Notícias Safra de inverno
Parceria internacional desenvolve sistema de alerta para o risco de brusone no trigo
Serviço é fundamental pois, como não existe cura para a brusone, o controle deve ser preventivo com a aplicação de fungicidas antes de o fungo se instalar na planta

O Early Warning System (EWS), ou Sistema de Alerta Precoce em livre tradução, é uma plataforma que simula os riscos de incidência de brusone com base na coleta de dados meteorológicos. O EWS é resultado de um projeto liderado pelo Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo (CIMMYT), em parceria com a Embrapa e a Universidade de Passo Fundo (UPF).
Os riscos associados à ocorrência de brusone estão diretamente relacionados às condições climáticas, especialmente durante o período de espigamento do trigo. A ocorrência de chuvas frequentes, temperaturas acima de 22ºC, tempo de molhamento da planta acima de 10 horas, dias nublados e alta umidade relativa no ar formam as condições ideais para a proliferação da doença.
O EWS é capaz de analisar dados coletados por estações meteorológicas e prever quando essas condições poderão ocorrer nas regiões com lavouras de trigo. O sistema cruza essas informações com a fase de desenvolvimento em que as plantas se encontram e, em caso de risco, envia um alerta aos produtores para que executem ações de prevenção.
Como não existe cura, o controle da brusone deve ser preventivo, com a aplicação de fungicidas antes de o fungo se instalar na planta. Em média, o fungicida protege a planta da doença entre 12 e 14 dias. Assim, para fazer um controle mais assertivo, é preciso verificar as previsões climáticas, avaliando o melhor momento e a real necessidade de fazer a aplicação do defensivo. A plataforma Early Warning System auxilia exatamente nessa tomada de decisão. No site do EWS, o usuário escolhe o país, o estado e a estação meteorológica mais próxima para avaliar no mapa os riscos em baixo, moderado e alto.
O pesquisador da Embrapa Trigo José Maurício Fernandes explica que a doença é considerada uma ameaça global, pois não há variedades que apresentem resistência ao fungo. “Não há germoplasma resistente na maioria dos genótipos-elite de trigo em nível mundial e os tratamentos com fungicidas são ineficazes quando a intensidade da doença é alta”, explica o cientista.

Usabilidade do sistema
No Brasil, o EWS ainda está sendo abastecido com dados, considerando a diversidade de ambientes de cultivo de trigo no País. “Estamos trabalhando em uma interface mais responsiva, capaz de rodar o site em diferentes dispositivos e com maior abrangência”, conta o pesquisador da UPF Willington Pavan. Segundo ele, a interatividade com os usuários cadastrados também está sendo testada, com o envio de alertas, em fase experimental, para smartphones e e-mails.
Parceiro do projeto em Bangladesh, o pesquisador Tim Krupnik, representante nacional do CIMMYT, conta que no país asiático o EWS já está funcionando desde 2019, com o envio de mensagens de texto e e-mails para a rede de extensão rural que atua com trigo.
Por enquanto, o EWS está restrito para os estados produtores de trigo no Brasil e em Bagladesh, mas no futuro deverão estar contempladas todas as regiões tritícolas do mundo.
Outro avanço previsto é ampliar a base de dados do EWS para a giberela, outra importante doença de espiga com epidemias frequentes em diferentes cultivos de trigo na América do Sul e na Ásia.

