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Protocolos de produção de carne reduzem em até 15% a emissão de gás de efeito estufa

Manejos permitiram ganhos superiores de peso dos animais, entre 2% a 5% em relação ao manejo tradicional.

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A aplicação dos protocolos Carne Carbono Neutro (CCN) e Carne Baixo Carbono (CBC) em uma área comercial demonstrou que os sistemas reduzem em 12% e 15%, respectivamente, a emissão de metano entérico pelos animais durante a fase de recria a pasto. O metano entérico é um dos principais gases responsáveis pelo efeito estufa, que provoca o aquecimento global. Além desse benefício, os protocolos permitiram ganhos superiores de peso dos animais, entre 2% a 5% em relação ao manejo tradicional. Essa é a primeira vez que esses protocolos são aplicados em um rebanho de alto padrão genético. O estudo foi realizado na Fazenda Experimental Orestes Prata Tibery Jr., em Uberaba (MG), em parceria com a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ).

“Comprovamos que a atividade pecuária, com recria a pasto e terminação em confinamento, seguindo as práticas corretas, proporciona a redução das emissões e tem viabilidade. O sistema, no caso da Carne Carbono Neutro, não é capaz de neutralizar todas as emissões, mas a redução é significativa. E o que é muito importante para o pecuarista, o desempenho animal é muito bom”, afirma a pesquisadora da Embrapa Cerrados (DF) Giovana Maciel, responsável pela condução do experimento.

Considerando as fases de recria e terminação, o uso dos protocolos CCN e CBC promoveu a redução na emissão de metano entérico, de 2% a 5%, e o aumento na produtividade, de 4% a 8%, respectivamente, em relação ao manejo tradicional.

Com esses resultados, o pesquisador Roberto Giolo, da Embrapa Gado de Corte (MS), ressalta a importância do manejo de pastagem, com a aplicação dos protocolos CCN e CBC, e que mesmo em rebanhos de alto padrão genético se mostrou eficiente, com melhoria na produtividade e redução das emissões de metano entérico no pasto.

Marcas com sustentabilidade

As marcas Carne Carbono Neutro (CCN) e Carne Baixo Carbono (CBC) atestam que a produção de bovinos de corte em sistemas pecuários neutraliza ou reduz, respectivamente, a emissão do metano entérico.

A primeira, com introdução obrigatória de árvores no sistema de produção (ILPF ou silvipastoril), considera o carbono sequestrado e armazenado nos troncos e sua utilização como produtos de madeira com valor agregado.

A segunda produz animais cujas emissões de metano foram mitigadas pelo próprio processo produtivo, por meio da redução na idade do abate, da melhoria da dieta e do aumento do estoque de carbono no solo, resultante da adoção de boas práticas agropecuárias envolvendo recuperação e manejo sustentável das pastagens e sistemas de integração lavoura-pecuária (ILP).

O Protocolo CBC deverá ser disponibilizado ao público na plataforma Agri Trace Rastreabilidade Animal, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em 2024. Para aderir à certificação, a propriedade deverá, já na auditoria inicial, estar em conformidade com os 20 requisitos mínimos obrigatórios para sua implantação, de um total de 67, que serão requeridos progressivamente ao longo de auditorias bienais. O CCN está disponível nessa mesma plataforma desde 2020, à disposição dos pecuaristas interessados.

Ao final de 385 dias de prova, o ganho de peso final do rebanho foi elevado: 346 quilos para os animais na área de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), dentro do protocolo Carne Carbono Neutro; 359 quilos para os animais na área de ILP, no protocolo Carne Baixo Carbono, aos 21,5 meses de idade – um aumento de 4,2% e 8,1%, respectivamente, em relação ao rebanho em manejo padrão da ABCZ. “O maior benefício dos dois protocolos é, sem dúvida, a redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) e, ainda, com um aumento no desempenho individual. Apesar de não ter árvores no sistema ILP, o ganho de peso foi ligeiramente superior ao alcançado no sistema ILPF e os dois foram superiores ao rebanho-testemunha que mantivemos nas outras áreas de pastagens da fazenda”, afirma a pesquisadora.

Lauro Almeida, gerente de melhoramento da ABCZ, conta que, no período em que ocorreram os testes, a média de idade de abate no Brasil ainda era de quatro anos. “Nesse programa, obtivemos o peso ideal antes de 22 meses, o que mostra que é possível reduzir esse prazo para menos da metade em relação ao que se emprega no País”, complementa.

