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Palestrante aponta estratégias para maximizar rentabilidade e qualidade na fase de cria

Trouxe uma análise aprofundada das principais oportunidades e desafios enfrentados pelos pecuaristas de cria no Brasil.

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Fotos: Shutterstock

O mercado pecuário de cria, essencial para a sustentabilidade e competitividade da cadeia produtiva da carne bovina, foi tema central da palestra do zootecnista, mestre em Produção Animal e diretor do Instituto Inttegra, Antonio Chaker, durante o 28º Seminário Nacional de Criadores e Pesquisadores, promovido pela Associação Nacional dos Criadores e Pesquisadores (ANCP). O evento, que faz parte da programação da ExpoGenética 2024, foi realizado no dia 16 de agosto, no Parque Fernando Costa, em Uberaba (MG).

Reconhecido por sua expertise na área, Chaker trouxe uma análise aprofundada das principais oportunidades e desafios enfrentados pelos pecuaristas de cria no Brasil. Em um cenário marcado por oscilações de mercado, avanços tecnológicos e impacto ambiental, a palestra apresentou reflexões importantes aos pecuaristas que buscam aprimorar suas estratégias produtivas, garantir rentabilidade e se adaptar às novas demandas do setor.

De acordo com o profissional, a fase de cria é o momento da atividade pecuária com mais oportunidades dentro do sistema de produção. Essa etapa é composta por diversos indicadores, como fertilidade, perda pré-parto e taxas de desmame, cada um oferece oportunidades específicas para melhorias ao longo do ciclo produtivo.

Além disso, o avanço das novas tecnologias, especialmente nos programas de suplementação, inseminação artificial em tempo fixo (IATF), e a crescente oferta de animais com alta qualidade genética, tem potencializado ainda mais o valor do animal na fase de cria. “A fase de cria na pecuária é a que apresenta o maior potencial de rentabilidade. Mesmo durante os períodos de baixa no ciclo pecuário, as fazendas de criação mais eficientes conseguem atingir margens superiores a 30%. Esse desempenho supera ao das outras etapas, como a recria e a terminação, que frequentemente registram margens abaixo de 20%”, ressalta o mestre em Produção Animal.

Zootecnista, mestre em Produção Animal e diretor do Instituto Inttegra, Antonio Chaker: “Hoje, não é incomum encontrar fazendas que desmamem mais de 400 quilos de bezerros por hectare, enquanto a média brasileira atinge em torno de 70 quilos por hectare” – Foto: Fernando Samura

Mercado

A crescente demanda por carne bovina de alta qualidade tem gerado grandes mudanças no mercado de cria, especialmente na valorização dos bezerros. Segundo o zootecnista, essa demanda, além de impulsionar o consumo, também redefine os rumos da produção e da seleção genética na pecuária de corte. “Com o consumidor cada vez mais exigente, a busca por carne de excelência se intensifica, e uma vez que experimentam um produto superior, passam a exigir de forma contínua”, salienta Chaker.

A qualidade da carne é resultado tanto de características genéticas quanto de práticas produtivas. Do ponto de vista produtivo, fatores como a idade ao abate e a consistência no ganho de peso são fundamentais. “Embora os sistemas de terminação sejam determinantes para atingir esses padrões técnicos e produtivos, eles só atingem seu pleno potencial quando os animais já possuem predisposições genéticas desenvolvidas. Características como espessura de gordura subcutânea, marmoreio e área de olho de lombo (AOL) são características que vão conferir a qualidade final da carne”, detalha o zootecnista.
Diante desse cenário, a seleção genética tem se intensificado, com foco em atributos que garantem essa qualidade. Como resultado, a valorização dos bezerros de alto padrão genético está crescendo, se tornando cada vez mais uma exigência do mercado. “Para se manterem competitivos, os criadores precisam direcionar seus esforços para atender a essas demandas, garantindo que seus animais possuam as características desejadas para a produção de carne de excelência”, aponta o especialista.

