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Produtor de ovos deve se orientar pelo consumidor, não por ONGs, alerta Santin

Bem-estar animal é importante fator na produção de ovos, e que vem sendo muito discutido. Entidades defendem que a forma de produção deve ser feita para atender ao que o consumidor está exigindo

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Arquivo/OP Rural

A produção de ovos no Brasil vem aumentando anualmente. Segundo dados divulgados em março pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), através da pesquisa de Estatística da Produção Pecuária, em 2018 o país produziu 3,6 bilhões de dúzias de ovos de galinha, um aumento de 8,6% em relação a 2017. Para produzir tanto ovo são necessários dois itens importantes: demanda vindo do consumidor e trabalho duro do avicultor. Estes dois itens andam de mão dadas para atender a toda a cadeia produtiva.

Um ponto importante que vem sendo muito cobrado sobre mais informações do consumidor é quanto ao bem-estar animal, como estes ovos são produzidos. Dessa forma, para atender a todos os mercados, diferentes formas de produção vêm acontecendo: tradicional, cage-free, free-range, entre outras. “Nós respeitamos todas as formas de produção. São opções do consumidor, as alternativas e formas como ele quer que seu alimento seja produzido. Nós, como setor, apoiamos todas as formas. Porém, não existe uma que seja melhor que a outra”, opina o diretor executivo da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) e presidente do Conselho Diretivo do Instituto Ovos Brasil, Ricardo Santin.

Segundo o diretor, algo que o setor de produção de proteína animal vem enfrentando bastante, principalmente nos últimos anos, é quanto a grande exigência de bem-estar animal na produção da proteína, inclusive de ovos. “Existe uma opinião que às vezes vem do consumidor, às vezes de ONGs, no sentido de novas formas de produção que alguns entendem que são melhores formas de bem-estar. Porém, é importante entender que o bem-estar não se compõe somente de uma galinha estar ou não em determinada forma de criação, ou seja, ser livre ou não de gaiolas”, afirma.

Ele explica que é necessário que todos entendam que o bem-estar animal envolve diversos elementos, e não somente um único ponto. “BEA envolve também não faltar comida, estar em um ambiente com uma temperatura térmica adequada, ter cuidados sanitários, não deixar o animal ficar doente, e se ficar que não sofra. Tem uma série de itens e eles devem ser atendidos todos da mesma forma”, comenta.

Em relação à produção dos ovos, de acordo com Santin, isso varia bastante quanto ao mercado que está sendo atendido, ou seja, ao que o consumidor está buscando no momento da compra da proteína. “Há nichos de mercado em que os consumidores dizem querer ovo somente de galinhas de penas vermelhas, ou seja, o ovo vermelho. É sabido que o ovo vermelho e o branco têm absolutamente as mesmas características organolépticas e nutricionais, mas tem a cor diferente. Um é mais caro que o outro. Mas tem a ver com o que o consumidor quer”, comenta. Ele explica que o que a ABPA e o Instituto Ovos Brasil desejam mostrar é que as entidades respeitam todos os sistemas de produção. Porém, esta produção não pode ser determinada por um pequeno grupo de pessoas. “É o consumidor quem manda. Ele, quando compra e paga, muitas vezes mais pelo produto, é quem decide como vai ser. Então, se o consumidor não quer exercer esse pagamento a mais por conta deste tipo de produção, não é um pequeno grupo que vai determinar como o avicultor vai produzir ou como o consumidor vai consumir”, afirma.

Para Santin, este é o ponto principal que deve ser discutido na cadeia. “É importante frisar que não somos contra o bem-estar animal, bem o contrário disso. Não somos contra os protocolos de bem-estar. Nós buscamos atender ao máximo ao que é exigido. Mas é necessário ter atenção de que primeiro temos que pensar na eficiência disso, além da necessidade que temos em alimentar o Brasil e o mundo”, defende.

