Notícias Maior feira mundial do setor
“Precisamos de uma reviravolta na pecuária global”, afirma presidente da EuroTier
Hubertus Paetow reforçou na abertura do evento a importância da inovação sustentável no setor, destacando a necessidade de decisões empresariais baseadas em demanda real, progresso técnico e sustentabilidade, além do papel da agricultura integrada a energias renováveis para um futuro alimentar sustentável.

Durante a abertura oficial da EuroTier 2024, a maior feira mundial de tecnologia e inovação para criação animal, que acontece até a próxima sexta-feira (15) no Centro de Exposições de Hanôver, na Alemanha, Hubertus Paetow, presidente da DLG (Sociedade Agrícola Alemã), entidade organizadora do evento, fez um chamado à ação para o setor agropecuário. Em seu discurso, Paetow enfatizou a importância de uma base confiável para a tomada de decisões no campo empreendedor, especialmente diante dos desafios globais e das recentes mudanças políticas nos Estados Unidos (EUA) e na Alemanha.

Fotos: DLG/Swen Pförtner
Sob o tema principal “Nós inovamos a criação de animais”, a EuroTier 2024 surge, segundo Paetow, como uma plataforma estratégica para intervenção o progresso técnico e a inovação de produtos na pecuária mundial. “Esta feira é o grande show de inovações, voltadas para o futuro de um setor que precisa se renovar para continuar competitivo”, afirmou Paetow, destacando o papel fundamental da EuroTier em conectar lideranças e especialistas com soluções sustentáveis e inovadoras.
Para Paetow, as recentes mudanças políticas refletem preocupações da população sobre os sistemas econômicos, vistos como a base da prosperidade, mas que, aos olhos de muitos, não estão evoluindo como poderiam. “Essa percepção é evidente na economia robusta dos EUA, e ainda mais na Alemanha, onde as interdependências globais exigem uma produtividade e competitividade ainda maiores das empresas”, destacou, frisando a necessidade urgente de promover o avanço econômico por meio de ações políticas e, sobretudo, do desenvolvimento em diversos setores, incluindo a agropecuária.
Foco em notícias relevantes para os negócios
Paetow ressaltou que, apesar do debate público influenciar a percepção sobre o setor, a criação de animais permanece, acima de tudo, um setor econômico, guiado por princípios de mercado e pelo desenvolvimento de estratégias baseadas em dados econômicos concretos. “As discussões públicas podem sugerir tendências, mas nem tudo o que surge na mídia e na política se traduz, necessariamente, em relevância econômica para o setor. As estratégias devem se basear no que seja economicamente significativo e não apenas no que é mais publicado”, afirmou o presidente da DLG.
Neste sentido, Paetow frisou que o EuroTier 2024 apresenta as inovações que realmente são importantes para os negócios, com tecnologias capazes de exercer produtividade e competitividade. Ele ressaltou que este avanço também depende do compromisso com o bem-estar animal e a proteção ambiental, aspectos considerados essenciais para o crescimento sustentável da indústria.

