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Preços do suíno atingem máximas nominais

Impulso vem sobretudo da maior demanda doméstica típica desse período do mês (pagamento dos salários).

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Foto: Shuttestock

Os preços do suíno vivo e da carne vêm subindo com mais força neste começo de novembro, atingindo as máximas nominais das séries históricas do Cepea, iniciadas em 2022 para o animal e em 2009 para a carcaça.

Segundo pesquisadores do Cepea, o impulso vem sobretudo da maior demanda doméstica típica desse período do mês (pagamento dos salários).

Além disso, a procura externa pela carne suína também segue aquecida, levando agentes da indústria a intensificar a busca por novos lotes de animais em peso ideal para abate.

Fonte: Assessoria Cepea

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Desempenho reprodutivo das matrizes define a rentabilidade da suinocultura

Eficiência na cobertura, altas taxas de parição e manejo preciso são decisivos para maximizar o número de leitões desmamados por fêmea ao ano.

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O desempenho reprodutivo das fêmeas é um dos principais pilares da lucratividade na suinocultura. Mais do que números em planilhas, ele representa a eficiência de todo o sistema de produção, desde a maternidade até o abate. A capacidade de uma granja manter taxas de parição elevadas, alcançar metas de cobertura e assegurar o nascimento de leitões viáveis determina, em última instância, o retorno econômico do investimento. Mas atingir esse equilíbrio é um desafio complexo, que exige precisão técnica, disciplina operacional e uma compreensão profunda da fisiologia e das necessidades das matrizes suínas.

Em um setor cada vez mais competitivo, no qual cada leitão desmamado representa o resultado de uma cadeia de decisões técnicas, a reprodução deixou de ser apenas uma etapa do ciclo produtivo para se tornar uma engrenagem estratégica. “O sucesso no desempenho do plantel de matrizes é fundamental para a lucratividade da suinocultura”, afirma o médico-veterinário e doutor em Reprodução Animal Fernando Pandolfo Bortolozzo, professor titular do Departamento de Medicina Animal da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Médico-veterinário e doutor em Reprodução Animal Fernando Pandolfo Bortolozzo, professor titular do Departamento de Medicina Animal da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS): “A atenção individual às matrizes é essencial. Intervenções corretas no parto, redução de brigas e manejo higiênico de injetáveis reduzem doenças e mortalidade” – Foto: Jaqueline Galvão/OP Rural

Em sua participação no 21º Congresso Nacional da Abraves, realizado em meados de outubro em Belo Horizonte (MG), Bortolozzo destacou que existem múltiplos fatores que podem comprometer o sucesso reprodutivo, reduzindo o número de leitões entregues por fêmea ao longo do ano. Segundo o especialista, dados levantados em estudos conduzidos pelo grupo de pesquisa da UFRGS mostram que o número de leitões desmamados por lote no Sítio 1, etapa da produção onde estão alojadas as matrizes e ocorre o nascimento dos leitões, depende essencialmente de quatro variáveis: alcançar a meta de cobertura, taxa de parição, número de leitões nascidos vivos e mortalidade pré-desmame.

Embora o Sítio 1 funcione de forma independente em termos de estrutura, o professor ressalta que, dentro do modelo produtivo da suinocultura, o desempenho dos leitões nas fases seguintes – Sítio 2 (creche) e Sítio 3 (terminação) – é determinante para o sucesso econômico do sistema como um todo. “O leitão produzido no Sítio 1 precisa desenvolver bem nas fases subsequentes. Caso contrário, se perde parte do retorno do investimento feito na reprodutora”, explica o médico-veterinário, apontando dois fatores como decisivos para o sucesso reprodutivo das granjas: atingir a meta de cobertura dos lotes e assegurar altas taxas de parição.

Meta de cobertura

Na rotina das granjas, alcançar a meta de cobertura parece uma meta básica, mas representa um dos maiores desafios práticos. “Se não inseminarmos o número de matrizes pré-definido no lote, dificilmente atingiremos o alvo de leitões a desmamar”, observa Bortolozzo.

