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Paraná lidera avanço nacional em produção e produtividade
Impulsionada por melhoramento genético e novas técnicas de manejo e nutrição, Estado ocupa posição de destaque no ranking brasileiro

A pecuária leiteira do Paraná é a que mais cresceu ao longo das últimas duas décadas, tanto em produção (litros produzidos) quanto em produtividade (litros por cabeça). Esse avanço fez com que o Estado saltasse para terceiro colocado em ambos os rankings nacionais em 21 anos, evidenciando a posição de destaque do setor. Hoje, a atividade está presente nos 399 municípios do Paraná e gera cerca de R$ 5,7 bilhões por ano no Valor Bruto de Produção (VBP).
De 1996 a 2017 (dados mais recentes disponíveis), a produção de leite no Estado decolou, com crescimento de 193%. Em números brutos, o Paraná saiu da casa dos 1,5 bilhão para os 4,4 bilhões de litros por ano. A produção paranaense fechou 2017 atrás apenas de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul. Enquanto os gaúchos estão à frente por uma pequena margem (menos de 100 milhões de litros a mais), os produtores mineiros atingiram a marca de 8,9 bilhões de litros, mas com um rebanho de vacas ordenhadas três vezes maior que o do Paraná.
O crescimento exponencial da produção no Estado está diretamente relacionado à produtividade do plantel, que mais que dobrou em duas décadas. A média produzida por vaca pulou de 1,4 mil para 3 mil litros por ano: aumento de 111%. Apenas Santa Catarina (3,5 mil litros por ano, por animal) e Rio Grande do Sul (3,2 mil litros) superam o Paraná em produtividade. Todos os dados foram coletados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), com base no rebanho geral.
Este cenário de expansão teve como propulsor o aspecto econômico. O técnico do Sistema FAEP/SENAR-PR Alexandre Lobo Blanco aponta que a melhor remuneração ao pecuarista pelo produto foi determinante para a ampliação dos investimentos, que resultaram em maior produção e mais produtividade.
“O principal e mais eficiente estímulo à produção foi o aumento dos preços pagos aos pecuaristas neste período. Com cenários de preços mais elevados, o produtor responde bem às tecnologias de curto prazo para o aumento da produção, em especial, melhorias nutricionais e na composição de rebanho”, valia. 4,4 bilhões de litros foram produzidos pelo Paraná em 2017, correspondente a 15% da produção brasileira.
Genética e tecnologia
O presidente da Comissão Técnica da Bovinocultura de Leite da FAEP, Ronei Volpi, destaca que, entre a série de fatores que contribuiu para a escalada da atividade, estão elementos como o melhoramento genético de matrizes, a participação de cooperativas, a presença forte de pesquisas em universidades e particularidades do Estado como clima e solos favoráveis, além de laticínios em todas as regiões.
“O que faz a atividade leiteira crescer no Paraná é uma soma de fatores, com destaque para a cultura de sua gente rural, fundamentada preponderantemente na pequena propriedade, alicerçada em tradicionais valores de cooperação e na intimidade com o ofício de produzir leite, herdada dos imigrantes europeus”, aponta Volpi. “Neste aspecto, as capacitações oferecidas pelo SENAR-PR ao longo dos mais de 25 anos tiveram papel fundamental na consolidação do status da produção leiteira do Paraná”, acrescenta.
