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Profissional aponta estratégias para atrair e reter bons funcionários na pecuária de leite
Profissional reforça que atrair bons funcionários para a pecuária do leite requer um esforço contínuo e um ambiente de trabalho que valorize o potencial humano.

Atrair bons funcionários é essencial para o sucesso de qualquer negócio, mais ainda da pecuária do leite, setor que tem se mostrado resiliente nas últimas décadas e atualmente busca de forma contínua se modernizar para fortalecer toda a cadeia produtiva. Profissionais seguros e reconhecidos trabalham melhor e desempenham um papel fundamental no crescimento e na eficiência da atividade. Mas como o pecuarista leiteiro pode atrair esses talentos?
O gerente da área do Leite na Starmilk Alimentos, Sandro Viechnieski, aponta algumas estratégias que devem ser priorizadas em uma propriedade de produção de leite visando a formação de uma equipe de trabalho por um longo período: oferecer condições de trabalho atraentes, valorizar o bem-estar dos funcionários, criar um ambiente de trabalho positivo, investir em capacitação e desenvolvimento. “Atrair bons funcionários para a pecuária do leite requer um esforço contínuo e um ambiente de trabalho que valorize o potencial humano. Ao implementar essas estratégias, o dono ou o gestor da fazenda vão estar no caminho certo para construir uma equipe talentosa e comprometida, garantindo a sustentabilidade do seu negócio”, afirma.

