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Pontos importantes para ter um alimento de qualidade

Profissional explica pontos importantes como a desidratação das plantas forrageiras, os benefícios de um feno bem feito para a produção de leite, o correto armazenamento do feno, entre outros

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Arquivo/OP Rural

Os cuidados com a pastagem fazem uma grande diferença para o produtor rural que buscar ter alimentos – com qualidade – o ano todo. A reportagem de O Presente Rural conversou com a zootecnista, doutora em Nutrição e Produção Animal e professora da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Marcela Abbado Neres. A profissional explica pontos importantes como a desidratação das plantas forrageiras, os benefícios de um feno bem feito para a produção de leite, o correto armazenamento do feno, entre outro.

O Presente Rural – Por que desidratar as plantas forrageiras?

Marcela Abbado Neres – Existe duas formas de conservar a forragem depois de cortada. A primeira seria por acidificação (pH<4,2) por processo de fermentação em meio anaeróbio (sem oxigênio). Quem faz essa acidificação são bactérias presentes na própria planta, mas que conhecemos muito, pois estão presentes nos iogurtes e outros alimentos fermentados que são os Lactobacillus. A outra forma de conservar é desidratando a planta cortada que de 80% de água passa a 15% de água.

Essas duas técnicas tem como objetivo principal evitar a deterioração dessas plantas por bactérias e fungos indesejáveis. As bactérias indesejáveis degradam proteínas e carboidratos deixando assim esses nutrientes indisponíveis para os animais e algumas bactérias inclusive transformam algumas proteínas em compostos tóxicos.

Então na fenação desidratamos as plantas ao sol para reduzir a umidade pois existe um índice chamado índice de atividade de água (AW). Quando a AW está abaixo de 0,70 não temos crescimento elevado de micro-organismos que deterioram o feno.

O Presente Rural – Quais plantas são indicadas para produção de feno?

Marcela Abbado Neres – Antes de citar as plantas é importante entender as características que esta planta deve ter. As plantas indicadas para produção de feno devem ter as hastes finas, pois assim facilita a desidratação da planta. As folhas perdem água rapidamente, mas as hastes são mais resistentes a desidratação. Então quanto mais espessas e grossas as hastes mais as plantas demoram para atingir a umidade ideal para armazenamento sem comprometer sua qualidade.

Outra característica importante são os pontos de crescimento dessas plantas, ou seja, de onde surgem novas folhas. Plantas para fenação devem sempre manter os pontos de crescimento próximos do solo, pois os cortes dessas plantas para fenação ocorrem numa altura de 5 a 6 cm do solo. Assim esses pontos de crescimento são preservados dos cortes e o tempo de recuperação da planta antes do novo corte é rápido. Plantas cespitosas como o capim Napier elevam muito rápido seus pontos de crescimento. Então em um capim Tifton 85 no verão podemos ter intervalos de cortes de 30 dias. No capim Napier além do aumento do número de dias para secar (hastes são grossas), este precisa de 60 dias para passar por um novo corte.

  • A planta deve ser produtiva em termos de kg de massa de forragem por alqueire;
  • Ter elevado valor nutricional;
  • Ser resistente à pragas e doenças; mas no Brasil tem ocorrido em algumas áreas de produção de feno ataques de lagartas e cigarrinha das pastagens.

Sendo assim no Brasil temos como opção o capim Tifton 85, Jiggs, coastcross e a leguminosa alfafa. Outras forrageiras também estão sendo utilizadas para produção de feno como braquiárias (essa mais indicada para gado de corte, pelo valor nutricional). As espécies de inverno também são utilizadas para produção de feno como a aveia e o azevém.

O importante é o produtor não confundir feno com palhada. A palhada é a sobra de uma cultura como por exemplo o trigo. São volumosos de baixo valor nutricional e não devem ser usadas na alimentação de vacas de leite.

O Presente Rural – Qual a importância de desidratar a planta?

Marcela Abbado Neres – A desidratação da planta vai reduzir o teor de matéria seca dessa planta e consequentemente a atividade de água (AW), inibindo assim o crescimento de fungos que são potenciais produtores de micotoxinas. As micotoxinas são prejudiciais à saúde dos animais e podem passar para o leite não sendo eliminadas no processo de pasteurização.