Da entrada no pasto às avaliações de carcaça

As avaliações dos rebanhos fizeram parte do Programa Zebu Carne de Qualidade (PZCQ), desenvolvido pela ABCZ desde 2020. Na terceira edição da prova, realizada entre 2022 e 2023, foi acrescentada a mensuração da emissão do metano entérico. Os cálculos foram feitos seguindo a equação desenvolvida pela Rede Pecus, da Embrapa, utilizada para os protocolos CCN e CBC. Para estimar a emissão de metano entérico, são considerados a qualidade da dieta (pasto + ração), a ingestão de alimento e o ganho médio diário dos animais.

Para a prova, foram recebidos 147 animais, todos resultados de cruzamentos entre Nelore e outras raças: 32 Brahmanel (Brahman/Nelore); 32 Guzonel (Guzerá/Nelore); 25 Sindinel (Sindi/Nelore); 26 Tabanel (Tabapuã/Nelore), adquiridos por sua excelência genética. “Seguimos as diretrizes dos dois protocolos: CCN e CBC. Apenas as etapas que não interferem no sistema de produção, como a rastreabilidade do produto, não foram realizadas”, explica Maciel.

Desses animais, foram selecionados 32, oito de cada cruzamento, e divididos em dois grupos – um para a área de ILPF e outro para a de ILP. A fazenda, com 20,3 hectares de pasto de braquiária brizantha BRS Paiaguás, foi dividida em oito piquetes. A área de lavoura e pecuária foi implantada com milho para silagem consorciado com capim. Já a área de integração lavoura-pecuária-floresta foi composta por quatro espécies arbóreas: teca, eucalipto, mogno e nim. Os demais animais continuaram nas áreas comuns, seguindo o manejo rotineiro da ABCZ e os dados gerados a partir de seu desempenho foram utilizados para comparação dos resultados.

Os animais entraram no sistema com idade entre seis e oito meses, logo após a desmama. No início da estação seca, em maio de 2022, foram iniciadas as avaliações no pasto, onde ficaram por 280 dias, sendo metade desse tempo no período da seca e, a outra metade, no período das águas.

Após esse período no pasto em recria, os animais seguiram para a etapa de confinamento, com duração de 105 dias. Os bovinos foram alojados em currais de confinamento compostos por cochos eletrônicos e balanças de pesagem. Todo o período do teste durou 385 dias.

Para Almeida, os resultados foram muito positivos: “Os trabalhos científicos da ABCZ mostram ao mundo a eficiência e a sustentabilidade da genética zebuína para a pecuária tropical. Conseguimos bons resultados em uma fazenda eficiente. Esse modelo se mostra viável economicamente e pode ser replicado em todo o Brasil.”

O técnico da ABCZ enfatiza que o principal ponto para melhorar a eficiência produtiva da atividade pecuária é um bom planejamento que garanta a suplementação da dieta do rebanho no período da seca. “O pecuarista tem que trabalhar com a previsão de volumoso para seca, que pode ser silagem de milho, sorgo, cana-de-açúcar ou capim, além de animais com boa genética. Durante os três anos do programa, conseguimos resultados muito positivos. Os criadores podem adotar um manejo na fase de pasto e outro em confinamento para obter 1 kg de ganho de peso por dia, o que já é um excelente resultado”, explica.

Avaliação completa dos sistemas

O Programa Zebu Carne de Qualidade (PZCQ) também contou com a implantação de um sistema de gestão de custos da produção. “Durante os três anos do programa, foi feito o controle dos custos e das receitas, com o intuito de, além do resultado global, obter o resultado econômico, para saber quanto foi o custo por arroba produzida, a receita obtida e, consequentemente, o lucro”, conta Ricardo Brumatti, professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), responsável pela atividade.

Na análise, foram computados os seguintes desembolsos: nutrição animal, entre silagem e suplementos minerais e proteicos; adubação dos pastos; sanidade dos animais; energia e combustível; folha de pagamento; e consultoria técnica.

Os resultados mostram que os sistemas CBC e CCN apresentam menores custos por arroba para o pecuarista, de R$ 252,44 e R$ 255,48, respectivamente, quando comparados ao rebanho-testemunha, com manejo adotado pela ABCZ, com custo de R$ 261,08. “Essa diferença se deve, basicamente, ao melhor desempenho produtivo do rebanho no CBC, uma vez que os animais foram mais eficientes no uso dos insumos, que foram os mesmos para todos os rebanhos”, informa o professor. Os animais no regime CCN sentiram mais desconforto térmico na fase de confinamento (com sombreamento artificial) em relação à fase de pasto, pois durante a recria estavam em condição mais favorável em sistema ILPF (com sombreamento das árvores), conforme esclarece Giolo, o que se refletiu no custo de produção e no peso vivo final.

