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Preços dos alimentos: da influência do clima à segurança alimentar, um tema nada trivial

Quando se trata de alimentos e em especial de seus preços, o escopo é muito maior do que o puramente econômico, mormente numa sociedade com elevado grau de pobreza como é o caso do Brasil.

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Foto: Roberto Dziura

O ano de 2024 está apenas no início, mas os comentários e expectativas a respeito dos preços dos alimentos e de como estes podem impactar o nível geral de preços ao consumidor, medido oficialmente pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), já se avolumam. E há alguns pontos de atenção que ensejam tais perspectivas, dentre eles, a questão climática.

Fotos: Divulgação/Arquivo OPR

O fenômeno El Niño que incide sobre o clima do País desde o segundo semestre de 2023 foi classificado pela Word Meteorological Organization – WMO (2024) como um dos cinco mais fortes. Tal fenômeno climático resultou em aumento das temperaturas, e as perspectivas são que este perca a força a partir de abril, de acordo com a WMO (2024).

Para além do El Niño, as mudanças climáticas globais, oriundas do efeito estufa, que tem elevado as médias de temperatura, são uma realidade e um dos seus impactos de maior relevância é sobre a produção agrícola, que, a depender da cultura e da região, pode significar um resultado negativo na produtividade, o que influencia diretamente a elevação dos preços dos produtos agrícolas, conforme diversos trabalhos acadêmicos, como o de Dhifaoui et al. (2023), demonstram e quantificam.

Cada vez mais as condições climáticas se mostram um dos principais determinantes para a oferta agrícola, mas este é um item que está fora do domínio do produtor, o que proporciona um grande desafio, tanto para o planejamento, quanto para a manutenção de uma produtividade mínima que garanta ao produtor a continuidade de suas atividades. Pois se para o consumidor as mudanças climáticas podem gerar uma oferta menor de produtos, o que tende a se materializar em preços maiores, para o produtor, a preocupação é também com o aumento de custos, conforme mostram Grigorieva, Livenets, Stelmakh (2023), seja por conta da elevação do uso de defensivos, necessários para combater as pragas que surgem com a alta das temperaturas, da necessidade de implantar e aplicar novas técnicas, da contratação de seguros, dentre outros.

Olhando pelo lado do consumidor, em termos do nível geral de preços da economia, é de amplo conhecimento o peso que o preço dos alimentos representa. No período recente – anos de 2021 e 2022 –, a meta de inflação estipulada para o País não foi cumprida, ficando o IPCA acima do teto, e, em ambos os anos, com uma contribuição significativa do grupo alimentação e bebidas, sendo que, em 2021, tal grupo apresentou variação acumulada de 7,94%, que não foi uma das maiores, já que, em tal período, o preço dos transportes e da habitação também acumularam avanços relevantes, de respectivos 21,03% e 13,05%, conforme IBGE (2024). Já em 2022, o grupo alimentação e bebidas apresentou a segunda maior alta acumulada no ano – de 11,64% –, ficando atrás apenas do grupo vestuário, que variou 18,02% no ano (IBGE, 2024).

Em 2023, a meta de inflação foi cumprida, e o grupo que compreende os produtos alimentícios variou em um patamar bem menor se comparado aos de anos anteriores (1,03% no ano). Sendo que o subgrupo que agrega os produtos relacionados à alimentação no domicilio fechou 2023 com queda acumulada de 0,48%, o que não acontecia desde 2017, muito por conta da ampliação da oferta e também do arrefecimento dos custos dos insumos, depois das altas proporcionadas pela pandemia e pelo início do conflito entre Rússia e Ucrânia. Assim, o cumprimento da meta de inflação de 2023 se deu com forte contribuição do preço dos alimentos.

Agora, considerando-se apenas os dois primeiros meses de 2024, o grupo alimentação e bebidas acumulou alta de 2,34%, sendo que, para o mesmo período em 2023, o avanço era de 0,76%, conforme IBGE (2024). Já o subgrupo alimentação no domicílio acumula, no mesmo período, elevação de 2,93%, o que acaba por deixar um alerta a respeito de como tal conjunto de preços pode se movimentar ao longo do restante do ano, considerando que, pelo menos em parte, os números de janeiro e fevereiro refletem implicações do fenômeno El Niño.