Feno armazenado com umidade elevada pode perder seu valor nutricional por ação de micro-organismos e inclusive entrar em combustão.

O Presente Rural – Quais as vantagens do feno para vacas de leite?

Marcela Abbado Neres – Vacas de leite recebem na sua dieta uma proporção maior de concentrado (milho moído e farelo de soja) podendo chegar a 60% do total da dieta. O rúmen precisa manter um pH ao redor de   6,4 para sobrevivência das bactérias que colonizam esse compartimento do estômago. O alimento concentrado tende a baixar o pH do rúmen quando fornecido em grandes quantidades, então essas vacas precisam de fibra na sua dieta, e fibra longa (ao redor de 5 a 7 cm) pois a fibra estimula a produção de saliva (pela ruminação) e a saliva contribui para o aumento do pH do rúmen. Outra vantagem da fibra longo conhecida como fibra fisicamente efetiva é que no rúmen essa fibra longa aumenta a produção de ácido acético, que é o precursos da gordura do leite.

Sendo assim pastagens, silagens e feno são fontes de fibra. Outra vantagem do feno para vacas de leite é que algumas espécies forrageiras possuem teores de proteína bruta acima de 14% podendo chegar a 20% de proteína bruta. Feno tem um teor energético mais baixo em relação a silagem de milho, portanto os dois se complementam.

O Presente Rural – Quais os benefícios do feno bem feito?

Marcela Abbado Neres – Essa é uma questão muito importante. A produção do feno deve ser muito bem acompanhada em todas as etapas, inclusive no armazenamento. Se negligenciarmos em alguma etapa, teremos com certeza resultados insatisfatórios no produto final. Como exemplo: a falta de análise de solo e adubação dos campos de feno vai se refletir na menor produção de massa por área, aumentar o intervalo entre cortes, reduzir o valor nutricional do feno.  O corte deverá ser realizado no ponto de crescimento ótimo da forrageira pois se a planta estiver com idade de rebrota mais avançada, o valor nutricional vai reduzir. Mas veja, para quem produz feno essa etapa não é fácil pois as vezes a planta está com a idade certa para ser cortada, mas as condições climáticas (chuvas) não permitem o corte. Assim o produtor precisa esperar uma janela (dias sem chuvas e sem nebulosidade) para fazer o corte com segurança.

As viragens são importantes por permite uma desidratação uniforme. Quando cortamos um feno, forma-se uma camada de 8 a 10 cm de forragem depositada no solo. A camada inferior fica em contato com o solo e a outra exposta ao sol. A camada de forragem cortada e em contato com o solo tende a desidratar mais lentamente em relação as plantas que estão na camada superior. Assim a viragem vai permitir uma desidratação uniforme.

O enleiramento deve ocorrer no ponto ideal de matéria seca (15 a 12%). O produtor experiente sabe quando o feno está no ponto ideal torcendo o feno. Existe hoje no mercado medidores de umidade do feno, que também são utilizados pelos produtores para medir antes de enfardar. Também não é vantagem secar demasiadamente o feno pois esse se torna quebradiço e as perdas de folhas são maiores. As perdas de folhas são maiores pois elas secam mais rápido. Se compararmos o valor nutricional de folhas e colmos, temos maiores teores de proteína bruta e melhor digestibilidade nas folhas.

O armazenamento também é outra etapa importante pois o feno deve ser armazenado em galpões protegidos de umidade, com cobertura, ventilação, evitar incidência solar direto no feno e usar pallets de madeira para evitar o contato direto do feno com o solo evitando assim que a umidade do solo passe para o feno.

O Presente Rural – Como evitar problemas de fungos no feno?

