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PronaSolos entrega maior plataforma tecnológica do País sobre solos brasileiros
O principal ganho para a sociedade é ter acesso a esse acervo em um único local, de forma organizada, sistematizada e amigável

Já está disponível para a sociedade a plataforma tecnológica do Programa Nacional de Levantamento e Interpretação de Solos no Brasil (PronaSolos), que reúne em sua versão 1.0, por meio de um sistema de informações geográficas (SigWeb), mapas e dados de solos produzidos ao longo dos últimos 80 anos pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM), pela Embrapa e pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), órgãos estaduais e regionais e universidades. O lançamento oficial foi feito pela ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, no dia 3 de dezembro.
A criação da plataforma apoia o cumprimento das recomendações do acórdão 1914/2015, do Tribunal de Contas da União (TCU), que determinou ao Governo Federal que promovesse o levantamento e a disponibilização de informações adequadas sobre solos no Brasil, o que acabou dando origem ao PronaSolos. Uma das recomendações era justamente a organização e sistematização de dados de levantamento de solos do Brasil realizados por diferentes instituições em um sistema de informação de acesso público, com facilidade de interpretação, extração e exportação de dados para outros sistemas.
“Essa é a primeira entrega do PronaSolos que atinge a sociedade em geral. Com o lançamento do site e da plataforma tecnológica do programa, tem início o funcionamento do Sistema Nacional de Informação de Solos, conforme solicitado pelo TCU e previsto no decreto que criou o PronaSolos”, diz José Carlos Polidoro, pesquisador da Embrapa Solos (RJ) e coordenador do comitê executivo do programa.
“O principal ganho para a sociedade é o de ter acesso ao acervo de estudos de mapeamentos de solos do Brasil e de perfis de solos, em um único local, de forma organizada e sistematizada. Adicionalmente, a ferramenta do SigWeb possibilita a combinação de forma fácil e ágil desses dados e informações, por meio de mapas”, explica Silvio Bhering, pesquisador da Embrapa Solos e coordenador do portfólio de projetos de Solos do Brasil da Empresa.

SigWeb: a geografia do Brasil na sua tela
De acordo com o pesquisador, a versão 1.0 da plataforma engloba o portal de dados – que disponibiliza, por meio do sistema SigWeb, os diferentes mapeamentos de solos e outros temas básicos, como atlas hidrogeológicos, geodiversidade etc.; e o portal do conhecimento, integrado ao SigWeb, que oferece diversas interpretações realizadas com base nos mapas de solos, como os zoneamentos dos mais diferentes fins – agroecológico, pedoclimático, potencial pedológico, aptidão agrícola, disponibilidade hídrica, mapa de teor de carbono, mapa de pH do solo, mapa de condutividade elétrica, suscetibilidade à erosão hídrica etc.
Ao abrir um mapa qualquer, é possível acionar uma série de planos de informação para visualizá-los em conjunto, entre eles biomas, bacias hidrográficas, hidrovias e rodovias. Essa funcionalidade é bastante útil quando se pretende cruzar informações, como por exemplo, verificar a suscetibilidade à erosão hídrica em regiões de um determinado bioma, ou constatar as rodovias e hidrovias disponíveis em determinadas regiões produtivas.
“Nessa primeira etapa o foco foi agregar em um mesmo ambiente computacional dados e informações gerados ao longo das últimas seis décadas, com métodos e técnicas distintas, desde os processos de coleta e determinação analítica até o registro da distribuição e ocorrência dos solos do Brasil em mapas. Essa estratégia nos obriga a alertar para possíveis inconsistências ao visualizarmos em conjunto, em um mesmo ambiente de sistema de informação geográfica (SIG), dados e informações tão diversos e calcados em técnicas e processos distintos”, alerta Hiran Silva Dias, chefe de divisão de geoprocessamento da CPRM.