Sustentabilidade do negócio

A gestão de custos e a sustentabilidade do negócio na pecuária de cria estão mais intimamente ligadas ao modelo produtivo e à eficiência operacional da propriedade do que ao custo dos insumos em si, evidencia o mestre em Produção Animal. Em outras palavras, a saúde econômica de uma propriedade depende muito mais de seu desempenho produtivo do que dos preços dos insumos. “Fazendas que alcançam índices elevados, como mais de 160 quilos de bezerro desmamados por vaca exposta e taxas de desmame superiores a 75%, conseguem estruturar suas finanças de maneira muito mais eficiente do que aquelas com menor produtividade”, salienta.

No sistema de cria, o diferencial da gestão de custos está em atingir altos índices de desempenho mantendo um sistema produtivo focado na produção e colheita de forragens de qualidade. “O equilíbrio entre a gestão de custos e a sustentabilidade depende de práticas produtivas que não apenas reduzem os custos, mas também promovem um uso responsável e eficiente dos recursos disponíveis. Por isso é preciso ter um sistema de produção de elevada eficiência operacional, garantindo que a produtividade seja feita em pastagens de alta qualidade”, pontua Chaker.

Eficiência na produção de bezerros

O especialista afirma que setor vivencia um superciclo tecnológico, marcado pela chegada de inúmeras inovações. A inteligência artificial, a sensorização e as câmeras de monitoramento, por exemplo, já oferecem grandes diferenciais no acompanhamento do desempenho das fazendas. Contudo, o impacto mais profundo vem das práticas de manejo. “Já é amplamente reconhecido que animais manejados de forma adequada, com foco no bem-estar, apresentam um desempenho até 15% superior, devido ao seu comportamento mais calmo”, relata Chaker.

Além disso, a atenção à qualidade da água, à altura de entrada e saída dos animais, ao tamanho dos lotes e aos indicadores de bem-estar – sejam eles nutricionais, sanitários ou reprodutivos – tem sido realizada de maneira cada vez mais tecnológica. “Novos processos reprodutivos estão impulsionando avanços inovadores em eficiência produtiva. Hoje, não é incomum encontrar fazendas que desmamem mais de 400 quilos de bezerros por hectare, enquanto a média brasileira atinge em torno de 70 quilos por hectare”, cita o palestrante, enfatizando: “Esse progresso é resultado não apenas das inovações tecnológicas, mas principalmente da implementação de novas práticas de manejo, alinhadas ao bem-estar animal”.

Planejamento de longo prazo

As mudanças climáticas têm tornado cada vez mais imprevisíveis os ciclos de chuvas e secas em todo o planeta. Dada a alta demanda por alimentos na pecuária, especialmente pastagens, que é o modelo predominante no Brasil, é essencial que o pecuarista esteja bem preparado para enfrentar períodos de seca e veranicos inesperados ou muito prolongados.

Para garantir consistência nos resultados, Chaker diz que é fundamental que o planejamento forrageiro garanta pelo menos 500 quilos de matéria seca armazenada por unidade animal. “Esse estoque proporciona maior segurança durante os períodos mais desafiadores, especialmente em secas prolongadas”, expõe, acrescentando: “Em sistemas com maiores densidades de lotação, é pesado até uma tonelada de matéria seca por unidade animal em fazendas de criação. Ou seja, um planejamento forrageiro de longo prazo é determinante a esse êxito”.

Estratégias para melhorar a qualidade dos bezerros

Chaker destaca que, para aumentar a produtividade e a qualidade dos bezerros, os criadores devem focar em dois indicadores principais: o quilo de bezerro desmamado por matriz exposta e o quilo de bezerro desmamado por hectare.

Conforme o palestrante, para melhorar o primeiro indicador, é importante manter uma alta taxa de desmame e um elevado peso ao desmame, buscando superar 160 quilos de bezerro por vaca exposta. Já o segundo indicador exige não apenas um alto volume de quilos desmamados por matriz, mas também uma alta densidade de matrizes por hectare.