Dados publicados pela Associação Paranaense de Criadores de Bovinos da Raça Holandesa (APCBRH) em parceria com a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) atestam o progresso genético das vacas em rebanhos especializados. Hoje, entre 35% e 40% dos animais que compõem o rebanho paranaense são inseminadas artificialmente. No Brasil, este índice é de apenas 11%.
“Desde 2009, tem havido a expansão da inseminação artificial a partir de touros genômicos, o que fez com que os produtores chegassem a touros provados positivamente para componentes de leite, como gordura e proteína. Antigamente, resultados que demoravam mais de seis anos para aparecer, agora se consegue de uma geração para a outra”, explica o superintendente da APCBRH, Altair Antonio Valloto. “Na era genômica, o pecuarista consegue, praticamente, moldar o rebanho”, resume.
O resultado deste investimento pode ser visto ano a ano. O rebanho que tem o desempenho analisado pela APCBRH passou de 21,7 mil animais em 2008, para 45,7 mil vacas no ano passado. Os dados mostram que a produtividade média dos animais saltou de 27 litros por dia em 2015 para quase 29,5 litros por dia no ano passado. Os indicadores de gordura e proteína no leite também avançaram. “Os resultados são muito bons, muito expressivos”, destaca Valotto.
Outro ponto é que, segundo o superintendente da APCBRH, as técnicas de melhoramento genético e inseminação artificial estão cada vez mais acessíveis. “É um fator que está se popularizando. O SENAR-PR tem um programa de treinamento muito forte nessa área de melhoramento genético, o que tem contribuído muito com a especialização do rebanho do Estado”, diz Valloto.
Ainda, o fato da produção leiteira do Paraná ser estável, praticamente sem variações sazonais na captação entre os períodos de inverno e de verão, o que está diretamente relacionada à força dos grandes produtores, colabora para o desenvolvimento da cadeia. “A superação dessa sazonalidade na produção está associada ao desempenho apresentado pelos maiores produtores. Estes mantêm praticamente constante a oferta do produto durante todo o ano”, observa o técnico Guilherme Dias, do Sistema FAEP/SENAR-PR.
Capital Nacional do Leite
Se a atividade evoluiu tanto no Paraná ao longo dos últimos 20 anos, a ponto de o Estado ter se tornado referência nacional, nada melhor que uma capital para figurar como símbolo dessa excelência. E é oficial: desde dezembro de 2017, Castro, na região dos Campos Gerais, é a “Capital Nacional do Leite”, reconhecida por lei federal. O município é o maior produtor do país, com um volume de 255 milhões de litros por ano. A produtividade média na cidade é de 7,4 mil litros de leite por cabeça por ano: 146% maior que a média estadual.
Um dos exemplos do patamar de excelência a que a atividade chegou em duas décadas é o criador Roelof Rabbers, com propriedade em Castro. O pecuarista começou a se dedicar a atividade leiteira há 25 anos, com três animais. Hoje, o rebanho é de 297 animais. O avanço é geral, impulsionado por investimentos em manejo, aspectos nutricionais e em genética.
“No início, tirávamos leite no balde, ao pé, e a entrega de leite era feita em latões à cooperativa Castrolanda. Atualmente, temos uma sala de ordenha com seis conjuntos semi-automatizados, com programa de gerenciamento de ordenha e dois tanques de 4 mil litros”, exemplifica Rabbers.
A partir da modernização em etapas da produção, o pecuarista observou o crescimento da produção. Em 2005, Rabbers criou um método de acompanhamento por meio de planilhas, que contêm informações sobre lactações acumuladas. Os dados apontam que, em três lactações (em sua vida produtiva), a produtividade média saltou de 24 mil litros para mais de 31,7 mil litros por animal.