A doença que ameaça o trigo
A brusone é uma das principais doenças de impacto econômico no trigo. O agente causal é o fungo Magnaporthe oryzae que, quando ataca a ráquis da espiga, resulta em grãos deformados e com baixo peso específico, o que implica redução no rendimento das culturas. O fungo causador se dispersa por meio do vento e pode atacar mais de 50 espécies de gramíneas, além de sobreviver em restos de culturas, sementes e plantas voluntárias.
A doença foi registrada pela primeira vez no Brasil na década de 1980, em eventuais epidemias em áreas tropicais, mas em pouco tempo se espalhou pela América do Sul causando epidemias na Bolívia, no Paraguai e na Argentina. A chegada da doença a Bangladesh, em 2016, no sul da Ásia, e na Zambia, na África Meridional, na safra 2017/2018, acendeu o alerta para a ameaça global que a brusone representa.
No Brasil, a brusone é mais importante na região tropical, mais frequente em regiões como no norte do Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Distrito Federal. A última epidemia de brusone no País foi observada em 2012, quando danos acima de 40% comprometeram lavouras na fase de espigamento do trigo no norte do Paraná, em Mato Grosso do Sul e no sul de São Paulo.
Casos isolados de brusone no RS têm sido detectados desde 2014, mas nunca foram registradas epidemias da doença. Em 2019, as condições climáticas no início do ciclo da cultura propiciaram a infecção do fungo da brusone ainda no perfilhamento das plantas em Minas Gerais, Goiás e no Distrito Federal.
Fernandes lembra que, apesar de ainda não representar risco para os países produtores de trigo no Hemisfério Norte, os principais centros de pesquisa com cereais estão alertas à disseminação da doença no mundo, o que pode comprometer a segurança alimentar, principalmente nos países pobres da Ásia e da África. Ele explica que o clima do Hemisfério Norte não favorece a sobrevivência do fungo causador da brusone nas condições atuais. No entanto, as mudanças climáticas e até possíveis mutações no microrganismo podem alterar esse cenário, por isso a preocupação de todos os países produtores do cereal.

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Governo libera R$ 24,4 milhões para fortalecer cooperativas da agricultura familiar no Rio Grande do Sul
Recursos beneficiarão 24 cooperativas com investimentos em agroindustrialização, ampliação da produção e comercialização de alimentos.

O governo do Rio Grande do Sul formalizou, nesta quinta-feira (02), a assinatura de 24 contratos do Programa de Apoio à Agricultura Familiar e Camponesa. A iniciativa destina R$ 24,4 milhões para investimentos em cooperativas de diferentes regiões do Estado, com foco na ampliação da produção, na agroindustrialização, na comercialização de alimentos e na geração de renda no meio rural.
Os financiamentos são realizados com recursos do Fundo Estadual de Apoio ao Desenvolvimento dos Pequenos Estabelecimentos Rurais (Feaper), por meio do Badesul, com aporte do Fundo Social do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), conforme o Decreto Estadual nº 58.833/2026. O programa prevê subsídio de 100% sobre os financiamentos, permitindo que as cooperativas realizem os investimentos sem custos financeiros.
Os recursos serão aplicados na ampliação da capacidade produtiva, na agregação de valor aos produtos, no fortalecimento das cadeias produtivas e na melhoria da comercialização. A iniciativa beneficia agricultores familiares, assentados da reforma agrária e comunidades tradicionais, fortalecendo a economia regional e a produção de alimentos no Estado.
Durante a cerimônia, o secretário de Desenvolvimento Rural, Gustavo Paim, afirmou que a liberação dos contratos foi antecipada para garantir a execução dos investimentos ainda neste ano, antes do período de restrições eleitorais. “O Rio Grande do Sul nunca investiu tanto no desenvolvimento rural. Esses recursos fortalecem as cooperativas, ampliam as oportunidades para a agricultura familiar e se somam a outras iniciativas voltadas ao aumento da produção e da renda no campo”, destacou.
O presidente em exercício e diretor de Operações do Badesul, Flávio Lammel, destacou que os investimentos contribuirão para agregar valor à produção e fortalecer a estrutura das propriedades rurais. “Nosso papel é apoiar projetos que ampliem a competitividade da agricultura familiar e promovam o desenvolvimento regional”, disse.
Representando o BNDES, a chefe do Departamento de Inclusão Produtiva e Educação, Celina Rangel Tura, afirmou que os recursos integram as ações voltadas à recuperação econômica do Rio Grande do Sul. “Essa entrega representa mais um esforço conjunto para apoiar a reconstrução do Estado e fortalecer um programa estratégico para a agricultura familiar”, afirmou.
As 24 cooperativas contempladas atuam em diferentes cadeias produtivas e estão distribuídas em diversas regiões do Rio Grande do Sul, reforçando o papel da agricultura familiar no abastecimento de alimentos e no desenvolvimento econômico local.
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Pequenos produtores poderão ter novas regras para vender alimentos artesanais
Proposta retira autorização prévia para fabricação e comercialização de produtos coloniais, mas mantém exigências de boas práticas, rotulagem e controle sanitário.