Marcela Abbado Neres – Um feno não é 100% livre de fungos. Em um experimento realizado por nós na Unioeste comparamos as populações em quantidade e espécies de fungos em uma área produtora de feno. Foi observado uma maior população de fungos no solo, raízes e material vegetal morto depositado sobre o solo. Então se o produtor tomar o cuidado necessário ao usar os equipamentos de viragem e enleiramento, evitamos a contaminação excessiva de fungos no feno armazenado. Mas com os cuidados necessários podemos reduzir muito a população desses fungos. O mais importante é o teor de umidade do feno que deve ser como dito anteriormente abaixo de 15%. Mas não adianta armazenar com umidade abaixo de 15% num galpão com cobertura deficiente, quando em situação de chuva, esse feno é molhado. Uma característica do feno é que ele é higroscópico, ou seja, ele absorve umidade. Então se a umidade relativa do ar aumenta ocorre um ligeiro acréscimo na umidade do feno.

O Presente Rural – Quais problemas esses fungos podem causar aos animais?

Marcela Abbado Neres – Os fungos são potenciais produtores de micotoxinas. Isso não quer dizer que se tem fungo tem micotoxinas. As micotoxinas são produzidas pelos fungos em condições específicas. Umidade relativa do ar, alternância de temperatura entre dia e noite. Isso vai depender de cada espécie de fungo. As micotoxinas afetam a saúde dos animais e a produção de leite dependendo da quantidade ingerida e da micotoxina. Cada espécie de fungo pode produzir uma ou até mais micotoxinas. Existem fungos que não produzem micotoxinas.

Os principais problemas são distúrbios metabólicos, afetam a imunidade, alguns são hepatóxicos, outros afetam sistema reprodutivo, levando a falhas reprodutivas (micotoxinas Zearalenona produzida pelo fungo do gênero Fusarium.

O Presente Rural – Como armazenar o feno? Quais dicas para armazenar da melhor forma?

Marcela Abbado Neres – Temos os produtores de feno que estão na atividade somente para venda. Este possuem galpões de armazenamento até que o feno seja despachado para o comprador. Temos o produtor de feno que usa na propriedade e vende parte do feno e temos aqueles produtores de leite que não produzem o feno, apenas fazem a aquisição. Em todas as situações acima, o feno deve ser armazenado em local específico para tal. Quando a produção de feno é muito alta ou a compra pelo produtor também é alta e não existe a possibilidade de armazenar no galpão específico pode-se improvisar locais para armazenamento. Mas o tempo do feno nesses locais deve ser o menor possível, não deve ficar em contato com o solo, não receber umidade proveniente de chuvas. Evitar presença de roedores e deposição de fezes de aves e outros animais.

O Presente Rural – Por que os fenos tipo A e B são melhores para vacas de leite? Qual a diferença para outros tipos?

Marcela Abbado Neres –

Essa é a tabela de classificação do feno. Vacas de leite são exigentes em nutrientes então optar sempre pelo feno tipo A ou B. O feno tipo C pode tem um teor de proteína baixo e um valor de fibra elevado. Significa que fibra alta demais (acima 69%) temos um componente impregnado nessa fibra chamado lignina o qual que está elevado também. A lignina prejudica a ação dos micro-organismos do rúmen sobre essas células. Reduzindo assim a liberação dos nutrientes presentes no feno e o aproveitamento desses nutrientes pelo animal.

O Presente Rural – Quais as etapas da produção de feno e quais os impactos dela na produção de leite?

Marcela Abbado Neres – Etapas

Corte: realizado quando temos um ótimo entre produção de matéria seca e qualidade da forragem. Realizado com segadeiras ou segadeiras condicionadoras (estas possuem batedores que cortam as hastes e facilita a desidratação delas). Deve ser realizado após a secagem do orvalho em qualquer horário do dia. Não deve ser realizado comorvalho depositado sobre as plantas.

Viragens: A viragem ocorrem algumas horas após o corte para facilitar uma desidratação uniforme. Quanto maior a quantidade de forragem por área, a altura de material depositado sobre o solo maior. Assim as viragens devem ser em número maior. Geralmente se faz de 2 a 3 viragens em todo o período de secagem.

Essa etapa deve evitar revolver parte do solo e material vegetal morto, como citado acima, pode vir a contaminar o feno com fungos e micotoxinas.