Gerente da área do Leite na Starmilk Alimentos, Sandro Viechnieski – Foto: Arquivo Pessoal
Viechnieski ressalta a importância de o empregador demonstrar um comportamento exemplar para seus funcionários, a fim de cativar as pessoas que almejam trabalhar em sua propriedade. “Dessa forma o dono da fazenda vai atrair pessoas com condutas semelhantes às suas, ou seja, ao valorizar pessoas com caráter, abertas a aprender e com comportamentos compatíveis aos seus na hora da contratação terá sempre a sua volta bons funcionários. É importante lembrar que é responsabilidade do proprietário ou do gerente do negócio garantir que o comportamento dos funcionários esteja alinhado com seus valores, pois a experiência não é o único indicador de um bom profissional. Na pecuária de leite, buscamos pessoas com comportamentos semelhantes aos nossos, pois o resto pode ser ensinado”, enfatiza.
De modo geral, os profissionais ao escolherem uma oportunidade de trabalho na produção de leite consideram o salário como o principal fator, aliado às boas condições de trabalho e pagamento adequado à média regional. “No entanto, atrair profissionais competentes requer oferecer remuneração acima do salário regional. Além disso, é importante fornecer boas condições de moradia, acesso à tecnologia, internet, garantir educação para os filhos, estradas seguras, plano de saúde básico e um ambiente de trabalho seguro e estável”, expõe.
Fomentar uma cultura de colaboração, respeito e reconhecimento mútuo, incentivar a troca de ideias e a participação ativa dos funcionários na tomada de decisões é fundamental para os manterem motivados. “Para manter os funcionários engajados é fundamental criar desafios no ambiente de trabalho. Mesmo em uma atividade com rotinas diárias, como a pecuária do leite, é possível estimular a busca por coisas novas e diferentes. A chave para isso está em ensinar os funcionários a identificar problemas. Muitas vezes, os donos ou gerentes de uma fazenda de leite sentem que são os únicos a perceber as falhas e a enxergar o que pode ser melhorado. No entanto, essa percepção está longe de ser verdadeira. Mas é preciso relembrar que é responsabilidade dos líderes do negócio ensinar os funcionários a identificar problemas. Quando eles aprendem a reconhecer problemas e são encorajados a encontrar soluções, cada tarefa de rotina se torna um desafio constante. Na pecuária do leite, onde há diversas variáveis em jogo, cada dia traz algo diferente. Ao ensinar e capacitar os funcionários nesse aspecto, eles se sentem desafiados diariamente e passam a ser reconhecidos no negócio, o que torna seu trabalho mais atrativo”, justifica.
Em relação aos incentivos financeiros, o administrador de fazenda diz que não acredita que bonificações por metas atingidas sejam efetivas na atividade da pecuária de leite. “Incorporar uma bonificação ou recompensa por metas atingidas ao salário não traz os resultados desejados, porque quando uma pessoa não atinge a meta, mesmo que não seja de sua responsabilidade, acaba se frustrando e pode até deixar o negócio. Acredito que a parte financeira deva ser tratada da seguinte forma: pague o máximo que o seu negócio é capaz de pagar. Se não for possível ofereça um salário igual ou superior à média regional, lembrando que os atrativos precisam ser cada vez melhores, do contrário seu negócio pode enfrentar dificuldades”, salienta.
Mas Viechnieski reforça que a remuneração adequada é apenas um aspecto, porém não é o que segura uma pessoa no trabalho. “É comum que o salário na atividade seja baixo. Porém, é fundamental considerar o valor da vida de cada indivíduo e refletir sobre o máximo que o negócio é capaz de pagar. Assim, cabe ao proprietário garantir que o negócio seja suficientemente forte para remunerar bem seus funcionários, de modo que o salário não seja uma questão questionável no negócio”, pontua.
Trabalho mais atrativo
Para tornar a pecuária de leite mais atraente para os profissionais, Viechnieski fala que é importante melhorar a qualidade de vida no trabalho. Ele lembra que atualmente existe uma tendência mundial em busca desse equilíbrio, com empresas ao redor do mundo implementando programas que oferecem carga horária semanal de trabalho reduzida, de cinco para quatro dias. “Essas iniciativas têm mostrado que o rendimento dos profissionais se mantém o mesmo, enquanto desfrutam de uma melhor qualidade de vida”, exemplifica.
No contexto específico das pessoas que trabalham em fazendas de leite, Viechnieski destaca que é essencial garantir que não haja necessidade de fazer horas extras, frisando que os funcionários devem cumprir uma jornada de trabalho de oito horas e ter tempo para si mesmos. “Isso é de extrema importância. Na nossa fazenda, por exemplo, os colaboradores têm a oportunidade de pescar ou praticar esportes em uma quadra comunitária próxima. Eles podem jogar futebol ou dedicar esse tempo para estar com suas famílias”, enaltece.
Além disso, é fundamental que os funcionários tenham seu direito a férias garantido. Caso contrário, o empregado se torna insatisfeito, o que afeta sua saúde e bem-estar. “Não faz sentido esperar que alguém que não busque sua própria qualidade de vida esteja preocupado com o bem-estar das vacas”, ressalta, enfatizando: “Cabe ao proprietário ou administrador da fazenda criar um sistema de rodízio que permita que os funcionários tenham tempo de descanso de forma regular, não apenas uma vez a cada seis meses. É importante que o dono da fazenda compreenda que o mundo ao seu redor está em constante movimento e ele precisa acompanhar essa evolução”.
Desenvolvimento profissional
Outro aspecto relevante levantado pelo especialista é a importância da capacitação para o desenvolvimento profissional dos funcionários na pecuária de leite. Surpreendentemente, muitos empregadores não investem em treinamentos, alegando falta de tempo, pois consideram que qualquer pausa no trabalho é uma perda de produtividade.
Quando ocorre alguma capacitação, muitas vezes é feito de maneira ineficaz, como simplesmente exibir slides e dar uma aula aos funcionários. No entanto, essa abordagem não é eficiente para promover o aprendizado adequado. Um método comprovadamente eficaz de capacitação, desenvolvido durante a Segunda Guerra Mundial, é o programa TWI (Training Within Industry), que consiste em treinamentos realizados no próprio local de trabalho, com a participação direta das pessoas. “Esse programa oferece métodos e técnicas para que os funcionários aprendam como realizar suas tarefas de forma adequada e correta. É essencial que os empregadores entendam a importância da capacitação e invistam no desenvolvimento de seus funcionários. Dessa forma, eles se tornarão profissionais mais eficientes, confiantes para o crescimento e sucesso da pecuária de leite”, vislumbra.
Gestão de equipes
As práticas de liderança e gestão de equipe também desempenham um papel fundamental na retenção de funcionários na pecuária de leite. O especialista Viechnieski defende o uso de um método de gestão baseado na propriedade de leite. “A gestão é essencial para atrair e manter bons profissionais. É importante ter uma equipe que esteja disposta a trabalhar em conjunto, cumprindo o que foi acordado, mas também buscando constantemente melhorar o que foi estabelecido. Essa motivação deve surgir internamente, movida pela vontade dos colaboradores em se superarem, não apenas por uma questão de ordens ou supervisão constante. Ao promover uma cultura de liderança que valoriza a autonomia e o engajamento dos funcionários, é possível criar um ambiente de trabalho mais positivo e estimulante. Isso contribui para a satisfação dos profissionais e, consequentemente, aumenta a probabilidade de que eles fiquem na equipe de pecuária de leite a longo prazo”, avalia o administrador de fazenda.
Na pecuária de leite, Viechnieski expõe que os recursos humanos não se baseiam em testes de personalidade. O que realmente funciona é algo muito mais simples: estar presente durante o processo de contratação. “É nesse momento que o dono da fazenda mostra como almeja o comportamento de um funcionário, como que o trabalho tem que ser realizado, como que aprende a identificar e a solucionar problema”, menciona, ampliando: “Ao entrevistar um candidato é comum que a pessoa diga o que você quer ouvir. A menos que alguém da área de recursos humanos já tenha ouvido falar de problemas comportamentais, como consumo excessivo de álcool, tabagismo ou envolvimento em brigas. Testes de personalidade não são eficazes na pecuária de leite. O importante mesmo é estar presente e observar o comportamento real do candidato durante a entrevista, obtendo assim informações valiosas para a tomada de decisão na contratação”, finaliza.
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Nova gestão da Girolando prioriza crise do leite e inovação no campo
À frente da entidade, Alexandre Lacerda defende combate às importações e ampliação do acesso ao melhoramento genético para pequenos e médios pecuaristas.

