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Paraná vai ganhar complexo educacional referência para o leite
Com articulação do Sistema Faep, Centro de Excelência em Leite ofertará cursos técnicos gratuitos e reconhecidos pelo MEC.

Referência na produção láctea, o Paraná está prestes a dar mais um passo para consolidar sua posição de expoente dessa cadeia produtiva. O Estado foi escolhido para sediar o Centro de Excelência em Leite, do Senar Nacional. Trata-se de um complexo educacional especializado na cadeia produtiva, que será construído em Castro, nos Campos Gerais – município reconhecido por lei federal como Capital Nacional do Leite. A futura instalação vai oferecer cursos de nível técnico-profissionalizante e especializações gratuitos e reconhecidos pelo Ministério da Educação (MEC). O Centro de Excelência deve começar a funcionar em 2027.

Presidente interino do Sistema Faep, Ágide Eduardo Meneguette: “É um marco para o Sistema Faep e para o setor de pecuária leiteira paranaense. Teremos um centro referência em âmbito nacional, voltado à educação formal”
“É um marco para o Sistema Faep e para o setor de pecuária leiteira paranaense. Teremos um centro referência em âmbito nacional, voltado à educação formal. Vamos preparar os novos profissionais que vão atuar nessa cadeia produtiva tão importante para a economia do Paraná e do país”, diz o presidente interino do Sistema Faep, Ágide Eduardo Meneguette.
O passo mais recente para a consolidação da nova instituição ocorreu em 13 de maio, quando o Sistema Faep e a cooperativa Castrolanda celebraram um contrato de compra e venda do terreno onde o centro de excelência será construído: uma área de quatro hectares anexa ao Parque Tecnológico da Agroleite, uma das principais feiras agropecuárias do setor. A escolha do Paraná como sede da instituição de ensino, no entanto, é resultado de um processo que começou há mais de nove meses, em 29 de julho do ano passado.
Na ocasião, uma comitiva do Sistema Faep liderada por Meneguette promoveu uma missão em Brasília, onde visitou diversas instituições. Na Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), os paranaenses obtiveram a informação sobre a expansão dos seus centros de excelência e que ainda não havia local definido para sediar a escola voltada à bovinocultura de leite. Naquele mesmo dia, o Sistema Faep começou seus esforços para que o Paraná fosse escolhido.
Além de seu protagonismo, o Paraná tinha um “embaixador” de renome. Entre os integrantes da missão do Sistema Faep estava o assessor técnico da entidade Ronei Volpi, uma das principais autoridades nacionais em bovinocultura de leite. Pecuarista há décadas, Volpi foi um dos fundadores do Conselho Paritário Produtores/Indústrias de Leite do Paraná (Conseleite-PR) e do Fundo de Desenvolvimento da Agropecuária do Paraná (Fundepec-PR). Além disso, ele é presidente da Câmara Setorial de Leite e Derivados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e da Comissão Nacional de Pecuária de Leite da CNA.
União
De volta, o Sistema Faep pôs mãos à obra, passando a se organizar para pleitear que o centro de excelência fosse instalado no Paraná. Dentre os municípios e regiões levados em consideração, acabou-se por escolher Castro em razão de sua relevância para a cadeia produtiva. A “capital do leite” tem um rebanho de mais de 53,4 mil vacas ordenhadas, com produção média anual de 8,4 mil litros por animal. Para efeitos de comparação, a média nacional é de 2,2 mil litros por vaca/ano. O desempenho em produtividade de Castro se aproxima de líderes da pecuária leiteira mundial, como Estados Unidos e Alemanha, e supera o de países como a França e Nova Zelândia.
Com o avanço da ideia, em 29 de outubro, o Sistema Faep promoveu uma reunião com representantes da Castrolanda, do Sindicato Rural de Castro, do Parque Tecnológico Agroleite e do Centro de Treinamento Pecuário (CTP). Também participaram membros da equipe de Doutor Reinaldo, então prefeito eleito de Castro. Todos aderiram à iniciativa. A prefeitura se comprometeu a viabilizar e pavimentar os acessos ao prédio que será construído, além de fazer as ligações de água e esgoto. O Sistema Faep , por sua vez, ficaria responsável por adquirir o terreno.
“Entre mais de 5,5 mil cidades do país, Castro vai ser a única a ter um centro de excelência como esse, voltado ao leite. Isso cria uma marca. Será um com plexo educacional que vai formar profissionais para atuar na cadeia produtiva e em que filhos de produtores terão preferência”, diz o prefeito Doutor Reinaldo. “É um marco importante dentro do nosso projeto de transformar Castro num polo de desenvolvimento”, acrescenta.
Por sua vez, o presidente da Castrolanda, Willem Berend Bouwman, assinalou o impacto positivo do projeto na educação e formação técnica de prof issionais, visando o desenvolvimento e sustentabilidade do setor. “A cadeia do leite demanda muita mão de obra e a capacitação faz toda a diferença quando pensamos em qualidade do leite, sanidade e bem-estar dos rebanhos”, aponta.
“Esperamos que as boas práticas aplicadas aqui inspirem profissionais de outras regiões a elevar os patamares de produtividade e qualidade do leite no Brasil”, aponta Willem Berend Bouwman, presidente da Castrolanda.
No papel de interlocução entre os apoiadores locais, o Sindicato Rural de Castro teve papel determinante. Presidente da entidade, Eduardo Gomes Medeiros conta que a diretoria não hesitou em estabelecer contato com autoridades locais e representantes de cooperativas para sedimentar a adesão coletiva à iniciativa. Apesar de Castro ter sido escolhida como sede, Medeiros trata o projeto como uma conquista da região.
“Temos uma irmandade entre os sindicatos rurais da região. É uma vitória dos Campos Gerais, já que a pecuária leiteira é determinante para diversos municípios da região. É algo que vai ser útil para todos”, diz Medeiros, que também enfatizou a atuação do Sistema Faep na conquista. “Nos orgulha fazer parte de uma entidade ativa e comprometida como essa”, define.
Com essa união em torno do projeto, em 13 de novembro de 2024, Meneguette enviou um ofício ao diretor-geral do Senar Nacional, Daniel Klüppel Carrara, formalizando o interesse do Sistema Faep em sediar o Centro de Excelência em Leite. Seis dias depois, em 19 de novembro, a entidade nacional bateu o martelo de que o complexo seria instalado no Paraná.

