Bovinos / Grãos / Máquinas
Programa sanitário exige mapeamento dos desafios de cada fazenda
Cuidados com sanidade vão muito além de aplicação de medicamentos; pecuarista precisa entender a realidade da própria fazenda para realizar os corretos procedimentos e ter o rendimento esperado
Uma certeza entre os especialistas em pecuária é que um dos investimentos mais baratos dentro de uma propriedade é a sanidade. As vantagens em realizar os processos preventivos, evitando assim doenças e possíveis perdas, são inúmeras. Mesmo com este conhecimento, ainda existe pecuarista que peca neste quesito, que pode ser considerado um dos mais importantes. O médico veterinário Matheus Marinho falou sobre sanidade e a proteção necessária para produção de alta performance durante a Intercorte, etapa Cuiabá 2018, que aconteceu em abril.
O profissional comenta que sanidade é um dos pontos que menos custa para fazer algo bem feito. “Mas na hora que eu vou comprar, parece que estamos investindo tanto nisso. O que precisamos fazer é olhar para quanto custa um programa sanitário”, afirma. Ele apresentou um estudo desenvolvido pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) que mostra que as propriedades que produzem de uma a três arrobas por hectare no ciclo completo gastam em torno de R$ 3,09 por arroba produzida para ter esse desempenho. “As propriedades que produzem mais de 20 arrobas, ou seja, uma produção altíssima de carne por área produzida, gastam R$ 3,17. Então, é um investimento que vemos que não muda muito, lógico que considerando por arroba”, comenta.
Marinho diz que se for considerado o custo por área, ele será maior, porém a produtividade justifica esse gasto a mais. “Custo é a despesa sobre a produtividade. Se eu invisto esse valor, mas tenho boa produtividade, ótimo”, afirma. Ele informa que na cria os valores variam um pouco mais, e passam a ser R$ 2,60 para 3 arrobas e R$ 4,12 para 20 arrobas. “Mas ainda assim não é um valor tão discrepante”, diz.
Com uma tabela, o profissional mostrou que itens como vacinas, controle, antibióticos e antiparasitários, além de medicamentos em geral, são os quesitos que menos impactam nos custos de produção. “Juntando tudo isso deu 2,6% dos custos. Então é o seguro mais barato que existe, porque eu gasto pouco com isso”, afirma.
Marinho apresenta alguns exemplos de como a sanidade impacta nas fases da produção. A cria é um deles. “Toda vez que eu vou lidar com um bezerro, eu tenho que lembrar que estou lidando com uma categoria extremamente sensível ao fator sanidade”, lembra. “Temos muita coisa que influencia na vida desse bezerro, desde falha na transmissão da imunidade passiva – o colostro –, até a cura do umbigo”, diz. O médico veterinário alerta que um animal que não mama colostro é um bezerro que corre o risco de desenvolver mais doenças. Além disso, ainda é preciso se atentar à cura do umbigo, que é uma porta de entrada para diversos tipos de infecção. “Temos que fazer isso da maneira correta”, expressa.
Enfermidades
Uma enfermidade comum em bovinos e que ainda se fala pouco no Brasil é a coccidiose, comenta Marinho. Porém, nos últimos anos essa passou a ser uma doença mais investigada por pesquisadores. O médico veterinário comenta que um estudo feito pelo professor Elias Facury, da Universidade Federal de Minas Gerais, mostrou que em todas as fazendas analisadas havia a presença de coccidiose. “O levantamento foi feito em propriedades de diversos Estados, como MT, PA, MS, GO, MG e SP”, conta. Ele informa que não eram em todos os animais das propriedades que tinham o agente, mas era mais da metade – em torno de 60%.
Marinho explica que a coccidiose causa, principalmente, a conhecida diarreia de sangue. “As características mais visíveis da doença são difíceis de aparecer, somente de 5 a 10% dos bezerros vão demonstrar o sinal. Os outros 90 a 95% vão ser animais que aparentemente estarão saudáveis, porém com o desempenho abaixo do esperado”, explica. Ele diz que dessa forma, um bezerro que poderia ganhar 800 gramas por dia vai ganhar somente 500 gramas. “Isso porque tem o parasita lesionando o intestino dele”, conta.
Além do mais, quando o intestino desse animal que foi afetado cicatriza, as consequências ele leva para o resto da vida dele. “Em gado de corte são poucos os estudos, mas em gado de leite existem pesquisas mostrando que uma bezerra que tem coccidiose no início da vida, mais tarde, quando ela cria e começa a produzir, produz menos leite do que uma vaca que não teve o problema”, comenta. De acordo com o profissional, isso é bastante comum.
Entre os impactos da coccidiose estão principalmente o peso e a baixa produção. Marinho conta que um estudo desenvolvido na Alemanha com 330 bezerros mostrou que os animais que adoeciam e logo recebiam o tratamento ganharam 3,4 quilos a mais do que animais que não recebiam nenhum tipo de tratamento. “Então, é melhor tratar do que não fazer nada? Sim, o animal se recupera mais rápido e volta a engordar. Porém, animais que tiveram um tratamento preventivo, ganharam mais que o dobro do peso desses animais nos primeiros meses de vida”, informa. “Isso nos demonstra que realmente esperar o animal adoecer para então tratar não compensa”.