Os pesquisadores também ressaltam que a primeira versão da plataforma SigWeb exige algumas habilidades técnicas para utilização, e por isso deve ser mais utilizada por técnicos, pesquisadores e tomadores de decisão. Ao longo do tempo, com o trabalho de simplificação de linguagem e ajustes na integração dos dados de diferentes bases, as informações serão mais acessíveis ao público leigo.
Entre as funcionalidades da plataforma também estão: a possibilidade de incorporação dos mapas ao Google Earth; a impressão e o compartilhamento nas mídias sociais de áreas selecionadas pelo usuário de qualquer mapa disponível; e a inserção de dados particulares nos mapas disponíveis no SigWeb, entre outras.
Um dos principais objetivos do PronaSolos é a otimização de recursos públicos para a produção de dados sobre os solos brasileiros e a sua disponibilização à sociedade de maneira sistematizada. É nesse sentido que o IBGE terá um papel importante para o trabalho, em diversas vertentes. “Uma delas é o suporte da nossa base cartográfica às informações temáticas do programa. Também temos experiência em produção em larga escala de levantamentos nacionais, e finalizamos recentemente o mapa de solos do Brasil na escala de 1:250.000, que já consta, inclusive, na plataforma tecnológica recém-lançada. Temos, ainda, contribuições importantes para o Sistema Brasileiro de Classificação de Solos, em conjunto com a Embrapa e outras instituições”, ressalta Claudio Stenner, diretor de geociências do instituto.
A chefe-geral da Embrapa Solos, Petula Ponciano, lembra que o PronaSolos e os dados gerados pelo programa terão interface com várias políticas públicas. Por isso, serão necessárias inúmeras articulações para que os dados disponíveis sejam efetivamente utilizados. “O lançamento da plataforma tecnológica marca o início de uma grande ação de comunicação junto à sociedade, em parceria com a Sociedade Brasileira de Ciência do Solo (SBCS), universidades, empresas de extensão rural, a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), a Confederação Nacional de Agricultura (CNA) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). O ano de 2021 será de muitas articulações para mostrar o potencial das ferramentas disponíveis e traçar estratégias para chegar ao produtor rural e a outros segmentos, como os de infraestrutura, de minas e energia e defesa.”
Plataforma traz produtos inéditos
A versão 1.0 da plataforma já disponibiliza muitas informações e mapas das bases de dados da Embrapa, do CPRM e do IBGE, alguns deles inéditos, e permite o cruzamento entre alguns desses produtos, a partir das seleções solicitadas pelo usuário.
É possível carregar na mesma imagem, por exemplo, o mapa nacional com todos os pontos de coleta de amostras de solos já registrados pela Embrapa e o mapa das classes de solo na escala de 1:250.000 do IBGE. A partir da efetiva execução do PronaSolos, com os trabalhos de campo previstos para as próximas décadas, o objetivo é aumentar consideravelmente os pontos de coleta e interpretação de solos, assim como ampliar o nível de detalhamento para obtenção de um mapa de classe de solos do Brasil na escala 1:100.000 ou mais detalhada.

Entre as entregas inéditas já disponíveis na plataforma SigWeb do PronaSolos estão o mapa de erodibilidade dos solos brasileiros, o mapa de erosividade, o mapa de suscetibilidade à erosão e o mapa de vulnerabilidade à erosão, desenvolvidos pela equipe da Embrapa Solos e que podem ser carregados em conjunto. Também é possível cruzar o mapa de estoque de carbono na escala de 1:5.000.000 com o mapa de domínios hidrogeológicos, selecionando a visualização por biomas específicos, o que pode trazer subsídios importantes, por exemplo, para as equipes que trabalham na execução do Plano ABC.
Também é novidade o mapa de aptidão agrícola do Matopiba, importante fronteira agrícola que compreende as regiões de cerrado do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que pode ser carregado junto com o mapa de hidrogeologia da região, fornecendo indicações das áreas com maior impacto do uso de irrigação. Já o mapa de bacias hidrográficas pode ser utilizado, por exemplo, para estudos específicos das áreas ao redor das usinas hidrelétricas de Itaipu, no Mato Grosso do Sul, e Porto Primavera, no Paraná, trazendo subsídios estratégicos para o setor energético brasileiro.