Apenas como exemplo, a batata inglesa, que, no grupo das hortaliças tuberosas, é o produto mais consumido, foi um dos subitens que se destacaram na inflação de fevereiro de 2024, com alta de 6,79%, muito por conta do atraso no plantio, devido a efeitos do El Niño. Mas, conforme informações do Hortifruti/Cepea (2024), há uma expectativa de que em março a oferta aumente, por causa do clima úmido e das chuvas previstas. O que ilustra o fato de que cada produto agrícola tem as suas especificidades, bem como o clima ideal para plantio e colheita. Então, quando se trata dos preços dos alimentos de modo agregado, é sempre importante se atentar que este é um todo composto de diversas particularidades, que devem ser consideradas.

Foto: Shutterstock

Ademais, ressalta-se que a preocupação com o preço dos alimentos vai muito além da questão puramente econômica, do alcance de metas de inflação e de como isso pode refletir na política monetária do País. Preocupar-se com os preços dos alimentos, principalmente a nível dos consumidores, é se preocupar também com a segurança alimentar de uma população, o que basicamente corresponde à garantia de acesso econômico, físico, social, permanente e em quantidade suficiente a alimentos nutritivos, conforme FAO (2024). Ou seja, ao se discutir sobre os preços dos alimentos, também deve-se observar o quanto o aumento destes pode dificultar o acesso, sobretudo dos mais pobres, a uma alimentação adequada.

Dados do IBGE (2020) indicam redução de mais de 50% no consumo dos brasileiros de produtos base da alimentação, como arroz e feijão, ao longo de 16 anos e atribui essa diminuição principalmente ao aumento dos preços de tais produtos e ao crescente consumo de produtos ultraprocessados. Evidentemente, a quase estagnação que se observa na renda per capita no Brasil tem um papel forte ao restringir o poder de compra, forçando a população a procurar alternativas menos custosas para se alimentar. Estagnação essa que se dá num cenário de estabilidade do nível de pobreza ao redor de um terço da população.

Especificamente, em torno de 11% da população vive com renda per capita de até ¼ do salário mínimo; 30% vivem com menos de ½ salário mínimo. Resumindo, cerca de 60% da população brasileira vive com até um salário mínimo per capita. Esse cenário de demanda doméstica por certos produtos (como arroz e feijão, por exemplo) quase estagnada – em razão da renda muito baixa – não favorece a expansão sistemática da produção (com uso de tecnologias atualizadas e aproveitamento de economias de escala, como acontece com a produção de produtos exportáveis). Esta produção cresce, portanto, a taxas insuficientes (do ponto de vista nutricional) e fica à mercê do clima e da ocorrência de pragas e doenças nas culturas.

De qualquer maneira, quando se trata de alimentos e em especial de seus preços, o escopo é muito maior do que o puramente econômico, mormente numa sociedade com elevado grau de pobreza como é o caso do Brasil. Até chegar à mesa do consumidor são muitos os fatores que importam para a formação dos preços, alguns mais fáceis de mensurar e prever, já outros mais difíceis, como a questão climática e suas implicações.

Logo, é complexa e imprecisa qualquer previsão sobre como os preços do grande e diverso grupo de produtos relacionados à alimentação se comportarão ao longo de 2024. O que é possível de ser afirmar é a respeito da importância – num país de características estruturais como as do Brasil – de se acompanhar os indicadores de preços, com um olhar atento as especificidades de cada produto, sem perder de vista acontecimentos no cenário econômico, eventos climáticos, questões geopolíticas, dentre outros fatores que direta ou indiretamente podem influenciar os preços dos alimentos. Ou seja, não se trata de uma questão trivial.

Fonte: Por Aniela Carrara, pesquisadora da área de Macroeconomia do Cepea.

Bovinos / Grãos / Máquinas

Reinserção de pecuaristas irregulares vira ponto crítico para ampliar oferta de carne rastreada no Brasil

Com 264 mil toneladas exportadas em janeiro, setor discute como requalificar produtores fora da cadeia formal e atender exigências socioambientais dos mercados compradores.

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Foto: Divulgação/ACBB

A crise climática e a insegurança alimentar são desafios globais que nos remetem à mobilização para ações coordenadas de políticas públicas e avanço nos programas privados. A pecuária brasileira entra como um componente fundamental e estratégico para a segurança alimentar mundial, além de trazer oportunidades concretas de desenvolvimento sustentável aliado a mitigação de gases de efeito estufa (GEE).

