Bovinos / Grãos / Máquinas
Paraná quer se tornar livre de febre aftosa sem vacinação até 2021
Agentes da cadeia têm discutido ações para tornar Estado livre da obrigatoriedade dois anos antes do calendário proposto pelo Mapa
Uma discussão que não tem saído da pauta nacional de saúde animal nos últimos meses é a vacinação contra febre aftosa. A imunização de bovinos tem causado certa agitação entre médicos veterinários, pecuaristas e agentes de órgãos estadual e federal de inspeção sanitária. A intenção é que o Brasil, até 2023, se torne completamente livre de febre aftosa sem vacinação. Mas o calendário proposto pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para esta completa retirada – no Programa Nacional de Erradicação e Prevenção da Febre Aftosa (PNEFA) – também tem causado discussões. Alguns Estados pretendem antecipar a data prevista para ter o selo de livre de aftosa sem vacinação perante a Organização Mundial de Saúde Animal (OIE).
Um deles é o Paraná. Há tempos que agentes da cadeia vêm discutindo a melhor forma para que o Estado adquira o status antes da data prevista. Isso porque o Paraná ficou no último grupo para a retirada da vacinação, juntamente com Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e Santa Catarina – sendo que este último já é reconhecido pela OIE livre sem vacinação. Um dos objetivos em adiantar a retirada da imunização é a possibilidade de alcançar mercados hoje indisponíveis.
O assunto foi discutido durante o Show Rural Coopavel, que aconteceu em Cascavel, PR, em fevereiro. De acordo com o ex-secretário da Agricultura e do Abastecimento do Paraná, Norberto Ortigara, todos conhecem quais os caminhos que devem ser tomados para alcançar este objetivo. “Nós (o Paraná) estamos perseguindo o melhor status sanitário do mundo”, argumenta. Para ele, é difícil ir para o exterior e falar sobre potencial de exportação e relação comercial quando o Estado ainda vacina contra febre aftosa. “Bons mercados, que pagam bem e têm dinheiro, acabam não comprando da nossa carne por conta disso”, afirma.
Ortigara diz que nos últimos anos o Estado tem melhorado muito na questão de cadastro dos pecuaristas, sanidade, trânsito de animais, monitoramento das fronteiras, entre outros pontos. “Nós temos que começar a usar mais a inteligência e menos a vacina”, encara. A intenção do Paraná é adiantar em dois anos o calendário proposto pelo Mapa, fazendo com que até 2021 seja reconhecido como livre de febre aftosa sem vacinação. “Quem sabe até 2020 o Ministério nos declare livre e chame a OIE para então em maio de 2021 conseguirmos esta declaração internacional”, comenta. Ele acrescenta que pode parecer muito tempo, “mas é melhor do que maio de 2023, 2025 ou mesmo nunca”.
De acordo com o secretário, buscar essa certificação é bom não somente para o pecuarista, mas para todo o país. “O Paraná é o maior polo de proteína animal do Brasil, e esta certificação faz bem para as cooperativas, à indústria, ao produtor e a toda a economia. 75,3% do que foi exportado pelo Estado em 2017 foi agro, isso mostra a densidade e importância fundamental do setor na economia do Paraná. Então, por que não fortalecer isso? Buscar o interesse coletivo? É esse trabalho que estamos fazendo, demonstrando nossa qualidade para chegarmos mais fortes ao mercado internacional”, afirma.
Auditoria
Em janeiro deste ano o Paraná passou por uma auditoria do Mapa, feita justamente para conferir as condições do Estado para a retirada da vacinação até 2023. Segundo o gerente de Saúde Animal da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), Rafael Gonçalves Dias, todos os Estados passarão por esta mesma inspeção. “Foi uma semana inteira que passamos com auditores demonstrando todos os quesitos necessários para afirmar nossa competência em retirar a vacinação”, conta. Ele informa que entre os quesitos avaliados estiveram recursos humanos, capacitação dos profissionais, recursos financeiros, fiscalização de fronteira, capacidade técnica operacional, controle de transporte, cadastro, atendimento de suspeitas, legislação e educação sanitária. “Podemos afirmar que em todos os quesitos avaliados nos saímos muito bem”, garante.
Dias destaca que entre os principais pontos vistos pelos auditores foi se o Estado tem independência técnica, administrativa e financeira para lidar com a situação. “Acredito que isto foi muito bem defendido”, assegura. Ele exemplifica que no quesito financeiro o Paraná conta com três fundos diferentes para cobrir emergências sanitárias. “Temos esta autonomia financeira que é importante”, diz. O gerente destaca que o Estado tem uma condição diferenciada, melhor que em anos anteriores.