As estratégias para alcançar esses objetivos incluem práticas avançadas de manejo e colheita de forragens, ou seja, excelente manejo de pastagens e estratégias eficazes para a entressafra, além de ter uma estação de montagem bem planejada para que o nascimento dos bezerros ocorra no período ideal para cada bioma, técnica conhecida como bezerro do cedo.

O zootecnista menciona ainda que é importante garantir taxas rápidas de reconcepção para que se possa emprenhar de novo essa vaca o mais rápido possível, e descartar matrizes vazias, que deverão ser comercializadas antes do início da seca. “A combinação de práticas reprodutivas e alimentares eficientes é fundamental para o sucesso na atividade de criação”, frisa.

Sistemas integrados de produção

A integração da pecuária com outras atividades agrícolas, como lavoura e a produção de florestas pode ser mais rentável. De acordo com o Instituto Integra, que monitora 813 propriedades, aquelas que adotam práticas integradas demonstram uma maior capacidade de geração de caixa.

A lavoura pode fornecer uma importante fonte de alimentação durante a entressafra, enquanto as florestas oferecem sombra, promovendo o bem-estar animal. Além disso, a interação entre agricultura e pecuária é mutuamente benéfica: enquanto a agricultura sustenta a pecuária, a pecuária também beneficia a agricultura. Estudos mostram que fazendas de integração lavoura-pecuária têm aumentos na produtividade da soja, com uma média de cinco sacas nas mais áreas em que houve pastejo. Dessa forma, o sistema brasileiro de produção é, sem dúvida nenhuma, potencializado por práticas integradas.

Exigências de mercado

Chaker destaca que os mercados internacionais que importam a carne brasileira frequentemente exigem características específicas, especialmente aqueles que pagam os melhores preços. “Para atender a essas demandas, é essencial que o animal possua uma genética adequada, que garanta a qualidade da carne”, pondera. “É inquestionável que a excelência na cadeia pecuária começa com a produção de bezerros de alta qualidade. Isso exige que os criadores estejam continuamente atentos às necessidades de recria e de terminação para atender às exigências desses mercados”, complementa.

Tendências

O palestrante sugere que para que os criadores que queiram manter a competitividade nos próximos anos, é importante que se concentrem na monetização de seus ativos. Em termos econômicos, existem dois ativos principais a serem considerados: a terra e o gado. Os criadores devem buscar monetizar a terra em pelo menos 4% e o gado em pelo menos 20% ao ano, sugere.
Para alcançar essas metas, é fundamental otimizar a arquitetura do rebanho de cria. Isso significa reduzir a idade da primeira monta e do primeiro parto dentro da fisiologia do animal. “Animais mais jovens no início da reprodução e um desempenho reprodutivo eficiente aumentam a proporção de fêmeas produtivas e melhoram a reprodução geral do rebanho”, enfatiza Chaker.

A grande tendência é maximizar a eficiência do rebanho, garantindo que os ventres em reprodução produzam altos volumes de bezerros por hectare e por matriz exposta. Além disso, a arquitetura dos rebanhos deve ser ajustada para garantir o melhor aproveitamento das categorias de criação, maximizando a produtividade e a rentabilidade. “Além da cria ser a maior oportunidade de rentabilidade na pecuária, é também a atividade de maior potencial de melhora através da seleção genética e do avanço tecnológico. Cada novo ciclo, cada nova safra, se renovam as oportunidades de touros e de encontrar novos indivíduos. Somado a isso, o produtor pode através do melhoramento genético conseguir sistematicamente melhorar seu rebanho ano após ano”, evidencia.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor de bovinocultura de leite e na produção de grãos acesse a versão digital de Bovinos, Grãos e Máquinas, clique aqui. Boa leitura!

