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Suínos / Peixes Saúde Animal

Perdas econômicas associadas à Ileíte

A maior fonte de perdas econômicas associadas à ileíte é decorrente das perdas de produtividade causadas pela doença

Publicado em

em

Arquivo/OP Rural

Artigo escrito pelo doutor Derald Holtskmp da MSD Saúde Animal

A Lawsonia intracellularis (L. intracellularis) é o agente causador da enteropatia proliferativa suína, ou Ileíte, uma doença que afeta suínos em todo o mundo. Em suínos em crescimento, lesões, sinais clínicos e perdas de produtividade podem variar de leves a graves. Os sinais clínicos podem incluir diarreia e as lesões podem variar desde um espessamento da mucosa do intestino delgado e cólon até uma enterite necrosante ou uma enteropatia hemorrágica proliferativa em suínos mais gravemente afetados. Os suínos podem ser afetados a qualquer momento durante a fase de crescimento, mas as perdas de produtividade relacionadas à Ileíte são mais significativas na terminação, desde aproximadamente 20 kg até o peso de abate.

Os sinais clínicos de suínos afetados por Ileíte incluem diarreia e perda de peso. No entanto, os suínos afetados frequentemente crescem mais lentamente e requerem mais alimento por unidade de ganho de peso, mesmo sem diarreia ou perda de peso. Esta forma é, muitas vezes, chamada de doença subclínica, pois as perdas de produtividade não são caracterizadas por sinais clínicos evidentes.

A Ileíte é um problema prevalecente em todo o mundo. Com base em uma pesquisa feita em 2012 com produtores nos Estados Unidos, realizada pelo National Animal Health Monitoring System, a Ileíte foi relatada como um problema sanitário em 28,7% das granjas de crescimento e terminação.

Estimativas de perdas econômicas

Em um estudo de 2006, em uma pesquisa com veterinários para classificar e quantificar a produtividade e as perdas econômicas devido aos grandes desafios de saúde em 19 grandes empresas de produção suína nos EUA, a Ileíte foi classificada como um desafio de saúde em 14 das empresas.

No mesmo estudo, o valor das perdas de produtividade e aumento dos custos com saúde animal em suínos afetados pela Ileíte nas terminações foi estimado em US$ 4,65/suíno comercializado com perdas totais nos EUA estimadas em US$ 56,1 milhões anuais (dados não publicados).

Fontes de perdas econômicas e perdas de produção

A principal fonte de perdas econômicas associadas à ileíte surgem das perdas de produtividade causadas pela doença. Os suínos afetados pela Ileíte crescem mais lentamente e têm uma pior taxa de conversão alimentar. Um crescimento mais lento é medido por uma redução no ganho de peso diário (GPD) e uma conversão menos eficiente da ração em ganho de peso é medida por um aumento na taxa de conversão alimentar (TCA). A doença pode também resultar em um aumento da porcentagem de descartes, e em alguns casos pode causar mortalidade, resultando em um aumento das taxas de descarte e mortalidade.

Boas estimativas das perdas de produtividade causadas pela ileíte são difíceis de fazer devido à falta de dados suficientes coletados pelos produtores. A lacuna de dados mais significativa decorre da dificuldade em classificar grupos de suínos em crescimento como afetados ou não pela Ileíte.

Estão disponíveis ferramentas de diagnóstico para determinar se os suínos estão infectados pela L. intracellularis, têm anticorpos contra L. intracellularis (isto indica uma infecção anterior) e se a bactéria está associada às lesões. No entanto, os exames diagnósticos aumentam os custos de produção e são realizados com pouca frequência e raramente de forma rotineira. Quando os diagnósticos são realizados, falta à indústria uma definição amplamente aceita para classificar grupos de suínos como afetados ou não afetados com base nos resultados de diagnósticos laboratoriais.

Na prática, a observação de sinais clínicos é menos dispendiosa do que a realização de exames laboratoriais, mas é algo subjetivo, e a falta de sinais clínicos evidentes em casos subclínicos torna impossível confiar nesse parâmetro para classificar os grupos como afetados. No entanto, a falta de bons dados dos produtores, estudos observacionais publicados e estudos de desafio experimental controlados podem fornecer uma base para fazer estimativas aproximadas razoáveis.

