Peixes
Pequenas pisciculturas perdem produtividade por falhas de manejo e falta de controle
Especialistas alertam que problemas na alimentação, biometria, fertilização de viveiros e processamento do pescado comprometem rentabilidade de produtores familiares no Brasil.

A piscicultura familiar brasileira responde por até 40% da produção nacional de pescado, mas ainda enfrenta gargalos técnicos que reduzem produtividade, aumentam custos e limitam o acesso a mercados mais rentáveis. Falhas no manejo dos viveiros, resistência à adoção de tecnologias, ausência de controle zootécnico e dificuldades sanitárias estão entre os principais entraves identificados por pesquisadores e técnicos que atuam no setor.

Ana Paula Oeda
Dados do último censo aquícola mostram que entre 80% e 85% dos empreendimentos aquícolas do país são pequenos ou familiares, concentrados principalmente nas regiões Norte e Nordeste. Apesar da relevância econômica e social, grande parte desses produtores ainda opera com baixa assistência técnica e manejo pouco padronizado.
O tema foi debatido durante o encontro “Piscicultura Familiar na Região de Porto Nacional: Caracterização, Desafios e Soluções”, promovido pelo Instituto de Desenvolvimento Rural do Tocantins (Ruraltins), em parceria com a Secretaria da Pesca e Aquicultura (Sepea), Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e Embrapa Pesca e Aquicultura, durante a Agrotins, em Palmas.
Resistência a mudanças ainda trava produtividade
Segundo a zootecnista Rafaela Medeiros, um dos principais desafios da assistência técnica é convencer produtores a modificar práticas tradicionais de manejo. “Para a piscicultura andar bem, a parte de alimentação, densidade e qualidade da água devem estar bem alinhados. Mas muitas vezes chegamos na propriedade rural e o produtor tem resistência de mudar sua forma de produzir porque ele aprendeu a fazer o manejo com seus pais e avós”, afirma.
Ela destaca que a biometria ainda é negligenciada em muitas propriedades, apesar de ser considerada uma das principais ferramentas para acompanhamento do desempenho produtivo. “É o maior recurso que temos para ver se o peixe está se desenvolvendo bem, mas muitas vezes é relegada a segundo plano”, ressalta.
Problemas no viveiro elevam custo da produção
Estudos apresentados pela pesquisadora Ana Paula Oeda em três pequenas pisciculturas de Porto Nacional identificaram uma série de problemas produtivos, entre eles crescimento abaixo do esperado, baixa produtividade, pior conversão alimentar e água excessivamente transparente, sinal de deficiência na fertilização dos viveiros.

Adriana Lima: “A questão da fertilização dos viveiros é bem importante e impacta diretamente no custo de produção”
As falhas de manejo também foram detalhadas pela pesquisadora Adriana Lima. Segundo ela, muitos produtores ainda utilizam sistemas monofásicos, nos quais o peixe permanece no mesmo tanque desde a fase inicial até a despesca, reduzindo eficiência produtiva.
Outro problema recorrente é a fertilização inadequada dos viveiros, prática que impacta diretamente os custos com ração. “A questão da fertilização dos viveiros é bem importante e impacta diretamente no custo de produção. Em viveiros fertilizados adequadamente, 61% do crescimento do peixe é feito pela ração e 39% vem pela ingestão de zooplâncton. No entanto, em viveiros sem fertilização correta, 89% do crescimento do peixe depende de ração, encarecendo muito mais a produção”, explica.
Gestão financeira ainda é gargalo

