Bovinos / Grãos / Máquinas Da Holanda para o Paraná
Paixão pelo leite reflete em produtividade para a família Dijkstra
Fazenda Frisia está com 560 vacas em lactação, que tem uma produção diária de 20 mil litros de leite

“O meu avô imigrou da Holanda para Carambeí em 1947 e trouxe com ele 40 novilhas e um touro”, sintetiza o
pecuarista Bauke Dijkstra. Foi assim que começou a história da família na pecuária leiteira brasileira. Mas, segundo o pecuarista, a família já estava na atividade ainda na Holanda, muito antes de se mudar para o Brasil. “Nós somos criadores por paixão”, afirma. Desde que se conhece por gente, Dijkstra está no setor leiteiro. Atualmente, a Fazenda Frisia está com 560 vacas em lactação na propriedade, que tem uma produção diária de 20 mil litros de leite. São, aproximadamente, 36 litros por animal ao dia.
O valor é significativo. Dijkstra se considera pequeno produtor, mas entre os maiores da região. Não por menos, uma vez que os Campos Gerais do Paraná são considerados o braço forte da pecuária leiteira estadual e nacional. Para se ter uma ideia, na região estão dois dos três maiores municípios de produção de leite nacional – Castro e Carambeí. Segundo dados do IBGE de 2018, Castro lidera a produção brasileira de leite (292 milhões de litros). Em terceiro lugar está o município de Carambeí (180 milhões de litros).
Mas, mesmo Castro sendo o maior produtor nacional, quando o assunto é Valor Bruto da Produção quem se destaca é Carambeí. De acordo com dados levantados pelo Departamento de Economia Rural do Paraná (Deral), em 2018 o leite representou 31% do VBP do município. A maior representação desse segmento em todo o Estado. A cada R$ 100 movimentado pelo agronegócio, R$ 31 estão diretamente ligados ao leite.
Por causa de toda essa significância, a expedição do jornal O Presente Rural pelo Paraná foi até Carambeí para ouvir essa história que envolve tradição, amor pela pecuária e muita determinação.
De pai para filho
De acordo com Dijkstra, a pecuária leiteira já está na família há gerações. “Meu avô e bisavô eram produtores de leite na Holanda e provavelmente antes deles ainda a atividade já era feita na família”, afirma. Ele explica que a propriedade em que ele está hoje foi o pai dele quem adquiriu, em 1955. “Na época eram somente umas 15 vacas”, conta. “Eu nasci em 1957. Então, nasci e fui criado aqui, e nessa atividade”, diz.
Agora, o pecuarista comenta que pretende transformar a fazenda em uma verdadeira empresa. “Queremos deixar tudo em quotas parte para todos”, explica. Isso porque têm herdeiros que estão diretamente trabalhando na propriedade e outros não. “Tem o Mateus, que é meu genro e administra a parte da pecuária na fazenda. E tenho um filho que trabalha comigo na agricultura, outro que está em uma cooperativa e uma filha que trabalha em uma escola de idiomas junto com a minha esposa”, conta.
Segundo ele, o filho que trabalha na cooperativa já é um investidor da propriedade. “Ele já tem umas quotas partes, já tem gado aqui, mas ele sempre trabalhou fora”, explica. No entanto, informa que todos os investimentos foram feitos na fazenda quando os filhos decidiram que iriam continuar tocando o negócio. “Então decidimos que precisávamos crescer, porque um espaço muito pequeno não comporta quatro pessoas, não é rentável. Nós temos que ganhar bem e sobrar dinheiro para continuar investindo na pecuária”, afirma.
Conforto e qualidade
