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Professor da Flórida apresenta sobre uso eficiente de nutrientes na agricultura e busca parcerias no Brasil
Promovida pelo Departamento de Estado norte-americano em articulação com o Labex-EUA da Embrapa e a Embaixada dos EUA, a visita teve como objetivo discutir possibilidades de cooperação entre instituições de ensino e pesquisa brasileiras e a Universidade da Flórida nas áreas de adaptação às mudanças climáticas e de mitigação das emissões de gases de efeito estufa (GEE).

Professor de forragicultura e pastagens da Universidade da Flórida há 10 anos, o pernambucano José Carlos Dubeux é reconhecido internacionalmente como uma autoridade em eficiência no uso de nutrientes em sistemas agrícolas, com ênfase na mitigação e adaptação às mudanças climáticas, emissões de metano da pecuária e sistemas de Integração Lavoura-Pecuária. Acompanhado pelo conselheiro agrícola da Embaixada dos Estados Unidos (EUA) em Brasília, Michael Conlon, ele visitou a Embrapa Cerrados (DF) na última quarta-feira (20), quando apresentou a palestra “Colaboração entre Brasil e EUA em pesquisa agrícola: lições do passado e construindo o futuro à frente”. Dubeux divulgou a iniciativa Fertilize 4 Life, uma parceria entre a Embrapa e instituições de pesquisa agrícola norte-americanas, e compartilhou experiências de pesquisas desenvolvidas na Flórida.
Promovida pelo Departamento de Estado norte-americano em articulação com o Labex-EUA da Embrapa e a Embaixada dos EUA, a visita teve como objetivo discutir possibilidades de cooperação entre instituições de ensino e pesquisa brasileiras e a Universidade da Flórida nas áreas de adaptação às mudanças climáticas e de mitigação das emissões de gases de efeito estufa (GEE), com o desenvolvimento de projetos e práticas agrícolas sustentáveis que sejam viáveis tanto no Brasil como nos EUA.
Michael Conlon lembrou que a guerra na Ucrânia tem levado ao aumento nos preços internacionais dos fertilizantes, e tanto o Brasil como os EUA são grandes importadores desses insumos. Nesse contexto, segundo o conselheiro agrícola, a Fertilize 4 Life deverá ser uma iniciativa transformadora.
“A ideia é nos aproximarmos da Embrapa e trabalharmos junto com os pesquisadores do USDA (United States Department of Agriculture) e da Universidade da Flórida, realizando workshops sobre a eficiência do uso dos fertilizantes. Temos quatro projetos que serão desenvolvidos nos próximos quatro anos, com investimento de US$ 1,2 milhões do governo norte-americano. A prioridade número um de trabalho da Embaixada com os pesquisadores brasileiros são as mudanças climáticas e a segurança alimentar, e isso se encaixa muito bem a essa iniciativa”, afirmou.
Ao fazer um breve histórico da transformação agrícola brasileira nos últimos 30 anos e apresentar dados evidenciando a atual pujança do setor no País, José Carlos Dubeux lembrou que Brasil e EUA, juntos, alimentam um quarto da população mundial. Ele apontou como razões do sucesso agropecuário brasileiro a disponibilidade de recursos naturais, o esforço e o compromisso político em modernizar o setor, o espírito empreendedor dos agricultores, a pesquisa realizada pela Embrapa e outras instituições, além da colaboração científica com outros países, como EUA e Japão.
Ele apresentou a linha do tempo da colaboração entre brasileiros e norte-americanos no setor agrícola, iniciada em 1862 com o Land Grant Act, nos EUA, que determinava que cada Estado deveria ter uma universidade dedicada à pesquisa em agricultura e engenharia. “Isso alavancou o sistema norte-americano de educação e pesquisa em agricultura”, comentou Dubeux. Desde então, diversos acordos de cooperação foram celebrados com o Brasil, envolvendo a criação de universidades (como a Universidade Federal de Viçosa), investimentos em projetos de pesquisa, extensão rural e infraestrutura, além do intercâmbio e da formação de estudantes, docentes e pesquisadores, ações que contribuíram para o desenvolvimento agrícola brasileiro.
