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Pecuária de corte se recupera em 2024 e projeta novo ciclo de alta em 2025

Para garantir as melhores oportunidades do setor, Oswaldo Pereira Ribeiro Júnior, presidente da Acrimat, diz que o produtor precisa entrar na atividade com uma estratégia clara, escolhendo entre criação, recria ou engorda conforme a vocação da região em que sua propriedade está instalada.

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Fotos: Shutterstock

Após enfrentar períodos difíceis, 2024 foi um ano de recuperação para a pecuária de corte no Brasil. O Valor Bruto de Produção (VBP) deve atingir a marca de R$ 151,9 bilhões, representando um crescimento de 1,88% em relação a 2023, quando o setor fechou o ano com faturamento de R$ 149,1 bilhões. As projeções foram divulgadas em novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e serão consolidadas em janeiro de 2025.

Segundo as Estatísticas da Produção Pecuária, divulgadas em dezembro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 2024 deve encerrar com recorde no abate de bovinos e na produção de carne. No terceiro trimestre, o abate cresceu 15,3% em comparação ao mesmo período de 2023, com alta de 3,9% frente ao segundo trimestre de 2024. O total de cabeças abatidas alcançou 10,37 milhões, superando pela primeira vez a marca de 10 milhões de cabeças em um trimestre. O desempenho no último trimestre pode consolidar um recorde anual histórico.

Essa boa oferta de animais é resultado da retenção de fêmeas entre o final de 2019 e 2021, um movimento estratégico do setor. Atualmente, a pecuária se encontra em uma fase de baixa de ciclo, não em número de animais, mas em termos de preços. Os valores do bezerro seguem em queda, o que desincentiva a retenção de fêmeas e, por consequência, aumenta o envio de fêmeas para o abate.

Em relação ao terceiro trimestre de 2023, foram abatidas 1,37 milhão de cabeças a mais no mesmo período de 2024, com aumentos em 25 das 27 unidades da federação. O abate de fêmeas subiu 19,6%, impulsionado pela desvalorização do bezerro em comparação ao ano anterior, enquanto o abate de machos apresentou alta de 12,5%.

Outro fator positivo foi a demanda aquecida pela carne bovina tanto no mercado interno quanto no externo. Conforme dados da Secex/MDIC, as exportações de carne bovina no terceiro trimestre de 2024 atingiram um patamar inédito de 706,43 mil toneladas, representando um aumento de 30,6% em relação ao mesmo período do ano anterior, consolidando o Brasil como líder global no fornecimento de carne bovina.

De acordo com o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Júnior, apesar da recuperação da arroba entre o fim de outubro e o início de novembro e da melhora no clima, o ano ainda foi marcado por muitas dificuldades para os pecuaristas. “Tivemos problemas com preços, seca, incêndios, insegurança jurídica e no campo, com risco constante de invasões de terras e ainda no Mato Grosso tivemos vários impasses para obter liberação de licenciamentos pela Secretaria de Meio Ambiente do Mato Grosso para desmatar áreas legais. Então, no geral, considero que foi um ano razoável”, menciona.

Ribeiro Júnior destaca que a recuperação dos preços da arroba bovina no fim do ano trouxe algum alívio ao setor, com valores próximos ao que eram há dois anos, em torno de R$ 330/@, chegando em algumas regiões a R$ 450/@. “Porém, esses valores apenas recompõem as perdas acumuladas nos últimos anos, considerando os investimentos feitos no período”, afirma.

Outro ponto de atenção é o preço do bezerro, que esteve muito abaixo do ideal ao longo de 2024, mas deu sinais de melhora no fim do ano. Na segunda quinzena de dezembro, o Indicador do Bezerro Esalq/BM&FBovespa – Mato Grosso do Sul registrou preço de R$ 2.651,08, com peso médio de 201 quilos. Segundo Ribeiro Júnior, a tendência é de que os preços subam no início de 2025. “A perspectiva para 2025 é muito melhor. O cenário externo está pujante e crescente, com muitos países buscando o Brasil para garantir a segurança alimentar de suas populações. O mercado interno é mais sensível, pois depende da condição econômica do país e das políticas do governo federal”, expõe.

Apesar disso, Ribeiro Júnior ressalta que a pecuária ainda enfrenta desafios. “O poder aquisitivo da população tem piorado, e isso impacta diretamente o consumo de carne bovina, que acaba sendo substituída por proteínas mais baratas. Como o mercado interno consome quase 75% da nossa produção, ainda aguardamos uma melhora”, menciona.