Brumatti destaca a abrangência do programa, visto que engloba a avaliação de diversos aspectos, como da genética, essencialmente zebuína, do sistema produtivo mais intensivo em pequena área, da questão econômica e, agora, da emissão de carbono: “Nós temos um pacote tecnológico com aspectos técnicos e a confrontação econômica muito próxima da realidade do produtor rural”, defende.

Após o abate, os animais foram avaliados em relação aos indicadores de qualidade da carcaça e da carne. Amostras de contrafilé foram analisadas pelo professor Sergio Pflanzer, da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (FEA/Unicamp). Os resultados comprovaram o bom rendimento da carcaça, 56,1% (55% é considerado um bom índice); cobertura de gordura desejada pela indústria; bom desenvolvimento muscular; bom índice para carne aproveitável total, além da idade de abate – todos animais jovens.

A avaliação considerou a quantidade e a qualidade dos produtos. Como indicadores de quantidade, foram utilizados peso vivo do animal sem jejum; peso da carcaça quente; espessura de gordura subcutânea; área do olho do lombo; e carne aproveitável total. Já em relação à qualidade, os parâmetros se referem à idade de abate do animal, ao acabamento de cobertura, à gordura intramuscular e à maciez.

Emissão de GEE durante a pesquisa

As fases avaliadas com a aplicação dos protocolos foram a recria e a terminação. Entretanto, quando computadas as estimativas de emissões na fase de cria, durante os 595 dias do ciclo de produção, os animais do programa da ABCZ apresentaram uma intensidade de emissão (IE) de 142,36 gramas de metano por quilo de ganho de peso, enquanto no protocolo CCN e no CBC a IE foi de 99% e 97% desse valor, respectivamente. Ou seja, emitiram 1% e 3% menos nesses sistemas.

De modo geral, a média anual de emissão de metano entérico (CH4) dos animais dos três sistemas foi de 46,5 kg ou cerca de 17% abaixo do parâmetro utilizado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), que é de 56 kg de CH4/ano, indicando que todos os sistemas foram eficientes na redução da emissão de metano entérico.

“As emissões foram menores na fase de recria, o que evidencia o uso dos protocolos no manejo do pasto. Depois, na terminação/confinamento, a diferença diminui um pouco. De qualquer forma, nosso foco maior é no pasto (fase de recria), onde ficou bem clara a diferença em favor do uso dos protocolos”, comenta Giolo.

O pesquisador afirma que há potencial de melhoria no desempenho animal e, consequente redução das emissões de metano entérico em pasto. “Todavia, é necessário aprimorar o ajuste do pastejo nos últimos ciclos, principalmente para CCN”, informa. Os próximos passos são os cálculos referentes a carbono no solo e nas árvores, assim como os dados sobre consumo de água.

Acompanhamento econômico dos sistemas de produção

Considerando os custos de produção para os sistemas adotados para produção de carne, sob os protocolos Carne Carbono Neutro e Carne Baixo Carbono, a maior despesa foi com a nutrição do rebanho. “No entanto, os estudos registraram as oscilações que ocorreram no próprio mercado, tanto dos custos quanto das receitas”, ressalta Brumatti.

Entre a safra de 2020/2021, quando foi iniciado o programa, e a de 2022/2023, houve uma queda no lucro da fazenda. “O melhor resultado foi o da primeira safra, quando estávamos no início da pandemia e os preços ainda estavam estáveis. Na segunda, houve uma pequena queda na receita, mas um incremento muito grande nos custos produtivos; foi o pior momento da pandemia, com os fertilizantes e insumos nutricionais ficando muito caros – um aumento de 26% em relação à safra anterior”, lembra o professor. Já na terceira safra, os custos se mantiveram quase os mesmos, mas houve uma grande queda no preço da arroba, mais de 21%.

Brumatti destaca que esse resultado foi reflexo do que aconteceu no mercado nesse período: “O preço do boi gordo é dado pelo mercado. Na etapa do abate, o pecuarista está à mercê do mercado e o projeto sentiu a queda do preço da arroba no último ano. O projeto refletiu o que aconteceu com o produtor rural.” No entanto, ele enfatiza que, por ser muito realista, o programa possibilita testar ferramentas que podem auxiliar os produtores: “É muito importante que os produtores possam analisar o fluxo de caixa, controlar os custos para ajudar nos momentos drásticos e fazer projeções do valor da arroba para calcular a diária do confinamento e saber qual é a receita mínima que ele precisa para cobrir os valores gastos naquela safra. Conseguimos fazer tudo isso durante as etapas da prova da ABCZ”, acrescenta.