GPD reduzido e piora na CA

Os estudos publicados fornecem uma base para estimar o impacto da ileíte no GPD e na CA (Tabela 1). Um estudo de caso-controle comparando rebanhos afetados pela ileíte com aqueles não afetados pela doença relatou que o GPD no sistema wean to finish (do desmame ao final da terminação) foi reduzido em 9% e que a CA aumentou em 7%. Os rebanhos foram classificados como positivos ou negativos com base no seu estado serológico.

Vários estudos experimentais de desafio, comparando suínos não desafiados (controle negativo) com suínos desafiados (controle positivo) também foram publicados. Todos os estudos resumidos na Tabela 1 incluíram um controle negativo e pelo menos um grupo de suínos desafiados e nenhum dos estudos incluiu quaisquer grupos de suínos que foram tratados com uma vacina ou antimicrobianos. A idade dos suínos quando desafiados e a dose de desafio variou em cada estudo. Em geral, o impacto no GPD e CA é maior nos suínos mais jovens e aumenta à medida que a dose de desafio aumenta. No caso dos estudos de desafio experimental em que os suínos tinham menos de 42 dias na época do desafio, a redução do GPD variou de 37% para 79%, e a CA aumentou de 37% para 194%. No entanto, os estudos experimentais de desafio em que os suínos tinham 42 dias (6 semanas) ou mais representam melhor o momento das infecções no campo. Em estudos onde os suínos tinham 42 dias ou mais na época do desafio, a redução no GPD variou de 3% a 19%. O impacto na CA foi relatado apenas em um dos estudos com suínos mais velhos, no qual foi relatado um aumento de 7%.

Mortalidade e abates

Nas formas mais graves da doença, a mortalidade também pode ocorrer, especialmente mais tarde na fase de crescimento. Em estudo de caso-controle, a taxa de mortalidade no sistema de produção wean to finish foi de 5,4% em granjas negativas e aumentou para 6,7% em rebanhos positivos (um aumento relativo de 24%). A taxa de descarte também pode aumentar, pois os suínos mais gravemente afetados podem não crescer rápido o suficiente para atingir pesos que são aceitos pelos mercados frigoríficos.

1.A idade dos suínos era a idade em que era desafiado. A duração do estudo é o tempo durante o qual o GPD e a CA foram medidos após o desafio.

2.B = Baixo, M = Médio, A = Alto.

3.Classificados como rebanhos Negativos (Controle) por sorologia.

4.Classificados como rebanhos Positivos (Casos) por sorologia.

Valor econômico das perdas de produtividade estimadas

Para estimar o valor das mudanças na produtividade causadas pela Ileíte, foi realizada uma análise econômica utilizando um modelo produtivo e econômico.

Para o cenário não afetado pela ileíte, o valor basal para GPD foi de 900 gr/dia, 2,950 para CA e 4,0% para mortalidade. Os limites inferior e superior relativos à redução do GPD foram de 3% e 19%. Devido ao número limitado de estudos que relatam CA, um aumento de 7% foi usado tanto para o cenário de limite inferior quanto para o de limite superior.

A taxa de mortalidade para o limite inferior permaneceu inalterada em relação à taxa não afetada de 4,0% e aumentou para 5,0% para o limite superior, um aumento de 25%, com base nos resultados de outro estudo.

Em cada cenário foi utilizado um peso médio inicial de 22 kg e 115 dias de ração. Portanto, à medida que o GPD diminuiu, o peso médio do mercado também diminuiu. Foram utilizados no modelo um preço de suíno de mercado de US$ 1,76/kg e um preço de ração de US$ 190/tonelada.

O preço da ração era um preço médio para todas as fases da terminação. Apenas o GPD, a CA e a taxa de mortalidade mudaram entre cada um dos cenários. Os valores do resto dos parâmetros foram mantidos constantes para os três cenários. Os resultados da análise econômica são apresentados na Tabela 2.

O valor dos GPDs, CAs e taxas de mortalidade mais fracos foram calculados como a mudança no lucro a partir do cenário não afetado pela Ileíte. O valor da perda de produtividade causada pela ileíte oscilou entre US$ 5,98 para o limite inferior e US$ 16,94 para o limite superior.

Variação

A principal fonte de perdas econômicas associadas à ileíte surge das perdas de produtividade causa- das pelos grupos de suínos afetados pela ileíte, observa-se a variação de leitão para leitão do ganho de peso diário entre suínos, já que alguns suínos podem ser mais afetados do que outros. As restrições do sistema contribuem para as consequências econômicas associadas à variação. Restrições comuns à maioria dos produtores surgem de recursos fixos limitados, tais como espaço de construção, e  restrições impostas pelo manejo tal como o fluxo de suínos no sistema. O número e tamanho das instalações coloca um limite ao número de animais e ao tempo que os animais podem permanecer em cada instalação.