“A evolução genética está muito acelerada, com maior oferta de touros genômicos nos últimos quatro anos. Sem dúvida, teremos avanços significativos nos próximos anos”, observa o pecuarista, uma referência estadual e nacional.
Representatividade
A importância da pecuária leiteira para o Estado vai além. Com participação bastante expressiva, o Paraná responde por cerca de 15% da produção brasileira que, em 2017, fechou em 33 bilhões de litros. Neste sentido, os três Estados da região Sul merecem destaque: juntos, são responsáveis por 37,7% do leite do país, ultrapassando a antiga líder, a região Sudeste, e também Argentina e o Uruguai juntos.
O leite também tem um peso significativo à economia do Paraná, gerando mais de R$ 5,7 bilhões (em dados de 2017, os mais recentes). Com isso, a atividade representa 6,6% do Valor Bruto da Produção (VPB) do Paraná. A produção de leite só fica atrás da de soja (que rendeu R$ 20,3 bilhões), frango de corte (R$ 13 bilhões) e de milho (R$ 6,6 bilhões) – conforme levantamento do Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria de Estado de Agricultura e Abastecimento (Seab) do Paraná.
Novo cenário
Apesar da consolidação do setor ao longo das duas últimas décadas, a pecuária leiteira deve apresentar uma pequena redução, quando forem apresentados os dados consolidados de 2018. Segundo os técnicos do Sistema FAEP/SENAR-PR, a partir de 2016, a atividade sofreu uma desaceleração, o que teve impacto direto na produção.
“O cenário foi de retração de preços médios e aumento de custos de produção, o que de certa forma tem segurado os novos investimentos em larga escala pelo produtor”, avalia Guilherme Dias. “Além disso, tivemos novas instruções normativas [INs 76, 77 e 78] que provocarão efeitos a partir de maio deste ano, com impacto no volume produzido no curto prazo”, acrescentaram.
Conseleite contribui para o avanço da atividade no Paraná
A consolidação da atividade leiteira no Paraná está, também, diretamente relacionada à criação do Conselho Paritário dos Produtores/Indústrias de Leite do Estado do Paraná (Conseleite), instituído em 2002. Idealizado com o objetivo de aproximar os elos da cadeia produtiva e mitigar relações conflitantes relacionadas ao preço do produto, a metodologia adotada ampliou a confiança mútua entre produtores e empresas, a partir da transparência nas políticas de formação de preços dos lácteos.
Para manter a isenção de todo o processo, o Conseleite contratou o Departamento de Economia Rural da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que, semanalmente, levanta os preços junto às indústrias e apresenta uma análise técnica, com a conjuntura do mercado e apontando perspectivas. A partir disso, em reuniões mensais com representantes das industrias e do setor produtivo, o Conseleite aprova, então, um valor de referência – aferido a partir da comercialização dos derivados por parte da indústria.
“Desde a criação, o Conseleite é uma referência e colabora para que os produtores e indústrias consigam projetar as tendências do setor. Inclusive, o trabalho é uma referência nacional e já foi copiado por outros Estados”, destaca Ronei Volpi, presidente da Comissão Técnica da Bovinocultura de Leite da FAEP.
A metodologia foi tão assertiva que Conseleites foram instalados nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul e, mais recentemente, em Minas Gerais, no ano passado.

