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Por que o agro demanda habilidades em sustentabilidade?

Esse cenário reflete uma transformação de carreiras, com novas demandas para profissionais do agro.

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Fotos: Divulgação/Arquivo OPR

As habilidades em sustentabilidade, conhecidas como green skills, estão em alta no agronegócio brasileiro em função de tendências globais que movimentam o mercado de trabalho e criam oportunidades de carreira. Esse movimento é impulsionado pela agenda climática, políticas ambientais, busca por competitividade e a crescente demanda de consumidores e investidores por produtos e práticas cada vez mais sustentáveis.

Os eventos da COP 29 (Baku) e da 19ª Cúpula do G20 (Rio de Janeiro), marcam mais uma etapa preparatória para o agronegócio brasileiro rumo à COP 30 (Belém, 2025). Nessa agenda internacional, o maior desafio para o agro brasileiro tem sido se consolidar como setor estratégico e que faz parte das soluções dos problemas globais agravados pelas mudanças climáticas e questões geopolíticas. Com mais da metade do território nacional coberto por vegetação nativa e como um dos grandes produtores agropecuários do mundo, o Brasil é o país com o maior potencial para atender à crescente demanda global por alimentos, fibras e energia limpa, contribuindo simultaneamente para a conservação ambiental, a segurança alimentar e a transição energética.

Tendências que estão impulsionando as habilidades em sustentabilidade no agro brasileiro

1. Integração de práticas sustentáveis nos negócios: empresas do agro estão adotando soluções sustentáveis em resposta a políticas públicas, como o RenovaBio, a Política Nacional de Biocombustíveis (PNPB), o Combustível do Futuro, Mercado de Carbono, a Bioeconomia, Programa Nacional de Bioinsumos e o Pagamento por Serviços Ambientais, dentre outras. Estas iniciativas estão conectadas a compromissos internacionais, como a Agenda 2030 da ONU, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), que são os compromissos climáticos assumidos pelos países signatários do Acordo de Paris. Regulamentações mais rigorosas também contribuem, como a implementação do Código Florestal Brasileiro, o combate ao desmatamento e a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Essas políticas e outras regulamentações têm criado uma demanda crescente por profissionais com habilidade para planejar, implementar e monitorar estratégias de sustentabilidade com resultados mensuráveis.

2. Expansão do mercado de energias renováveis: A busca por alternativas energéticas limpas e renováveis está acelerando no Brasil, com investimentos em bioenergia, como exemplo o hidrogênio verde, o etanol de segunda geração (2G), o etanol de milho, o biodiesel, o biogás, o biometano, a biomassa de resíduos agrícolas e outras tecnologias emergentes. A redução das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) é um dos focos primordiais, impulsionando a demanda por especialistas em energias renováveis e na gestão de projetos para a descarbonização. O Brasil tem uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta e com sua abundância de recursos naturais e expertise no agronegócio, está particularmente bem posicionado para seguir expandindo sua produção de energias renováveis, que recebe investimentos desde a década de 1970. A composição da matriz energética brasileira tem 49,1% de renováveis e 50,9% de fosseis. O agronegócio brasileiro contribui significativamente para a geração de energia limpa, especialmente por meio dos derivados da cana-de-açúcar (17,5%), da biomassa proveniente de resíduos agrícolas e florestais (8,4%) e do biodiesel (5,1%), totalizando cerca de 31% da matriz energética renovável brasileira em 2023.

3. Adoção de políticas ESG (Ambiental, Social e Governança): A implementação dos critérios ESG tem ganhado importância para atrair investidores e melhorar a reputação das empresas do agro no mercado global. A integração de práticas sustentáveis é um imperativo estratégico, e empresas estão em busca de profissionais que dominem práticas de governança, gestão de impacto ambiental e responsabilidade social, bem como especialistas em rastreabilidade, certificações, relatórios e auditorias de conformidade.

4.  Economia Circular e Gestão de Resíduos: O conceito de economia circular, que valoriza a reutilização e a reciclagem de materiais (como exemplo as embalagens pós-consumo), vem transformando o modo como os recursos são geridos. Essa tendência cria um aumento significativo na demanda por profissionais que possam desenvolver e gerenciar sistemas de economia circular, alinhando práticas sustentáveis aos processos produtivos e ao uso consciente de recursos.