Andrea Munoz
Além das questões zootécnicas, pesquisadores alertaram para a necessidade de profissionalização da gestão econômica nas pequenas propriedades.
A economista e pesquisadora da Embrapa Andrea Munoz destacou a importância de registrar detalhadamente todos os custos da atividade, incluindo energia elétrica, combustível, compra de alevinos e alimentação.
Segundo especialistas, muitos produtores desconhecem o custo real da produção, dificultando decisões sobre expansão, comercialização e rentabilidade.
Mercado ainda é limitado para pequenos produtores
Na área comercial, o pesquisador Manoel Pedroza apresentou diferentes canais de comercialização do pescado, como atravessadores, frigoríficos, supermercados, feiras e mercados institucionais.
Ele destacou, porém, que mercados como pesque-pague e exportação ainda são pouco explorados pela piscicultura familiar.
A falta de selo de inspeção sanitária segue como uma das maiores barreiras para ampliar vendas formais. “Um dos meus maiores problemas que eu enfrento é a falta do selo de inspeção animal, que me impede de vender para muitos lugares”, relata a piscicultora Marinalva Moura.
Para manter a atividade, ela optou pela venda direta ao consumidor e em feiras livres. “Minha produção de pescado é de uma tonelada e eu vendo tudinho. Poderia vender mais se eu tivesse o selo de inspeção, mas não tenho. No entanto, eu não me deixei levar e hoje os consumidores compram meu peixe porque ele é fresquinho e tem qualidade”, afirma.
Atualmente, Marinalva comercializa tilápia, piau, pintado e tambaqui.
Pragas e processamento preocupam setor
Outro desafio relatado pela produtora é o avanço do mexilhão-dourado nos tanques-rede utilizados na criação. “Estou tendo que diminuir a produção por causa dessa praga, que deve ter vindo pelo casco de algum navio”, lamenta.
O processamento do pescado também foi apontado como ponto crítico para qualidade e segurança sanitária da produção. O pesquisador da Embrapa Leandro Kanamaru apresentou imagens de frigoríficos com falhas graves de higiene, ausência de gelo e manejo inadequado dos peixes durante o processamento. “A partir da hora em que o peixe sai do viveiro, é imprescindível trabalhar com baixas temperaturas. O peixe deve ser transportado em meio a camadas de gelo e processado seguindo as boas práticas. Só assim será possível minimizar os riscos de contaminação desta carne que se deteriora mais rápido do que as demais”, pontua.

Peixes
Tilápia registra queda nas cotações em todas as principais regiões produtoras
Levantamento do Cepea mostra retração semanal entre 0,10% e 0,61% nos preços pagos ao produtor.

Os preços da tilápia apresentaram recuo em todas as principais regiões produtoras monitoradas pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) na semana de 13 a 17 de julho.
O maior valor foi registrado no Norte do Paraná, onde o quilo da tilápia foi negociado a R$ 10,31, apesar da retração semanal de 0,61%. Em seguida aparecem o Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, com cotação de R$ 10,04 por quilo e queda de 0,50%, e a região dos Grandes Lagos, onde o preço fechou em R$ 9,80, recuo de 0,52%.
Em Morada Nova de Minas, o quilo da tilápia foi comercializado a R$ 9,48, com desvalorização de 0,26% na comparação com a semana anterior.
No Oeste do Paraná, a cotação ficou em R$ 8,70 por quilo, a menor entre as regiões pesquisadas. Apesar disso, o mercado registrou a menor variação negativa da semana, com queda de 0,10%.
Os dados são do levantamento semanal do Cepea, que acompanha a evolução dos preços da tilápia nas principais regiões produtoras do país.
Peixes
Seguro-defeso pode passar a ser pago durante todo o período de proibição da pesca
Mudança também prevê cadastro nacional de pescadores artesanais e regras mais rígidas para combater fraudes na concessão do benefício.

Um projeto de lei em tramitação na Câmara dos Deputados prevê que o Seguro-Desemprego do Pescador Artesanal seja pago durante todo o período em que a pesca estiver proibida por medidas de preservação ambiental.
O Projeto de Lei 806/2026 altera a Lei nº 10.779/2003, que regulamenta o seguro-defeso, benefício concedido aos pescadores artesanais durante a paralisação temporária da atividade para garantir a reprodução das espécies.