Consumidor decide

Ele justifica que atualmente o avicultor está produzindo uma proteína que é acessível a toda a população, essencial para o bom desenvolvimento das crianças e que ajuda na velhice. “E vem um pequeno grupo que exige que a proteína seja produzida de uma determina forma ou outra, fazendo assim com que o produto fique mais caro e as pessoas, principalmente de baixa renda, não consigam mais consumir”, afirma. Segundo ele, é este tipo de exigência que as entidades não irão permitir que sejam impostas sobre o produtor. Santin destaca que atender a determinadas exigências faz com que o custo de produção do avicultor aumente, e assim, consequentemente, também o custo que é repassado ao consumidor.

O diretor reitera que o avicultor está atendendo as normas mínimas de bem-estar animal. “Eu não estou falando que fazer cage-free ou free-range não é bem-estar. Mas temos que ver certos pontos que são importantes”, destaca. Entre os detalhes citados por ele estão, por exemplo, na utilização do free-range o produtor abrir mão da sanidade, uma que vez que ele perde o controle de contato com aves silvestres, doenças ou mesmo com algo que o frango pode vir a comer.

De acordo com Santin, o setor de produção da proteína deve entender que é necessário produzir aquilo que o consumidor quer comprar. “Nessa forma de produção, se vou fazer em gaiolas, cage-free, free-range ou orgânico, o importante é fazer da forma que o cliente irá comprar e da forma que ele está disposto a pagar. O setor como um todo vai produzir o que o consumidor quer, e não o que alguns poucos vão dizer como deve ser feito”, afirma.

O ovo no Brasil

Além do aumento de 8,6% na produção de ovos, o Brasil vem também aumentando anualmente o seu consumo per capita da proteína. “O crescimento do consumo nos últimos 10 anos foi bastante significativo. Há uma década o consumo era de aproximadamente 120 ovos per capita. Hoje esse número aumentou para 212 ovos per capita. Isso, principalmente, porque caiu o mito de que o ovo produz colesterol, de que é uma proteína que faz mal”, comenta. Santin afirma que existe algo chamado qualificação de consumo, e atualmente o consumo de ovo pelo brasileiro é bastante qualificado, já que as pessoas comem ovo porque sabem que faz bem.

O diretor informa que o objetivo é fazer com que o país melhore a exportação de ovo, seja in natura ou processado. “Porque hoje ele é menor que 1%”, diz. Este é um quesito que vem sendo muito trabalhado para acontecer, conta Santin. “O país tem esse potencial. O Brasil, quando se trata de produzir alimentos, sempre tem um potencial bastante impressionante, relevante e positivo. Na exportação de ovo, que ainda não é tão relevante, o país tem potencial de crescer. Vamos investir, buscando que isso aconteça”, finaliza.

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Fonte: O Presente Rural
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Avicultura Mercado

Avicultura de postura está pronta para avançar ao mercado externo

Para diretor-executivo da Asgav, setor produz bem e com qualidade, e agora é preciso pensar em começar a atender o mercado externo, e não somente interno

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Arquivo/OP Rural

A avicultura de postura, assim como os demais setores do agronegócio, também foi afetado pela pandemia causada pelo Covid-19. O medo de desabastecimento fez com que a população buscasse, no início, a proteína de uma maneira desenfreada. Agora, o cenário muda um pouco e o setor de ovos vem se adaptando a nova realidade, conquistando cada vez mais o seu espaço no prato e gosto do consumidor brasileiro.

 Segundo o diretor-executivo da Associação Gaúcha de Avicultura (Asgav) e coordenador do Programa Ovos RS, Eduardo Santos, logo no início da pandemia, quando saíram os primeiros decretos de calamidade pública, houve pânico por parte da população que buscou muito pelo ovo. “Este é um alimento eleito pela população como o mais adequado para suprir as necessidades de refeições, porque o ovo é versátil, permitindo que diversas receitas sejam feitas a partir dele, como massas, omelete, bolo, salada, entre outros”, diz.