Segundo levantamento na Plataforma Lattes estão atualmente cadastrados 2274 cientistas brasileiros com alguma formação em ciências agrárias nos EUA desde a década de 1950, sendo 369 com atuação na Embrapa, entre ativos e aposentados.
Desafios globais
Alguns desafios para a agricultura mundial foram apontados pelo professor, como a população mundial projetada de 9,7 bilhões de habitantes em 2050. O maior crescimento populacional se dará em países menos desenvolvidos, notadamente na África, cuja população deve aumentar 93% entre 2010 e 2050.
As mudanças climáticas são outro grande desafio, com a constatação de níveis atmosféricos de GEE muito acima dos observados até 1950 e o aumento das temperaturas médias globais – dos últimos 10 anos, nove foram os mais quentes da história, de acordo com dados apresentados por Dubeux. Além disso, a demanda por alimentos será 60% maior em 2050, ao mesmo tempo em que a disponibilidade de água será 40% menor que os níveis atuais.
Para alimentar quase 10 bilhões de pessoas no futuro, segundo o professor, será necessário um incremento massivo de produtividade, com redução acentuada no uso da água, menor superfície de terra, fertilizantes muito mais eficientes, novas tecnologias agrícolas e variedades mais produtivas e nutritivas.
Ele lembrou que 86% dos fertilizantes utilizados no Brasil em 2022 foram importados, o correspondente a mais de 39,2 milhões ton, enquanto a produção nacional foi de pouco mais de 6,5 milhões ton, de acordo com dados do IBGE. No ano passado, foram importados 76% do nitrogênio, 55% do fósforo e 94% do potássio utilizados nos adubos, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária. “Boa parte dos fertilizantes importados vêm de regiões com instabilidade política, e os preços tendem a aumentar. É um desafio para a agricultura brasileira”, disse.
Para Dubeux, o caminho é aumentar os níveis de eficiência de uso dos nutrientes dos atuais 50% para pelo menos 70% até 2040. Para isso, será preciso avançar na tecnologia de fertilizantes, realizar investimentos em pesquisa, utilizar produtos biológicos e biofertilizantes para atender à demanda por nutrientes e lançar mão de alternativas como os sistemas integrados e o uso de espécies leguminosas.
Fertilize 4 Life
Diante desses desafios, a Embrapa, o Agricultural Research Service (ARS) e o Foreign Agricultural Service (FAS) do United States Department of Agriculture (USDA), o Institute of Food and Agricultural Sciences (IFAS) da Universidade da Flórida e o International Fertilizer Development Center (IFDC) se reuniram para construir a iniciativa Fertilize 4 Life, que tem como objetivo geral aumentar a eficiência dos sistemas agrícolas.
Lançada em abril deste ano, durante o aniversário de 50 anos da Embrapa, a iniciativa conta com quatro projetos, todos com a participação de pesquisadores brasileiros e norte-americanos, sendo dois deles liderados por pesquisadores da Embrapa Cerrados. Já estão garantidos US$ 1,2 milhões financiados pelo USDA/FAS, mas os responsáveis buscam aumentar o valor investido para até US$ 5 milhões.
O projeto 1, “Manejo de precisão, ‘Big Data’ e inteligência artificial”, visa integrar informações existentes nas propriedades do solo e metodologias de recomendações de nutrientes; desenvolver recomendações específicas de adubação com taxa variável, com base na remoção de nutrientes e propriedades do solo; além de avaliar se as ferramentas desenvolvidas atendem às necessidades do setor produtivo.
Já o projeto 2, “Produtos biológicos, biologia do solo e saúde do solo”, vai desenvolver metodologias para avaliar a saúde do solo nos EUA e no Brasil, bem como estratégias para aumentar a eficiência de uso de fertilizantes baseada em bioprodutos. O projeto é liderado pela pesquisadora Iêda Mendes.
Os objetivos do projeto 3, “Novos produtos, incluindo fertilizantes e bioestimulantes”, incluem a identificação das atuais limitações e o desenvolvimento de uma estrutura para novas formulações; o desenvolvimento de novas formulações organo-minerais e de protocolos de teste para novos produtos; melhorar a produtividade das culturas e reduzir o impacto ambiental de formulações organo-minerais; além da avaliação socioeconômica e ambiental dos novos produtos.
