Avicultura
Por que o acordo UE–Mercosul não é solução mágica para o agronegócio brasileiro
Tratado prevê redução gradual de tarifas e ampliação de mercados, porém depende de ratificação e manutenção de exigências sanitárias e ambientais rigorosas.


Foto: Arquivo Pessoal
Artigo escrito por Giuliano De Luca, jornalista, editor do jornal O Presente Rural
O anúncio de um acordo de livre comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul – bloco que inclui Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – foi comemorado em vários setores como uma possível ampliação de mercados para produtos brasileiros, em especial do agronegócio. Mas por trás das manchetes e da euforia inicial, há uma realidade mais complexa e que merece ser compreendida com cuidado pelo produtor rural.
O texto do acordo estabelece compromissos amplos de comércio e cooperação entre os dois blocos, incluindo redução gradual de tarifas, facilitação de comércio e regras sobre propriedade intelectual, padrões sanitários e ambientais.
Ainda assim, apesar de parecer um avanço, o acordo não é uma solução pronta para aumentar exportações do agronegócio brasileiro nem garante acesso irrestrito ao mercado europeu. Ele enfrenta desafios jurídicos e políticos que podem atrasar ou limitar sua implementação – e isso afeta diretamente o que o produtor pode esperar.
Como o acordo foi construído
O processo de negociação entre Mercosul e UE levou mais de 25 anos antes de se chegar a um texto político e comercial definitivo que fosse aceito por ambos os lados. Em janeiro de 2026, os países signatários assinaram formalmente o tratado em Assunção (Paraguai), marcando um marco histórico nas relações comerciais entre os blocos.
O acordo é composto por duas partes principais: Um Acordo de Parceria que inclui diálogo político, cooperação e comércio; um Acordo Comercial Interino que pode ser aplicado antes da ratificação completa pelos parlamentos nacionais.
Porém, ele ainda precisa passar por etapas de ratificação, inclusive pelo Parlamento Europeu, e a aprovação de todos os parlamentos dos países do Mercosul para entrar em vigor de forma plena – o que pode levar meses ou até anos.
Limitações imediatas para o agronegócio
Mesmo com a assinatura, o texto não significa automaticamente tarifas zeradas ou acesso livre e imediato ao mercado europeu para produtores brasileiros. Na prática, o acordo prevê eliminação progressiva de tarifas ao longo de anos ou décadas, em janelas diversas dependendo do produto.
Para produtos sensíveis, como carnes, açúcar, etanol e outros, o acordo também inclui mecanismos de quota e salvaguardas que podem restringir o volume de importações sem tarifa ou com tarifa reduzida.
Além disso, a UE conta com regras sanitárias, fitossanitárias e ambientais rigorosas que permanecem valendo mesmo após a entrada em vigor do acordo, e que muitas vezes exigem certificações adicionais para acessar o mercado.
Desafios jurídicos e políticos na Europa
A ratificação do acordo não está garantida. Em janeiro de 2026, o Parlamento Europeu votou por encaminhar o texto à Corte de Justiça da União Europeia (ECJ) para uma revisão legal, o que suspendeu parcialmente o processo de ratificação e pode adiar a entrada em vigor por meses ou anos.
Essa decisão foi motivada por preocupações sobre detalhes técnicos e a forma como o acordo foi estruturado, mas também reflete pressões políticas internas na Europa, especialmente de setores agrícolas que temem concorrência com produtos importados.
Salvaguardas e proteção europeias
Muitos dos chamados “mecanismos de proteção” no acordo foram negociados para tranquilizar setores sensíveis dentro da UE. Documentos oficiais explicam que, para culturas e produtos considerados vulneráveis, será possível aplicar tarifas ou restrições temporárias caso importações causem danos sérios à agricultura local.
O texto também prevê proteção para produtos alimentícios europeus tradicionais, garantindo que nomes geográficos e métodos de produção possam ser reconhecidos e resguardados no Mercosul, o que favorece mercados estabelecidos na UE.
O que isso significa para o produtor rural brasileiro
Para quem vive do campo e acompanha as negociações com interesse, é importante entender que a assinatura política não significa que os produtos brasileiros poderão entrar sem tarifas hoje, o acordo está sujeito a revisões legais e políticas que podem mudar prazos e termos e que produtos agrícolas, inclusive carne, terão tarifas reduzidas ao longo de vários anos, dependendo das negociações específicas.
Além disso, certificações sanitárias, regras de origem e padrões ambientais exigidos pela UE seguem como condição de acesso. E ainda: o acordo contém mecanismos que permitem abrir tarifas em caso de risco para mercados sensíveis do bloco europeu.
Análise realista, sem ilusões
O acordo UE–Mercosul é um passo diplomático e comercial importante, mas não se trata de uma fórmula mágica de crescimento para o agronegócio brasileiro. Ele abre perspectivas de acesso mais previsível ao maior bloco econômico do mundo, mas o efeito prático para o produtor dependerá de fatores que vão muito além da assinatura: ratificação legislativa, adaptações sanitárias, conquistas de quotas e capacidade de competir com padrões e exigências rígidos de mercado.
O produtor rural deve acompanhar com atenção, mas com a consciência de que a balança entre oportunidades e entraves é complexa, e que o ganho real virá de estratégias robustas de produção, qualidade e conformidade com normas internacionais – não apenas de um acordo que ainda precisa ser implementado.

