Peixes
Propriedade de Mato Grosso do Sul cria oito espécies de peixes com uso reduzido de ração
Sistema integrado combina piscicultura, reaproveitamento de água da chuva e irrigação de pastagens, reduzindo em até 90% o uso de ração.

Produzir peixe com uma fração da ração normalmente usada em sistemas comerciais já seria suficiente para chamar atenção. Em Glória de Dourados (MS), a experiência da Estância Colorada vai além: reúne oito espécies no mesmo sistema, aproveita água da chuva captada dos telhados das granjas de suínos e destina o excedente hídrico à irrigação de pastagens da bovinocultura de corte. Ainda em fase experimental, o projeto de piscicultura já abastece o refeitório da propriedade e começa a desenhar uma nova frente de faturamento no campo.
Em entrevista exclusiva ao jornal O Presente Rural, o produtor rural Celso Philippi Junior detalhou a lógica do modelo implantado na fazenda, que integra piscicultura, suinocultura, bovinocultura de corte e produção de energia renovável. A proposta não nasceu como um tanque isolado dentro da propriedade, mas como parte de um plano mais amplo de sustentabilidade.
“Quando começamos a estruturar esse projeto da Estância Colorada, em paralelo fizemos um desenho de sustentabilidade da propriedade envolvendo a integração entre suinocultura, bovinocultura de corte, piscicultura e produção de energia renovável por meio das florestas.”
Uma das bases do sistema está no aproveitamento da água da chuva. Segundo Philippi, a propriedade canaliza a água captada de telhados das granjas de suínos e de outras estruturas para duas cisternas revestidas. É nesse ambiente que a produção de peixes foi organizada.
“São 17.000 m² de telhado, onde canalizamos a água da chuva para duas cisternas revestidas. Nesses tanques nós produzimos oito espécies de peixes que se complementam dentro de uma pirâmide de produção.”
Arranjo
O sistema foi montado com espécies que ocupam funções diferentes dentro do tanque. Quatro atuam como filtradoras, três entram como predadoras e uma faz o aproveitamento do material depositado no fundo. A lógica, segundo o produtor, é explorar a dinâmica natural da água e reduzir a dependência de insumos externos.
“São quatro espécies de peixes filtradores, ou seja, vivem da filtragem da água, que são a tilápia, a carpa húngara, a carpa cabeça grande e a carpa colorida. A equipe técnica do Senar-MS vem todo mês aqui, me dá assistência técnica e gerencial, analisa a água para saber a quantidade de matéria orgânica, que basicamente são algas. Como nós não fizemos despesca total, essas quatro espécies se multiplicam muito, principalmente a tilápia. Então colocamos três espécies de peixes predadores: dourado, matrinxã e pintado. O alimento deles são os alevinos. Já temos matrinxã e dourado com mais de 3 kg no açude. E por fim tem o corimba, que come todo aquele resíduo que vai para o fundo do tanque. As espécies vivem em equilíbrio, sincronizadas.”
A alimentação externa existe, mas em volume muito abaixo do padrão de uma criação convencional. Segundo Philippi, a ração é usada especialmente para tilápias, para os alevinos e também na engorda, além de ajudar no manejo durante a retirada dos peixes. “O volume de ração que a gente oferece representa entre 10 e 20% da ração usada em uma criação comercial. É possível criar sem dar a ração, mas a gente usa até para facilitar na hora de fazer a despesca, que é feita com tarrafa.”
Baixo custo e destino da produção
O tanque também chama atenção pelo isolamento em relação ao solo. As cisternas são revestidas com lona, sem contato direto da água com a terra. Na avaliação do produtor, isso influencia a qualidade do pescado.
“O tanque é revestido por uma lona PAD, polietileno de alta densidade, a mesma usada em revestimentos de tanques de dejetos suínos, então a água não tem contato com a terra. O sabor do peixe é um espetáculo.”
Mesmo com a presença de um aerador, o custo operacional permanece baixo, justamente porque o sistema não depende de grandes volumes de ração. “Temos um aerador, mas o custo é baixo porque a gente trabalha com o mínimo de ração.”
Embora a experiência ainda não tenha finalidade comercial, os peixes já têm uso definido dentro da propriedade. A despesca é feita regularmente para fornecer a proteína para 200 refeições por mês. “Não temos esse tanque para fins comerciais, por isso não faço despesca total. Vamos tirando peixe para abastecer o refeitório e também para lazer.” Hoje, o peixe entra no cardápio do refeitório da Estância Colorada uma vez por semana. Na última despesca, realizada em 15 de abril, foram retirados 60 quilos de pescado.
Da chuva ao pasto
A lógica de aproveitamento não termina no tanque. Depois de passar pelo sistema de criação, a água segue para outro elo da propriedade, conectando a piscicultura à bovinocultura de corte. “No final, o destino dessa água é a irrigação de pastagens para a bovinocultura de corte.”
O excedente hídrico, portanto, não é tratado como descarte, mas como insumo. Essa integração ajuda a explicar por que a experiência chama atenção mesmo ainda em fase de amadurecimento técnico: ela reúne produção de peixe, uso racional da água e conexão com outras atividades da fazenda em uma mesma engrenagem.
Na prática, a Estância Colorada ainda trabalha em escala experimental. Mas o projeto já oferece sinais concretos do que pode vir pela frente. Com peixe no refeitório, despesca em andamento e custo mais contido com alimentação, a piscicultura deixa de ser apenas um ensaio técnico e começa a ganhar contorno de negócio. Em Glória de Dourados, a aposta não está em um tanque comum. Está em transformar integração produtiva em receita.