Projeto
Com localização estratégica junto ao Parque Tecnológico da Agroleite, o complexo de ensino será composto por oito blocos (sete com estrutura padrão e um adaptável, conforme futuras definições do comitê técnico), que vão se estender por uma área construída total de 4,3 mil metros quadrados. O empreendimento receberá investimentos da ordem de R$ 32 milhões. O início das obras está previsto para agosto deste ano, com lançamento da pedra fundamental durante a Agroleite.
Entre a infraestrutura, um dos blocos terá seis salas de aula e uma sala de tecnologia da informação. Outro anexo sediará quatro laboratórios. Outro bloco será destinado a receber uma biblioteca e um laboratório de informática. As demais dependências serão destinadas a prédios administrativos, salas de videoconferência, refeitório, cozinha e vestiário, entre outros espaços. O projeto arquitetônico vai seguir o padrão dos prédios da Agroleite, que incorporam elementos da arquitetura holandesa, fortalecendo o vínculo com a comunidade local.
A partir de agora, os trabalhos se dividem em duas frentes. Uma conduzida por uma equipe técnico-pedagógica, que vai definir, por exemplo, o corpo docente, os cursos que serão ofertados e as diretrizes educacionais da instituição. Outra diz respeito à infraestrutura (ou seja, à construção do complexo educacional) e à aquisição dos equipamentos para os laboratórios e salas. A previsão é de que o Centro de Excelência em Leite comece a operar em 2027.
“Nós já somos referência nacional na pecuária leiteira. Com esse complexo, consolidaremos nosso papel no que diz respeito à formação de profissionais qualificados, fazendo com que o setor possa avançar cada vez mais. Não só o Sistema Faep , mas todo o setor lácteo está muito animado com essa iniciativa”, diz Meneguette.