Avicultura
Exportações de frango do Rio Grande do Sul crescem 22,3%
Estado embarcou 62,9 mil toneladas no mês e aumentou em 35,7% a receita com vendas externas; setor ainda busca recuperar perdas acumuladas nos últimos anos.

As exportações de carne de frango do Rio Grande do Sul mantiveram trajetória de crescimento em maio e reforçaram os sinais de recuperação da avicultura gaúcha no mercado internacional. O Estado embarcou 62,9 mil toneladas no mês, volume 22,3% superior ao registrado em maio de 2025, quando as exportações somaram 51,4 mil toneladas.

Foto: Ari Dias
O crescimento de mais de 11 mil toneladas em apenas um ano ocorreu em um cenário de retomada gradual de mercados e de manutenção da demanda internacional pela proteína avícola brasileira. No acumulado de janeiro a maio, os embarques gaúchos alcançaram 317,8 mil toneladas, aumento de 3,4% em relação às 307,4 mil toneladas exportadas no mesmo período do ano passado.
A recuperação é ainda mais expressiva quando observada pela receita obtida com as vendas externas. Em maio, o faturamento chegou a US$ 127,4 milhões, alta de 35,7% frente aos US$ 93,9 milhões registrados em igual mês de 2025.
Na prática, isso significa que a receita cresceu em ritmo superior ao volume exportado, reflexo de preços internacionais mais elevados e de uma demanda aquecida em diversos mercados consumidores.
Nos cinco primeiros meses de 2026, as exportações gaúchas de carne de frango geraram US$ 615,5 milhões,

Presidente executivo da Organização Avícola do Estado do Rio Grande do Sul (Asgav/Sipargs), José Eduardo dos Santos: “”Os resultados registrados em maio reforçam a competitividade da avicultura gaúcha no mercado internacional e demonstram a capacidade do setor em manter o abastecimento externo com qualidade, regularidade e segurança sanitária” – Foto: Divulgação/Asgav
incremento de 11% em comparação aos US$ 554,5 milhões registrados entre janeiro e maio do ano passado.
Apesar dos números positivos, o setor ainda trabalha para recuperar espaço e compensar prejuízos acumulados nos últimos anos.
Segundo o presidente executivo da Organização Avícola do Rio Grande do Sul (Asgav/Sipargs), José Eduardo dos Santos, o desempenho recente demonstra a capacidade de reação das empresas gaúchas, embora os desafios permaneçam. “Os resultados registrados em maio reforçam a competitividade da avicultura gaúcha no mercado internacional e demonstram a capacidade do setor em manter o abastecimento externo com qualidade, regularidade e segurança sanitária. Observamos um cenário positivo, apesar dos obstáculos, sustentado pela retomada de mercados e pela manutenção da demanda internacional pela proteína avícola brasileira”, afirma.
Brasil supera US$ 1 bilhão em exportações pela primeira vez
O desempenho gaúcho acompanha um momento favorável para a avicultura brasileira como um todo. Pela primeira vez na história, a receita mensal das exportações brasileiras de carne de frango ultrapassou a marca de US$ 1 bilhão. Em maio, o país faturou US$ 1,009 bilhão com os embarques da proteína, valor 36,1% superior ao registrado no mesmo mês de 2025.