No inverno a incidência de orvalho é superior pela manhã e pelo fato da radiação solar ser menor o feno leva um tempo maior para secagem.

Enleiramento: O enleiramento ocorre quando a planta atingiu o teor de massa seca adequado, ou seja, entre 15 e 12%.  Usa-se um ancinho enleirador.

Enfardamento: O enfardamento ocorre logo após o enleiramento. Produtores que possuem dois tratores geralmente trabalham com um trator enleirando e outro enfardando. Assim o processo é mais rápido e menos passível de perdas por precipitação.

Recolhimento do feno no campo: Hoje já existe equipamentos próprios para recolher o feno e alocá-lo no galpão. Alguns produtores de feno para venda, ao enfardar, muitas vezes já carrega no caminhão para entrega, sem necessidade de armazenar na propriedade.

Todas essas etapas feitas da forma correta levam à um feno de boa qualidade para vacas de leite. Deve-se fazer a escolha da forrageira adequada para vacas de leite. Capins como Tifton 85, jiggs, Coastcross, aveia e azevém além da leguminosa alfafa são os mais indicados para vacas de leite. O manejo do campo de feno é importante também.

O Presente Rural – Por que é importante que o produtor tenha seus próprios equipamentos?

Marcela Abbado Neres – O produtor, quando começa na atividade, geralmente, terceiriza esse serviço. Ele contrata algum vizinho ou alguém quando a planta dele está no ponto de corte para fazer o feno. A medida que ele vai se capitalizando, ele vai adquirindo esses equipamentos. Isso acontece porque o feno tem cinco ou seis cortes no ano, diferente da silagem, que está caminhando para a terceirização. Isso acontece porque o silo é feito uma ou duas vezes ao ano. O produtor corta o milho para fazer silagem uma ou duas vezes. Dessa forma, esses equipamentos mais modernos e eficientes para fazer silagem tem um custo muito elevado, mais de R$ 1 milhão. Já um conjunto de fenação é caro, mas se o produtor comprar primeiro uma ceifadeira, depois compra um ancinho espalhador, ele vai se capitalizando e não fica dependente da terceirização, especialmente por questão da chuva, porque as vezes ele precisa fazer o corte e o fornecedor do serviço está em outra propriedade, então o produtor perde a janela de corte. Por isso essa questão do equipamento é importante e hoje em dia existem muitos bons equipamentos nacionais.

Outras notícias você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de junho/julho de 2021 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Bovinos / Grãos / Máquinas Impactos ambientais

Ações de baixo custo podem reduzir emissão de metano na pecuária

Diversas iniciativas com vistas à sustentabilidade ambiental do setor pecuário são desenvolvidas ao redor do mundo. Entre elas está a parceria de Avaliação e Desempenho Ambiental na Pecuária (LEAP), uma iniciativa multissetorial que busca desenvolver métodos e métricas harmonizados para avaliar os impactos ambientais das cadeias de abastecimento de gado.

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Foto: Shutterstock

Diversas iniciativas com vistas à sustentabilidade ambiental do setor pecuário são desenvolvidas ao redor do mundo. Entre elas está a parceria de Avaliação e Desempenho Ambiental na Pecuária (LEAP), uma iniciativa multissetorial que busca desenvolver métodos e métricas harmonizados para avaliar os impactos ambientais das cadeias de abastecimento de gado, garantindo a viabilidade econômica e social da atividade.

Diretor de Política Pecuária da Organização das Nações Unidas para Alimentação e a Agricultura (FAO), Aimable Uwizeye: “Cortar as emissões de metano pode potencializar a redução do aquecimento global, mas é preciso que a humanidade esteja comprometida com isso, não apenas o setor da pecuária”

Esse programa é liderado pelo diretor de Política Pecuária da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), Aimable Uwizeye. “É um programa de suporte às políticas sustentáveis baseado na ciência, em ações climáticas e na transformação sustentável da pecuária. Foi lançado em 2012 pela FAO em Roma, na Itália, e sua participação é aberta e voluntária à sociedade civil organizada, setores privados e públicos”, disse Uwizeye durante sua participação no Fórum Metano na Pecuária – o caminho para a neutralidade climática, promovido no mês de maio pela JBS, em parceria com a SilvaTeam, em São Paulo, SP. No evento ele palestrou sobre as novas diretrizes de emissão de metano.

