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Oferta e demanda internacionais de grãos coloca mercado em alerta
Relação estreita entre oferta e demanda globais tensiona relações comerciais, sustentando altos preços das commodities e aumento dos custos para o setor de proteína animal

Os altos preços dos grãos, principalmente soja e milho, no mercado internacional refletem a relação – já um tanto estreita – entre oferta e demanda no Brasil e no mundo. Com os estoques globais dessas commodities em baixa por conta da queda na produção e produtividade das lavouras em função de adversidades climáticas e do aumento do consumo mundial, o setor tem convivido com uma certa tensão. Essa linha tênue entre oferta e demanda, que não deve mudar no curto prazo, impacta nos custos de produção das proteínas animais e na sustentação das cotações no cenário global.
Neste contexto, os Estados Unidos ocupam um papel primordial, visto que o baixo volume dos estoques de soja no país vem causando maior tensão no mercado e explica as altas significativas na Bolsa de Chicago. Dados do boletim do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda), divulgado em abril, apontam que os estoques norte-americanos estão em 3,3 milhões de toneladas – redução de mais de 80%, se comparado aos 17 milhões de toneladas de agosto do ano passado.
Do outro lado está a China que, em 2020, concentrou o apetite pela soja norte-americana – mesmo porque o Brasil praticamente não tinha mais o grão disponível no segundo semestre do ano. Desde o surto de Peste Suína Africana (PSA), o país asiático precisou fazer robustos investimentos na reconstrução do seu rebanho, o que levou a uma dinâmica de compra mais agressiva nos mercados de soja e de milho.
O interesse chinês pela importação do cereal, no entanto, é um fator inédito. Até então, o país não possuía um histórico de compras de milho em grandes volumes – somente neste ano, foram negociadas quase 30 milhões de toneladas, sendo a maior parte proveniente dos EUA. Isso também derrubou os estoques norte-americanos do cereal para 34,3 milhões de toneladas – em agosto de 2020, eram 70 milhões.
“A relação entre estoque final e consumo mundial é a mais baixa das últimas sete safras para o milho e para a soja. Diante disso, os preços destas commodities permanecem como um importante fator de suporte para este ano. Vale ressaltar que 69% do estoque mundial de milho e 34% de soja estão na China”, afirma a técnica do Departamento Técnico e Econômico (DTE) da FAEP, Ana Paula Kowalski.
Oleaginosa
A quebra da safra 2019/20 nos EUA foi um dos principais fatores que levaram à redução dos estoques da oleaginosa e que, diante do papel significativo dos norte-americanos, impactou na oferta mundial. “Tempestades em Iowa e em parte de Illinois em agosto do ano passado, com ventos de até 240 quilômetros por hora, trouxeram uma quebra quase inédita para a safra norte-americana, principalmente porque o milho e a soja já estavam praticamente prontos para a colheita”, relembra Paulo Molinari, analista da consultoria Safras&Mercado.
O resultado, em relação às projeções iniciais, foi uma produção menor em 10 milhões de toneladas de soja e em quase 20 milhões de toneladas de milho. Com isso, o estoque norte-americano da oleaginosa, que era de 15 milhões de toneladas, foi reduzido a um terço.
Segundo Ana Luiza Lodi, analista de inteligência de mercado da consultoria StoneX, enquanto a China investe para reconstruir seu rebanho suíno, outros países também ampliam as importações da oleaginosa, o que contribuiu para o aumento da procura pelo grão. A explicação pode estar na retomada da economia mundial após a crise ocasionada pela pandemia do coronavírus, com o avanço da vacinação em muitos países.
“A China acabou reforçando a produção de outras proteínas, principalmente quando o rebanho suíno estava mais curto. Além disso, vemos outros países elevando as importações de grãos, diante das perspectivas positivas de demandas por proteínas animais ao redor do mundo e o crescimento do setor de biocombustíveis”, aponta Ana Luiza.
A chegada de uma nova safra da América do Sul deve ser suficiente para abastecer o mercado de soja até a entrada da próxima safra norte-americana, a partir de outubro de 2021. A estimativa de produção brasileira do grão na safra 2020/21 é recorde, de 136 milhões de toneladas – superior aos 129 milhões da temporada 2019/20.