Quando a variação no peso dos suínos aumenta devido à doença durante o período de crescimento, torna-se mais difícil alimentar e comercializar os suínos. As dietas serão sobre-fortificadas para suínos mais pesados e sub-fortificadas para suínos mais leves.

Dependendo de para onde os produtores visam a dieta em cada fase de crescimento, o custo da ração aumentará se as dietas forem sobre-fortificadas, e o crescimento e a conversão alimentar sofrerão se as dietas forem sub-fortificadas. Na comercialização, a maior variação de peso dos suínos torna mais difícil vender suínos que se enquadrem em um grupo de peso ótimo. Os suínos mais pesa- dos podem ser comercializados mais cedo, mas os suínos no extremo mais leve da distribuição de peso são os que causam mais problemas.

Se houver espaço disponível nas instalações, os suínos mais leves podem ser mantidos em alimen- tação por um período mais longo. No entanto, quando o espaço é limitado, como geralmente acontece, os suínos mais leves são comercializados com pesos inferiores ao ideal, o que resulta em uma perda de receita e lucro.

Dependendo se o espaço nas instalações é próprio ou alugado, segurar o espaço por um período mais longo também pode aumentar os custos.

Aumento dos custos da Saúde Animal

O custo das intervenções de saúde animal, tais como vacinas, antimicrobianos, serviços veterinários e diagnósticos, não são diretamente causados pela ileíte, mas ocorrem em resposta à doença. O dinheiro gasto nestas intervenções deve ser ponderado em relação ao benefício de reduzir os impactos da doença descrita acima. Uma análise de custo-benefício pode fornecer informações valiosas para ajudar os produtores e veterinários a decidir quais intervenções realizar.

Destaques

Com base em um levantamento feito com veterinários da suinocultura, as perdas na produtividade e o aumento dos custos com saúde animal em suínos afetados pela ileíte na terminação foram estimados em US$ 4,65 por suíno comercializado.

Com base em resultados de estudos de caso-controle e desafio experimental, o valor das perdas de produtividade causadas pela ileíte na terminação variou de US$ 5,98 a US$ 17,34 por suíno comercializado.

O custo da variação do crescimento causado pela ileíte torna mais difícil a alimentação ecomercialização dos suínos, o que aumenta o custo da doença.

O investimento em intervenções na saúde animal, como vacinas, antimicrobianos, serviços veterinários e diagnósticos, deve ser ponderado em relação ao benefício de reduzir as perdas de produtividade causadas pela ileíte.

Conclusões

A maior fonte de perdas econômicas associadas à ileíte é decorrente das perdas de produtividade causadas pela doença. Na terminação, onde as perdas devidas à ileíte são mais significativas, os suínos afetados terão um GPD menor e um aumento da CA, ocasionalmente um aumento na mortalidade e nas taxas de descarte. Outras perdas econômicas resultam da variação de GPD entre suínos, uma vez que alguns suínos podem ser mais afetados do que outros. A variação no crescimento causada pela ileíte torna mais difícil a alimentação e comercialização dos suínos, o que aumenta o custo da doença.

Poucas estimativas do custo da ileíte foram publicadas. Em um estudo, baseado em um levantamento feito por veterinários de suínos, o valor das perdas de produtividade e o aumento dos custos com a saúde animal em suínos afetados pela ileíte na terminação foi estimado em US$ 4,65 por suíno comercializado.

É difícil fazer boas estimativas das perdas de produtividade devido à ileíte, pela falta da coleta de dados a campo. Por esta falta de coleta de dados a campo, estudos observacionais publicados e estudos experimentais controlados podem fornecer uma base para fazer estimativas razoáveis. Com base nos resultados de um único caso-controle e de vários estudos experimentais de desafio, o valor estimado das perdas de produtividade (GPD, CA e mortalidade) causadas pela ileíte na fase de terminação variou de US$ 5,98 a US$ 17,34 por suíno comercializado.