No mercado externo, a situação é mais favorável. “O mercado está aquecido e em crescimento contínuo. Muitos países procuram o Brasil, não apenas pela carne bovina, mas pela segurança alimentar que oferecemos. Há alguns anos, os Estados Unidos diziam que não comprariam nossa carne, e hoje figuram entre os principais compradores, importando mais de 150 mil toneladas por ano”, relembra.

Ele também destaca que outros mercados importantes estão se abrindo. “O México, que é concorrente direto do Brasil, também está comprando nossa carne, assim como o Canadá. O único concorrente direto que não compra carne bovina brasileira é a Austrália, além da Argentina e do Uruguai. Das 195 nações da ONU, 145 consomem carne brasileira. O Sudeste Asiático tem mostrado grande interesse, e a China segue como um dos maiores compradores”, enfatiza.

Recomposição do rebanho

O mercado pecuário brasileiro começa a dar sinais de mudança no ciclo produtivo após dois anos de abate elevado de fêmeas, o que reduziu a oferta de bezerros e impactou a estrutura de reposição. Segundo Ribeiro Júnior, o momento é de grande procura por novilhas para recompor os plantéis, impulsionando a valorização dos bezerros e marcando o início de um novo ciclo.

Segundo o presidente da Acrimat não haverá escassez de carne bovina, mas o valor da arroba tende a aumentar, dependendo do comportamento do mercado varejista e dos frigoríficos. “Talvez a arroba esteja um pouco mais cara, mas vai depender do mercado varejista e dos frigoríficos, que são nossos principais compradores e grandes moderadores do preço. Se o varejo não vender, vai precisar fazer descontos para baixar o valor da carne na gôndola. É a lei da oferta e procura”, explica.

Custos de produção

Outro fator positivo apontado é a previsão climática para 2025, que tende a ser mais favorável em relação a 2024. De acordo com Ribeiro Júnior, os lençóis freáticos começam a se recuperar com as chuvas recentes, o que pode reduzir os impactos de estiagens prolongadas.

No entanto, a recuperação dos pastos ainda é gradual, o que retarda a chegada de animais prontos ao mercado. Com isso, a carne disponibilizada atualmente é majoritariamente de confinamento, o que pressiona os custos de produção. “Sem o pasto, o custo operacional da produção aumentou em média 30%. Toda vez que sobe o preço da arroba, o confinador também aumenta o preço e os grãos sobem junto. Quem faz terminação a pasto precisa suplementar com grãos, e para quem confina, os custos com insumos também são altos”, destaca Ribeiro Júnior.

Pecuarista recupera margens, mas custos exigem planejamento

Com a valorização do bezerro, os custos para quem atua com recria e engorda já aumentaram mais de 50%, o que demanda maior planejamento financeiro. “O pecuarista que não fizer conta toma prejuízo. A pecuária de corte no Brasil está se recuperando, e o criador, que sofreu muito nos dois últimos anos, entregando bezerro entre R$ 800 e R$ 1 mil, hoje está conseguindo ter uma margem maior de lucro. A arroba tende a se manter acima de R$ 300, porque não tem muito animal pronto”, afirma.

Ainda assim, o momento é de cautela e de investimento consciente. Com pastos em recuperação e maior disponibilidade de água, o pecuarista ganha fôlego para reter animais, comprar matrizes e investir no plantel. “Agora o pecuarista está mais tranquilo para investir, mas muitos venderam tudo e saíram da atividade. Os que persistiram estão aproveitando o momento para planejar melhor a produção e buscar equilíbrio nas contas”, pontua Ribeiro Júnior, ressaltando que o desafio para o próximo ciclo será equilibrar custos crescentes com as oportunidades de mercado, em um cenário que promete ser mais favorável para a pecuária nacional.

Oportunidades e desafios a partir de 2025

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Júnior: ” A perspectiva para 2025 é muito melhor” – Foto: Divulgação/Acrimat

Para garantir as melhores oportunidades do setor, o presidente da Acrimat diz que o produtor precisa entrar na atividade com uma estratégia clara, escolhendo entre criação, recria ou engorda conforme a vocação da região em que sua propriedade está instalada. “Não adianta entrar em áreas sem disponibilidade de grãos e alimentos para o gado se for uma ideia para fazer terminação. Só pasto dificulta, porque o processo é mais demorado”, comenta.

