Bovinos / Grãos / Máquinas
Parasitas provocam falhas na atividade reprodutiva bovina
Estudo publicado em 2014 mostra que moscas, carrapatos e vermes podem custar maus de US$ 12 bilhões por ano para a bovinocultura
Os parasitas podem causar grandes estragos no período reprodutivo nas fazendas brasileiras, tanto para a pecuária de corte como a de leite. Um estudo publicado em 2014 mostra que moscas, carrapatos e vermes podem custar maus de US$ 12 bilhões por ano para a bovinocultura. E o pior: eles são frequentes.
Para a doutora Daniela Miyasaka Cassol, médica veterinária e gerente Técnica Saúde Animal / Pesquisa Desenvolvimento e Inovação da Noxon Saúde Animal, de Cravinhos, SP, assim como deficiências de proteínas, minerais, vitaminas, aminoácidos, energia, o estresse térmico e as doenças infecciosas, “as doenças parasitárias provocam falhas na atividade reprodutiva bovina”.
Existem os parasitas internos e externos, mas ambos trazem enormes prejuízos. “Os parasitos internos são os vermes gastrintestinais e os parasitos que acometem os pulmões dos bovinos. Os principais atacam o abomaso (estômago – Trichostrongylus axei, Haemonchus sp e Ostertagia sp.),o intestino delgado – T. colubriformis, Strongyloides papillosus, Toxocara vitulorum, Cooperia sp, Nematodirus sp, Bunostomun sp e Moniezia sp., o intestino grosso – Oesophagostomun sp, Trichuris sp., e o pulma?o – Dictyocaulus viviparus”, cita.
De acordo com a doutora Daniela, os principais sinais clínicos das verminoses em geral incluem retardo do crescimento, diarreias, hiporexia (diminuição do apetite), pelos arrepiados, desidratação, diminuição da produtividade, infecção bacteriana secundária e pneumonia. Ela cita um estudo que “diz que o potencial impacto econômico dos nematódeos gastrintestinais é de US$ 7,11 bilhões por ano”.
Os nomes dos parasitas externos são mais fáceis de dizer, mas são tão nocivos quanto os internos. “Os principais parasitos externos são carrapatos, bernes, mosca-dos-chifres, bicheiras e mosca-dos-estábulos. A mosca-dos-chifres tem o hábito alimentar hematófago (sugam sangue). Ela pica os animais de 25 a 40 vezes por dia (aproximadamente) e cada sucção pode durar de quatro a cinco minutos. O principal problema desta mosca é a irritação que ela causa aos animais, gerando estresse. Uma infestação média de 500 moscas leva a perda de 40 quilos por animal ao ano e 150 litros de leite (durante toda a lactação), devido à perda de sangue e aos efeitos irritantes de sua picada. Ela também causa danos ao couro do animal. O potencial impacto econômico da mosca-dos-chifres é de US$ 2,56 bilhões/ano”, destaca.
O carrapato causa prejuízos em duas frentes, comenta a especialista. “Os prejuízos causados pelos carrapatos podem ocorrer de forma direta, pelo efeito da picada, e entre as consequências estão a irritação e perda de sangue (acarretando na redução de peso e da produção de leite). As leso?es de pele causadas pelos carrapatos, além de serem prejudiciais às indústrias do couro, com repercussa?o no preço final do produto, são portas de entrada de bactérias e larvas de moscas (bernes e mii?ases)”, cita a primeira. “Devido à espoliação constante a que são submetidos os bovinos parasitados, a quantidade de sangue ingerido por uma teleógina (fêmea ingurgitada) varia de 0,3 a 0,5ml. Pesquisadores estimaram a perda me?dia de peso de um bovino, apo?s ser picado por 1,4 mil carrapatos, em 1kg de peso vivo”, amplia.
Ele causa problemas também pela “forma indireta, na transmissão de doenças, tais como a “Tristeza Parasitária Bovina (TPB)”. “Além dos gastos com medicamentos, manejo, mão-de-obra especializada e perda de animais, que podem vir a óbito”, menciona.