A tecnologia por trás da plataforma
A plataforma SigWeb do PronaSolos foi construída a partir da infraestrutura da CPRM, utilizando um servidor de hiperconvergência Nutanix hospedado no centro de processamento de dados (data center) da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), em Brasília, com um link de 8 GB.
A visualização de mapas utiliza a plataforma da empresa ESRI para apresentação de dados vetoriais e imagem. Essa plataforma possui um conjunto de soluções para organização, publicação e manipulação de dados considerado de ponta. “Com ela foi possível acelerar a construção do SigWeb do PronaSolos e apresentar dados inéditos de uma forma moderna e amigável à população, que poderá consumir essas informações utilizando celulares, tablets ou computadores”, explica Hiran Dias.
A utilização da infraestrutura da CPRM foi possível graças à política de otimização de sua base tecnológica implementada nos últimos anos, por meio de uma transformação digital que permitiu contar com uma infraestrutura de tecnologia da informação robusta e de alto padrão instalada no data center da RNP.
As próximas etapas e os desafios para o futuro
O módulo de gestão e governança do PronaSolos, que será consolidado por meio de uma sala de situação e controle – ambientes físicos e computacional –, será desenvolvido ao longo de 2021. Assim como o módulo de ambiente de execução, que será responsável pelo desenvolvimento de ferramentas de análise integrada de dados e contemplará todos os aspectos operacionais, metodológicos e técnicos dos estudos de campo do PronaSolos.
“A plataforma tecnológica terá ou um moderno e sistemático ambiente de trabalho e execução do PronaSolos, que poderá oferecer ao Mapa um monitoramento não somente das ações do programa, mas também de todas as ações federais, estaduais e municipais, incluindo as iniciativas privadas, que envolvam conhecimento, uso e ocupação do solo e da água no Brasil. Esse ambiente será materializado numa sala de comando e controle operada por meio da plataforma tecnológica”, explica José Carlos Polidoro.
As próximas etapas do trabalho também envolvem outros grandes desafios, como a contínua alimentação com dados de outras dezenas de instituições, a adequação e integração dos dados da plataforma e a interoperabilidade entre sistemas e bases de dados. “Nas etapas posteriores, os produtos de interpretações de solos passarão por um processo de decodificação ou simplificação de linguagem, para que esses conhecimentos sejam facilmente apropriados, inclusive por leigos. Muitos desses dados serão reordenados para que sejam efetivamente integrados, num trabalho que denominamos de sanitização de dados e harmonização cartográfica”, detalha Silvio Bhering.
“Temos um novo instrumental para o planejamento e, em seguida, para a gestão territorial do País como nunca se viu. A linha da multifuncionalidade é promissora, seja no plano da tecnologia da informação ou no fornecimento de informações estratégicas. A partir de agora, o nosso desafio é sustentar o processo de aprimoramento dessa plataforma tecnológica”, ressalta Paulo Romano, diretor de Infraestrutura da CPRM.
Edgar Shinzato, chefe do Departamento de Informações Institucionais do órgão, cita a necessidade de uma sistematização nacional de informações geoespaciais para que a plataforma ofereça dados cada vez mais integrados e consistentes à sociedade. “Agora temos que caminhar para a construção de uma política nacional da geoinformação, que ainda não existe. Isso é muito importante, para que toda a informação inserida na plataforma tenha um mesmo padrão e haja uma integração adequada entre os sistemas.”
Pedro Correa Neto, secretário-adjunto de Inovação Desenvolvimento Rural e Irrigação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e coordenador do comitê estratégico do PronaSolos, aponta o desafio de fortalecer as ações conjuntas entre as diversas instituições para construção da plataforma tecnológica. “Temos a responsabilidade de transformar essas ações em um costume institucional, para que todos os parceiros do programa passem efetivamente a dialogar e a se complementar, de maneira sinérgica. Esse será um grande legado para a administração pública e para a sociedade brasileira”, reflete.