“A chave do mercado internacional é essa safra norte-americana, mas depende do clima. Só que agora há uma tensão maior porque os estoques norte-americanos já estão muito baixos”, observa Molinari.
Do ponto de vista do mercado brasileiro, segundo o superintendente de inteligência e gestão da oferta da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Allan Silveira, a expectativa é de que produção nacional alivie a pressão sobre a oferta doméstica. “Passamos por um estoque muito apertado, principalmente no final de 2020. Foi suficiente para o abastecimento do mercado interno, mas teve essa disparada de preços no cenário internacional. A perspectiva, até o fim deste ano, é de que os estoques estejam maiores em relação a 2020”, pontua.
Cereal
Apesar das boas expectativas para o Brasil em relação à colheita de soja, as adversidades climáticas podem interferir na oferta de milho. Em 2020, houve atrasos no plantio da oleaginosa em diversas regiões devido à escassez de chuvas. Essa estiagem estreitou a janela de semeadura do milho safrinha e, consequentemente, deixou a cultura suscetível aos riscos climáticos. Ainda, a demanda interna robusta e o aumento das exportações ao longo de 2020 pressionaram os estoques brasileiros.
Neste caso, o câmbio favorável associado às altas cotações de Chicago impulsionaram as vendas externas, deixando a oferta interna ainda mais reduzida. “Há um atrativo para vender para fora. Além disso, especificamente no Paraná, houve uma das piores secas no último ano, o que reduziu o número de pastagens e, consequentemente, aumentou o consumo de ração”, explica Turra.
Segundo a Conab, os estoques brasileiros de milho se mantêm apertados até maio, mas a safrinha deve suprir a necessidade do mercado interno, com uma produção total das safras do cereal em 109 milhões de toneladas – 6,4% a mais que as 102 milhões da safra passada.
No cenário global, por outro lado, há uma disparada no consumo de milho, com a China adicionando uma demanda de 30 milhões de toneladas somente nos primeiros meses de 2021, reduzindo os estoques norte-americanos. Apesar das expectativas em torno da recuperação do rebanho chinês, há incertezas sobre a manutenção desta demanda até a entrada da nova safra chinesa em outubro.
“Devido à demanda da China, criou- -se um ambiente de pressão em cima da safra norte-americana, porque não se sabe se o país vai continuar comprando milho nessa proporção. Mas, com os preços atuais, a tendência é que o agricultor norte-americano plante o máximo de milho que puder”, salienta Molinari, da Safras&Mercado.
Ainda, as políticas favoráveis do presidente dos EUA, Joe Biden, em relação aos biocombustíveis, são mais um indicativo do aumento da demanda norte- -americana por grãos, principalmente milho. Segundo o Usda, as estimativas de uso do cereal da safra 2020/21 para a produção de etanol são de 126,37 milhões de toneladas.
Planejamento e tecnologia são aliadas na hora de produzir
A oferta reduzida de grãos é um fator que gera preocupação para o setor. No entanto, especialistas garantem que as chances de escassez no mercado interno são quase nulas. Isso porque, além de ser um movimento sazonal, o Brasil, em destaque o Paraná, investe em tecnologia para modernizar os sistemas de produção e aumentar a produtividade.
“Temos grandes investimentos em agricultura 4.0, uma extensão rural e uma assistência técnica bem especializadas para garantir boa produtividade. Ainda, existem pesquisas sendo desenvolvidas com excelentes resultados”, elenca Salatiel Turra, chefe do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Paraná (Seab).
Diante deste cenário influenciado por tantos agentes, a recomendação para o produtor rural, principalmente o autônomo, é o planejamento estratégico e a realização de compras antecipadas. “Aqueles que conseguem se programar com contrato futuros tendem a ter uma margem de lucro mais elevada e garantir uma rentabilidade”, destaca Turra.
Segundo o analista da StoneX João Pedro Lopes, o pecuarista que deixar as compras dos insumos para o início do confinamento vai pagar preços elevados, principalmente com o dólar em alta. “Isso pode impactar ainda mais nos custos da produção e, dependendo, até desestimular a criação de animais confinados em produção intensiva”, analisa.