O diretor da FAO diz que a maioria das intervenções para aumentar a produtividade animal pode resultar em redução direta de emissões (fermentação entérica e sistemas de manejo de esterco), com ações de mitigação de baixo custo.

Para isso, orienta o setor a formular incentivos adequados para a adoção de tecnologia, transferência de conhecimento para os agricultores, implementação de políticas e programas de apoio para superar as barreiras de mercado, tanto regulatórias como institucionais. “É importante apoiar investimentos no setor pecuário, dar suporte à inovação para desenvolver aditivos alimentares promissores (3-NOP ou algas marinhas) e reduzir outras externalidades”, afirma.

LEAP

Entre os objetivos que norteiam as ações de trabalho do LEAP estão a construção de um consenso sobre o desempenho ambiental de cadeias de suprimentos para bovinos, suporte ao benchmarking e medidas políticas baseadas em evidências e estratégias de negócios.

Outra iniciativa que visa mensurar as emissões de metano (CH4) global no setor pecuário é o projeto Metano TAG, criado em fevereiro de 2021. Conduzido por Ermias Kebreab, Michelle Cain e Jun Murase, os estudos são guiados por 59 especialistas internacionais, que representam 23 países do globo. “As atividades conduzidas pelo projeto Metano TAG têm como objetivo aprimorar as avaliações de emissões de gases de efeito estufa, fazer análise de cenários de mitigação e comparações entre setores, que incluem pesquisas sobre animais, ciências do solo, avaliação do ciclo de vida, ciência ambiental, ciência do clima e métricas de emissões”, menciona Uwizeye.

Agropecuária representa mais de 40% das emissões globais de CH4

A agropecuária representa mais de 40% de todas as fontes antropogênicas de emissões globais de CH4, originadas principalmente pela fermentação entérica (arroto das vacas), cultivo de arroz e depósito de estrume no pasto. Apesar da sua curta vida útil, permanece no ar pouco mais de dez anos, o metano é 86 vezes mais poderoso do que o dióxido de carbono em 20 anos na atmosfera e 28 vezes mais potente em um século.

Como se trata de um gás de curta duração na atmosfera, evitar que seja emitido pode contribuir para limitar o aumento da temperatura do planeta em curto prazo. “Cortar as emissões de metano pode potencializar a redução do aquecimento global, mas é preciso que a humanidade esteja comprometida com isso, não apenas o setor da pecuária”, ressalta o diretor da FAO.

Relatório sobre CH4

Em janeiro deste ano, a comissão do LEAP e do Metano TAG apresentaram um relatório preliminar sobre as emissões de CH4, em que foram compilados as fontes e afundamentos de metano na agricultura, métricas para estimar e quantificar as emissões de metano, além de ações de mitigação e estudos de casos.

De acordo com Uwizeye, o estudo foi revisado em março por 11 especialistas e em maio o relatório preliminar passou por uma revisão pública. Agora a comissão do Metano TAG realiza a última revisão da coletânea, para em julho ser publicada.

Estudos no Uruguai e na Argentina

A FAO, em colaboração com outros centros de pesquisas, conduziu alguns estudos de casos sobre o sistema de produção de carne bovina no Uruguai e na Argentina. “Com o projeto de coalizão do clima e do ar limpo espera-se reduzir o metano entérico para melhorar a segurança alimentar e a subsistência”, frisa Uwizeye.

A pecuária de corte do país uruguaio emite 35,4 milhões de toneladas de CO2-eq por ano. Das principais fontes de emissões, 61,5% é oriundo da fermentação entérica, 33,7% do esterco depositado no pasto e 3,2% da alimentação.