Notícias
Suinocultura encontra na mão de obra estrangeira uma resposta à falta de trabalhadores
Alejandro atravessou sozinho a fronteira para trabalhar em granjas brasileiras. Hoje, a esposa cursa técnico em Enfermagem, a filha sonha com Medicina Veterinária e a família já fala em permanecer no Brasil.

Há quatro anos, quando deixou a Argentina para tentar a vida no Brasil, Alejandro Cardoso carregava mais dúvidas do que certezas. Veio sozinho, em busca de trabalho. A esposa, Marlene Cristina Costa, e as filhas Cintia e Guadalupe permaneceram no país de origem. Hoje, a família vive reunida em Iporã do Oeste, no Extremo-Oeste catarinense, trabalha na suinocultura e já cogita um passo que parecia distante quando atravessou a fronteira: vender a casa na Argentina e construir uma nova vida definitivamente em solo brasileiro.
A história da família reflete uma realidade cada vez mais presente nas propriedades rurais do Sul do país. Diante da dificuldade de contratar trabalhadores brasileiros, granjas e agroindústrias passaram a contar com um número crescente de imigrantes para manter as operações.

Marlene Cristina Costa integra atualmente a equipe do setor de amamentação da Granja Barra Grande: “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”
Na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, onde a família trabalha atualmente, seis dos 23 colaboradores são argentinos. “Se não fosse a mão de obra estrangeira, nós estávamos sem mão de obra aqui”, afirma o sócio da granja, o mestre em Administração e especialista em Agronegócio Milton Melz.
A propriedade possui uma Unidade Produtora de Desmamados (UPD) com duas mil matrizes e um crechário para nove mil leitões. Melz também é sócio da Granja Bom Plano, em Vista Gaúcha (RS), igualmente integrada à Cooper A1, que opera outra UPD com duas mil matrizes e mantém 19 funcionários.
Segundo ele, a presença de trabalhadores argentinos deixou de ser exceção e se tornou parte da rotina produtiva da região. “Essa é uma realidade não só da nossa granja. A maioria das granjas do Oeste catarinense está usando mão de obra argentina, principalmente”, ressalta.
Recomeço em outro país
Antes de chegar ao Brasil, Alejandro nunca havia trabalhado na suinocultura. Na Argentina, atuou em serralheria e em atividades rurais. Marlene trabalhou durante anos com venda de passagens e como secretária.
O primeiro contato com a atividade ocorreu já em território brasileiro, quando o casal começou a trabalhar em outra granja. Há quase um ano, ambos ingressaram na Granja Barra Grande. Hoje, Alejandro atua como tratador de animais. Marlene trabalha no setor de amamentação.

Alejandro Cardoso trabalha como tratador na Granja Barra Grande: “A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”
A mudança foi motivada pela busca de condições econômicas mais favoráveis. Embora possuam casa própria na Argentina, o casal afirma que o alto custo de vida dificultava a construção de uma vida mais confortável. “Estamos muito felizes no Brasil. Eu vejo meus pais felizes, conseguem pagar as contas e ainda sobra dinheiro. Estamos vivendo melhor aqui”, relata a filha mais velha, Cintia, de 16 anos.
A adaptação, porém, não ocorreu sem obstáculos. Apesar de o casal já utilizar o chamado ‘portunhol’ no cotidiano, o idioma representou uma barreira importante para as filhas. A dificuldade foi tão significativa que as duas retornaram temporariamente para a Argentina e permaneceram cerca de um ano no país enquanto os pais continuavam trabalhando no Brasil. “Na Argentina a gente falava portunhol, então não tivemos problemas em nos comunicar aqui. A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”, conta Alejandro.
Escola, trabalho e novas oportunidades
Com a família completa no Brasil, a rotina começou a se estabilizar. Cintia atualmente cursa o segundo ano do Ensino Médio em escola pública. A irmã Guadalupe, de oito anos, também está matriculada na rede de ensino.