Profissional formado no Paraná poderá atuar em qualquer canto do Brasil
Para definir o perfil profissional do futuro especialista que será formado no Centro de Excelência em Leite do Sistema FAEP, em Castro, o Comitê Técnico Nacional de Bovinocultura de Leite realizou, na primeira quinzena de maio, uma discussão estratégica. O encontro reuniu representantes do Senar Central, da Comissão Técnica (CT) de Bovinocultura Leite da Sistema Faep, das Federações da Agricultura de Minas Gerais e Goiás, da Organização das Cooperativas do Brasil (OCB), da Castrolanda, da Associação Paranaense de Criadores de Bovinos da Raça Holandesa (APCBRH), entre outras entidades, que alinharam as competências dos profissionais de acordo com as tendências do setor.
“A construção dos cursos não será apenas técnica. Estamos olhando para fora, buscando atender às legislações e às especificidades da cadeia produtiva”, destaca a diretora adjunta de Educação Formal e Infraestrutura do Senar Nacional, Maria Cristina Ferreira. “A execução deste processo de construção de forma compartilhada garante que os treinamentos vão abranger as necessidades de outros Estados também. A estrutura está sendo desenhada para atender o Brasil como um todo”, complementa.
Essa mesma forma de construção ocorreu nos demais centros de excelência da rede nacional, de Fruticultura, em Juazeiro, na Bahia; Bovinocultura de Corte, no município de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul; e Cafeicultura, na cidade de Varginha, em Minas Gerais.
“Os outros cursos nos polos Brasil afora já foram assim. Isso garante que o profissional formado no Paraná atue na cadeia em qualquer Estado, o que é um dos diferenciais dos nossos treinamentos em relação a outros que existem no mercado”, reforça Maria Cristina.
A próxima etapa do processo conduzido pelo Comitê Técnico Nacional de Bovinocultura de Leite prevê a criação de um grupo de trabalho, com a participação de especialistas do Paraná e de outras partes do país. O objetivo é a formatação do currículo e do plano de curso. Posteriormente, com a metodologia definida, haverá a capacitação dos instrutores.
Centros de excelência estão em expansão pelo Brasil
Com foco na formação técnico-profissional de mão de obra especializada para as mais diversas atividades agropecuárias, o Senar Nacional está expandindo o número de centros de excelência. Hoje, três unidades já estão em operação – uma voltado à fruticultura, uma à bovinocultura de corte e outra à cafeicultura. Todas oferecem cursos técnicos presenciais, com formação inicial e continuada e com programas de especialização técnica. Algumas unidades também ofertam cursos na modalidade Ensino a Distância (EaD).
Além do Centro de Excelência em Leite, está em processo de implantação de um complexo educacional especializado em Integração Lavoura, Pecuária e Floresta (ILPF). A unidade funcionará em Tangará da Serra, no Mato Grosso, com inauguração prevista ainda para 2025. Em Ribeirão Preto, em São Paulo, está em fase de implantação o Centro de Excelência de Cana-de-Açúcar e, de forma paralela, a construção do Centro de Excelência em Zootecnia, em Feira de Santana, na Bahia.
Inaugurado em outubro de 2017, o Centro de Excelência em Fruticultura foi a primeira unidade do gênero criada pelo Senar Nacional. O complexo está localizado em Juazeiro, na Bahia, referência na produção e exportação de frutas _in natura_. O carro-chefe da unidade é a Formação Técnica em Fruticultura, que tem carga horária de 1.350 horas, em modelo presencial. O centro também oferta outros cursos de aprendizagem.
Localizado em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, o Centro de Excelência de Bovinocultura de Corte tem em seu catálogo opções como a Formação Técnica (com carga de 1.400 horas) e a Especialização Técnica (com 1.760 horas). Inaugurado em 2018, o complexo também dispõe de cursos de tecnólogo (em formato EaD) e cursos de extensão, entre outros formatos.
O Centro de Excelência em Cafeicultura, por sua vez, fica em Varginha, em Minas Gerais. Inaugurado em 2023, a unidade oferece, entre seus cursos, a Formação Técnica (em formato híbrido, entre presencial e EaD) e outros títulos na modalidade de Ensino a Distância, incluindo o Técnico em Agronegócio. Todos os centros de excelência atendem a alunos de todo o Brasil.

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Nova gestão da Girolando prioriza crise do leite e inovação no campo
À frente da entidade, Alexandre Lacerda defende combate às importações e ampliação do acesso ao melhoramento genético para pequenos e médios pecuaristas.