Incerteza nos grãos tira o sono dos pecuaristas
Os estoques apertados e os altos preços dos grãos, combinados à significativa perda de força do real frente ao dólar, impactam diretamente a cadeia de proteína animal brasileira. Se por um lado o aumento dos custos de produção e a redução da oferta interna de grãos preocupam os produtores, por outro, a demanda internacional pela carne brasileira fica aquecida.
“Quando internalizamos os preços em dólar no mercado brasileiro, o custo da ração fica bastante elevado. Então, há esse processo que faz com que os preços das carnes subam. Ainda, temos uma demanda elevada, fazendo a carne brasileira despontar como alternativa e a remuneração da exportação compensar mais”, analisa Ana Luiza Lodi, da StoneX.
Apesar do forte início da reconstituição do rebanho chinês em 2020, a preocupação com uma segunda onda de PSA causa incertezas no mercado. “O cenário de uma demanda forte tem contribuído para a sustentação dos preços altos, mas o papel da China é muito grande e a gente tem que acompanhar essa questão da doença. Qualquer alteração na China pode causar um impacto global”, alerta.
Em relação à carne bovina, o mercado está num movimento de alta desde 2019, em que a disponibilidade de animais para abate reduziu significativamente no Brasil. “O ano de 2020 foi bastante pautado por essa situação e 2021 deve ser igual. A oferta de gado é pequena, o que dá suporte aos preços. Por outro lado, a demanda por carne bovina caiu por causa do encarecimento substituída por proteínas mais baratas, como frango, porco e ovos”, salienta o analista João Pedro Lopes, da StoneX.
Para 2021, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) estima o crescimento de cerca de 5% da produção e do consumo de frangos e de ovos. Esse movimento é pautado, principalmente, pelos altos patamares do preço da carne vermelha e a diminuição do poder de compra do consumidor brasileiro.
Apesar das projeções da safra 2020/21 no Brasil serem positivas, principalmente de milho safrinha, aliviando a oferta apertada no mercado interno a partir do segundo semestre, o setor de carnes não descarta as preocupações em relação aos altos preços dos grãos.
Segundo o presidente da ABPA, Ricardo Santin, o câmbio elevado tem influenciado as decisões de retenção de especuladores, que impulsionam custos e inflação ao consumidor. Na avaliação da entidade, uma eventual desaceleração da produção de proteína animal pode impactar a demanda interna. “O custo dos grãos aumentou mais de 60% em relação ao ano passado, em algumas praças, essa alta é superior a 100%. Diversas indústrias de aves estão operando no limite da viabilidade econômica, e há relatos de diversas empresas que estão reduzindo a produção para enfrentar o período”, relata.
“Temos apresentado solicitações ao Mapa [Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento] para ampliação de nossa capacidade de armazenamento e instalação de armazéns, implantação de dispositivos de previsibilidade de oferta de insumos e outras medidas, como a facilitação da importação de grãos extra-Mercosul”, complementa Santin.
Em contrapartida, no cenário externo, a China ainda representa uma oportunidade para as proteínas animais brasileiras. Segundo análise do chefe do Deral, Salatiel Turra, o Paraná deve se destacar nesse cenário a partir do reconhecimento de área livre de febre aftosa sem vacinação pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), em maio de 2021. “Isso vai abrir muitos mercados para o Paraná”, aponta.

Notícias Maior zona de livre comércio do mundo
Acordo UE–Mercosul reforça protagonismo do Brasil no comércio internacional
Após 25 anos de negociações, tratado reforça liderança brasileira no bloco sul-americano e amplia acesso a um dos maiores mercados do mundo.

Ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet: ” O Acordo Mercosul-União Europeia é um dos movimentos econômicos mais relevantes das últimas décadas para o Brasil e para o Mercosul. Vai combinar crescimento econômico, emprego e renda com sustentabilidade, tecnologia e inovação” – Foto: Andressa Anholete/Agência Senado
Pelas redes sociais, o presidente Lula afirmou ser uma vitória do diálogo. “Uma vitória do diálogo, da negociação e da aposta na cooperação e na integração entre os países e blocos”, afirmou.
Lula destacou que o acordo, além de trazer benefícios para os dois blocos, é uma sinalização em favor do comércio internacional. O presidente brasileiro foi atuante na costura desse acordo e tentou finalizá-lo no final do ano passado, quando o Brasil presidia o bloco sul-americano. Para Lula, o acordo entre Mercosul e União Europeia era uma prioridade.