Uma das maiores entidades do setor leiteiro do país, a Associação Brasileira dos Criadores de Girolando passa a ser comandada pelo pecuarista e advogado Alexandre Lopes Lacerda. A posse da Diretoria e Conselhos eleitos para o triênio 2026/2028 ocorreu na quinta-feira (26), em Uberaba (MG), e contou com a presença de diversas lideranças do agro e criadores, dentre elas a prefeita de Uberaba Elisa Araújo, os deputados federais Emidinho Madeira e Rafael Simões e o secretário de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento Thales Fernandes.
Entre as prioridades do novo presidente estão: defesa dos direitos dos produtores de leite, incluindo ações para combater a atual crise do leite; facilitar o acesso de pequenos e médios produtores às tecnologias de melhoramento genético e a animais de alta qualidade. “Queremos fortalecer o programa de melhoramento da raça Girolando, o PMGG, desenvolvendo ferramentas para potencializar a utilização das informações genética pelos criadores, permitindo a customização de índices genéticos para cada fazenda e acompanhando a evolução a cada geração. Vamos nos empenhar nesses próximos três anos para que mais e mais produtores adotem essas inovações, visando produzir um Girolando moderno, eficiente e sustentável”, assegura Lacerda.
Durante a solenidade, as lideranças presentes reforçaram a necessidade de unir forças na defesa dos direitos dos produtores rurais. Segundo o deputado Rafael Simões, uma das ações em andamento é para inibir a importação de leite do Uruguai e da Argentina, que vem prejudicando o setor. O secretário de Minas Thales Fernandes disse que o governo mineiro também vem trabalhando para vencer a atual crise do leite e para levar mais tecnologia par ao campo. O deputado Emidinho Madeira destacou a parceria com a Girolando para levar mais genética de qualidade para as pequenas propriedades leiteiras. A prefeita de Uberaba Elisa Araújo assegurou que o agro é importante para a economia da cidade e que vários projetos voltados para a pecuária estão levando mais renda para o campo.
Em seu discurso de despedida, Domício Arruda, que comandou a Girolando na gestão 2023/2025, ressaltou as realizações feitas, dentre elas a construção da Casa do Girolando no Parque Fernando Costa, a aquisição de um terreno para construção de uma nova sede, os dois anos seguidos de recordes nos registros. Segundo ele, a raça chega a 2026 mais consolidada, com várias tecnologias de seleção dentro do PMGG e reconhecida pelo mercado internacional como a genética leiteira ideal para os trópicos.
Com mais de quatro mil associados em todo o país, a Associação de Girolando intensificará este ano ações promocionais para ampliar o consumo de leite na sociedade brasileira. Durante a Megaleite 2026, exposição nacional da raça marcada para junho, a entidade levará o tema “Aqui tem leite”, mostrando que nos mais diversos produtos, como medicamentos, alimentos, suplementos, o leite é utilizado como matéria-prima. “O leite é um produto fundamental no dia a dia das pessoas e precisamos reforçar com informações relevantes suas qualidades para o público em geral, até para combater tantas fake news que existem sobre o alimento”, diz Alexandre Lacerda, que é criador da raça Girolando há duas décadas, na Fazenda Miraí, localizada na região da Serra do Cipó, além de atuar na área de advocacia.
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Lei Complementar eleva custo tributário nas cadeias de leite, café, trigo e soja
Redução linear de 10% nos benefícios fiscais federais altera créditos presumidos, cria pontos de cumulatividade e deve pressionar preços ao consumidor, com impacto também sobre fertilizantes e insumos agropecuários.