Uma das maiores entidades do setor leiteiro do país, a Associação Brasileira dos Criadores de Girolando passa a ser comandada pelo pecuarista e advogado Alexandre Lopes Lacerda. A posse da Diretoria e Conselhos eleitos para o triênio 2026/2028 ocorreu na quinta-feira (26), em Uberaba (MG), e contou com a presença de diversas lideranças do agro e criadores, dentre elas a prefeita de Uberaba Elisa Araújo, os deputados federais Emidinho Madeira e Rafael Simões e o secretário de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento Thales Fernandes.
Entre as prioridades do novo presidente estão: defesa dos direitos dos produtores de leite, incluindo ações para combater a atual crise do leite; facilitar o acesso de pequenos e médios produtores às tecnologias de melhoramento genético e a animais de alta qualidade. “Queremos fortalecer o programa de melhoramento da raça Girolando, o PMGG, desenvolvendo ferramentas para potencializar a utilização das informações genética pelos criadores, permitindo a customização de índices genéticos para cada fazenda e acompanhando a evolução a cada geração. Vamos nos empenhar nesses próximos três anos para que mais e mais produtores adotem essas inovações, visando produzir um Girolando moderno, eficiente e sustentável”, assegura Lacerda.
Durante a solenidade, as lideranças presentes reforçaram a necessidade de unir forças na defesa dos direitos dos produtores rurais. Segundo o deputado Rafael Simões, uma das ações em andamento é para inibir a importação de leite do Uruguai e da Argentina, que vem prejudicando o setor. O secretário de Minas Thales Fernandes disse que o governo mineiro também vem trabalhando para vencer a atual crise do leite e para levar mais tecnologia par ao campo. O deputado Emidinho Madeira destacou a parceria com a Girolando para levar mais genética de qualidade para as pequenas propriedades leiteiras. A prefeita de Uberaba Elisa Araújo assegurou que o agro é importante para a economia da cidade e que vários projetos voltados para a pecuária estão levando mais renda para o campo.
Em seu discurso de despedida, Domício Arruda, que comandou a Girolando na gestão 2023/2025, ressaltou as realizações feitas, dentre elas a construção da Casa do Girolando no Parque Fernando Costa, a aquisição de um terreno para construção de uma nova sede, os dois anos seguidos de recordes nos registros. Segundo ele, a raça chega a 2026 mais consolidada, com várias tecnologias de seleção dentro do PMGG e reconhecida pelo mercado internacional como a genética leiteira ideal para os trópicos.
Com mais de quatro mil associados em todo o país, a Associação de Girolando intensificará este ano ações promocionais para ampliar o consumo de leite na sociedade brasileira. Durante a Megaleite 2026, exposição nacional da raça marcada para junho, a entidade levará o tema “Aqui tem leite”, mostrando que nos mais diversos produtos, como medicamentos, alimentos, suplementos, o leite é utilizado como matéria-prima. “O leite é um produto fundamental no dia a dia das pessoas e precisamos reforçar com informações relevantes suas qualidades para o público em geral, até para combater tantas fake news que existem sobre o alimento”, diz Alexandre Lacerda, que é criador da raça Girolando há duas décadas, na Fazenda Miraí, localizada na região da Serra do Cipó, além de atuar na área de advocacia.
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Lei Complementar eleva custo tributário nas cadeias de leite, café, trigo e soja
Redução linear de 10% nos benefícios fiscais federais altera créditos presumidos, cria pontos de cumulatividade e deve pressionar preços ao consumidor, com impacto também sobre fertilizantes e insumos agropecuários.

A publicação da Lei Complementar 224/2025, que promoveu um corte linear de 10% nos benefícios fiscais federais incidentes sobre diferentes elos do agronegócio, deve elevar custos ao longo das cadeias de leite, café, trigo e soja. A expectativa é de repasse gradual ao consumidor final e de reabertura do debate sobre a cumulatividade de tributos que, até então, operavam sob lógica não cumulativa.