Foto: Claudio Neves
Segundo o texto, o objetivo é evitar situações em que o pescador permanece impedido de exercer a atividade por determinação legal, mas deixa de receber o benefício durante parte do período de restrição.
Além da ampliação da cobertura, a proposta cria o Cadastro Nacional de Pescadores Artesanais e Marisqueiras. A ferramenta deverá reunir informações para registro, controle e cruzamento de dados, permitindo maior fiscalização na concessão e no acompanhamento do seguro-defeso.
O projeto também endurece as regras contra fraudes. Pela proposta, quem obtiver ou tentar obter o benefício mediante fraude ou má-fé ficará impedido de participar ou receber benefícios de programas sociais.
Autores da proposta, os deputados Carla Dickson (PL-RN) e Sargento Gonçalves (PL-RN) afirmam que a medida busca garantir que os recursos do seguro-defeso sejam destinados exclusivamente aos profissionais que dependem da pesca artesanal como fonte de renda.
Tramitação
O projeto será analisado, em caráter conclusivo, pelas comissões de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural; de Previdência, Assistência Social, Infância, Adolescência e Família; de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.
Para entrar em vigor, a proposta ainda precisa ser aprovada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal.
Peixes
Ruído de embarcações compromete comunicação dos peixes, aponta estudo
Pesquisa da UFPE indica que a poluição sonora pode afetar alimentação, reprodução e defesa de território, com reflexos para a saúde dos recifes e da pesca.

O ruído de motores de embarcações, como lanchas e motos aquáticas, e de banhistas afeta a comunicação sonora entre os peixes, o que pode causar impactos negativos na alimentação, reprodução e defesa de território de várias espécies. A poluição sonora encobre os sons emitidos pelos peixes e representa risco para a saúde de recifes de corais.
A constatação faz parte de um artigo de pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), publicado nesta segunda-feira (20), na revista científica Neotropical Ichthyology e divulgado pela Agência Bori, voltada a estudos científicos.

Foto: MPA
Apesar de a publicação ser em inglês, o periódico é editado pela revista oficial da Sociedade Brasileira de Ictiologia (SBI). A ictiologia é o ramo da zoologia dedicado ao estudo científico dos peixes.
De acordo com um dos autores do estudo, Túlio Freire Xavier, do Laboratório de Pesquisa em Ictiologia e Ecologia de Recifes da UFPE, a análise mostrou que “houve uma redução clara na ocorrência dos sons produzidos pelos peixes”.
Segundo ele, a diminuição foi identificada “justamente” onde havia maior presença de ruído causado pela ação humana. “Isso pode acontecer porque os sons ficam mascarados pelo barulho das embarcações, tornando-se mais difíceis de detectar, ou porque alguns peixes realmente reduzem ou alteram sua produção sonora em resposta ao ruído”, diz.
Ele detalha que muitos peixes utilizam sons durante comportamentos como reprodução, defesa de território e alimentação. “Se essa comunicação for prejudicada, esses comportamentos também podem ser afetados”, assinala.
Praias turísticas
O estudo monitorou ruídos produzidos pela atividade humana, como de motores de embarcações, de parapentes e da própria movimentação de banhistas no mar. Ao mesmo tempo, os pesquisadores acompanharam os sons emitidos por peixes nessas áreas.