Santos explica que por possuir estas propriedades nutricionais e funcionais, acabou sendo escolhido como alimento curinga para estocagem. “Eu mesmo fui visitar mercado para ver in loco o que estava acontecendo. O que eu vi foram prateleiras que antes estavam sempre cheias, vazias”, lembra. Porém, ele ressalta que esta foi uma realidade vista e sentida somente no início da pandemia, em meados de março. “Houve um encontro de situações alarmantes e calamitosas que culminaram nessa busca desenfreada e no aumento excessivo dos preços do ovo”, comenta.

Além da pandemia, houve ainda a estiagem no Rio Grande no Sul, que o fez com que houvesse o aumento dos preços doa grãos. “Tudo isso fez com que os preços dos ovos subissem a patamares nunca vistos antes. Porém, nesse período já fizemos estudos de avaliação da situação, o que nos permitiu ver que por conta disso houve quebra na rotina de logística do setor de produção de ovos, que fez com que os preços também subissem”, informa. Santos explica que a logística da avicultura de postura é diferente da de corte, onde o produto pode ser estocado em câmaras frias ou caminhões frigoríficos. “A logística de ovos segue mais de um plano de entrega de acordo com a produção nas granjas, e como houve estas buscas desenfreadas, acabou quebrando essa rotina e o setor não conseguiu em tempo recorde reabastecer os supermercados”, explica. Por conta disso, diz, houve o efeito da oferta e procura, o que fez com que saltasse os preços da proteína

Santos informa que pelo setor estar analisando o mercado foi possível ver que essa realidade não duraria por muito tempo. “Previmos que em um período mais para frente, de três a quatro semanas, essa situação de reposição, a rotina de logística e tudo o mais voltaria ao normal, assim como o preço dos ovos”, declara. Ele lembra que no início de abril os preços dos ovos começaram a recuar e a ficar em patamares mais realistas. “Mesmo assim tivemos o cuidado em informar a população e os órgãos de fiscalização do consumidor para evitar outro tipo de interpretação por parte das pessoas, de que estaríamos nos aproveitando da crise para especular. Mas não foi o que aconteceu, tanto que divulgamos na época, através de uma nota, que em três semanas os preços voltariam a patamares conhecidos e foi o que aconteceu”, diz.

De olho no mercado externo

A liderança comenta que o consumo de ovos no Brasil vem se aquecendo cada vez mais. Ele cita que no Rio Grande do Sul, por exemplo, o consumo de ovo está em 257 unidades/per capita/ano, número inclusive acima da média brasileira, que chega a 230 unidades/per capita/ano. “Todos esses fatores vem impulsionando e sustentando o mercado de ovos”, afirma.

Porém, um alerta dado por Santo foi que o consumo não vai acompanhar a necessidade de aumento de produção. “Vai chegar um momento em que precisamos ampliar a nossa participação no mercado externo. Temos empreendimentos surgindo no setor, indústrias estabelecidas e ampliando a plataforma de produção de ovos líquidos, em pó, processados, trazendo novos produtos, aromatizados, com sabor, novas embalagens. Isso está trazendo também novos investidores para o setor. Mas o consumo interno não vai acompanhar isso”, menciona.

Ele diz que é importante lembrar que o Brasil possui outras proteínas também, não somente o ovo. “Temos que ser bem justos e coerentes e nós precisamos sim unirmos esforços, nos conectarmos com outras entidades, como a ABPA, e estaduais, que estão nas ações de promoção e incentivo para consumo de ovos, e fazer uma frente e começar a trilhar esse caminho para o mercado externo. Essa será a nossa saída para o futuro, senão, vamos estagnar, porque o nosso consumo interno vai atingir um patamar máximo e não vai passar daquilo”, diz.