O Parlamento Europeu também precisará aprovar o acordo para que ele possa entrar em vigor.
Notícias
Dia de Campo da Copacol conecta pesquisa, manejo e mercado ao produtor
Estudos do CPA mostraram, na prática, soluções para solo, soja e milho, além de análises de mercado para apoiar a tomada de decisão do produtor.

Com o objetivo de potencializar a produção e preparar cada vez mais os cooperados, o 35° Dia de Campo de Verão Copacol apresentou estudos exclusivos realizados pelo CPA (Centro de Pesquisa Agrícola), e contou com a participação de 1,5 mil visitantes. “É muito bom receber nossos cooperados para compartilhar novidades e apresentar tecnologias que, se aplicadas nas propriedades, trarão uma melhor produtividade. Além de preparar nossos cooperados para bons resultados no campo, aqui também queremos trazer uma visão comercial, afinal, essas duas coisas precisam estar alinhadas na busca de melhores resultados”, afirma o diretor-presidente, Valter Pitol.

Cooperados que já acompanham de perto o trabalho do CPA garantem que eventos como esse fazem a diferença, como comenta o produtor de Joetaesse, Cássio Henrique Moeller. “O CPA sempre nos ajuda a alcançar melhores resultados e potencializar nossa produtividade e eventos como o Dia de Campo agregam muito conhecimento e traz novidades que nos ajudam a crescer nas propriedades”.
Além da presença dos cooperados e cooperadas, colaboradores e pesquisadores do CPA, o secretário de Agricultura e Abastecimento do Paraná, Márcio Nunes, também prestigiou o evento. “A Copacol é uma das cooperativas mais importantes do mundo com produtos exportados para muitos países. E ela faz um trabalho sensacional com os produtores, um exemplo é esse Dia de Campo. A Copacol treina, adapta e coloca o produtor em situações de competitividade, tudo isso visando a melhoria da qualidade de vida através do aumento da renda do produtor, estimulando que as famílias fiquem no campo”, completa o secretário.
Na prática
Um dos assuntos abordados nas palestras em campo foi a compactação do solo e seus feitos sobre o sistema de produção. Essa compactação consiste na incapacidade de o solo absorver a água, o que muitas vezes pode gerar o aumento da umidade na superfície, tornando o ambiente propício para o desenvolvimento de doenças. “Nós utilizamos o método Dres [Diagnóstico rápido de estrutura de solo] onde podemos avaliar o nível de compactação do solo para saber qual técnica deve ser aplicada em cada propriedade, seja com plantas de cobertura, ou utilização de maquinários. É um processo muito importante, que impacta diretamente no desenvolvimento das culturas e na produtividade delas”, explica o engenheiro agrônomo e pesquisador do CPA, Andrei Regis Sulzbach.

Para cooperado de Jesuítas, Renato da Silva Tonelli, é importante acompanhar o trabalho do CPA, e saber que problemas que eles enfrentam no dia a dia, já estão sendo estudados e soluções já podem ser aplicadas na propriedade. “No último ano tivemos problema com relação a compactação de solo, e hoje vi que há um trabalho de pesquisa já sendo feito para desenvolver novas formas de manejo, melhorar nossas condições e minimizar esses problemas que nós que vivemos do campo temos”, comenta o cooperado.
Outro assunto que chamou atenção dos participantes foi o painel de cultivares de soja recomendadas pelo CPA, que são apresentadas com duas datas de semeadura, adubação em quantidades de acordo com a época e orientação de acordo com a região plantada, também foram apresentados manejos de doença e controle de pragas. “Apresentamos um demonstrativo com as épocas de semeadura diferentes com o mesmo manejo, onde fica visível a diferença de comportamento de cada planta, para mostrar a importância de se atentar as recomendações do CPA, de acordo com testes feitos na prática”, conta o engenheiro agrônomo André Luiz Borsoi.