No Mato Grosso, por exemplo, a BR-163 conecta regiões de alta produção de soja e algodão, permitindo ao produtor integrar safras agrícolas com a pecuária em um modelo de diversificação eficiente. Já no Pantanal, em que a oferta de grãos é limitada, a vocação é mais especializada no sistema de cria.

Ribeiro Júnior ressalta a importância do uso de tecnologia e planejamento financeiro para aumentar a rentabilidade. “Hoje o pecuarista precisa colocar tudo na planilha: custos com pulverizações, drones, suplementação, insumos. Controlar os números é essencial para reduzir desperdícios e equilibrar as contas”, reforça.

Além dos desafios internos, fatores externos à porteira como infraestrutura, estabilidade política e aumento do consumo de carne impactam diretamente o setor. O transporte de animais, por exemplo, é um gargalo no Mato Grosso devido às longas distâncias entre propriedades e frigoríficos, o que afeta o bem-estar dos bovinos. “A pecuária é uma atividade de longo prazo e não especulativa, exigindo persistência e estabilidade, porque o produtor investe hoje para colher resultados daqui a três ou quatro anos. Precisamos cobrar melhorias governamentais e de infraestrutura para garantir a continuidade e o crescimento da pecuária de corte no Brasil”, sustenta.

Com a versão digital do Anuário, você terá acesso a análises aprofundadas e dados essenciais que ajudam a compreender o desempenho das principais atividades agropecuárias em 2024 e as tendências para 2025. Acesse a versão digital clicando aqui. Boa leitura e um excelente 2025!

Fonte: O Presente Rural

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Governo libera crédito emergencial para cooperativas de leite

Linha do Pronaf garante capital de giro para manter operações e evitar impactos no campo.

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Foto: Isabele Kleim

As cooperativas da agricultura familiar que tenham como atividade principal a produção e o processamento de leite terão acesso temporário a uma linha de crédito para capital de giro. O Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou na quinta-feira (23) a inclusão de cooperativas do segmento em dificuldades financeiras na modalidade de agroindústria do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Na prática, essas cooperativas poderão contratar empréstimos para capital de giro até 30 de junho. Esse dinheiro é usado para manter as atividades do dia a dia, como comprar leite dos produtores, processar os produtos e manter a operação funcionando.

Em nota, o Ministério da Fazenda explicou que a decisão busca apoiar cooperativas que enfrentam dificuldades financeiras no curto prazo, garantindo que continuem operando normalmente. Sem esse apoio, poderia haver atraso nos pagamentos aos produtores, redução da produção e até perda de empregos locais.

Segundo a pasta, essas cooperativas são fundamentais porque:

•    Compram a produção de pequenos agricultores;

•    Processam alimentos, como leite e derivados;

•    Garantem renda para famílias no campo.

Quem pode acessar o crédito

•    A linha é voltada para cooperativas que participam do Pronaf Agroindústria e que comprovem dificuldades para pagar dívidas de curto prazo em 2026.

•    Além disso, elas precisam estar inscritas em programas do governo voltados à gestão e fortalecimento da agricultura familiar, como iniciativas do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar.

•    Os valores podem ser contratados em um ou mais bancos.

Como funciona o financiamento

A medida estabelece condições específicas para os empréstimos:

•    Prazo total: até 6 anos para pagamento;

•    Carência: até 1 ano para começar a pagar o principal;

•    Juros: 8% ao ano;

•    Limite por cooperativa: até R$ 40 milhões;

•    Limite por cooperado: até R$ 90 mil.

Até quando vale

A autorização para contratar esse tipo de crédito vale até 30 de junho de 2026.

O que muda na prática

Com mais acesso a crédito, a expectativa do governo é:

•    Manter a compra da produção dos agricultores;

•    Evitar interrupções nas atividades das cooperativas;

•    Garantir renda para famílias rurais;

•    Preservar empregos no interior;

•    Manter o abastecimento de alimentos.

A medida, informou a Fazenda, funciona como reforço de caixa emergencial, ajudando o setor a atravessar um período de dificuldades sem interromper a produção.

