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Patrimônio vira moeda de troca para produtores gaúchos tentarem sobreviver à crise no campo
Com soja abaixo do custo, juros elevados e sucessivas perdas climáticas, agricultores recorrem à venda de terras e equipamentos para manter financiamentos e custeio da produção.

A cerca de 400 quilômetros de Porto Alegre (RS), no município de Pedras Altas, produtores rurais convivem com um cenário que mistura quebra de safra, juros elevados, queda de rentabilidade e perda acelerada de patrimônio. Em muitas propriedades, o caixa já não cobre sequer os custos básicos da produção. Em outras, a saída encontrada tem sido vender máquinas, reduzir investimentos e buscar novas fontes de renda para evitar o colapso financeiro.
A produtora de soja Carla Krame afirma que 2026 será o primeiro ano em que não conseguirá honrar os compromissos assumidos. Segundo ela, a deterioração financeira se intensificou após a estiagem da safra 2022/2023 e se agravou com uma sequência de perdas climáticas e aumento dos custos. “São vários fatores que estão agravando a nossa situação. São juros elevados, o valor baixo da saca, as safras frustradas, tanto por inundação como por secas. Se fosse só um problema talvez a gente conseguisse dar a volta. Mas veio tudo junto”, relata.

O caso de Carla está longe de ser isolado. Dados da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) mostram que o endividamento rural brasileiro ultrapassou R$ 170 bilhões em janeiro deste ano, com forte concentração no Rio Grande do Sul, estado que enfrenta sucessivos eventos climáticos extremos desde 2022.
Na propriedade da família, a produtividade despencou para apenas 10 a 12 sacas por hectare durante a forte estiagem de 2022/2023. A melhor recuperação ocorreu na safra 2024/2025, com rendimento de 40 sacas por hectare. Ainda assim, o resultado positivo foi consumido pelas dívidas acumuladas nos anos anteriores.
Agora, a nova safra volta a trazer frustração. “Estamos fechando em torno de 25 sacas por hectare, que para nós também não paga a conta”, afirma.
Segundo Carla, apenas o custo operacional da lavoura já exige aproximadamente 30 sacas por hectare para equilíbrio financeiro, sem considerar parcelas de financiamentos antigos.”É uma situação desesperadora. Meu marido e eu estamos na casa dos 50 anos e nunca passamos por uma situação assim”, desabafa.
Fluxo de caixa travado

Foto: Carla Krame
Na mesma região, a produtora Vanessa Kuntzer relata que o principal gargalo deixou de ser apenas a renegociação das dívidas e passou a ser a falta de fluxo de caixa para cumprir os vencimentos concentrados nos próximos anos. “Conseguimos renegociar, mas hoje o grande problema está no nosso fluxo de caixa. Nos anos de 2026, 2027 e 2028 ele está totalmente comprometido”, pontua.
Segundo Vanessa, muitos produtores passaram a contratar novos financiamentos para quitar operações anteriores, aprofundando o ciclo de endividamento. Ela cita o caso do irmão, que recebeu de uma instituição financeira uma proposta de crédito pessoal com juros de 76% ao ano. “Tu tem noção do que é isso?”, questiona.
A pressão financeira também trava investimentos considerados estratégicos para reduzir riscos climáticos nas propriedades, como projetos de irrigação. “A gente vê necessidade de colocar irrigação aqui. Já temos projeto pronto. Mas hoje o que nos segura é a taxa de juros e o crédito caro. Mesmo produzindo mais, eu não consigo gerar caixa suficiente para pagar todas as contas”, explica.
Venda de patrimônio e mudança no modelo produtivo
Sem capacidade de recuperação via safra, parte dos produtores começou a desmontar patrimônio para manter as operações funcionando. Carla e Vanessa venderam máquinas agrícolas novas para tentar reduzir pendências financeiras.
No caso de Carla, até mesmo áreas da propriedade passaram a ser avaliadas para venda. O problema, segundo ela, é que a crise atingiu praticamente toda a região. “Chega um momento em que todo produtor está endividado. E aí, quem vai comprar? Não tem comprador mais”, relata.
Além da venda de bens, as famílias também reorganizaram o modelo produtivo. Culturas como trigo, aveia, arroz e canola ganharam espaço na composição da renda. Na propriedade de Vanessa, a pecuária foi incorporada como estratégia de proteção financeira após as primeiras perdas climáticas. “Quando veio a primeira seca, a gente introduziu a pecuária. Entendemos que o ideal seria ter uma cabeça de gado para cada hectare de soja, como uma forma de seguro”, afirma.
Outra alternativa passou a ser a negociação direta com parceiros comerciais por meio de Cédulas de Produto Rural (CPRs), buscando reduzir dependência bancária e diminuir o peso dos juros. “Este ano ainda vamos precisar pegar mais um custeio pecuário para ajudar no fluxo, mas a ideia é sair ao máximo dos bancos”, diz Vanessa.
Projeto de lei vira expectativa no campo
Em meio ao agravamento da crise financeira, produtores passaram a acompanhar com expectativa a tramitação do Projeto de Lei 5.122/2023, que prevê mecanismos para repactuação das dívidas rurais em condições mais acessíveis.
Para Carla, a proposta representa uma das poucas perspectivas de reorganização financeira no curto prazo. “Esse projeto de lei é um alento. Eu tenho muita fé que isso vai andar, porque não pode continuar desse jeito”, enfatiza.
O texto deve ser analisado pela Comissão de Assuntos Econômicos do Senado antes de seguir para votação em plenário e posterior retorno à Câmara dos Deputados. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) trabalha para que as novas regras estejam em vigor antes do próximo Plano Safra.