Consumo de produtos de origem animal
Um fator chave para as estratégias de pecuária global é a demanda por produtos de origem animal. Paetow observou que, enquanto nos países ricos o consumo desses produtos parece ter se estabilizado em um patamar mais baixo, em mercados emergentes, como China, Paquistão, Índia e América do Sul, a demanda continua a crescer. “Alcançamos, nos países afluentes, um nível de consumo de produtos animais que parece equilibrar prazer e razão ecológica, algo que os consumidores aceitaram como um compromisso”, explicou ele, reforçando que mesmo as sociedades mais prósperas não adotariam uma dieta completamente vegana num futuro próximo.
Nos mercados emergentes, onde o consumo de proteínas de origem animal continua em expansão, a produção precisa se adaptar para acompanhar o ritmo da demanda. Segundo Paetow, essa necessidade coloca em destaque temas como comércio global e divisão de trabalho, com o uso das vantagens comparativas de cada região para alcançar uma produção sustentável e atender à procura crescente. Esses fatores não apenas ampliam as oportunidades para exportadores, mas também são essenciais para uma produção global mais eficiente e alinhada com os padrões de sustentabilidade que a sociedade e o mercado excluem.
Paetow encorajou os participantes da EuroTier a explorar as soluções em exposição como uma resposta direta às demandas do setor e às expectativas dos consumidores, promovendo um futuro mais competitivo e sustentável para a pecuária global.
Atender à demanda global de forma sustentável
O anfitrião do evento reforça a necessidade de responder à crescente demanda global por carne de forma sustentável, especialmente diante das críticas ao setor pecuário europeu, muitas vezes acusado de produção para exportação. “Este é um debate mal concebido e enganoso”, afirmou, lembrando que a FAO prevê um aumento de 12% no consumo global de carne até o fim da década. Esse crescimento, segundo ele, exige a contribuição da produção animal sustentável na Europa, que possa ajudar a atender a essa demanda com práticas responsáveis e eficientes.
Paetow também destacou que a produção pecuária na Europa e na Alemanha não está em desacordo com as políticas de sustentabilidade alimentar locais. “Podemos reduzir o consumo de alimentos relacionados ao clima na Europa e, ao mesmo tempo, ajudar outras partes do mundo a atender à demanda por produtos de produtos de origem animal mais sustentáveis”, afirmou, criticando qualquer política que tente limitar a produção animal à demanda interna, o que ele considera uma forma de protecionismo econômico.
Visão mais detalhada sobre a pegada climática
A questão da pegada climática dos produtos de origem anima, amplamente debatida na sociedade, também foi abordada no discurso de Paetow, que ressaltou a necessidade de uma

análise diferenciada e baseada em evidências científicas. “A ideia generalizada de que ‘a criação de animais prejudiciais ao clima’ e a conclusão errônea de que ‘não usar produtos animais é proteção climática’ simplifica demais o problema e ignoram nuances essenciais”, explicou ele.
Ele apontou que há diferenças substanciais nas emissões entre espécies animais e destacou que o uso de pastagens pode ter um efeito positivo na absorção de carbono. Paetow também perguntou que, ao se considerar a pegada climática, é preciso levar em conta as emissões associadas ao processamento de produtos, que podem ocorrer tanto em origem animal quanto vegetal. “Por exemplo, o balanço de gases de efeito estufa de um frango criado em um celeiro alemão pode ser tão bom quanto o de um produto substituto feito de seitan importado”, argumentou, reforçando que a sustentabilidade da produção não deve ser medida apenas pela categorização de “animal” ou “vegetal”.
Segundo ele, é possível melhorar o impacto climático dos alimentos sem impedir a produção, mas sim incentivar uma política alimentar que torne a pegada climática transparente e mensurável, para que os consumidores façam escolhas conscientes e sustentáveis.
Avaliação da sustentabilidade na indústria
Paetow também apontou para a importância de se desenvolver sistemas eficazes para avaliar a sustentabilidade na criação de animais, especialmente diante das exigências regulatórias sobre relatórios de sustentabilidade que estão se tornando mandatórios em toda a cadeia de suprimentos. Segundo ele, uma política alimentar sustentável e prática já tem suas bases na regulamentação atual, mas alertou que o excesso de burocracia em Bruxelas e Berlim pode acabar comprometendo esse avanço, transformando a questão em um fardo para as empresas. “Precisamos de sistemas simples e eficientes para avaliação do clima corporativo dentro da indústria, pois o acúmulo de burocracia não ajuda ninguém”, afirmou.
Para o presidente da DLG, é vital que o setor assuma a responsabilidade de desenvolver e testar essas métricas climáticas e de sustentabilidade rapidamente. “Caso contrário, outros o farão, e o impacto pode ser visto nas regulamentações sobre relatórios de sustentabilidade aplicadas a grandes empresas”, disse, incentivando os participantes da EuroTier a usar o evento para discutir esse tema.