Outras notícias você encontra na edição de Suínos e Peixes de julho/agosto de 2020 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes Nutrição

Estudos mostram que suplementação das dietas com Bacillus amyloliquefaciens CECT 5940 melhora performance de leitões

No geral, os resultados sugerem que a suplementação com Bacillus amyloliquefaciens reduz contagem fecal de E. coli, a frequência de diarreia e aumenta o desempenho de leitões desmamados

Publicado em

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Arquivo/OP Rural

Artigo escrito pela equipe técnica da Evonik

O desmame é um dos períodos mais estressantes da vida dos leitões, pois é acompanhado pela separação das mães e pela mudança do leite para uma dieta sólida. Nesse período, o sistema digestivo dos leitões desmamados ainda é imaturo e o estresse do desmame pode alterar a morfologia do intestino delgado e reduzir a secreção de enzimas digestivas, prejudicando a capacidade de digestão e absorção. Consequentemente, os nutrientes não digeridos (proteína bruta, por exemplo) serão usados como substrato para o crescimento de bactérias patogênicas, particularmente cepas enterotoxigênicas de Escherichia coli no intestino grosso, causando diarreia pós-desmame.

Para reduzir a incidência e a gravidade da diarreia pós-desmame, é comum o uso de antibióticos e óxido de zinco (ZnO) nas dietas de leitões pós-desmame. No entanto, a preocupação com o desenvolvimento de cepas de bactérias resistentes a antibióticos em humanos resultou em proibições do uso de antibióticos como promotores de crescimento. Portanto, é essencial que a indústria suína encontre alternativas para substituir os promotores por aditivos alimentares que possam reduzir eficientemente a incidência de problemas entéricos durante o período de desmame.

Os probióticos são considerados uma alternativa potencial aos antibióticos promotores de crescimento para reduzir a contaminação por patógenos e melhorar a saúde dos animais, principalmente no desmame. Estudos mostraram que a suplementação de um probiótico baseado em Bacillus pode melhorar o desempenho, a função da barreira intestinal e o perfil da microbiota em leitões desmamados. Os estudos também mostraram que manter um intestino saudável é fundamental para uma melhor utilização dos nutrientes na dieta.

Fornecer o Bacillus amyloliquefaciens CECT 5940 pode melhorar significativamente o ganho em leitões pós-desmame alimentados com dietas livres de antibióticos e melhorar o escore de consistência fecal, de acordo com um estudo feito em Leon, Espanha.

Resultados de performance

Os resultados de desempenho obtidos com a suplementação dietética de Bacillus amyloliquefaciens CECT 5940 (1kg / tonelada de ração) são mostrados na Tabela 1. Não houve diferença significativa no consumo médio diário de ração (P> 0,05). No entanto, houve uma melhora significativa na eficiência alimentar (P <0,05). O ganho médio diário (GMD) foi apenas marginalmente significativo (P <0,10), indicando uma tendência para melhoria do GMD com suplementação de Bacillus amyloliquefaciens. O escore médio de consistência fecal obtido no período foi significativamente reduzido (P <0,05) com a suplementação com probiótico.

Destaque para leitões de creche

Um segundo estudo, realizado em Montes Claros, estado de Minas Gerais, avaliou a eficácia do Bacillus amyloliquefaciens CECT 5940 em dietas com ou sem antibióticos em dose sub-terapêutica no desempenho de leitões de creche. Os leitões foram alimentados com uma dieta controle negativo, como a dieta comercial típica, onde são utilizados vários aditivos alimentares. Essa dieta controle-básica continha óxido de zinco (ZnO), uma mistura de ácidos orgânicos e adsorventes de micotoxinas. As outras três dietas consistiram em uma dieta basal com um antibiótico, o probiótico Bacillus amyloliquefaciens CECT 5940 (1kg / tonelada de ração), ou uma combinação do antibiótico e do probiótico.

A eficácia dos probióticos em suínos é comumente testada em dietas isentas de outros aditivos alimentares que promovem a saúde intestinal. O objetivo deste estudo foi avaliar os efeitos da inclusão de um probiótico em dietas com ou sem antibióticos em dose sub-terapêutica e outros aditivos alimentares comumente usados ​​como óxido de zinco e ácidos orgânicos, como representação de dietas comerciais em algumas regiões, sobre o desempenho do crescimento e saúde intestinal de leitões.

