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Pecuária de corte brasileira se mantém competitiva frente aos principais países concorrentes

A competitividade da pecuária brasileira no cenário internacional é um dos motores para a consolidação do país como grande exportador de proteína animal.

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Foto: Everton Queiroz

Conforme as estatísticas de Comércio Exterior, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (COMEXSTAT – MDIC), as exportações brasileiras somaram 2,26 milhões de toneladas de carne bovina em 2022, volume 22,6% maior que o registrado no ano anterior.

O faturamento aumentou 40,8% no período analisado, o que se traduziu em quase 3,8 bilhões de dólares a mais na balança comercial brasileira na comparação com 2021. Dentre os principais destinos da carne bovina brasileira, destacaram-se: China, Estados Unidos, União Europeia, Chile e Egito.

Do volume total exportado em 2022, 87,9% correspondeu à categoria de carne in natura, seguida de miúdos (6,0%), industrializados (4,7%), e o restante na forma de tripas e salgados.

Dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) apontam que, em 2021 (dados mais atuais disponíveis), as exportações de carne bovina brasileira representaram 16,1% do total mundial – o que nos coloca em 1º lugar em volume total exportado –, seguido pelos EUA, Austrália e Nova Zelândia.

Foto: Everton Queiroz

Além da competição com os principais produtores mundiais de carne, o Brasil disputa mercados com seus vizinhos sul-americanos que, a despeito da menor capacidade produtiva de carne bovina, possuem importante participação nas exportações mundiais para países que são nossos clientes-chave.

Os dados da FAO apontam ainda que a carne brasileira representou 32,2% das exportações para a China em 2021, enquanto que Argentina e Uruguai foram responsáveis por respectivos 16% e 13,6%. Ambos países se encontram no mesmo patamar, em termos de participação no mercado chinês, que Nova Zelândia (13,7%) e os EUA (10,5%).

No período, a Austrália apresentou patamar um pouco inferior, de 7,7%, porém, o menor volume foi vinculado com a redução no rebanho do país frente às intempéries climáticas ocorridas durante o ano.

Devido às relações diplomáticas entre China continental e Paraguai, o país sul-americano não é habilitado para exportar para o principal destino mundial de carne bovina – enviando carnes apenas a Taiwan e Hong Kong. No entanto, em 2021 o mesmo foi o principal fornecedor de carnes para o Chile, representando 44,8% do volume exportado.

Em contrapartida, o share brasileiro neste mercado foi de 36,5%, e o da Argentina de 11%.

Exportações em queda

As exportações brasileiras de carne bovina caminham para encerrar o ano em queda.

Na parcial de janeiro a outubro de 2023, observa-se um recuo de 4,7% no volume exportado e recuo de 21,5% no preço médio da carne exportada, em relação ao mesmo período de 2022 – resultando em um faturamento 25,2% menor este ano.

A queda está vinculada à suspensão temporária das exportações para o mercado chinês, que impactou especialmente o volume enviado entre os meses de fevereiro e março de 2023. Após o retorno das exportações, ocorreram novas negociações sobre o preço dos produtos exportados, o que levou a uma redução de 27% sobre o valor da tonelada enviada para o país asiático, considerando-se os valores de 2023 frente a 2022.

Foto: Shutterstock

 

Comparativo global

Buscando compreender as vantagens e desafios competitivos da pecuária brasileira frente aos principais players no mercado mundial, foram analisados os dados resultantes dos levantamentos da rede Agri Benchmark, da qual fazem parte a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea-Esalq/USP).

Os valores aqui discutidos são referentes aos resultados obtidos durante o ano de 2022 pelas propriedades típicas dos países participantes e publicados em 2023. Foram realizadas comparações com os resultados obtidos pelas propriedades típicas brasileiras no período, com base nos dados mensais do Projeto Campo Futuro (CNA/Senar) convertidos para a cotação do dólar no período avaliado.

Sistemas à pasto

Ao analisarmos os resultados médios dos sistemas de terminação em pastagens avaliadas em cada país, observa- -se que a margem líquida (ML, que é resultado da subtração do COT na receita bruta) dos sistemas de produção brasileiros foi de US$ 116,70/ha de área útil em 2022.