Para Santos, o que deu para o setor uma certa estabilidade, mas que não deixa de lado o estado de alerta, é que o ovo continua sendo uma das proteínas mais acessíveis em matéria de preço e tem uma produção abundante. “Nosso setor, por ser uma atividade essencial em produção de alimentos, por mais que fechem estabelecimentos comerciais, continua produzindo e as pessoas precisam se alimentar”, comenta. Ele afirma que é preciso somente observar como vai ficar a situação econômica das pessoas. “Vamos ultrapassar a casa dos 12 milhões de desempregados, vamos ter o fim do voucher corona, que deu uma estabilidade. Mas vamos encontrar ali na frente, se não houver uma retomada imediata, dificuldades econômicas das pessoas e de grandes consumidores, como os supermercados, confeitarias, entre outros”, conta.

A liderança comenta que o setor tem uma certa estabilidade e que vai continuar produzindo. “Vamos continuar rodando produto, mas não sabemos como vai ser o efeito econômico que virá pela frente. Com isso, temos que estar atentos, em alerta, para buscar uma maior participação no mercado externo para o setor não sofrer nem um tipo de entrave ou retrocesso econômico nos próximos meses”, avisa.

Programa de certificação

Para alcançar o mercado externo como desejado, uma ação que vem sendo desenvolvida é o Programa de Certificação de Ovos. Segundo Santos, a ideia é lançar no ano que vem este programa inédito no Brasil, desenvolvido em modalidade de parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). “A ideia é certificar todas as modalidades de produção, como ovos orgânicos, free range, caipiras, convencional e ovos de codorna”, explica.

Ele conta que foi um longo trabalhado desenvolvido, bastante consistente com muita pesquisa, avaliação de legislações, tanto nacional quanto internacional, além de ter a participação de empresas parcerias do setor que detém tecnologia de informação e da Embrapa. “Devemos assim no final do ano validar essa certificação e começar a operar com ela no próximo ano”, diz.

Santos comenta ainda que esta é uma certificação aberta para interessados de todo o país. “O certificador será o Senai e vai ser aberta para todos. Já tem pessoal interessado de diversos Estados. A ideia é compartilhar, se lapidar e chegar ao ponto de sermos credenciados para cada vez mais chamar a atenção do mercado externo para o nosso produto”, finaliza.

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Fonte: O Presente Rural
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Avicultura Avicultura

Verminoses em galinha caipira causam sérios prejuízos ao produtor

As aves domésticas são igualmente sujeitas a numerosas infestações de endoparasitoses

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 Artigo escrito por Guilherme Augusto Vieira, médico veterinário e sócio da Farmácia na Fazenda

Você sabia que as galinhas caipiras têm vermes e precisam ser vermifugadas? As verminoses ou endoparasitoses são patologias causadas por vermes em todos os animais domésticos, sendo evidenciadas com grande visualização de sinais e sintomas nos animais de produção como os bovinos, nos equinos, ovinos, caprinos e principalmente nos cães. As aves domésticas são igualmente sujeitas a numerosas infestações de endoparasitoses.

Entretanto, o controle de vermes em criações industriais (granjas industriais) de frangos de corte é negligenciado e alguns criadores entendem que o período de produção curto (35 a 40 dias) não é necessário a utilização de vermífugos. Já a produção de poedeiras, por possuir um período produtivo mais longo nota-se uma infestação maior e o controle é realizado de forma sistemática.

E o controle de verminoses em galinhas caipiras? Aí é que está o grande problema. Pelo fato destes animais serem rústicos, criados soltos e a falta de informações, os criadores “acham” que as galinhas não precisam ser vermifugadas. Contudo, é comum as galinhas caipiras criadas soltas (ou semi-intensivo) e as aves selvagens apresentarem infestação por vermes, muitas vezes não diagnosticadas e os animais morrem sem um diagnóstico adequado.

Atualmente ocorreu uma mudança na produção da galinha caipira, tornando-a tecnificada, com produção em galpões e aumentando a densidade de aves nestes ambientes.