A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira (08) o Projeto de Lei 3.509/2023, que altera as regras para produção, fiscalização e comercialização de alimentos coloniais e artesanais feitos por agricultores familiares.
A proposta elimina a exigência de autorização governamental prévia para a fabricação, distribuição e venda desses produtos. Com a mudança, os produtores deverão seguir normas sanitárias relacionadas a boas práticas de fabricação, rotulagem, responsabilidade pelo alimento e demais requisitos previstos na legislação.
O texto ainda prevê que produtos classificados como de maior risco possam estar sujeitos a exigências adicionais, como capacitação em boas práticas de fabricação e mecanismos de rastreabilidade.
Projeto busca reduzir burocracia para pequenos produtores

Deputado Alceu Moreira: “A proposta fortalece a agricultura familiar ao reduzir a burocracia para quem produz em pequena escala, preservando a segurança dos alimentos e o controle sanitário”
O relator na CCJ, deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), afirmou que a proposta busca facilitar a atuação de produtores de pequena escala sem retirar os mecanismos de controle sanitário. “A proposta fortalece a agricultura familiar ao reduzir a burocracia para quem produz em pequena escala, preservando a segurança dos alimentos e o controle sanitário. Também promovemos ajustes para garantir a constitucionalidade do projeto e respeitar a autonomia dos entes federativos”, afirmou.
Na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural (CAPADR), onde o projeto também foi analisado, o relator foi o deputado Alceu Moreira (MDB-RS). Segundo ele, a simplificação das regras deve ocorrer sem comprometer a fiscalização dos alimentos. “É possível reduzir a burocracia sem abrir mão do controle sanitário, valorizando a produção artesanal e fortalecendo a agricultura familiar”, declarou.
Próximos passos
Como tramita em caráter conclusivo nas comissões, o projeto poderá seguir diretamente para o Senado Federal caso não haja recurso para votação pelo plenário da Câmara.
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Sucessão no campo deve ser prioridade
Organização da gestão, diálogo entre gerações e profissionalização são apontados como pilares para garantir a continuidade dos negócios no campo.

A sucessão nas propriedades rurais deixou de ser uma questão restrita ao âmbito privado das famílias para tornar-se tema estratégico ao desenvolvimento do cooperativismo, do agronegócio e da própria vitalidade econômica e social do campo. Em uma realidade marcada por profundas transformações tecnológicas, mercadológicas e gerenciais, a continuidade dos empreendimentos rurais depende, cada vez mais, da capacidade de planejar, com serenidade e método, a transferência de responsabilidades entre gerações.

Foto: Divulgação/UEPG
O patrimônio construído ao longo de décadas pelo trabalho das famílias rurais não se resume à terra, às máquinas, às instalações ou aos resultados econômicos. Ele compreende valores, vínculos, conhecimento acumulado, reputação, pertencimento comunitário e compromisso com a produção de alimentos. Preservar esse legado exige mais do que afeto pela história familiar: requer governança, diálogo, profissionalização e visão de futuro. A sucessão, quando devidamente planejada, protege o patrimônio, organiza a gestão, reduz conflitos e assegura que a propriedade permaneça produtiva, competitiva e integrada ao desenvolvimento regional.
É indispensável compreender que a sucessão deve começar antes da urgência. Quando o tema é adiado, multiplica-se o risco de decisões improvisadas, disputas familiares, descontinuidade produtiva e perda de valor econômico. O primeiro passo consiste no alinhamento de expectativas entre os membros da família, respeitando a trajetória do fundador, as aptidões dos filhos, a afinidade de cada um com a atividade rural e a necessidade de construção de regras claras. A sucessão não se impõe por herança biológica; consolida-se pela preparação, pela competência e pela adesão consciente a um projeto comum.
Nesse processo, três dimensões precisam caminhar de forma integrada: família, patrimônio e gestão. A família deve amadurecer emocionalmente para tratar de temas sensíveis sem reduzi-los à ideia de morte, substituição ou perda de autoridade. O patrimônio precisa ser organizado de modo a evitar inseguranças jurídicas e patrimoniais. A gestão, por sua vez, deve avançar para padrões mais profissionais, com controles, indicadores, prestação de contas, separação entre caixa familiar e caixa do negócio, definição de papéis e critérios objetivos para a participação de familiares na empresa rural.
Novo líder