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Geopolítica, clima e inovação pautam seminário sobre o futuro da soja brasileira
Evento da Embrapa Soja reunirá especialistas e lideranças do agronegócio para discutir os fatores que influenciam a competitividade do Brasil no mercado internacional.

A competitividade da cadeia produtiva da soja brasileira diante dos desafios globais será o foco da 8ª edição do Seminário Desafios da Liderança Brasileira no Mercado Mundial de Soja, que será realizado nos dias 04 e 05 de agosto, na sede da Embrapa Soja, em Londrina (PR). O evento é gratuito e reunirá especialistas, pesquisadores, representantes da indústria, produtores rurais e agentes públicos para discutir os principais temas que influenciam o futuro do setor.

Foto: José Fernando Ogura
Promovido pela Embrapa Soja em parceria com a Abiove, Anec, Aprosoja/MS, Aprosoja/PR, ASCB, CNA, OCB e Sindirações, o seminário é considerado um dos mais importantes fóruns técnicos da cadeia da soja no Brasil. A programação abordará temas estratégicos que vão desde a qualidade do grão até a produção de farelo, óleo e biocombustíveis, além de discutir sustentabilidade, inovação tecnológica, regulamentações, logística, geopolítica e competitividade.
A abertura do evento, a partir das 14 horas do dia 04 de agosto, contará com a conferência “Geopolítica Global e seus efeitos sobre o agronegócio mundial”, ministrada por Marcelo Morandi, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente e chefe de Relações Internacionais. Na sequência, o primeiro painel discutirá a agenda Brasil-China para o agronegócio, abordando oportunidades, desafios e perspectivas para o fortalecimento das relações comerciais entre os dois países. Entre os palestrantes confirmados está André Dobashi, vice-presidente da Aprosoja/MS.
No segundo dia, a programação será dedicada aos desafios e oportunidades da cadeia produtiva da

Foto: R.R.Rufino
soja, com início às 08 horas. Um dos destaques será a palestra do professor Marcos Silveira Buckeridge, do Instituto de Biociências da USP, que apresentará reflexões sobre os impactos das mudanças climáticas na produtividade, na qualidade nutricional da soja e na geopolítica do agronegócio. Outro tema em evidência será a logística do setor, com palestra de Thiago Péra, coordenador do Esalq-LOG, que discutirá os avanços necessários para superar os gargalos da infraestrutura brasileira.
A inovação e a rastreabilidade também estarão entre os assuntos debatidos, destacando o uso de tecnologias para aumentar a eficiência e a transparência na cadeia produtiva.
Encerrando o seminário, o terceiro painel será dedicado ao papel do biodiesel na descarbonização das cadeias produtivas. Especialistas discutirão como empresas têm adotado o biocombustível como estratégia para reduzir emissões, além dos impactos das métricas ambientais na valorização dos produtos e das perspectivas de ampliação do uso do biodiesel no transporte e na mecanização agrícola.
As inscrições são gratuitas e podem ser realizadas clicando aqui.
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Santa Catarina anuncia R$ 830 milhões para ampliar internet e telefonia no campo
Programa Sinal Bom prevê elevar a cobertura nas áreas rurais de 48,12% para até 99,4%, com instalação de 688 antenas e expansão da rede de fibra óptica e telefonia móvel.