A adolescente diz perceber diferenças significativas entre os sistemas educacionais dos dois países. “Eu vejo muita diferença nos estudos. Os professores têm paciência para nos entender e para explicar os mais diversas assuntos. Na Argentina é muito difícil que um professor explique bem, porque lá os professores faltam muito na escola. Às vezes ficam uma semana inteira sem dar aula”, relata.

Além do trabalho na suinocultura, a família argentina encontrou espaço para o lazer e faz das viagens uma forma de conhecer melhor a região onde decidiu construir uma nova vida
Ela também destaca aspectos práticos da rotina escolar. “Lá na Argentina tem que pagar o transporte e o lanche na escola. Aqui no Brasil é ofertado de forma gratuita”, conta, entusiasmada.
Animada com a nova fase, Cintia já traçou objetivos para o futuro. “Quero continuar estudando e fazer faculdade de Medicina Veterinária”, destacou.
A busca por qualificação também faz parte dos planos da mãe. “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”, menciona Marlene, contando que iniciou um curso técnico em Enfermagem e pretende continuar os estudos após a conclusão da formação. “Na Argentina eu já tinha feito curso de agente de saúde. Depois de concluir este curso, quero fazer faculdade de Enfermagem. Meu objetivo é seguir neste ramo”, enfatizou.
Reconhecimento e qualidade de vida
Na avaliação da família, a experiência na Granja Barra Grande trouxe mais do que estabilidade financeira. Eles destacam reconhecimento profissional, respeito nas relações de trabalho e melhores condições para planejar o futuro.
A jornada ocorre das 07 às 11 horas e das 13 às 17 horas. “É um horário bom de trabalhar. Sempre dá para a gente sair e conhecer lugares novos. Gostamos muito disso”, relata Alejandro.
O trabalhador lembra que uma das primeiras conquistas veio poucos meses após chegar ao Brasil. “Com três meses trabalhando aqui já consegui comprar um carro. Era simples, mas nos levava para todos os lugares”, relembra, contando que tinha um Gol e agora conseguiu trocá-lo por um Siena.
Além do salário, o casal recebe benefícios como vale-alimentação, almoço na granja, auxílio para combustível e participação a cada três meses nos resultados da atividade. “À medida que o resultado melhora, eles também ganham mais”, frisa Melz.
Integração além da porteira
Para Melz, a contratação de estrangeiros exige muito mais do que oferecer uma vaga de trabalho. “A gente tem que ter uma acomodação para eles, uma casa digna, inserir na sociedade”, pontua, ressaltando que a integração precisa envolver também o poder público e a comunidade local. “Estamos conversando com o governo municipal de Iporã do Oeste para estruturar uma formação para esses estrangeiros, até por uma questão de inserção social, tanto para quem é do município quanto para quem chega”, frisa.
Melz acredita que o acolhimento é um dos fatores que explicam a permanência de muitos trabalhadores. “São funcionários dedicados. Eles passaram muitas dificuldades. Hoje têm uma qualidade de vida melhor aqui no Brasil e uma educação melhor para os filhos”, salienta.
O incentivo à formação profissional também faz parte da estratégia adotada na propriedade. “Nós estimulamos todos a estudar. Temos colaboradores cursando Administração e Ciências Contábeis”, diz.
Planos para ficar
Mesmo sentindo saudades dos familiares que permaneceram na Argentina, Alejandro e Marlene enxergam o futuro cada vez mais próximo do Brasil. A principal preocupação ainda envolve a casa que possuem no país de origem. “Foi difícil conseguir comprar aquela casa. A economia está complicada e ela não está alugada”, relata Alejandro.
Por isso, a família já discute uma mudança definitiva. “Estamos gostando muito daqui. Estamos pensando em vender nossa casa na Argentina e comprar nossa casa própria no Brasil”, adianta Alejandro.
Para Melz, histórias como essa ajudam a explicar por que os trabalhadores estrangeiros passaram a ocupar papel relevante na sustentação das granjas da região. “É uma família com caráter, não são aventureiros. São pessoas que vestem a camisa e cumprem horário”, ressalta.