Qualidade da carne é garantida com CCN e CBC

Após o abate, os rebanhos da fazenda Orestes Prata Tibery Jr. foram testados para verificar seu desempenho em relação à qualidade da carcaça e da carne produzidas. O professor da Unicamp conta que o objetivo foi averiguar a qualidade da carcaça que o pecuarista está oferecendo para o frigorífico e da carne que o frigorífico está oferecendo ao consumidor: “O produtor rural recebe pelo peso da carcaça, então é importante ele saber de quanto será o rendimento do animal após o abate. Já o frigorífico busca carne com maciez, sabor e suculência, que é basicamente o que o mercado valoriza”, observa.

Pflanzer explica que os indicadores utilizados trazem respostas para essas questões. A idade de abate tem relação direta com a maciez da carne. A gordura intramuscular, também conhecida como mármore ou marmoreio, reflete-se também nesse quesito.

Os resultados mostram que os rebanhos tiveram bom rendimento de carcaça, 56,1%, que, segundo o professor da Unicamp, é um ótimo índice; presença de gordura desejada pela indústria; bom desenvolvimento muscular, expresso pela área de olho de lombo; e boa relação entre carne, osso e gordura na carcaça, ou seja, bom índice de carne aproveitável total. Já em relação à gordura intramuscular e à maciez da carne, os resultados têm relação com a própria genética das raças zebuínas.

“Com os protocolos, conseguimos atestar as aptidões do Nelore para produção de carne e carcaça de maneira eficiente, econômica e sustentável, capaz de atender à demanda nacional e mundial dos frigoríficos por proteína animal. O Brasil é um grande produtor de carne e mostramos que esses animais têm aptidão para fornecer carne a partir de um rebanho com qualidade genética”, conclui.

Fonte: Embrapa

Bovinos / Grãos / Máquinas

Nem sempre o olho do dono engorda o gado

Maiores prejuízos da pecuária podem estar justamente nos parasitas que o produtor não consegue ver no rebanho

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Artigo escrito por Leydson Martins, médico veterinário, Vaxxinova

Há uma expressão antiga na pecuária brasileira: “O olho do dono é que engorda o gado.” Ela traduz bem o cuidado e o capricho que muitos produtores dedicam ao rebanho, e de fato o acompanhamento próximo faz toda a diferença nos resultados da fazenda. Mas, de maneira didática, vale refletir: em que situações essa expressão não se aplica?

O objetivo deste artigo é lançar um olhar sobre as parasitoses bovinas, pois existem pelo menos duas situações claras em que o “olho do dono” pode ser enganado quando o assunto é produtividade.

Nas parasitoses que afetam bovinos, é fundamental compreender a diferença entre ectoparasitas e endoparasitas. Os ectoparasitas vivem externamente no animal, como carrapatos, moscas e bernes, sendo facilmente observados durante o manejo. Já os endoparasitas habitam o interior do organismo, especialmente o trato gastrointestinal e, em alguns casos, o sistema respiratório, tornando sua presença menos evidente a olho nu.

Primeira falha de percepção

Essa é a primeira diferença clara: muitas vezes o controle parasitário é intensificado quando o produtor vê seu rebanho sendo pressionado por carrapatos, mosca-do-chifre, berne, mosca-dos-estábulos ou bicheiras. Essa diferença de visibilidade cria frequentemente uma percepção equivocada no campo: aquilo que é visto tende a receber mais atenção. No entanto, nem sempre o problema mais visível é o mais impactante.

Nesse ponto, a ciência demonstra claramente que, quando se trata de perdas produtivas na pecuária, as parasitoses mais prejudiciais são justamente aquelas que passam despercebidas.

Um grupo de pesquisadores brasileiros de diversas regiões, liderado pelo professor Laerte Grisi, realizou um amplo estudo mensurando quanto cada uma das principais parasitoses bovinas representa em perdas para a pecuária brasileira.

Os resultados mostram que as perdas causadas por parasitas invisíveis aos olhos do produtor são as que geram maiores prejuízos econômicos. É como se houvesse um vazamento silencioso no bolso do produtor, no qual parte dos investimentos em nutrição e genética acaba sendo desviada para sustentar os parasitas em vez de gerar produtividade para o rebanho.