Fonte: Agência Brasil
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Pecuária de Mato Grosso pode recuperar R$ 921 milhões com regularização ambiental

Áreas em regeneração já somam o equivalente a 5,8 mil campos de futebol.

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Foto: Divulgação/Imac

Uma área equivalente a 5.868 campos de futebol está em processo de regeneração ambiental em Mato Grosso, impulsionada pelo Programa de Reinserção e Monitoramento (Prem), do Instituto Mato-grossense da Carne (Imac). Mais do que apenas uma adequação legal, regenerar áreas desmatadas ilegalmente também significa voltar ao mercado.

Apenas nas fazendas monitoradas pelo Prem a projeção é de que R$ 921,2 milhões voltem à cadeia produtiva formal, dinheiro que estava comprometido pois as propriedades estavam proibidas de comercializar seu rebanho, por causa dos passivos ambientais. “Para o setor, o passivo ambiental significa um bloqueio direto à comercialização. Propriedades com desmatamento irregular registrado no sistema Prodes ou com embargos ficam impedidas de vender para frigoríficos que atendem grandes redes varejistas e exportadores, por exemplo. Ao regularizar essas áreas, o Prem reconecta o produtor ao mercado formal”, explica o presidente do Imac, Caio Penido.

Foto: Gabriel Faria

Criado em 2022, o programa apresentou crescimento acelerado. Em quatro anos, saiu de quatro para 167 pecuaristas desbloqueados, avanço que reflete a demanda crescente por regularização e acesso a mercados. Atualmente, o Prem monitora 381.173 hectares, área equivalente a cerca de 2,5 vezes o município de São Paulo, e acompanha a regeneração ativa de 4.190 hectares de vegetação nativa.

Inserido na estratégia mais ampla de sustentabilidade da pecuária mato-grossense, o Prem é a principal ferramenta do Passaporte Verde, política que busca fomentar conformidade socioambiental em toda a cadeia produtiva do Estado. A iniciativa oferece acompanhamento técnico e orientação contínua aos produtores, facilitando o cumprimento da legislação ambiental e a reinserção no mercado formal.

Foto: Arthur Matos

Na prática, o avanço da regeneração também reforça o posicionamento de Mato Grosso no comércio internacional de carne bovina, onde cresce a exigência por produtos mais sustentáveis. “Na prática, a regeneração dessas áreas não só reduz passivos ambientais como também fortalece a imagem de Mato Grosso no cenário internacional. Ao transformar áreas antes irregulares em ativos produtivos, o estado avança em um modelo comprovado, que combina produção e conservação, certamente temos mais biodiversidade que nossos concorrentes”, enfatiza Penido.

O perfil dos produtores que aderiram ao programa também evidencia seu caráter inclusivo. As propriedades de grande porte representam 38,32% dos participantes, seguidas pelas pequenas (34,74%) e médias (26,94%). O dado indica que a regularização ambiental deixou de ser uma pauta restrita a grandes propriedades e passou a alcançar toda a base produtiva, ampliando o alcance econômico e sustentável da pecuária em Mato Grosso.

Fonte: Assessoria Imac
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Braford avança no cruzamento industrial e amplia presença na pecuária de corte

Raça sintética formada por Hereford e zebuínos combina adaptação ao clima tropical, precocidade e qualidade de carcaça, impulsionando sua presença em diferentes regiões do país.

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Fotos: Lucas Nunes

Rusticidade, adaptação ao clima tropical e qualidade de carcaça têm impulsionado o avanço da raça Braford na pecuária brasileira. Composta predominantemente por sangue Hereford e zebuíno, no padrão mais difundido de 5/8 Hereford e 3/8 zebuíno, a raça reúne a adaptabilidade dos bovinos tropicais à precocidade, à docilidade e ao padrão de carcaça das linhagens britânicas. O resultado é um animal que transita com facilidade entre diferentes sistemas de produção e regiões do País.

Médico-veterinário, produtor rural e presidente da Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB), Eduardo de Souza Soares: “O Braford se adaptou aos mais variados ambientes do nosso país. Entrega rentabilidade em sistemas pastoris e também responde muito bem quando inserido em sistemas de confinamento ou de terminação intensiva em cocho”

O médico-veterinário, produtor rural e presidente da Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB), Eduardo de Souza Soares afirma que a versatilidade é a principal marca do Braford. Segundo ele, se trata de um animal de porte moderado, manso e com carcaça alinhada às exigências da exportação. “O Braford se adaptou aos mais variados ambientes do nosso país. Entrega rentabilidade em sistemas pastoris e também responde muito bem quando inserido em sistemas de confinamento ou de terminação intensiva em cocho”, afirma.