Oportunidades de carreira em sustentabilidade

1. Consultoria em sustentabilidade: profissionais especializados são requisitados para ajudar empresas a implementar práticas mais sustentáveis, desenvolver estratégias de ESG e cumprir com regulamentações ambientais mais rigorosas, oferecendo orientação para uma transição econômica mais sustentável.

2. Engenharia ambiental, agronômica, florestal e energias renováveis: A demanda por profissionais capacitados em projetos de infraestrutura sustentável, energias limpas e soluções ambientais está crescendo. Esses profissionais desempenham papéis essenciais no desenvolvimento e  operação de sistemas de eficiência energética, além de colaborarem em projetos de reflorestamento, restauração de áreas degradadas e biodiversidade.

3. Gestão de ESG: Com a expansão das políticas ESG, as empresas buscam gestores capazes de integrar critérios ESG em suas operações e estratégias corporativas, promovendo uma cultura organizacional voltada para práticas sustentáveis e governança responsável.

4. Desenvolvimento de produtos e soluções mais sustentáveis: designers, pesquisadores e empreendedores são cada vez mais requisitados para criar produtos inovadores que melhorem a performance em sustentabilidade. Startups e empresas de base tecnológica digital têm se destacado na criação de soluções inovadores para melhorar a eficiência e gerar valor.

O mercado de trabalho no agronegócio está se expandindo para além das carreiras tradicionais, criando funções voltadas às demandas de sustentabilidade e ESG. Entre elas destacam-se: gestores de sustentabilidade corporativa, especialistas em energia renovável, gerentes de descarbonização, analistas de risco climático, gestores de recursos hídricos e resíduos, analistas de ciclo de vida (ACV), profissionais de bioeconomia, consultores de conformidade ambiental, cientistas de dados ambientais, gestores de cadeias de suprimentos sustentáveis, especialistas em marketing sustentável, profissionais de finanças verdes e educadores em sustentabilidade.

Essas funções exigem habilidades como visão de longo prazo, pensamento sistêmico e inovação sustentável, além de conhecimentos em economia circular, regulamentação e tecnologia.

A importância do agro na economia e no emprego

Foto: AEN

O agro desempenha um papel fundamental na economia do país, tanto na geração de riqueza quanto na criação de empregos. Em 2023, o agronegócio brasileiro representou 24% do PIB, gerou um superávit de US$ 141 bilhões na balança comercial e o número de pessoas empregadas atingiu 28,34 milhões, representando 26,8% do total de ocupações no país. Nas últimas décadas, o setor agropecuário tem registrado o maior aumento na produtividade em relação ao setor de serviços e a indústria, tendo como uma das causas o aumento da escolaridade e da qualificação profissional. Embora a agropecuária brasileira tenha demonstrado avanços notáveis em produtividade e competitividade, a escolaridade da força de trabalho ainda é baixa e os investimentos em capacitação ainda são altamente necessários. Nesse cenário, as oportunidades para profissionais mais qualificados são relativamente maiores que em outros setores.

Conclusão

As habilidades em sustentabilidade estão aumentando e se tornando indispensáveis no agronegócio brasileiro, não mais como um diferencial competitivo, mas como uma exigência crescente em diversas cadeias produtivas. Esse cenário reflete uma transformação de carreiras, com novas demandas para profissionais do agro, pois exige formações e conhecimentos multidisciplinares, contribuindo para que o agro brasileiro seja cada vez mais competitivo e preparado para enfrentar os desafios climáticos e socioambientais.

Fonte: Por Roberto Araújo, Engenheiro agrônomo, membro do Conselhom Científico Agro Sustentável (CCAS), mestre em Agronegócios e pós-graduado em Engenharia de Irrigação e Proteção de Plantas

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Jornada de 40 horas pode exigir reestruturação de escalas e contratos no Brasil

Proposta reduz carga semanal, amplia descanso remunerado e desafia setores dependentes de operações ininterruptas.

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A aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 221/2019, que reduz a jornada semanal para 40 horas, assegura dois dias de repouso semanal remunerado e proíbe a redução salarial, inaugura uma das mais profundas reformas nas relações de trabalho desde 1988. A proposta, agora em tramitação no Senado Federal, altera o artigo 7º da Constituição e redefine a lógica jurídica da duração do trabalho no Brasil.