Fonte: O Presente Rural

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Governo libera crédito emergencial para cooperativas de leite

Linha do Pronaf garante capital de giro para manter operações e evitar impactos no campo.

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Foto: Isabele Kleim

As cooperativas da agricultura familiar que tenham como atividade principal a produção e o processamento de leite terão acesso temporário a uma linha de crédito para capital de giro. O Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou na quinta-feira (23) a inclusão de cooperativas do segmento em dificuldades financeiras na modalidade de agroindústria do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Na prática, essas cooperativas poderão contratar empréstimos para capital de giro até 30 de junho. Esse dinheiro é usado para manter as atividades do dia a dia, como comprar leite dos produtores, processar os produtos e manter a operação funcionando.

Em nota, o Ministério da Fazenda explicou que a decisão busca apoiar cooperativas que enfrentam dificuldades financeiras no curto prazo, garantindo que continuem operando normalmente. Sem esse apoio, poderia haver atraso nos pagamentos aos produtores, redução da produção e até perda de empregos locais.

Segundo a pasta, essas cooperativas são fundamentais porque:

•    Compram a produção de pequenos agricultores;

•    Processam alimentos, como leite e derivados;

•    Garantem renda para famílias no campo.

Quem pode acessar o crédito

•    A linha é voltada para cooperativas que participam do Pronaf Agroindústria e que comprovem dificuldades para pagar dívidas de curto prazo em 2026.

•    Além disso, elas precisam estar inscritas em programas do governo voltados à gestão e fortalecimento da agricultura familiar, como iniciativas do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar.

•    Os valores podem ser contratados em um ou mais bancos.

Como funciona o financiamento

A medida estabelece condições específicas para os empréstimos:

•    Prazo total: até 6 anos para pagamento;

•    Carência: até 1 ano para começar a pagar o principal;

•    Juros: 8% ao ano;

•    Limite por cooperativa: até R$ 40 milhões;

•    Limite por cooperado: até R$ 90 mil.

Até quando vale

A autorização para contratar esse tipo de crédito vale até 30 de junho de 2026.

O que muda na prática

Com mais acesso a crédito, a expectativa do governo é:

•    Manter a compra da produção dos agricultores;

•    Evitar interrupções nas atividades das cooperativas;

•    Garantir renda para famílias rurais;

•    Preservar empregos no interior;

•    Manter o abastecimento de alimentos.

A medida, informou a Fazenda, funciona como reforço de caixa emergencial, ajudando o setor a atravessar um período de dificuldades sem interromper a produção.

Fonte: Agência Brasil
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Pecuária de Mato Grosso pode recuperar R$ 921 milhões com regularização ambiental

Áreas em regeneração já somam o equivalente a 5,8 mil campos de futebol.

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Foto: Divulgação/Imac

Uma área equivalente a 5.868 campos de futebol está em processo de regeneração ambiental em Mato Grosso, impulsionada pelo Programa de Reinserção e Monitoramento (Prem), do Instituto Mato-grossense da Carne (Imac). Mais do que apenas uma adequação legal, regenerar áreas desmatadas ilegalmente também significa voltar ao mercado.

Apenas nas fazendas monitoradas pelo Prem a projeção é de que R$ 921,2 milhões voltem à cadeia produtiva formal, dinheiro que estava comprometido pois as propriedades estavam proibidas de comercializar seu rebanho, por causa dos passivos ambientais. “Para o setor, o passivo ambiental significa um bloqueio direto à comercialização. Propriedades com desmatamento irregular registrado no sistema Prodes ou com embargos ficam impedidas de vender para frigoríficos que atendem grandes redes varejistas e exportadores, por exemplo. Ao regularizar essas áreas, o Prem reconecta o produtor ao mercado formal”, explica o presidente do Imac, Caio Penido.