As fêmeas que compõem o lote de cobertura incluem as matrizes desmamadas, as leitoas de reposição e, eventualmente, as chamadas fêmeas de oportunidade, aquelas que, por algum motivo, não faziam parte do lote original, mas estão aptas à inseminação. “A manutenção de uma política rigorosa de descartes e o controle da mortalidade pré-inseminação são determinantes para preservar a qualidade do grupo”, pondera, ressaltando: “A reposição é outro ponto-chave. Precisamos garantir não só a qualidade das leitoas, mas também o fluxo contínuo e equilibrado de reposição, respeitando o número de fêmeas necessário em cada lote. Quando as metas de cobertura são atingidas respeitando critérios técnicos e de qualidade, a taxa de parição tende a alcançar ou até superar as metas definidas”.

Por outro lado, quando as metas quantitativas forçam o uso de fêmeas fora do padrão desejado, os riscos aumentam. “Se baixamos o rigor de seleção para atingir o número planejado de inseminações, acabamos utilizando matrizes com maior probabilidade de falhas reprodutivas”, alerta.

Produtividade ao longo da vida

Para Bortolozzo, a produtividade da matriz deve ser compreendida ao longo de todo o seu ciclo de vida. “O desempenho produtivo e a viabilidade econômica caminham juntos. Uma fêmea só começa a gerar retorno financeiro real a partir do terceiro parto”, destaca.

O desenvolvimento corporal das leitoas é o ponto de partida. O peso ao nascer e a qualidade fenotípica das leitegadas influenciam o desempenho futuro. “O bom crescimento nas fases de maternidade e creche é essencial para que a leitoa atinja o peso ideal na primeira inseminação. Isso impacta diretamente a longevidade produtiva”, pontua.

Outro aspecto decisivo é a indução adequada da puberdade, que permite o fluxo contínuo de leitoas de reposição. “Falhas nesse processo comprometem a taxa de cobertura e a estrutura etária do plantel”, diz.

Eficiência na inseminação

A eficiência reprodutiva também depende da precisão nos manejos de inseminação artificial. “A detecção de estro é um ponto crítico. A inseminação deve ocorrer no momento certo, com técnica adequada e sob condições de higiene rigorosa”, enfatiza.

Segundo o professor da UFRGS, a qualidade das doses de sêmen, desde a produção até o armazenamento e transporte, deve ser monitorada de forma constante. “Uma falha no controle da temperatura ou no tempo de uso da dose pode comprometer todo o lote”, reforça.

Equilíbrio que sustenta a fêmea

A manutenção de um escore de condição corporal adequado é outro fator determinante para a longevidade e o desempenho das fêmeas. A avaliação deve ser periódica, especialmente no desmame e a cada 30 dias durante a gestação. “Ajustar o plano nutricional conforme a condição da fêmea é essencial para equilibrar desempenho, bem-estar e produtividade”, menciona, acrescentado: “O uso de ferramentas como o Caliper, que reduz a subjetividade da avaliação visual, é recomendado. Sistemas automatizados de pesagem também podem ser aliados na gestão individualizada do rebanho”.

O aspecto nutricional, segundo o doutor em Reprodução Animal, é um dos mais desafiadores na atual genética suína, que exige altíssimo desempenho. “As matrizes representam uma fração pequena do plantel em número, mas consomem grande parte da ração total. É indispensável calibrar equipamentos de alimentação e garantir que todas as fêmeas recebam a quantidade e a qualidade de ração adequadas”, observa.

Além da ração, a água desempenha papel essencial. “Temperatura, fluxo e limpeza dos bebedouros precisam ser monitorados. O consumo de água está diretamente ligado ao consumo de ração e à produção de leite. Isso é ainda mais crítico na lactação”, salienta Bortolozzo.

