Conectado com

Colunistas

PL do seguro rural busca reforçar resiliência do agro frente à crise climática

Proposta aprovada na CCJ do Senado prevê previsibilidade orçamentária, integração com crédito rural e critérios socioambientais para ampliar a cobertura no campo.

Publicado em

em

Foto: Shutterstock

A ocorrência de eventos climáticos extremos vem impactando a vida no campo, transformando a percepção de riscos dos produtores rurais. Diante do avanço da degradação do capital natural – vegetação nativa, recursos hídricos, saúde do solo, serviços ecossistêmicos, que intensifica a crise climática e deixa produtores mais suscetíveis a perdas, o desafio para as seguradoras é cada vez maior, pois a degradação pode comprometer a sustentabilidade do setor no longo prazo.

O aumento dos recursos para subvenção ao seguro rural vem sendo debatido como uma necessidade cada vez mais urgente, diante da baixa adesão a esse instrumento. Atualmente, menos de 7% da área agrícola tem cobertura de seguro e a quantidade de produtores cobertos com subvenção do seguro rural vem caindo de forma importante diante da escassez de recursos direcionados para essa política. Garantir o acesso do produtor rural aos instrumentos de política agrícola direcionados à resiliência do setor diante da emergência climática é, portanto, fundamental.

O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) é um instrumento que tem potencial significativo para atender à necessidade de gestão integrada de riscos para o setor agropecuário. O apoio do setor público na operacionalização de um seguro privado, se otimizado e integrado aos demais instrumentos da política agrícola, seria capaz de incrementar de forma substancial o acesso ao seguro e mitigar os impactos dos eventos climáticos extremos

Aprovado recentemente pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado, o PL n° 2951/2024 busca modernizar o seguro rural, atacando problemas estruturantes do PSR, como a discricionariedade dos recursos, a necessidade de um fundo destinado à cobertura suplementar dos riscos do seguro rural e a integração entre as políticas de seguro e crédito rural. Tal iniciativa pode ajudar a solucionar os entraves relacionados à oferta e ao acesso ao seguro rural, que ainda pode e deve contemplar outros mecanismos para que se intensifique a adoção de boas práticas agropecuárias no campo.

A proposta prevê uma reestruturação na dotação orçamentária (que passaria de natureza discricionária para uma vinculação ao órgão de Operações Oficiais de Crédito, Recursos sob Supervisão da Secretaria do Tesouro Nacional do Ministério da Fazenda (OOC-STN), o mesmo que opera os recursos do crédito rural), para garantir perenidade de recursos e maior previsibilidade ao mercado segurador.

A possibilidade de integração entre o seguro e o crédito rural é uma oportunidade de interconexão entre as políticas agrícolas, a partir do fomento à contratação de crédito de custeio atrelado a uma apólice de seguro. O PL prevê a possibilidade de conferir melhores condições de financiamento, priorização de acesso e financiamento do prêmio para contratos de crédito atrelados a uma apólice de seguro. A medida pode mitigar os riscos das operações de crédito bancário e conferir escala ao seguro rural.

Não menos importante, o Fundo Catástrofe, já institucionalizado desde 2010, ganhou caráter de urgência especialmente frente aos eventos climáticos extremos dos últimos anos. Por meio desse Fundo, os riscos são compartilhados entre os agentes de mercado (seguradoras, resseguradoras, empresas da cadeia do agronegócio e cooperativas).

A modernização do arcabouço institucional do seguro rural abre margem para a evolução desse instrumento, não como um fim em si mesmo, mas numa perspectiva integrada de gestão de riscos. O seguro é só um dos elementos de uma estratégia mais ampla, que envolve o manejo das lavouras e a adoção de boas práticas agropecuárias. Essa combinação, capaz de mitigar tanto aqueles riscos mais frequentes (e menos extremos) quanto os de menor incidência (porém mais extremos) é o único caminho para uma agropecuária perene.

Paralelamente às iniciativas que buscam a viabilidade econômica e a universalização das estratégias de gestão de riscos, também é de fundamental importância incluir critérios socioambientais no seguro rural. As Resoluções do Conselho Nacional de Seguros Rurais (CNSP) no 485/2025 e do Comitê Gestor Interministerial do Seguro Rural (CGSR) n° 108/2025, apresentaram os critérios socioambientais para fins de elegibilidade ao seguro rural, como inscrição no Cadastro Ambiental Rural – CAR, não sobreposição com áreas restritas, inexistência de embargos ambientais e a necessidade de comprovação da legalidade de supressões de vegetação nativa ocorridas a partir de agosto de 2019.