A fim de diminuir a quantidade de metano lançada no ar pela atividade, o Uruguai está desenvolvendo um estudo de baixas emissões no gado para produção de carne, estimando as emissões de GEE por sistema de produção: bezerros e por ciclo completo, intensidade média de emissão por quilo de peso vivo por sistema de produção, potencial de redução do metano entérico, entre outros fatores. “Estão fazendo a suplementação com legumes, o que é muito importante para reduzir as emissões de metano na pecuária e também estão procurando entender como mitigar essa quantidade de emissões para reduzi-la”, expõe.

Por outro lado, pelas dimensões do país argentino as emissões de CH4 são maiores que do Uruguai, com destaque para a fermentação entérica, que representa 62,2%, e o estrume dos animais 34,5% do total de emissões de GEE na produção de carne bovina. “Na Argentina é importante adotar medidas de baixa emissão, com suplementação estratégica de novilhos e reprodutores, definição da melhor época para acasalamento, redução de doenças reprodutivas, uso de 50% de silagem de sorgo e 50% de aveia para forragem, entre outras ações. Essas medidas adotadas de forma eficiente vão trazer um caminho para alcançar a neutralidade climática”, relata Uwizeye.

Ações apoiadas pela FAO

Conforme Uwizeye, a FAO oferece apoio para integração de metas de mitigação e adaptação relacionadas à pecuária em ações e políticas climáticas, desenvolvimento de ferramentas analíticas e abordagens para avaliar o impacto das reduções de metano da pecuária, desenvolvimento de ciência e política baseada em evidências e estratégias, além de capacitação, investimentos e financiamentos climáticos.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor de bovinocultura, commodities e maquinários agrícolas acesse gratuitamente a edição digital Bovinos, Grãos e Máquinas.

Fonte: O Presente Rural
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Bovinos / Grãos / Máquinas Artigo

O negacionismo contra o agro tecnológico

Cada tonelada de grão, ou carne, ou celulose e algodão, frutas ou o que for, oriundo do agro e exportado pelo país, contém tanta tecnologia nela embutida quanto um bem manufaturado.

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Professor da Fundação Getúlio Vargas e membro do Conselho Científico Agro Sustentável, Xico Graziano - Foto: Divulgação

Há duas espécies de negacionistas que desmerecem a moderna agropecuária no Brasil. Uma é formada por economistas ortodoxos. Outra pela esquerda caviar. Ambas ofendem a evolução tecnológica. Nesse artigo, vou tratar dos primeiros. Depois, falo dos ideólogos do atraso.

Certos economistas do século passado, ligados ao pensamento tradicional, teimam em analisar o agronegócio como se a agricultura ainda funcionasse isolada na economia. Chamam-na de “setor primário”. Baseados no problema chamado de “doença holandesa”, criticam a “comoditização” da economia brasileira. Dizem que levará ao atraso do país.

Conforme relatada na literatura econômica, a doença holandesa é definida como a valorização permanente da taxa de câmbio de um país, devido à existência de vantagens comparativas naturais que favorecem suas exportações primárias.

Chama-se “holandesa” por ter sido analisada, inicialmente, na economia dos Países Baixos, onde a descoberta e exportação de gás natural no Mar do Norte apreciou o câmbio e prejudicou a indústria manufatureira do país. Isso ocorreu nos anos 1960.

O tempo passou, entramos na era tecnológica. Em pleno século 21, porém, os economistas ortodoxos ainda utilizam a teoria das vantagens comparativas– idealizada por David Ricardo em 1817– para condenar a exportação considerada “primária”.

Onde está o equívoco? No fato de que a competitividade agrícola do Brasil, frente ao mundo, não depende mais de “vantagens naturais”, mas sim de fortíssimos investimentos realizados no processo tecnológico de produção do agro.

Estudos referenciados pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), Ministério da Agricultura e Embrapa, elaborados por especialistas como José G. Gasquez, José Eustáquio R. Vieira e Eliseu Alves, mostram que a tecnologia passou, há 40 anos, a ser a variável básica para explicar, em 60%, o crescimento da produção rural no Brasil; o fator terra caiu para 20%, idem o fator trabalho.

Quer dizer, resumindo a história: cada tonelada de grão, ou carne, ou celulose e algodão, frutas ou o que for, oriundo do agro e exportado pelo país, contém tanta tecnologia nela embutida quanto um bem manufaturado. Ou muitas vezes mais.