Lactação

Durante a lactação, as fêmeas, especialmente as primíparas, enfrentam um grande desafio energético. “O principal meio de minimizar o catabolismo é maximizar o consumo de ração e água. Isso depende de uma boa ambiência, de ingredientes de qualidade e, em períodos quentes, de dietas formuladas com maior teor de gordura”, aponta o especialista.

A perda excessiva de peso nessa fase compromete não apenas o retorno ao cio, mas também a longevidade da fêmea. “O cuidado com as primíparas define muito do que será o futuro reprodutivo do plantel”, reforça.

Descarte

Manter uma política de descarte bem definida é outro pilar da sustentabilidade econômica. “A fêmea precisa permanecer no rebanho até pelo menos o terceiro parto para começar a dar retorno. Descartes excessivos ou mal direcionados alteram a estrutura etária e reduzem a produtividade”, explica Bortolozzo.

Segundo ele, a decisão deve ser técnica, embasada em indicadores de desempenho e condição corporal. “Nem toda fêmea com baixa produção deve ser descartada imediatamente. É preciso avaliar se a causa é transitória ou permanente”, pondera.

Saúde e bem-estar

Nenhum plano reprodutivo tem sucesso sem saúde e bem-estar. “A atenção individual às matrizes é essencial. Intervenções corretas no parto, redução de brigas e manejo higiênico de injetáveis reduzem doenças e mortalidade”, salienta, destacando a importância da aclimatação das leitoas à microbiota da granja de destino. “Essa adaptação prepara o sistema imune e reduz riscos sanitários no início da vida reprodutiva”.

Além disso, a observação diária é indispensável. “A equipe precisa ser treinada para identificar rapidamente as fêmeas que reduzem o consumo ou não se levantam. Designar um funcionário responsável pelo monitoramento e medicação das matrizes enfermas faz diferença direta no desempenho reprodutivo”, afirma.

Integração de fatores

Para Bortolozzo, o sucesso reprodutivo é resultado da soma de ações bem executadas. “Não existe um único ponto de virada. A eficiência vem da integração entre manejo, nutrição, sanidade e ambiente”, sintetiza.

Garantir a sustentabilidade econômica da granja exige atingir metas de cobertura e altas taxas de parição, sem abrir mão de critérios de seleção. “O desafio é fazer isso de forma consistente, com base em dados, treinamento e comprometimento da equipe”, enaltece.

Fonte: O Presente Rural
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Lucas Piroca assume presidência da comissão científica do SBSS

Transição planejada marca a saída de Paulo Bennemann após oito anos e a chegada de Lucas Piroca, com foco em manter o padrão técnico e ampliar a participação da cadeia produtiva na construção do SBSS.

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Foto: Kroma Fotografiais

Promovido pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas (Nucleovet), a comissão cientifica do Simpósio Brasil Sul de Suinocultura (SBSS) passou por uma mudança, durante reunião realizada na última sexta-feira (30), foi anunciado uma mudança na presidência. Após oito anos à frente da comissão, o médico-veterinário Paulo Bennemann deixa o cargo, que passa a ser ocupado pelo médico-veterinário e ex-presidente do Nucleovet, Lucas Piroca.

Comissão Cientifica do Simpósio Brasil Sul de Suinocultura (SBSS) passou por uma mudança, durante reunião – Foto: Karina Ogliari/MB Comunicação

A transição ocorre de forma planejada, segundo a presidente do Nucleovet, Aletéia Britto da Silveira Balestrin. A saída de Bennemann está relacionada a motivos profissionais, especialmente ligados à sua carreira pessoal, e foi conduzida de maneira natural dentro da estrutura da comissão. “Quando escolhemos um sucessor, buscamos alguém que, além da competência técnica, tenha alcance, proximidade com patrocinadores, afinidade com os temas do evento, as universidades, profissionais do setor e os membros da comissão”, destacou.