Neste novo modelo produtivo, há introdução de cama (maravalha, casca de arroz, café, etc.), alguns galpões possuem piso de chão batido, na grande maioria das criações as galinhas permanecem um período no galpão e outro período são soltas, com isso se alimentam de insetos, há um aumento de besouros e moscas nos galpões, todos estes fatores  favorecem a incidência de vermes chatos e redondos em criações de galinhas  caipiras.

A infestação das galinhas caipiras (granjas também) ocorrem por ciclo direto via transmissão horizontal (aves para aves), através da ingestão de larvas, ou pelo ciclo indireto requerendo um hospedeiro intermediário como insetos e moluscos. A transmissão de maneira geral ocorre mediante a ingestão de ovos de parasitas, através de água e alimentos contaminados.

Outros fatores que favorecem a infestação dos animais são higiene inadequada dos galpões, alta densidade de aves, erros de manejo sanitário e principalmente a vermifugação preventiva. Existe uma variedade muito grande de helmintos que parasitam as aves. São dois grupos os de maior importância, os cestoides e os nematoides.

Como verificar se os animais estão infestados?

O primeiro passo para o criador é verificar o estado de saúde dos animais. Segundo verificar a presença de parasitos nas fezes e na cama onde animais se encontram. Geralmente os áscaris (lombrigas) estão presentes nas fezes e no ambiente. Se possível consultar o médico veterinário para orientações.

Como tratar a verminose nas galinhas caipiras?

Existem dois tipos de tratamentos das verminoses: Tratamento curativo (para os animais infestados e doentes) e o preventivo através de vermifugação preventiva, a adoção de medidas higiênico sanitárias e manejo eficiente.

Entre as medidas preventivas a serem adotadas destacam-se:

  • Limpeza dos galpões após a saída das galinhas para o “passeio” diário;
  • Realizar o vazio sanitário após a saída do lote;
  • Limpeza do terreiro e pasto onde as galinhas realizam o passeio diário;
  • Limpeza dos ninhos onde as galinhas realizam a postura;
  • Revolver a cama sistematicamente;
  • Retirada dos animais doentes

E os prejuízos causados pelas verminoses nas galinhas caipiras?

As endoparasitoses (verminoses) causam sérios prejuízos sanitários e econômicos aos criadores. Os prejuízos sanitários além da perda de peso, falta de apetite, diarreias e problemas respiratórios, desenvolvimento tardio e predisposição a outras doenças, pois o organismo fica vulnerável tornando-se portas de entrada para bactérias, vírus e fungos levando os animais à morte.

Os prejuízos econômicos destacam-se ao emagrecimento dos animais, diminuindo o peso e consequentemente aumenta o tempo de abate dos animais gerando mais custos e despesas. Quanto à postura há diminuição ou perdas nas produções de ovos além dos problemas mencionados. Em ambos os casos os criadores têm muito gastos com medicamentos, tratamentos auxiliares, despesas com veterinários, além da falta de renda dos produtos que a granja comercializa e a reposição de pintos.

Ao terminar este artigo observou-se a necessidade de vermifugar as galinhas caipiras, pois os prejuízos provocados pelas verminoses são muito grandes além de um aumento de custo da produção.

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Fonte: O Presente Rural
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Avicultura Nutrição

Micotoxinas: histórico e aspectos gerais

Muitas vezes, é possível prever a contaminação por micotoxinas nos grãos baseados na observação das doenças nas lavouras

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Arquivo/OP Rural

Artigo escrito por André Viana, doutor em Medicina Veterinária, gerente geral de Serviços Técnicos e P&D da Polinutri; e Jaqueline de Paula Gobi, zootecnista, doutora em Nutrição e Produção Animal e gerente de Nutrição e Formulação da Polinutri

Microtoxinas são conjuntos de substâncias tóxicas ao homem e aos animais domésticos, quimicamente complexas e pouco relacionadas entre si, sintetizadas como metabólitos secundários (não necessários ao crescimento normal, desenvolvimento e reprodução) por certos fungos pluricelulares ou filamentosos, também conhecidos como bolores ou mofos. Acredita-se que a função biológica das micotoxinas seja atuar como fator de competição com bactérias pelo substrato ou, ainda, que as micotoxinas sejam produzidas como um erro ou desvio do metabolismo fúngico durante estresse ambiental ou como simples acaso da programação genética de fungos.