Foto: Gilson Abreu/AEN
Na avaliação da advogada tributarista Cintia Meyer, a nova sistemática tende a gerar efeito cascata. Ao reduzir créditos presumidos e alterar incentivos, a medida amplia o custo tributário em segmentos que já enfrentam compressão de margens, pressionados por custos elevados de produção e preços internacionais deprimidos de commodities.
O Demonstrativo de Gastos Tributários (DGT) que integra a Lei Orçamentária Anual lista cerca de 300 hipóteses de benefícios fiscais, além de outras 14 tratadas especificamente na Lei Complementar 224/2025. Segundo Meyer, empresas que utilizam qualquer desses mecanismos precisarão revisar suas estruturas tributárias. “Se a empresa conta com algum desses benefícios, o impacto pode ser direto no resultado”, afirma.
Como a norma foi sancionada em dezembro, seus efeitos já alcançam o IRPJ e o Imposto de Importação desde 1º de janeiro, em respeito ao princípio da anterioridade. Para PIS, Cofins, IPI, CPS e CSLL, as novas regras passam a valer a partir de 1º de abril, ampliando o alcance da medida ao longo do primeiro semestre.
Leite tem corte em créditos e nova tributação sobre derivados

Foto: Fernando Dias
Na cadeia do leite, a Lei Complementar 224/2025 reduz de forma direta os créditos presumidos concedidos à indústria. Para os laticínios em geral, o percentual cai de 1,85% para 1,67%. Já no caso das empresas enquadradas no Programa Mais Leite Saudável, o crédito passa de 4,63% para 4,17%. Embora se trate de um benefício condicionado à realização de investimentos, o texto legal não explicita se esse mecanismo poderia ser exceção ao corte linear, o que amplia a insegurança jurídica do setor.
Em documento de perguntas e respostas, a Receita Federal informou que a aplicação do benefício deverá ser analisada “caso a caso”, de acordo com a execução dos projetos aprovados no programa, abrindo margem para interpretações distintas e potenciais questionamentos administrativos ou judiciais.
No consumo doméstico, os produtos que integram a cesta básica seguem com alíquota zero. No entanto, itens relevantes do portfólio dos laticínios, como leite fluido, soro de leite, leite fermentado e bebidas lácteas, passam a ser tributados em 0,925% de PIS/Cofins, elevando o custo ao longo da cadeia e pressionando as margens da indústria. As exportações, por força da imunidade constitucional, permanecem isentas de tributação.
Exportações de café têm redução de crédito presumido

Foto: Divulgação/Governo da Bahia
Na cadeia do café, a indústria de torrefação mantém a aplicação de alíquota zero nas vendas internas, por se tratar de produto incluído na cesta básica. A mudança ocorre nas operações de exportação. Com a Lei Complementar 224/2025, houve redução dos créditos presumidos vinculados às vendas externas.
Para o café cru, o crédito presumido sobre a aquisição de insumos recua de 7,4% para 6,66%. Já no café torrado ou solúvel, o percentual calculado sobre a receita de exportação cai de 0,925% para 0,8325%. A diminuição reduz a margem das empresas exportadoras e altera a estrutura de custos em um segmento altamente dependente do mercado internacional.
Trigo concentra efeitos mais sensíveis da mudança
Na cadeia do trigo, os efeitos são distintos e considerados mais sensíveis. Segundo a tributarista, a principal mudança atinge a aquisição do grão destinado à produção de farinha. “A operação, que antes estava sujeita à alíquota zero, passa a ser tributada sem direito a crédito para o comprador. Na prática, trata-se de um tributo não recuperável, incorporado diretamente ao custo de aquisição”, explica Cintia.
Como a farinha é insumo básico para a fabricação de pães, o impacto tende a se propagar ao longo da cadeia, elevando o custo do produto final e pressionando o preço ao consumidor.

Foto: Cleverson Beje
Além da tributação na aquisição do grão, a Lei Complementar 224/2025 também reduziu o crédito presumido de 3,24% para 2,92% para o trigo. “As vendas no mercado interno permanecem inalteradas para os produtos incluídos na cesta básica, como farinha de trigo e pré-mistura para pão, que seguem com alíquota zero. Já os itens fora desse rol, como pré-misturas para bolos, mantêm a tributação anteriormente aplicada”, detalha Cintia.
Para o advogado tributarista Luiz Eduardo Costa Lucas, a alteração cria uma distorção no sistema. Segundo ele, trata-se de um caso em que um produto que operava com alíquota zero passa a gerar incidência tributária no meio da cadeia, sem possibilidade de creditamento. “Na prática, o imposto recolhido não é recuperável, incorpora-se ao custo e reabre a discussão sobre a não cumulatividade, tema debatido desde 2004. O resultado é a transferência do encargo ao consumidor final”, pontua.
Milho tem crédito presumido reduzido ao longo da cadeia