Foto: Shutterstock
Durante muito tempo, numerosos produtores foram formados sobretudo como executores, em um contexto no qual o trabalho braçal ocupava o centro da rotina produtiva. Tornaram-se excelentes produtores, mas nem sempre receberam preparo para atuar como gestores. O novo ciclo do campo, contudo, exige competências adicionais: planejamento, análise econômica, domínio tecnológico, liderança, negociação, gestão de pessoas e inserção em cadeias produtivas cada vez mais complexas. Preparar o sucessor, portanto, não é apenas transferir uma função; é formar uma liderança apta a conduzir a propriedade com responsabilidade, inovação e fidelidade aos valores de origem.
A aproximação dos jovens com a vida rural deve ocorrer desde cedo, de forma gradual e positiva. É necessário fazê-los sentir pertencimento, compreender a relevância econômica e social da propriedade, conhecer os desafios do campo e visualizar perspectivas reais de realização profissional. Quando os jovens encontram espaço para aprender, opinar, inovar e participar, a sucessão deixa de ser imposição e passa a ser escolha. Esse movimento é essencial para evitar o esvaziamento do campo, fenômeno que ameaça não apenas famílias isoladas, mas comunidades inteiras, cooperativas, cadeias produtivas e a segurança alimentar.

Vanir Zanatta, Presidente do Sistema Ocesc (Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina) – Foto: Divulgação/Ocesc
O perigo do êxodo rural não pode ser subestimado. Quando a juventude se afasta por falta de oportunidade, reconhecimento ou planejamento, perdem-se lideranças, enfraquecem-se comunidades, reduzem-se a capacidade produtiva e a sucessão de saberes. O campo sem jovens torna-se vulnerável ao abandono, à concentração excessiva, à perda de dinamismo econômico e ao rompimento de laços sociais que sustentam a vida comunitária. Por isso, estimular a permanência qualificada das novas gerações é compromisso institucional com o futuro.
Também é necessário reconhecer que o sucedido precisa preparar-se para desprender-se gradualmente da centralidade da gestão. A transição bem-sucedida considera não apenas o plano de carreira do sucessor, mas também o plano de aposentadoria, participação e reposicionamento do fundador. Muitas propriedades não se fragilizam por ausência de conhecimento, mas pelo adiamento daquilo que todos sabem ser necessário. Planejar é transformar uma passagem inevitável em processo seguro, respeitoso e produtivo.
Cooperativismo tem papel papel decisivo
O cooperativismo tem papel decisivo nessa agenda. Ao promover capacitação, orientação, integração entre gerações e fortalecimento da cultura de gestão, as cooperativas contribuem para que as famílias rurais enfrentem a sucessão com maturidade. A continuidade das propriedades é também continuidade da produção, da cooperação, do desenvolvimento local e da presença humana no campo.
Planejar a sucessão é, portanto, um ato de responsabilidade com a família, com a propriedade, com a comunidade e com o futuro. O campo que se prepara para suceder é o campo que permanece vivo, produtivo e capaz de renovar-se sem renunciar à sua história.
A Edição Especial Cooperativismo 2026 pode ser acessada gratuitamente na aba Edições Impressas de opresenterural.com.br.