Parasitas
Outro ponto importante tratado por Marinho é a incidência de parasitas no rebanho. Ele informa que um estudo feito em 2014 mostrou que no Brasil o prejuízo em gado de corte com os principais parasitas estava em torno de R$ 34 bilhões. “Isso considerando uma taxa de câmbio de R$ 3,10. Se atualizarmos essa taxa, esse número sobe um pouco”, comenta. O médico veterinário acrescenta que se pensar em um rebanho de gado de corte de mais ou menos 190 milhões de cabeças, o prejuízo chega a ser de R$ 200 cabeça/ano. “Quanto custa uma dose de um bom vermífugo? É um valor muito pequeno de investimento para eu correr o risco de perder esses R$ 200 cabeça/ano”, afirma.
Para exemplificar melhor, o profissional apresentou outro estudo, este desenvolvido pela Universidade Federal de Pelotas, em que foi feita uma análise com bezerros Angus com 90 dias de idade, e durante 60 dias acompanharam o ganho de peso dos animais. “Em uma parte foi usado um vermífugo com o princípio ativo bastante conhecido, e em outros não. Óbvio que os animais em que foram aplicadas as doses ganharam mais peso. O estudo mostra que foi o dobro do peso dos bezerros onde não foi aplicada nenhuma dose”, informa.
Marinho comenta que é importante o pecuarista usar o protocolo correto para que ele possa otimizar esse ganho de peso dos animais, para que possa ter um bezerro que vai fazer a diferença no desmame. “Será um animal que vai pesar até 30 quilos a mais na hora que for desmamar, e isso vai impactar por toda a vida dele”, diz.
Verminose
O profissional conta que outro detalhe que tem sido bastante estudado nos últimos anos é o impacto da verminose na ingestão dos alimentos. “Começamos a pensar, será que o animal que está acometido por verminose como igual ao outro?”, conta. Em um estudo desenvolvido em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro, Marinho explica que foi realizada uma infestação artificial nos animais para que todos tivessem o mesmo nível de verminose. “Dois dias depois começamos a analisar e o esperado era que os animais comessem 100% da quantidade de comida fornecida, porém eles estavam comendo 95% da comida. Depois de 20 dias da infestação, o consumo caiu para 63%. Ou seja, o animal com alta infestação de verminose, que a gente não vê e o animal aparenta estar sadio, cai em 30% a ingestão de alimento”, diz.
Para resolver, o médico veterinário comenta que parte dos animais foram tratados com vermífugo e vitamina D, e outra parte somente com vermífugo. “Algo interessante que notamos, é que 15 dias após o início do tratamento, os animais que receberam apenas o vermífugo recuperaram 76% da alimentação. Já aqueles que foram tratados com vermífugo e suplementação de vitaminas passaram a comer 85% a mais. Ou seja, nós conseguimos estimular os animais a comer mais”, conta. Dessa forma, foi possível impactar no ganho de peso dos bovinos. Além do mais, cita, ainda foi possível notar que os animais que receberam somente o vermífugo tiveram um ganho de peso de 500 gramas por dia nos 20 dias após a aplicação, enquanto que aqueles que receberam a vitamina junto com o vermífugo ganharam mais de 700 gramas por dia.
Entender a própria realidade
Quando o assunto é sanidade, o médico veterinário afirma que é preciso que cada pecuarista entenda a realidade da própria fazenda. “Não é porque o meu vizinho está fazendo que eu vou fazer e vai dar certo para mim também. É importante o produtor buscar assistência técnica, o apoio de um médico veterinário e empresas que podem ajudar para entender quais os desafios, qual a dinâmica das doenças dentro da propriedade e como é possível extrair o melhor desse produto ou desse protocolo que será usado na fazenda”, comenta.
Marinho reitera a importância de o pecuarista conhecer a própria fazenda. “Uma cerca muda tudo, a gestão de uma para outra também. Sanidade não é receita de bolo. Não saiam por aí fazendo alguma coisa porque alguém falou que é muito bom. Conheçam a sua fazenda, façam testes e avaliações. Isso vai permitir a vocês saber se esses investimentos que comentei são viáveis na propriedade de vocês e vão gerar o retorno esperado”, sugere.
Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de junho/julho de 2018 ou online.
Fonte: O Presente Rural

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Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira
Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.
O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta
Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.
Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.
Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem
É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.
Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.
Ajuste fino, não ruptura
A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.
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Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026
Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.
No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”
Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.
O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.
Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.
Padronização da produção
O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.
Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.
Mercados internacionais em expansão
O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.
Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.
Oscilações do mercado
Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.
Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.
Processo de adaptação
Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.
A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.
Gargalos persistem
Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.
A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.
Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.
Dependência do mercado interno
Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.
No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.
Pilares da pecuária
A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.
Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.
Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.
Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.
Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.
Visão de futuro
Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.
Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.
O Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.
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Brasil lança selo para fortalecer mercado de carne premium
Iniciativa incentiva o cruzamento entre vacas leiteiras e touros Angus, ampliando a oferta de carne de alto valor e criando nova fonte de renda para produtores de leite.

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.
Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.
O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.
“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.
Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.
Participação técnica da Embrapa
A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.
A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.
Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.