Foto: Selmar Marqusin/OP Rural
Importância dos investimentos para o crescimento do setor
Paetow destacou que, embora os resultados operacionais na criação de animais tenham sido positivos nos últimos anos, particularmente nas áreas de leite e aves, há uma preocupação com a baixa taxa de investimentos em novas instalações de criação de animais, especialmente na Alemanha.
Segundo ele, essa falta de investimentos afeta até mesmo a expansão de práticas que promovem maior bem-estar animal e a ampliação da capacidade de produção. “A Associação Alemã da Indústria de Laticínios já sinaliza que a oferta não está acompanhando a demanda crescente por produtos lácteos, mesmo com os preços historicamente altos da matéria-prima”, apontou Paetow, considerando esse cenário um alerta importante para o setor.
Para Paetow, o clima de incertezas sobre o futuro da produção animal está impedindo o investimento no setor, especialmente entre os jovens. Ele enfatizou a necessidade de que a sociedade, junto à política, trabalhe para superar essas dúvidas e crie um ambiente que valorize a pecuária como um modelo de negócio sustentável e promissor. “Superar esse clima de incertezas é uma tarefa da sociedade como um todo, e a política pode ajudar muito com incentivos e mensagens positivas”, expôs, enfatizando a importância de fortalecer a confiança no setor para garantir seu crescimento e competitividade no longo prazo.
Mensagens positivas invés de sinais contraditórios
Paetow salientou ainda a importância de que as mensagens transmitidas à sociedade sejam positivas e claras, sem os sinais contraditórios que atualmente dificultam as decisões empresariais. Ele mencionou que, nos últimos anos, ocorreram diálogos construtivos com stakeholders, como as comissões Borchert e ZKL, que renderam propostas viáveis para alinhar as expectativas sociais com a realidade econômica da pecuária.
Contudo, a hesitação dos políticos em financiar a transição da criação animal exigida pela sociedade e a falta de comprometimento do varejo em sustentar preços adequados para produtos com bem-estar animal enfraquecem essa mensagem. “As estratégias de investimento não podem ser baseadas em sinais contraditórios”, alertou.
Momento de transformação para o setor agrícola
O presidente da DLG defendeu que, assim como outros setores, a agricultura precisa de um ponto de virada. Segundo ele, sistemas alimentares sustentáveis que excluem a criação de animais são impraticáveis, e a ideia de uma transição para uma dieta exclusivamente vegana não é respaldada cientificamente nem exigida pela sociedade. “Se houver criação de animais no futuro, que seja moderna, eficiente e economicamente bem-sucedida”, declarou, destacando a importância de um setor forte para o avanço econômico e ambiental.
Na EuroTier, os participantes terão a oportunidade de ver de perto como o progresso tecnológico, a inovação e a sustentabilidade caminham juntos. Paetow destacou também a EnergyDecentral, uma área dedicada a soluções de energia descentralizada, como biogás, energia solar e eólica, que demonstra como a integração das energias renováveis à agricultura e à pecuária pode criar uma economia circular.

Diretor do Jornal O Presente Rural, Selmar Frank Marquesin está na Alemanha para acompanhar de perto as tendências que moldarão o setor agropecuário
Outro destaque é o Inhouse Farming – Feed & Food Show, um espaço focado em práticas sustentáveis, como aquicultura, criação de insetos e agricultura controlada, que mostra alternativas para um sistema alimentar resiliente.
Recorde de expositores e pavilhões de países
A EuroTier 2024 é palco de inovações que apontam o futuro da criação animal, com mais de 2,2 mil expositores de 51 países. “Cerca de 65% dos expositores vêm do exterior”, celebrou Paetow, ao destacar a presença de 25 pavilhões de países – um novo recorde para a feira. Outro aspecto promissor é a participação de quase 40 startups de 16 países, que trazem soluções inovadoras para a pecuária moderna.
Ele ainda destacou o vasto programa com mais de 500 eventos especializados que abordam os temas dos mais variados para o futuro da indústria. “Que seja uma feira que inspire o nosso setor a seguir inovando e a promover a sustentabilidade com um impacto significativo”, mencionou.
Além disso, o evento paralelo EnergyDecentral destaca soluções de energias renováveis ligadas ao agronegócio, reforçando o compromisso do setor com a sustentabilidade.
O Presente Rural pela 7ª vez no evento
O Jornal O Presente Rural participa pela sétima vez consecutiva do evento, representado pelo diretor Selmar Frank Marquesin, que está na Alemanha para acompanhar de perto as tendências que moldarão o setor agropecuário. Nas próximas edições de Avicultura Corte e Postura, Suínos e Bovinos, Grãos e Máquinas, os leitores poderão conferir todas as novidades, trazendo uma visão de brasileiros sobre o impacto dessas tecnologias no campo.