Hoje, a raça está presente em praticamente todas as regiões brasileiras, com criadores em Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais e Sergipe, além da forte base da criação na região Sul, especialmente no Rio Grande do Sul.

De acordo com Soares, o Braford ganhou escala por meio do cruzamento industrial com outras raças zebuínas, agregando desempenho produtivo e valorização comercial aos bezerros. A demanda crescente por carne de maior valor agregado tem impulsionado esse movimento. Diante de um consumidor mais exigente e disposto a pagar por qualidade, cresce cada vez mais a procura por animais com genética britânica na composição, reconhecida mundialmente pela maciez e pelo padrão de carcaça. “O mercado hoje paga por qualidade. Os frigoríficos estão buscando cada vez mais animais que entreguem padrão de carcaça e maciez, e isso está diretamente ligado à genética britânica. Quando o produtor usa o Braford no cruzamento, ele aumenta a produtividade e consegue vender seus terneiros e bezerros com maior valor agregado”, atesta o presidente da ABHB.

Melhoramento acelera ganhos produtivos

O crescimento da raça também está associado ao investimento em genética. O programa de melhoramento conduzido pela associação fornece avaliações zootécnicas aos criadores, complementando a seleção visual tradicional. Além disso, a ampla disseminação da transferência de embriões e das fertilizações in vitro acelerou o ganho genético da raça nos últimos anos.

Foto: Divulgação/Fazenda Basso Pancote

Segundo o presidente da ABHB, a combinação de ferramentas reprodutivas e critérios técnicos de seleção elevou o padrão dos rebanhos e contribuiu para consolidar o Braford como alternativa tanto para produção de genética quanto para fornecimento de animais comerciais.

A estratégia se conecta diretamente ao mercado de carne certificada. O Programa Carne Certificada Braford, coordenado pela entidade, foi o primeiro do gênero no Brasil. A proposta é garantir ao consumidor a procedência e a padronização da carne identificada com a marca da raça. “Quando o consumidor reconhece que há certificação e padrão de qualidade dentro da embalagem, a demanda cresce. E isso vem se intensificando nos últimos anos”, salienta Soares.

Modelo de seleção no Rio Grande do Sul

Na prática, a evolução genética da raça pode ser observada em propriedades como a Fazenda Basso Pancotte, em Soledade (RS). O empreendimento iniciou as atividades em 2006, sob comando de Neide Basso e Jair Pancotte, com a proposta de construir um modelo de criação focado em alto desempenho.

De acordo com o médico-veterinário da fazenda, Daniel Borelli, o trabalho começou com a raça Angus e forte investimento em inseminação artificial e transferência de embriões. O desempenho em exposições como a Expointer e a Exposição de Uruguaiana consolidou o foco em melhoramento genético.

Com o tempo, o mercado passou a demandar animais mais adaptáveis a diferentes condições climáticas. Foi nesse contexto que a fazenda incorporou embriões de Brangus e Braford ao plantel. “Nos últimos 10 anos, o salto da raça Braford dentro da propriedade foi muito expressivo”, afirma Borelli.

Segundo ele, a procura por material genético cresceu à medida que os pecuaristas perceberam a versatilidade da raça. Hoje, a fazenda comemora resultados em exposições internacionais e a produção de animais comerciais destinados ao cruzamento industrial.

Manejo e adaptação

Por ser uma raça sintética, resultado da combinação de duas linhagens puras, o Braford herdou características que facilitam o manejo. “A influência zebuína, com contribuição de raças como Brahman, Nelore e Tabapuã ao longo do processo seletivo, garante pelo fino e maior resistência a parasitas em regiões quentes”, ressalta Borelli.

Médico-veterinário da Fazenda Basso Pancotte, Daniel Borelli: “ A influência zebuína, com contribuição de raças como Brahman, Nelore e Tabapuã ao longo do processo seletivo, garante pelo fino e maior resistência a parasitas em regiões quentes” – Foto: Jaqueline Galvão/OP Rural

Ele ainda destaca que o controle de carrapatos, por exemplo, tende a ser mais simples em comparação a raças exclusivamente britânicas. “A docilidade transmitida pelo Hereford também favorece a condução dos animais. Na Fazenda Basso Pancotte, o manejo é realizado a pé, sem registros de problemas de temperamento”, pontua.