Gráfico 1 – Valores médios nacionais do COT e da receita, por hectare de área útil, dos sistemas de terminação à pasto no ano de 2022. Fonte: Agri Benchmark (2023), Projeto Campo Futuro CNA/Senar (2023). Elaboração: Cepea- Esalq/USP, CNA.

Dentre os países analisados, o Uruguai foi o único que não foi capaz de pagar os custos com desembolsos anuais e depreciação de seus sistemas, com ML negativa em US$ 26,34/ha. O resultado indica dificuldade para as propriedades se manterem em médio e longo prazos, devido aos custos de produção que continuaram em alta no país.

Um fator que afetou o desempenho do país em questão foi a baixa capacidade de suporte das propriedades amostradas, o que levou à uma restrição em sua produtividade. O número de arrobas vendidas por hectare, na média das propriedades do Uruguai, foi a menor entre os países sul-americanos avaliados, sendo de seis @/ha.

Apesar da maior produtividade por área em sistemas de pastagem ter sido observada nos sistemas argentinos, de 14,9 arrobas vendidas por hectare, o melhor retorno foi observado nos resultados médios do Paraguai.

Fotos: Divulgação/Arquivo OPR

Com produtividade média de 7,5 @/ha, as propriedades paraguaias avaliadas obtiveram uma margem líquida média de US$ 199,55/ha, contra US$ 45,75/ha para os sistemas argentinos à pasto.

As propriedades paraguaias foram favorecidas pelo período de bons preços de reposição e alta no valor da arroba. Esses fatores foram capazes de compensar a alta nos custos com a alimentação do rebanho durante o ano (somando dispêndios com a dieta, com o manejo de pastagens, e com a suplementação do rebanho).

Da mesma forma que os observados no Paraguai, os resultados dos sistemas australianos de produção em pasto foram beneficiados também pelo bom momento de valorização da arroba, assim como quedas nos custos com a dieta dos animais. Com isso, o país obteve margem líquida de US$ 55,94/ha, ficando acima dos resultados argentinos.

Apesar de apresentarem um nível de produtividade significativamente menor – na média das propriedades do país com terminação em pasto avaliadas, foram vendidas 3,10 arrobas por hectare.

De acordo com os resultados médios de 2022 para as propriedades típicas nacionais com sistemas de recria e engorda à pasto, foi observada uma margem líquida de US$ 116,68/ha, com produtividade de 10,24 arrobas vendidas/ha.

Em termos de distribuições de custos, observou-se que a participação da compra de animais nos custos de produção ficou entre 57% no Uruguai, e 68,7%, na Austrália.

Nestes dois extremos, é possível observar diferenças na distribuição de custos, sendo dois países que historicamente apresentam menor taxa de lotação – e produtividade por área – quando comparados aos demais.

Enquanto as propriedades uruguaias avaliadas arcaram com um alto custo com a aquisição de sementes para o plantio de pastagens anuais, as propriedades australianas mantiveram seus animais contando apenas com as pastagens disponíveis e adição de suplementos à dieta. Com isso, os gastos totais com a alimentação do rebanho foram equivalentes a 17,6% e 7,6% do COT, respectivamente.

Outro fator que contribui para a menor margem obtida nos sistemas de produção de bovinos em pasto avaliados no Uruguai foi a incidência de seca severa a partir do segundo semestre de 2022, que acabou afetando significativamente os preços recebidos pelos produtores devido à maior taxa de abates – consequência da menor capacidade de suporte de suas áreas de pastagem.

Confinamento

O custo para terminação em sistemas confinados apresentou maior variabilidade analisando o impacto da reposição quando comparada entre os países.

A média obtida pelo Brasil durante o ano de 2022, de US$ 21,55/@ vendida, foi a menor registrada nos participantes da análise, influenciada sobretudo pela queda nos preços do bezerro durante o segundo semestre.

Os maiores  custos de reposição foram observados na Austrália e na Argentina (Gráfico 2). O alto custo de reposição dos sistemas argentinos avaliados é vinculado à redução do rebanho de matrizes observado no país durante 2021/22, levando então a uma menor oferta de animais de reposição.

Além disso, a inflação tem se mostrado um fator de desestímulo à produção nacional, com produtores optando por reduzir suas escalas de confinamento e aumentando o percentual de animais terminados à pasto durante o período.