Todo um pacote tecnológico elevou fortemente a produtividade da agropecuária: variedades de plantas geneticamente adaptadas aos trópicos, raças e cruzamentos de animais precoces e super produtivos, controle fitossanitário rigoroso, correção e fertilização do solo, maquinários controlados por GPS e gestão sustentável. A média de crescimento da PTF (Produtividade Total dos Fatores) foi de 3,8% a.a nos últimos 20 anos.

Conclusão: é grave erro, conceitual e metodológico, tratar os produtos da exportação do atual agronegócio como os daquela época do modelo exportador de açúcar colonial ou do café latifundiário.

Se a indústria ficou para trás, o problema nada tem a ver com as exportações agrícolas, mas com sua incapacidade de inovação tecnológica. Preferiu depender de benefícios públicos para manter competitividade. E perdeu.

O agro, pressionado pelos acordos de livre comércio da OMC (Organização Mundial do Comércio) desde a rodada Doha, conseguiu alterar a política agrícola, a partir da estabilidade trazida pelo Plano Real, e correu atrás da produtividade, contando com a ajuda das incríveis “Embrapas” da vida.

Nos complexos produtivos atuais, onde se mescla o campo com a cidade, pode-se até dizer que a equação histórica do desenvolvimento se inverteu: é o dinamismo do agro, impulsionado pelas exportações, que puxa importantes setores secundários e terciários da economia.

A realidade está aí para comprovar: o agronegócio se tornou o melhor negócio do país.

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Fonte: Por Xico Graziano, professor da Fundação Getúlio Vargas e membro do Conselho Científico Agro Sustentável
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Bovinos / Grãos / Máquinas

Taninos e saponinas na ração podem reduzir a emissão de metano dos bovinos

Testes realizados em vacas leiteiras confirmaram que taninos e saponinas têm efeito positivo, com influência sobre bem-estar ruminal, redução de protozoários e redução de CH4.

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Arquivo/OP Rural

O metano entérico (CH4) influencia a pegada climática da produção de leite entre 44% a 50%. É o que afirmou o professor da Universidade de Bologna, Itália, Andrea Formigoni, durante o Fórum Metano na Pecuária – o caminho para a neutralidade climática, promovido pela JBS, em parceria com a SilvaTeam, em São Paulo (SP). No evento, Formigoni palestrou sobre as emissões de metano em vacas leiteiras.

Professor da Universidade de Bologna, na Itália, Andrea Formigoni: “Seleção de vacas mais eficientes tem um potencial significativo de mitigação de CH4” – Foto: Reprodução

Segundo ele, a intensidade na redução do metano no rebanho é a chave para as vacas serem mais eficientes em produtividade (por quilo de leite). “A seleção de vacas mais eficientes tem um potencial significativo de mitigação de CH4, considerando a possibilidade de reduzir o número de animais por rebanho”, ressalta Formigoni.

Um estudo que compara a emissão de metano ao reduzir a idade do primeiro parto com a frequência de descarte, o número de substituições necessárias e as emissões de metano entérico por unidade de ECM no rebanho inteiro evidencia que uma vaca com gestação de 22 semanas emite 19,6% de metano entérico, enquanto que com 28 semanas aumenta para 33,2%. “Isso mostra que podemos mudar o nosso sistema de produção para controlar melhor a eficiência de cada animal, reduzindo assim a quantidade de metano produzida”, frisa.

Estudo

Em relação à evolução da produção leiteira em uma fazenda italiana, Formigoni expõe que em um rebanho com 85 vacas da raça Friesian, cada animal produzia em 2010 cerca de 9,1 toneladas de leite ao ano, com concentração de 3,7% de gordura e 3,3% de proteína. Cinco anos depois, com um rebanho de 95 vacas, a produção unitária passou para 9,5 toneladas/ano, com 3,6% de gordura e 3,2% de proteínas. Já em 2021, um rebanho com 118 animais produziu por cabeça 10,71 toneladas/ano da bebida láctea, contendo 3,8% de gordura e 3,3% de proteína. “Entre os 50 principais rebanhos de Friesian na Itália, a produção leiteira alcança uma média de 20 toneladas/vaca/ano”, mencionou o professor de Bologna, ampliando: “Para garantir cada vez mais eficiência é preciso fazer a seleção dos animais com uma abordagem genômica, além de oferecer controle de fatores de estresse, manejo de precisão e bem-estar animal”, pontua.