O segredo para uma boa produção nos quatro barracões da Fazenda Frísia é o conforto e bem-estar oferecido aos animais, sempre. “Aqui trabalhamos com o sistema free stall, mas a cama ao invés de ser com serragem é com areia. Isso garante melhor bem-estar animal, já que a areia é mais fresca para o animal e também tem menos agentes bacterianos do que a serragem”, explica o gerente do setor pecuário da fazenda, Mateus Gonçalves dos Santos. E esta é somente uma pequena parte do conforto que é oferecido para elas. O espaço ainda possui ventiladores e chuveiros para garantir total conforto térmico. “Quando a temperatura está acima de 18°C os ventiladores e os chuveiros ligam”, diz Santos.
Há também, na fazenda, uma segunda sala de espera para as vacas, onde elas ficam antes de entrar na ordenha. “É uma sala de resfriamento, que fica antes da sala de espera da ordenha. Elas ficam ali por aproximadamente 30 minutos recebendo água e vento”, explica. Segundo ele, este é um sistema israelense que é feito na fazenda há poucos meses. “Já vimos bastante resultado, principalmente quanto a reprodução, que é um ponto em que tínhamos bastante dificuldade. Assim, a nossa taxa de concepção melhorou muito. Acreditamos que agora vamos chegar mais preparados para o verão”, especula.
Volume com qualidade
Dessa forma, o caminho que a vaca percorre quando ela sai do barracão é passar pela sala de resfriamento, a de espera, então ela vai para a ordenha e retorna para o barracão. “Simultaneamente ordenhamos 20 vacas por vez. Ela não passa mais do que 50 minutos fora do barracão. Isso também garante melhor conforto para o animal. Ele vem o mais rápido possível, se refresca e volta para o barracão para tomar água, comer e se deitar”, diz. Santos conta que a intenção é em cinco anos ter mil vacas em lactação.
Todo esse conforto reflete na qualidade do leite produzido na fazenda. “Trabalhamos com CBT (Contagem Bacteriana Total) em torno de 10 mil, células somáticas entre 140 e 150 mil, gordura em 3,8 e 3,9%, e proteína entre 3,5 e 3,55%”, informa. “Temos mantido a qualidade do leite, mas isso é resultado de muitos ajustes até conseguirmos chegar nesses números”, comenta.
Investimento no gado, na fazenda e nas pessoas
Dijkstra lembra que quando começou as formas de tirar o leite eram diferentes, assim como todo o estilo de uma propriedade. “Com o passar do tempo foi mudando, do balde para a ordenhadeira mecânica. Houve crises e então nos recuperamos, mas nunca desisti da atividade”, assegura. O pecuarista lembra que anos atrás havia um preço de leite ruim e um comércio de gado bom. “O nosso rebanho era todo registrado. A gente tinha um bom nome como criador. Então a comercialização de gado sempre foi uma válvula de escape boa para compensar épocas de preço ruim ou coisas assim”, conta.
Porém, agora o comércio de gado não é mais tão lucrativo e a produção de leite ficou mais tecnificada. “Antigamente, cada produtor de leite tinha a sua cartilha de como as coisas deveriam ser feitas, o seu modo de fazer. Hoje, temos assistência técnica que é muito boa e métodos de trabalho bons, com protocolos. É outro nível”, comenta. “Hoje funciona tudo com base em controle e planejamento. A rotina está certa”, assegura.
Dijkstra reitera que o pai, assim como toda a família, era criador de gado por paixão. “Ele gostava muito da parte de genética. E isso foi ótimo para nós, porque sempre houve a preocupação com isso aqui na fazenda”, diz. Assim como em outras áreas, com o passar do tempo também houve investimento em quesitos como conforto do gado, qualidade do leite e nutrição. “Hoje, na minha opinião, o que faz toda a diferença em uma produção de leite de qualidade são duas coisas: a qualidade da forrageira que o gado come e o conforto que você oferece para o seu rebanho. Para mim, estes são os dois pilares que diferenciam um produtor do outro”, conta. Claro que outros pontos, como genética, também são essenciais, diz o pecuarista. Mas os dois citados, em sua opinião, fazem toda a diferença.