Mais conectividade, tecnologia e oportunidades para quem vive e produz no campo. O governador Jorginho Mello sancionou a Lei 19.936, de 30 de junho de 2026, que institui o Programa Sinal Bom. Com investimento de R$ 830 milhões, o Governo de Santa Catarina vai ampliar a cobertura de internet e telefonia móvel em comunidades rurais, pequenos municípios e ao longo das rodovias estaduais por meio desse programa.
A iniciativa vem para impulsionar o desenvolvimento rural, ampliar o acesso a serviços digitais e garantir mais segurança e comunicação para quem circula pelas estradas catarinenses.
Aprovado na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), o programa será coordenado pela Secretaria de Estado da Agricultura e Pecuária (Sape), em parceria com a Secretaria de Estado da Fazenda (SEF) e a Celesc, para ampliar a conectividade e reduzir as desigualdades de acesso aos serviços de telecomunicações em todas as regiões catarinenses. “Não dá mais para aceitar áreas sem internet e sem sinal de telefone. Estamos investindo pesado para conectar o campo, os pequenos municípios e as rodovias. Quem vive no interior também merece acesso à tecnologia, oportunidades e serviços com a mesma qualidade de quem está nos grandes centros”, afirma o governador Jorginho Mello.
O Programa Sinal Bom foi estruturado em duas linhas de fomento. A primeira prevê investimentos de até R$ 580 milhões para ampliar a cobertura de telefonia móvel por meio da instalação de novas estações rádio-base (ERBs), garantindo sinal em comunidades rurais e ao longo das rodovias estaduais.
A segunda linha destina até R$ 250 milhões para expansão da infraestrutura de redes fixas de fibra óptica em regiões de baixa densidade populacional, especialmente nos pequenos municípios e nas áreas rurais. O programa também prevê incentivos para essa ampliação. A Celesc poderá adotar uma política especial de preços para o compartilhamento de infraestrutura de postes em áreas rurais, dentro da sua área de concessão, com o objetivo de incentivar a expansão e a manutenção de redes de fibra óptica.
Levantamentos técnicos identificaram que, embora Santa Catarina possua 92,3% de cobertura total de internet, conta com apenas 48,12% de cobertura nas suas áreas rurais. “Estar conectado é essencial para produção agropecuária, para acesso aos serviços públicos e para a qualidade de vida das famílias do campo. Com o Programa Sinal Bom, estamos criando condições para que mais catarinenses tenham acesso à informação e inovação”, destaca o secretário de Estado da Agricultura e Pecuária, Admir Edi Dalla Cort.
Os estudos técnicos que embasaram o programa apontam a necessidade da implantação de 688 novas estações rádio-base em Santa Catarina, em locais estrategicamente definidos por levantamento técnico da Secretaria de Estado do Planejamento (Seplan) e da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovação (SCTI). Com a expansão, a cobertura total do Estado poderá alcançar 99,4%.
Todas essas ações seguirão a regulamentação federal aplicável, especialmente as normas da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e da Agência Nacional de Energia (Aneel).
Dois anos de estudos
Para elaboração do Programa, a Secretaria de Estado do Planejamento atuou diretamente no estudo dos locais que receberão a infraestrutura prevista no Programa Sinal Bom.
De forma prática, técnicos da Seplan fizeram um levantamento para identificar os melhores pontos para instalação das antenas e melhorar o sinal, bem como o mapeamento da rede de fibra ótica. Para se chegar a essas indicações, foram dois anos de estudos de topografia, análise territorial e levantamento de dados sobre a cobertura que existe atualmente.
Entre os materiais desenvolvidos, foi feita a sinalização geográfica no mapa de Santa Catarina para a instalação dessas antenas, apontando também as já existentes.
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Sem alíquotas definidas, Reforma Tributária trava planejamento do produtor rural para 2027
Indefinição dificulta cálculo de custos, fluxo de caixa e investimentos. Advogado tributarista explica por que ITR não pode ser comparado ao valor de desapropriação de imóveis rurais.