Taninos e saponinas 

Para testar a adição na ração de uma mistura de taninos e saponinas em vacas leiteiras de alta produção, alimentadas com uma dieta à base de feno seco picado, foram acrescentadas duas fontes lipídicas de origens diferentes: megagordura (saturada) e gordura integral de soja (insaturada). “O grau de instauração dos lipídios pode influenciar na produção ruminal de metano”, destacou o palestrante italiano.

Conforme Formigoni, os taninos são polifenóis naturais de plantas utilizados também na criação de ruminantes como promotores de crescimento e saúde, com alta capacidade antioxidante. “A edição de taninos tem efeitos positivos nas proteínas de passagem e na modulação da fermentação ruminal, com consequências positivas na qualidade do leite e na emissão de metano”, menciona.

As saponinas são consideradas substâncias naturais para mitigar as emissões de metano em ruminantes, como gado, cabras e ovelhas.

Para o experimento, foram separadas oito vacas leiteiras que, durante 21 dias, receberam uma dieta balanceada com quatro rações diferentes, em que foram analisadas ingestão diária de DMI e água, peso corporal, tempo de ruminação e pH reticular, líquido ruminal, fezes e urina, rendimento e composição do leite, propriedades de fabricação de queijo e medição das emissões de CH4 usando o equipamento Laser Methane Mini oito vezes a cada 06 horas.

“Não foi encontrado nenhum efeito negativo na ingestão de matéria seca, de taninos ou de gordura na produção de leite, ou de ácidos graxos na composição do leite, bem como o efeito foi positivo de taninos no pH ruminal e na produção de AGV. E dentro do rúmen, o efeito também foi positivo de taninos no número de protozoários, que apresentou a menor produção de metano, e na temperatura corporal”, elencou Formigoni, ampliando: “Os resultados nas propriedades de fabricação de queijo também foram satisfatórios, comprovando que o uso de taninos na dieta é seguro para a produção de queijo”.

Descobertas sobre a emissão de metano

Após o experimento, o docente da Universidade de Bologna constatou que a emissão de CH4 registrada no teste foi relativamente baixa em comparação com a previsão teórica média (<13g/kg/CMS vs 19g/kg/CMS). “A ração à base de feno pode ser um motivo para a baixa emissão de metano”, supõe Formigoni.

O professor evidencia ainda que não foram detectadas diferenças entre os tratamentos de ração ofertada. Também constatou que usando a análise de Cluster as vacas são divididas de acordo com o CH4 diário, com isso as emissões de metano foram reduzidas a 260 gramas/dia, e três das oito vacas que participaram do teste apresentaram emissores de metano de 258 g/dia, não houve efeito negativo de taninos e/ou fonte de gordura, porém, cinco vacas emitiram 314 g/d de CH4.

Em outro estudo com taninos, comprovou-se o que pesquisas científicas já haviam demonstrado anteriormente, que os polifenóis de origem vegetal reduziram a emissão de metano em altos emissores (gorduras saturadas e insaturadas) em 30 g/d.

Formigoni conclui que as medições de CH4 em condições de campo ainda são um desafio e que no futuro será muito importante produzir mais dados de experimentos para ter uma previsão ainda melhor dos benefícios dos taninos. “Apesar de termos diferentes equações de emissão teórica, são necessários mais ensaios com diferentes tipos de ração, contudo, os testes realizados confirmaram que taninos e saponinas têm efeito positivo, com influência sobre bem-estar ruminal, redução de protozoários e redução de CH4”, enfatiza.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor de bovinocultura, commodities e maquinários agrícolas acesse gratuitamente a edição digital Bovinos, Grãos e Máquinas.

Fonte: O Presente Rural
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