Além do mais, algo em que a Fazenda tem investido bastante também, é no fator humano. “Isso é o básico, porque tudo aqui é feito por gente. Nós temos que treinar e motivar as pessoas, proporcionar para elas também um conforto, porque elas também precisam estar felizes no trabalho. Esse é o passo principal, as pessoas precisam estar e trabalhar satisfeitas”, assegura. Para garantir isso, Dijkstra oferece treinamentos constantes para os funcionários. “Porque assim você transforma o seu pessoal em co-participantes na tomada de decisões e trabalhos realizados”, conta. “Eles fazem reuniões semanais, com todas as equipes, em que todos falam sobre as anomalias que veem na fazenda. Por exemplo, eles têm um caixa em que anotam e colocam informações sobre alguma coisa que atrapalhou o serviço naquele dia. Isso não é para apontar o dado do que outro deixou de fazer, mas é para a gente ir identificando problemas e facilitando o trabalho de cada um deles e para eles terem o espírito de ir ajudando um ao outro, deixando o trabalho mais alinhado”, conta.
Vacas funcionais
Ao fundo do escritório de Dijkstra, a Reportagem notou alguns troféus de exposições. “Nós paramos de participar”, revela. “Na verdade, isso é um hobbie, eu não vejo como uma fonte de lucro, é um custo. Tem gente que adora ver sua vaca campeã, mas se for reparar bem é um investimento muito grande”, comenta.
Para ele, hoje é preciso que as fazendas tenham o que ele chama de vacas funcionais para produzir. “Precisamos de uma vaca que não seja grande demais, que tenha um tamanho médio, um úbere bom, pernas boas e, de preferência, fértil”, analisa. O pecuarista, que trabalha somente com vacas holandesas, diz que estas características variam bastante de animal para animal, e não é possível contar somente com a raça da vaca para se ter uma boa produção.
Laboratório na fazenda
Outro fator que ajuda bastante na produção da Fazenda Frísia é um pequeno laboratório, chamado SmartLab, que foi desenvolvido pelo professor doutor Marcos Veiga, da FMVZ/USP, especialista em qualidade do leite. “Dependendo do grau da mastite, se você identificar ela certo se for grau 1 ou 2, que não seja tão agressiva para o animal, você coleta o leite, faz uma análise nesse laboratório e em 24 horas ele consegue mostrar o tipo de agente patológico daquela mastite. Assim, dependendo da mastite, não necessariamente precisa tratar com antibiótico”, explica o gerente. Segundo ele, desde que estão usando o pequeno laboratório, há aproximadamente sete meses, já foi possível diminuir em 35% o uso de antibióticos nos animais.
E a diminuição de uso de antibióticos é muito bom, tanto para os animais quanto aos ganhos da fazenda. Segundo Dijkstra, todo o leite da fazenda é entregue para a Cooperativa Frísia. A qualidade da matéria prima é exigida e um dos pontos analisados é justamente a quantidade de antibióticos que há no leite. “Nós perdemos 4,5% dos ganhos se houver antibiótico no leite. Isso é mais que um dia de produção. Se voltar a acontecer no mesmo mês a perda é de 7%, e se acontecer uma terceira vez sobe para 11%”, informa.
Mais do que leite
A produção leiteira é o carro-chefe da fazenda, porém Dijkstra conta com outras atividades na propriedade. Atualmente, além das 560 vacas em lactação, ele ainda planta 1.150 hectares de lavoura e possui três mil suínos em terminação. “A agricultura é boa parte em terras arrendadas, mais ou menos uns 80%. Então eu planto com as máquinas do banco, com os insumos da cooperativa, a mão de obra dos funcionários, o aval do agrônomo e as terras dos vizinhos”, brinca.
Outras notícias você encontra na 8ª edição do Anuário do Agronegócio Paranaense.