Foto: Fernando Dias/Ascom Seapi
Estrutura semelhante foi adotada na cadeia do milho. Embora os insumos não tenham sido diretamente afetados, o crédito presumido sobre aquisições de pessoas físicas foi reduzido de 3,24% para 2,92%. No óleo de milho, tanto as vendas no mercado interno quanto as exportações tiveram o crédito presumido diminuído, de 2,498% para 2,248, ampliando a pressão sobre as margens do setor.
Óleo de soja perde desoneração e crédito é reduzido
Na cadeia da soja, a aquisição de insumos permanece sem alterações. A mudança ocorre na etapa de comercialização. O óleo de soja, atualmente enquadrado na cesta básica e sujeito à alíquota zero de PIS/Cofins, mas fora do rol previsto na reforma tributária, passará a recolher 0,925% desses tributos.
Além disso, o crédito presumido sobre as vendas de farinha de soja, óleo e resíduos foi reduzido em 10%, caindo de 2,498% para 2,248%, o que comprime as margens ao longo da cadeia.
Fertilizantes passam a ter tributação na entrada e na saída

Foto: Claudio Neves
Impacto mais amplo é observado na indústria de fertilizantes. Insumos agropecuários que até então operavam com alíquota zero de PIS/Cofins passam a ser tributados em 0,925%. O mesmo percentual incidirá sobre as vendas no mercado interno de adubos, defensivos, sementes, mudas e corretivos, que também eram desonerados.
Segundo Cintia, o efeito é cumulativo. “O segmento passa a ser tributado na aquisição, sem direito a crédito, e também na saída. No caso da importação, a indústria de fertilizantes terá de recolher PIS e Cofins sem possibilidade de compensação”, afirma a tributarista.
Na prática, trata-se de um custo adicional incorporado à formação de preços, com potencial de repercussão direta sobre os produtores rurais e, ao final da cadeia, sobre o consumidor.
Insegurança jurídica amplia risco de cumulatividade e judicialização
Diante da ausência de uma lista expressa sobre quais benefícios foram efetivamente alcançados pela Lei Complementar 224/2025, Cintia recomenda uma análise criteriosa caso a caso. Segundo ela, é necessário verificar se o tributo envolvido está entre aqueles abrangidos pela norma, como PIS, PIS-Importação, Cofins, Cofins-Importação, Imposto de Importação (II), IPI, IRPJ, CSLL e CPP.
Além disso, o benefício precisa constar no Demonstrativo de Gastos Tributários da Lei Orçamentária Anual (LOA), enquadrar-se como incentivo fiscal e não se tratar de uma exceção legal específica.

Fonte: Martinelli Advogados
Segundo Cintia, os critérios mencionados não esgotam as possibilidades de enquadramento e a interpretação dependerá, em grande medida, do entendimento adotado pela Receita Federal, aspecto que não está detalhado na Lei Complementar 224/2025. “Há situações que, em tese, não se enquadram, mas a Receita pode interpretar de forma diferente, o que pode gerar discussões amplas e até judicialização”, menciona a advogada.
Por sua vez, Costa Lucas observa que, até o fim do ano passado, não havia preocupação prática em diferenciar, sob a ótica do governo, o que seria benefício fiscal e o que configuraria gasto tributário. Anualmente, a Receita encaminha a relação de gastos, mas a nova regra levanta a dúvida sobre se todos os itens listados podem ser automaticamente classificados como benefícios. “Nem tudo que está ali necessariamente é benefício”, pontua.

