanismos constitucionais claros de reequilíbrio econômico-financeiro para as empresas afetadas. Essa lacuna fere diretamente a livre iniciativa. O STF já reconheceu que reformas constitucionais se submetem a limites materiais implícitos quando atingem a estabilidade institucional e a proteção das relações jurídicas consolidadas.

A dubiedade do texto também alcança as jornadas já inferiores a 40 horas. Embora declare preservar as situações mais benéficas, a PEC submete essas categorias às novas regras de repouso semanal, o que detonará disputas jurídicas sobre a validade de regimes como o de 12×36, banco de horas e turnos diferenciados de compensação.

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Exiguidade da transição
Por fim, chama atenção a exiguidade da transição. O texto estabelece redução para 42 horas semanais em 60 dias e a implementação definitiva das 40 horas em apenas 12 meses. Para setores complexos, este intervalo é insuficiente para organizar escalas, renegociar contratos, adaptar sistemas de ponto e promover contratações adicionais.

A experiência internacional demonstra que reformas profundas de jornada exigem gradualismo, incentivos econômicos e mecanismos robustos de transição regulatória. A PEC brasileira, contudo, impõe uma mudança estrutural ampla em prazo incompatível com a heterogeneidade da economia nacional.

A discussão agora bate à porta do Senado Federal. Caberá à Casa o bom senso de converter o açodamento legislativo em um debate técnico real. Alterar a rotina produtiva do país sem o devido gradualismo não protege o trabalhador; destrói a viabilidade dos negócios que sustentam o seu emprego. O parlamento tem em mãos a chance de aperfeiçoar o texto, para evitar o risco real de converter uma legítima bandeira de bem-estar social em um histórico motor de desorganização econômica, desemprego e litigiosidade em larga escala.

Fonte: Artigo escrito por Ana Paula Oriola De Raeffray, doutora em Direito; e Franco Mauro Russo Brugioni, advogado especialista em Relações de Trabalho.
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Quando o crédito deixa de financiar sonhos e passa a financiar a sobrevivência

Endividamento recorde de famílias e empresas revela distorções que comprometem o desenvolvimento econômico.

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O Brasil enfrenta um desafio econômico que exige atenção imediata: o avanço do endividamento das famílias e das empresas. Mais do que um problema conjuntural, trata-se de uma questão estrutural que afeta o consumo, os investimentos, a geração de empregos e a capacidade de crescimento sustentável do País. Nesse cenário, tornam-se fundamentais o fortalecimento da educação financeira e a ampliação de modelos de crédito mais próximos das necessidades da população e do setor produtivo.

Os números revelam a dimensão do problema. Atualmente, o País registra 82,8 milhões de CPFs negativados, o equivalente a 50,5% da população adulta. Em outras palavras, para cada brasileiro adimplente existe um inadimplente. No ambiente empresarial, a situação também é preocupante: são 8,87 milhões de CNPJs negativados. Os dados do Banco Central e da Serasa evidenciam uma realidade que compromete o desenvolvimento econômico e social.

As famílias de menor renda são as que mais recorrem ao crédito. Muitas vezes, o financiamento deixa de ser uma ferramenta para realização de projetos e passa a ser utilizado para cobrir despesas básicas. O resultado é um ciclo de endividamento que reduz a capacidade de planejamento e aumenta a vulnerabilidade financeira.

Entre as empresas, observa-se uma situação igualmente preocupante. Em vez de financiar expansão, inovação ou

Imagem criada pelo ChatGPT/Jaqueline Galvão/OP Rural

modernização, o crédito é frequentemente utilizado para manter as operações em funcionamento, pagar fornecedores e cumprir compromissos correntes. Quando o crédito deixa de impulsionar investimentos e passa a financiar a sobrevivência, perde-se um importante motor de crescimento econômico.

Parte dessa realidade decorre da baixa capacidade de poupança nacional. O Brasil possui uma taxa de poupança equivalente a apenas 14,5% do Produto Interno Bruto, uma das menores do mundo. Como a poupança é a principal fonte de financiamento dos investimentos públicos e privados, sua insuficiência contribui para a elevação dos juros e para a escassez de recursos disponíveis ao setor produtivo.