A publicação da Lei Complementar 224/2025, que promoveu um corte linear de 10% nos benefícios fiscais federais incidentes sobre diferentes elos do agronegócio, deve elevar custos ao longo das cadeias de leite, café, trigo e soja. A expectativa é de repasse gradual ao consumidor final e de reabertura do debate sobre a cumulatividade de tributos que, até então, operavam sob lógica não cumulativa.

Foto: Gilson Abreu/AEN
Na avaliação da advogada tributarista Cintia Meyer, a nova sistemática tende a gerar efeito cascata. Ao reduzir créditos presumidos e alterar incentivos, a medida amplia o custo tributário em segmentos que já enfrentam compressão de margens, pressionados por custos elevados de produção e preços internacionais deprimidos de commodities.
O Demonstrativo de Gastos Tributários (DGT) que integra a Lei Orçamentária Anual lista cerca de 300 hipóteses de benefícios fiscais, além de outras 14 tratadas especificamente na Lei Complementar 224/2025. Segundo Meyer, empresas que utilizam qualquer desses mecanismos precisarão revisar suas estruturas tributárias. “Se a empresa conta com algum desses benefícios, o impacto pode ser direto no resultado”, afirma.
Como a norma foi sancionada em dezembro, seus efeitos já alcançam o IRPJ e o Imposto de Importação desde 1º de janeiro, em respeito ao princípio da anterioridade. Para PIS, Cofins, IPI, CPS e CSLL, as novas regras passam a valer a partir de 1º de abril, ampliando o alcance da medida ao longo do primeiro semestre.
Leite tem corte em créditos e nova tributação sobre derivados