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Nova gestão da Girolando prioriza crise do leite e inovação no campo
À frente da entidade, Alexandre Lacerda defende combate às importações e ampliação do acesso ao melhoramento genético para pequenos e médios pecuaristas.

Uma das maiores entidades do setor leiteiro do país, a Associação Brasileira dos Criadores de Girolando passa a ser comandada pelo pecuarista e advogado Alexandre Lopes Lacerda. A posse da Diretoria e Conselhos eleitos para o triênio 2026/2028 ocorreu na quinta-feira (26), em Uberaba (MG), e contou com a presença de diversas lideranças do agro e criadores, dentre elas a prefeita de Uberaba Elisa Araújo, os deputados federais Emidinho Madeira e Rafael Simões e o secretário de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento Thales Fernandes.
Entre as prioridades do novo presidente estão: defesa dos direitos dos produtores de leite, incluindo ações para combater a atual crise do leite; facilitar o acesso de pequenos e médios produtores às tecnologias de melhoramento genético e a animais de alta qualidade. “Queremos fortalecer o programa de melhoramento da raça Girolando, o PMGG, desenvolvendo ferramentas para potencializar a utilização das informações genética pelos criadores, permitindo a customização de índices genéticos para cada fazenda e acompanhando a evolução a cada geração. Vamos nos empenhar nesses próximos três anos para que mais e mais produtores adotem essas inovações, visando produzir um Girolando moderno, eficiente e sustentável”, assegura Lacerda.
Durante a solenidade, as lideranças presentes reforçaram a necessidade de unir forças na defesa dos direitos dos produtores rurais. Segundo o deputado Rafael Simões, uma das ações em andamento é para inibir a importação de leite do Uruguai e da Argentina, que vem prejudicando o setor. O secretário de Minas Thales Fernandes disse que o governo mineiro também vem trabalhando para vencer a atual crise do leite e para levar mais tecnologia par ao campo. O deputado Emidinho Madeira destacou a parceria com a Girolando para levar mais genética de qualidade para as pequenas propriedades leiteiras. A prefeita de Uberaba Elisa Araújo assegurou que o agro é importante para a economia da cidade e que vários projetos voltados para a pecuária estão levando mais renda para o campo.
Em seu discurso de despedida, Domício Arruda, que comandou a Girolando na gestão 2023/2025, ressaltou as realizações feitas, dentre elas a construção da Casa do Girolando no Parque Fernando Costa, a aquisição de um terreno para construção de uma nova sede, os dois anos seguidos de recordes nos registros. Segundo ele, a raça chega a 2026 mais consolidada, com várias tecnologias de seleção dentro do PMGG e reconhecida pelo mercado internacional como a genética leiteira ideal para os trópicos.
Com mais de quatro mil associados em todo o país, a Associação de Girolando intensificará este ano ações promocionais para ampliar o consumo de leite na sociedade brasileira. Durante a Megaleite 2026, exposição nacional da raça marcada para junho, a entidade levará o tema “Aqui tem leite”, mostrando que nos mais diversos produtos, como medicamentos, alimentos, suplementos, o leite é utilizado como matéria-prima. “O leite é um produto fundamental no dia a dia das pessoas e precisamos reforçar com informações relevantes suas qualidades para o público em geral, até para combater tantas fake news que existem sobre o alimento”, diz Alexandre Lacerda, que é criador da raça Girolando há duas décadas, na Fazenda Miraí, localizada na região da Serra do Cipó, além de atuar na área de advocacia.
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Lei Complementar eleva custo tributário nas cadeias de leite, café, trigo e soja
Redução linear de 10% nos benefícios fiscais federais altera créditos presumidos, cria pontos de cumulatividade e deve pressionar preços ao consumidor, com impacto também sobre fertilizantes e insumos agropecuários.

A publicação da Lei Complementar 224/2025, que promoveu um corte linear de 10% nos benefícios fiscais federais incidentes sobre diferentes elos do agronegócio, deve elevar custos ao longo das cadeias de leite, café, trigo e soja. A expectativa é de repasse gradual ao consumidor final e de reabertura do debate sobre a cumulatividade de tributos que, até então, operavam sob lógica não cumulativa.

Foto: Gilson Abreu/AEN
Na avaliação da advogada tributarista Cintia Meyer, a nova sistemática tende a gerar efeito cascata. Ao reduzir créditos presumidos e alterar incentivos, a medida amplia o custo tributário em segmentos que já enfrentam compressão de margens, pressionados por custos elevados de produção e preços internacionais deprimidos de commodities.
O Demonstrativo de Gastos Tributários (DGT) que integra a Lei Orçamentária Anual lista cerca de 300 hipóteses de benefícios fiscais, além de outras 14 tratadas especificamente na Lei Complementar 224/2025. Segundo Meyer, empresas que utilizam qualquer desses mecanismos precisarão revisar suas estruturas tributárias. “Se a empresa conta com algum desses benefícios, o impacto pode ser direto no resultado”, afirma.
Como a norma foi sancionada em dezembro, seus efeitos já alcançam o IRPJ e o Imposto de Importação desde 1º de janeiro, em respeito ao princípio da anterioridade. Para PIS, Cofins, IPI, CPS e CSLL, as novas regras passam a valer a partir de 1º de abril, ampliando o alcance da medida ao longo do primeiro semestre.
Leite tem corte em créditos e nova tributação sobre derivados