Bovinos / Grãos / Máquinas
Nova gestão da Girolando prioriza crise do leite e inovação no campo
À frente da entidade, Alexandre Lacerda defende combate às importações e ampliação do acesso ao melhoramento genético para pequenos e médios pecuaristas.

Uma das maiores entidades do setor leiteiro do país, a Associação Brasileira dos Criadores de Girolando passa a ser comandada pelo pecuarista e advogado Alexandre Lopes Lacerda. A posse da Diretoria e Conselhos eleitos para o triênio 2026/2028 ocorreu na quinta-feira (26), em Uberaba (MG), e contou com a presença de diversas lideranças do agro e criadores, dentre elas a prefeita de Uberaba Elisa Araújo, os deputados federais Emidinho Madeira e Rafael Simões e o secretário de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento Thales Fernandes.
Entre as prioridades do novo presidente estão: defesa dos direitos dos produtores de leite, incluindo ações para combater a atual crise do leite; facilitar o acesso de pequenos e médios produtores às tecnologias de melhoramento genético e a animais de alta qualidade. “Queremos fortalecer o programa de melhoramento da raça Girolando, o PMGG, desenvolvendo ferramentas para potencializar a utilização das informações genética pelos criadores, permitindo a customização de índices genéticos para cada fazenda e acompanhando a evolução a cada geração. Vamos nos empenhar nesses próximos três anos para que mais e mais produtores adotem essas inovações, visando produzir um Girolando moderno, eficiente e sustentável”, assegura Lacerda.
Durante a solenidade, as lideranças presentes reforçaram a necessidade de unir forças na defesa dos direitos dos produtores rurais. Segundo o deputado Rafael Simões, uma das ações em andamento é para inibir a importação de leite do Uruguai e da Argentina, que vem prejudicando o setor. O secretário de Minas Thales Fernandes disse que o governo mineiro também vem trabalhando para vencer a atual crise do leite e para levar mais tecnologia par ao campo. O deputado Emidinho Madeira destacou a parceria com a Girolando para levar mais genética de qualidade para as pequenas propriedades leiteiras. A prefeita de Uberaba Elisa Araújo assegurou que o agro é importante para a economia da cidade e que vários projetos voltados para a pecuária estão levando mais renda para o campo.
Em seu discurso de despedida, Domício Arruda, que comandou a Girolando na gestão 2023/2025, ressaltou as realizações feitas, dentre elas a construção da Casa do Girolando no Parque Fernando Costa, a aquisição de um terreno para construção de uma nova sede, os dois anos seguidos de recordes nos registros. Segundo ele, a raça chega a 2026 mais consolidada, com várias tecnologias de seleção dentro do PMGG e reconhecida pelo mercado internacional como a genética leiteira ideal para os trópicos.
Com mais de quatro mil associados em todo o país, a Associação de Girolando intensificará este ano ações promocionais para ampliar o consumo de leite na sociedade brasileira. Durante a Megaleite 2026, exposição nacional da raça marcada para junho, a entidade levará o tema “Aqui tem leite”, mostrando que nos mais diversos produtos, como medicamentos, alimentos, suplementos, o leite é utilizado como matéria-prima. “O leite é um produto fundamental no dia a dia das pessoas e precisamos reforçar com informações relevantes suas qualidades para o público em geral, até para combater tantas fake news que existem sobre o alimento”, diz Alexandre Lacerda, que é criador da raça Girolando há duas décadas, na Fazenda Miraí, localizada na região da Serra do Cipó, além de atuar na área de advocacia.
Bovinos / Grãos / Máquinas
Lei Complementar eleva custo tributário nas cadeias de leite, café, trigo e soja
Redução linear de 10% nos benefícios fiscais federais altera créditos presumidos, cria pontos de cumulatividade e deve pressionar preços ao consumidor, com impacto também sobre fertilizantes e insumos agropecuários.

A publicação da Lei Complementar 224/2025, que promoveu um corte linear de 10% nos benefícios fiscais federais incidentes sobre diferentes elos do agronegócio, deve elevar custos ao longo das cadeias de leite, café, trigo e soja. A expectativa é de repasse gradual ao consumidor final e de reabertura do debate sobre a cumulatividade de tributos que, até então, operavam sob lógica não cumulativa.

Foto: Gilson Abreu/AEN
Na avaliação da advogada tributarista Cintia Meyer, a nova sistemática tende a gerar efeito cascata. Ao reduzir créditos presumidos e alterar incentivos, a medida amplia o custo tributário em segmentos que já enfrentam compressão de margens, pressionados por custos elevados de produção e preços internacionais deprimidos de commodities.
O Demonstrativo de Gastos Tributários (DGT) que integra a Lei Orçamentária Anual lista cerca de 300 hipóteses de benefícios fiscais, além de outras 14 tratadas especificamente na Lei Complementar 224/2025. Segundo Meyer, empresas que utilizam qualquer desses mecanismos precisarão revisar suas estruturas tributárias. “Se a empresa conta com algum desses benefícios, o impacto pode ser direto no resultado”, afirma.
Como a norma foi sancionada em dezembro, seus efeitos já alcançam o IRPJ e o Imposto de Importação desde 1º de janeiro, em respeito ao princípio da anterioridade. Para PIS, Cofins, IPI, CPS e CSLL, as novas regras passam a valer a partir de 1º de abril, ampliando o alcance da medida ao longo do primeiro semestre.
Leite tem corte em créditos e nova tributação sobre derivados