Foto: Divulgação/Governo da Bahia
Para ele, é essencial verificar se o item está previsto na Lei Orçamentária Anual (LOA) e, além disso, se efetivamente se caracteriza como incentivo fiscal. Como não há definição legal clara sobre esse enquadramento, forma-se uma zona de incerteza. Costa Lucas destaca que o debate sobre a natureza dessas rubricas estava adormecido e volta agora ao centro da discussão. Na avaliação dele, a redução linear pode atingir mecanismos básicos do sistema, reintroduzindo cumulatividade, especialmente em cadeias do agronegócio.
Na ponta, o impacto tende a alcançar o consumidor. Isso porque o varejo passará a adquirir produtos que sofreram tributação ao longo da cadeia sem possibilidade de crédito. Como o imposto é calculado ‘por dentro’, o custo se incorpora ao preço. Na prática, segundo a tributarista, um modelo concebido como não cumulativo passa a operar com efeitos cumulativos, pressionando o valor final pago pelo consumidor.
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Nelore, o boi que samba
Enredo histórico levou o Nelore ao Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional, colocando a raça no centro da narrativa cultural do país e destacando sua importância para o agronegócio brasileiro.

Há 20 anos, em 28 de fevereiro de 2006, o icônico locutor da apuração do desfile de carnaval de São Paulo, anunciava: a Império de Casa Verde era bicampeã da folia paulistana. A vitória veio com um enredo que se tornou histórico para o agronegócio brasileiro, ao colocar o Nelore no centro da narrativa cultural do país e levá-lo ao Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional.
A presença do Nelore naquela passarela não foi um gesto episódico nem ornamental. Foi a afirmação pública de uma trajetória construída no campo e, já naquela época, profundamente conectada ao desenvolvimento econômico e social do Brasil. Ao ocupar o carnaval, a raça mais representativa da pecuária nacional passou a dialogar diretamente com a sociedade, em um espaço onde o país se reconhece e se expressa culturalmente.

Artigo escrito por Victor Paulo Silva Miranda, presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil – Foto Foto: Divulgação/ACNB
Falar do Nelore é falar da base da pecuária de corte. A raça responde por aproximadamente 80% do rebanho nacional com essa aptidão, sustentando um modelo produtivo adaptado às condições tropicais, baseado majoritariamente em pastagens e responsável por garantir escala, eficiência e regularidade à produção de carne. Trata-se de um estrutural, que sustenta toda a cadeia, mas que muitas vezes foi silencioso. Há mais de 70 anos, a Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB) tem dado “voz” a esses animais, que passaram a “cantar” a partir dos versos da Império, compostos por Rafael, Junior Marques e Carlos Jr.
Ao ganhar visibilidade no carnaval, esse protagonismo deixou de ser restrito ao ambiente técnico e passou a integrar o imaginário coletivo. O Nelore foi apresentado como elo entre passado e presente, entre tradição e ciência, entre cultura e produção. A avenida funcionou como espaço de tradução, permitindo que a pecuária fosse compreendida para além dos números e indicadores. Afinal, “Com o boi Nelore/ A pecuária e a ciência evoluiu/ E hoje é um orgulho nacional/ É saboroso, é divinal, pode aplaudir”.
A imagem do “boi que come capim” sintetiza esse modelo. Longe de ser simplificação, ela expressa um sistema produtivo eficiente, tropical e competitivo, construído com base em seleção genética, adaptação ambiental e trabalho contínuo dos criadores. É esse modelo que permitiu ao Brasil se consolidar como potência na produção de carne bovina, com identidade própria e vantagens comparativas claras.
À época, a equipe da ACNB participou diretamente daquele processo e pôde acompanhar como a linguagem cultural ampliou o alcance dessa história. Em vez de explicações técnicas, o Nelore foi apresentado por meio de símbolos, ritmo e imagem. As gravações estão disponíveis na internet para quem quiser conferir. Nelas, a ciência e o melhoramento genético apareceram traduzidos em narrativa acessível, aproximando o campo da cidade e gerando reconhecimento sobre o papel da pecuária na vida nacional.
Duas décadas depois, em 2026, o significado daquela presença permanece atual. O Nelore segue sendo o alicerce da pecuária brasileira – hoje líder em produção e em exportação –, acompanhando avanços tecnológicos, ganhos de produtividade e novos desafios ligados à sustentabilidade e à comunicação. O que se consolidou foi a consciência de que produzir bem também exige capacidade de diálogo com a sociedade.
O Nelore no carnaval simbolizou essa maturidade. Um boi que sustenta a pecuária nacional, que responde pela maior parte do rebanho de corte brasileiro e que também ocupa o espaço da cultura. Naquela avenida, ficou claro que o Nelore não é apenas base produtiva. É identidade, história e parte viva do Brasil. E, quando preciso, também samba.