Estima-se que hoje sejam conhecidos 20% dos fungos e que as 300 micotoxinas conhecidas representem cerca desse 2% total. Segundo a FAO, 25% dos alimentos do mundo estão contaminados por micotoxinas e, de acordo com o Banco Mundial, 40% do tempo de vida de indivíduos de países em desenvolvimento são perdidas em função de doenças moduladas por toxinas fônicas. No Brasil, dados do LAMIC de 215 mil amostras de ingredientes e rações analisadas apontam para uma contaminação de aproximadamente 35% dessas amostras por aflatoxinas, 33% para zearalenona, 69% para fumonisinas, 44% de desoxinivalenol, 4% para ocratoxina e diacetoxyscirpenol e 1% para toxina T-2.

Há muitos séculos se conhece a toxidade de certos fungos, havendo relatos de problemas ocasionados pela contaminação de alimentos por fungos na China, Grécia e Egito. Entretanto, somente por volta de 1850 – quando se relacionou a ingestão de centeio infectado pelo fungo Claviceps purpurea com as características clínicas do ergotismo, tais como gangrenas, convulsão e alucinações – foi levantada a possibilidade de haver risco à saúde humana e animal pela ingestão de metabólitos tóxicos produzidos por fungos. Algum tempo depois, foram observadas outras micotoxicoses que afetavam os seres humanos, com a identificação de uma síndrome relacionada com o consumo de pão contaminado por Fusarium graminearum: a chamada estaquibotritoxicose humana, além de estudos sobre a chamada aleucia tóxica alimentar (ATA) e o consumo de cereais de inverno infectados por Fusarium poae e Fusarium sporotrichioides.

Os fungos produtores das micotoxinas de maior importância pertencem aos gêneros Aspergillus (produtores de aflatoxinas), Penicillium (produtores de ocratoxinas) e Fusarium (produtores de desoxinivalenol, toxina T-2, zearalenona, ergotoxinas e fumonisinas). Fungos desses gêneros têm alta capacidade de acumulação em alimentos e rações, em quantidades capazes de causar efeitos tóxicos, denominado micotoxicoses, tanto em animais quanto em seres humanos.

Os diferentes gêneros e espécies de fungos apresentam diferentes temperaturas ótimas de crescimento, o que explica por que em zonas tropicais e subtropicais em geral há uma prevalência de ocorrência de aflatoxinas, enquanto em zonas temperadas há uma prevalência de tricotecenos.

Severidade

As micotoxicoses têm seu grau de severidade influenciado por inúmeros fatores, dentre os quais podemos citar espécie animal, sexo, idade, estado de saúde e conforto do animal e quantidade ingerida e acumulada no organismo da micotoxina. A presença de determinada micotoxina pode ainda potencializar a ação de outra, exemplificada pelo sinergismo entre aflatoxinas e fumonisinas. A ação combinatória de ambas é capaz de causar câncer, teratogênese, alterar a fisiologia reprodutiva dos animais, diminuirá atividade do sistema imune de animais, aumentando a susceptibilidade a doenças, reduzir o desempenho dos animais, ocorrendo queda no ganho de peso e consumo de ração e aumento do índice de conversão alimentar. Podem, ainda, provocar lesões em músculos ou órgãos (fígado, moela, rins, pâncreas, intestino, bolsa de fabricius, coração, sistema nervoso, etc.) causando rejeição de carcaças nos abatedouros e frigoríficos. Provocam redução na secreção e atividade de enzimas digestivas. Assim, níveis aparentemente baixos de toxinas individuais tornam-se importantes quando combinados.