Os resultados mostraram que a suplementação com probiótico em dietas iniciais promove uma flora intestinal mais saudável, reduzindo a contagem de E. coli (Fig. 2.) e melhorando a consistência das fezes (Fig. 3). Concluiu-se também que a suplementação com antibióticos em doses terapêuticas em dietas com Bacillus amyloliquefaciens não influenciou a eficácia do probiótico na redução de E. coli ou na melhora da consistência das fezes. Como todas as dietas continham óxido de zinco e ácidos orgânicos, as diferenças de desempenho foram mínimas quando comparadas à dieta controle negativo (CN); no final do estudo, os leitões alimentados com todas as dietas alcançaram peso corporal final semelhante (PC). Os animais que receberam a dieta com antibiótico tiveram menor consumo e melhor eficiência alimentar, porém, não apresentaram os mesmos benefícios de saúde intestinal que aqueles alimentados com dietas com probiótico.

No geral, os resultados desses estudos sugerem que a suplementação com Bacillus amyloliquefaciens CECT 5940 (1kg / tonelada de ração) reduz a contagem fecal de E. coli, a frequência de diarreia e aumenta o desempenho de leitões desmamados.

Outras notícias você encontra na edição de Suínos e Peixes de outubro/novembro de 2020 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes Saúde Animal

Vinte anos de Circovírus no Brasil: Mutações pontuais de aminoácidos podem comprometer a resposta imune?

Ainda há um efeito positivo dos protocolos de vacinação atualmente utilizados com vacinas convencionais, mesmo que todas sejam baseadas no genótipo PCV2a

Publicado em

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Arquivo/OP Rural

Artigo escrito por Andrea Panzardi, especialista técnica em Biológicos Ourofino – Suínos

O circovírus suíno possui a maior taxa de evolução dentre os vírus ssDNA (Holmes, 2009). Em função disso, atualmente há a presença de oito (8) diferentes genótipos de PVC2, sendo representados por: PCV2a, PCV2b, PCV2c, PCV2d (antigo mPCV2b), PCV2e, PCV2f, PCV2g e PCV2h, os quais podem infectar leitões de maneira simultânea, ou seja, podendo este albergar mais de um genótipo de PCV2. Há indício de um nono (9) genótipo de circovírus já sequenciado, sendo este representado pelo PCV2i. Com isso, a circovirose passou de doença emergente a genótipos emergentes. Entretanto apesar da diversidade de genótipos determinados, atualmente no Brasil, os de maior importância em suinocultura tecnificada estão representados por dois (2) principais e frequentemente isolados, o PCV2b e o PCV2d (Gráfico 1).

Esta evolução foi decorrente de mutações pontuais na região ORF2, mais especificamente em regiões/epítopos específicos de importância estrutural do vírus, bem como de reconhecimento de anticorpos, ou seja, uma região imunogênica, aumentando a chance de falhas vacinais, respectivamente, devido a alterações relacionadas em resíduos de aminoácidos (aa) que reduzem a homologia/identidade, e consequente proteção cruzada.

“De doença emergente a genótipos emergentes”

Os diferentes genótipos de PCV2 possuem alta homologia, ou seja, demonstrando proteção cruzada, entretanto esta evolução fez com que as vacinas convencionais, desenvolvidas a partir do PCV2a, perdessem de certa forma, um pouco em eficácia, uma vez que a redução desta homologia está diretamente relacionada à redução de proteção cruzada. Esta redução de homologia foi verificada através de um estudo em que foi analisado o percentual (%) de identidade de amostras de campo PCV2b e d frente à vacina recombinante PCV2b, quando comparado aos isolados PCV2a, demonstrando menor risco de falha vacinal (Quadro 1).

Ainda neste mesmo estudo foi realizada uma análise um pouco mais aprofundada no intuito de verificar a homologia em um epítopo específico e, cientificamente, comprovado por ser responsável estruturalmente e antigenicamente na região ORF2, representado pelo epítopo da região do aminoácido (aa) 51 – 85. Os resultados demonstraram uma maior homologia da vacina recombinante PCV2b frente aos isolados PCV2b e PCV2d em detrimento ao PCV2a, que apresentou uma redução importante nesta homologia, e com isso aumentando o risco de falha vacinal (Quadro 2).