Legado
Médico-veterinário com experiência nas áreas de nutrição e suinocultura, Paulo Bennemann avaliou como desafiadora e enriquecedora a oportunidade de presidir a comissão científica do SBSS. “Estar à frente da comissão foi um grande desafio pelo porte que o Simpósio Brasil Sul de Suinocultura alcançou. A construção da programação, a definição de como levar informação prática e aplicada ao corpo técnico e ao desenvolvimento da suinocultura sempre foi um trabalho coletivo”, afirmou.

Bennemann comentou que os avanços do evento são resultado do esforço conjunto da comissão. “Não é uma construção individual. São

Médico-veterinário Paulo Bennemann e a presidente do Nucleovet, Aletéia Britto da Silveira Balestrin – Foto: Karina Ogliari/MB Comunicação

várias pessoas pensando em um bem comum. Para o meu crescimento, principalmente pessoal, foi muito importante estar à frente da comissão, conviver e trocar informações com os colegas. Deixo minha contribuição nesse momento, mas sigo colaborando com o Nucleovet”, pontuou.

Ao relembrar as principais conquistas ao longo de sua gestão, Bennemann enfatizou a relevância do Simpósio como um evento de destaque nacional. “O Nucleovet conquistou, ano após ano, uma visibilidade muito grande para a produção animal, não apenas para a suinocultura, mas também a avicultura e, mais recentemente, a bovinocultura. Ver o Simpósio Brasil Sul de Suinocultura sendo reconhecido como um evento que agrega valor é a principal satisfação”, avaliou.

Ele também pontuou o diferencial do SBSS na forma de apresentar o conhecimento. “É um evento científico, mas pensado em ciência aplicada ao campo. Não se limita a especialistas em suínos, mas envolve todas as pessoas da cadeia produtiva. Esse é o grande diferencial que tornou o Simpósio tão relevante no cenário nacional”, completou.

Lucas Piroca assume presidência da Comissão Científica do SBSS – Foto: Karina Ogliari/MB Comunicação

Novos desafios
Ao assumir a presidência da comissão científica, o médico-veterinário com atuação na área de produção de proteína animal, Lucas Piroca, salientou o compromisso de manter o padrão já estabelecido e ampliar a participação da cadeia produtiva na construção do evento.
Segundo Lucas, o trabalho já começou com a compilação de sugestões para a próxima programação. “Recebemos 19 recomendações e a ideia é chegar a um número próximo ao que já foi trabalhado anteriormente, mantendo a diversidade de temas. Vamos organizar essas propostas em painéis para discutir coletivamente”, explicou.

Lucas comentou que essa lógica de construção coletiva está alinhada à forma como o conhecimento se distribui na cadeia produtiva. “O conhecimento está disperso pela sociedade, dividido em pedaços incompletos e, muitas vezes, contraditórios entre os indivíduos. Isso torna impossível que uma única pessoa detenha todo o conhecimento. Esse conceito, associado a Friedrich Hayek, reforça que o funcionamento da sociedade e também da cadeia produtiva, depende de informações descentralizadas. Ao mesmo tempo, é preciso usar a razão para navegar nessas incertezas”, pontua.

O novo presidente também destacou que realizou um levantamento de programações de eventos nacionais e internacionais para servir de

Médico-veterinário Paulo Bennemann, presidente do Nucleovet, Aletéia Britto da Silveira Balestrin e o médico-veterinário e ex-presidente do Nucleovet, Lucas Piroca – Foto: Karina Ogliari/MB Comunicação

referência. “Compilei as programações dos principais eventos que já divulgaram seus conteúdos, no Brasil e fora dele, para que possamos nos inspirar. Também solicitamos a avaliação da última edição para identificar pontos de melhoria. Espero manter o excelente padrão estabelecido pela comissão anterior, sob a liderança do Paulo, e proporcionar ainda mais voz à cadeia produtiva. Queremos trazer ideias, demandas e dores do setor para abordar temas técnicos e científicos com aplicabilidade prática, permitindo que o conhecimento gere valor real para toda a cadeia”, concluiu Lucas.