Notícias
Suinocultura encontra na mão de obra estrangeira uma resposta à falta de trabalhadores
Alejandro atravessou sozinho a fronteira para trabalhar em granjas brasileiras. Hoje, a esposa cursa técnico em Enfermagem, a filha sonha com Medicina Veterinária e a família já fala em permanecer no Brasil.

Há quatro anos, quando deixou a Argentina para tentar a vida no Brasil, Alejandro Cardoso carregava mais dúvidas do que certezas. Veio sozinho, em busca de trabalho. A esposa, Marlene Cristina Costa, e as filhas Cintia e Guadalupe permaneceram no país de origem. Hoje, a família vive reunida em Iporã do Oeste, no Extremo-Oeste catarinense, trabalha na suinocultura e já cogita um passo que parecia distante quando atravessou a fronteira: vender a casa na Argentina e construir uma nova vida definitivamente em solo brasileiro.
A história da família reflete uma realidade cada vez mais presente nas propriedades rurais do Sul do país. Diante da dificuldade de contratar trabalhadores brasileiros, granjas e agroindústrias passaram a contar com um número crescente de imigrantes para manter as operações.

Marlene Cristina Costa integra atualmente a equipe do setor de amamentação da Granja Barra Grande: “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”
Na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, onde a família trabalha atualmente, seis dos 23 colaboradores são argentinos. “Se não fosse a mão de obra estrangeira, nós estávamos sem mão de obra aqui”, afirma o sócio da granja, o mestre em Administração e especialista em Agronegócio Milton Melz.
A propriedade possui uma Unidade Produtora de Desmamados (UPD) com duas mil matrizes e um crechário para nove mil leitões. Melz também é sócio da Granja Bom Plano, em Vista Gaúcha (RS), igualmente integrada à Cooper A1, que opera outra UPD com duas mil matrizes e mantém 19 funcionários.
Segundo ele, a presença de trabalhadores argentinos deixou de ser exceção e se tornou parte da rotina produtiva da região. “Essa é uma realidade não só da nossa granja. A maioria das granjas do Oeste catarinense está usando mão de obra argentina, principalmente”, ressalta.
Recomeço em outro país
Antes de chegar ao Brasil, Alejandro nunca havia trabalhado na suinocultura. Na Argentina, atuou em serralheria e em atividades rurais. Marlene trabalhou durante anos com venda de passagens e como secretária.
O primeiro contato com a atividade ocorreu já em território brasileiro, quando o casal começou a trabalhar em outra granja. Há quase um ano, ambos ingressaram na Granja Barra Grande. Hoje, Alejandro atua como tratador de animais. Marlene trabalha no setor de amamentação.

Alejandro Cardoso trabalha como tratador na Granja Barra Grande: “A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”
A mudança foi motivada pela busca de condições econômicas mais favoráveis. Embora possuam casa própria na Argentina, o casal afirma que o alto custo de vida dificultava a construção de uma vida mais confortável. “Estamos muito felizes no Brasil. Eu vejo meus pais felizes, conseguem pagar as contas e ainda sobra dinheiro. Estamos vivendo melhor aqui”, relata a filha mais velha, Cintia, de 16 anos.
A adaptação, porém, não ocorreu sem obstáculos. Apesar de o casal já utilizar o chamado ‘portunhol’ no cotidiano, o idioma representou uma barreira importante para as filhas. A dificuldade foi tão significativa que as duas retornaram temporariamente para a Argentina e permaneceram cerca de um ano no país enquanto os pais continuavam trabalhando no Brasil. “Na Argentina a gente falava portunhol, então não tivemos problemas em nos comunicar aqui. A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”, conta Alejandro.
Escola, trabalho e novas oportunidades
Com a família completa no Brasil, a rotina começou a se estabilizar. Cintia atualmente cursa o segundo ano do Ensino Médio em escola pública. A irmã Guadalupe, de oito anos, também está matriculada na rede de ensino.
A adolescente diz perceber diferenças significativas entre os sistemas educacionais dos dois países. “Eu vejo muita diferença nos estudos. Os professores têm paciência para nos entender e para explicar os mais diversas assuntos. Na Argentina é muito difícil que um professor explique bem, porque lá os professores faltam muito na escola. Às vezes ficam uma semana inteira sem dar aula”, relata.