Foto: Fernando Dias
Na cadeia do leite, a Lei Complementar 224/2025 reduz de forma direta os créditos presumidos concedidos à indústria. Para os laticínios em geral, o percentual cai de 1,85% para 1,67%. Já no caso das empresas enquadradas no Programa Mais Leite Saudável, o crédito passa de 4,63% para 4,17%. Embora se trate de um benefício condicionado à realização de investimentos, o texto legal não explicita se esse mecanismo poderia ser exceção ao corte linear, o que amplia a insegurança jurídica do setor.
Em documento de perguntas e respostas, a Receita Federal informou que a aplicação do benefício deverá ser analisada “caso a caso”, de acordo com a execução dos projetos aprovados no programa, abrindo margem para interpretações distintas e potenciais questionamentos administrativos ou judiciais.
No consumo doméstico, os produtos que integram a cesta básica seguem com alíquota zero. No entanto, itens relevantes do portfólio dos laticínios, como leite fluido, soro de leite, leite fermentado e bebidas lácteas, passam a ser tributados em 0,925% de PIS/Cofins, elevando o custo ao longo da cadeia e pressionando as margens da indústria. As exportações, por força da imunidade constitucional, permanecem isentas de tributação.
Exportações de café têm redução de crédito presumido

Foto: Divulgação/Governo da Bahia
Na cadeia do café, a indústria de torrefação mantém a aplicação de alíquota zero nas vendas internas, por se tratar de produto incluído na cesta básica. A mudança ocorre nas operações de exportação. Com a Lei Complementar 224/2025, houve redução dos créditos presumidos vinculados às vendas externas.
Para o café cru, o crédito presumido sobre a aquisição de insumos recua de 7,4% para 6,66%. Já no café torrado ou solúvel, o percentual calculado sobre a receita de exportação cai de 0,925% para 0,8325%. A diminuição reduz a margem das empresas exportadoras e altera a estrutura de custos em um segmento altamente dependente do mercado internacional.
Trigo concentra efeitos mais sensíveis da mudança
Na cadeia do trigo, os efeitos são distintos e considerados mais sensíveis. Segundo a tributarista, a principal mudança atinge a aquisição do grão destinado à produção de farinha. “A operação, que antes estava sujeita à alíquota zero, passa a ser tributada sem direito a crédito para o comprador. Na prática, trata-se de um tributo não recuperável, incorporado diretamente ao custo de aquisição”, explica Cintia.
Como a farinha é insumo básico para a fabricação de pães, o impacto tende a se propagar ao longo da cadeia, elevando o custo do produto final e pressionando o preço ao consumidor.

Foto: Cleverson Beje
Além da tributação na aquisição do grão, a Lei Complementar 224/2025 também reduziu o crédito presumido de 3,24% para 2,92% para o trigo. “As vendas no mercado interno permanecem inalteradas para os produtos incluídos na cesta básica, como farinha de trigo e pré-mistura para pão, que seguem com alíquota zero. Já os itens fora desse rol, como pré-misturas para bolos, mantêm a tributação anteriormente aplicada”, detalha Cintia.
Para o advogado tributarista Luiz Eduardo Costa Lucas, a alteração cria uma distorção no sistema. Segundo ele, trata-se de um caso em que um produto que operava com alíquota zero passa a gerar incidência tributária no meio da cadeia, sem possibilidade de creditamento. “Na prática, o imposto recolhido não é recuperável, incorpora-se ao custo e reabre a discussão sobre a não cumulatividade, tema debatido desde 2004. O resultado é a transferência do encargo ao consumidor final”, pontua.
Milho tem crédito presumido reduzido ao longo da cadeia