A Edição Especial Cooperativismo 2026 pode ser acessada gratuitamente na aba Edições Impressas de opresenterural.com.br.
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Fundesa-RS fecha semestre com R$ 196,3 milhões em caixa e amplia investimentos em sanidade animal
Fundo aprovou as contas do primeiro semestre, destinou recursos para rastreabilidade bovina e indenizou produtores por abates sanitários.

O Conselho Deliberativo do Fundo de Desenvolvimento e Defesa Sanitária Animal do RS aprovou, em assembleia realizada na última quarta-feira (15), a prestação de contas do primeiro semestre do ano. O balancete consolidado indica receitas de quase R$ 21 milhões e o saldo disponível de R$ 196.3 milhões. As saídas, que correspondem ao pagamento de indenizações e investimentos em infraestrutura, capacitação, equipamentos e insumos, foram de R$ 6,38 milhões.
Só as indenizações referentes à pecuária leiteira totalizaram R$ 1,9 milhão nos primeiros seis meses do ano. O maior valor foi registrado no segundo trimestre, com R$ 1,34 milhão. O pagamento de indenizações é referente ao abate sanitário de bovinos em atendimento ao Programa Nacional de Controle e Erradicação de Brucelose e Tuberculose.
Também foram homologadas liberações de recursos para aquisição de equipamentos de identificação eletrônica (brincos e bastão de leitura), que integram o Projeto Piloto de rastreabilidade bovina no estado. O valor aportado foi de R$ 86 mil.
Desafios para o segundo semestre
Durante a assembleia, os conselheiros debateram sobre os impactos da medida da União Europeia para o setor de proteína animal do estado. O presidente do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos, José Roberto Goulart, pontuou que os compradores europeus estão correndo para comprar toda a carne bovina brasileira antes do prazo se esgotar em 3 de setembro.
O presidente da Associação Gaúcha de Avicultura, José Eduardo dos Santos, destacou o investimento de R$ 183 mil do Fundesa para o evento Conbrasfran, que será realizado em novembro em Gramado. Segundo Santos, será uma oportunidade para debater esse e outros temas importantes para a avicultura que vem enfrentando muitos desafios nos últimos anos.
Os conselheiros trataram ainda sobre a programação do setor durante a Expointer, que erá como base a Casa do Fundesa.
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Tecnologia acelera análise genética e desenvolvimento de novas cultivares de trigo
Plataforma reduz de dias para cerca de 12 horas o preparo de amostras de DNA e amplia a identificação de genes ligados à produtividade e à resistência a doenças.

Uma nova plataforma de genotipagem automatiza o preparo de amostras de DNA na Embrapa Trigo (RS) e amplia a capacidade de análise genética da cultura do trigo. A tecnologia reduz de dias para cerca de 12 horas o tempo necessário para essa etapa, reduzindo os custos da pesquisa e acelerando a identificação de marcadores genéticos ligados à produtividade e à resistência a doenças.
Esse avanço foi possível graças à evolução do processo de genotipagem, técnica que permite identificar variações no DNA de um indivíduo. “Em duas décadas, o protocolo foi modernizado, com a substituição das análises manuais em gel por sistemas de eletroforese, que usam campo elétrico para separar moléculas e, mais recentemente, pelo sequenciamento, que permite a genotipagem em larga escala e com alta precisão”, conta o laboratorista Jordalan Muniz.
O sequenciamento de segunda geração foi incorporado à rotina do Laboratório de Biotecnologia da Embrapa Trigo com a chegada de dois novos equipamentos: o ION Chef, responsável pelo preparo das amostras, e o ION GeneStudio S5 Plus, que realiza o sequenciamento. “Podemos dizer que o trabalho de um ano agora pode ser realizado em apenas uma semana. É um ganho de eficiência que reduz custos e acelera a obtenção de dados moleculares em apoio ao programa de melhoramento genético do trigo na Embrapa”, explica o pesquisador Luciano Consoli.