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Peixes
Preço da tilápia varia R$ 1,67 por quilo entre as principais regiões produtoras
Norte do Paraná registra a maior cotação, com R$ 10,40/kg, enquanto Oeste do Paraná paga R$ 8,73/kg. Todas as praças monitoradas pelo Cepea tiveram queda na semana.

Os preços da tilápia pagos ao produtor independente apresentaram recuo em todas as regiões acompanhadas pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) nesta semana. Apesar do movimento generalizado de baixa, as diferenças entre as regiões chegam a R$ 1,67 por quilo.

Foto: Shutterstock
O maior preço foi registrado no Norte do Paraná, onde o produtor recebeu, em média, R$ 10,40/kg. Mesmo liderando as cotações, a região apresentou queda de 0,15% em relação à semana anterior.
Na sequência aparecem o Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, com média de R$ 10,14/kg e recuo semanal de 0,43%, e a região de Grandes Lagos, que compreende o noroeste paulista e a divisa com Mato Grosso do Sul, onde a cotação ficou em R$ 9,88/kg, após a maior queda entre as regiões monitoradas, de 1,02%.
Em Morada Nova de Minas (MG), o preço médio foi de R$ 9,51/kg, com variação negativa de 0,11%, a menor retração semanal observada pelo

Foto: Jefferson Christofoletti
levantamento.
O Oeste do Paraná registrou a menor cotação entre as cinco regiões pesquisadas. O produtor independente recebeu, em média, R$ 8,73/kg, valor 0,22% inferior ao da semana anterior e R$ 1,67 abaixo do praticado no Norte do Estado.
Os dados do Cepea indicam que, embora os recuos semanais tenham sido relativamente modestos, variando entre 0,11% e 1,02%, as diferenças de preços entre as principais regiões produtoras seguem relevantes. Entre a maior e a menor cotação, a variação chega a aproximadamente 19%, evidenciando a heterogeneidade do mercado da tilápia no país. Os valores correspondem ao preço à vista pago ao produtor independente.
Peixes
Nota técnica reacende debate sobre classificação da tilápia-do-Nilo
Publicação assinada por 33 pesquisadores reúne estudos sobre os riscos ecológicos da espécie e busca subsidiar decisões da Conabio.

Uma nota técnica assinada por 33 pesquisadores brasileiros aborda a classificação da tilápia-do-Nilo (Oreochromis niloticus) como espécie exótica invasora. Publicado em 29 de junho no repositório científico EcoEvoRxiv, o documento reúne estudos da literatura científica que, segundo os autores, indicam que a espécie atende aos critérios internacionais para essa classificação. O material também foi elaborado para contribuir com as discussões em andamento na Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio).

O tema envolve uma das principais espécies da aquicultura brasileira. Em 2025, o Brasil produziu 707.495 toneladas de tilápia, volume equivalente a cerca de 70% da produção nacional de peixes cultivados. A espécie também respondeu por aproximadamente 94% das exportações da piscicultura brasileira, consolidando o país como o quarto maior produtor mundial de tilápia, segundo o Anuário Brasileiro da Piscicultura 2026, da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR). Os mesmos dados também constam na Nota Técnica nº 2/2026 da Embrapa Pesca e Aquicultura.
A nota técnica trata dos possíveis impactos da presença da tilápia em ambientes naturais fora de sua área de ocorrência original. Segundo os autores, o objetivo do documento é reunir o conhecimento científico disponível sobre os aspectos ecológicos relacionados à espécie, sem abordar sua importância econômica para a piscicultura.