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O debate social que impulsionou a PEC é legítimo, visto que a busca pelo equilíbrio entre trabalho e vida privada tornou-se central nas economias contemporâneas. Contudo, sob o prisma técnico-jurídico, o texto aprovado apresenta graves defeitos estruturais capazes de gerar insegurança jurídica, explosão de litigiosidade e severos impactos econômicos nos setores produtivos.

O erro capital da proposta reside na rigidez de sua constitucionalização. A PEC estabelece um modelo uniforme para atividades econômicas completamente distintas, ao impor constitucionalmente dois dias de repouso semanal remunerado, um deles preferencialmente aos domingos.

Essa uniformização ignora a complexidade operacional de setores dependentes de turnos ininterruptos, como saúde,

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comércio, hotelaria, segurança, logística, agronegócio e indústria. Embora o texto acene com a compensação por negociação coletiva, restringe a flexibilidade a uma contabilidade “na média”, com a obrigação de cumprir ao menos um repouso semanal dentro da própria semana. A margem de manobra das empresas, portanto, desaparece.

Regimes diferenciados de trabalho
A dificuldade técnica se agrava porque o texto simula permitir regimes diferenciados por lei, mas condiciona essa flexibilização aos limites rígidos fixados nos novos incisos do artigo 7º (oito horas diárias, 40 horas semanais e dois descansos). Na prática, a proposta promete uma saída que ela mesma tranca, o que inviabiliza as escalas e regimes especiais permanentes exigidos pela dinâmica de diversos setores.

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Outro ponto crítico é a colisão frontal entre a PEC e a autonomia coletiva. O Supremo Tribunal Federal, no julgamento do Tema 1046 da repercussão geral, consolidou o entendimento de que as normas coletivas podem pactuar a flexibilização de direitos trabalhistas, desde que preservado o patamar civilizatório mínimo. Ao constitucionalizar parâmetros engessados, a proposta esvazia o papel dos sindicatos e anula a construção de soluções setoriais customizadas.

Perda de eficácia
A situação se torna ainda mais alarmante com a regra que decreta a perda de eficácia, em apenas 60 dias, de cláusulas de acordos e convenções coletivas incompatíveis com o novo regime. Essa ruptura abrupta será, inevitavelmente, o estopim de uma avalanche de ações judiciais.

A invalidação sumária de instrumentos vigentes destrói a lógica de concessões recíprocas da negociação sindical e

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compromete a estabilidade das pactuações. Normas coletivas possuem prazo determinado, impactos financeiros previamente calculados e servem de base para o planejamento empresarial. Subvertê-las em prazo tão reduzido afronta os princípios constitucionais da proporcionalidade, da proteção da confiança legítima e do ato jurídico perfeito.

Do ponto de vista econômico, o aspecto mais preocupante está na aplicação imediata das novas regras aos contratos vigentes sem redução salarial. A diminuição da jornada, com a manutenção de salários nominais, pisos e estruturas remuneratórias, eleva automaticamente o custo da hora trabalhada.

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Impacto financeiro
O impacto financeiro dessa rigidez constitucional ultrapassa a contabilidade interna das empresas e atinge diretamente as contas públicas e os contratos de terceirizações de mão de obra intensiva junto ao Poder Público. A ausência de mecanismos constitucionais claros para o reequilíbrio econômico-financeiro desses vínculos gerará uma onda inevitável de pedidos de repactuação ou rescisão forçada, em flagrante ofensa à livre iniciativa.

Diante desse cenário, o Senado Federal, historicamente reconhecido como a ‘Câmara Alta’ e o guardião do pacto federativo, assume o papel essencial de freio analítico. Cabe à Casa revisar o açodamento da Câmara e calcular o reflexo inflacionário nos serviços essenciais, sob o risco de converter o avanço social em colapso na prestação de serviços básicos.

O impacto da proposta também alcança os planos de cargos e salários e as normas coletivas já em execução. Apesar

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disso, o texto omite mecanismos constitucionais claros de reequilíbrio econômico-financeiro para as empresas afetadas. Essa lacuna fere diretamente a livre iniciativa. O STF já reconheceu que reformas constitucionais se submetem a limites materiais implícitos quando atingem a estabilidade institucional e a proteção das relações jurídicas consolidadas.