No intuito de demonstrar o porquê desta redução de homologia do genótipo PCV2a frente aos isolados atuais brasileiros de PCV2b e d, associado ao aumento de quadros subclínicos e alguns clínicos a campo, foi selecionado o resíduo do aminoácido 59 da região ORF2. Este aa já foi cientificamente comprovado como um aminoácido crítico, localizado externamente ao capsídeo viral, e, portanto, possuindo importância estrutural e antigênica. Neste aa em específico, foi verificada uma mutação, havendo substituição do aa alanina (A) por arginina (R) e lisina (K), respectivamente, nos genótipos PCV2b e PCV2d (Figura 1). Um dos pontos mais interessantes desta mutação, é que o aa A do PCV2a, se trata de um aa com características físico-químicas muito distintas dos aa presentes nas sequencias dos genótipos b e d, o que demonstra um aumento da chance de risco da ocorrência de escape imunológico (Tabela 1).

Este escape imunológico foi comprovado em um estudo controlado in vivo, onde três grupos de leitões foram vacinados com uma vacina convencional PCVa presente no Brasil, e desafiados respectivamente com PCV2a, PCV2b e PCV2d. Dos três (3) grupos de tratamento, o primeiro, desafiado com PCV2a e vacinado com PCV2a apresentou estatisticamente (P<00,5) uma maior concentração de anticorpos neutralizantes quando comparado aos grupos desafiados com PCV2b e PCV2d, indicando uma melhor neutralização viral e, consequentemente, melhor proteção por ser um genótipo homólogo/ similar.

Considerações finais

Ainda há um efeito positivo dos protocolos de vacinação atualmente utilizados com vacinas convencionais, mesmo que todas sejam baseadas no genótipo PCV2a. Entretanto, pelo fato do PCV2a diferir, em média, de 5 a 10% entre o PCV2b e PCV2d na região de ORF2 agrava a preocupação em relação a esta proteção em decorrência de mutações pontuais demonstradas em epítopos estruturais e de função antigênica, o que aumenta a chance de falha/escape vacinal.

Portanto, no intuito de que seja reduzido os riscos de falhas vacinais, é importante a utilização de vacinas atualizadas e alinhadas aos genótipos atualmente circulantes a campo.

Outras notícias você encontra na edição de Suínos e Peixes de outubro/novembro de 2020 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes Saúde Animal

O que você precisa saber sobre PCV

Abordagem holística contra a doença lançando mão de ferramentas observacionais e diagnósticas é de suma importância

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Divulgação/Wenderson Araujo

Artigo escrito por Brenda Marques, gerente Técnica Suinocultura na MSD Saúde Animal; Amanda Camargo, assistente de Marketing – Suínos da MSD Saúde Animal; e Marina Lima, residente da unidade de suinocultura da MSD Saúde Animal

O circovírus suíno tipo 2 (PCV2) é o agente etiológico da Circovirose suína, uma das infecções virais mais importantes nos suínos e responsável por graves perdas econômicas de até $ 20-30 por suíno.

Os circovírus suínos são vírus DNA pequenos e sem envelope representados por três espécies reconhecidas (PCV1, PCV2 e PCV3), e uma nova tentativa de classificação designada como PCV-4 (Saporiti, et al., 2020). O PCV3 e o PCV4 são os tipos recentemente identificados e a sua importância clínica e patogênese ainda necessitam de maiores investigações.

O PCV2 foi descoberto como a causa de uma doença sistêmica esporádica na década de 1990 no Canadá, que foram seguidos por graves surtos em todo o mundo. O PCV2 foi originalmente identificado como o agente causador da ‘‘Síndrome do Definhamento Multissistêmico Pós-Desmame ’’, mas também é envolvido em uma série de outras síndromes que foram chamadas coletivamente como Doenças associadas ao Circovírus – “Porcine Circovirus Diseases Associated” (PCVAD). Dentre as doenças associadas ao PCV2 destacam-se o Complexo respiratório suíno (CRS), Síndrome da dermatite; e nefropatia (SDNS), falhas reprodutivas e enterite granulomatosa. Considerando que até 100% dos suínos são soropositivos para PCV2 no momento do abate, a infecção subclínica é atualmente a principal forma de infecção pelo PCV2.

Os genes do PCV2 estão organizados em 11 quadros de leitura abertos (sigla em inglês, ORFs). As regiões ORFs são essenciais para a propagação do vírus. A ORF1 é necessária para a replicação viral. A região codificada a partir da ORF2 é a mais imunogênica do vírus, por ser parte da formação estrutural do capsídeo. Juntas, ORF1 e ORF2 contribuem para codificar, aproximadamente, 93 % do genoma do PCV2.

Desde a introdução da vacinação contra a Circovirose, as vacinas provaram ser extremamente eficientes, promovendo uma redução significativa na propagação do vírus em todo o mundo.