A menos de seis meses do início da fase de transição da Reforma Tributária, produtores rurais, empresas e demais contribuintes ainda desconhecem um dos principais parâmetros para o planejamento financeiro de 2027: o valor das alíquotas dos novos tributos.
Para o advogado tributarista Fernando Melo de Carvalho, a ausência dessa definição reduz a previsibilidade necessária para organizar investimentos, projetar fluxo de caixa e estimar o impacto da nova carga tributária sobre os custos operacionais.

Fernando Melo de Carvalho é advogado tributarista do agronegócio: “Perigoso é manter do jeito que está, sem você saber a alíquota e sem ter previsão de caixa, do que vai gastar ou qual será o aumento da carga tributária”
A discussão voltou a ganhar força após declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR) e do secretário especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, a respeito da divulgação da alíquota da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS).
Barreirinhas afirmou considerar “perigosa” a divulgação antecipada da alíquota da CBS. Para Carvalho, porém, o maior risco está justamente na indefinição. “Perigoso é manter do jeito que está, sem você saber a alíquota e sem ter previsão de caixa, do que vai gastar ou qual será o aumento da carga tributária. Falta pouco tempo para a entrada em vigor das novas regras e empresas, produtores rurais e contribuintes precisam se preparar para saber exatamente o que vão pagar”, afirmou.
Outro ponto que reacendeu o debate foi a declaração do presidente Lula sobre o Imposto Territorial Rural. O chefe do Executivo voltou a defender que existe diferença entre o valor declarado para fins de cobrança do ITR e o valor de mercado utilizado em processos de desapropriação de imóveis rurais.
Segundo Carvalho, essa comparação exige uma análise técnica, uma vez que o ITR possui finalidade constitucional específica e critérios próprios de apuração, distintos daqueles empregados na avaliação de imóveis para desapropriação.
Entenda como funciona o ITR

Foto: Marcello Casal
Ao comentar as declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o ITR, Fernando afirma que o valor de indenização para desapropriação e o Valor da Terra Nua (VTN) para o imposto territorial rural parte de assuntos diferentes. “O presidente Lula na fala dele tenta comparar duas coisas que não têm comparação. Uma coisa é a desapropriação, que serve para retirar a propriedade do particular. É o Estado intervindo na propriedade particular para tomar, entre aspas, aquela propriedade. Por outro lado, o pagamento de imposto em cima do imóvel rural, que seria o ITR, leva em consideração diversos fatores”, ressalta.
Segundo o tributarista, entre os fatores considerados na apuração do ITR estão a função social do imposto prevista na Constituição Federal, o grau de utilização da propriedade e a existência de áreas isentas, como Áreas de Preservação Permanente (APPs), reserva legal e florestas, que não podem ser exploradas economicamente pelo produtor rural.

Foto: Divulgação
Conforme a Constituição Federal, o Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR) tem função extrafiscal, ou seja, foi concebido para estimular o uso produtivo da propriedade rural e desestimular a manutenção de terras improdutivas.
Na prática, quanto maior o grau de utilização da área para atividades agropecuárias, menor tende a ser a carga tributária incidente sobre o imóvel. “Portanto, quanto mais utilização você tem naquela terra, menos imposto você deve pagar, justamente para não ficar parado”, enfatizou.
Além do grau de utilização da propriedade, outro critério considerado na apuração do imposto é a existência de áreas isentas, como florestas, Áreas de Preservação Permanente (APPs), reserva legal e florestas, cuja exploração econômica é vedada ao produtor rural. Isso reduz consideravelmente o imposto, já que se trata de áreas das quais o produtor não pode obter nenhum tipo de benefício econômico direto com a atividade pecuária ou agropecuária, o que, de acordo com Carvalho, justifica a redução da carga tributária incidente sobre o imóvel rural.
Como o produtor deve se preparar?
Ao orientar os produtores rurais e demais contribuintes, Carvalho reforça que o momento exige atenção às mudanças previstas pela Reforma Tributária e acompanhamento das informações oficiais.
Segundo o advogado, a previsibilidade é fundamental para que empresas e produtores consigam organizar o fluxo de caixa, revisar custos, planejar investimentos e se preparar para as novas regras. “O que o produtor deve fazer neste momento é acompanhar de perto as mudanças. Mas, para que esse planejamento seja possível, é necessário que as alíquotas sejam divulgadas. Sem saber quanto efetivamente será pago, a previsibilidade financeira fica comprometida, justamente em um momento em que todos precisam se preparar para a entrada em vigor das novas regras”, ressaltou.