Foto: Fernando Dias/Ascom Seapi
Estrutura semelhante foi adotada na cadeia do milho. Embora os insumos não tenham sido diretamente afetados, o crédito presumido sobre aquisições de pessoas físicas foi reduzido de 3,24% para 2,92%. No óleo de milho, tanto as vendas no mercado interno quanto as exportações tiveram o crédito presumido diminuído, de 2,498% para 2,248, ampliando a pressão sobre as margens do setor.
Óleo de soja perde desoneração e crédito é reduzido
Na cadeia da soja, a aquisição de insumos permanece sem alterações. A mudança ocorre na etapa de comercialização. O óleo de soja, atualmente enquadrado na cesta básica e sujeito à alíquota zero de PIS/Cofins, mas fora do rol previsto na reforma tributária, passará a recolher 0,925% desses tributos.
Além disso, o crédito presumido sobre as vendas de farinha de soja, óleo e resíduos foi reduzido em 10%, caindo de 2,498% para 2,248%, o que comprime as margens ao longo da cadeia.
Fertilizantes passam a ter tributação na entrada e na saída

Foto: Claudio Neves
Impacto mais amplo é observado na indústria de fertilizantes. Insumos agropecuários que até então operavam com alíquota zero de PIS/Cofins passam a ser tributados em 0,925%. O mesmo percentual incidirá sobre as vendas no mercado interno de adubos, defensivos, sementes, mudas e corretivos, que também eram desonerados.
Segundo Cintia, o efeito é cumulativo. “O segmento passa a ser tributado na aquisição, sem direito a crédito, e também na saída. No caso da importação, a indústria de fertilizantes terá de recolher PIS e Cofins sem possibilidade de compensação”, afirma a tributarista.
Na prática, trata-se de um custo adicional incorporado à formação de preços, com potencial de repercussão direta sobre os produtores rurais e, ao final da cadeia, sobre o consumidor.
Insegurança jurídica amplia risco de cumulatividade e judicialização
Diante da ausência de uma lista expressa sobre quais benefícios foram efetivamente alcançados pela Lei Complementar 224/2025, Cintia recomenda uma análise criteriosa caso a caso. Segundo ela, é necessário verificar se o tributo envolvido está entre aqueles abrangidos pela norma, como PIS, PIS-Importação, Cofins, Cofins-Importação, Imposto de Importação (II), IPI, IRPJ, CSLL e CPP.
Além disso, o benefício precisa constar no Demonstrativo de Gastos Tributários da Lei Orçamentária Anual (LOA), enquadrar-se como incentivo fiscal e não se tratar de uma exceção legal específica.

Fonte: Martinelli Advogados
Segundo Cintia, os critérios mencionados não esgotam as possibilidades de enquadramento e a interpretação dependerá, em grande medida, do entendimento adotado pela Receita Federal, aspecto que não está detalhado na Lei Complementar 224/2025. “Há situações que, em tese, não se enquadram, mas a Receita pode interpretar de forma diferente, o que pode gerar discussões amplas e até judicialização”, menciona a advogada.
Por sua vez, Costa Lucas observa que, até o fim do ano passado, não havia preocupação prática em diferenciar, sob a ótica do governo, o que seria benefício fiscal e o que configuraria gasto tributário. Anualmente, a Receita encaminha a relação de gastos, mas a nova regra levanta a dúvida sobre se todos os itens listados podem ser automaticamente classificados como benefícios. “Nem tudo que está ali necessariamente é benefício”, pontua.

Foto: Divulgação/Governo da Bahia
Para ele, é essencial verificar se o item está previsto na Lei Orçamentária Anual (LOA) e, além disso, se efetivamente se caracteriza como incentivo fiscal. Como não há definição legal clara sobre esse enquadramento, forma-se uma zona de incerteza. Costa Lucas destaca que o debate sobre a natureza dessas rubricas estava adormecido e volta agora ao centro da discussão. Na avaliação dele, a redução linear pode atingir mecanismos básicos do sistema, reintroduzindo cumulatividade, especialmente em cadeias do agronegócio.
Na ponta, o impacto tende a alcançar o consumidor. Isso porque o varejo passará a adquirir produtos que sofreram tributação ao longo da cadeia sem possibilidade de crédito. Como o imposto é calculado ‘por dentro’, o custo se incorpora ao preço. Na prática, segundo a tributarista, um modelo concebido como não cumulativo passa a operar com efeitos cumulativos, pressionando o valor final pago pelo consumidor.
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Nelore, o boi que samba
Enredo histórico levou o Nelore ao Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional, colocando a raça no centro da narrativa cultural do país e destacando sua importância para o agronegócio brasileiro.