Potencial de uso da plataforma
O genoma do trigo é 5 vezes maior do que o genoma humano. Com o sequenciamento do genoma dessa espécie em 2018, a partir de um consórcio internacional de instituições de pesquisa, foi possível avançar em novas ferramentas de apoio ao trabalho da biotecnologia.
Atualmente, a equipe de Genética Molecular da Embrapa Trigo dispõe de informações de 5 mil marcadores moleculares para o trigo e de 3.500 marcadores para cevada compatíveis com essa plataforma. Segundo a laboratorista Tatiane Crespi, a identificação de marcadores moleculares, associados a genes de interesse, contribui para a seleção de linhagens com características agronômicas desejáveis.
Esse conhecimento resultou no desenvolvimento de um painel de marcadores para serem utilizados na cultura do trigo. Com o uso da plataforma de sequenciamento de segunda geração, é possível fazer a análise simultânea de 384 amostras com 202 marcadores, gerando aproximadamente 80 mil data points.
Além disso, a plataforma de genotipagem possibilita avaliar regiões específicas nas sequências de DNA. “O primeiro resultado do uso dessa tecnologia para a geração de dados moleculares de genotipagem é o aumento da eficiência do processo de geração de novas cultivares e na identificação de alelos ou partes de genes de interesse para os programas de melhoramento. Se antes tínhamos uma representação cartográfica, agora temos algo mais detalhado, com ruas e placas de sinalização”, afirma Consoli.
Avanços para o melhoramento genético
As cultivares ou linhagens de trigo analisadas, que possuem os marcadores moleculares de interesse, poderão ser utilizadas nos blocos de cruzamentos dos programas de melhoramento. No caso do trigo, essas análises já vêm sendo conduzidas, como no trabalho para ampliar a base da resistência genética às doenças, a exemplo da brusone, uma das frentes de trabalho consolidadas com o uso de análises moleculares e seleção assistida na Embrapa Trigo:
“Identificada, numa determinada cultivar, a presença de um marcador molecular associado à resistência, como por exemplo à brusone, suas plantas podem ser incorporadas ao programa de melhoramento para a realização de cruzamentos”, pontua a pesquisadora Gisele Torres. Porém, ela lembra que, no decorrer das avaliações a campo, é fundamental analisar a reação das plantas em condições de exposição ao fungo causador da doença:

Foto: Cleverson Beje
“A simples presença de um determinado marcador, mesmo quando fragmentos do DNA são conhecidos por conferirem resistência, não é suficiente para que as plantas que o possuem sejam resistentes. O trabalho da biotecnologia é complementar ao trabalho do melhoramento. Assim, para verificar a efetividade de um determinado marcador molecular, é essencial que os melhoristas avaliem a reação das plantas frente ao patógeno a campo”, complementa Torres.
Outras potencialidades de uso prático da plataforma de sequenciamento de segunda geração estão sendo exploradas pela equipe. Em solos, por exemplo, é possível fazer a extração do DNA de uma amostra para identificar os microrganismos que podem beneficiar o cultivo do trigo numa determinada região. Em outras palavras, identifica-se um perfil molecular daquele solo, o qual será, então, correlacionado com fatores de produção.
No desafio de desenvolver trigos para celíacos, é possível caracterizar marcadores moleculares associados a genes codificadores de proteínas relacionadas à resposta imunológica ao glúten. Os pesquisadores pretendem, ainda, explorar outras possibilidades de análises em expressão gênica por RNAseq, em sequenciamento de pequenos genomas (microrganismos), entre outras.
Consoli destaca o entusiasmo com o potencial de uso da ferramenta: “Antigamente utilizávamos uma lupa, passávamos para o microscópio e evoluímos para ver o que está dentro das plantas. Agora, conseguimos identificar todo tipo de variação presente nos fragmentos de DNA da planta que estão associados à defesa e ao uso de recursos do ambiente”.