De acordo com Jean R. S. Vitule, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e autor sênior da publicação, o documento busca fornecer subsídios científicos para discussões sobre políticas públicas e propostas relacionadas ao cultivo e à classificação legal de espécies exóticas.
Os autores também destacam que o Brasil reúne a maior diversidade de peixes de água doce do mundo, com milhares de espécies distribuídas em diferentes bacias hidrográficas, muitas delas endêmicas. Segundo a publicação, a introdução de espécies fora de sua distribuição natural é um dos fatores analisados pela comunidade científica em estudos sobre alterações em ecossistemas aquáticos.
A presença da tilápia no Brasil remonta à década de 1950. A tilápia-rendalli (Coptodon rendalli) foi introduzida em 1953. Já a tilápia-do-Nilo foi introduzida oficialmente em 1971 pelo então Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), com o objetivo de produzir alevinos para o peixamento de reservatórios públicos do Nordeste e ampliar a oferta de pescado.
Características como rápido crescimento, boa conversão alimentar, capacidade de adaptação a diferentes condições ambientais e elevado potencial reprodutivo favoreceram a expansão da tilápia-do-Nilo, que se tornou a principal espécie da piscicultura brasileira.
Segundo a nota técnica, quando indivíduos escapam de viveiros, açudes ou tanques-rede, conseguem sobreviver, reproduzir-se e formar populações em ambientes naturais, ocorre um processo denominado invasão biológica. Esse é o tema central discutido pelos pesquisadores no documento.
Peixes
Aplicativo digital moderniza coleta de dados da pesca artesanal no Brasil
Ferramenta PesqBR permitirá registro direto da produção pelos pescadores e deve subsidiar estatísticas e políticas públicas do setor.

A coleta e a gestão de dados da pesca artesanal no Brasil passam a contar com uma nova ferramenta digital. Em parceria com o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), a Universidade Federal do Piauí (UFPI) lançou na quinta-feira (2) o protótipo do aplicativo PesqBR, durante evento realizado em Luís Correia, a 349 quilômetro de Teresina.

Foto: Divulgação
A iniciativa tem como objetivo aprimorar a geração de estatísticas sobre a atividade pesqueira no país, com registros feitos diretamente pelos próprios pescadores e pescadoras por meio de dispositivos móveis. A proposta é aproximar os dados oficiais da realidade produtiva das comunidades artesanais e fortalecer a base de informações do setor.
Além do aplicativo em fase de testes, foram disponibilizadas a versão web do sistema, computadores para apoio operacional e prevista a capacitação das colônias de pesca. A estrutura permitirá que os registros também sejam utilizados para automonitoramento e gestão local da atividade.
Durante o lançamento, o ministro da Pesca e Aquicultura, Edipo Araujo, destacou a relevância social da categoria ao afirmar que a produção pesqueira artesanal não pode permanecer invisível, ressaltando o papel dos trabalhadores na oferta de alimentos no país.
De acordo com a secretária Nacional de Registro, Monitoramento e Pesquisa da Pesca e Aquicultura, Carolina Dória, o sistema também deve facilitar o acesso a políticas públicas. Os registros realizados no aplicativo poderão ser utilizados como comprovação da atividade no Relatório de Exercício da Atividade Pesqueira (REAP), reduzindo a burocracia e ampliando a autonomia dos profissionais.

Foto: Divulgação/MPA
Ela explica ainda que a versão destinada às colônias de pesca permitirá o uso dos dados para planejamento e negociação com diferentes esferas de governo e instituições financeiras. Com informações mais precisas, as entidades poderão embasar demandas por infraestrutura, equipamentos, crédito e melhorias na cadeia produtiva.
Nesta fase inicial, o PesqBR será testado por 14.932 pescadores e pescadoras profissionais registrados em cinco municípios piauienses: Luís Correia, Esperantina, Ilha Grande, São João do Piauí e Buriti dos Lopes. Luís Correia concentra a maior base de usuários e se destaca por possuir o principal trecho litorâneo do estado.
A expectativa é que o sistema seja ampliado gradualmente para outras regiões do país, com a perspectiva de se tornar uma ferramenta nacional de referência na coleta de dados da pesca artesanal.