Foto: Divulgação

O Brasil é, hoje, o país com o maior rebanho comercial bovino do mundo, além de ser o maior exportador de carne bovina in natura. As exportações de carne bovina somaram em janeiro de 2026, embarques de 264 mil toneladas, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), compilados pela Associação das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).

Sabe-se que a pecuária brasileira enfrenta desafios relacionados à regularização ambiental, rastreabilidade e competitividade internacional. Muitos produtores foram excluídos da cadeia formal por não atenderem critérios socioambientais. Este artigo, inspirado nas diretrizes da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável, discute estratégias para reinserção e requalificação desses produtores, propondo caminhos para dar escala ao processo e fortalecer a credibilidade da carne bovina nacional.

A cadeia da carne bovina no Brasil é uma das mais relevantes do agronegócio mundial, mas enfrenta pressões crescentes de mercados consumidores e da sociedade civil em relação à

Foto: Divulgação

. A exclusão de produtores que não atendem às exigências socioambientais gera impactos econômicos e sociais significativos ficando os mesmos marginalizados na cadeia da pecuária, principalmente os pequenos e os agricultores familiares. Nesse contexto, são necessárias iniciativas voltadas à reinserção desses agentes, com foco em requalificação técnica e comercial prezando pelo acesso a ampla informação, fortalecimento de assistência técnica constante, e alinhamento de inciativas públicas e privadas.

Temos diferentes protocolos de monitoramento de fornecedores de gado que já trabalham em proposições de mecanismos de reintegração de propriedades, por meio de demonstração de regularização ambiental, correções técnicas do uso de base de dados e adoção de sistemas de regularização comercial da propriedade. Essas propriedades são certificadas pelos protocolos de requalificação comercial e voltam a cadeia por meio da aprovação das Secretarias de Meio Ambiente Estaduais junto à Procuradoria da República. Mesmo com esses mecanismos, os números alcançados ainda são baixos o que torna necessário a busca por alternativas à garantia do cumprimento da legislação ambiental e da segurança jurídica.

Os objetivos da reinserção passam basicamente pela capacitação dos produtores para atender padrões de mercado; pelo aumento da base

Foto: Juliana Sessai

de fornecedores regulares reduzindo a informalidade e os riscos para o setor; por uma base de fornecedores mais consistente e alinhada aos compromissos socioambientais, além do fortalecimento da imagem da carne bovina brasileira nos mercados premium e competitividade internacional.

Sabendo-se disso, antes da adoção de quaisquer estratégias é necessário superar gargalos operacionais dos diferentes biomas no território brasileiro, garantindo a inclusão econômica e social. Como estratégias propostas podemos citar a capacitação técnica, a adoção de ferramentas de monitoramento com o olhar para a rastreabilidade individual do animal, acesso a créditos diferenciados e bonificações àqueles reinseridos, bem como a articulação da cadeia como um todo a fim de dar escalabilidade aos projetos e visibilidade a casos práticos de produtores bem-sucedidos nessa agenda.

Os desafios são enormes, mas a vantagem e os benefícios atrelados a reinserção e requalificação são imensos. Nesse sentido, entidades como a Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável (MBPS) são imprescindíveis por promoverem diálogos entre multistakeholders, e ações a fim de combinar o engajamento dos diferentes atores da cadeia da pecuária aliados as políticas públicas e incentivos privados prezando por uma carne bovina nacional competitiva, sustentável e socialmente inclusiva.

Fonte: Artigo escrito por Michelle Borges, gerente executiva da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável.
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Produtividade recorde do agro brasileiro ameaça ser sufocada por gastos públicos improdutivos

Enquanto soja, milho e pecuária impulsionam até 27% do PIB e elevam o IDH em municípios produtores, ineficiência fiscal e juros altos pressionam crédito e aumentam pedidos de recuperação judicial no setor.

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Foto: Shutterstock

Enquanto a produtividade floresce nos campos do agronegócio, a gestão pública brasileira parece estagnada em modelos que privilegiam o gasto improdutivo em detrimento do investimento estruturante. Não há inclusão social sem uma economia saudável! Hoje, a “galinha dos ovos de ouro” brasileira – o agronegócio – enfrenta uma ameaça que não vem do clima ou do solo, mas da ideologia e da insensatez de Brasília.