Foto: Fernando Dias
Na cadeia do leite, a Lei Complementar 224/2025 reduz de forma direta os créditos presumidos concedidos à indústria. Para os laticínios em geral, o percentual cai de 1,85% para 1,67%. Já no caso das empresas enquadradas no Programa Mais Leite Saudável, o crédito passa de 4,63% para 4,17%. Embora se trate de um benefício condicionado à realização de investimentos, o texto legal não explicita se esse mecanismo poderia ser exceção ao corte linear, o que amplia a insegurança jurídica do setor.
Em documento de perguntas e respostas, a Receita Federal informou que a aplicação do benefício deverá ser analisada “caso a caso”, de acordo com a execução dos projetos aprovados no programa, abrindo margem para interpretações distintas e potenciais questionamentos administrativos ou judiciais.
No consumo doméstico, os produtos que integram a cesta básica seguem com alíquota zero. No entanto, itens relevantes do portfólio dos laticínios, como leite fluido, soro de leite, leite fermentado e bebidas lácteas, passam a ser tributados em 0,925% de PIS/Cofins, elevando o custo ao longo da cadeia e pressionando as margens da indústria. As exportações, por força da imunidade constitucional, permanecem isentas de tributação.
Exportações de café têm redução de crédito presumido

Foto: Divulgação/Governo da Bahia
Na cadeia do café, a indústria de torrefação mantém a aplicação de alíquota zero nas vendas internas, por se tratar de produto incluído na cesta básica. A mudança ocorre nas operações de exportação. Com a Lei Complementar 224/2025, houve redução dos créditos presumidos vinculados às vendas externas.
Para o café cru, o crédito presumido sobre a aquisição de insumos recua de 7,4% para 6,66%. Já no café torrado ou solúvel, o percentual calculado sobre a receita de exportação cai de 0,925% para 0,8325%. A diminuição reduz a margem das empresas exportadoras e altera a estrutura de custos em um segmento altamente dependente do mercado internacional.
Trigo concentra efeitos mais sensíveis da mudança
Na cadeia do trigo, os efeitos são distintos e considerados mais sensíveis. Segundo a tributarista, a principal mudança atinge a aquisição do grão destinado à produção de farinha. “A operação, que antes estava sujeita à alíquota zero, passa a ser tributada sem direito a crédito para o comprador. Na prática, trata-se de um tributo não recuperável, incorporado diretamente ao custo de aquisição”, explica Cintia.
Como a farinha é insumo básico para a fabricação de pães, o impacto tende a se propagar ao longo da cadeia, elevando o custo do produto final e pressionando o preço ao consumidor.

Foto: Cleverson Beje
Além da tributação na aquisição do grão, a Lei Complementar 224/2025 também reduziu o crédito presumido de 3,24% para 2,92% para o trigo. “As vendas no mercado interno permanecem inalteradas para os produtos incluídos na cesta básica, como farinha de trigo e pré-mistura para pão, que seguem com alíquota zero. Já os itens fora desse rol, como pré-misturas para bolos, mantêm a tributação anteriormente aplicada”, detalha Cintia.
Para o advogado tributarista Luiz Eduardo Costa Lucas, a alteração cria uma distorção no sistema. Segundo ele, trata-se de um caso em que um produto que operava com alíquota zero passa a gerar incidência tributária no meio da cadeia, sem possibilidade de creditamento. “Na prática, o imposto recolhido não é recuperável, incorpora-se ao custo e reabre a discussão sobre a não cumulatividade, tema debatido desde 2004. O resultado é a transferência do encargo ao consumidor final”, pontua.
Milho tem crédito presumido reduzido ao longo da cadeia