Além do trabalho na suinocultura, a família argentina encontrou espaço para o lazer e faz das viagens uma forma de conhecer melhor a região onde decidiu construir uma nova vida
Ela também destaca aspectos práticos da rotina escolar. “Lá na Argentina tem que pagar o transporte e o lanche na escola. Aqui no Brasil é ofertado de forma gratuita”, conta, entusiasmada.
Animada com a nova fase, Cintia já traçou objetivos para o futuro. “Quero continuar estudando e fazer faculdade de Medicina Veterinária”, destacou.
A busca por qualificação também faz parte dos planos da mãe. “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”, menciona Marlene, contando que iniciou um curso técnico em Enfermagem e pretende continuar os estudos após a conclusão da formação. “Na Argentina eu já tinha feito curso de agente de saúde. Depois de concluir este curso, quero fazer faculdade de Enfermagem. Meu objetivo é seguir neste ramo”, enfatizou.
Reconhecimento e qualidade de vida
Na avaliação da família, a experiência na Granja Barra Grande trouxe mais do que estabilidade financeira. Eles destacam reconhecimento profissional, respeito nas relações de trabalho e melhores condições para planejar o futuro.
A jornada ocorre das 07 às 11 horas e das 13 às 17 horas. “É um horário bom de trabalhar. Sempre dá para a gente sair e conhecer lugares novos. Gostamos muito disso”, relata Alejandro.
O trabalhador lembra que uma das primeiras conquistas veio poucos meses após chegar ao Brasil. “Com três meses trabalhando aqui já consegui comprar um carro. Era simples, mas nos levava para todos os lugares”, relembra, contando que tinha um Gol e agora conseguiu trocá-lo por um Siena.
Além do salário, o casal recebe benefícios como vale-alimentação, almoço na granja, auxílio para combustível e participação a cada três meses nos resultados da atividade. “À medida que o resultado melhora, eles também ganham mais”, frisa Melz.
Integração além da porteira
Para Melz, a contratação de estrangeiros exige muito mais do que oferecer uma vaga de trabalho. “A gente tem que ter uma acomodação para eles, uma casa digna, inserir na sociedade”, pontua, ressaltando que a integração precisa envolver também o poder público e a comunidade local. “Estamos conversando com o governo municipal de Iporã do Oeste para estruturar uma formação para esses estrangeiros, até por uma questão de inserção social, tanto para quem é do município quanto para quem chega”, frisa.
Melz acredita que o acolhimento é um dos fatores que explicam a permanência de muitos trabalhadores. “São funcionários dedicados. Eles passaram muitas dificuldades. Hoje têm uma qualidade de vida melhor aqui no Brasil e uma educação melhor para os filhos”, salienta.
O incentivo à formação profissional também faz parte da estratégia adotada na propriedade. “Nós estimulamos todos a estudar. Temos colaboradores cursando Administração e Ciências Contábeis”, diz.
Planos para ficar
Mesmo sentindo saudades dos familiares que permaneceram na Argentina, Alejandro e Marlene enxergam o futuro cada vez mais próximo do Brasil. A principal preocupação ainda envolve a casa que possuem no país de origem. “Foi difícil conseguir comprar aquela casa. A economia está complicada e ela não está alugada”, relata Alejandro.
Por isso, a família já discute uma mudança definitiva. “Estamos gostando muito daqui. Estamos pensando em vender nossa casa na Argentina e comprar nossa casa própria no Brasil”, adianta Alejandro.
Para Melz, histórias como essa ajudam a explicar por que os trabalhadores estrangeiros passaram a ocupar papel relevante na sustentação das granjas da região. “É uma família com caráter, não são aventureiros. São pessoas que vestem a camisa e cumprem horário”, ressalta.
A Edição Especial Cooperativismo 2026 pode ser acessada gratuitamente na aba Edições Impressas de opresenterural.com.br.
Notícias
Fundesa-RS fecha semestre com R$ 196,3 milhões em caixa e amplia investimentos em sanidade animal
Fundo aprovou as contas do primeiro semestre, destinou recursos para rastreabilidade bovina e indenizou produtores por abates sanitários.