A evolução do PCV2

Até o momento foram descobertos 8 genótipos de PCV2 conforme a Figura 1 que mostra sua distribuição geográfica.

  • PCV2a, PCV2b e PCV2d permanecem como os genótipos mais prevalentes relatados em todo o mundo e, de acordo com o conhecimento atual, são os de maior relevância clínica. Atualmente, considera-se que o PCV2d exibe virulência semelhante para PCV2a e PCV2b quando inoculado em suínos susceptíveis.
  • PCV2c, PCV2e, PCV2f, PCV2g e PCV2h são considerados de pouca importância.

As vacinas continuam protegendo?

O desenvolvimento inicial das vacinas entre 2002-2004 foi baseado no genótipo PCV2a, uma vez que era o genótipo predominante na época. No entanto, no momento em que a vacina foi introduzida em 2007, o PCV2b ultrapassou o PCV2a como o genótipo predominante em todo o mundo. Ainda assim, as vacinas comerciais de PCV2 à base de PCV2a seguiram sendo eficazes contra o PCV2b. Outra mudança genotípica ocorreu mais recentemente com o PCV2d se tornando o genótipo mais prevalente em todo o mundo.

Devido ao aumento da prevalência de PCV2b e PCV2d nos últimos anos, a preocupação com uma possível ineficácia das vacinas com base em PCV2a aumentou. Porém, com base em avaliações clínicas, virológicas, imunológicas e patológicas, os estudos têm demonstrado que as vacinas comerciais com base no genótipo PCV2a protegem contra infecção de PCV2b e PCV2d. Veja na Tabela1 o compilado de vários estudos:

Recentemente, a eficácia da proteção contra PCV2b e PCV2d, a partir da vacinação com o genótipo de PCV2a, foi experimentalmente demonstrada por Park e colaboradores (2019). Neste estudo, os suínos foram vacinados com PCV2a e desafiados com PCV2a, PCV2b ou PCV2d. Dentre os resultados obtidos, estão:

  • Redução significativa de sinais clínicos em todos os animais vacinados;
  • Redução de viremia de PCV2, lesões linfóides e níveis de antígeno linfóide de PCV2 em comparação com os animais controle não vacinados;
  • Títulos significativamente mais altos de anticorpos neutralizantes contra PCV2; e
  • Aumento na frequência de células secretoras de interferon (IFN-SC) específicas para PCV2.

Neste mesmo trabalho, ainda que tenham demonstrado níveis maiores de anticorpos neutralizantes contra PCV2a do que para os demais genótipos de PCV, o número de células específicas de defesa (IFN-SC), relativas à imunidade celular específica para PCV2a, PCV2b e PCV2d, foi semelhantemente aumentado para todos os genótipos.

Por que é importante controlar a viremia de PCV2?

A viremia pelo PCV2 produz a ativação do sistema imune que redireciona os nutrientes que seriam destinados ao crescimento (ganho de peso e conversão alimentar) para combater os desafios da doença. Em um estudo que avaliou duas vacinas comerciais para o controle de PCV2, foi verificado que no protocolo vacinal com uma dose, a partir das 19 semanas de idade os animais exibiram viremia e queda no GPD.  Por outro lado, o protocolo com duas doses foi capaz de controlar a viremia e maximizar o GPD durante o alto desafio de PCV na fase final, sendo 42g / dia superior (p<0.01), em relação ao outro grupo vacinado.

Por que o Mycoplasma hyopneumoniae e o PCV2 devem ser controlados juntos?

O PCV-2 e o Mycoplasma hyopneumoniae são os dois patógenos mais prevalentes encontrados na atual suinocultura. Em uma infecção experimental dupla com PCV2 e M. hyopneumoniae, em que o desafio com PCV2 foi realizado uma semana após o desafio com M. hyopneumoniae, o PCV2 demonstrou potencializar a gravidade das lesões de M. hyopneumoniae e o M. hyopneumoniae demonstrou potencializar a gravidade de viremia de PCV2. Os efeitos de uma infecção dupla no desempenho do animal são, portanto, geralmente mais dramáticos do que com qualquer um dos dois patógenos isoladamente. Consequentemente, a vacinação contra um dos dois patógenos por si só não é suficiente para proteger os animais de infecções duplas com ambos os patógenos, destacando a necessidade e o benefício de controlar os dois agentes juntos. Em um estudo de campo, o efeito positivo desse controle, foi refletido por um GPD 34 g maior durante todo o período de terminação.