Foto: Gabriel Faria

Criado em 2022, o programa apresentou crescimento acelerado. Em quatro anos, saiu de quatro para 167 pecuaristas desbloqueados, avanço que reflete a demanda crescente por regularização e acesso a mercados. Atualmente, o Prem monitora 381.173 hectares, área equivalente a cerca de 2,5 vezes o município de São Paulo, e acompanha a regeneração ativa de 4.190 hectares de vegetação nativa.

Inserido na estratégia mais ampla de sustentabilidade da pecuária mato-grossense, o Prem é a principal ferramenta do Passaporte Verde, política que busca fomentar conformidade socioambiental em toda a cadeia produtiva do Estado. A iniciativa oferece acompanhamento técnico e orientação contínua aos produtores, facilitando o cumprimento da legislação ambiental e a reinserção no mercado formal.

Foto: Arthur Matos

Na prática, o avanço da regeneração também reforça o posicionamento de Mato Grosso no comércio internacional de carne bovina, onde cresce a exigência por produtos mais sustentáveis. “Na prática, a regeneração dessas áreas não só reduz passivos ambientais como também fortalece a imagem de Mato Grosso no cenário internacional. Ao transformar áreas antes irregulares em ativos produtivos, o estado avança em um modelo comprovado, que combina produção e conservação, certamente temos mais biodiversidade que nossos concorrentes”, enfatiza Penido.

O perfil dos produtores que aderiram ao programa também evidencia seu caráter inclusivo. As propriedades de grande porte representam 38,32% dos participantes, seguidas pelas pequenas (34,74%) e médias (26,94%). O dado indica que a regularização ambiental deixou de ser uma pauta restrita a grandes propriedades e passou a alcançar toda a base produtiva, ampliando o alcance econômico e sustentável da pecuária em Mato Grosso.

Fonte: Assessoria Imac
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Braford avança no cruzamento industrial e amplia presença na pecuária de corte

Raça sintética formada por Hereford e zebuínos combina adaptação ao clima tropical, precocidade e qualidade de carcaça, impulsionando sua presença em diferentes regiões do país.

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Fotos: Lucas Nunes

Rusticidade, adaptação ao clima tropical e qualidade de carcaça têm impulsionado o avanço da raça Braford na pecuária brasileira. Composta predominantemente por sangue Hereford e zebuíno, no padrão mais difundido de 5/8 Hereford e 3/8 zebuíno, a raça reúne a adaptabilidade dos bovinos tropicais à precocidade, à docilidade e ao padrão de carcaça das linhagens britânicas. O resultado é um animal que transita com facilidade entre diferentes sistemas de produção e regiões do País.

Médico-veterinário, produtor rural e presidente da Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB), Eduardo de Souza Soares: “O Braford se adaptou aos mais variados ambientes do nosso país. Entrega rentabilidade em sistemas pastoris e também responde muito bem quando inserido em sistemas de confinamento ou de terminação intensiva em cocho”

O médico-veterinário, produtor rural e presidente da Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB), Eduardo de Souza Soares afirma que a versatilidade é a principal marca do Braford. Segundo ele, se trata de um animal de porte moderado, manso e com carcaça alinhada às exigências da exportação. “O Braford se adaptou aos mais variados ambientes do nosso país. Entrega rentabilidade em sistemas pastoris e também responde muito bem quando inserido em sistemas de confinamento ou de terminação intensiva em cocho”, afirma.

Hoje, a raça está presente em praticamente todas as regiões brasileiras, com criadores em Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais e Sergipe, além da forte base da criação na região Sul, especialmente no Rio Grande do Sul.

De acordo com Soares, o Braford ganhou escala por meio do cruzamento industrial com outras raças zebuínas, agregando desempenho produtivo e valorização comercial aos bezerros. A demanda crescente por carne de maior valor agregado tem impulsionado esse movimento. Diante de um consumidor mais exigente e disposto a pagar por qualidade, cresce cada vez mais a procura por animais com genética britânica na composição, reconhecida mundialmente pela maciez e pelo padrão de carcaça. “O mercado hoje paga por qualidade. Os frigoríficos estão buscando cada vez mais animais que entreguem padrão de carcaça e maciez, e isso está diretamente ligado à genética britânica. Quando o produtor usa o Braford no cruzamento, ele aumenta a produtividade e consegue vender seus terneiros e bezerros com maior valor agregado”, atesta o presidente da ABHB.