A situação é agravada pela elevada participação do governo no mercado de crédito. Hoje, de cada R$ 100 que circulam na economia sob a forma de crédito, R$ 44 são absorvidos pelo setor público. Restam apenas R$ 56 para atender milhões de famílias e empresas. Essa disputa por recursos escassos pressiona as taxas de juros e restringe ainda mais o acesso ao financiamento.

O desequilíbrio fiscal também contribui para esse cenário. O crescimento contínuo dos gastos públicos aumenta a percepção de risco, encarece o financiamento da dívida e mantém os juros elevados por mais tempo. Os reflexos atingem diversos setores, inclusive o agronegócio, onde o crédito rural enfrenta dificuldades crescentes, com aumento das exigências de garantias, maior distância entre os valores anunciados e efetivamente liberados e índices históricos de inadimplência.

Diante desse contexto, a educação financeira assume papel estratégico. Mais do que ensinar conceitos de orçamento e investimento, ela promove uma cultura de planejamento, responsabilidade e visão de longo prazo, permitindo que famílias e empresas tomem decisões mais conscientes.

Igualmente importante é reconhecer o papel das cooperativas de crédito. Em um ambiente marcado pelo alto custo financeiro, elas oferecem uma alternativa baseada na proximidade com os associados, na gestão democrática e no compromisso com o desenvolvimento regional.

Santa Catarina é referência nesse segmento. O ramo crédito reúne 69 cooperativas financeiras, com cerca de 4 milhões de associados e 20,8 mil colaboradores. Em 2024, essas cooperativas registraram receitas totais de R$ 28,7 bilhões, crescimento de 36% em relação ao ano anterior. Esses números demonstram a força de um modelo que reinveste recursos nas comunidades e amplia o acesso ao crédito em condições mais adequadas.

Em um País marcado pela baixa poupança, pelo elevado endividamento e pela escassez de crédito produtivo, as cooperativas de crédito representam parte importante da solução. Ao promover inclusão financeira, educação econômica e desenvolvimento local fortalecem famílias, empresas e comunidades. Construir um futuro mais próspero passa, necessariamente, pela responsabilidade fiscal, pela educação financeira e pela valorização de modelos cooperativos que coloquem as pessoas no centro das decisões econômicas.

Fonte: Artigo escrito por Vanir Zanatta, presidente da Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina (Ocesc).
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Do Arco Norte às enchentes no Sul: os novos desafios do agro brasileiro

Diferenças regionais moldam estratégias de produção, logística e adaptação climática em um setor que respondeu por 48,5% das exportações do país em 2025.

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Enquanto o Norte amplia sua importância como corredor logístico e nova fronteira de expansão agrícola, o Sul busca se adaptar aos impactos crescentes das mudanças climáticas sem abrir mão da alta produtividade que historicamente caracteriza a região. Mais do que diferenças geográficas, esse contraste revela dois modelos distintos de desenvolvimento que ajudam a explicar os rumos do agronegócio brasileiro.

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Os números demonstram a relevância do setor para a economia nacional. Em 2025, o agronegócio brasileiro alcançou exportações recordes de US$ 169,2 bilhões, respondendo por 48,5% das vendas externas do país. Por trás desse desempenho, no entanto, existe uma realidade marcada por características regionais bastante diferentes, que influenciam desde a produção até a competitividade internacional.

Nova fronteira agrícola e logística

No Norte, o clima equatorial, com elevadas temperaturas, alta umidade e grande volume de chuvas ao longo do ano, favorece culturas como cacau, açaí e diversas frutas tropicais. Ao mesmo tempo, essas condições impõem desafios significativos à infraestrutura logística. O excesso de chuvas pode dificultar o transporte, elevar custos operacionais e aumentar a complexidade da armazenagem e do escoamento da produção. Nos últimos anos, porém, a região também passou a registrar um crescimento expressivo na produção de soja e milho, especialmente em estados como Pará, Tocantins e Rondônia. 

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A expansão dessas safras transformou parte do Norte em uma nova fronteira agrícola nacional, ampliando a relevância nas exportações. Porém, garantir o sucesso desse avanço requer um planejamento técnico refinado, capaz de responder às instabilidades climáticas e adaptado às realidades de solo, regime hídrico e infraestrutura.