O mais conhecido subgrupo de micotoxinas pelo homem são as aflatoxinas, que foram identificadas na década de 1960, devido a uma intoxicação conhecida como “Turkey X Disease”, episódio no qual milhares de perus morreram ao consumirem tortas de amendoim oriundas do Brasil. A elucidação da estrutura dos metabólitos tóxicos e a descoberta de propriedades hepatotóxicas e hepatocarcinogênicas de algumas linhagens de Aspergillus flavus e Aspergillus parasiticus ocasionou uma verdadeira revolução já que pela primeira vez na história encontrava-se uma substância produzida por um ser vivo capaz de causar câncer.

A identificação desse episódio deu-se em 1960 embora, na ocasião, pesquisadores brasileiros já tivessem identificado o farelo de amendoim como responsável por anomalias em aves. Nesses casos, os animais morriam geralmente dentro de uma semana, tendo como principais sintomas perda de apetite, diminuição da mobilidade, fraqueza das asas e pernas com lesões necróticas no fígado e congestionamento dos rins à necropsia, sem isolamento de agentes infecciosos. A mudança na alimentação dos animais frequentemente cessava a mortalidade.

A então chamada “Turkey X Disease” foi responsabilizada pela morte de mais de 100 mil aves de maio a agosto de 1960. O fato provocou inclusive o acionamento da Scotland Yard para pesquisa de inseticidas e venenos nas rações. Logo depois, entretanto, vários pesquisadores passaram a indicar a torta de amendoim proveniente do Brasil como fator comum à enfermidade, e outros, paralelamente, notaram que alguns lotes de torta de amendoim oriundos de outros países também causavam os sintomas.

Nesse cenário, logo se estabeleceu que um conjunto de substâncias produzidas por fungos de gênero Aspergillus, solúveis em clorofórmio e que apresentavam fluorescência sob a lâmpada de UV, eram as responsáveis pela enfermidade das aves. Tal substância recebeu o nome de aflatoxina (A. flavus toxina). Estudos desenvolvidos demonstraram que o extrato clorofórmico possuía quatro frações, duas com fluorescência azul (Blue — B1 e B2) e duas com fluorescência verde (Green — G1 e G2). Outros evidenciaram, ainda, a presença de anéis bisfuranos nas aflatoxinas B1 e G1, o qual é hidrogenado nas aflatoxinas B2 e G2. Finalmente, em 1963, determinaram as estruturas completas dessas quatro aflatoxinas.

Posteriormente, verificou-se que as aflatoxinas podiam ser biotransformadas no organismo, sendo encontradas nos tecidos, no leite de vacas e ovelhas e até em ovos. Essa toxina foi denominada aflatoxina M (milk) para indicar o isolamento inicial que foi realizado no leite e é considerada o metabólico mais tóxico dentre todos os produzidos pela aflatoxina B1. A conversão de aflatoxina B1 para aflatoxina M1 ocorre no fígado — produzida pela hidroxilação do quarto carbono da molécula de aflatoxina B1 — de animais que tenham consumido alimentos contaminados por aflatoxina B1.

A espécie Aspergillus flavus não é a única a produzir aflatoxinas. A. nominus e A. parasiticus também podem produzir essa toxina. A. flavus pode ainda sintetizar outras micotoxinas que, por sua vez, podem ter efeito sinérgico sobre aflatoxinas.

A simples presença dos fungos, entretanto, não basta para que se possa afirmar que o substrato esteja contaminado por micotoxinas, do mesmo modo que a ausência de fungos no substrato não garante a ausência de micotoxinas. Problemas de amostragem são um pesadelo para os profissionais da área. Se apenas uma pequena parte do substrato (um local de condensação de umidade no silo, por exemplo) estiver contaminada, conseguir retirar uma amostra desse local pode ser muitas vezes comparado a, literalmente, achar uma agulha no palheiro. E caso esse local venha a ser amostrado, a concentração de micotoxinas à análise deverá ser infinitamente superior à média geral do lote.

