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Prepare-se: saiba como o confinamento de gado vai se comportar nos próximos meses

Tendência é que, após um período de chuvas atrasadas, o confinamento comece a estabilizar com a seca, o que possibilita recuperar parte do desempenho perdido e ajustar a lotação dos animais.

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Fotos: Divulgação/Marfrig

Nos últimos anos, a intensidade das variações climáticas tem se mostrado uma constante preocupação para o confinamento de gado de corte. Ondas de frio e calor mais intensas, junto com padrões de chuva alterados, têm imposto desafios significativos à gestão das propriedades rurais, exigindo ajustes estratégicos nas práticas de manejo.

O impacto dessas variações climáticas é direto e severo sobre os animais confinados. As mudanças bruscas no clima não apenas afetam o bem-estar dos bovinos, mas também influenciam o desempenho e os custos operacionais das propriedades. Este ano, por exemplo, observou-se um atraso na chegada das chuvas, o que afetou o início do giro de confinamento.

Tradicionalmente, o período de chuvas mais concentradas vai de novembro a março, e qualquer alteração nesse padrão pode levar a uma queda no desempenho dos animais, uma vez que eles gastam mais energia para lidar com as condições adversas. “A chuva tardia e fora do período esperado resulta em desgaste adicional de energia pelos bovinos, que têm que se adaptar às condições climáticas desfavoráveis. Esse fenômeno leva a um aumento da ingestão de ração e, consequentemente, nos custos com nutrição. O manejo precisa ser ajustado, com melhorias na formulação da dieta para atender às novas necessidades energéticas dos animais e compensar o impacto das variações climáticas”, detalha o administrador com MBA em Agronegócio e gerente geral de Confinamento da MFG Agropecuária, Vagner Lopes, em entrevista exclusiva para o Jornal O Presente Rural.

Com a expectativa de uma seca mais prolongada no final do ano, o confinamento poderá apresentar um ciclo mais prolongado. “A tendência é que, após um período de chuvas atrasadas, o confinamento comece a estabilizar com a seca, o que possibilita recuperar parte do desempenho perdido e ajustar a lotação dos animais”, expõe.

A realidade dos últimos anos tem mostrado que, dependendo da região, a exemplo do Mato Grosso, o ciclo das chuvas e a entrada tardia dos animais no confinamento têm efeitos diretos sobre o manejo. Segundo Lopes, a expectativa é que, com a retomada das chuvas em novembro, a lotação dos confinamentos possa ser mantida e o giro estendido, aliviando o impacto das variações climáticas no sistema.

Dificuldades nutricionais e sanitárias 

Quando o clima é mais úmido ou seco, é preciso ajustar a formulação da dieta para garantir que os animais recebam a nutrição adequada. A matéria seca da dieta pode oscilar, o que adiciona um desafio extra ao manejo nutricional. No entanto, segundo Lopes, o desafio sanitário pode ser ainda mais crítico. “As amplitudes térmicas e inversões de temperatura aumentam o risco de pneumonia bovina. A combinação de calor intenso durante o dia e frio durante a noite contribui para essas condições adversas”, aponta o administrador, mencionando que para enfrentar esses problemas, os pecuaristas têm intensificado o uso de vacinas respiratórias e adotado técnicas de manejo sanitário mais rigorosas.

Além das dificuldades nutricionais e sanitárias, Lopes diz que os produtores enfrentam também problemas com a escassez de água. Segundo ele, secas severas têm reduzido a capacidade das represas e nascentes, obrigando muitos pecuaristas a investir em poços e outras soluções.

Encurtamento dos ciclos na pecuária

A pecuária tem avançado no encurtamento dos ciclos de produção, impulsionada por inovações em melhoramento genético e práticas de manejo. Hoje, as empresas de melhoramento genético estão desenvolvendo animais geneticamente modificados para reduzir o tempo necessário para o abate. Lopes destaca que a demanda crescente da China por animais mais jovens, de até quatro dentes, tem acelerado essa tendência.

“No passado, o ciclo de produção de um bovino podia durar quatro a cinco anos antes do abate. Atualmente, esse ciclo foi reduzido para cerca de dois a dois anos e meio”, ressalta o profissional, enfatizando que esse avanço é resultado de técnicas aprimoradas de manejo, melhoramento genético e avanços na nutrição e sanidade dos animais.

Contudo, apesar da redução do ciclo, que resulta em animais abatidos com dois anos e meio a três anos, Lopes diz que o peso de abate é mantido próximo ao peso de animais mais velhos. “Isso é possível devido às melhorias na genética e no manejo, que garantem que o peso final do animal seja alcançado mais rapidamente, sem comprometer a qualidade”, salienta.

Custos de produção em queda

O setor pecuário envolveu um período de custos elevados entre 2022 e 2023, uma consequência direta dos impactos da pandemia e de outros fatores econômicos globais. No entanto, em 2023, o cenário começou a mudar, com uma redução nos custos de produção, trazendo um alívio aos produtores.