Foto: Jonathan Campos
Em volume, as exportações nacionais atingiram 509,9 mil toneladas, o maior resultado já registrado para um mês de maio e um crescimento de 29,6% na comparação anual.
No acumulado do ano, o Brasil exportou 2,453 milhões de toneladas de carne de frango, alta de 8,7% frente ao mesmo período de 2025. A receita alcançou US$ 4,714 bilhões, avanço de 11,3%.
Os números reforçam a posição do país como maior exportador mundial de carne de frango e ajudam a explicar o ambiente mais favorável enfrentado pelos estados produtores, entre eles o Rio Grande do Sul.
Exportações de ovos crescem mais de 40%
A recuperação da avicultura gaúcha não se restringe à carne de frango. O segmento de ovos e derivados também

Foto: Rodrigo Felix Leal
ampliou sua presença no mercado externo. Entre janeiro e maio, o Rio Grande do Sul exportou 2.771 toneladas, volume 40,4% superior às 1.974 toneladas embarcadas no mesmo período de 2025.
A receita acompanhou o crescimento dos volumes e atingiu US$ 10,2 milhões, aumento de 43,8% sobre os US$ 7,1 milhões registrados no ano anterior. “O crescimento das exportações de ovos e derivados evidencia a evolução do setor e a confiança dos mercados importadores no produto gaúcho. A indústria e produção de ovos do Rio Grande do Sul vêm ampliando sua presença internacional, demonstrando capacidade produtiva, qualidade e adaptação às demandas do comércio exterior”, diz Santos.
Com o crescimento simultâneo das exportações de carne de frango e ovos, a avicultura gaúcha amplia sua participação no comércio internacional em um momento de forte demanda por proteínas animais. O desafio agora é transformar a recuperação observada nos últimos meses em crescimento sustentado e recuperar integralmente o espaço perdido em períodos anteriores.
Avicultura
Preço da carne de frango exportada se aproxima de US$ 2 mil por tonelada
Valorização de 5,7% em relação a maio de 2025 elevou o preço médio para US$ 1.999 por tonelada, enquanto o volume exportado alcançou 442 mil toneladas e contribuiu para o crescimento das exportações do agronegócio brasileiro.

As exportações brasileiras de carne de frango in natura apresentaram forte crescimento em maio de 2026, impulsionadas pelo aumento da demanda internacional e pela valorização do produto no mercado externo.

Foto: Ari Dias
Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) mostram que os embarques alcançaram 442 mil toneladas no mês, volume 32% superior ao registrado em maio de 2025. O resultado coloca a carne de frango entre os produtos com maior expansão nas exportações do agronegócio brasileiro no período.
Além do crescimento dos volumes embarcados, o setor também registrou avanço nos preços. O valor médio das exportações atingiu US$ 1.999 por tonelada, alta de 5,7% em relação a maio do ano passado. Na comparação com abril de 2026, a valorização foi de 2,55%, sinalizando continuidade do movimento de recuperação dos preços internacionais.
O desempenho demonstra que a demanda pela proteína brasileira permaneceu aquecida mesmo diante dos desafios enfrentados pelo comércio internacional de alimentos ao longo do ano. O aumento simultâneo dos embarques e dos preços contribuiu para ampliar a geração de receita das exportações do setor.
Os números foram divulgados pela Secex junto ao balanço das exportações do agronegócio brasileiro em maio. No período, as vendas externas do setor somaram US$ 16 bilhões, crescimento de