“O Ministe?rio da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, em levantamento nacional realizado em 1983/84, estimou em um US$ 1 bilha?o anuais os prejuízos causados pelo carrapato-do-boi no Brasil, sendo 40% desse total relativo a? diminuição da produção de leite. Foi constatada a presença deste parasito durante os 12 meses do ano em 66,04% dos 2.048 munícipios investigados, e o carrapato foi mais frequente que o berne e a bicheira em 61,24% das vezes”, cita. “O potencial impacto econômico dos carrapatos fica em US$ 3,24 bilhões de dólares/ano” emenda.
Na reprodução
De acordo com a médica veterinária, é possível afirmar que as parasitoses causam problemas no período reprodutivo. “As deficiências de proteínas, minerais, vitaminas, aminoácidos, energia, o estresse térmico, as doenças infecciosas e parasitárias provocam falhas na atividade reprodutiva bovina, entre elas distúrbios do cio, alterações no ciclo reprodutivo, até a ocorrência de abortos. As verminoses afetam o crescimento dos animais jovens, atrasam sua puberdade e a idade ao primeiro acasalamento. O carrapato, a mosca-dos-chifres e as larvas do berne causam perdas de desempenho, tanto pelo parasitismo direto como pela transmissão de doenças e estresse, o que leva à redução do apetite e peso, alterações na secreção de hormônios e no desejo sexual (libido)”, comenta.
Ela destaca que bezerros novos são mais suscetíveis aos parasitos. “A partir dos três meses de idade é importante atentar-se às verminoses. Bovinos com idade até dois anos são sensíveis a esta parasitose e por isto devem receber atenção especial. Como as larvas dos vermes estão nas pastagens, os animais em sistema de pastejo se infectam continuamente. Em relação aos carrapatos, cuidado especial deve ser dado, pois eles podem ser acometidos pela Tristeza Parasitária Bovina”, orienta a profisisonal.
Diagnóstico
Para realizar o diagnóstico, orienta, é importante associar os sinais clínicos aos exames laboratoriais. “O exame parasitológico de fezes estima a carga parasitária por meio da contagem dos ovos presentes em quantidade conhecida de fezes (OPG). A coprocultura também pode ser recomendada. O hemograma possui grande valor diagno?stico, uma vez que nas verminoses podem ocorrer anemias severas, leucocitose e eosinofilia”, cita, ampliando: “Caso o animal venha a óbito os vermes adultos são vistos no intestino delgado, intestino grosso, traqueia e bro?nquios. Como diagno?stico diferencial, pode ser realizada a pesquisa por Clostridium sp, Salmonella sp, Escherichia coli e Shigella sp, pois sa?o agentes causadores das diarreias em bovinos”, explica.
Controle
Para a estudiosa, o controle estratégico reduz a contaminação das pastagens e deve ser repetido anualmente, em épocas previamente determinadas. “Assim, controlar significa prevenir doenças e perdas econômicas. Para ajudar os pecuaristas a controlarem as verminoses nos bovinos, recomendam-se alguns produtos de uso Injetável: Ivermectina 1%, Ivermectina 1% + ADE, Ivermectina 3,5% (longa ação), Abamectina 1%, Abamectina 1% + ADE, Fosfato de Levamizole (22,3%), Sulfóxido de Albendazol (13,6%), entre outros. Ivermectina Pour on (1%) também pode ser utilizada”, assinala.
Para bezerros recém-nascidos, orienta, é preciso “vermifugar logo após o nascimento com Ivermectina 1%, Ivermectina 1% + ADE, Sulfóxido de Albendazol 13,60%. A partir dos dois a três meses até o desmame recomenda-se vermifugar a cada 60 ou 90 dias”.