Foto: Fernando Dias
Na cadeia do leite, a Lei Complementar 224/2025 reduz de forma direta os créditos presumidos concedidos à indústria. Para os laticínios em geral, o percentual cai de 1,85% para 1,67%. Já no caso das empresas enquadradas no Programa Mais Leite Saudável, o crédito passa de 4,63% para 4,17%. Embora se trate de um benefício condicionado à realização de investimentos, o texto legal não explicita se esse mecanismo poderia ser exceção ao corte linear, o que amplia a insegurança jurídica do setor.
Em documento de perguntas e respostas, a Receita Federal informou que a aplicação do benefício deverá ser analisada “caso a caso”, de acordo com a execução dos projetos aprovados no programa, abrindo margem para interpretações distintas e potenciais questionamentos administrativos ou judiciais.
No consumo doméstico, os produtos que integram a cesta básica seguem com alíquota zero. No entanto, itens relevantes do portfólio dos laticínios, como leite fluido, soro de leite, leite fermentado e bebidas lácteas, passam a ser tributados em 0,925% de PIS/Cofins, elevando o custo ao longo da cadeia e pressionando as margens da indústria. As exportações, por força da imunidade constitucional, permanecem isentas de tributação.
Exportações de café têm redução de crédito presumido

Foto: Divulgação/Governo da Bahia
Na cadeia do café, a indústria de torrefação mantém a aplicação de alíquota zero nas vendas internas, por se tratar de produto incluído na cesta básica. A mudança ocorre nas operações de exportação. Com a Lei Complementar 224/2025, houve redução dos créditos presumidos vinculados às vendas externas.
Para o café cru, o crédito presumido sobre a aquisição de insumos recua de 7,4% para 6,66%. Já no café torrado ou solúvel, o percentual calculado sobre a receita de exportação cai de 0,925% para 0,8325%. A diminuição reduz a margem das empresas exportadoras e altera a estrutura de custos em um segmento altamente dependente do mercado internacional.
Trigo concentra efeitos mais sensíveis da mudança
Na cadeia do trigo, os efeitos são distintos e considerados mais sensíveis. Segundo a tributarista, a principal mudança atinge a aquisição do grão destinado à produção de farinha. “A operação, que antes estava sujeita à alíquota zero, passa a ser tributada sem direito a crédito para o comprador. Na prática, trata-se de um tributo não recuperável, incorporado diretamente ao custo de aquisição”, explica Cintia.
Como a farinha é insumo básico para a fabricação de pães, o impacto tende a se propagar ao longo da cadeia, elevando o custo do produto final e pressionando o preço ao consumidor.

Foto: Cleverson Beje
Além da tributação na aquisição do grão, a Lei Complementar 224/2025 também reduziu o crédito presumido de 3,24% para 2,92% para o trigo. “As vendas no mercado interno permanecem inalteradas para os produtos incluídos na cesta básica, como farinha de trigo e pré-mistura para pão, que seguem com alíquota zero. Já os itens fora desse rol, como pré-misturas para bolos, mantêm a tributação anteriormente aplicada”, detalha Cintia.
Para o advogado tributarista Luiz Eduardo Costa Lucas, a alteração cria uma distorção no sistema. Segundo ele, trata-se de um caso em que um produto que operava com alíquota zero passa a gerar incidência tributária no meio da cadeia, sem possibilidade de creditamento. “Na prática, o imposto recolhido não é recuperável, incorpora-se ao custo e reabre a discussão sobre a não cumulatividade, tema debatido desde 2004. O resultado é a transferência do encargo ao consumidor final”, pontua.
Milho tem crédito presumido reduzido ao longo da cadeia