Enquanto os ectoparasitas chamam atenção por sua presença evidente, os endoparasitas podem atuar de forma silenciosa, comprometendo ganho de peso, eficiência alimentar e desenvolvimento dos animais. Na pecuária, portanto, vale a reflexão: nem sempre aquilo que se vê é o que mais preocupa — muitas vezes os maiores prejuízos estão justamente nos parasitas invisíveis aos olhos do produtor.

Segunda falha de percepção

A segunda falha de percepção está novamente relacionada à verminose. De fato, em muitos casos é possível identificar pela observação que um animal está acometido por verminose.

Um bovino com verminose clínica geralmente apresenta sinais evidentes. Entre as características mais comuns estão o emagrecimento e o baixo escore corporal, contrastando com um abdômen volumoso que confere ao animal um aspecto “barrigudo”. A pelagem costuma estar arrepiada, opaca e sem brilho, indicando perda de condição geral. Esses animais também podem demonstrar apatia, má postura, redução no ganho de peso e atraso no crescimento, especialmente em animais jovens.

Com o avanço tecnológico da pecuária e o encurtamento dos ciclos produtivos, é cada vez menos comum observar animais com sinais clínicos evidentes de verminose. Entretanto, muitos animais aparentemente saudáveis carregam uma carga parasitária capaz de drenar parte importante dos ganhos produtivos da fazenda — condição conhecida como verminose subclínica.

Esses animais com verminose subclínica muitas vezes se assemelham a animais saudáveis. Porém, apenas medições criteriosas de desempenho revelam que eles não estão expressando todo o seu potencial produtivo. É como se o motor do animal estivesse funcionando com perda de potência, impedindo que alcance sua máxima performance.

A ciência alerta que a perda de desempenho não ocorre apenas pelo consumo de nutrientes pelos parasitas. Estudos demonstram que a infecção parasitária também pode reduzir o consumo voluntário de alimentos. Em infecções subclínicas e crônicas, essa redução pode chegar a 20% ou mais, enquanto infecções agudas podem levar até mesmo à anorexia completa.

Como escolher o vermífugo?

A escolha entre um vermífugo de longa ou curta ação pode fazer grande diferença nos resultados produtivos da fazenda. Cada tipo de produto possui uma função específica e sua utilização deve considerar a categoria animal e o nível de desafio parasitário do sistema.

Os vermífugos de curta ação atuam rapidamente e são indicados quando há necessidade de controle imediato, sendo comuns em animais de confinamento, em fase de terminação ou em situações de alta carga parasitária.

Já os vermífugos de longa ação oferecem proteção prolongada, sendo especialmente indicados para bezerros, animais em desmama, recria a pasto e períodos de maior desafio parasitário. Em síntese, enquanto a curta ação proporciona resposta rápida, a longa ação garante proteção contínua no controle das verminoses.

Em quais momentos utilizar esses vermífugos?

Para reduzir os prejuízos, o controle parasitário deve ser estruturado em duas frentes complementares: controle estratégico e controle tático.

O controle estratégico baseia-se no planejamento das intervenções ao longo do ano, levando em consideração fatores como estação, categoria animal e histórico parasitário da fazenda. O objetivo é reduzir a contaminação das pastagens e manter a pressão parasitária sob controle.

Já o controle tático ocorre em momentos específicos de maior risco, como desmama, entrada de animais de compra, mudanças de manejo ou períodos de estresse, quando os animais se tornam mais suscetíveis à ação dos parasitas. Nesses casos, a intervenção é realizada para proteger o desempenho dos animais e evitar perdas produtivas.

Dessa forma, o controle estratégico e o controle tático não competem entre si – eles se complementam dentro de um programa eficiente de controle parasitário. Na pecuária moderna, produtividade não depende apenas do que os olhos enxergam – controlar bem as verminoses é proteger o potencial produtivo do rebanho.

As referências bibliográficas estão com o autor.

Á edição também está disponivel na versão digital, com acesso gratuito. Para ler a versão completa online, clique aqui. Boa leitura!

Fonte: O Presente Rural
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Bovinos / Grãos / Máquinas Do café da manhã ao jantar

Consumo do queijo zero lactose cresce no mercado brasileiro

Produto mantém proteínas, cálcio e vitaminas, oferecendo nutrição completa sem causar desconforto digestivo

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Cada vez mais presente nas prateleiras dos supermercados, o queijo zero lactose tem ganhado espaço na alimentação de pessoas que buscam alternativas mais leves ou possuem intolerância à lactose. No entanto, o consumo desse tipo de produto deve estar ligado à necessidade individual e não apenas a modismos alimentares.