O Conselho Deliberativo do Fundo de Desenvolvimento e Defesa Sanitária Animal do RS aprovou, em assembleia realizada na última quarta-feira (15), a prestação de contas do primeiro semestre do ano. O balancete consolidado indica receitas de quase R$ 21 milhões e o saldo disponível de R$ 196.3 milhões. As saídas, que correspondem ao pagamento de indenizações e investimentos em infraestrutura, capacitação, equipamentos e insumos, foram de R$ 6,38 milhões.
Só as indenizações referentes à pecuária leiteira totalizaram R$ 1,9 milhão nos primeiros seis meses do ano. O maior valor foi registrado no segundo trimestre, com R$ 1,34 milhão. O pagamento de indenizações é referente ao abate sanitário de bovinos em atendimento ao Programa Nacional de Controle e Erradicação de Brucelose e Tuberculose.
Também foram homologadas liberações de recursos para aquisição de equipamentos de identificação eletrônica (brincos e bastão de leitura), que integram o Projeto Piloto de rastreabilidade bovina no estado. O valor aportado foi de R$ 86 mil.
Desafios para o segundo semestre
Durante a assembleia, os conselheiros debateram sobre os impactos da medida da União Europeia para o setor de proteína animal do estado. O presidente do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos, José Roberto Goulart, pontuou que os compradores europeus estão correndo para comprar toda a carne bovina brasileira antes do prazo se esgotar em 3 de setembro.
O presidente da Associação Gaúcha de Avicultura, José Eduardo dos Santos, destacou o investimento de R$ 183 mil do Fundesa para o evento Conbrasfran, que será realizado em novembro em Gramado. Segundo Santos, será uma oportunidade para debater esse e outros temas importantes para a avicultura que vem enfrentando muitos desafios nos últimos anos.
Os conselheiros trataram ainda sobre a programação do setor durante a Expointer, que erá como base a Casa do Fundesa.
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Tecnologia acelera análise genética e desenvolvimento de novas cultivares de trigo
Plataforma reduz de dias para cerca de 12 horas o preparo de amostras de DNA e amplia a identificação de genes ligados à produtividade e à resistência a doenças.