Para o cooperado Lucas Antunes Jasper, de Cafelândia, essa é uma oportunidade imperdível para quem produz no campo. “Aqui no evento podemos ver o comparativo das cultivares que depois vamos levar para dentro das nossas lavouras. Conseguimos ver lado a lado todos os testes e tudo fica bem claro para nós. O CPA consegue nos orientar sobre os melhores manejos e isso faz com a que ganhemos tempo e estejamos sempre a frente com a nossa produtividade”, comenta o produtor.
Além disso, também foram apresentados resultados sobre plantas daninhas: o custo oculto no sistema de produção; milho safrinha: os desafios para altas produtividades e manejo de doenças da soja: estratégias de aplicação para preservar o potencial produtivo.
Comercialização
O mercado também faz parte do processo produtivo, e entender como e quando comercializar os grãos, é fundamental para o cooperado. Pensando nisso, a abertura do Dia de Campo contou com uma palestra sobre tendências no mercado de commodities, com o consultor da StoneX Brasil, Étore Baroni. “O objetivo é trazer mais informações para os cooperados. São muitos fatores que influenciam nos preços, então, é preciso preparar o produtor para aproveitar as melhores oportunidades ao longo do ano. Tivemos mudanças muito fortes nos preços nos últimos anos e o CPA consegue trazer esse ganho de produtividade contínua. Por isso, é preciso alinhar a produtividade boa, com níveis de preços bons, mantendo uma rentabilidade para o produtor”, completa o consultor.
Notícias Maior zona de livre comércio do mundo
Proteínas animais ganham novas oportunidades com acordo UE-Mercosul, celebra ABPA
Entidade vê avanço em previsibilidade comercial e reforço do Brasil como fornecedor global, com impactos graduais e cotas bem delimitadas para aves, suínos e ovos

Após mais de duas décadas de negociações e sucessivos impasses políticos, a confirmação do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia começa a ser destrinchada. Para a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o entendimento representa um avanço relevante em previsibilidade comercial e no fortalecimento das relações entre os dois blocos, com efeitos graduais e tecnicamente delimitados para a cadeia de proteínas animais.

Foto: Jonathan Campos
Em nota setorial, a entidade destaca que o acordo é resultado de um processo longo e de elevada complexidade técnica, e que seus impactos não devem ser interpretados como uma abertura irrestrita de mercado, mas como a construção de oportunidades progressivas, condicionadas a regras sanitárias, cotas e salvaguardas já previstas no texto negociado.
No caso da carne de frango, principal item da pauta exportadora brasileira de proteínas, a ABPA é enfática ao afirmar que o acordo não altera o sistema de cotas atualmente em vigor entre Brasil e União Europeia. “Essas regras permanecem intactas. A novidade está na criação de um contingente tarifário adicional, no âmbito do Mercosul, de 180 mil toneladas anuais isentas de tarifa”, informa na nota.
Esse volume será compartilhado entre os países do bloco sul-americano e dividido igualmente entre produtos com osso e sem osso. A implantação será gradual, em seis etapas anuais iguais, até atingir o volume total no sexto ano de vigência. A partir daí, a cota passa a se repetir anualmente, dentro das regras estabelecidas.
Carne suína
Para a carne suína, o acordo inaugura uma nova possibilidade. Pela primeira vez, o Mercosul contará com um contingente tarifário

Foto: Divulgação/Arquivo OPR
preferencial específico para o produto, inexistente até então para o Brasil. “A cota final prevista é de 25 mil toneladas por ano, com tarifa intra-cota de € 83 por tonelada, valor significativamente inferior ao praticado fora do contingente”, diz a nota.
Aves
Assim como no caso das aves, a implementação será escalonada ao longo de seis anos. No entanto, a ABPA ressalta que a efetiva utilização dessa cota pelo Brasil dependerá da conclusão dos trâmites sanitários junto à União Europeia, incluindo a aprovação do Certificado Sanitário Internacional, condição essencial para a abertura do mercado.
O segmento de ovos também aparece como um dos beneficiados pelo acordo. Estão previstos contingentes tarifários específicos, isentos de tarifa intra-cota, de 3 mil toneladas anuais para ovos processados e outras três mil toneladas para albuminas. Segundo a entidade, trata-se de uma oportunidade concreta para ampliar as exportações brasileiras de produtos com maior valor agregado, especialmente em nichos industriais e alimentícios.