O queijo zero lactose é indicado principalmente para pessoas com intolerância, condição que dificulta a digestão do açúcar presente no leite e pode causar desconfortos gastrointestinais. Nesses casos, a versão sem lactose permite manter o consumo de um alimento nutritivo, rico em proteínas, cálcio e vitaminas, sem prejuízo ao organismo.

Nutricionista Joelia Silva: “O queijo zero lactose é uma excelente alternativa para pessoas com intolerância, pois permite manter uma alimentação equilibrada sem abrir mão dos nutrientes do leite” – Foto: Arquivo pessoal

Na rotina alimentar, o queijo zero lactose pode ser incluído de forma prática em diferentes refeições. Ele pode compor o café da manhã em sanduíches e tapiocas, ser utilizado em omeletes e saladas no almoço, entrar em preparações como lasanhas e tortas ou ainda ser consumido como lanche da tarde acompanhado de frutas e pães integrais. “O queijo zero lactose é uma excelente alternativa para pessoas com intolerância, pois permite manter uma alimentação equilibrada sem abrir mão dos nutrientes do leite. Para quem não possui restrição, o consumo pode ser feito normalmente, sempre com orientação e equilíbrio na dieta”, explica a nutricionista Joelia Silva.

Ela reforça que a escolha dos alimentos deve ser acompanhada de planejamento nutricional e atenção às necessidades individuais, garantindo uma alimentação saudável, variada e adequada ao dia a dia. “O queijo é um alimento nutritivo e pode trazer benefícios importantes para a saúde quando consumido com equilíbrio”, salienta.

Rico em proteínas de alto valor biológico, cálcio, fósforo e vitaminas do complexo B, ele contribui para a saúde óssea, o fortalecimento muscular e o bom funcionamento do sistema nervoso. “Além disso, alguns tipos de queijo contêm compostos que auxiliam na saúde intestinal e na sensação de saciedade, o que pode ajudar no controle do apetite e na manutenção de uma alimentação equilibrada ao longo do dia”, pontua.

Fonte: Assessoria Tijuca Alimentos
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Bovinos / Grãos / Máquinas

Leite a R$ 1,40 expõe crise na cadeia e leva produtores a criar nova entidade no Paraná

Nova associação surge em meio a preços abaixo do custo de produção, aumento das importações e críticas ao modelo de formação de preços.

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A crise na pecuária leiteira brasileira deixou de ser cíclica para se tornar estrutural. No Paraná, um dos principais estados produtores do país, a combinação entre preços abaixo do custo de produção, importações crescentes e ausência de previsibilidade comercial levou produtores a criação de uma nova entidade de representação.

A União Paranaense dos Produtores de Leite nasce, segundo seus idealizadores, como resposta à sensação de abandono. “O produtor rural não está tendo a representatividade que deveria ter. A informação do campo não está chegando aonde precisa chegar”, afirma Meysson Vetorello, engenheiro agrônomo, produtor e presidente da nova associação.

A entidade nasce com a proposta de representar institucionalmente o setor e articular medidas para enfrentar a crise que, segundo os pecuaristas, compromete a atividade há pelo menos três anos.

O movimento é estadual, embora iniciativas semelhantes estejam em formação nos estados de Santa Catarina, Mato Grosso, Rondônia, Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul. A proposta, no entanto, é consolidar primeiro as bases estaduais para, só depois, discutir uma estrutura nacional.

Produto vendido sem preço

Entre as distorções apontadas por Vetorello está que o leite segue sendo comercializado por litro, embora sua referência técnica e industrial seja o quilo. Para ele, no entanto, essa é apenas a face mais visível de um problema maior. A questão central está no modelo de formação de preço, marcado pela ausência de previsibilidade, transparência e poder de negociação por parte do produtor. “O leite é o único produto que você entrega sem saber o preço que será pago. Além disso, o produtor vai receber o valor somente 45 dias depois. Não existe previsibilidade”, pontua.

O presidente da União detalha que o produtor assume todos os riscos do ciclo produtivo muito antes de conhecer a própria receita. Compra fertilizantes, sementes e demais insumos com antecedência, investe em estrutura, planta o milho, produz a silagem, mantém o rebanho ao longo do ano e entrega o leite diariamente. Só depois de cumprir todas essas etapas é que descobre quanto irá receber. “Recebe a nota do leite e não tem a quem questionar. Não existe preço mínimo. Eu vou reclamar para quem?”, lamenta.

Para ele, essa lógica revela uma distorção histórica na cadeia. “O leite é vendido igual há 40 anos atrás”, afirma, ao criticar um modelo que, segundo diz, não evoluiu na mesma velocidade que os custos, a tecnologia e as exigências impostas ao produtor.