Por fim, o projeto 4. “Uso mais eficiente das fontes de nutrientes existentes”, do qual Dubeux participa, busca avaliar a reciclagem de nutrientes e a eficiência de uso de fertilizantes por culturas de cobertura e sistemas de Integração Lavoura-Pecuária (ILP) e Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF); novos acessos de leguminosas para uso como forrageiras ou plantas de cobertura; e a performance de pastagens mistas de gramíneas e leguminosas em monocultivo em sistemas ILP para aumentar a eficiência do uso de nutrientes. A liderança do projeto é do pesquisador Marcelo Ayres.
O professor acredita que o projeto 4, ao contemplar a introdução de leguminosas em sistemas de pastagens e o aumento da eficiência de uso dos nutrientes, pode contribuir para o desafio brasileiro de recuperar cerca de 40 milhões ha de pastagens degradadas.
Ele entende que o trabalho da Fertilize 4 Life será uma via de mão dupla, uma vez que os EUA têm a aprender com o Brasil, líder em agricultura tropical, e o País, por sua vez, poderá se beneficiar das tecnologias que estão sendo utilizadas na pesquisa agrícola norte-americana. “Brasil e EUA são duas superpotências não só na produção de alimentos, mas também na pesquisa agrícola. A ideia é que a gente se junte nessa parceria não apenas para reduzir a dependência da importação de fertilizantes e aumentar a eficiência de uso dos nutrientes, mas principalmente para ajudar outras regiões do mundo como a África, aplicando as lições aprendidas nesses projetos”, afirmou o professor.
O pesquisador Marcelo Ayres apontou diversas possibilidades de colaboração dos pesquisadores da Embrapa Cerrados na iniciativa. “Os projetos ainda estão em construção e têm muita relação com as linhas de trabalho de nossa Unidade. Vislumbramos grandes oportunidades”, observou.
Experiências nos EUA
Na segunda parte da apresentação, Dubeux falou sobre as pesquisas desenvolvidas por ele na estação experimental de Marianna, da Universidade da Flórida. Os primeiros trabalhos se deram na linha da intensificação sustentável de sistemas de produção pecuária, com foco nos serviços ecossistêmicos de pastagens, na integração de leguminosas forrageiras, nos sistemas de ILP e no desenvolvimento de um sistema de 365 dias de pastejo por ano – um desafio para o clima da região Norte da Flórida, que apresenta uma estação quente e outra fria, com temperaturas que podem chegar a -8°C.
Para avaliar os serviços ecossistêmicos proporcionados pela cobertura do solo fornecida pelas pastagens, ele se juntou a professores que atuam nas áreas de sensoriamento remoto, inteligência artificial e aprendizado de máquina para correlacionar a cobertura vegetal com os serviços ambientais, calibrar medidas no campo e desenvolver um sistema para mapear e avaliar serviços ambientais em áreas extensas.
Devido aos diversos benefícios do uso das leguminosas, como a fixação biológica do nitrogênio atmosférico, melhoria da ciclagem de nutrientes no solo e do desempenho animal, formação de matéria orgânica do solo e habitat para insetos polinizadores, o trabalho de Dubeux buscou integrar essas espécies em pastagens.
Ele conduziu um experimento que comparou três sistemas sob pastejo por bovinos – gramínea (Bahiagrass) com adubação nitrogenada nas estações quente e fria; gramínea sem adubação na estação quente e gramíneas (aveia e centeio) e trevos com adubação reduzida na estação fria; e gramínea com a leguminosa Arachis glabrata sem adubação na estação quente e gramíneas e trevos com adubação reduzida na estação fria.
Não houve diferença significativa no desempenho animal durante a estação fria, mas o sistema com leguminosas apresentou maiores ganhos na estação quente, indicando a possibilidade de redução da quantidade de adubo nitrogenado quando se utiliza essas espécies forrageiras. “Esta é a ideia da intensificação sustentável: produzir mais com menos recursos”, observou, acrescentando que no sistema com a leguminosa também foram observadas menores emissões de metano entérico por kg de ganho de peso dos animais e menores concentrações de nitrato no solo. Além disso, foram identificadas 18 espécies de abelhas, a maioria nativas da região, e o sistema com leguminosa foi o que contou com o maior número de indivíduos.