Uma nova plataforma de genotipagem automatiza o preparo de amostras de DNA na Embrapa Trigo (RS) e amplia a capacidade de análise genética da cultura do trigo. A tecnologia reduz de dias para cerca de 12 horas o tempo necessário para essa etapa, reduzindo os custos da pesquisa e acelerando a identificação de marcadores genéticos ligados à produtividade e à resistência a doenças.
Esse avanço foi possível graças à evolução do processo de genotipagem, técnica que permite identificar variações no DNA de um indivíduo. “Em duas décadas, o protocolo foi modernizado, com a substituição das análises manuais em gel por sistemas de eletroforese, que usam campo elétrico para separar moléculas e, mais recentemente, pelo sequenciamento, que permite a genotipagem em larga escala e com alta precisão”, conta o laboratorista Jordalan Muniz.
O sequenciamento de segunda geração foi incorporado à rotina do Laboratório de Biotecnologia da Embrapa Trigo com a chegada de dois novos equipamentos: o ION Chef, responsável pelo preparo das amostras, e o ION GeneStudio S5 Plus, que realiza o sequenciamento. “Podemos dizer que o trabalho de um ano agora pode ser realizado em apenas uma semana. É um ganho de eficiência que reduz custos e acelera a obtenção de dados moleculares em apoio ao programa de melhoramento genético do trigo na Embrapa”, explica o pesquisador Luciano Consoli.
Potencial de uso da plataforma
O genoma do trigo é 5 vezes maior do que o genoma humano. Com o sequenciamento do genoma dessa espécie em 2018, a partir de um consórcio internacional de instituições de pesquisa, foi possível avançar em novas ferramentas de apoio ao trabalho da biotecnologia.
Atualmente, a equipe de Genética Molecular da Embrapa Trigo dispõe de informações de 5 mil marcadores moleculares para o trigo e de 3.500 marcadores para cevada compatíveis com essa plataforma. Segundo a laboratorista Tatiane Crespi, a identificação de marcadores moleculares, associados a genes de interesse, contribui para a seleção de linhagens com características agronômicas desejáveis.
Esse conhecimento resultou no desenvolvimento de um painel de marcadores para serem utilizados na cultura do trigo. Com o uso da plataforma de sequenciamento de segunda geração, é possível fazer a análise simultânea de 384 amostras com 202 marcadores, gerando aproximadamente 80 mil data points.
Além disso, a plataforma de genotipagem possibilita avaliar regiões específicas nas sequências de DNA. “O primeiro resultado do uso dessa tecnologia para a geração de dados moleculares de genotipagem é o aumento da eficiência do processo de geração de novas cultivares e na identificação de alelos ou partes de genes de interesse para os programas de melhoramento. Se antes tínhamos uma representação cartográfica, agora temos algo mais detalhado, com ruas e placas de sinalização”, afirma Consoli.
Avanços para o melhoramento genético
As cultivares ou linhagens de trigo analisadas, que possuem os marcadores moleculares de interesse, poderão ser utilizadas nos blocos de cruzamentos dos programas de melhoramento. No caso do trigo, essas análises já vêm sendo conduzidas, como no trabalho para ampliar a base da resistência genética às doenças, a exemplo da brusone, uma das frentes de trabalho consolidadas com o uso de análises moleculares e seleção assistida na Embrapa Trigo:
“Identificada, numa determinada cultivar, a presença de um marcador molecular associado à resistência, como por exemplo à brusone, suas plantas podem ser incorporadas ao programa de melhoramento para a realização de cruzamentos”, pontua a pesquisadora Gisele Torres. Porém, ela lembra que, no decorrer das avaliações a campo, é fundamental analisar a reação das plantas em condições de exposição ao fungo causador da doença:

Foto: Cleverson Beje
“A simples presença de um determinado marcador, mesmo quando fragmentos do DNA são conhecidos por conferirem resistência, não é suficiente para que as plantas que o possuem sejam resistentes. O trabalho da biotecnologia é complementar ao trabalho do melhoramento. Assim, para verificar a efetividade de um determinado marcador molecular, é essencial que os melhoristas avaliem a reação das plantas frente ao patógeno a campo”, complementa Torres.
Outras potencialidades de uso prático da plataforma de sequenciamento de segunda geração estão sendo exploradas pela equipe. Em solos, por exemplo, é possível fazer a extração do DNA de uma amostra para identificar os microrganismos que podem beneficiar o cultivo do trigo numa determinada região. Em outras palavras, identifica-se um perfil molecular daquele solo, o qual será, então, correlacionado com fatores de produção.
No desafio de desenvolver trigos para celíacos, é possível caracterizar marcadores moleculares associados a genes codificadores de proteínas relacionadas à resposta imunológica ao glúten. Os pesquisadores pretendem, ainda, explorar outras possibilidades de análises em expressão gênica por RNAseq, em sequenciamento de pequenos genomas (microrganismos), entre outras.
Consoli destaca o entusiasmo com o potencial de uso da ferramenta: “Antigamente utilizávamos uma lupa, passávamos para o microscópio e evoluímos para ver o que está dentro das plantas. Agora, conseguimos identificar todo tipo de variação presente nos fragmentos de DNA da planta que estão associados à defesa e ao uso de recursos do ambiente”.