A dubiedade do texto também alcança as jornadas já inferiores a 40 horas. Embora declare preservar as situações mais benéficas, a PEC submete essas categorias às novas regras de repouso semanal, o que detonará disputas jurídicas sobre a validade de regimes como o de 12×36, banco de horas e turnos diferenciados de compensação.

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Exiguidade da transição
Por fim, chama atenção a exiguidade da transição. O texto estabelece redução para 42 horas semanais em 60 dias e a implementação definitiva das 40 horas em apenas 12 meses. Para setores complexos, este intervalo é insuficiente para organizar escalas, renegociar contratos, adaptar sistemas de ponto e promover contratações adicionais.

A experiência internacional demonstra que reformas profundas de jornada exigem gradualismo, incentivos econômicos e mecanismos robustos de transição regulatória. A PEC brasileira, contudo, impõe uma mudança estrutural ampla em prazo incompatível com a heterogeneidade da economia nacional.

A discussão agora bate à porta do Senado Federal. Caberá à Casa o bom senso de converter o açodamento legislativo em um debate técnico real. Alterar a rotina produtiva do país sem o devido gradualismo não protege o trabalhador; destrói a viabilidade dos negócios que sustentam o seu emprego. O parlamento tem em mãos a chance de aperfeiçoar o texto, para evitar o risco real de converter uma legítima bandeira de bem-estar social em um histórico motor de desorganização econômica, desemprego e litigiosidade em larga escala.

Fonte: Artigo escrito por Ana Paula Oriola De Raeffray, doutora em Direito; e Franco Mauro Russo Brugioni, advogado especialista em Relações de Trabalho.
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Quando o crédito deixa de financiar sonhos e passa a financiar a sobrevivência

Endividamento recorde de famílias e empresas revela distorções que comprometem o desenvolvimento econômico.

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O Brasil enfrenta um desafio econômico que exige atenção imediata: o avanço do endividamento das famílias e das empresas. Mais do que um problema conjuntural, trata-se de uma questão estrutural que afeta o consumo, os investimentos, a geração de empregos e a capacidade de crescimento sustentável do País. Nesse cenário, tornam-se fundamentais o fortalecimento da educação financeira e a ampliação de modelos de crédito mais próximos das necessidades da população e do setor produtivo.

Os números revelam a dimensão do problema. Atualmente, o País registra 82,8 milhões de CPFs negativados, o equivalente a 50,5% da população adulta. Em outras palavras, para cada brasileiro adimplente existe um inadimplente. No ambiente empresarial, a situação também é preocupante: são 8,87 milhões de CNPJs negativados. Os dados do Banco Central e da Serasa evidenciam uma realidade que compromete o desenvolvimento econômico e social.

As famílias de menor renda são as que mais recorrem ao crédito. Muitas vezes, o financiamento deixa de ser uma ferramenta para realização de projetos e passa a ser utilizado para cobrir despesas básicas. O resultado é um ciclo de endividamento que reduz a capacidade de planejamento e aumenta a vulnerabilidade financeira.

Entre as empresas, observa-se uma situação igualmente preocupante. Em vez de financiar expansão, inovação ou

Imagem criada pelo ChatGPT/Jaqueline Galvão/OP Rural

modernização, o crédito é frequentemente utilizado para manter as operações em funcionamento, pagar fornecedores e cumprir compromissos correntes. Quando o crédito deixa de impulsionar investimentos e passa a financiar a sobrevivência, perde-se um importante motor de crescimento econômico.

Parte dessa realidade decorre da baixa capacidade de poupança nacional. O Brasil possui uma taxa de poupança equivalente a apenas 14,5% do Produto Interno Bruto, uma das menores do mundo. Como a poupança é a principal fonte de financiamento dos investimentos públicos e privados, sua insuficiência contribui para a elevação dos juros e para a escassez de recursos disponíveis ao setor produtivo.

A situação é agravada pela elevada participação do governo no mercado de crédito. Hoje, de cada R$ 100 que circulam na economia sob a forma de crédito, R$ 44 são absorvidos pelo setor público. Restam apenas R$ 56 para atender milhões de famílias e empresas. Essa disputa por recursos escassos pressiona as taxas de juros e restringe ainda mais o acesso ao financiamento.