Foto: Fernando Dias/Ascom Seapi
Estrutura semelhante foi adotada na cadeia do milho. Embora os insumos não tenham sido diretamente afetados, o crédito presumido sobre aquisições de pessoas físicas foi reduzido de 3,24% para 2,92%. No óleo de milho, tanto as vendas no mercado interno quanto as exportações tiveram o crédito presumido diminuído, de 2,498% para 2,248, ampliando a pressão sobre as margens do setor.
Óleo de soja perde desoneração e crédito é reduzido
Na cadeia da soja, a aquisição de insumos permanece sem alterações. A mudança ocorre na etapa de comercialização. O óleo de soja, atualmente enquadrado na cesta básica e sujeito à alíquota zero de PIS/Cofins, mas fora do rol previsto na reforma tributária, passará a recolher 0,925% desses tributos.
Além disso, o crédito presumido sobre as vendas de farinha de soja, óleo e resíduos foi reduzido em 10%, caindo de 2,498% para 2,248%, o que comprime as margens ao longo da cadeia.
Fertilizantes passam a ter tributação na entrada e na saída

Foto: Claudio Neves
Impacto mais amplo é observado na indústria de fertilizantes. Insumos agropecuários que até então operavam com alíquota zero de PIS/Cofins passam a ser tributados em 0,925%. O mesmo percentual incidirá sobre as vendas no mercado interno de adubos, defensivos, sementes, mudas e corretivos, que também eram desonerados.
Segundo Cintia, o efeito é cumulativo. “O segmento passa a ser tributado na aquisição, sem direito a crédito, e também na saída. No caso da importação, a indústria de fertilizantes terá de recolher PIS e Cofins sem possibilidade de compensação”, afirma a tributarista.
Na prática, trata-se de um custo adicional incorporado à formação de preços, com potencial de repercussão direta sobre os produtores rurais e, ao final da cadeia, sobre o consumidor.
Insegurança jurídica amplia risco de cumulatividade e judicialização
Diante da ausência de uma lista expressa sobre quais benefícios foram efetivamente alcançados pela Lei Complementar 224/2025, Cintia recomenda uma análise criteriosa caso a caso. Segundo ela, é necessário verificar se o tributo envolvido está entre aqueles abrangidos pela norma, como PIS, PIS-Importação, Cofins, Cofins-Importação, Imposto de Importação (II), IPI, IRPJ, CSLL e CPP.
Além disso, o benefício precisa constar no Demonstrativo de Gastos Tributários da Lei Orçamentária Anual (LOA), enquadrar-se como incentivo fiscal e não se tratar de uma exceção legal específica.

Fonte: Martinelli Advogados
Segundo Cintia, os critérios mencionados não esgotam as possibilidades de enquadramento e a interpretação dependerá, em grande medida, do entendimento adotado pela Receita Federal, aspecto que não está detalhado na Lei Complementar 224/2025. “Há situações que, em tese, não se enquadram, mas a Receita pode interpretar de forma diferente, o que pode gerar discussões amplas e até judicialização”, menciona a advogada.
Por sua vez, Costa Lucas observa que, até o fim do ano passado, não havia preocupação prática em diferenciar, sob a ótica do governo, o que seria benefício fiscal e o que configuraria gasto tributário. Anualmente, a Receita encaminha a relação de gastos, mas a nova regra levanta a dúvida sobre se todos os itens listados podem ser automaticamente classificados como benefícios. “Nem tudo que está ali necessariamente é benefício”, pontua.

Foto: Divulgação/Governo da Bahia
Para ele, é essencial verificar se o item está previsto na Lei Orçamentária Anual (LOA) e, além disso, se efetivamente se caracteriza como incentivo fiscal. Como não há definição legal clara sobre esse enquadramento, forma-se uma zona de incerteza. Costa Lucas destaca que o debate sobre a natureza dessas rubricas estava adormecido e volta agora ao centro da discussão. Na avaliação dele, a redução linear pode atingir mecanismos básicos do sistema, reintroduzindo cumulatividade, especialmente em cadeias do agronegócio.
Na ponta, o impacto tende a alcançar o consumidor. Isso porque o varejo passará a adquirir produtos que sofreram tributação ao longo da cadeia sem possibilidade de crédito. Como o imposto é calculado ‘por dentro’, o custo se incorpora ao preço. Na prática, segundo a tributarista, um modelo concebido como não cumulativo passa a operar com efeitos cumulativos, pressionando o valor final pago pelo consumidor.
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Nelore, o boi que samba
Enredo histórico levou o Nelore ao Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional, colocando a raça no centro da narrativa cultural do país e destacando sua importância para o agronegócio brasileiro.