Há anos, o agronegócio é o principal responsável pela expansão econômica brasileira. Segundo dados do Cepea (USP) em parceria com a CNA, o setor responde por aproximadamente 24% a 27% do PIB nacional. Em 2023, enquanto outros setores patinavam, o PIB da agropecuária saltou 15,1%, sendo o fiel da balança para evitar uma recessão técnica e garantir o superávit comercial.

Esse sucesso é fruto de um crescimento de produtividade sem precedentes. A Produtividade Total dos Fatores (PTF) no agro cresce, em média, 3,2% ao ano — um ritmo que humilha a média da indústria nacional e de muitos países desenvolvidos.

É sempre importantíssimo frisar que o Brasil não só planta, mas desenvolve tecnologia biológica de ponta!

É fundamental compreender que o agronegócio não se resume ao “dentro da porteira”. O termo “Agribusiness” foi cunhado em 1957 pelos professores de Harvard, John Davis e Ray Goldberg, justamente para descrever a soma total de todas as operações envolvidas na fabricação e distribuição de suprimentos agrícolas.

O agronegócio é, portanto, uma cadeia complexa que integra:

  1. O Agro “dentro da porteira”: a agricultura e pecuária propriamente ditas, onde o manejo do solo e a gestão biológica ocorrem.
  2. Indústria: fabricação de insumos, defensivos, fertilizantes e máquinas pesadas, além do processamento agroindustrial de alimentos e biocombustíveis.
  3. Serviços: logística de transporte, armazenamento, crédito agrícola sofisticado e tecnologia da informação (Agtechs).

Essa visão sistêmica revela, por exemplo, que o sucesso da colheita movimenta desde uma fábrica de tratores no interior de São Paulo, até o porto em Santos, sustentando milhões de empregos indiretos.

Nada disso seria possível sem o papel histórico da EMBRAPA. Criada na década de 70, a Embrapa foi a arquiteta da “revolução tropical”, transformando o Cerrado — antes considerado terra ácida e improdutiva — no celeiro do mundo através da ciência brasileira.

O ganho de eficiência do campo transborda diretamente para o capital humano. Municípios com forte presença do agro apresentam indicadores de qualidade de vida muito superiores à média nacional. Cidades como Sorriso (MT), Lucas do Rio Verde (MT), Rio Verde (GO) e Toledo (PR) são exemplos disso.

Essas localidades figuram constantemente no topo do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) regional porque a riqueza gerada pela produtividade se converte em:

  • Infraestrutura urbana de qualidade;
  • Melhores escolas e centros de capacitação técnica;
  • Sistemas de saúde mais robustos e acessíveis.

A prosperidade agrícola é o maior vetor de descentralização do desenvolvimento que o Brasil já conheceu, criando polos de dignidade longe das metrópoles litorâneas.

Entretanto, esse vigor produtivo encontra um obstáculo na insustentabilidade fiscal. O Brasil gasta muito e gasta mal. Consumimos cerca de 33% do PIB em impostos, mas o retorno em investimento público em capital humano, ciência e inovação, além de infraestrutura, é irrisório, mal chegando a 2%.

O desperdício e a má gestão são flagrantes:

  • Privilégios Estruturais: Gastos exorbitantes com pensões e aposentadorias de elite (como as de juízes e alta cúpula do funcionalismo), mantendo castas que consomem recursos que deveriam financiar laboratórios de biotecnologia ou ferrovias.
  • Corrupção e Ineficiência: O dinheiro é drenado por desvios e por uma burocracia que “cria dificuldades para vender facilidades”, além do custo de manter estatais ineficientes e obras inacabadas que nunca se tornam ativos para o país.

Essa “gastança desordenada” eleva a dívida pública, forçando o Banco Central a manter a Taxa Selic elevada para conter a inflação. Juros altos significam financiamento inviável.

O produtor, que depende de crédito para comprar sementes e maquinário, está sendo asfixiado. Dados da Serasa Experian mostram um aumento alarmante de mais de 500% nos pedidos de Recuperação Judicial no setor agropecuário entre 2023 e 2024.