Foto: Shutterstock
8,2% em relação ao mesmo mês de 2025.
A expansão das exportações de carne de frango ocorre em um contexto de forte presença do Brasil no mercado internacional da proteína. O país segue entre os principais fornecedores globais e mantém participação estratégica no abastecimento de mercados da Ásia, Oriente Médio, África e América Latina.
O resultado de maio reforça a competitividade da avicultura brasileira e evidencia a importância da proteína para o desempenho da balança comercial do agronegócio nacional.
Avicultura
ILP lança nova edição do Relatório Latino-Americano de Carne de Frango com dados consolidados de 2025
Relatório do ILP aponta produção de 31,5 milhões de toneladas em 2025 e reforça protagonismo regional no comércio global da proteína.

O Instituto Latino-Americano do Frango (ILP), entidade vinculada à Associação Latino-Americana de Avicultura (ALA), lançou a edição 2026 do Relatório Latino-Americano de Carne de Frango, a principal publicação estatística regional dedicada ao acompanhamento da produção, do comércio e do consumo de carne de frango na América Latina e no Caribe.
O acesso ao relatório em espanhol e inglês pode ser realizado clicando aqui.

Foto: Shutterstock
Elaborado anualmente pelo ILP, o relatório consolidou-se como a referência oficial da ALA para a análise dos principais indicadores da cadeia avícola regional, reunindo informações fornecidas pelas associações nacionais afiliadas e complementadas por bases estatísticas e fontes internacionais.
A nova edição apresenta os dados consolidados referentes a 2025 de 25 países da região, incluindo indicadores de produção, exportações, importações, disponibilidade interna, consumo per capita e abate de aves, além de análises comparativas sobre a evolução do setor nos últimos anos.
Segundo o relatório, a América Latina e o Caribe produziram 31,5 milhões de toneladas de carne de frango em 2025, volume que representa 29,4% da produção mundial e 57,6% de toda a carne de frango produzida nas Américas. O desempenho reafirma a posição da região entre os principais polos mundiais de produção de proteína avícola.
No comércio internacional, os países latino-americanos exportaram 5,74 milhões de toneladas de carne de frango durante 2025, equivalentes a 39,4% das exportações mundiais e a 64,6% dos embarques realizados pelas Américas. O relatório também registra um consumo regional de 27,4 milhões de toneladas, o que representa uma disponibilidade média próxima de 41 quilogramas por habitante ao ano.
A presidente da Associação Latino-Americana de Avicultura (ALA), Maria del Rosario Penedo de Falla, destacou a importância da publicação para o fortalecimento institucional do setor avícola regional.

Foto: Ari Dias
“O relatório demonstra a dimensão da contribuição da avicultura latino-americana para a segurança alimentar mundial e reafirma a importância da cooperação entre os países da região. Trata-se de uma publicação que reflete, por meio de dados concretos, a relevância econômica, social e alimentar do nosso setor”, afirmou.
Para a diretora-executiva da ALA, Dania Ferrera, a publicação cumpre um papel estratégico para o planejamento e a integração da avicultura regional.
“Mais do que uma consolidação de números, este relatório constitui uma ferramenta de inteligência setorial construída de forma colaborativa pelas entidades que integram a ALA. A publicação permite acompanhar tendências, identificar oportunidades e compreender a evolução da avicultura latino-americana a partir de uma base de dados harmonizada e regional”, destacou.
O Relatório Latino-Americano de Carne de Frango 2026 está disponível para consulta e download gratuito por meio dos canais oficiais do Instituto Latino-Americano do Frango.