Há 20 anos, em 28 de fevereiro de 2006, o icônico locutor da apuração do desfile de carnaval de São Paulo, anunciava: a Império de Casa Verde era bicampeã da folia paulistana. A vitória veio com um enredo que se tornou histórico para o agronegócio brasileiro, ao colocar o Nelore no centro da narrativa cultural do país e levá-lo ao Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional.
A presença do Nelore naquela passarela não foi um gesto episódico nem ornamental. Foi a afirmação pública de uma trajetória construída no campo e, já naquela época, profundamente conectada ao desenvolvimento econômico e social do Brasil. Ao ocupar o carnaval, a raça mais representativa da pecuária nacional passou a dialogar diretamente com a sociedade, em um espaço onde o país se reconhece e se expressa culturalmente.

Artigo escrito por Victor Paulo Silva Miranda, presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil – Foto Foto: Divulgação/ACNB
Falar do Nelore é falar da base da pecuária de corte. A raça responde por aproximadamente 80% do rebanho nacional com essa aptidão, sustentando um modelo produtivo adaptado às condições tropicais, baseado majoritariamente em pastagens e responsável por garantir escala, eficiência e regularidade à produção de carne. Trata-se de um estrutural, que sustenta toda a cadeia, mas que muitas vezes foi silencioso. Há mais de 70 anos, a Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB) tem dado “voz” a esses animais, que passaram a “cantar” a partir dos versos da Império, compostos por Rafael, Junior Marques e Carlos Jr.
Ao ganhar visibilidade no carnaval, esse protagonismo deixou de ser restrito ao ambiente técnico e passou a integrar o imaginário coletivo. O Nelore foi apresentado como elo entre passado e presente, entre tradição e ciência, entre cultura e produção. A avenida funcionou como espaço de tradução, permitindo que a pecuária fosse compreendida para além dos números e indicadores. Afinal, “Com o boi Nelore/ A pecuária e a ciência evoluiu/ E hoje é um orgulho nacional/ É saboroso, é divinal, pode aplaudir”.
A imagem do “boi que come capim” sintetiza esse modelo. Longe de ser simplificação, ela expressa um sistema produtivo eficiente, tropical e competitivo, construído com base em seleção genética, adaptação ambiental e trabalho contínuo dos criadores. É esse modelo que permitiu ao Brasil se consolidar como potência na produção de carne bovina, com identidade própria e vantagens comparativas claras.
À época, a equipe da ACNB participou diretamente daquele processo e pôde acompanhar como a linguagem cultural ampliou o alcance dessa história. Em vez de explicações técnicas, o Nelore foi apresentado por meio de símbolos, ritmo e imagem. As gravações estão disponíveis na internet para quem quiser conferir. Nelas, a ciência e o melhoramento genético apareceram traduzidos em narrativa acessível, aproximando o campo da cidade e gerando reconhecimento sobre o papel da pecuária na vida nacional.
Duas décadas depois, em 2026, o significado daquela presença permanece atual. O Nelore segue sendo o alicerce da pecuária brasileira – hoje líder em produção e em exportação –, acompanhando avanços tecnológicos, ganhos de produtividade e novos desafios ligados à sustentabilidade e à comunicação. O que se consolidou foi a consciência de que produzir bem também exige capacidade de diálogo com a sociedade.
O Nelore no carnaval simbolizou essa maturidade. Um boi que sustenta a pecuária nacional, que responde pela maior parte do rebanho de corte brasileiro e que também ocupa o espaço da cultura. Naquela avenida, ficou claro que o Nelore não é apenas base produtiva. É identidade, história e parte viva do Brasil. E, quando preciso, também samba.