Um exemplo claro dessa queda está no preço do milho, que em 2022 chegou a ser cotado a R$ 100 a saca nas principais praças do Mato Grosso. Em 2023, o preço caiu e se estabilizou entre R$ 50 e R$ 55, refletindo também no mercado de São Paulo. A soja seguiu uma trajetória semelhante: após atingir recordes de preço, com a saca cotada a R$ 200, em 2023 os valores caíram para uma média entre R$ 125 e R$ 128. “Essa estabilização nos preços dos principais insumos trouxe uma manutenção nos custos de produção, especialmente na alimentação e sanidade animal”, expõe Lopes, enfatizando que a oscilação tem sido mínima, com variações de apenas 1% a 2% para cima ou para baixo, dependendo da formulação das dietas e do uso de produtos alternativos, como subprodutos de usinas de etanol, por exemplo.

Lopes diz que o custo de produção de uma arroba de boi também diminuiu. No auge da crise, segundo ele, o custo chegou a R$ 240, mas em 2023 caiu para entre R$ 190 e R$ 200. Essa redução estabilizou o cenário para 2024, onde o custo tem se mantido entre R$ 195 e R$ 200 por arroba, criando um ambiente favorável para o uso de confinamento como ferramenta de terminação de animais. “Com a estabilidade nos custos de produção e um nível alto nos preços de venda, a rentabilidade do produtor aumentou. Hoje, um produtor que gasta cerca de R$ 200 para produzir uma arroba pode vender até R$ 250, dependendo da região, gerando uma margem de R$ 50 por arroba. Para um animal que produz oito arrobas, isso representa uma margem de R$ 400, um valor que traz segurança e opções para novos investimentos”, evidencia o profissional.

Além disso, Lopes afirma que os produtores têm adotado cada vez mais ferramentas de mercado para garantir essa rentabilidade, como o travamento de preços na bolsa, que ajuda a proteger o valor da produção contra oscilações indesejadas. “Comparado a 2022, um ano de grandes volatilidades e desafios, o setor pecuária de corte está voltando a uma normalidade, embora as margens não sejam tão expressivas quanto nos tempos em que o boi era vendido por R$ 1,5 mil para a China. No entanto, a margem atual de R$ 400 por boi ainda é satisfatória e representa um respiro para os pecuaristas”, reforça.

Aumento do abate de fêmeas e suas consequências para o mercado de bezerros

Administrador com MBA em Agronegócio e gerente geral de Confinamento da MFG Agropecuária, Vagner Lopes: “Apesar de uma possível elevação nos custos de produção no segundo semestre de 2024, os custos permanecem inferiores ao valor de venda, garantindo margens atrativas aos pecuaristas” – Foto: Arquivo Pessoal

Nos últimos anos, o setor pecuário tem registrado um aumento significativo no abate de fêmeas. Do ano passado para 2024, houve um crescimento de 28% no abate de matrizes, o que representa uma tendência de redução de vacas reprodutoras no campo. Em termos médios, esse crescimento reflete um aumento geral de 21% no abate de fêmeas.

Esse movimento, no entanto, traz consigo desafios importantes para a produção de bezerros. “A redução no número de matrizes disponíveis tem impacto direto na capacidade de produção de bezerros. Com menos matrizes, há uma dificuldade crescente em manter a oferta de bezerros no mercado, o que pode elevar o preço do animal nos próximos meses”, aponta.

De acordo com Lopes, muitos produtores optaram nos últimos anos por abater fêmeas devido à desvalorização dos bezerros. “Em alguns momentos, a relação de troca chegou ao ponto em que um boi gordo equivalia ao valor de dois bezerros. Com essa desvalorização, os criadores planejaram reduzir o número de vacas reprodutoras em seus rebanhos, levando ao descarte de matrizes”, afirma o administrador.

No entanto, com o aumento no abate de fêmeas, a oferta de bezerros caiu drasticamente, e a demanda por esses animais começou a subir novamente. “Esse aumento na demanda, aliado à oferta reduzida, resultou em uma valorização do preço dos bezerros. Consequentemente, muitos produtores voltaram a reter matrizes para aumentar a produção de bezerros”, menciona Lopes.

Esse processo de retenção, no entanto, leva tempo. Lopes explica que uma vaca prenha precisa de nove meses de gestação para dar à luz, e o bezerro leva entre seis a sete meses para desmamar e estar pronto para o mercado. “Os bezerros produzidos agora só estarão disponíveis para venda no final de 2025”, alerta.

Nesse cenário, o profissional diz que deve haver uma escassez de bezerros em 2025 no mercado, o que deve pressionar ainda mais os preços para cima. “A relação de troca, que havia chegado a 1,8 a 2, pode cair para 1,4 a 1,5, conforme o valor dos bezerros sobe. Atualmente, os bezerros estão sendo cotados entre R$ 900 e R$ 1,8 mil, mas é provável que esse valor ultrapasse os R$ 3 mil devido à alta demanda e à oferta limitada causada pelo abate de matrizes nos anos anteriores”, revela.