Diante do quadro traçado, o PL 2951/2024 deve ser visto como um ponto de partida, ao definir prioridades e oportunidades para a construção de uma ampla frente de reformas na gestão integrada de riscos para a agropecuária. Essa frente só será possível com ação coordenada entre instituições da sociedade civil, do mercado, representantes dos produtores e governos. As mudanças climáticas nos lembram diariamente da necessidade de reestruturar as políticas e os instrumentos vigentes.

Fonte: Artigo escrito por Leila Harfuch, sócia gerente da Agroicone; e Gustavo Lobo, pesquisador da Agroicone.

Colunistas

Ausência sentida

Há 23 anos desaparecia Aury Luiz Bodanese, uma das maiores lideranças do cooperativismo brasileiro. O fato é, ainda, muito recente para dele se extrair todas as avaliações que uma perspectiva histórica pode proporcionar, mas não existem dúvidas sobre sua influência na estruturação e na evolução do sistema cooperativista catarinense.

Publicado em

em

Há 23 anos desaparecia Aury Luiz Bodanese, uma das maiores lideranças do cooperativismo brasileiro. O fato é, ainda, muito recente para dele se extrair todas as avaliações que uma perspectiva histórica pode proporcionar, mas não existem dúvidas sobre sua influência na estruturação e na evolução do sistema cooperativista catarinense.

A extraordinária trajetória desse homem fascina a todos que o conheceram em vida ou que estudaram seus feitos. De origem humilde, tinha total obstinação pelo trabalho e entregou-se, precocemente, a tarefas laborais como, por exemplo, aos treze anos, transportar cereais do Alto Uruguai gaúcho até Porto Alegre, pilotando um caminhão Ford 1946, em viagens que duravam até oito dias. Nasceu em Barão do Cotegipe, na época (1934), distrito de Erechim (RS) e ainda jovem transferiu-se, com a família, para o distrito de Alto da Serra, em Chapecó (SC). Ali dedicou-se ao comercio de cereais até entrar em contato com o cooperativismo na década de 1960.

Aury teve participação decisiva na implantação e fortalecimento do cooperativismo. Em 1967 concebeu e coordenou a fundação da Cooperchapecó que, anos depois, viria a transformar-se na Cooperalfa, a maior cooperativa singular catarinense. Dois anos depois, em 1969, percebeu que era imperiosa a industrialização dos produtos primários para evitar que a região se limitasse a simples produtora/fornecedora de matérias-primas para a indústria de alimentos. Para materializar essa visão avançada, constituiu a Cooperativa Central Oeste Catarinense (atual Aurora Coop) e idealizou a compra de um frigorífico em situação falimentar. Nascia ali aquela que transformou-se em uma das duas maiores cooperativas centrais brasileiras. Perseguiu tenazmente a idéia de estruturar as cooperativas para que tivessem condições de transformar, beneficiar, industrializar a produção primária, agregando-lhe valor.

O sucesso da Cooperalfa e da Aurora Coop torna possível afirmar que Bodanese criou, dirigiu e estruturou o maior complexo cooperativo de Santa Catarina, oferecendo aos pequenos e médios produtores rurais condições de competitividade em todos os mercados. Fomentando a produção pecuária e de cereais, transformou o Oeste catarinense em um dos maiores produtores mundiais de alimentos.

Além de constituir e presidir as maiores sociedades cooperativistas de SC, Aury fundou e dirigiu todas as entidades do setor, como Ocesc, Fecoagro, Cocecrer (atual Sicoob), Itec, etc. Não acalentava projetos político-partidários nem pretensões eleitorais, mas foi homenageado como Cidadão Honorário de Santa Catarina em 1997 (por minha iniciativa) e de dezenas de municípios. Recebeu honrarias e prêmios de instituições nacionais e internacionais e, repetidas vezes, foi eleito liderança nacional dos segmentos agroindustrial avícola, agroindustrial suinícola, cooperativo etc.

Atuou no universo cooperativista, mas os efeitos de seus atos atingiram toda a sociedade pelo aumento da oferta de alimentos, pela geração e distribuição de riquezas, pela abertura de novos mercados.