A mobilidade do rebanho, aliada à fertilidade e à precocidade de carcaça, completa o conjunto de atributos que têm sustentado a expansão da raça. Para os criadores, se trata de um equilíbrio entre produtividade e adaptação às condições tropicais.

Com presença consolidada no Sul e avanço no Centro-Oeste e no Sudeste, o Braford se firmou como ferramenta estratégica tanto para programas de cruzamento quanto para atender a um mercado que paga mais por carne com origem e padrão definidos. A combinação entre genética, certificação e adaptação ambiental explica o momento favorável da raça no campo brasileiro.

Braford nasce da adaptação ao clima e ganha escala na pecuária brasileira

A formação da Braford no Brasil não foi resultado de um experimento isolado, mas de uma resposta técnica a um problema produtivo. Nos campos do Sul, criadores buscavam um bovino que mantivesse o padrão de carne europeu e, ao mesmo tempo, suportasse calor, radiação solar intensa e pressão de parasitas.

O ponto de partida foi o cruzamento entre Hereford e zebuínos. No fim da década de 1960, nasceram, em Rosário do Sul (RS), na Fazenda Santa Clara, de Rubem Silveira Vasconcelos, os primeiros animais oriundos do acasalamento entre Hereford e Tabapuã. Em Uruguaiana (RS), outros criadores utilizavam inseminação de vacas Hereford com Nelore. As iniciativas tinham motivações convergentes como rusticidade, pigmentação ocular e maior capacidade de adaptação sem abrir mão da qualidade da carcaça.

Inicialmente o resultado do cruzamento que deu origem à raça chegou a ser chamada de Pampiana, ajustado aos campos de basalto da fronteira Oeste gaúcha, onde o verão impõe temperaturas elevadas e luminosidade intensa. A consolidação técnica, porém, exigia padronização.

Foi no início dos anos 1980 que a Associação Brasileira de Hereford e Braford, em parceria com a Embrapa Pecuária Sul, iniciou um trabalho de orientação aos criadores para unificar critérios de formação. Nesse momento, a raça passou a adotar o nome Braford, alinhado ao padrão internacional.

O reconhecimento oficial veio em duas etapas. Em 1993, o Ministério da Agricultura e Pecuária enquadrou a Braford como raça em formação. A oficialização definitiva ocorreu 10 anos depois, com a publicação da Portaria nº 587, de 05 de junho de 2003. A formalização, na prática, consolidou um processo que já estava sedimentado a campo.

A base genética mais difundida se tornou o chamado padrão Mercosul, com 3/8 de sangue zebuíno e 5/8 Hereford. A pelagem conhecida como ‘camiseta’ com corpo vermelho, cara branca e pigmentação ao redor dos olhos, se tornou identidade visual da raça e resposta objetiva à incidência solar.

Do zebuíno, a Braford incorporou rusticidade e resistência a ectoparasitas. Do Hereford, herdou fertilidade, habilidade materna, temperamento e qualidade de carne. A síntese se traduz em carcaças com boa cobertura de gordura e marmoreio, atributo diretamente associado à maciez.

Em sistemas intensivos ou em confinamento, os animais podem ser abatidos entre 14 e 18 meses, com pesos que variam de 380 a 480 quilos, dependendo do manejo alimentar. A precocidade ampliou o uso da raça também no cruzamento industrial, estratégia que impulsionou sua presença para além do Sul.

Hoje, a Associação Brasileira de Hereford e Braford é a certificadora exclusiva de reprodutores e matrizes Braford no país, mantendo controle genealógico e diretrizes de seleção. A raça está distribuída em diferentes regiões brasileiras e avança em mercados externos, sustentando a reputação de carne de qualidade associada à adaptabilidade.

A trajetória da Braford evidencia um movimento clássico da pecuária nacional: a partir da necessidade ambiental, estruturar tecnicamente a solução e, por fim, institucionalizar o modelo produtivo. O que começou como ajuste genético regional tornou-se um ativo estratégico na bovinocultura de corte brasileira.

Á edição também está disponivel na versão digital, com acesso gratuito. Para ler a versão completa online, clique aqui. Boa leitura!

Fonte: O Presente Rural
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