Melhoramento acelera ganhos produtivos

O crescimento da raça também está associado ao investimento em genética. O programa de melhoramento conduzido pela associação fornece avaliações zootécnicas aos criadores, complementando a seleção visual tradicional. Além disso, a ampla disseminação da transferência de embriões e das fertilizações in vitro acelerou o ganho genético da raça nos últimos anos.

Foto: Divulgação/Fazenda Basso Pancote

Segundo o presidente da ABHB, a combinação de ferramentas reprodutivas e critérios técnicos de seleção elevou o padrão dos rebanhos e contribuiu para consolidar o Braford como alternativa tanto para produção de genética quanto para fornecimento de animais comerciais.

A estratégia se conecta diretamente ao mercado de carne certificada. O Programa Carne Certificada Braford, coordenado pela entidade, foi o primeiro do gênero no Brasil. A proposta é garantir ao consumidor a procedência e a padronização da carne identificada com a marca da raça. “Quando o consumidor reconhece que há certificação e padrão de qualidade dentro da embalagem, a demanda cresce. E isso vem se intensificando nos últimos anos”, salienta Soares.

Modelo de seleção no Rio Grande do Sul

Na prática, a evolução genética da raça pode ser observada em propriedades como a Fazenda Basso Pancotte, em Soledade (RS). O empreendimento iniciou as atividades em 2006, sob comando de Neide Basso e Jair Pancotte, com a proposta de construir um modelo de criação focado em alto desempenho.

De acordo com o médico-veterinário da fazenda, Daniel Borelli, o trabalho começou com a raça Angus e forte investimento em inseminação artificial e transferência de embriões. O desempenho em exposições como a Expointer e a Exposição de Uruguaiana consolidou o foco em melhoramento genético.

Com o tempo, o mercado passou a demandar animais mais adaptáveis a diferentes condições climáticas. Foi nesse contexto que a fazenda incorporou embriões de Brangus e Braford ao plantel. “Nos últimos 10 anos, o salto da raça Braford dentro da propriedade foi muito expressivo”, afirma Borelli.

Segundo ele, a procura por material genético cresceu à medida que os pecuaristas perceberam a versatilidade da raça. Hoje, a fazenda comemora resultados em exposições internacionais e a produção de animais comerciais destinados ao cruzamento industrial.

Manejo e adaptação

Por ser uma raça sintética, resultado da combinação de duas linhagens puras, o Braford herdou características que facilitam o manejo. “A influência zebuína, com contribuição de raças como Brahman, Nelore e Tabapuã ao longo do processo seletivo, garante pelo fino e maior resistência a parasitas em regiões quentes”, ressalta Borelli.

Médico-veterinário da Fazenda Basso Pancotte, Daniel Borelli: “ A influência zebuína, com contribuição de raças como Brahman, Nelore e Tabapuã ao longo do processo seletivo, garante pelo fino e maior resistência a parasitas em regiões quentes” – Foto: Jaqueline Galvão/OP Rural

Ele ainda destaca que o controle de carrapatos, por exemplo, tende a ser mais simples em comparação a raças exclusivamente britânicas. “A docilidade transmitida pelo Hereford também favorece a condução dos animais. Na Fazenda Basso Pancotte, o manejo é realizado a pé, sem registros de problemas de temperamento”, pontua.

A mobilidade do rebanho, aliada à fertilidade e à precocidade de carcaça, completa o conjunto de atributos que têm sustentado a expansão da raça. Para os criadores, se trata de um equilíbrio entre produtividade e adaptação às condições tropicais.