As fezes dos animais do experimento foram marcadas com o isótopo 13C para verificar os percentuais de alimento originados da leguminosa e das gramíneas. O estudo constatou a elevada seletividade dos bovinos pela leguminosa, o que justificaria o ganho superior em peso no sistema com a espécie forrageira. Também foi verificada a quantidade de adubo nitrogenado ciclada em excretas (fezes e urina) e na serapilheira, apontando eficiência bem superior das pastagens mistas de gramíneas e leguminosas (80% de nitrogênio retornado) em relação às pastagens adubadas (apenas 40% do nitrogênio retornado).
Dubeux e equipe desenvolveram o sistema de 365 dias de pastejo, utilizando o pastejo diferido (reserva de massa seca no pasto) de limpograss (Hemarthria altissima) por 60 dias (agosto a outubro) e uma área com forrageiras de clima frio e clima quente, com suplementação. O pastejo é feito de outubro a janeiro. Segundo o professor, o sistema utiliza pouca quantidade de insumo, entre fertilizantes, máquinas, sementes.
Na área de sistemas de ILP, os estudos surgiram como uma oportunidade, pois tanto na Flórida como na Geórgia e no Alabama houve a especialização em cultivos agrícolas como algodão, amendoim e milho na estação quente, totalizando cerca de 1,6 milhões ha, mas somente em 5% dessa área são cultivadas plantas de cobertura na estação fria (outubro a abril), o que leva a problemas de erosão e lixiviação de nutrientes. “Daí a possibilidade de integrar essas áreas com a pecuária. De outubro a abril é a época em que se pode produzir forragem de melhor qualidade e ter ganhos de 1kg/dia a pasto”, disse.
As pesquisas buscaram responder a perguntas relacionadas à resistência dos produtores da Flórida em adotar sistemas de integração: é possível pastejar culturas de cobertura sem afetar negativamente a produtividade da cultura agrícola? O pastejo compacta o solo? a intensidade de pastejo na cultura de cobertura afeta a cultura agrícola? qual a importância dos resíduos acima e abaixo na terminação da cultura de cobertura? a cultura de cobertura e o manejo do pastejo afetam a lixiviação de nitratos?
Segundo Dubeux, não houve alteração na produtividade do algodão em rotação com plantas de cobertura pastejadas; no caso do amendoim, a produtividade até aumentou. “São dados importantes porque mudam a percepção da ILP na região”, comentou. Além disso, o cultivo de plantas de cobertura no sistema reduziu a compactação do solo em relação aos monocultivos de algodão e amendoim, e o pastejo não afetou a compactação.
Ao comparar diferentes intensidades de pastejo (leve, moderado e superpastejo), o professor mostrou que o pastejo leve resultou em maior produção de biomassa e de massa de raízes da cultura de cobertura. E após quatro anos de plantio, as plantas de cobertura e o manejo do pastejo diminuíram a lixiviação de nitratos, um sério problema na região. Outra constatação do estudo foi que o resíduo das culturas de cobertura abaixo do solo (raízes) foi mais importante que o resíduo acima do solo, pois promoveu o desaparecimento de maior quantidade de nitrogênio.
A pesquisa tem utilizado ureia marcada com isótopo 15N nas culturas de cobertura para compreender por que o pastejo dos animais diminui a lixiviação de nitrato. As excretas dos animais marcadas com 15N são coletadas, verificando-se o nitrogênio recuperado, e aplicadas no solo para avaliar a dinâmica do nitrogênio nas forragens, no solo e nos gases (amônia e óxido nitroso).
Dubeux também falou sobre um trabalho com decomposição de raízes e emissão de GEE, no qual estuda a dinâmica das raízes nas estações fria e quente e os gases das excretas dos animais e do solo. A equipe utiliza câmaras no campo e marca a serapilheira com 13C para avaliar a dinâmica da formação da matéria orgânica do solo (MOS) e como a cultura de cobertura contribui para esse processo e no suprimento de nutrientes para as culturas do algodão e do amendoim.
Além das pesquisas, o professor também atua em projetos de extensão, como o chamado Southeast Grazing Exchange, no qual pecuaristas e produtores com terras agrícolas disponíveis se cadastram para fazer parcerias em sistemas de ILP.