Há 20 anos, em 28 de fevereiro de 2006, o icônico locutor da apuração do desfile de carnaval de São Paulo, anunciava: a Império de Casa Verde era bicampeã da folia paulistana. A vitória veio com um enredo que se tornou histórico para o agronegócio brasileiro, ao colocar o Nelore no centro da narrativa cultural do país e levá-lo ao Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional.
A presença do Nelore naquela passarela não foi um gesto episódico nem ornamental. Foi a afirmação pública de uma trajetória construída no campo e, já naquela época, profundamente conectada ao desenvolvimento econômico e social do Brasil. Ao ocupar o carnaval, a raça mais representativa da pecuária nacional passou a dialogar diretamente com a sociedade, em um espaço onde o país se reconhece e se expressa culturalmente.

Artigo escrito por Victor Paulo Silva Miranda, presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil – Foto Foto: Divulgação/ACNB
Falar do Nelore é falar da base da pecuária de corte. A raça responde por aproximadamente 80% do rebanho nacional com essa aptidão, sustentando um modelo produtivo adaptado às condições tropicais, baseado majoritariamente em pastagens e responsável por garantir escala, eficiência e regularidade à produção de carne. Trata-se de um estrutural, que sustenta toda a cadeia, mas que muitas vezes foi silencioso. Há mais de 70 anos, a Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB) tem dado “voz” a esses animais, que passaram a “cantar” a partir dos versos da Império, compostos por Rafael, Junior Marques e Carlos Jr.
Ao ganhar visibilidade no carnaval, esse protagonismo deixou de ser restrito ao ambiente técnico e passou a integrar o imaginário coletivo. O Nelore foi apresentado como elo entre passado e presente, entre tradição e ciência, entre cultura e produção. A avenida funcionou como espaço de tradução, permitindo que a pecuária fosse compreendida para além dos números e indicadores. Afinal, “Com o boi Nelore/ A pecuária e a ciência evoluiu/ E hoje é um orgulho nacional/ É saboroso, é divinal, pode aplaudir”.
A imagem do “boi que come capim” sintetiza esse modelo. Longe de ser simplificação, ela expressa um sistema produtivo eficiente, tropical e competitivo, construído com base em seleção genética, adaptação ambiental e trabalho contínuo dos criadores. É esse modelo que permitiu ao Brasil se consolidar como potência na produção de carne bovina, com identidade própria e vantagens comparativas claras.
À época, a equipe da ACNB participou diretamente daquele processo e pôde acompanhar como a linguagem cultural ampliou o alcance dessa história. Em vez de explicações técnicas, o Nelore foi apresentado por meio de símbolos, ritmo e imagem. As gravações estão disponíveis na internet para quem quiser conferir. Nelas, a ciência e o melhoramento genético apareceram traduzidos em narrativa acessível, aproximando o campo da cidade e gerando reconhecimento sobre o papel da pecuária na vida nacional.
Duas décadas depois, em 2026, o significado daquela presença permanece atual. O Nelore segue sendo o alicerce da pecuária brasileira – hoje líder em produção e em exportação –, acompanhando avanços tecnológicos, ganhos de produtividade e novos desafios ligados à sustentabilidade e à comunicação. O que se consolidou foi a consciência de que produzir bem também exige capacidade de diálogo com a sociedade.
O Nelore no carnaval simbolizou essa maturidade. Um boi que sustenta a pecuária nacional, que responde pela maior parte do rebanho de corte brasileiro e que também ocupa o espaço da cultura. Naquela avenida, ficou claro que o Nelore não é apenas base produtiva. É identidade, história e parte viva do Brasil. E, quando preciso, também samba.