Expectativas até o fim do ano

O segundo semestre de 2024 apresenta um cenário otimista para a pecuária, especialmente na atividade de confinamento. Com custos de produção relativamente baixos, tanto em termos operacionais quanto alimentares e sanitários, o setor prevê uma manutenção dos preços da arroba do boi gordo, atualmente em torno de R$ 250. “Apesar de uma possível elevação, os custos permanecem inferiores ao valor de venda, garantindo margens atrativas aos pecuaristas”, afirma Lopes.

No entanto, as condições climáticas preocupam. Com a previsão de um verão mais quente e um atraso nas chuvas, a qualidade das pastagens pode ser comprometida, forçando muitos pecuaristas a antecipar o confinamento dos animais. “Pastos secos e escassez de água são fatores que reduzem o peso dos animais, tornando o confinamento uma estratégia fundamental para evitar perdas”, menciona.

Mesmo com uma grande oferta de animais confinados, Lopes afirma que a tendência é que os preços não caiam, devido à redução no abate de fêmeas, o que ajuda a manter a estabilidade no mercado. “Além disso, o mercado futuro oferece oportunidades para trabalhar preços e garantir resultados, o que aumenta a confiança dos pecuaristas”, reforça.

Quanto à reposição de bezerros, o cenário é de alerta. Com a relação de troca caindo de 1,6 para 1,4, a recomendação de Lopes é que os pecuaristas façam um ajuste rápido, antes que os preços aumentem e a oferta diminua. “A expectativa para 2025 é de continuidade desse cenário, com custos estáveis e um nível alto nos preços do boi, o que deve manter as margens da pecuária equilibradas”, estima.

Boi Europa e Boi China: pecuarista ganha mais por seguir padrão

No mercado pecuário, a classificação de animais como Boi Europa e Boi China desempenha um papel importante para a exportação de carne bovina, com cada uma dessas categorias atendendo a requisitos específicos para diferentes mercados internacionais. Pecuaristas estão apostando também nesse nicho para faturar mais.

O Boi Europa é um animal rastreado desde a sua origem, o que significa que todo o histórico de vida do animal é documentado, desde o seu nascimento até a chegada ao confinamento e sua vida dentro da propriedade. “Essa rastreabilidade é fundamental para atender às exigências da União Europeia, que exige a comprovação detalhada da vida do boi, incluindo informações sobre onde ele nasceu, em quais fazendas passou, o que consumiu e quais tratamentos recebeu ao longo da vida. Essa rastreabilidade garante que o boi seja habilitado para exportação para o mercado europeu”, enfatiza Lopes.

Para os pecuaristas, essa habilitação traz um incentivo financeiro. Os frigoríficos, que são os principais compradores desses animais, pagam uma bonificação por boi habilitado para a Europa, geralmente em torno de R$ 3 a mais por arroba em comparação com o boi comum. “Essa bonificação é oferecida porque o mercado europeu valoriza a carne proveniente de animais com rastreabilidade, permitindo que o frigorífico venda a carne a preços mais elevados na Europa”, ressalta o profissional.

Por outro lado, o Boi China é um animal destinado ao mercado chinês, que possui critérios diferentes. A China exige que o boi seja abatido com até quatro dentes de idade, o que corresponda a uma faixa etária de aproximadamente dois anos e meio a três anos. Além disso, é necessário que o animal tenha toda a documentação comprobatória para atestar sua idade e garantir que ele atenda aos requisitos do mercado chinês.

Assim como ocorre com o Boi Europa, Lopes diz que o Boi China também recebe uma bonificação do frigorífico, que pode chegar a R$ 10 a mais por arroba em comparação com animais não habilitados para a China. “Essa bonificação é um incentivo para que os pecuaristas entreguem animais jovens, criados e recriados de forma eficiente, com melhoramento genético, para atender à demanda do mercado chinês. Para um animal de abate com 20 arrobas, essa bonificação pode resultar em um ganho adicional de R$ 200, o que representa uma receita expressiva para o pecuarista”, menciona.

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Fonte: O Presente Rural

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Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira

Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

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Foto: Shutterstock

A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.

O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta

Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.

Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.

Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem

É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.

Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

 

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.

Ajuste fino, não ruptura

A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.

Fonte: Assessoria Biond Agro
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Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026

Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

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Fotos: Shutterstock

O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.

No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”

Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.

O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.

Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.

Padronização da produção

O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.

Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.

Mercados internacionais em expansão

O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.

Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.

Oscilações do mercado

Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.

Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.

Processo de adaptação

Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.

A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.

Gargalos persistem

Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.

A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.

Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.

Dependência do mercado interno

Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.

No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.

Pilares da pecuária

A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.

Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.

Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.

Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.

Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.

Visão de futuro

Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.

Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.

Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.

Fonte: O Presente Rural
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Brasil lança selo para fortalecer mercado de carne premium

Iniciativa incentiva o cruzamento entre vacas leiteiras e touros Angus, ampliando a oferta de carne de alto valor e criando nova fonte de renda para produtores de leite.

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Foto: Edu Rocha

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.

Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.

O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.

Foto: Fernando Goss (bovinos Angus)

“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.

 

Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.

Participação técnica da Embrapa

Foto: Renata Suñe (Holandesas)

A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.

 

A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.

Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.

Fonte: Assessoria Embrapa Pecuária Sul
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