Quando produzir vira prejuízo

O custo de produção, segundo Vetorello, varia hoje entre R$ 2,20 e R$ 2,40 por litro quando considerados todos os componentes, inclusive remuneração do produtor, férias, décimo terceiro, depreciação de máquinas, custo de oportunidade da terra e serviços terceirizados. “O custo não é só o diesel do trator. Inclui também quanto você pagaria para alguém fazer aquele serviço. É o salário do produtor. Tudo tem que entrar na conta”, pontua.

Em 2023, os valores pagos ao produtor recuaram para a casa de R$ 2,20 por litro, patamar que já encostava no custo médio de produção. Dois anos depois, a situação se agravou. Em 2025, segundo Vetorello, houve períodos em que o leite foi remunerado a R$ 1,60 e até R$ 1,40 no campo. “Foram nove meses de prejuízo”, frisa.

Ele direciona críticas também aos parâmetros oficiais utilizados como referência. “A Conab trabalha com custo de R$ 1,88. É um número fictício. Não inclui salário do produtor, não considera várias despesas estruturais. O governo olha esse número e acha que está tudo bem”, ressalta, destacando que a defasagem nos cálculos contribui para decisões públicas desconectadas da realidade vivida nas propriedades.

Importações intensifica risco de colapso

O pano de fundo da crise é também externo. Em janeiro de 2025, o Paraná importou cerca de 100 mil quilos de leite em pó, segundo Vetorello. Em janeiro de 2026, o volume teria chegado a 156 mil quilos, aumento de mais de 50%, com preço médio pago ao produtor de R$ 1,96. “Se o preço subir até maio e depois despencar como despencou em 2025, nós vamos receber R$ 1,20, R$ 1,30. Num custo de R$ 2,40, quem aguenta?”, questiona.

O Brasil, ressalta ele, sequer alcança a autossuficiência. “Faltam 5% de produção. Então por que não criar política pública para ampliar a oferta interna e reduzir a dependência de importações?”, questiona, enfatizando que o debate não deveria se restringir ao controle das compras externas, mas avançar sobre estímulos estruturais à produção nacional.

Ele cita o Uruguai como contraponto. Segundo relata, o país vizinho renegociou dívidas do setor, concedeu período de carência aos produtores e reorganizou a cadeia para manter a atividade ativa e competitiva, inclusive ampliando exportações ao Brasil. “Eles protegeram o produtor deles. E nós?”, provoca.

Representatividade

A União Paranaense surge também como resposta à percepção de que as estruturas de representação existentes não se dedicam exclusivamente à atividade leiteira. “Existem entidades que representam a cadeia do leite, mas também trabalham com outras culturas. O leite acaba ficando em segundo plano. Pouco se faz”, afirma Vetorello, ao defender uma organização focada unicamente nos interesses do produtor de leite.

Engenheiro agrônomo, produtor e presidente da União Paranaense dos Produtores de Leite, Meysson Vetorello: “O leite é uma empresa. Para continuar, precisa ter lucro. Se nós, produtores, não nos unirmos e fizermos algo agora, a cadeia vai sendo cada vez mais comprometida” – Foto: Arquivo pessoal

Ele dirige críticas diretas ao funcionamento do Conseleite, conselho responsável por divulgar parâmetros de referência de preços no estado. “As indústrias mandam as notas que querem para a universidade. Dois professores pagos pela indústria fazem os cálculos. A gente pede auditoria e não deixam. Falta transparência”, relata.

De acordo com o produtor, o Conseleite, formalmente, não estabelece preço mínimo, mas divulga um valor de referência. “É um parâmetro. Segue quem quer, quando é conveniente”, menciona.

A nova associação se define como apartidária e formada exclusivamente por produtores pessoa física. Não admite representantes da indústria nem agentes políticos em sua estrutura. O engenheiro agrônomo explica que há resistência de setores industriais e políticos à organização independente dos produtores. “As indústrias não querem que o produtor se una”, diz.

Adesão online

Formalizada em fevereiro durante o Show Rural Coopavel, a entidade ainda finaliza estatuto e registro. A adesão será digital, via site, com expectativa de início das atividades de filiação em meados de abril. Não haverá contribuição financeira. “Eu não tenho salário. Estamos trabalhando por amor à atividade”, salienta.