Ao final da apresentação, Dubeux sintetizou que a intensificação sustentável dos sistemas de produção animal frente às mudanças climáticas é essencial para se produzir mais alimentos com menos recursos. O uso de leguminosas, culturas de cobertura de sistemas de integração, como mostrados pelo professor, são exemplos de como é possível aumentar a eficiência dos sistemas de produção. Além disso, os ecossistemas de pastagens funcionais podem fornecer diversos serviços ambientais. “Num futuro próximo, o mercado vai reconhecer e valorizar alimentos produzidos de forma sustentável”, finalizou.

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Brasil amplia acordos de cooperação com a Coreia do Sul
Intercâmbio técnico, cooperação em sanidade e pesquisa de bioinsumos, buscando tecnologia e sustentabilidade para o campo brasileiro busca ampliar competitividade e fortalecer a produção sustentável.

O Ministério da Agricultura e Pecuária assinou, nesta segunda-feira (23), em Seul, dois memorandos de entendimento com o governo da Coreia do Sul voltados ao fortalecimento da cooperação bilateral em agricultura, sanidade, inovação e desenvolvimento rural. Os atos foram celebrados na Casa Azul durante a visita oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao país asiático. “A Coreia do Sul é um parceiro estratégico e esta agenda inaugura uma nova etapa de cooperação baseada em confiança, diálogo e complementaridade econômica. Estamos aproximando tecnologia, sustentabilidade e produção responsável para ampliar oportunidades ao agro brasileiro e fortalecer a segurança alimentar”, afirmou o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro.

Ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro: “Estamos aproximando tecnologia, sustentabilidade e produção responsável para ampliar oportunidades ao agro brasileiro e fortalecer a segurança alimentar” – Foto: Caroline de Vita/Mapa
O primeiro acordo, firmado entre os ministérios da Agricultura dos dois países, estabelece a ampliação do intercâmbio técnico e institucional com foco em ciência, tecnologia, agricultura digital, segurança alimentar e cadeias de abastecimento. O memorando inclui a cooperação em medidas sanitárias e fitossanitárias (SPS), com previsão de harmonização de normas e troca de informações para avançar em temas de interesse comum.
O documento também prevê cooperação em infraestrutura agrícola, promoção de investimentos, intercâmbio científico e criação de um Comitê de Cooperação Agrícola Brasil-Coreia para acompanhar a implementação das iniciativas conjuntas.
O segundo memorando reúne o Ministério da Agricultura e Pecuária, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a Administração de Desenvolvimento Rural da Coreia. O acordo estabelece uma estrutura de cooperação voltada ao registro, avaliação e gestão de agrotóxicos e bioinsumos, além do intercâmbio de informações e desenvolvimento de pesquisas conjuntas.

Foto: Caroline de Vita/Mapa
Entre as ações previstas estão o compartilhamento de dados técnicos, intercâmbio de especialistas, programas de capacitação e realização de workshops e projetos científicos conjuntos.
Os acordos integram a agenda da missão oficial brasileira na Ásia e reforçam a parceria estratégica entre Brasil e Coreia do Sul, com potencial para ampliar o intercâmbio tecnológico, estimular a inovação no campo e fortalecer a cooperação sanitária e regulatória no setor agropecuário.
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Países em desenvolvimento buscam protagonismo na redefinição da ordem econômica mundial
Integração entre economias emergentes mira maior autonomia financeira, tecnológica e comercial.

A defesa de maior articulação entre países em desenvolvimento marcou o encerramento da agenda presidencial na Ásia. Na madrugada deste domingo (22), antes de deixar a Índia rumo à Coreia do Sul, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a sustentar que o chamado Sul Global precisa atuar de forma coordenada para alterar a atual estrutura do comércio e das decisões econômicas internacionais.

Presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva: “Países pequenos precisam negociar juntos para equilibrar forças” – Foto: Ricardo Stuckert/PR
O argumento central é que economias emergentes enfrentam assimetrias estruturais nas negociações com grandes potências. Segundo ele, acordos bilaterais diretos tendem a reproduzir desequilíbrios históricos, reduzindo a margem de barganha de países menos desenvolvidos. “Países pequenos precisam negociar juntos para equilibrar forças”, afirmou, ao citar Índia, Brasil e Austrália como exemplos de nações que podem ampliar seu poder de influência quando atuam em bloco.