Foto: Denis Ferreira Netto/SEDEST
O trabalho de campo foi conduzido em duas regiões turísticas no litoral de Pernambuco: as praias de Carneiros, na Área de Proteção Ambiental (APA) de Guadalupe; e Tamandaré, na APA Costa dos Corais.
Essas duas praias foram selecionadas por serem destinos turísticos populares com dinâmicas diferentes, o que permitiu comparar os impactos sonoros.
Carneiros é um destino popular durante o ano todo, enquanto Tamandaré apresenta variações sazonais, com pico no verão.
Em cada praia, os pesquisadores mediram os sons tanto em pontos perto da costa, mais influenciados pela atividade humana; e pontos abrigados, onde a estrutura de recifes serve como barreira para o som.
Forma de medição
Para chegar aos resultados, os pesquisadores instalaram nos pontos de monitoramento um sistema de gravação subaquática. Cada sessão de monitoramento teve dez horas contínuas de gravação diária, somando 80 horas de dados acústicos.
Além de captura dos sons, mergulhadores fizeram uma espécie de censo visual, contando a quantidade e espécie de peixes. Foram encontradas de 18 a 23 espécies. Em Carneiros, eles localizaram quase 1,4 mil peixes.
Os registros foram realizados em janeiro e fevereiro de 2022, período de alta temporada, e em abril de 2023.
Sons dos peixes
A pesquisa identificou nove diferentes tipos de sons de peixes. Três deles deixaram de ser emitidos em locais expostos à presença de pessoas.
A ictiologia explica que os peixes produzem grande diversidade de sons, que são fundamentais para sua comunicação e sobrevivência nos recifes, que se manifestam por meio de pulsos, às vezes únicos, às vezes repetidos e formando sequências. Alguns peixes não produzem sons.

Foto: Divulgação
Os sons emitidos pelos peixes são relacionados a comportamentos específicos e famílias de peixes. Biologicamente, são essenciais para localização de parceiros e reprodução, defesa de território contra invasores, interações em grupo, e alimentação e detecção de predadores.
A poluição sonora humana foi relacionada também à redução na complexidade acústica – índice que mede a variação de padrões sonoros dos peixes ao longo do tempo.
Os ruídos causam um fenômeno chamado “mascaramento acústico”, quando o som contínuo dos barcos esconde sinais acústicos dos peixes. Outro impacto é a supressão de comportamento, quando o ruído pode levar os peixes a reduzir ou cessar vocalizações.
Consequências
O pesquisador Túlio Freire Xavier destaca que os peixes da região são fundamentais para a saúde dos recifes de corais, contribuindo para o equilíbrio de cadeias alimentares. “Os peixes recifais desempenham papéis importantes no controle de algas, na manutenção dos corais e na produtividade desses ambientes.”
Ele ressalta que os recifes sustentam atividades importantes para a economia da região, como o turismo e a pesca artesanal. “Quando a poluição sonora interfere no comportamento desses peixes, existe o potencial de afetar, ainda que de forma indireta, os serviços ecossistêmicos que esses ambientes oferecem”, diz.
Outras regiões
O especialista da UFPE aponta que, apesar de o experimento ter sido realizado no litoral pernambucano, o impacto de sons da atividade humana na vida dos peixes não é “exclusivo desses locais”. “Sempre que houver intenso tráfego de embarcações, turismo náutico ou outras fontes de ruído subaquático que coincidam com as frequências utilizadas pelos peixes, existe potencial para impactos semelhantes”, afirma.
“A intensidade desses efeitos provavelmente varia de acordo com a quantidade de embarcações, as características do recife e as espécies presentes, mas o problema pode ocorrer em outros importantes recifes brasileiros, como Abrolhos e Fernando de Noronha”, complementa.
Limites sustentáveis
Túlio Xavier explica que ainda não existem limites universalmente aceitos para níveis seguros de ruído em ambientes recifais voltados à proteção dos peixes. “Esse é um campo que ainda precisa avançar bastante. Estudos como o nosso ajudam justamente a construir esse conhecimento”, diz.
Ele destaca que o conhecimento científico gerado é compartilhado com gestores e comunidades locais, para contribuir com políticas públicas de manejo das regiões.
O especialista em biologia marinha da UFPE sustenta que turismo e conservação não precisam ser incompatíveis, mas que o componente acústico deve passar a ser considerado no planejamento das atividades. “O ruído subaquático é uma forma de poluição que normalmente passa despercebida”, avalia.
Ele aponta que medidas “relativamente simples”, como organizar rotas de embarcações, reduzir a velocidade em áreas sensíveis e evitar concentração excessiva de atividades sobre determinados recifes, podem contribuir para diminuir esse impacto. “Proteger a paisagem sonora significa também ajudar a preservar o funcionamento ecológico desses ecossistemas e os benefícios que eles oferecem à sociedade.”