Com presença consolidada no Sul e avanço no Centro-Oeste e no Sudeste, o Braford se firmou como ferramenta estratégica tanto para programas de cruzamento quanto para atender a um mercado que paga mais por carne com origem e padrão definidos. A combinação entre genética, certificação e adaptação ambiental explica o momento favorável da raça no campo brasileiro.

Braford nasce da adaptação ao clima e ganha escala na pecuária brasileira

A formação da Braford no Brasil não foi resultado de um experimento isolado, mas de uma resposta técnica a um problema produtivo. Nos campos do Sul, criadores buscavam um bovino que mantivesse o padrão de carne europeu e, ao mesmo tempo, suportasse calor, radiação solar intensa e pressão de parasitas.

O ponto de partida foi o cruzamento entre Hereford e zebuínos. No fim da década de 1960, nasceram, em Rosário do Sul (RS), na Fazenda Santa Clara, de Rubem Silveira Vasconcelos, os primeiros animais oriundos do acasalamento entre Hereford e Tabapuã. Em Uruguaiana (RS), outros criadores utilizavam inseminação de vacas Hereford com Nelore. As iniciativas tinham motivações convergentes como rusticidade, pigmentação ocular e maior capacidade de adaptação sem abrir mão da qualidade da carcaça.

Inicialmente o resultado do cruzamento que deu origem à raça chegou a ser chamada de Pampiana, ajustado aos campos de basalto da fronteira Oeste gaúcha, onde o verão impõe temperaturas elevadas e luminosidade intensa. A consolidação técnica, porém, exigia padronização.

Foi no início dos anos 1980 que a Associação Brasileira de Hereford e Braford, em parceria com a Embrapa Pecuária Sul, iniciou um trabalho de orientação aos criadores para unificar critérios de formação. Nesse momento, a raça passou a adotar o nome Braford, alinhado ao padrão internacional.

O reconhecimento oficial veio em duas etapas. Em 1993, o Ministério da Agricultura e Pecuária enquadrou a Braford como raça em formação. A oficialização definitiva ocorreu 10 anos depois, com a publicação da Portaria nº 587, de 05 de junho de 2003. A formalização, na prática, consolidou um processo que já estava sedimentado a campo.

A base genética mais difundida se tornou o chamado padrão Mercosul, com 3/8 de sangue zebuíno e 5/8 Hereford. A pelagem conhecida como ‘camiseta’ com corpo vermelho, cara branca e pigmentação ao redor dos olhos, se tornou identidade visual da raça e resposta objetiva à incidência solar.

Do zebuíno, a Braford incorporou rusticidade e resistência a ectoparasitas. Do Hereford, herdou fertilidade, habilidade materna, temperamento e qualidade de carne. A síntese se traduz em carcaças com boa cobertura de gordura e marmoreio, atributo diretamente associado à maciez.

Em sistemas intensivos ou em confinamento, os animais podem ser abatidos entre 14 e 18 meses, com pesos que variam de 380 a 480 quilos, dependendo do manejo alimentar. A precocidade ampliou o uso da raça também no cruzamento industrial, estratégia que impulsionou sua presença para além do Sul.

Hoje, a Associação Brasileira de Hereford e Braford é a certificadora exclusiva de reprodutores e matrizes Braford no país, mantendo controle genealógico e diretrizes de seleção. A raça está distribuída em diferentes regiões brasileiras e avança em mercados externos, sustentando a reputação de carne de qualidade associada à adaptabilidade.

A trajetória da Braford evidencia um movimento clássico da pecuária nacional: a partir da necessidade ambiental, estruturar tecnicamente a solução e, por fim, institucionalizar o modelo produtivo. O que começou como ajuste genético regional tornou-se um ativo estratégico na bovinocultura de corte brasileira.

Á edição também está disponivel na versão digital, com acesso gratuito. Para ler a versão completa online, clique aqui. Boa leitura!

Fonte: O Presente Rural
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