Diagnóstico e controle de uma doença multifatorial

A Circovirose é uma doença multifatorial, no qual o PCV2, para reproduzir a doença clínica, necessita de alguns “gatilhos” presentes no ambiente. Ao caracterizar uma enfermidade dessa maneira, afirmamos que diversos cofatores infecciosos e não infecciosos são necessários para a manifestação do quadro clínico. Dessa forma, o diagnóstico definitivo de infecção pelo PCV2 deve combinar os sinais clínicos, a presença do vírus e as lesões macro e microscópicas.  É primordial realizar um diagnóstico holístico da enfermidade com análise de dados do rebanho, fatores ambientais e de manejo e das coinfecções presentes que colaboram para a intensificação do quadro clínico dos animais.

As vacinas, sem dúvida, foram um marco no controle da Circovirose e manutenção da produtividade da suinocultura. Embora as vacinas possibilitem o controle dos sinais clínicos, lesões e excreção viral, elas não impedem a infecção dos animais. Não podemos esquecer que o PCV2 é um vírus extremamente resistente e permanece muito tempo no meio ambiente. O controle do agente deve envolver medidas de biosseguridade, cuidados com o status imunológico dos suínos, baixa presença do viral no rebanho e ambiente, além de cuidados adequados ao conservar e administrar as vacinas (Ciacci-Zanella, 2017). No momento da vacinação, os animais devem estar estáveis para que a resposta imunológica ocorra e se desenvolva da melhor forma. Infecções concomitantes por outros patógenos como (vírus da Influenza, PRRS) ou outras condições imunossupressoras (micotoxinas) podem afetar a resposta imune dos animais.

Com a devida atenção ao diagnóstico, é possível chegar a conclusões importantes. Dentre elas, podemos entender melhor a dinâmica de infecção tanto do PCV quanto de outros agentes infecciosos dentro da granja, viabilizando a definição das melhores estratégias de tratamento e prevenção. Além disto, o diagnóstico permite definir se os problemas da granja são realmente relacionados ao PCV2 ou a outros agentes, conhecer as suas causas fundamentais e consequentemente desenvolver as melhores estratégias para resolução dos problemas enfrentados.

Dinâmica da infecção e protocolos vacinais

Pensando no controle da circovirose, outro ponto importante a ser considerado são as variações na epidemiologia da doença, gerando a necessidade de protocolos vacinais mais estratégicos e personalizados para os diferentes contextos de cada granja. Exemplificando uma alteração de dinâmica de infecção do PCV2, pesquisa de 2020 descreve que devido à diminuição da pressão de infecção obtida pela vacinação, animais em final de terminação ou em idade reprodutiva podem estar susceptíveis à infecção. A suscetibilidade nesta fase aumenta o risco de infecções verticais das matrizes aos leitões e diminui a entrega de proteção pela matriz aos leitões através do colostro. Esta situação está associada à menor proteção dos leitões e a ocorrência da doença em animais mais jovens, por vezes antes mesmo, do desenvolvimento da imunidade vacinal.

Com base nisso, cada granja deve avaliar a dinâmica da doença dentro do seu rebanho para definir o programa que mais se adapta à sua situação e que poderá passar por:

  • Homogeneizar a imunidade das reprodutoras;
  • Vacinação da reposição contra o PCV-2 de forma rotineira;
  • Adequar, se for necessário, a idade da vacinação dos leitões.

Atualmente os leitões geralmente são vacinados por volta da 3ª semana de vida. Independentemente da idade, o momento ideal para a vacinação dos leitões combina uma situação de baixos níveis de anticorpos maternos e anterior ao desafio natural.  Assim, os leitões terão a imunidade protetora a partir da vacina antes da sua exposição ao agente viral.

Conclusões

Uma vez que a Circovirose é uma doença multifatorial, de manifestações clínicas e subclínicas abrangentes e epidemiologia complexa, a abordagem holística contra a doença, lançando mão de ferramentas observacionais e diagnósticas é de suma importância. Mesmo que as vacinas comerciais sejam eficazes contra os genótipos considerados de importância para a circovirose suína, o controle deve abranger todos os múltiplos fatores que podem estar relacionados ao desenvolvimento da doença e de infecções associadas.

Outras notícias você encontra na edição de Suínos e Peixes de outubro/novembro de 2020 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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