Já para bezerros na desmama a recomendação indica “Ivermectina Injetável 3,5% (longa ação), Ivermectina 1%, Abamectina 1% + ADE, Fosfato de Levamizole Injetável (22,3%). “Na cria e recria, deve-se vermifugar nos meses de maio e novembro com Ivermectina Injetável 3,5% (longa ação)”.
Para vacas prenhes, “é preciso tratar uma vez ao ano, com produtos à base de Ivermectina 3,5% (longa ação), Ivermectina 1% + ADE, Abamectina 1% + ADE. Trinta dias antes da data prevista para o parto, vermifugar os animais com Sulfóxido de Albendazole 13,60%”.
“Já bovinos na engorda (terminação), vermifugar os animais antes da entrada em pastagens vedadas utilizando Ivermectina 1% + ADE ou Abamectina 1% + ADE. Nos animais em confinamentos aplicar Sulfóxido de Albendazol injetável 13,60%, cita. “É importante respeitar os períodos de carência dos produtos”, frisa.
Controle estratégico dos carrapatos
Para o controle estratégico dos carrapatos, destaca a profissional, “é importante consultar o técnico (médico veterinário) para que ele possa adotar o melhor protocolo antiparasitário para cada propriedade rural. A escolha correta do carrapaticida, as frequências das aplicações dos produtos de uso veterinário, administração das doses corretas, com produtos eficazes, seguros e de alta qualidade são fundamentais para cada fase”.
De acordo com ela, o teste de sensibilidade do carrapaticida (“Biocarrapaticidograma”) é fornecido gratuitamente pela Embrapa Gado de Leite e deve ser utilizado com intuito de verificar qual “base química” deve ser utilizada da melhor forma nas propriedades. Informações de como realizar a colheita e o envio destes materiais podem ser consultados diretamente com a Embrapa Gado de Leite de Juiz de Fora, MG”, comenta.
Princípios ativos recomendados
Confira os principais princípios ativos utilizados:
Pour-on: Cipermetrina 6% + Clorpirifós 7% + Citronelal 0,5%. Fluazuron 3% + Clorpirifós 7% + Ciermetrina 6% + Citronelal 0,5% + Butóxido de Piperonila 5%. Fluazuron 3% + Abamectina 0,6%. Ivermectina 1%, entre outros.
Pulverização: Cipermetrina 15% + Clorpirifós 25% + Citronelal 1%. Cipermetrina 15%. Amitraz 12,5%, entre outros.
Injetáveis: Abamectina 1%. Ivermectina 1%. Abamectina 1% + ADE. Ivermectina 1% + ADE. Ivermectina 3,5%, entre outros.
Boas práticas
Para a doutora Daniela, boas pra?ticas de manejo, nutrição adequada, gene?tica de qualidade e adoção de programas sanitários estratégicos e adequados são fatores primordiais para o bom desempenho da pecuária brasileira.
Ela ressalta a importância do apoio profissional para o controle das parasitoses. “Consulte sempre o médico veterinário. Siga corretamente as orientações descritas nas bulas dos produtos. Temos que obedecer às boas práticas de aplicação de produtos de uso veterinário”, orienta.
Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de agosto/setembro de 2018 ou online.
Fonte: O Presente Rural

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Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira
Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.
O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta
Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.
Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.
Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem
É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.
Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.
Ajuste fino, não ruptura
A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.
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Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026
Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.
No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”
Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.
O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.
Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.
Padronização da produção
O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.
Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.
Mercados internacionais em expansão
O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.
Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.
Oscilações do mercado
Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.
Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.
Processo de adaptação
Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.
A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.
Gargalos persistem
Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.
A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.
Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.
Dependência do mercado interno
Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.
No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.
Pilares da pecuária
A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.
Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.
Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.
Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.
Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.
Visão de futuro
Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.
Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.
O Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.
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Brasil lança selo para fortalecer mercado de carne premium
Iniciativa incentiva o cruzamento entre vacas leiteiras e touros Angus, ampliando a oferta de carne de alto valor e criando nova fonte de renda para produtores de leite.

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.
Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.
O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.
“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.
Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.
Participação técnica da Embrapa
A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.
A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.
Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.