Ausência sentida em milhares de corações, Aury será sempre lembrado em cada assembléia que se realizar, em cada tijolo que se assentar, em cada projeto que se implantar. Sua memória será cultuada em cada semente que plantarmos, em cada safra que colhermos, em cada nova fábrica que inaugurarmos, em cada gesto laboral de seus milhares de ex-colaboradores. Será honrado pelas milhares de famílias que o elegeram seu líder e porta-voz; pelos operários das indústrias erguidas pelas cooperativas e pelos dirigentes de dezenas de cooperativas criadas pela sua influência e pelo seu estímulo.

Fonte: Artigo escrito por José Zeferino Pedrozo, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de SC (Faesc) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/SC).
Continue Lendo

Colunistas

Conheça os pilares que ampliam a competitividade na produção de proteínas

Cadeia produtiva passa por ajustes estruturais em resposta a custos, concorrência internacional e novas exigências do mercado.

Publicado em

em

Foto: Shutterstock

A produção de proteínas animais no Brasil, especialmente nas cadeias de bovinos de corte, suínos e frango experimenta uma reformulação estrutural abrangente. Embora fatores tradicionais como clima e disponibilidade de terras ainda sejam relevantes, o verdadeiro diferencial competitivo do setor, estará cada vez mais concentrado em três pilares: gestão, tecnologia e capital humano.

Foto: Divulgação/Arquivo OPR

Nos últimos anos, o produtor rural passou a operar em um ambiente de custos elevados e alta volatilidade. A dependência de insumos dolarizados, como fertilizantes, medicamentos, fosfatos e adubos faz com que o câmbio exerça influência direta sobre a rentabilidade da atividade. Nesse contexto, produzir bem já não é suficiente. É preciso produzir com eficiência, escala e estratégia.

O mercado também mudou. A crescente concentração de processadores e varejistas redesenhou a dinâmica de poder dentro da cadeia produtiva. Como consequência, o produtor que não acompanha esse movimento, profissionalizando sua gestão e adotando tecnologias capazes de elevar produtividade e previsibilidade, tende a perder competitividade. Comprar bem, vender melhor e entender quais investimentos realmente geram retorno deixou de ser diferencial, tornou-se requisito básico de sobrevivência.

Foto: Luiza Biesus

Esse processo de mudança não é novo, mas vem se intensificando. A avicultura foi pioneira ao adotar a verticalização da produção. A suinocultura seguiu caminho semelhante, ainda que preservando alguma independência produtiva.

Já a bovinocultura de corte caminha para um modelo distinto, marcado pelo aumento de escala e pela consolidação de grandes players. O avanço de contratos, parcerias e modelos mais formais de comercialização vem alterando profundamente a forma como o setor negocia, forma preços e organiza sua governança.

Nesse novo cenário, gestão não se limita às finanças. Envolve pessoas, meio ambiente, uso eficiente de recursos e estratégias de proteção de preços. O produtor que não domina esses aspectos corre o risco de ser excluído da atividade. Por outro lado, aqueles que investem em processos produtivos mais eficientes, tecnologia adequada e melhoria contínua da gestão ampliam sua capacidade de negociação e constroem uma base econômica mais sólida e sustentável.

Foto: Divulgação

O desafio, porém, vai além da porteira. O Brasil enfrenta um apagão de mão de obra qualificada, tanto no campo quanto nos elos industriais da cadeia. Investir em capital humano, da fazenda ao frigorífico, dos operadores aos tomadores de decisão é tão estratégico quanto investir em genética ou inovação tecnológica. A transformação digital já é uma realidade e impacta todas as etapas da produção, exigindo profissionais cada vez mais preparados.

No horizonte macroeconômico, a demanda global por alimentos mais saudáveis, o avanço da biotecnologia e o papel do Brasil como exportador não apenas de carne, mas também de genética, colocam o país em posição estratégica. Aproveitar essa oportunidade dependerá menos de expansão territorial e mais de eficiência, inteligência produtiva e capacidade de adaptação.

O futuro da produção de proteínas no Brasil será definido por quem compreender que escala sem gestão não sustenta resultados, tecnologia sem estratégia não gera valor e crescimento sem pessoas qualificadas não se mantém. O setor está mudando, e quem não acompanhar essa transformação corre o risco de ficar pelo caminho.