O presidente associou essa defesa a um diagnóstico histórico. Na avaliação dele, a inserção internacional de diversas economias emergentes ainda carrega traços de dependência tecnológica e financeira herdados do período colonial. A crítica não se limita ao passado político, mas alcança a estrutura contemporânea de cadeias globais de valor, nas quais países exportadores de commodities permanecem, em muitos casos, na base da pirâmide produtiva.
A proposta apresentada envolve intensificar parcerias entre países com níveis de desenvolvimento semelhantes, com foco em cooperação tecnológica, agregação de valor e ampliação do comércio intra-bloco. O objetivo estratégico é reduzir vulnerabilidades externas e aumentar a autonomia decisória.
Nesse contexto, o BRICS aparece como instrumento central dessa reconfiguração. O presidente afirmou que o grupo deixou de ser

Brics – Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
periférico para assumir papel mais estruturado na governança internacional. Destacou a criação do Novo Banco de Desenvolvimento como exemplo de mecanismo financeiro alternativo às instituições tradicionais dominadas por economias avançadas.
Ele também buscou afastar a narrativa de confronto direto com o Ocidente. Ao mencionar a preocupação dos Estados Unidos, sobretudo em relação à China, afirmou que o objetivo não é reeditar divisões geopolíticas típicas da Guerra Fria, mas fortalecer a capacidade de articulação dos emergentes dentro da própria arquitetura global, inclusive com eventual ampliação da interlocução com o G20.
Outro ponto sensível abordado foi a discussão sobre moeda comum. O presidente voltou a negar a intenção de criar uma divisa própria do bloco. A proposta, segundo ele, limita-se a ampliar o uso de moedas nacionais nas transações comerciais entre os países-membros, como forma de reduzir custos cambiais e dependência do dólar. Trata-se de uma agenda pragmática, voltada à eficiência comercial, ainda que com implicações estratégicas no sistema financeiro internacional.
A fala reforça uma linha de política externa que combina multilateralismo, diversificação de parceiros e busca por maior protagonismo das economias emergentes. A agenda na Índia e na Coreia do Sul integra essa estratégia de aproximação com a Ásia, região vista como eixo dinâmico da economia global nas próximas décadas.
ONU
Ao defender o fortalecimento da Organização das Nações Unidas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reiterou a necessidade de resgatar o papel institucional do organismo em um cenário internacional marcado por conflitos e tensões geopolíticas. Segundo ele, a entidade precisa “voltar a ter legitimidade e eficácia” para cumprir sua missão central de manutenção da paz.
O presidente relatou ter feito contatos diretos com outros chefes de Estado diante de crises recentes. “Esses dias eu liguei para quase todos os presidentes, propondo que a gente tem que dar uma resposta ao que aconteceu na Venezuela, ao que aconteceu em Gaza, ao que aconteceu na Ucrânia”, afirmou.
Para Lula, não se pode permitir que decisões unilaterais de grandes potências interfiram na soberania de outros países. “Você não pode

Foto: Divulgação
permitir que, de forma unilateral, nenhum país, por maior que seja, possa interferir na vida de outros países. Precisamos da ONU para resolver esse tipo de problema. E, por isso, ela precisa ter representatividade”, reiterou.
Relação com os Estados Unidos
Ao tratar da relação bilateral com os Estados Unidos, Lula condicionou o aprofundamento de parcerias à disposição americana de enfrentar o crime organizado transnacional. “O crime organizado hoje é uma empresa multinacional. Por isso, nossa Polícia Federal precisa construir parcerias com todos os países que tenham interesse em enfrentá-lo conosco”, disse. Ele acrescentou que, havendo cooperação efetiva, o Brasil estará “na linha de frente”, inclusive solicitando o envio de brasileiros envolvidos com organizações criminosas que estejam em território americano.
O presidente também defendeu que a atuação americana na América do Sul e no Caribe seja pautada pelo respeito. Classificou a região como pacífica, sem armamento nuclear e focada no desenvolvimento econômico e social. Segundo Lula, esse será um dos temas a serem tratados em encontro previsto com o presidente Donald Trump. “Quero discutir qual é o papel dos EUA na América do Sul, se é de ajuda ou ameaça. O que o mundo precisa é de tranquilidade”, afirmou, acrescentando que o atual momento registra o maior número de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial.