Cotas do acordo
Apesar das oportunidades, a ABPA chama atenção para um ponto central: todas as cotas criadas pelo acordo são do Mercosul, e não exclusivas do Brasil. Isso exigirá coordenação intrabloco para definir critérios de alocação entre os países-membros, além de atenção permanente às exigências regulatórias e sanitárias impostas pelo mercado europeu.

Foto: Jonathan Campos
A entidade reforça ainda que os impactos econômicos positivos tendem a ser graduais, acompanhando o cronograma de implantação do acordo e condicionados ao cumprimento rigoroso das normas técnicas. As salvaguardas previstas devem ser aplicadas de forma estritamente excepcional e baseada em critérios técnicos, evitando distorções comerciais.
Para a ABPA, a concretização do acordo UE-Mercosul fortalece o posicionamento do Brasil como fornecedor confiável de proteínas animais no mercado internacional, atuando de forma complementar à produção europeia. Sanidade, sustentabilidade e capacidade produtiva seguem como pilares centrais para o aproveitamento das oportunidades abertas pelo pacto. “O pleno potencial do acordo dependerá de uma implementação técnica, previsível e transparente, em linha com os princípios do comércio internacional e da segurança alimentar global”, afirma a entidade.
Confira a Nota Setorial na íntegra:
NOTA SETORIAL– ACORDO MERCOSUL–UNIÃO EUROPEIA
A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) celebra o aceite do Bloco Europeu e a concretização do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, resultado de um processo de negociação de longo prazo e de elevada complexidade técnica.
O acordo representa um avanço relevante para a previsibilidade comercial e para o fortalecimento das relações entre os blocos, com impactos graduais e bem delimitados para o setor de proteínas animais.
No caso da carne de frango, é importante destacar que o acordo não interfere, não altera e não substitui o sistema de cotas já em vigor entre o Brasil e a União Europeia, que permanece plenamente válido. O que o acordo acrescenta é a criação de um novo contingente tarifário adicional, no âmbito do Mercosul, de 180 mil toneladas anuais isentas de tarifa, a ser compartilhado entre os países do bloco. Esse volume será composto por 50% de produtos com osso e 50% de produtos sem osso e terá implantação gradual em seis etapas anuais iguais, até atingir o volume total anual no sexto ano de vigência. A partir desse momento, o contingente passa a se repetir anualmente.
Para a carne suína, o acordo cria, pela primeira vez, um contingente tarifário preferencial específico para o Mercosul, inexistente até então para o Brasil. A cota final prevista é de 25 mil toneladas anuais, com tarifa intracota de € 83 por tonelada, substancialmente inferior à tarifa aplicada fora da cota. Assim como na carne de frango, a implantação ocorrerá em seis etapas anuais iguais, com crescimento progressivo do volume até o atingimento do teto anual. A efetiva utilização dessa cota pelo Brasil dependerá da conclusão dos trâmites sanitários junto à União Europeia para a abertura do mercado, incluindo a aprovação do Certificado Sanitário Internacional.
No segmento de ovos, o acordo estabelece contingentes tarifários específicos, também no âmbito do Mercosul, isento de tarifa intra-cota. Estão previstos 3 mil toneladas anuais para ovos processados e 3 mil toneladas anuais para albuminas, criando uma oportunidade concreta para a ampliação das exportações brasileiras de produtos com maior valor agregado.
Ao mesmo tempo, a ABPA ressalta que os contingentes criados pelo acordo são cotas do Mercosul, e não exclusivas do Brasil, o que demandará coordenação intrabloco para definição dos critérios de alocação entre os países membros. Os impactos econômicos positivos serão graduais, acompanhando o cronograma de implantação e condicionados ao cumprimento rigoroso dos requisitos sanitários, regulatórios e às regras de aplicação de salvaguardas, que devem permanecer estritamente técnicas e excepcionais.
Por fim, a ABPA ressalta que a concretização do acordo Mercosul–União Europeia reforça o posicionamento do Brasil como fornecedor confiável de proteínas animais, em complementariedade à produção local, com base em sanidade, sustentabilidade e capacidade produtiva. O pleno aproveitamento das oportunidades abertas dependerá de uma implementação técnica, previsível e transparente, em linha com os princípios do comércio internacional e da segurança alimentar global.