Foto: Fernando Dias/Ascom Seapi
Estrutura semelhante foi adotada na cadeia do milho. Embora os insumos não tenham sido diretamente afetados, o crédito presumido sobre aquisições de pessoas físicas foi reduzido de 3,24% para 2,92%. No óleo de milho, tanto as vendas no mercado interno quanto as exportações tiveram o crédito presumido diminuído, de 2,498% para 2,248, ampliando a pressão sobre as margens do setor.
Óleo de soja perde desoneração e crédito é reduzido
Na cadeia da soja, a aquisição de insumos permanece sem alterações. A mudança ocorre na etapa de comercialização. O óleo de soja, atualmente enquadrado na cesta básica e sujeito à alíquota zero de PIS/Cofins, mas fora do rol previsto na reforma tributária, passará a recolher 0,925% desses tributos.
Além disso, o crédito presumido sobre as vendas de farinha de soja, óleo e resíduos foi reduzido em 10%, caindo de 2,498% para 2,248%, o que comprime as margens ao longo da cadeia.
Fertilizantes passam a ter tributação na entrada e na saída

Foto: Claudio Neves
Impacto mais amplo é observado na indústria de fertilizantes. Insumos agropecuários que até então operavam com alíquota zero de PIS/Cofins passam a ser tributados em 0,925%. O mesmo percentual incidirá sobre as vendas no mercado interno de adubos, defensivos, sementes, mudas e corretivos, que também eram desonerados.
Segundo Cintia, o efeito é cumulativo. “O segmento passa a ser tributado na aquisição, sem direito a crédito, e também na saída. No caso da importação, a indústria de fertilizantes terá de recolher PIS e Cofins sem possibilidade de compensação”, afirma a tributarista.
Na prática, trata-se de um custo adicional incorporado à formação de preços, com potencial de repercussão direta sobre os produtores rurais e, ao final da cadeia, sobre o consumidor.
Insegurança jurídica amplia risco de cumulatividade e judicialização
Diante da ausência de uma lista expressa sobre quais benefícios foram efetivamente alcançados pela Lei Complementar 224/2025, Cintia recomenda uma análise criteriosa caso a caso. Segundo ela, é necessário verificar se o tributo envolvido está entre aqueles abrangidos pela norma, como PIS, PIS-Importação, Cofins, Cofins-Importação, Imposto de Importação (II), IPI, IRPJ, CSLL e CPP.
Além disso, o benefício precisa constar no Demonstrativo de Gastos Tributários da Lei Orçamentária Anual (LOA), enquadrar-se como incentivo fiscal e não se tratar de uma exceção legal específica.

Fonte: Martinelli Advogados
Segundo Cintia, os critérios mencionados não esgotam as possibilidades de enquadramento e a interpretação dependerá, em grande medida, do entendimento adotado pela Receita Federal, aspecto que não está detalhado na Lei Complementar 224/2025. “Há situações que, em tese, não se enquadram, mas a Receita pode interpretar de forma diferente, o que pode gerar discussões amplas e até judicialização”, menciona a advogada.
Por sua vez, Costa Lucas observa que, até o fim do ano passado, não havia preocupação prática em diferenciar, sob a ótica do governo, o que seria benefício fiscal e o que configuraria gasto tributário. Anualmente, a Receita encaminha a relação de gastos, mas a nova regra levanta a dúvida sobre se todos os itens listados podem ser automaticamente classificados como benefícios. “Nem tudo que está ali necessariamente é benefício”, pontua.

Foto: Divulgação/Governo da Bahia
Para ele, é essencial verificar se o item está previsto na Lei Orçamentária Anual (LOA) e, além disso, se efetivamente se caracteriza como incentivo fiscal. Como não há definição legal clara sobre esse enquadramento, forma-se uma zona de incerteza. Costa Lucas destaca que o debate sobre a natureza dessas rubricas estava adormecido e volta agora ao centro da discussão. Na avaliação dele, a redução linear pode atingir mecanismos básicos do sistema, reintroduzindo cumulatividade, especialmente em cadeias do agronegócio.
Na ponta, o impacto tende a alcançar o consumidor. Isso porque o varejo passará a adquirir produtos que sofreram tributação ao longo da cadeia sem possibilidade de crédito. Como o imposto é calculado ‘por dentro’, o custo se incorpora ao preço. Na prática, segundo a tributarista, um modelo concebido como não cumulativo passa a operar com efeitos cumulativos, pressionando o valor final pago pelo consumidor.
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Nelore, o boi que samba
Enredo histórico levou o Nelore ao Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional, colocando a raça no centro da narrativa cultural do país e destacando sua importância para o agronegócio brasileiro.