SBSS
Médicos-veterinários, zootecnistas, produtores rurais, consultores, estudantes, pesquisadores e demais profissionais da agroindústria já podem garantir sua inscrição para o 17º Simpósio Brasil Sul de Suinocultura (SBSS), que será realizado entre os dias 11 a 13 de agosto de 2026, no Centro de Cultura e Eventos Plínio Arlindo de Nes, em Chapecó (SC)

Fonte: Assessoria Nucleovet
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Viabilidade econômica desafia avanço sustentável das granjas de suínos no Brasil

Pressionadas por exigências ESG, granjas enfrentam altos custos de adaptação, dilemas produtivos e a necessidade de equilibrar bem-estar animal, exigências ambientais e competitividade no mercado interno e externo.

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Fotos: Shutterstock

Pressionada por exigências ambientais, sociais e de governança, as chamadas práticas ESG, a suinocultura brasileira tenta avançar em sustentabilidade sem comprometer a viabilidade econômica. É uma equação difícil de resolver em um setor que alimenta milhões de pessoas, gera milhares de emprego e disputa espaço em um mercado internacional cada vez mais sensível a temas como bem-estar animal, emissões de carbono e uso racional de antibióticos. “A sustentabilidade deixou de ser um diferencial e se tornou uma condição de permanência no mercado”, afirma a zootecnista Sula Alves, doutora em Agronomia e diretora técnica da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), defendendo que o tema deve ser encarado como um processo contínuo de evolução e não uma imposição regulatória.

Segundo ela, a suinocultura brasileira já demonstra avanços importantes, mas enfrenta desafios que vão desde o alto custo de adaptação das granjas até as exigências globais por rastreabilidade e desmatamento zero. “O setor vem se movimentando antes mesmo de haver legislação. Mas sustentabilidade custa caro e o produtor precisa ter condições de acompanhar esse movimento”, enfatizou durante sua participação no 21º Congresso Nacional da Abraves, realizado em outubro, em Belo Horizonte (MG).

Elo entre bem-estar e saúde animal

Zootecnista Sula Alves, doutora em Agronomia e diretora técnica da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA): “Precisamos de instrumentos que estimulem a adoção de boas práticas, como linhas de crédito verdes, programas de capacitação e incentivos à inovação. O produtor quer fazer certo, mas precisa de condições para isso”

Entre os temas mais sensíveis estão o bem-estar animal e o uso de antimicrobianos, duas dimensões cada vez mais interligadas. “Quando o ambiente causa estresse, o animal fica mais vulnerável a doenças. Isso eleva a necessidade de antibióticos, o que compromete tanto o bem-estar quanto a sustentabilidade do sistema”, explica Sula.

Estudos apontam que cerca de 73% dos antimicrobianos utilizados no mundo são empregados na produção animal. O uso inadequado desses medicamentos é um dos fatores associados ao avanço da resistência antimicrobiana (RAM), reconhecida pela ONU como uma das maiores ameaças à saúde global. “Políticas claras de uso racional de antibióticos não são apenas uma exigência sanitária, mas uma demonstração de responsabilidade socioambiental. Elas impactam diretamente as avaliações ESG das empresas”, avalia.

No entanto, adotar práticas mais sustentáveis, segundo Sula, esbarra no que ela chama de paradoxo da sustentabilidade, o dilema entre o ideal ambiental e a realidade econômica. “Nem sempre a conta fecha. Eliminar certas práticas produtivas ou antibióticos pode reduzir a eficiência, aumentar custos e comprometer a rentabilidade. É preciso avançar com equilíbrio, para que sustentabilidade não se torne inviabilidade”, pondera.