Fonte: Artigo escrito por Thiago Bernardino de Carvalho, professor embaixador no MBA em Agronegócios da USP Esalq e pesquisador no Cepea.
Continue Lendo

Colunistas

Animais merecem cuidado, respeito e proteção

Cooperativas adotam tolerância zero a maus-tratos e investem em tecnologia, manejo e auditorias.

Publicado em

em

A maneira como a sociedade humana se relaciona com os animais é um indicador inequívoco de seus valores éticos, de sua maturidade social e de sua capacidade de projetar um futuro sustentável. Tratar os animais com respeito não é um gesto acessório, tampouco um modismo. É um compromisso moral que envolve indivíduos, organizações e sistemas produtivos inteiros. Nesse contexto, as cooperativas estão engajadas de forma ativa e responsável, assumindo seu papel histórico de conciliar desenvolvimento econômico, justiça social e cuidado com a vida.

Foto: Divulgação

Animais domésticos e animais de produção, ainda que inseridos em realidades distintas, compartilham a mesma condição de dependência da ação humana. Nos lares, cães e gatos integram famílias e oferecem vínculos afetivos profundos.

No campo, aves, suínos, bovinos, equinos, caprinos e tantos outros sustentam a produção de alimentos essenciais à população. Em ambos os casos, o respeito, o cuidado e a proteção devem ser princípios inegociáveis. Não há espaço para negligência, maus-tratos ou abandono, seja nas propriedades rurais, seja nas cidades, ruas e rodovias brasileiras.

No segmento agroindustrial da proteína animal, essa responsabilidade ganha uma dimensão ainda maior. Pessoas, empresas e organizações precisam adotar, de forma concreta, o moderno conceito de saúde única, que reconhece a interdependência entre a saúde animal, a saúde humana e o equilíbrio ambiental. Essa visão integrada orienta práticas que asseguram sustentabilidade, biosseguridade e bem-estar em todas as etapas produtivas. Ao cuidar adequadamente dos animais, protege-se também o alimento, os trabalhadores, os consumidores, o meio ambiente, o sistema produtivo e a segurança alimentar global.

As áreas de produção intensiva merecem atenção absoluta e permanente. A avicultura industrial, a suinocultura industrial, a

Foto: Divulgação

bovinocultura de corte e de leite, assim como a criação de equinos, caprinos e outras espécies, exigem rigor técnico, planejamento e investimentos contínuos. O mesmo nível de prioridade deve ser direcionado aos animais domésticos, especialmente àqueles que foram abandonados e hoje vivem em situação de vulnerabilidade extrema, submetidos à fome, doenças e violência silenciosa.

Essa filosofia de respeito se traduz em ações práticas e mensuráveis. A política de Tolerância Zero a maus-tratos é fundamental, com postura firme contra qualquer prática abusiva ou negligente. O monitoramento contínuo e a capacitação permanente, por meio de treinamentos regulares, promovem o manejo ético e humanitário. A ambiência adequada, sustentada por investimentos em infraestrutura, assegura conforto térmico, liberdade de movimento e acesso à água e alimentação de qualidade.

Foto: Divulgação

Auditorias internas e externas, realizadas de forma periódica, garantem conformidade, transparência e melhoria contínua. O alinhamento aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável reforça que o bem-estar animal é parte central de uma agenda global de responsabilidade e futuro.

As cooperativas têm avançado de maneira consistente nesse caminho, implementando ações estruturais, tecnológicas e educativas para assegurar condições dignas aos animais em todas as etapas da cadeia produtiva. Os investimentos concentram-se na melhoria das condições sanitárias, no conforto térmico e na implantação de tecnologias de monitoramento da saúde animal. Sistemas de notificações e penalidades complementam esse esforço, salientam que ética e respeito são compromissos permanentes, não retóricos.

Respeitar os animais é respeitar a vida em todas as suas dimensões. É reconhecer que produção, consumo e sustentabilidade não são conceitos opostos, mas interdependentes. É uma responsabilidade coletiva, que exige consciência, ação e compromisso. As cooperativas seguem firmes nesse propósito, porque acreditam que não há desenvolvimento verdadeiro sem dignidade, cuidado e respeito.

Fonte: Artigo escrito por Vanir Zanatta, presidente da Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina (Ocesc).
Continue Lendo

NEWSLETTER

Assine nossa newsletter e recebas as principais notícias em seu email.