Há 20 anos, em 28 de fevereiro de 2006, o icônico locutor da apuração do desfile de carnaval de São Paulo, anunciava: a Império de Casa Verde era bicampeã da folia paulistana. A vitória veio com um enredo que se tornou histórico para o agronegócio brasileiro, ao colocar o Nelore no centro da narrativa cultural do país e levá-lo ao Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional.
A presença do Nelore naquela passarela não foi um gesto episódico nem ornamental. Foi a afirmação pública de uma trajetória construída no campo e, já naquela época, profundamente conectada ao desenvolvimento econômico e social do Brasil. Ao ocupar o carnaval, a raça mais representativa da pecuária nacional passou a dialogar diretamente com a sociedade, em um espaço onde o país se reconhece e se expressa culturalmente.

Artigo escrito por Victor Paulo Silva Miranda, presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil – Foto Foto: Divulgação/ACNB
Falar do Nelore é falar da base da pecuária de corte. A raça responde por aproximadamente 80% do rebanho nacional com essa aptidão, sustentando um modelo produtivo adaptado às condições tropicais, baseado majoritariamente em pastagens e responsável por garantir escala, eficiência e regularidade à produção de carne. Trata-se de um estrutural, que sustenta toda a cadeia, mas que muitas vezes foi silencioso. Há mais de 70 anos, a Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB) tem dado “voz” a esses animais, que passaram a “cantar” a partir dos versos da Império, compostos por Rafael, Junior Marques e Carlos Jr.
Ao ganhar visibilidade no carnaval, esse protagonismo deixou de ser restrito ao ambiente técnico e passou a integrar o imaginário coletivo. O Nelore foi apresentado como elo entre passado e presente, entre tradição e ciência, entre cultura e produção. A avenida funcionou como espaço de tradução, permitindo que a pecuária fosse compreendida para além dos números e indicadores. Afinal, “Com o boi Nelore/ A pecuária e a ciência evoluiu/ E hoje é um orgulho nacional/ É saboroso, é divinal, pode aplaudir”.
A imagem do “boi que come capim” sintetiza esse modelo. Longe de ser simplificação, ela expressa um sistema produtivo eficiente, tropical e competitivo, construído com base em seleção genética, adaptação ambiental e trabalho contínuo dos criadores. É esse modelo que permitiu ao Brasil se consolidar como potência na produção de carne bovina, com identidade própria e vantagens comparativas claras.
À época, a equipe da ACNB participou diretamente daquele processo e pôde acompanhar como a linguagem cultural ampliou o alcance dessa história. Em vez de explicações técnicas, o Nelore foi apresentado por meio de símbolos, ritmo e imagem. As gravações estão disponíveis na internet para quem quiser conferir. Nelas, a ciência e o melhoramento genético apareceram traduzidos em narrativa acessível, aproximando o campo da cidade e gerando reconhecimento sobre o papel da pecuária na vida nacional.
Duas décadas depois, em 2026, o significado daquela presença permanece atual. O Nelore segue sendo o alicerce da pecuária brasileira – hoje líder em produção e em exportação –, acompanhando avanços tecnológicos, ganhos de produtividade e novos desafios ligados à sustentabilidade e à comunicação. O que se consolidou foi a consciência de que produzir bem também exige capacidade de diálogo com a sociedade.
O Nelore no carnaval simbolizou essa maturidade. Um boi que sustenta a pecuária nacional, que responde pela maior parte do rebanho de corte brasileiro e que também ocupa o espaço da cultura. Naquela avenida, ficou claro que o Nelore não é apenas base produtiva. É identidade, história e parte viva do Brasil. E, quando preciso, também samba.