Não podemos permitir que a ineficiência do Estado destrua a engrenagem que sustenta o país. A justiça e a inclusão social exigem um governo que respeite quem produz. É urgente:

  1. Melhorar a qualidade do gasto: cortar privilégios e priorizar investimentos em ciência, tecnologia e educação.
  2. Responsabilidade fiscal: tornar a dívida sustentável para baixar os juros de forma estrutural, fomentando o agro.
  3. Incentivo à inovação: reduzir a burocracia para que o empreendedorismo inclusivo no campo possa prosperar.

O agronegócio é a prova de que o Brasil pode ser uma potência. Mas, para que a colheita continue farta, é preciso parar de consumir as sementes do amanhã com os gastos perdulários de hoje.

Gestão ética e compromisso com a realidade são os únicos caminhos para o Brasil que queremos.

Fonte: Artigo escrito por André Naves, defensor público federal, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social, mestre em Economia Política e doutor em Economia.
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Brasileiros veem transição energética como questão de segurança e soberania

Pesquisa indica que 76% da população considera urgente reduzir a dependência de combustíveis fósseis, ligando energia limpa à estabilidade econômica, geopolítica e fortalecimento da segurança nacional.

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Foto: Divulgação/Copel

Os brasileiros deram um recado claro e talvez mais lúcido do que muitas lideranças globais. Um estudo recente realizado pela Opium, agência de pesquisa de mercado, mostrou que 76% da população considera a transição energética mais urgente do que nunca, associando diretamente a dependência de combustíveis fósseis à instabilidade internacional e à vulnerabilidade econômica.

Esse dado revela uma mudança importante: a transição energética deixou de ser apenas uma pauta ambiental. Ela passou a ser, definitivamente, uma questão de segurança, competitividade e soberania. Mas continua sendo uma pauta financeira que impacta o meio ambiente, ao invés de ser uma pauta ambiental que impacta o bolso.

Durante décadas, tratamos energia como uma equação técnica ou econômica. Hoje, ela se mostra como um dos principais fatores geopolíticos do nosso tempo. Conflitos recentes e choques de preço reforçam uma realidade incômoda: depender de fontes fósseis, muitas vezes concentradas em regiões instáveis, é também importar risco.

Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição singular. Temos uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo e um potencial extraordinário em fontes renováveis. Mas o potencial, por si só, não gera valor. O que transforma essa vantagem em liderança é a forma como decidimos agir.

A transição energética não pode ser conduzida apenas pela lógica de substituição de fontes, trocar fóssil por renovável. Isso é necessário, mas insuficiente. O verdadeiro desafio está em como essa transição é feita: com inclusão, com visão de longo prazo e com geração de valor para todos os stakeholders.

Projetos energéticos precisam ir além da eficiência operacional, eles devem considerar o impacto nas comunidades, o desenvolvimento de cadeias locais, a geração de emprego qualificado e o acesso equitativo à energia. Caso contrário, corremos o risco de repetir, com novas tecnologias, os mesmos erros do passado.

Os dados levantados pela Opium mostram que 68% dos brasileiros acreditam que investir em energias renováveis fortalece a segurança nacional . Essa percepção está correta, mas ela só se concretiza quando há estratégia e ser acessível para todos.

Segurança energética não é apenas produzir energia limpa. É garantir resiliência, previsibilidade e autonomia. É investir em infraestrutura, em armazenamento, em inovação e, principalmente, em governança.

Outro ponto crítico é a mentalidade de curto prazo. Ainda há uma tendência, especialmente em conselhos e investidores, de priorizar retornos imediatos em detrimento de decisões estruturantes. No setor de energia, isso não é apenas um erro, é um risco sistêmico.

A transição energética exige capital paciente, planejamento consistente e métricas que vão além do retorno financeiro tradicional. Precisamos medir não apenas o que os projetos geram de lucro, mas também o que evitam custos, especialmente os impactos negativos que, historicamente, foram externalizados para a sociedade.

O Brasil tem a oportunidade de liderar um novo ciclo de desenvolvimento baseado em energia limpa, inovação e inclusão. Mas essa liderança não será automática. Ela dependerá da capacidade de integrar propósito e estratégia.

No fim das contas, a pergunta não é mais se devemos fazer a transição energética. Isso já está decidido, pela sociedade, pelo mercado e pela realidade geopolítica.

A pergunta que permanece é: vamos liderar essa transformação ou apenas reagir a ela?

Fonte: Artigo escrito por Hugo Bethlem, presidente do Capitalismo Consciente Brasil.
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