O desequilíbrio fiscal também contribui para esse cenário. O crescimento contínuo dos gastos públicos aumenta a percepção de risco, encarece o financiamento da dívida e mantém os juros elevados por mais tempo. Os reflexos atingem diversos setores, inclusive o agronegócio, onde o crédito rural enfrenta dificuldades crescentes, com aumento das exigências de garantias, maior distância entre os valores anunciados e efetivamente liberados e índices históricos de inadimplência.

Diante desse contexto, a educação financeira assume papel estratégico. Mais do que ensinar conceitos de orçamento e investimento, ela promove uma cultura de planejamento, responsabilidade e visão de longo prazo, permitindo que famílias e empresas tomem decisões mais conscientes.

Igualmente importante é reconhecer o papel das cooperativas de crédito. Em um ambiente marcado pelo alto custo financeiro, elas oferecem uma alternativa baseada na proximidade com os associados, na gestão democrática e no compromisso com o desenvolvimento regional.

Santa Catarina é referência nesse segmento. O ramo crédito reúne 69 cooperativas financeiras, com cerca de 4 milhões de associados e 20,8 mil colaboradores. Em 2024, essas cooperativas registraram receitas totais de R$ 28,7 bilhões, crescimento de 36% em relação ao ano anterior. Esses números demonstram a força de um modelo que reinveste recursos nas comunidades e amplia o acesso ao crédito em condições mais adequadas.

Em um País marcado pela baixa poupança, pelo elevado endividamento e pela escassez de crédito produtivo, as cooperativas de crédito representam parte importante da solução. Ao promover inclusão financeira, educação econômica e desenvolvimento local fortalecem famílias, empresas e comunidades. Construir um futuro mais próspero passa, necessariamente, pela responsabilidade fiscal, pela educação financeira e pela valorização de modelos cooperativos que coloquem as pessoas no centro das decisões econômicas.

Fonte: Artigo escrito por Vanir Zanatta, presidente da Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina (Ocesc).
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Do Arco Norte às enchentes no Sul: os novos desafios do agro brasileiro

Diferenças regionais moldam estratégias de produção, logística e adaptação climática em um setor que respondeu por 48,5% das exportações do país em 2025.

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Enquanto o Norte amplia sua importância como corredor logístico e nova fronteira de expansão agrícola, o Sul busca se adaptar aos impactos crescentes das mudanças climáticas sem abrir mão da alta produtividade que historicamente caracteriza a região. Mais do que diferenças geográficas, esse contraste revela dois modelos distintos de desenvolvimento que ajudam a explicar os rumos do agronegócio brasileiro.

Foto: Shutterstock

Os números demonstram a relevância do setor para a economia nacional. Em 2025, o agronegócio brasileiro alcançou exportações recordes de US$ 169,2 bilhões, respondendo por 48,5% das vendas externas do país. Por trás desse desempenho, no entanto, existe uma realidade marcada por características regionais bastante diferentes, que influenciam desde a produção até a competitividade internacional.

Nova fronteira agrícola e logística

No Norte, o clima equatorial, com elevadas temperaturas, alta umidade e grande volume de chuvas ao longo do ano, favorece culturas como cacau, açaí e diversas frutas tropicais. Ao mesmo tempo, essas condições impõem desafios significativos à infraestrutura logística. O excesso de chuvas pode dificultar o transporte, elevar custos operacionais e aumentar a complexidade da armazenagem e do escoamento da produção. Nos últimos anos, porém, a região também passou a registrar um crescimento expressivo na produção de soja e milho, especialmente em estados como Pará, Tocantins e Rondônia. 

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A expansão dessas safras transformou parte do Norte em uma nova fronteira agrícola nacional, ampliando a relevância nas exportações. Porém, garantir o sucesso desse avanço requer um planejamento técnico refinado, capaz de responder às instabilidades climáticas e adaptado às realidades de solo, regime hídrico e infraestrutura.

Apesar dessas limitações, a região ganhou relevância estratégica nos últimos anos graças ao fortalecimento do chamado Arco Norte, conjunto de corredores logísticos e portos responsáveis por ampliar significativamente o escoamento de commodities agrícolas para os mercados internacionais. A redução das distâncias de transporte e a diversificação das rotas de exportação transformaram a região em um importante elo da cadeia agroexportadora brasileira.