Apesar dessas limitações, a região ganhou relevância estratégica nos últimos anos graças ao fortalecimento do chamado Arco Norte, conjunto de corredores logísticos e portos responsáveis por ampliar significativamente o escoamento de commodities agrícolas para os mercados internacionais. A redução das distâncias de transporte e a diversificação das rotas de exportação transformaram a região em um importante elo da cadeia agroexportadora brasileira.

Além da expansão logística, o Norte apresenta uma dinâmica produtiva fortemente conectada à biodiversidade local

Foto: Divulgação/OP Rural

e à valorização de produtos associados à floresta, criando oportunidades que combinam agricultura, desenvolvimento regional e sustentabilidade.

Tecnologia reduz riscos

Contudo, mesmo em áreas historicamente úmidas, períodos de estiagem mais prolongados começam a alterar o planejamento agrícola. Dentro desse contexto, cresce o uso de sistemas de irrigação por pivô central, um equipamento automatizado que se move de forma circular sobre a lavoura por meio de torres com rodas. Sua principal função é distribuir água de maneira uniforme, assemelhando-se às chuvas, sendo assim, é uma alternativa para garantir estabilidade produtiva. 

Foto: Pareekshith Indeever/Pexels

Atualmente, a adoção dessa tecnologia modifica diretamente a forma como os produtores estão organizando o calendário de plantio, escolhendo cultivares e administrando os recursos hídricos disponíveis. Com a menor previsibilidade climática, os produtores que dispõe de ferramentas como essa conseguem distribuir melhor o risco da produção e ampliar a segurança operacional das lavouras. 

Resiliência climática

Já a região Sul possui um perfil bem diferente, com uma agricultura consolidada, elevado grau de mecanização e forte presença do cooperativismo, os estados do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina estão entre os maiores produtores nacionais de soja, milho, trigo, arroz, aves e suínos. O clima subtropical, marcado pela definição das estações e pela ocorrência de temperaturas mais baixas durante parte do ano, contribuiu historicamente para a diversificação e o desenvolvimento tecnológico das atividades agrícolas.

Entretanto, o Sul enfrenta hoje um desafio crescente: a intensificação dos eventos climáticos extremos. As

Foto: Divulgação/Embrapa

enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 e os períodos recorrentes de estiagem observados nos últimos anos evidenciam como as mudanças climáticas vêm afetando a produtividade das safras e o planejamento dos produtores rurais. Destaca-se também as geadas fora de época e episódios de chuvas de granizo que geram perdas relevantes em culturas como milho, trigo e hortaliças, comprometendo tanto a qualidade quanto o volume da produção. Como consequência, custos operacionais são elevados e dificultam a previsibilidade do setor agrícola, tornando a adaptação climática uma prioridade. 

Investimentos em agricultura de precisão, manejo sustentável, monitoramento meteorológico e tecnologias voltadas à resiliência produtiva ganham cada vez mais importância para reduzir riscos e preservar a competitividade do setor. Entre as principais estratégias, cresce a busca por variedades geneticamente mais resistentes às oscilações bruscas de temperatura e ao excesso de umidade. A escolha das sementes, por exemplo, deixa de seguir somente critérios de produtividade e passa a considerar a adaptabilidade às condições específicas de cada território. O Norte demanda variedades tolerantes a alta umidade e solos tropicais, enquanto o Sul depende da ampliação do uso de materiais mais resistentes à estiagem, ao frio intenso e às variações climáticas repentinas. 

Foto: Imagem criada por Jaqueline Galvão/ChatGPT/OP Rural

Ao comparar as duas regiões, fica evidente que o Norte e o Sul enfrentam desafios distintos, mas igualmente estratégicos. De um lado, a necessidade de ampliar infraestrutura logística e conciliar expansão produtiva com sustentabilidade ambiental. De outro, o desafio de adaptar sistemas agrícolas altamente desenvolvidos a um cenário climático cada vez mais instável e imprevisível. Em comum, ambas as regiões demonstram que inovação, logística eficiente e capacidade de adaptação serão fatores decisivos para manter o Brasil entre os principais protagonistas do mercado agrícola global.

O futuro do agronegócio brasileiro não será definido por uma única região, mas pela capacidade de integrar diferentes vocações produtivas e superar desafios específicos de cada território, essa é a lição de casa.

Fonte: Artigo escrito por Felipe Vicentini Santi, especialista em agronegócio, com formação em Gestão Ambiental e Gestão em Agronegócio.
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