Transição nas granjas

Um dos exemplos mais emblemáticos desse impasse é a transição das celas de gestação para baias coletivas. A mudança busca oferecer mais liberdade de movimento às fêmeas, mas exige alto investimento em infraestrutura. Segundo levantamento do Observatório Suíno de 2024, o custo elevado e a dificuldade de financiamento são as principais barreiras. “As pequenas e médias granjas são as que mais sofrem. Muitas não têm espaço ou capital para reformas e, em alguns casos, precisariam reduzir o plantel para se adequar. Isso ameaça a sobrevivência de produtores familiares e cria um problema social no campo”, alerta a zootecnista.

A especialista também destaca dilemas éticos e práticos ainda sem solução definitiva, como o corte de cauda e o desgaste de dentes. “São procedimentos usados para evitar ferimentos entre animais. Banir sem alternativas eficazes pode gerar mais sofrimento do que resolver. A ciência precisa caminhar junto com a regulação”, reforça.

Pressão ambiental

Se o bem-estar animal impõe desafios internos às granjas, o aspecto ambiental amplia o campo de pressão. A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) estima que a produção animal seja responsável por 14,5% das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE). O dado coloca o setor no centro das discussões sobre as metas climáticas do Acordo de Paris, que prevê limitar o aumento da temperatura média global a 1,5°C.

Na suinocultura, as principais fontes de emissões são o metano (CH4), liberado no manejo de dejetos, e o óxido nitroso (N2O), resultante da decomposição de resíduos e do uso de fertilizantes. “O grande desafio brasileiro está nas emissões indiretas, o chamado escopo 3, que incluem a origem dos grãos usados na alimentação animal. Garantir que a soja da ração não venha de áreas desmatadas é uma exigência crescente de importadores e consumidores”, destaca Sula.

Para isso, empresas têm investido em rastreabilidade e monitoramento rigoroso das origens de grãos, checando listas de embargo e adotando sistemas digitais de verificação. “A meta de desmatamento zero é inegociável para o mercado internacional. As cadeias que não se adaptarem perderão espaço”, menciona a diretora da ABPA.

Economia circular

Ao mesmo tempo, soluções de economia circular vêm ganhando força. O uso de biodigestores para converter dejetos em biogás e biofertilizantes transforma um passivo ambiental em ativo econômico. “É uma estratégia que reduz emissões, diminui custos com energia e ainda pode gerar novas fontes de receita. O produtor passa a ver o resíduo não como problema, mas como oportunidade”, explica.

Casos de sucesso já começam a surgir em várias regiões do país, com propriedades autossuficientes em energia elétrica ou integradas a cooperativas que comercializam o biogás excedente. “Essas iniciativas mostram que sustentabilidade e rentabilidade podem andar juntas quando há inovação e apoio técnico”, diz Sula.

Papel do Brasil no cenário global

Apesar das dificuldades, a especialista acredita que o país tem condições únicas para se destacar. “O Brasil reúne uma cadeia organizada, base tecnológica sólida e produtores cada vez mais conscientes. Isso nos coloca em posição de liderança na agenda global de sustentabilidade em proteína animal”, avalia.

O desafio, segundo ela, é fazer com que o ritmo das políticas públicas e do financiamento rural acompanhe a transformação do setor. “Precisamos de instrumentos que estimulem a adoção de boas práticas, como linhas de crédito verdes, programas de capacitação e incentivos à inovação. O produtor quer fazer certo, mas precisa de condições para isso”, salienta.

Para Sula, a sustentabilidade da suinocultura é um conceito que vai muito além do ambiental. “Ela abrange o bem-estar dos animais, das pessoas e do planeta. É uma construção coletiva, que exige diálogo, transparência e compromisso de toda a cadeia”, ressalta.

Entre pressões externas e avanços internos, a suinocultura brasileira tenta equilibrar produtividade, ética e responsabilidade ambiental. “Estamos construindo um novo pacto entre o campo e a sociedade. A sustentabilidade é, no fim das contas, a garantia de futuro para todos os elos da produção”, evidencia.

A versão digital já está disponível no site de O Presente Rural, com acesso gratuito para leitura completa, clique aqui.

Fonte: O Presente Rural
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