Além da expansão logística, o Norte apresenta uma dinâmica produtiva fortemente conectada à biodiversidade local

Foto: Divulgação/OP Rural

e à valorização de produtos associados à floresta, criando oportunidades que combinam agricultura, desenvolvimento regional e sustentabilidade.

Tecnologia reduz riscos

Contudo, mesmo em áreas historicamente úmidas, períodos de estiagem mais prolongados começam a alterar o planejamento agrícola. Dentro desse contexto, cresce o uso de sistemas de irrigação por pivô central, um equipamento automatizado que se move de forma circular sobre a lavoura por meio de torres com rodas. Sua principal função é distribuir água de maneira uniforme, assemelhando-se às chuvas, sendo assim, é uma alternativa para garantir estabilidade produtiva. 

Foto: Pareekshith Indeever/Pexels

Atualmente, a adoção dessa tecnologia modifica diretamente a forma como os produtores estão organizando o calendário de plantio, escolhendo cultivares e administrando os recursos hídricos disponíveis. Com a menor previsibilidade climática, os produtores que dispõe de ferramentas como essa conseguem distribuir melhor o risco da produção e ampliar a segurança operacional das lavouras. 

Resiliência climática

Já a região Sul possui um perfil bem diferente, com uma agricultura consolidada, elevado grau de mecanização e forte presença do cooperativismo, os estados do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina estão entre os maiores produtores nacionais de soja, milho, trigo, arroz, aves e suínos. O clima subtropical, marcado pela definição das estações e pela ocorrência de temperaturas mais baixas durante parte do ano, contribuiu historicamente para a diversificação e o desenvolvimento tecnológico das atividades agrícolas.

Entretanto, o Sul enfrenta hoje um desafio crescente: a intensificação dos eventos climáticos extremos. As

Foto: Divulgação/Embrapa

enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 e os períodos recorrentes de estiagem observados nos últimos anos evidenciam como as mudanças climáticas vêm afetando a produtividade das safras e o planejamento dos produtores rurais. Destaca-se também as geadas fora de época e episódios de chuvas de granizo que geram perdas relevantes em culturas como milho, trigo e hortaliças, comprometendo tanto a qualidade quanto o volume da produção. Como consequência, custos operacionais são elevados e dificultam a previsibilidade do setor agrícola, tornando a adaptação climática uma prioridade. 

Investimentos em agricultura de precisão, manejo sustentável, monitoramento meteorológico e tecnologias voltadas à resiliência produtiva ganham cada vez mais importância para reduzir riscos e preservar a competitividade do setor. Entre as principais estratégias, cresce a busca por variedades geneticamente mais resistentes às oscilações bruscas de temperatura e ao excesso de umidade. A escolha das sementes, por exemplo, deixa de seguir somente critérios de produtividade e passa a considerar a adaptabilidade às condições específicas de cada território. O Norte demanda variedades tolerantes a alta umidade e solos tropicais, enquanto o Sul depende da ampliação do uso de materiais mais resistentes à estiagem, ao frio intenso e às variações climáticas repentinas. 

Foto: Imagem criada por Jaqueline Galvão/ChatGPT/OP Rural

Ao comparar as duas regiões, fica evidente que o Norte e o Sul enfrentam desafios distintos, mas igualmente estratégicos. De um lado, a necessidade de ampliar infraestrutura logística e conciliar expansão produtiva com sustentabilidade ambiental. De outro, o desafio de adaptar sistemas agrícolas altamente desenvolvidos a um cenário climático cada vez mais instável e imprevisível. Em comum, ambas as regiões demonstram que inovação, logística eficiente e capacidade de adaptação serão fatores decisivos para manter o Brasil entre os principais protagonistas do mercado agrícola global.

O futuro do agronegócio brasileiro não será definido por uma única região, mas pela capacidade de integrar diferentes vocações produtivas e superar desafios específicos de cada território, essa é a lição de casa.

Fonte: Artigo escrito por Felipe Vicentini Santi, especialista em agronegócio, com formação em Gestão Ambiental e Gestão em Agronegócio.
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