O Paraná foi organizado em oito regiões dentro da estrutura da União, cada uma com um produtor responsável por articular as demandas locais e ampliar a mobilização. Nos Campos Gerais, a representação está a cargo de Mariane Carvalho de Almeida; no Norte, de Luciano Choucino; no Noroeste, de Hudson Erivalter Valezi; no Oeste, o próprio Meysson Vetorello assume a função; no Centro, o representante é Neymar Granoski; no Centro-Norte, José Geraldo; e no Sudoeste, Edemar Daniel Roos. “A proposta é que cada representante regional fortaleça o diálogo com produtores de sua área e leve as demandas à diretoria estadual, estruturando a base da associação de forma descentralizada”, expõe o presidente da associação.

A opção pelo formato online é estratégica. “Oito em cada 10 produtores são da agricultura familiar. Eles não têm tempo de sair da propriedade. Se sair, tem prejuízo”, menciona.

Êxodo silencioso

O encolhimento da base produtiva é outro sinal de alerta. Já se falou em cerca de 100 mil produtores de leite no Paraná. Hoje, segundo estimativas citadas por Vetorello em reuniões com o setor, esse número gira em torno de 35 mil, dos quais aproximadamente 80% pertencem à agricultura familiar. “Produtor que para a atividade não volta mais. Trabalha 365 dias por ano, não tem férias, não tem salário. Só cobrança”, lamenta, ressaltando que o esvaziamento é gradual, mas contínuo. “O leite está entrando em colapso”, reforça.

A sucessão familiar aparece como um dos desafios centrais. “O jovem quer qualidade de vida, quer folga no fim de semana. A atividade precisa ser conduzida como empresa, com gestão profissional e planejamento, para se tornar economicamente viável e atrativa às novas gerações”, destacou.

Diálogo com o Estado

A União já iniciou tratativas com a Secretaria de Agricultura do Paraná, o IDR-Paraná e a Adapar. Segundo Vetorello, há abertura do governo estadual para discutir desde a revisão de protocolos técnicos até a readequação de linhas de financiamento, com possibilidade de atualizar diretrizes históricas da cadeia leiteira. “Se tiver que alterar protocolo, o governo está disposto a fazer isso. Querem escutar o produtor, entender quais são as demandas e o que é necessário mudar para melhorar as condições de trabalho do produtor de leite”, afirma.

Para Vetorello, a modernização da atividade é decisiva para garantir permanência no campo. “O produtor quer barracão, quer sistema intensificado, quer compost barn, free stall. Ele quer melhorar a condição de trabalho”, afirma, reforçando que as novas gerações não aceitarão manter o modelo tradicional de manejo extensivo sem ganhos reais de eficiência, renda e qualidade de vida.

Entre mercado e a sobrevivência

Para Vetorello, a crise do leite não se resume a ciclos de baixa remuneração ao produtor. A questão central, afirma, está na fragilidade estrutural do mercado e na ausência de uma política pública consistente para a cadeia. “Quando afirmo que o Brasil carece de política pública consistente para o leite e de representatividade efetiva, faço isso com base em fatos e evidências”, declara.

Segundo ele, a cadeia láctea não dispõe de defesa institucional compatível com sua relevância econômica e social. “O setor opera, historicamente, à margem das prioridades estratégicas, sem coordenação estruturada entre produção, indústria e governo”, enfatiza.

Na avaliação de Vetorello, o leite se tornou o ‘patinho feio’ da agropecuária. “Em diversas negociações, é tratado como variável de ajuste, utilizado como instrumento de barganha em decisões mais amplas de política agrícola e comercial”, afirma, ressaltando que o reflexo direto recai sobre o produtor. “Ele permanece fragilizado. Falta voz ativa nos espaços decisórios, previsibilidade regulatória e instrumentos eficazes de proteção de renda. O resultado é um ambiente de insegurança recorrente, que compromete planejamento, investimentos e a própria sustentabilidade da atividade”, pontua.

Ele defende regulamentação mais rígida sobre comercialização e fiscalização sanitária, critica a venda informal de lácteos sem inspeção e cobra proteção semelhante à adotada por outros países. “Não prometemos soluções rápidas, mas a união dos produtores é o primeiro passo para organizarmos o setor, porque sem organização continuaremos sendo o elo mais fraco da cadeia”, reitera.

Produtor há mais de duas décadas, Vetorello intensificou o sistema da própria fazenda em 2018, adotando compost barn e ordenha robotizada. Diversificou com soja e milho, mas mantém o leite como atividade principal. “O leite é uma empresa. Para continuar, precisa ter lucro. Se nós, produtores, não nos unirmos e fizermos algo agora, a cadeia vai sendo cada vez mais comprometida”, salienta.

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Fonte: O Presente Rural
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