Cadeias Unidas
Não somente a cadeia da carne bovina seria beneficiada com a retirada da vacinação contra a febre aftosa no Paraná, argumenta o presidente da Adapar, Inácio Kroetz. “O Paraná precisa hoje muito mais do que parar de vacinar contra a febre aftosa. O serviço de defesa agropecuário não pode ficar refém da vacinação. Porque a aftosa se tornou um termômetro para a qualidade do serviço sanitário, e quando volta a aftosa isso repercute em todas as cadeias, não somente na bovina”, afirma. “O mundo do agro é integrado, não podemos nos esquecer da economia do parceiro. As proteínas (animais) são parceiras e não concorrentes”, diz.
O presidente explica esta parceira na economia paranaense. De acordo com ele, no ano passado 88% do VBP do agro veio do frango de corte, 8% do suíno e 4% do bovino. A cadeia suinícola não cresce porque nós continuamos vacinando e o mercado não acessa, não cresce porque o Estado vacina. Esta ainda é uma região onde se tem medo da aftosa e continuamos imunizando”, comenta. Ele conta da quantidade exportada: em 2017 foram embarcadas 28 mil toneladas de carne bovina no Paraná; 96 mil toneladas de carne de suínos e 1,74 milhão de toneladas de carne de frango. “Veja a disparidade entre uma cadeia e outra. Mas, se em uma acontece um deslize, todas elas são afetadas”, informa. E isso é um problema, comenta Kroetz, já que acessar um mercado é fácil, porém, difícil é manter.
Agricultura Envolvida
Não somente as proteínas devem estar unidas, mas também os produtores de grãos devem se preocupar com esta questão. Isso porque se o Estado tem algum problema de febre aftosa, influenza aviária, doença de new castle ou peste suína clássica, também os grãos serão diretamente afetados. “Somente em 2017 o Paraná produziu 19,8 milhões de toneladas de soja e 18 milhões de toneladas de milho. Estes dois grãos, principalmente, fazem diretamente parte da produção de proteína animal. Quando dizemos que exportamos 4,1 milhões de toneladas de frango para o mundo no ano passado, também estamos dizendo que exportamos isso em grão, já que para produzir um quilo de frango, o animal consome 1,72 quilo de ração”, afirma. Kroetz reitera que não existe cadeia isolada.
Outro empecilho que tem feito com que demore mais para o Paraná ser reconhecido como livre de febre aftosa sem vacinação é o desejo de poucos pecuaristas que trazem gado de outros Estados – como o Mato Grosso do Sul, que também ainda vacina – para suas propriedades no Paraná. “Parar de vacinar implica em fechar as fronteiras como fez Santa Catarina há 18 anos”, afirma o presidente. Este, de acordo com ele, não seria um problema, já que somente no ano passado o Paraná exportou 28 mil toneladas de carne de gado. “Então, precisamos mesmo de gado de fora para abastecer o nosso mercado?”, questiona.
Agentes de todo o Estado vêm fazendo ações para alcançar o objetivo de adiantar o calendário e fazer com que o Paraná se torne livre de febre aftosa sem vacinação antes da data prevista. Outros Estados, como o Rio Grande do Sul, também estão trabalhando para adiantar o calendário e, assim como o Paraná, conseguir a certificação em 2021.
Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de março/abril de 2018 ou online.
Fonte: O Presente Rural

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Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira
Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.
O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta
Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.
Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.
Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem
É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.
Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.
Ajuste fino, não ruptura
A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.
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Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026
Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.
No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”
Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.
O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.
Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.
Padronização da produção
O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.
Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.
Mercados internacionais em expansão
O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.
Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.
Oscilações do mercado
Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.
Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.
Processo de adaptação
Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.
A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.
Gargalos persistem
Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.
A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.
Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.
Dependência do mercado interno
Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.
No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.
Pilares da pecuária
A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.
Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.
Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.
Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.
Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.
Visão de futuro
Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.
Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.
O Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.
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Brasil lança selo para fortalecer mercado de carne premium
Iniciativa incentiva o cruzamento entre vacas leiteiras e touros Angus, ampliando a oferta de carne de alto valor e criando nova fonte de renda para produtores de leite.

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.
Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.
O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.
“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.
Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.
Participação técnica da Embrapa
A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.
A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.
Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.