A inflação argentina levou, também, à uma redução no consumo per-capita de carne no país, reforçando o foco da produção no mercado externo durante o período.

Gráfico 2 – Valores médios nacionais do COT e da receita, por hectare de área útil, dos sistemas de terminação em confinamento no ano de 2022. Fonte: Agri Benchmark (2023), Projeto Campo Futuro CNA/Senar (2023). Elaboração: Cepea-Esalq/USP, CNA.

 

Os demais custos que compõem o COT dos sistemas de confinamento apontaram diferenças reduzidas entre os países. Os custos com a alimentação do rebanho variaram entre US$ 11,19/@ vendida no Uruguai, e US$ 18,24, nos EUA.

A seca nos EUA durante 2022 impactou a disponibilidade de pastagens em propriedades de cria – levando a um maior descarte de matrizes – e a produção da safra americana de milho. Isso resultou na elevação dos custos com reposição e dieta dos animais confinados no período.

Já o valor da venda de animais obtido pelos produtores variou entre US$ 48,16, no sistema brasileiro, e US$ 97,19 na Austrália. Em todos os países avaliados, foi reportado que o ano de 2022 trouxe valorização ao preço pago pela arroba dos animais terminados, em comparação a 2021. No entanto, para o período também se observou alta nos custos de produção.

Neste cenário, a despeito da alta nos preços do boi gordo, as propriedades da Argentina e dos EUA fecharam 2022 com margens líquidas negativas.

Comparando-se os resultados obtidos entre os países com margens líquidas positivas, a maior lucratividade (relação entre a ML e a receita bruta do sistema) foi observada no Uruguai, de 29% – reflexo do bom momento de valorização dos animais abatidos, juntamente com altas nos custos de dieta mais tímidas que nos demais países, e leve queda na reposição.

Ademais, as propriedades de confinamento amostradas no país possuem, historicamente, boas margens operacionais. Os confinamentos brasileiros, por sua vez, apresentaram em 2022 uma lucratividade próxima daquela observada pelos sistemas australianos, de respectivos 5% e 7%.

É importante destacar que os resultados nacionais, em um período onde queda nos valores da arroba do boi gordo foram registradas, apresentou resultados financeiros semelhantes a outro importante player do mercado em um momento em que o mesmo apresentava alta na receita de seus produtores.

Perspectiva para 2023/24

Com base nos resultados do ano de 2022, observa-se que a pecuária nacional se manteve competitiva frente a outros importantes players do mercado de carne bovina. Tal feito é resultado de custos de produção da arroba relativamente mais atraentes, em comparação a outros países, bem como a capacidade produtiva.

Resultados como o observado em sistemas confinados no Uruguai, quando comparados com o desempenho obtido pelas propriedades com terminação em pasto do mesmo país, demonstram que apesar do valor de venda dos animais ser um fator determinante para a obtenção de margens competitivas no mercado, o investimento em tecnologias para otimizar o manejo de propriedades, melhorando sua taxa de desfrute assim como sua capacidade de suporte, podem ser o ponto chave para o sucesso na atividade.

O ano de 2023 vai chegando ao fim marcado por desafios para a pecuária nacional. As margens operacionais das propriedades de cria, afetadas desde o final do ano de 2022, forçaram tais produtores descartarem um maior número de matrizes, como já observado pela alta no volume de fêmeas abatidas.

Segundo os dados da Pesquisa Trimestral de Abates, do IBGE, o Brasil abateu 21% mais fêmeas no primeiro semestre de 2023 na comparação com o mesmo período do ano anterior. Ao mesmo tempo, os valores recebidos pela arroba do boi gordo se mostram em retração – especialmente no segundo semestre do ano.

Desde o início do ano até o fechamento de outubro o indicador do boi gordo Cepea/B3 acumulou queda superior a 17% em seu valor diário. O recuo é impulsionado pelas nas quedas observadas no valor sobre a tonelada exportada de carne, sobretudo ao mercado chinês, que passaram a ser negociadas em patamares menores após a interrupção às exportações durante o primeiro trimestre do ano.

Neste cenário, é importante compreender como os principais competidores internacionais têm se comportado.