Estima-se que menos de 20% do erro total quando se estima a contaminação de um lote de grãos por micotoxinas esteja relacionado à metodologia analítica. Aproximadamente 50% do erro é atribuído à amostragem do lote e cerca de 30% ao próprio quarteamento da amostra no laboratório. Por esse motivo, quando encontramos um baixo valor de alguma micotoxina, devido a toda essa variação não devemos desprezar a possibilidade de haver partes do lote com contaminação capaz de causar danos e, por isso, é importantíssimo o diagnóstico veterinário dos sintomas específicos e inespecíficos das diferentes micotoxinas. É como se estivéssemos apenas enxergando a ponta do iceberg.

Sintomas de micotoxicoses podem desaparecer tão rapidamente quanto aparecem, sem que uma amostra de ração analisada apresente resultado positivo, devido às características de várias micotoxinas apresentarem efeito cumulativo, demonstrando sintomas mais característicos quando o lote contaminado já foi todo consumido; por isso, recebe a denominação de “o mal invisível”. Entretanto, as micotoxinas não devem ser usadas como resposta para todos os problemas que aparecem nas granjas, que muitas vezes não são causados por elas, mas que acabam assim sendo responsabilizadas por vários erros de manejo, ambiência, alimentação, etc.

Contaminação

A contaminação dos substratos estende-se desde o campo até a estocagem. No campo, a contaminação pode iniciar-se antes mesmo da colheita por infestação de insetos nos grãos, os quais criam aberturas de galerias e assim facilitam a inoculação de esporos durante a mecanização, no transporte e na secagem dos grãos, sobretudo se realizada de forma inadequada. A contaminação durante a industrialização também são momentos de grande susceptibilidade ao desenvolvimento dos fungos, porém, acredita-se que seja na estocagem que a contaminação por Aspergillus flavus e outros fungos, acentua-se.

Assim, levando-se em conta as condições ambientais favoráveis a estes fungos, podemos entender o porquê de em zonas tropicais, como o Brasil, 80% dos problemas com micotoxinas estarem relacionados ao Aspergillus flavus, um fungo que cresce com temperatura e umidade elevadas.

Muitas vezes, é possível prever a contaminação por micotoxinas nos grãos baseados na observação das doenças nas lavouras. Podemos associar à aflatoxina a ocorrência da podridão da espiga por Aspergillus, a fumonisina à podridão da espiga e da haste por Fusarium, a zearalenona e o desoxinivalenol à ocorrência da podridão da espiga por Gibberella e à ferrugem no trigo, e os alcaloides do Ergot a ocorrência do esporão-do-centeio.

Para reduzir a contaminação por micotoxinas antes da colheita dos grãos, as principais estratégias usadas pela indústria são o uso de genótipos resistentes a contaminação por fungos, práticas agrícolas que reduzem a exposição aos fungos, acompanhamento das condições climáticas na semana da colheita e o uso de sementes transgênicas (com menores danos por insetos, os grãos de sementes transgênicas são em geral menos contaminados).

Após contaminados, os grãos passam a ser um problema na cadeia de produção animal e na alimentação humana. Mas ainda há alternativas, sendo as principais:

  • detecção do problema por meio de boas técnicas de amostragem e análise;
  • boas condições de transporte e de secagem e armazenamento dos grãos;
  • uso de pré-limpeza removendo pó e partículas de grãos quebrados;
  • prevenção de roedores e insetos;
  • segregação dos lotes contaminados para uso por espécies animais mais resistentes, evitando animais novos ou em reprodução;
  • uso de adsorventes e de componentes que degradam as enzimas;
  • reforço das rações com vitaminas e outros nutrientes associados à eliminação das toxinas pelo organismo animal.

As principais micotoxinas de interesse na avicultura e suinocultura são as aflatoxinas, fumonisinas, zearalenona, tricotecenos, ocratoxinas, citrininas e ergotaminas.

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Fonte: O Presente Rural
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