Foto: Ricardo Stuckert/PR
Sobre a recente decisão da Suprema Corte dos EUA que derrubou tarifas impostas pelo governo americano, Lula evitou juízo de valor. Disse que não cabe ao presidente do Brasil comentar decisões internas de outras jurisdições.
Índia, comércio e agregação de valor
Na agenda asiática, Lula destacou os encontros com o primeiro-ministro Narendra Modi, em Nova Delhi. Segundo ele, o foco foi a ampliação do comércio e da cooperação econômica. “Tratamos muito da nossa relação comercial. Não entramos em detalhes sobre geopolítica internacional. Discutimos o que nos une, em especial fortalecer nossas economias para nos tornarmos países altamente desenvolvidos”, afirmou.
O intercâmbio bilateral, atualmente em US$ 15,5 bilhões, tem meta de alcançar US$ 30 bilhões até 2030. Lula classificou as conversas com empresários indianos como positivas. “Todos os empresários indianos que investem no Brasil elogiam o país e dizem que vão aumentar seus investimentos”, reteirou.
O presidente voltou a defender que a exploração de minerais críticos e terras raras no Brasil esteja condicionada à agregação de valor no território nacional. “O processo de transformação precisa acontecer no Brasil. O que não vamos permitir é que aconteça com nossas terras raras o que aconteceu com nosso minério de ferro”, afirmou, criticando o modelo histórico de exportação de commodities sem industrialização local.
Após a passagem pela Índia, Lula seguiu para Seul, onde foi recebido a convite do presidente Lee Jae Myung. A visita prevê a adoção de um Plano de Ação Trienal 2026-2029, com o objetivo de elevar a relação bilateral ao patamar de parceria estratégica, consolidando a ofensiva diplomática brasileira na Ásia.
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Trump eleva tarifa global para 15% e testa novos limites legais após revés na Suprema Corte
Presidente norte-americano amplia sobretaxa temporária sobre todas as importações e anuncia nova estratégia jurídica para sustentar política comercial.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou no última sábado (21) a elevação de 10% para 15% da tarifa temporária aplicada sobre todas as importações que entram no país. A medida ocorre poucos dias após a Suprema Corte dos EUA derrubar o programa tarifário anterior, baseado em poderes de emergência econômica.

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump reage à decisão da Suprema Corte e sinaliza aumento imediato da tarifa global sobre importações, reforçando a centralidade das barreiras comerciais em sua estratégia econômica – Foto: Divulgação
Na sexta-feira (20), em reação direta ao julgamento, Trump já havia determinado a aplicação imediata de uma tarifa global de 10% sobre todos os produtos importados, adicional às tarifas já existentes. Agora, decidiu ampliar o percentual ao limite máximo permitido pela legislação invocada.
Pela lei comercial americana, o presidente pode instituir uma taxa de até 15% por um período de 150 dias, mecanismo previsto para situações consideradas excepcionais. A utilização desse dispositivo, contudo, pode enfrentar questionamentos judiciais, especialmente após a Corte ter delimitado o alcance dos poderes presidenciais em matéria tarifária.
Em publicação na rede Truth Social, Trump afirmou que a elevação da tarifa ocorre com efeito imediato e justificou a decisão como resposta a décadas de práticas comerciais que, segundo ele, prejudicaram a economia americana. Disse ainda que o percentual de 15% representa o nível totalmente permitido e legalmente testado.
O presidente também sinalizou que a medida é transitória. Durante os 150 dias de vigência, o governo trabalhará na formulação de novas tarifas consideradas legalmente admissíveis, indicando que a estratégia comercial será reestruturada para se apoiar em fundamentos jurídicos distintos daqueles rejeitados pela Suprema Corte.
A decisão reforça que, apesar do revés judicial, a política tarifária permanece no centro da agenda econômica do governo. Ao mesmo tempo, amplia a tensão institucional em torno dos limites entre Executivo e Congresso na condução da política comercial dos Estados Unidos.