No caso da Austrália, após anos de crise climática o país ainda passa por um período de reinvestimento em seu rebanho bovino. Já em 2023, segundo informações publicadas pela Meat & Livestock Australia (MLA), as escalas de abate seguem em ritmo crescente, assim como o volume do produto exportado. O mês de setembro de 2023 alcançou o maior volume exportado visto desde 2019. Assim, com a recuperação em ritmo acelerado, os custos de produção continuam sendo o principal fator atrelado à capacidade produtiva do setor.

Já o Paraguai, mesmo não competindo com o Brasil pelo principal mercado global, o chinês, mantém a pressão sobre o mercado chileno, disputando o espaço com os demais grandes players da América do Sul.

Dentre estes, a Argentina segue apostando no mercado internacional como ponto de escoamento da carne produzida no país, uma vez que sua inflação segue em patamares históricos e, com isso, a capacidade interna de consumo é afetada.

No entanto, as medidas de restrição às exportações impostas pelo governo reduzem o volume de carne argentina no mercado internacional, limitando o impacto ao market share brasileiro – no mercado chileno, assim como nos envios para Israel, e, especialmente a China.

Segundo dados da Secex, entre janeiro e setembro de 2023 as exportações brasileiras apresentaram queda tanto em volume total exportado, quanto em faturamento – quando comparado com o mesmo período do ano anterior.

A retração vem do efeito do mercado chinês, que passou por redução de 5% em termos de volume e 31% no faturamento. No entanto, as exportações para o Chile no período geraram um faturamento 27% superior ao observado em 2022 – mantendo o país na posição de terceiro principal destino para a carne bovina nacional, ficando apenas atrás da China e dos EUA.

Um país que deve a cada ano se mostrar mais presente nas discussões sobre o mercado internacional de proteína animal é a Índia. Apesar das restrições que a religião Hindu impõe à grande parcela dos habitantes, a crescente população de muçulmanos e cristãos apresenta demanda por carne bovina.

Neste tópico, um ponto que necessita atenção no cenário global, seria o impacto não apenas da carne bovina proveniente deste país, mas também sua oferta de carne bubalina. O produto, apesar do menor teor de gordura, apresenta características de aparência e textura de muita semelhança ao da bovina, sendo muito demandada sobretudo em países com populações de menor poder aquisitivo.

Isso já é observado nas estatísticas de exportação para os países do Oriente Médio e Norte da África, segundo dados da FAO de 2021. Ao analisar-se exclusivamente a exportação de carne bovina para a região, o Brasil aparece em primeira posição, com um market share de 38,7% sobre o total exportado.

No entanto, ao se agregar à análise o volume de carne de búfalo exportada, a quantia total de carne bovina e bubalina enviada pela Índia durante o ano de 2021 perfaz um total de 499,2 mil toneladas – contra as 207,4 mil brasileiros.

A Índia possui, então, um market share de 42,2% do montante total, contra 20,1% do Brasil. Por fim, destaca-se que, sobretudo em uma conjuntura em que a pecuária brasileira se mostra altamente dependente no cenário internacional de um parceiro que absorveu até o mês de setembro 57% do total exportado no ano de 2023, o fomento pela expansão de mercados alternativos. Essa prática se mostra essencial para a manutenção da balança comercial do país.

Fonte: Assessoria Cepea

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Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira

Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

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A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.

O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta

Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.

Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.

Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem

É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.

Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

 

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.

Ajuste fino, não ruptura

A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.

Fonte: Assessoria Biond Agro
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Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026

Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

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O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.

No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”

Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.

O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.

Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.

Padronização da produção

O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.

Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.

Mercados internacionais em expansão

O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.

Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.

Oscilações do mercado

Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.

Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.

Processo de adaptação

Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.

A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.

Gargalos persistem

Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.

A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.

Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.

Dependência do mercado interno

Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.

No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.

Pilares da pecuária

A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.

Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.

Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.

Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.

Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.

Visão de futuro

Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.

Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.

Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.

Fonte: O Presente Rural
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Brasil lança selo para fortalecer mercado de carne premium

Iniciativa incentiva o cruzamento entre vacas leiteiras e touros Angus, ampliando a oferta de carne de alto valor e criando nova fonte de renda para produtores de leite.

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Foto: Edu Rocha

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.

Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.

O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.

Foto: Fernando Goss (bovinos Angus)

“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.

 

Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.

Participação técnica da Embrapa

Foto: Renata Suñe (Holandesas)

A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.

 

A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.

Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.

Fonte: Assessoria Embrapa Pecuária Sul
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